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REVOLUÇÃO RUSSA: ASSIM TUDO COMEÇOU

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  Este artigo de Eduardo Mancuso escrito no site Outras Palavras nos ajuda a pensar o Brasil onde nestes tempos, o medonho prevalece e a classe trabalhadora enfrenta dias muito difíceis. Começamos a comemorar os 100 dessa Revolução vendo os direitos dos trabalhadores, na noite do dia 22 de março de 2017, numa votação na Câmara dos Deputados no Brasil aprovarem a terceirização, matando a nossa Consolidação das Leis trabalhistas, conquista que vem do governo de Getúlio Vargas e que interesses do grande capital vem precarizar a vida dos trabalhadores. O que aconteceu nesta noite, acaba com nossos direitos a férias, repouso semanal remunerado, licenças, FGTS, 13º salário, INSS e estabilidade. A empresa terceirizada só vai contratar por um prazo estipulado de 9 meses. Terminado o contrato. Fim do salário. E aí como fica o TST? Os tribunais do Trabalho nos Estados. O juízes do Trabalho? Farão o quê? Julgarão o quê? O golpe que esse bando deu no Brasil foi para destruir com a vida do povo trabalhador. Só revendo a Revolução Russa para seguirmos em frente rumo a vitória.

Manifestação de mulheres grevistas, em 8 de Março de 1917. Movimento foi um dos estopins da revolução de fevereiro, que em outubro iria se tornar anti-capitalista

Reconstituição histórica: como foram as semanas frenéticas que levaram, há cem anos, ao colapso do poder burguês na Rússia e ao primeiro governo anticapitalista da História

Por Eduardo Mancuso

Em fevereiro de 1917 na Rússia, em plena guerra mundial, o regime czarista da secular dinastia Romanov é derrubado por um amplo levante de massas. Alguns meses mais tarde, em outubro (as revoluções russas de março e novembro ocorreram, pelo calendário adotado pelo antigo regime, duas semanas antes, e assim ficaram conhecidas), apoiado na mobilização popular e nos sovietes (conselhos) de operários, soldados e camponeses que tomam todo o país, os bolcheviques liderados por Lenin e Trotsky conquistam o poder. Pela primeira vez na história, desde a radicalmente democrática Comuna de Paris ser afogada em sangue pela reação burguesa, uma revolução vitoriosa dava início à construção de uma sociedade socialista. A barbárie imperialista da Primeira Guerra Mundial havia aberto uma nova época, a era da atualidade da revolução. Começava um novo capítulo da modernidade. O século XX iniciava.

A revolução de fevereiro

A miséria gerada pela guerra e pelo inverno de 1916-1917 faz a insurreição contra o regime do czar Nicolau II explodir em fevereiro. A marcha do Dia Internacional das Mulheres deflagra a greve das trabalhadoras na indústria textil, que se estende rapidamente ao conjunto do proletariado de Petrogrado (hoje São Petesburgo), capital da monarquia imperial russa. Em poucos dias, a greve de massas transforma-se em insurreição, com os gritos de “Pão”, “Paz” e “Abaixo o Czar”, e a passagem da guarnição militar para o lado dos revolucionários. Os trabalhadores redescobrem a auto-organização e o duplo poder: resgatam a experiência da revolução de 1905, com a formação de “sovietes” (conselhos) nas fábricas e nos bairros, e a organização de uma milícia operária (a “guarda vermelha”). Na frente de batalha, os soldados elegem seus comitês e questionam os oficiais de um exército que começa a se decompor, enquanto o campesinato inicia uma verdadeira revolução agrária no campo. O aparato do Estado e a base social do regime entram em colapso.

A dualidade de poder

Entre fevereiro e outubro de 1917 a Rússia vive uma explosão social e um processo de radicalização democrática impensável sob uma autocracia, algo inédito em termos mundiais: uma situação de dualidade de poder entre “os de baixo” e “os de cima”. De um lado, estava o chamado governo provisório, que sucede o regime do czar deposto. Constituído por liberais e reformistas moderados, ele mantém a aliança com as potências imperialistas e prossegue com o esforço de guerra. De outro, estavam as massas populares das cidades e do campo, com a sua vanguarda de representantes eleitos nos conselhos, exasperadas com a situação paradoxal de terem derrubado o regime em nome de “paz, pão e terra”, e nada disso se materializar na vida real. A resposta a esse paradoxo estava na hegemonia política no interior dos sovietes. Eram os setores social-democratas moderados (mencheviques) e os socialistas-revolucionários (populistas) que tinham maioria. A ala revolucionária, composta pelos bolcheviques e os socialistas-revolucionários de esquerda, era minoritária entre os representantes eleitos nos sovietes.

A partir de maio, com a evolução da crise, o agravamento da fome e as derrotas militares, os partidos reformistas, majoritários nos sovietes, integram-se ao governo provisório. Passam então, de apoiadores críticos a colaboradores diretos da ordem, e tentam frear a radicalização do movimento revolucionário, acumulando desgate e perda de credibilidade com a base social. Os bolcheviques crescem em influência defendendo a jornada de 8 horas e o controle operário nas fábricas. No início de junho, realiza-se o Primeiro Congresso de Deputados Operários e Soldados, com mais de 1000 delegados eleitos por 20 milhões de pessoas. O Congresso dos Sovietes reúne uma ampla maioria de representantes moderados do partido populista, dos mencheviques e de socialistas independentes. Os bolcheviques têm apenas 10% dos delegados. Logo após, o Soviete se reagrupa com o Congresso Pan-Russo dos Camponeses, onde os populistas possuem uma esmagadora maioria. Nesse contexto de crise e de crescimento do descontentamento popular, o governo provisório desmoraliza-se rapidamente, e avança a consigna política defendida pelos bolcheviques: “Todo o poder aos sovietes”.

Revolução e contra-revolução

A nova relação de forças leva ao choque entre revolução e contra-revolução nas “jornadas de julho”. Kerensky, um trabalhista moderado, assume a direção do governo provisório como primeiro-ministro, restaura a pena de morte, dissolve os regimentos insurretos e designa o general Kornilov comandante do Estado-Maior. Apesar da repressão, os bolcheviques avançam em influência na classe operária e no exército. Em agosto, o general Kornilov deflagra uma tentativa de golpe de Estado, mas em poucos dias é derrotado, graças à resistência armada dos sovietes de Petrogrado, já sob a liderança bolchevique. Assim, no começo de setembro, o pêndulo da política oscila radicalmente. O partido bolchevique (com Lênin na clandestinidade, na Finlândia) torna-se majoritário nos sovietes de Petrogrado e Moscou. A dinâmica revolucionária impõe seu ritmo vertiginoso e a direção bolchevique enfrenta uma divisão sobre a estratégia a ser adotada: de um lado, Lênin e a maioria, partidários da preparação imediata da insurreição e da tomada do poder; de outro, Zinoviev e Kamenev, contrários à linha insurrecional. Convocado o Congresso Nacional dos Sovietes de Operários, Soldados e Camponeses de toda a Rússia, o Comitê Militar Revolucionário do Soviete de Petrogrado, comandado por Trotsky, inicia a preparação da insurreição. Quando o Congresso dos Sovietes se reúne na capital, em outubro, a revolução já é vitoriosa e o governo provisório não existe mais. A hegemonia do país e dos sovietes havia mudado radicalmente: dos 650 delegados do Congresso, o bloco reformista, antes majoritário, agora tem menos de 100 representantes, enquanto os bolcheviques somam quase 400, aos quais agregam-se os socialistas-revolucionários de esquerda. O Congresso dos Sovietes elege o primeiro governo dos trabalhadores, liderado por Lênin, que anuncia os decretos sobre a paz imediata e sobre a distribuição de terras, e declara: “Iniciamos a construção da nova ordem socialista”.

Após a incruenta e rápida tomada do poder em outubro, devido ao total colapso do governo provisório e do próprio Estado, o poder dos sovietes enfrenta um duríssimo acordo de paz com a Alemanha, sendo obrigado a ceder grande parte do território russo para evitar a ofensiva final do exército imperial germânico no início de 1918. Território recuperado alguns meses mais tarde, após a derrota alemã frente às potências ocidentais. Depois de encerrarem vitoriosamente a guerra, as potências imperialistas atacam a Rússia Soviética com tropas e fornecem apoio às forças russas da contra-revolução, os “exércitos brancos”, impondo uma guerra civil que se desenvolve entre 1918 e 1921, e que termina por destruir completamente o país, já exaurido pela guerra mundial. A guerra civil se conclui com a vitória do Exército Vermelho.

A vitória da revolução socialista na Rússia em 1917 desperta grandes expectativas entre as massas trabalhadoras da Europa, e inspira uma onda revolucionária em vários países, principalmente na Alemanha e Hungria, mas que termina sendo derrotada pelos governos imperialistas (com a colaboração decisiva dos partidos social-democratas). Na jovem União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, sete anos de guerra ininterrupta provocam um desastre econômico, social e humano indescritível. Totalmente isolada internacionalmente, destruída materialmente, com suas grandes cidades despovoadas e o povo literalmente esfomeado, a Rússia e o seu Estado dos trabalhadores resistem bravamente aos ataques imperialistas e a guerra civil, mas tanto a democracia dos sovietes como a construção da nova ordem socialista estão irremediavelmente comprometidas.

O ciclo revolucionário de 1917-1923 é derrotado e seguido por um curto período de estabilização do capitalismo, após a carnificina imperialista da guerra (mais de 10 milhões de mortos). Porém, logo a crise mundial retorna com o crash da bolsa de Nova York em 1929 e o início da Grande Depressão, que vai provocar a ascensão do nazismo na Alemanha, e desemboca na maior barbárie da modernidade: a Segunda Guerra Mundial (mais de 50 milhões de mortos). Na URSS, em um contexto de reconstrução do país e de isolamento internacional, e após a morte de Lenin (janeiro de 1924), a situação política, social e econômica favorece a emergência de um regime burocrático e autoritário, frente à diminuição física da classe operária, ao esgotamento das energias sociais dos sovietes e à fusão do partido bolchevique com o aparelho de Estado, sob a direção impiedosa de Stalin. Ao final da década de 1920, Trotsky, já expulso do partido e da própria URSS, caracteriza a situação, passada uma década da vitória de Outubro, em seu livro A Revolução Desfigurada. Finalmente, após o regime stalinista consolidar-se, deflagrar a violência inaudita da coletivização forçada no campo, destruir fisicamente a direção leninista e o próprio Partido Bolchevique, através dos trágicos Processos de Moscou, em meados dos anos 1930, Trotsky declara a Revolução Traída — título de sua obra clássica. Um século depois, a degeneração burocrática da Revolução Russa não apagou a utopia emancipatória do Outubro vermelho de 1917. No centenário da Revolução de Outubro e em plena crise de civilização capitalista, a atualidade dessa utopia continua viva.

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Ramonet: a era das grandes turbulências

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O Ocidente declina, mas os EUA conservam o poder militar decisivo. A crise do capitalismo arrasta-se, espalha insegurança, corroi a democracia. Onde encontrar a esperança?

Por Ignácio Ramonet | Tradução: Cauê Ameni e Inês Castilho

Qual o desenho do novo cenário mundial? Quais são suas principais características? Que dinâmicas estão determinando o funcionamento real de nosso planeta? Que características dominarão nos próximos 15 anos, daqui a 2030?

Para analisar este novo cenário e prever seu futuro imediato, vamos utilizar a bússola da geopolítica, uma disciplina que nos permite compreender o jogo geral das potências e avaliar os principais riscos e perigos. Para antecipar, como um tabuleiro de xadrez, os movimentos de cada potência adversária.

E o que nos diz esta bússola?

 

1. O declínio do Ocidente

A principal constatação é o declínio do Ocidente. Pela primeira vez desde o século 15, os países ocidentais estão perdendo poder frente a ascensão das novas potências emergentes. Começa a fase final de um ciclo de cinco séculos de dominação ocidental do mundo. A liderança internacional dos EUA viu-se ameaçada pelo surgimento de novos polos de poder (China, Rússia e Índia) em escala internacional. A “degradação estratégica” dos EUA já começou. O “século americano” parece chegar ao seu fim, enquanto o “sonho europeu” desaparece.

Embora os EUA sigam sendo uma das principais potenciais planetárias, estão perdendo sua hegemonia econômica para a China. E já não exercerão mais sua “hegemonia militar solitária” como fizeram desde o fim da Guerra Fria (1989). Estamos caminhando para um mundo multipolar em que os novos atores (China, Rússia e Índia) têm vocação para construir sólidos polos regionais e a disputar a supremacia internacional com Washington e seus aliados históricos (Reino Unido, França, Alemanha e Japão).

Na terceira linha aparece uma série de potenciais intermediarias, com demografias em alta e fortes taxas de crescimento econômico, convertendo-se também em polos hegemônicos regionais e com tendência a se transformar, daqui a 15 anos, em um grupo de influência planetária (Indonésia, Brasil, Vietnã, Turquia, Nigéria, Etiópia).

Para ter uma ideia da importância e da rapidez da degradação ocidental que se avizinha, basta observar essas cifras: a participação dos países ocidentais na economia mundial vai passar de 56% hoje para 25% em 2030… Ou seja, em menos de 15 anos o Ocidente perderá mais da metade de sua preponderância econômica. Uma das principais consequências será que os EUA e seus aliados não terão mais os meios financeiros para assumir o policiamento do mundo… De tal modo que está mudança estrutural poderá debilitar o Ocidente duplamente.

2. A incontível emergência da China

O mundo está “desocidentalizando” e é cada vez mais multipolar. Destaca-se, mais uma vez, o papel da China que emerge, a principio, como uma grande potência no coração do século 21 — apesar de estar longe de representar ainda uma autêntica rivalidade com Washington. Por um lado, a estabilidade de Pequim não está garantida porque coexistem em seu seio o capitalismo mais selvagem e o comunismo mais autoritário. A tensão entre essas duas dinâmicas causará, cedo ou tarde, uma ruptura que poderá debilitar sua potência.

De qualquer maneira, hoje, em 2016, os EUA seguem exercendo uma indiscutivél dominação hegemônica sobre o planeta. Tanto no terreno militar (fundamental), quanto em vários outros setores cada vez mais determinantes: em particular, na tecnologia (internet) e no soft power (cultura de massas). Isso não quer dizer que a China não tenha realizado também avanços prodigiosos nos últimos anos. Nunca na história, um país cresceu tanto em tão pouco tempo.

No momento, enquanto declina o poder dos EUA, a ascenção da China é incontível. Já é a segunda potência econômica do mundo (à frente do Japão e Alemanha).

Para Washington, a Ásia é agora a zona prioritária desde que o presidente Barack Obama decidiu a reorientação estratégica de sua política externa. Os EUA buscam frear a expansão da China, cercando-a com bases militares e apoiando seus aliados locais tradicionais: Japão, Coréria do Sul, Taiwan e Filipinas. É significativo que a primeira viagem de Obama, depois da sua reeleição em 2012, tenha sido para Birmânia, Camboja e Tailândia, três países da Associação de Nações da Ásia do Sudeste (ASEAN), uma organização que reúne os aliados de Washington na região, cujos membros têm problemas de limites maritimos com Pequim.

Os mares da China tornaram-se as zonas com maior potencial de conflito armado da área Ásia-Pacífico. Há tensões entre Pequim e Tóquio, a propósito da soberania sobre as ilhas Senkaku (Diaoyú para os chineses). Também a disputa com Vietnã e Filipinas sobre a propriedade das ilhas Spratly está subindo o tom perigosamente. A China está modernizando toda sua marinha em alta velocidade. Em 2012, lançou seu primeiro porta-aviões, o Lioning, e está construindo um segundo, com a intenção de intimidar a Casa Branca. Pequim suporta cada vez menos a presença militar dos EUA na Ásia. Entre estes dois gigantes, esta se instalando uma perigosa “desconfiança estratégica” que, sem nenhuma dúvida, poderá marcar a política internacional nesta reginão até 2030.

3. O terrorismo jihadista

Outras das ameaças globais indicadas por nossa bússula é o terrorismo iahadista praticado ontem pela Al-Qaeda e hoje pelo Estado Islâmico (ISIS). As principais causas do terrorismo atual têm de ser buscadas nos desastrosos erros e crimes cometidos pelas potências que invadiram o Iraque em 2003 — além das intervenções caóticas na Líbia (2011) e na Síria (2014).

No Oriente Médio segue situado no atual foco de desestabilização do mundo. Em particular, em torno da inextricável guerra civil na Síria. O que está claro é que, neste país, as grandes potências ocidentais (EUA, Reino Unido, França), aliadas aos Estados que mais difundem pelo mundo a concepção mais arcaica e retrógrada do islã (Árabia Saudita, Qatar e Turquia), decidiram apoiar (com dinheiro, armas e instruções) a insurgência islamista sunista. Os EUA constituíram nesta região um amplo “exército sunita” com o objetivo de derrubar Bashar Al-Assad e prejudicar um grande aliado regional de Teerã. Entretanto, o governo de Assad, com o apoio da Rússia e do Irã, resistiu e segue consolidando-se. O resultado de tantos erros é o terrorismo jihadista atual que multiplica os atentados odiosos contra civis inocentes na Europa e nos EUA.

Algumas capitais ocidentais seguem pensando que a potência militar maciça é suficiente para derrotar o terrorismo. Mas a história militar mostra exemplos abundantes de grandes potências incapazes de derrotar adversários mais débeis. Basta recordar os fracassos norteamericanos no Vietnã em 1975, e na Somália em 1994. Em um combate assimétrico, aquele que pode mais, não ganha necessariamente. O historiador Eric Hobsbawn nos recorda que “Na Irlanda do Norte, durante certa de 30 anos, o poder britânico se mostrou incapaz de derrotar um exercito minúsculo como o IRA. Certamente o IRA não venceu, porém nem por isso, foi vencido”.

Os conflitos do novo tipo, quando uma potência enfrenta o débil ou o louco, são mais fáceis de começar do que de terminar. E o emprego maciço de meio militares pesados não necessariamente permite alcançar os objetivos buscados.

A luta contra o terrorismo também está justificando, em matéria de governança e de política doméstica, todas as medidas autoritárias e todo os excessos, inclusive uma versão moderna do “autoritarismo democrático” que tem como alvo, além das organizações terroristas, todos os manifestantes que se opõem às políticas globalizadoras e neoliberais.

4. Há crises para muito tempo…

Outra constatação importante: os países ricos seguem padecendo de consequencias do terremoto econômico-financeiro que foi a crise de 2008. Pela primeira vez, a União Europeia, (e o “Brexit” confirma), vê ameaçada sua coesão e até sua existência. Na Europa, a crise econômica durará ao menos mais uma década, até pelo menos 2025.

Há crise, em qualquer setor, quando algum mecanismo deixa de atuar, começa a ceder e acaba rompendo-se. Essa ruptura impede que o conjunto da maquinaria siga funcionando. É o que aconteceu com a economia mundial desde o estouro da crise das sub-primes em 2007-2008.

As consequências sociais desse cataclismo econômico foram brutalmente inéditas: 23 milhões de desempregados na União Europeia e mais de 80 milhões de pobres… Os jovens, em particular, são as principais vítimas; gerações sem futuro. Mas as classes médias também estão assustadas porque o modelo neoliberal de crescimento abandonou-as à margem do caminho.

A velocidade da economia financeira de hoje é de relampago, enquanto que a velocidade da política, em comparação, é de caracol. Resulta que fica cada vez mais difícil conciliar tempo econômico e tempo político. E também crises globais e governos nacionais. Tudo isto provoca, nos cidadãos, frustração e angústia.

A crise global produz perdedores e ganhadores. Os ganhadores encontram-se, essencialmente, na Ásia e nos países emergentes, que não têm uma visão tão pessismista da situação, como os europeus. Também há muitos ganhadores no interior dos países ocidentais, cujas sociedades econtram-se fraturadas pela desigualdade entre ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres.

Na realidade, não estamos suportando uma crise, mas uma série de crises, uma soma de crises mescladas tão intimamente umas às outras que não conseguimos distinguir entre causas e efeitos. Porque os efeitos de umas são as causas das outras, e assim até formar um verdadeiro sistema de crises. Ou seja, enfrentamos uma autêntica crise sistêmica do mundo ocidental, que afeta a tecnologia, a economia, o comércio, a política, a democracia, a identidade, a guerra, o clima, o meio ambiente, a cultura, os valores, a família, a educação, a juventude etc.

Do ponto de vista antropológico, essas crises estão sendo traduzidas por um aumento do medo e do ressentimento. As pessoas vivem em estado de ansiedade e incerteza. Voltam os grandes pânicos ante ameaças indeterminadas, como podem ser a perda do emprego, os choques tecnológicos, as biotecnologias, as catástrofes naturais, a insegurança generalizada… Tudo isso constitui um desafio para as democracias. Porque esse terror transforma-se às vezes em ódio e em repúdio. Em vários países europeus, e também nos EUA, ele dirige-se hoje contra o estrangeiro, o imigrante, latinos, ciganos, subsaharianos, “sem visto”, e etc. Crecem os partidos xenofóbicos e de extrema direita.

5. Decepção e desencanto

É preciso entender que, desde a crise financeira de 2008 (de que ainda não saimos), nada é igual em nenhum lugar. Os cidadãos estão profundamente desencantados. A própria democracia, como modelo, perdeu credibilidade. Os sistemas políticos foram sacudidos pela raiz. Na Europa, por exemplo, os grandes partidos tradicionais estã em crise. E em toda parte percebemos o crescimento de formações de extrema direita (na França, na Áustria e nos países nórdicos) ou de partidos antisistema e anticorrupção (Itália, Espanha). A paisagem política parece radicalmente transformada.

Esse fenômeno chegou aos Estados Unidos, um país que já conheceu, em 2010, uma onda populista de direita devastadora, então encarnada pelo Tea Party. A ascensão do multimilionário Donald Trump na corrida pela Casa Branca prolonga essa onda e se constitui numa revolução eleitoral que nenhum analista soube prever. Ainda que sobreviva, aparentemente, a velha bicefalia entre democratas e republicanos, a ascensão de um candidato tão heterodoxo como Trump constitui um verdadeiro terremoto. Seu estilo direto, popularesco, e sua mensagem maniqueísta e reducionista, com apelo aos baixos instintos de certos setores da sociedade, conferiram-lhe um caráter de autenticidade aos olhos do setor mais decepcionado dos eleitores de direita.

A esse respeito, o candidato republicano soube interpretar o que poderíamos chamar de “rebelião das bases”. Melhor que todos, percebeu a fratura cada vez maior entre as elites políticas, econômicas, intelectuais e midiáticas, por um lado, e a base do eleitorado conservador, por outro. Seu discurso violentamente antiburocracia de Washington, antimídia e anti-Wall Street seduz, em particular, os eleitores brancos, pouco cultos e empobrecidos pelos efeitos da globalização econômica.

6. Terremotos e mais terremotos

Poderíamos dizer que outra grande característica do novo cenário global são os terremotos. Terremotos financeiros, monetários, das bolsas; terremotos climáticos, energéticos, tecnológicos, sociais, geopolíticos como o restabelecimento de relações entre Cuba e Estados Unidos, ou, em outro sentido, o recente golpe de Estado institucional no Brasil contra a presidenta Dilma Rousseff. Terremotos eleitorais como a recente vitória do “não” na Colômbia aos Acordos de Paz entre o governo de Juan Manuel Santos e as FARC; ou o recente “Brexit” no Reino Unidos, ou o êxito da extrema direita na Áustria, ou a derrota de Angela Merkel em várias eleições parciais na Alemanha. Ou o enorme terremoto que poderia constituir, efetivamente, a eventual vitória eleitoral de Donald Trump nos Estados Unidos.

Acontecimentos imprevistos irrompem com força sem que ninguém, ou quase ninguém, os tenha visto chegando. Há uma falta de visibilidade geral. Se governar é prever, vivemos uma evidente crise de governança geral. Em muitos países, o Estado que protegia os cidadãos deixou de existir. Há uma crise da democracia representativa: “Não nos representam!”, diziam os “indignados”. As pessoas reivindicam que a autoridade política volte a assumir seu papel condutor na sociedade. Insiste-se na necessidade de reinventar a política e de que o poder político ponha fim ao poder econômico e financeiro dos mercados.

7. Internet, ciber-espionagem e ciber-defesa

O novo cenário global também se caracteriza pela multiplicidade de rupturas estratégicas, cujo significado às vezes não compreendemos. Hoje, a internet é o vetor da maioria das mudanças. Quase todas as crises recentes têm alguma relação com as novas tecnologias da comunicação e da informação, com a desmaterialização e a digitalização generalizadas, e com a explosão inédita das redes sociais. Mais que uma tecnoloia, a Internet é pois um ator fundamental da crise. Basta recordar o papel de WikiLeaks, Facebook, Twitter e das demais redes sociais na aceleraçao da informação e da conectividade social pelo mundo.

Daqui a 2030, no novo cenário, algumas das maiores coletividades do planeta já não serão países, mas comunidades congregadas e vinculadas entre si pela internet e pelas redes sociais. Por exemplo, ‘Facebooklandia’: mais de um bilhão de usuários… Ou ‘Twitterlandia’, mais de 800 milhões… Sua influência, no jogo da geopolítica mundial, poderia revelar-se decisiva. Hoje, as estruturas de poder se borram graças ao acesso universal à rede e ao uso de novas ferramentas digitais.

Por outro lado, pela estreita cumplicidade que algumas grandes potências estabeleceram com as grandes empresas privadas que dominam as indústrias de informática e de telecomunicações, a capacidade em termos de espionagem de massas cresceu também de forma exponencial. As mega empresas como Google, Apple, Microsoft, Amazon e mais recentemente Facebook estabeleceram laços estreitos com o aparato do Estado em Washington, especialmente com os responsáveis pela política exterior. Essa relação converteu-se numa evidência. Compartilham as mesmas ideias politicas e têm idêntica visão de mundo. Em última instância, os estreitos vínculos e a visão comum do mundo, por exemplo, do Google e do governo estadunidense estão a serviço dos objetivos da política externa dos Estados Unidos.

Essa aliança sem precedentes (Estado + aparato militar de segurança + empresas gigantes da Web) – criou um verdadeiro império da vigilância, cujo objetivo claro e concreto é colocar a internet sob escuta, toda a internet e todos os internautas, como denunciaram Julian Assange e Edward Snowden.

O ciberespaço converteu-se numa espécie de quinto elemento. O filósofo grego Empédocles sustentava que nosso mundo estava formado por uma combinação de quatro elementos: terra, ar, água e fogo. Mas o surgimento da Internet, com seu misterioso “interespaço” superposto ao nosso, formado por bilhões de intercâmbios digitais de todo tipo, por seu roaming, seu streaming e seu clouding, engendrou um novo universo, de certo modo quântico, que vem completar a realidade do nosso mundo contemporâneo como se fosse um autêntico quinto elemento.

Nesse sentido, deve-se ressaltar que cada um dos quatro elementos tradicionais constitui, historicamente, um campo de batalha, um lugar de confronto. E que os Estados tiveram de desenvolver componentes específicos das forças armadas para cada um desses elementos: para a terra, o exército; para o ar, a aeronáutica; para a água, a Marinha; e, com caráter mais singular, para o fogo, os bombeiros, ou “soldados do fogo”. De modo natural, todas as grandes potências estão acrescentando hoje, aos três exércitos tradicionais e aos combatentes do fogo, um novo exército, cujo ecosistema é o quinto elemento: o ciberexército, encarregado da ciberdefesa, que tem suas próprias estruturas orgânicas, seu Estado maior, seus cibersoldados e suas próprias armas: supercomputadores preparados para defender as ciberfronteiras e travar a ciberguerra digital no âmbito da Internet.

8. Uma mutação do capitalismo: a economia colaborativa

Trinta anos depois da expansão maciça da Web, os hábitos de consumo também estão mudando. Impõe-se pouco a pouco a ideia de que a opção mais inteligente é usar algo em comum, e não necessariamente comprando-o. Isso significa abandonar, pouco a pouco, uma economia baseada na submissão dos consumidores e no antagonismo ou na competição entre os produtores — e passar a uma economia que estimula a colaboração e o intercâmbio entre os usuários de bens e serviços. Tudo isso causa uma verdadeira revolução no seio do capitalismo, que está operando uma nova mutação, diante de nossos olhos.

É um momento irresistível. Milhares de plataformas digitais de intercambio de produtos e serviços estão se expandindo com muita rapidez. A quantidade de bens e serviços que podem ser alugados ou trocados mediante plataformas online, sejam pagas ou gratuitas (como a Wikipedia), é ja literalmente infinita.

Em nível planetário, essa economia colaborativa cresce atualmente entre 15% e 17% ao ano. Com alguns exemplos de crescimentos absolutamente espetaculares. Por exemplo o Uber, o aplicativo digital que conecta passageiros com motoristas, em apenas cinco anos de existência já vale 68 bilhões de dólares e opera em 132 países. O Airbnb, a plataforma online de hospedagem para particulares surgida em 2008 e que já encontrou cama para mais de 40 milhões de viajantes, vale hoje na Bolsa (sem ser proprietária de uma única habitação) mais de 30 bilhões de dólares, ou seja, mais que os grande grupos Hilton, Marriott ou Hyatt.

A esse respeito, outro traço fundamental que está mudando – e que foi nada menos que a base da sociedade de consumo –, é o sentido de propriedade, o desejo de posse. Adquirir, compar, ter, possuir eram os verbos que melhor traduziam a ambição essencial de uma época em que o ter definia o ser. Acumular “coisas” (casas, carros, geladeiras, televisores, móveis, roupa, relógios, livros, quadros, telefones etc) constituía, para muitas pessoas, a principal razão da existência. Parecia que, desde o início dos tempos, o sentido materialista de posse era inerente ao ser humano.

A economia colaborativa constitui assim um modelo baseado no intercâmbio e no compartilhamento de bens e serviços por meio do uso de plataformas digitais. Inspira-se nas utopias de compartilhamento e de valores não mercantis como a ajuda mútua ou a convivialidade, e também do espírito de gratuidade, mito fundador da internet. Sua ideia principal é: “o meu é seu”, ou seja, compartilhar em vez de possuir. E o conceito básico é a troca. Trata-se de conectar, por via digital, as pessoas que buscam “algo” com as pessoas que o oferecem. As empresas mais conhecidas desse setor são: Uber, Airbnb, Netflix, Blabacar etc.

Muitos indícios levam a pensar que estamos assistindo ao ocaso da 2ª revolução industrial, baseada no uso maciço de energias fósseis e em telecomunicações centralizadas. E vemos a emergência de uma economia colaborativa que obriga, como já dissemos, o sistema capitalista a mudar.

Por outro lado, num contexto em que as mudanças climáticas tornaram-se a principal ameaça para a sobrevivência da humanidade, os cidadãos não desconhecem os perigos ecológicos inerentes ao modelo de hiperprodução e de hiperconsumo globaliado. Aí também a economia colaborativa oferece soluções menos agressivas para o planeta.

Num momento como o atual, de forte desconfiança com relação ao modelo neoliberal e às elites políticas, financeiras, midiáticas e bancárias, a economia colaborativa parece aportar respostas a muitos cidadãos em busca de sentido e de ética responsável. Exalta valores de ajuda mútua e desejo de compartilhamento. São critérios que, em outros momentos, foram argamassa de teorias comunitárias e de ambições socialistas. Mas que hoje são – e ninguém duvide – o novo rosto de um capitalismo mutante, desejoso de afastar-se da selvageria amarga de seu recente período ultraliberal.

Nossa bússula também nos indica a aparição de tensões entre os cidadãos e alguns governos em dinâmicas que vários sociólogos qualificam de “pós-políticas” ou “pós-democráticas”… Por um lado, a generalização do acesso à Internet e a universalização do uso das novas tecnologias estão permitindo à cidadania alcançar altas cotas de liberdade e desafiar seus representantes políticos (como durante a crise dos “indignados”). Mas essas mesmas ferramentas eletrônicas proporcionam aos governos, como já vimos, uma capacidade sem precedentes para vigiar seus cidadãos.

9. Ameaças não militares

“A tecnologia – assinala um informe recente da CIA – continuará sendo o grande nivelador, e os futuros magnatas da internet, como poderia ser o caso do Google e do Facebook, possuem montanhas de base de dados, e manejam em tempo real muito mais informação que qualquer governo”. Por isso, a CIA recomenda ao governo dos EUA que faça frente a essa ameaça eventual das grandes corporações de internet, ativando o Special Collection Service, um serviço de inteligência ultrasecreto – administrado em conjunto pela NSA (National Security Agency) e o SCE (Service Cryptologic Elements) das Forças Armadas – especializado na captação clandestina de informações de origem eletromagnética. O perigo de que um grupo de empresas privadas controle toda essa massa de dados reside, principalmente, em que poderia condicionar o comportamento em grande escala da população mundial e inclusive das entidades governamentais. Também se teme que o terrorismo jihadista seja substituído por um ciberterrorismo ainda mais impactante.

A CIA leva a sério esse novo tipo de ameaça porque, afinal, o declínio dos Estados Unidos não foi provocado por uma causa externa, mas por uma crise interna: a quebra econômica ocorrida a partir de 2007-2008. O informe insiste em que a geopolitica de hoje deve interessar-se por novos fenômenos que não possuem, forçosamente, um caráter militar. Pois ainda que as ameaças militares não tenham desaparecido, alguns dos principais perigos que nossas sociedades correm hoje são de ordem não militar: mudanças climáticas, mutação tecnológica, conflitos econômicos, crime organizado, guerras eletrônicas, esgotamento dos recursos naturais…

Sobre esse último aspecto, é importante saber que um dos recursos que está se esgotando mais aceleradamente é a água doce. Em 2030, 60% da população mundial terá problemas de abastecimento de água, dando lugar ao surgimento de “conflitos hídricos”… Em contraste, no que diz respeito aos combustíveis fósseis, a exploração de petróleo e de gás de xisto está alcançando niveis excepcionais, graças às novas técnicas de fraturação hidráulica. Os Estados Unidos já são quase autosuficientes em gás, e em 2030 poderão sê-lo em petróleo, cujos custos de produção tendem a baratear. Além disso, encorajam a relocalização de suas indústrias. Mas se os EUA – principal importador atual de combustíveis fósseis – deixarm de importar petróleo, pode-se prever a queda do preço do barril. Quais serão então as consequências para os grandes países exportadores?

10. Rumo ao triunfo das cidades e das classes médias

No mundo a que nos dirigimos, 60% das pessoas viverão nas cidades, pela primeira vez na história da humanidade. E, como consequência da redução acelerada da pobreza, as classes médias serão dominantes e triplicarão, passando de 1 para 3 bilhões de pessoas. Isso que, em si, é uma revoluçao colossal, acarretará como consequência, entre outros efeitos, uma mudança geral dos hábitos culinários e, em particular, um aumento do consumo de carne em escala planetária – o que agravará a crise ambiental.

Em 2030, os habitantes do planeta seremos 8,5 bilhões, mas o aumento demográfico cessará em todos os continentes, menos na África, com o consequente envelhecimento geral da população mundial. Em troca, o vinculo entre o ser humano e as tecnologias protéticas acelerará o surgimento de novas gerações de robôs e a aparição de “superhomens” capazes de proezas físicas e intelectuais inéditas.

Muito raramente o futuro é previsível. Nem por isso, deve-se deixar imaginá-lo, em termos de prospectiva. Isso nos prepara para agir diante de diversas circunstâncias possíveis, das quais só uma se realizará. Para isso, a geopolítica é uma ferramenta extremamente útil. Ajuda-nos a tomar consciência das rápidas evoluções em curso e a refletir sobre a possibilidade, para cada um de nós, de intervir e apontar o rumo. Para tratar de construir um futuro mais justo, mais ecológico, menos desigual e mais solidário.

EUA, sociedade em ruptura?

BESTPIX  Homelessness Reaches All-Time Record In New York City

POR

C.J. POLYCHRONIOU

A poucos meses das eleições presidenciais, Noam Chomsky relata: desigualdade provocada pelos ricos tragou maiorias, reduziu democracia a fachada e alimenta fenômento Trump

Entrevista a C.J. Polychroniou, no Truthout | Tradução: Inês Castilho


Primeira de duas partes. A próxima, sobre relações externas será publicada breve

Os Estados Unidos estão enfrentando um tempo de incertezas. Embora permaneçam como único superpoder global, não são mais capazes de influenciar os fatos e seus resultados conforme desejam, ao menos não a maioria destes fatos. A frustração e ansiedade a respeito do risco de desastres futuros parecem ter peso muito maior que as esperanças dos eleitores por uma ordem mundial mais justa e racional. Enquanto isso, afirma Noam Chomsky, a ascensão e a popularidade de Donald Trump decorrem do fato de que a sociedade norte-americana vive um processo de ruptura.

Nesta entrevista exclusiva à Truthout, Noam Chomsky fala sobre o desenvolvimento contemporâneo nos Estados Unidos e no mundo, e desafia a visão dominante sobre luta de classes, neoliberalismo como resultado de leis econômicas, o papel dos EUA como potência global, o status das economias emergentes e o poder do lobby israelense.

Noam, você tem afirmado que a ascenção de Donald Trump deve-se em grande parte ao colapso da sociedade norte-americana. O que exatamente quer dizer com isso?

As políticas estatais-corporativas dos últimos 35 anos, aproximadamente, tiveram efeitos devastadores sobre a maioria da população. Resultaram diretamente em estagnação e nítido aumento da desigualdade. Isso gerou medo e fez as pessoas sentirem-se isoladas, desamparadas, vítimas de forças poderosas que não entendem e não podem influenciar. O colapso não é causado por leis econômicas. São políticas, uma espécie de luta de classes travada pelos ricos e poderosos contra a população pobre e trabalhadora. Isso é o que define o período do neoliberalismo, não somente nos EUA mas também na Europa e em outros lugares. Trump é atraente para aqueles que sentem e experimentam a desagregação da sociedade norte-americana – profundos sentimentos de raiva, medo, frustração, desamparo. Provavelmente, há setores da população que vivem um aumento na mortalidade, algo antes desconhecido — a não ser na guerra.

A guerra de classes mantém-se tão perversa e unilateral como sempre. A governança neoliberal nos últimos trinta anos, fosse o governo republicano ou democrático, intensificou enormemente o processo de exploração e levou a fissuras ainda maiores entre os que têm e os que não têm na sociedade norte-americana. Além disso, não vejo a classe política neoliberal recuando, a despeito das oportunidades abertas em razão da última crise financeira e pelo fato de um democrata ocupar o centro na Casa Branca.

As classes empresariais, que em larga medida governam o país, têm muita consciência de classe. Não é uma distorsão descrevê-los como materialistas vulgares, com valores e compromissos reversos. Foi somente há trinta anos que o líder do sindicato mais poderoso reconheceu e criticou a “luta de classes unilateral”, incessantemente travada pelo mundo empresarial. Ela teve êxito, alcançando os resultados que você descreveu. Contudo, as políticas neoliberais estão em ruínas. Elas acabaram por prejudicar os mais poderosos e privilegiados (que as aceitaram para si mesmos apenas parcialmente, para começo de conversa), de modo que não podem ser sustentadas.

É muito impactante observar que as políticas que os ricos e poderosos adotam para si mesmos são o exato oposto daquelas que impõem aos fracos e pobres. Assim, se a Indonésia está numa crise financeira profunda, as instruções do Departamento do Tesouro norte-americano (via FMI) correm para saldar a dívida (ao Ocidente), aumentar as taxas de juros e desacelerar a economia, privatizar (de modo que corporações ocidentais possam comprar os bens) e todo o resto do dogma neoliberal. Para si mesmos, as políticas são esquecer suas dívidas, reduzir a zero as taxas de juros, nacionalizar (sem usar a palavra) e despejar recursos públicos no bolso das instituições financeiras, e daí por diante. É também impressionante que o tremendo contraste passe desapercebido, visto que está de nos registros da história econômica dos últimos séculos, razão fundamental da separação entre primeiro e terceiro mundos.

Até aqui, a política de classes, está apenas marginalmente sob ataque. O governo Obama evitou dar até mesmo passos mínimos na direção de acabar e reverter o ataque aos sindicatos. Obama até mesmo sinalizou, indiretamente e de modo interessante, seu apoio a esse ataque. Vale recordar que a primeira viagem para mostrar sua solidariedade com as classes trabalhadoras (denominada “classe média”, na retórica dos EUA) foi à fábrica da Caterpillar em Illinois. Foi até lá desafiando os pleitos de organizações religiosas e de direitos humanos, em razão do papel grotesco da Caterpillar nos territórios ocupados por Israel, onde é um instrumento preferencial na devastação das terras e vilas das “pessoas erradas”. Mas parece não ter sido sequer notado que, adotando as políticas antitrabalhistas de Reagan, a Caterpillar tornou-se a primeira corporação industrial em gerações a quebrar um sindicato poderoso ao empregar fura-greves, violando radicalmente as convenções internacionais do trabalho. Isso isolou os EUA do mundo industrial, junto com a África do Sul do apartheid, na tolerância a tais meios de minar os direitos dos trabalhadores e a democracia – e, presumo, agora os EUA estão sós. É difícil acreditar que a escolha tenha sido acidental.

Há uma crença generalizada, ao menos entre alguns estrategistas políticos bem conhecidos, de que fatos não definem as eleições norte-americanas – ainda que a retórica seja de que os candidatos precisam entender a opinião pública para conquistar eleitores – e sabemos, claro, que a mídia fornece uma riqueza de informações falsas sobre temas críticos (tome o papel da mídia de massa antes e durante o lançamento da guerra do Iraque) ou não fornece informação nenhuma (sobre temas trabalhistas, por exemplo). Contudo, fortes evidências indicam que o público norte-americano preocupa-se com as grandes questões sociais, econômicas e de política externa enfrentadas pelo país. Por exemplo, conforme estudo divulgado há alguns anos pela Universidade de Minnesota, os norte-americanos colocavam os serviços de saúde entre os temas mais importantes. Sabemos também que a grande maioria dos norte-americanos apoia os sindicatos. E que julgaram um fracasso completo a guerra contra o terror. À luz de tudo isso, qual a melhor maneira de entender a relação entre a mídia, a política e o público na sociedade norte-americana contemporânea?

É bem conhecido o fato de que as campanhas eleitorais são concebidas de modo a marginalizar os problemas e concentrar-se em personalidades, estilos retóricos, linguagem corporal etc. E há boas razões para isso. Gestores de partidos leem as pesquisas, e estão bem conscientes de que, num grande conjunto de problemas, os dois partidos estão bem à direita da população – o que não surpreende; afinal, são partidos de negócios. Pesquisas mostram que a grande maioria dos eleitores é contra, mas são as únicas escolhas oferecidas a eles num sistema eleitoral gerido como negócio, em que o candidato mais pesadamente financiado quase sempre vence.

Da mesma forma, os consumidores podem preferir um transporte de massa decente a escolher entre dois automóveis, mas esta opção não é prevista pelos publicitários – na verdade, pelos mercados. A publicidade na televisão não oferece informação sobre produtos; ao contrário, fornece ilusão e imagens mentais. As mesmas empresas de relações públicas que buscam minar o mercado, certas de que consumidores desinformados farão escolhas irracionais (ao contrário de teorias econômicas abstratas), tentam, do mesmo modo, minar a democracia. E os gestores estão bem conscientes disso tudo. Figuras influentes no setor vangloriavam-se, na imprensa econômica, de que desde Reagan vêm fazendo o marketing dos candidatos como se fossem commodities – e esse é seu maior sucesso, pois, preveem, fornecem um modelo aos executivos das corporações e indústria de marketing do futuro.

Você mencionou a pesquisa de Minnesota sobre serviços de saúde. Ela é típica. Durante décadas, estudos mostraram que a saúde está no topo, ou perto dele, nas preocupações da população – não por acaso, dado o desastroso fracasso do sistema de saúde, com custo per capita duas vezes mais alto que o de sociedades comparáveis e alguns dos piores resultados. (…) Acontece que a indústria manufatureira vem sofrendo em razão do sistema de saúde privatizado, caro e ineficiente, e dos enormes privilégios garantidos, por lei, à indústria farmacêutica. Quando um grande setor de concentração de capital favorece um programa, ele se torna “politicamente possível” e tem “apoio político”. Tão revelador quanto os próprios fatos é que eles não são comunicados.

Muito disso é verdade para várias outras questões, domésticas e internacionais.

A economia dos EUA está enfrentando uma miríade de problemas, embora os lucros dos ricos e das corporações já tenham, há tempos, voltado aos níveis anteriores à erupção da crise financeira de 2008. Mas o problema da dívida governamental é o único que a maioria dos analistas acadêmicos e financeiros parece focar como o mais crítico. De acordo com os analistas mainstream, a dívida dos EUA está quase fora do controle, razão pela qual eles vêm se posicionando consistentemente contra os pacotes de grande estímulo econômico para o crescimento, sob o argumento de que tais medidas apenas mergulharão os EUA mais profundamente na dívida. Qual é o impacto provável que uma dívida inflada terá na economia norte-americana e na confiança dos investidores internacionais, diante de eventual nova crise financeira?

Ninguém sabe realmente. A dívida foi muito mais alta no passado, particularmente depois da Segunda Guerra Mundial. Mas foi superada, graças ao notável crescimento da economia, semidirigida no tempo da guerra. Por isso, sabemos que, se o governo incentiva o crescimento sustentável da economia, a dívida pode ser controlada. E há outros artifícios, como a inflação. Mas, quanto ao resto, trata-se de muita suposição. Os principais financiadores – principalmente China, Japão, os países produtores de petróleo – podem decidir transferir seu capital para outro lugar em busca de lucros mais altos. Mas há poucos sinais desses movimentos, e eles não são muito prováveis. Os financiadores participam da sustentação da considerável economia dos EUA para suas próprias exportações. Não há como fazer previsões confiáveis, mas parece claro que o mundo inteiro está numa situação delicada, para dizer o mínimo.

Você parece acreditar, ao contrário de tantos outros, que os EUA mantêm-se como um superpoder econômico, político e, claro, militar, mesmo depois da última crise. Também tenho a mesma impressão, uma vez que o resto das economias do mundo não somente não estão em condições de desafiar a hegemonia norte-americana, como olham para os EUA como um salvador da economia global. O que você vê como vantagens competitivas do capitalismo dos EUA sobre a economia da União Europeia e as novas economias emergentes na Ásia?

A crise financeira de 2007-2008 foi originada principalmente nos EUA, mas seus principais competidores – a Europa e o Japão – acabaram sofrendo mais severamente, e os EUA mantiveram-se o local preferido dos investidores que buscam segurança em tempo de crise. As vantagens dos EUA são substantivas. Eles têm amplos recursos internos. São unificados, um fato importante. Até a guerra civil nos anos 1860, a frase “Estados Unidos” era plural (como ainda é nas línguas europeias). Mas desde então, vem sendo usada no singular, no inglês padrão. As políticas traçadas em Washington pelo poder estatal e capital concentrado valem para todo o país. Isso é muito mais difícil na Europa. Há muitas vantagens da unidade. Alguns dos efeitos nocivos da inabilidade europeia para coordenar a respostas à crise têm sido amplamente discutidas pelos economistas europeus.

As raízes históricas dessas diferenças entre a Europa e os EUA são familiares. Séculos de… conflitos impuseram um sistema de estado-nação na Europa, e a experiência da Segunda Guerra Mundial convenceu os europeus de que devem abandonar seu esporte tradicional de trucidar uns aos outros, porque a próxima tentativa seria a última. Então temos aquilo que os cientistas políticos gostam de denominar “uma paz democrática”, ainda que nem de longe esteja claro se a democracia tem algo a ver com isso. Em contraste, os EUA são um Estado colonizador-colonial, que assassinou a população indígena e confinou os remanescentes em “reservas”, ao mesmo tempo em que conquistava metade do México e expandia-se para além. Muito mais que na Europa, a rica diversidade interna foi destruída. A guerra civil cimentou o poder central e, da mesma forma, a uniformidade em outros domínios: linguagem nacional, padrões culturais, enormes projetos público-privados de engenharia social tais como a suburbanização da sociedade, subsídio central maciço à indústria avançada por meio de pesquisa e desenvolvimento, aquisição e outros instrumentos, e muito mais.

As novas economias emergentes na Ásia têm incríveis problemas internos, desconhecidos no Ocidente. Sabemos mais sobre a Índia do que sobre a China, porque é uma sociedade mais aberta. Há razões pelas quais ela está em 130º lugar no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (mais ou menos onde estava antes da reformas neoliberais parciais); a China está no 90º lugar, e poderia ser pior se se soubesse mais a respeito do país. Isso apenas arranha a superfície. No século 18, China e Índia eram os centros comerciais e industriais do mundo, com sistemas de mercado sofisticados, níveis avançados de saúde pelos padrões comparativos etc. Mas conquistas imperiais e políticas econômicas deixaram-nos em condições miseráveis. É notável que o único país do Sul Global a desenvolver-se foi o Japão, o único que não foi colonizado. A correlação não é acidental.

Os EUA ainda estão ditando as políticas do FMI?

Isso não é claro, mas meu entendimento é que os economistas do FMI supostamente são, talvez sejam, de certa forma independentes dos políticos. No caso da Grécia, e da austeridade em geral, os economistas publicaram alguns papers fortemente críticos aos programas da União Europeia, mas os políticos parecem estar ignorando-os.


USAR O CONTROLE REMOTO É UM ATO DEMOCRÁTICO!

EXPERIMENTE CONTRA A TV GLOBO! Você sabe que um canal de televisão não é uma empresa privada. É uma concessão pública concedida pelo governo federal com tempo determinado de uso. Como meio de comunicação, em uma democracia, tem como compromisso estimular a educação, as artes e o entretenimento como seu conteúdo. O que o torna socialmente um serviço público e eticamente uma disciplina cívica. Sendo assim, é um forte instrumento de realização continua da democracia. Mas nem todo canal de televisão tem esse sentido democrático da comunicação. A TV Globo (TVG), por exemplo. Ela, além de manter um monopólio midiático no Brasil, e abocanhar a maior fatia da publicidade oficial, conspira perigosamente contra a democracia, principalmente, tentando atingir maleficamente os governos populares. Notadamente em seu JN. Isso tudo, amparada por uma grade de programação que é um verdadeiro atentado as faculdades sensorial e cognitiva dos telespectadores. Para quem duvida, basta apenas observar a sua maldição dos três Fs dominical: Futebol, Faustão e Fantástico. Um escravagismo-televisivo- depressivo que só é tratado com o controle remoto transfigurador. Se você conhece essa proposição-comunicacional desdobre-a com outros. Porque mudanças só ocorrem como potência coletiva, como disse o filósofo Spinoza.

Quer linha de corte? Este é esquizo. Acesse:

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VIRTUALIZAÇÕES DESEJANTES DA AFIN

Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

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