Archive for the 'Médium Televisivo' Category

Está tudo tão estranho, e não é à toa.

Um relato do quebra-cabeças que fui montando nos últimos dias. Aviso que o post é longo, mas prometo fazer valer cada palavra.

Do Médium.com

[*nota da autora, adicionada após muitos comentários e compartilhamentos desviando um pouco o sentido do texto: este é um texto de esquerda]

Começo explicando que não ia postar este texto na internet. Com medo. Pode parecer bobagem, mas um pressentimento me dizia que o papel impresso seria melhor. O papel impresso garantiria maiores chances de as pessoas lerem tudo, menores chances e copiarem trechos isolados destruindo todo o raciocínio necessário.

Enquanto forma de comunicação, o texto exige uma linearidade que é difícil. Difícil transformar os fatos, as coisas que vi e vivi nos últimos dias em texto. Estou falando aqui das ruas de São Paulo e da diferença entre o que vejo acontecer e o que está sendo propagandeado nos meios de comunicação e até mesmo em alguns blogs.

Talvez essa dimensão da coisa me seja possível porque conheço realmente muita gente, de vários círculos; talvez porque sempre tenha sido ligada à militância política, desde adolescente; talvez porque tenha tido a oportunidade de ir às ruas; talvez porque pude estar conectada na maior parte do tempo. Não sei. Mas gostaria de compartilhar com vocês.

E gostaria que, ao fim, me dissessem se estou louca. Eu espero verdadeiramente que sim, pois a minha impressão é a de que tudo é muito mais grave do que está parecendo.


Tentei escrever este texto mais ou menos em ordem cronológica. Se não foi uma boa estratégia, por favor me avisem e eu busco uma maneira melhor de contar. Peço paciência. O texto é longo.


1. Contexto é bom e mantém a pauta no lugar

Hoje é dia 18 de junho de 2013. Há uma semana, no dia 10, cerca de 5 mil pessoas foram violentamente reprimidas pela Policia Militar paulista na Avenida Paulista, símbolo da cidade de São Paulo. Com a transmissão dos horrores provocados pela PM pela internet, muitas pessoas se mobilizaram para participar do ato seguinte, que seria realizado no dia 13. A pauta era a revogação no aumento das tarifas de ônibus, que já são caras e já excluem diversos cidadãos de seu direito de ir e vir, frequentando a própria cidade onde moram.

No dia 13, então, aconteceu a primeira coisa estranha, que acendeu uma luzinha amarela (quase vermelha de tão laranja) na minha cabeça: os editoriais da folha e do estadão aprovavam o que a PM tinha feito no dia 10 de junho e, mais do que isso, incentivavam ações violentas da pm “em nome do trânsito” [aliás, alguém me faz um documentário sensacional com esse título, faz favor? ]. Guardem essa informação.

Logo após esses editoriais, no fim do dia, a PM reprimiu cerca de 20mil pessoas. Acompanhei tudo de casa, em outra cidade. Na primeira hora de concentração para a manifestação foram presas 70 pessoas, por sua intenção de participar do protesto. Essa intenção era identificada pela PM com o agora famoso “porte de vinagre” (já que vinagre atenua efeitos do gás lacrimogêneo). Muitas pessoas saíram feridas nesse dia e, com os horrores novamente transmitidos – mas dessa vez também pelos grandes meios de comunicação, inclusive esses dos editoriais da manhã, que tiveram suas equipes de reportagem gravemente feridas -, muita gente se mobilizou para o próximo ato.

2. Desonestidade pouca é bobagem

No próprio dia 13, à noite, aconteceu a segunda “coisa estranha”. Logo no final da pancadaria na região da Paulista, sabíamos que o próximo ato seria na segunda-feira, dia 17 de junho. Me incluíram num evento no Facebook, com exatamente o mesmo nome dos eventos do MPL, as mesmas imagens, bandeiras, etc. Só que marcado para sexta-feira, o dia seguinte. Eu dei “ok”, entrei no evento, e comecei a reparar em posts muito, mas muito esquisitos. Bandeiras que não eram as do MPL (que conheço desde adolescente), discursos muito voltados à direita, entre outros. O que estava ali não era o projeto de cidade e de país que eu defendo, ou que o MPL defende.

Dei uma olhada melhor: eram três pessoas que haviam criado o evento. Fucei o pouco que fica público no perfil de cada um. Não encontrei nenhuma postagem sobre nenhuma causa política. Apenas postagens sobre outros assuntos. Lá no fim de um dos perfis, porém, encontrei uma postagem com um grupo de pessoas em alguma das tais marchas contra a corrupção. Alguma coisa com a palavra “Juventude”, não me lembro bem. Ficou claro que não tinha nada a ver com o MPL e, pior que isso, estavam tentando se passar pelo MPL.

Alguém me deu um toque e observei que a descrição dizia o trajeto da manifestação (coisa que o MPL nunca fez, até hoje, sabiamente). Além disso, na descrição havia propostas como “ir ao prédio da rede globo” e “cantar o hino nacional”, “todos vestidos de branco”. O alerta vermelho novamente acendeu na minha cabeça. Hino nacional é coisa de integralista, de fascista. Vestir branco é coisa de movimentos em geral muito ou totalmente despolitizados. Basta um mínimo de perspectiva histórica pra sacar. Pois bem.

Ajudei a alertar sobre a desonestidade de quem quer que estivesse organizando aquilo e meu alerta chegou a uma das pessoas que, parece, estavam envolvidas nessa organização (ou conhecia quem estava). O discurso dela, que conhece alguém que eu conheço, era totalmente despolitizado. Ela falava em “paz”, “corrupção” e outras palavras de ordem vazias que não representam reivindicação concreta alguma, e muito menos um projeto de qualquer tipo para a sociedade, a cidade de São Paulo, etc. Mais um pouco de perspectiva histórica e a gente entende no que é que palavras de ordem e reivindicações vazias aleatórias acabam. Depois de fazer essa breve mobilização na internet com várias outras pessoas, acabaram mudando o nome e a foto do evento, no próprio dia 13 de noitão. No dia seguinte transferiram o evento para a segunda-feira, “para unir as forças”, diziam.

3. E o juiz apita! Começa a partida!

Seguiu-se um final de semana extremamente violento em diversos lugares do país. Era o início da Copa das Confederações e muitos manifestantes foram protestar pelo direito de protestarem. O que houve em sp mostrou que esse direito estava ameaçado. Além disso, com a tal “lei da copa”, uma legislação provisória que vale durante os eventos da FIFA, em algumas áreas publicas se tornam proibidas quaisquer tipos de manifestações políticas. Quer dizer, mais uma ameaça a esse direito tão fundamental numa [suposta] democracia.

No final de semana as manifestações não foram tão grandes, mas significativas em ao menos três cidades: Belo Horizonte, Brasília e Rio de Janeiro. No DF e no RJ as polícias militares seguiram a receita paulista e foram extremamente violentas. A polícia mineira, porém, parecia um exemplo de atuação cidadã, que repassamos, compartilhamos e apoiamos em redes sociais do lado de cá do sudeste.

Não me lembro bem, mas acho que foi no intervalo entre uma coisa e outra que percebi a terceira “coisa estranha”. Um pouco depois do massacre na região da Paulista, e um pouco antes do final de semana de horrores, mais um sinal: ficamos sabendo que uma conhecida distante, depois do dia 13, pegou um ônibus para ir ao Rio de Janeiro. Essa pessoa contou que a PM paulista parou o ônibus na estrada, antes de sair do Estado de São Paulo. Mandaram os passageiros descerem e policiais entraram no veículo. Quando os passageiros subiram novamente, todas as coisas, bolsas, malas e mochilas estavam reviradas. A policial perguntou a essa pessoa se ela tinha participado de algum dos protestos. Pediu pra ver o celular e checou se havia vídeos, fotografias, etc.

Não à toa e no mesmo “clima”, conto pra vocês a quarta “coisa estranha”: descobrimos que, após o ato em BH, um rapaz identificado como uma das lideranças políticas de lá foi preso, em sua casa. Parece que a nossa polícia exemplar não era tão exemplar assim, mas agora ninguém compartilhava mais. Coisas semelhantes aconteceram em Brasília, antes mesmo das manifestações começarem.

4. Sequestraram a pauta?

Então veio a segunda-feira. Dia 17 de junho de 2013. Ontem. Havia muita gente se prontificando a participar dos protestos, guias de segurança compartilhados nas redes, gente montando pontos de apoio, etc. Uma verdadeira mobilização para que muita gente se mobilizasse. Estávamos otimistas.

Curiosamente, os mesmos meios de comunicação conservadores que incentivaram as ações violentas da PM na quinta-feira anterior (13) de manhã, em seus editoriais, agora diziam que de fato as pessoas deveriam ir às ruas. Só que com outras bandeiras. Isso não seria um problema, se as pessoas não tivessem, de fato, ido à rua com as bandeiras pautadas por esses grupos políticos (representados por esses meios de comunicação). O clima, na segunda-feira, era outro. Era como se a manifestação não fosse política e como se não estivesse acontecendo no mesmo planeta em que eu vivo. Meu otimismo começou a decair.

A pauta foi sequestrada por pessoas que estavam, havia alguns dias, condenando os manifestantes por terem parado o trânsito, e que são parte dos grupos sociais que sempre criminalizaram os movimentos sociais no Brasil (representados por um pedaço da classe política, estatisticamente o mais corrupto – não, não está nem perto de ser o PT -, e pelos meios de comunicações que se beneficiam de uma política de concessões da época da ditadura). De repente se falava em impeachment da presidenta. As pessoas usavam a bandeira nacional e se pintavam de verde e amarelo como ordenado por grandes figurões da mídia de massas, colunistas de opinião extremamente populares e conservadores.

As reações de militantes variavam. Houve quem achasse lindo, afinal de contas, era o povo nas ruas. Houve quem desconfiasse. Houve quem se revoltasse. Houve quem, entre todos os sentimentos possíveis, ficasse absolutamente confuso. Qualquer levante popular em que a pauta não eh muito definida cria uma situação de instabilidade política que pode virar qualquer coisa. Vimos isso no início do Estado Novo e no golpe de 1964, ambos extremamente fascistas. Não quer dizer que desta vez seria igual, mas a história me dizia pra ficar atenta.

5. Não, sequestraram o ato!

A passeata do dia 17, segunda-feira, estava marcada para sair do Largo da Batata, que fica numa das pontas da avenida Faria Lima. Não se sabia, não havia decisão ainda, do que se faria depois. Aos que não entendem, a falta de um trajeto pré-definido se justifica muito bem por duas percepções: (i) a de que é fácil armar emboscadas para repressão quando divulga-se o trajeto; e, (ii) mais importante do que isso, a percepção de que são as pessoas se manifestando, na rua, que devem definir na hora o que fazer. [e aqui, se vocês forem espertos, verão exatamente onde está a minha contradição – que não nego, também me confunde]

A passeata parecia uma comemoração de final de copa do mundo. Irônico, não? Começamos a teorizar (sem muita teoria) que talvez essa fosse a única referência de manifestações públicas que as pessoas tivessem, em massa:o futebol. Os gritos eram do futebol, as palavras de ordem eram do futebol. Muitas camisetas também eram do futebol. Havia inclusive uns imbecis soltando rojões, o que não é muito esperto pois pode gerar muito pânico considerando que havia poucos dias muita gente ali tinha sido bombardeada com gás lacrimogêneo. Havia pessoas brincando com fogo. [guardem essa informação do fogo também]

Agora uma pausa: vocês se lembram do fato estranho número dois? O evento falso no facebook? Bom, o trajeto desse evento falso incluía a Berrini, a ponte Estaiada e o palácio dos Bandeirantes, sede do governo do Estado. Reparem só.

Quando a passeata chegou ao cruzamento da Faria Lima com a Juscelino, fomos praticamente empurrados para o lado direito. Nessa hora achamos aquilo muito esquisito. Em nossas cabeças, só fazia sentido ir à Paulista, onde havíamos sido proibidos de entrar havia alguns dias. Era uma questão de honra, de simbologia, de tudo. Resolvemos parar para descobrir se havia gente indo para o lado oposto e subindo a Brigadeiro até a Paulista. Umas amigas disseram que estavam na boca do túnel. Avisei pra não irem pelo túnel que era roubada. Elas disseram então que estavam seguindo a passeata pela ponte, atravessando a Marginal Pinheiros.

Demoramos um tanto pra descobrirmos, já prontos pra ir para casa broxados, que havia gente subindo para o outro lado. Gente indo à esquerda. Era lá que preferíamos estar. Encontramos um outro grupo de pessoas conhecidas e amigas e seguimos juntos. As palavras de ordem não mudaram. Eram as mesmas em todos os lugares. As pessoas reproduziam qualquer frase de efeito tosca de manira acrítica, sem pensar no que estavam dizendo. Efeito “multidão”, deve ser.

As frases me incomodaram muito. Nem uma só palavra sobre o governador que ordenara à PM descer bala, cassetete e gás na galera havia poucos dias. Que promove o genocídio da juventude negra nessa cidade todos os dias, há 20 anos. Nem mesmo uma. Os culpados de todos os problemas do mundo, para os verde-amarelos-bandeira-hino eram o prefeito e a presidenta. Ou essas pessoas são ignorantes, ou são extremamente desonestas.

Nem chegamos à Paulista, incomodados com aquilo. Fomos para casa nos sentindo muito esquisitos. Aí então conseguimos entender que aquelas pessoas do evento falso no facebook tinham conseguido de alguma maneira manobrar uma parte muito grande de pessoas que queria ir se manifestar em outro lugar. A falta de informação foi o que deu poder para esse grupo naquele momento específico. Mas quem era esse grupo? Não sei exatamente. Mas fiquei incomodada.

6. O centro em chamas.

Quem diria que essa sensação bizarra e sem nome da segunda-feira faria todo sentido no dia seguinte? Fez. Infelizmente fez. O dia seguinte, “hoje”, dia 18 de junho de 2013, seria decisivo. Veríamos se as pessoas se desmobilizariam, se a pauta da revogação do aumento se fortaleceria. Essa era minha esperança que, infelizmente, não se confirmou. A partir daqui são todos fatos recentes, enquanto escrevo e vou tentar explica-los em ordem cronológica. Aviso que foram fazendo sentido aos poucos, conforme falávamos com pessoas, ouvíamos relatos, descobríamos novas informações. Essa é minha tentativa de relatar o que eu vi, vivi, experienciei.

No fim da tarde, pegamos o metrô Faria Lima lotadíssimo um pouco depois do horário marcado para a manifestação. Perguntei na internet, em redes sociais, se o ato ainda estava na concentração ou se estava andando, e para onde. Minha intenção era saber em qual estação descer. Me disseram, tomando a televisão como referencia (que é a referencia possível, já que não havia um único comunicado oficial do MPL em lugar algum) que o ato estava na prefeitura. Guardem essa informação.

Fomos então até o metrô República. Helicópteros diversos sobrevoavam a praça e reparei na quinta “coisa estranha”: quase não havia polícia. Acho que vimos uns três ou quatro controlando curiosamente a ENTRADA do metrô e não a saída… Quer dizer, quem entrasse no metro tinha mais chance de ser abordado do que quem estava saindo, ao contrário do dia 13.

A manifestação estava passando ali e fomos seguindo, até que percebemos que a prefeitura era outro lado. Para onde estavam indo essas pessoas? Não sabíamos, mas pelos gritos, pelo clima de torcida de futebol, sabíamos que não queríamos estar ali, endossando algo em que não acreditávamos nem um pouco e que já estávamos julgando ser meio perigoso. Quando passamos em frente à câmara de vereadores, a manifestação começou a vaiar e xingar em massa. Oras, não foram eles também que encheram aquela câmara com vereadores? O discurso de ser “apolítico” ou “contra” a classe política serve a um único interesse, a história e a sociologia nos mostram: o dos grupos conservadores para continuarem tocando a estrutura social injusta como ela é, sem grandes mudanças. Pois era esse o discurso repetido ali.

Resolvemos então descer pela rua Jandaia e tentar voltar à Sé, pois disseram nas redes sociais que o ato real, do MPL, estava no Parque Dom Pedro. Como aquilo fazia mais sentido do que um monte de pessoas bem esquisitas, com cartazes bem bizarros, subindo para a Paulista, lá fomos nós.

Outro fato estranho, número seis: no meio da Rua Jandaia, num local bem visível para qualquer passante nos viadutos do centro, um colchão em chamas. A manifestação sequer tinha passado ali. Uma rua deserta e um colchão em chamas. Para quê? Que tipo de sinal era aquele? Quem estava mandando e quem estava recebendo? Guardamos as mascaras de proteção com medo de sermos culpados por algo que não sabíamos sequer de onde tinha vindo e passamos rápido pela rua.

Cruzamos com a mesma passeata, mais para cima, que vinha lá da região que fica mais abaixo da Sé, mas não sabíamos ainda de onde. Atrás da catedral, esperamos amigos. Uma amiga disse que o marido estava chateado porque não conseguiu pegar trem na Vila Olímpia. Achamos normal, às vezes a CPTM trava mesmo, daí essa porcaria de transporte e os protestos, etc. pois bem. Guardem a informação.

Uma amiga ligou dizendo que estava perto do teatro municipal e do Vale do Anhangabaú, que estava “pegando fogo”. Imbecil que me sinto agora, na hora achei que ela estava falando que estava cheio de gente, bacana, legal. [que tonta!] Perguntei se era o ato do MPL, se tinha as faixas do MPL. Ela disse que sim mas não confiei muito. Resolvemos ir ver.

[A partir daqui todos os fatos são “estranhos”. Bem estranhos.]

O clima no centro era muito tenso quando chegamos lá. Em nenhum dos outros lugares estava tão tenso. Tudo muito esquisito sem sabermos bem o quê. Os moradores de rua não estavam como quem está em suas casas. Os moradores de rua estavam atentos, em cantos, em grupos. Poucos dormiam. Parecia noite de operação especial da PM (quem frequenta de verdade a cidade de São Paulo, e não apenas o próprio bairro, sabe bem o que é isso entre os moradores de rua).

Só que era ainda mais estranho: não havia polícia. Não havia polícia no centro de São Paulo à noite. No meio de toda essa onda. Não havia polícia alguma. Nadinha de nada, em lugar nenhum.

Na Sé, descobrimos mais ou menos o caminho e fomos mais ou menos andando perto de outras pessoas. Um grupo de franciscanos estava andando perto de nós, também. Vimos uma fumaça preta. Fogo. MUITO fogo. Muito alto. O centro em chamas.

Tentamos chegar mais perto e ver. Havia pessoas trepadas em construções com latas de spray enquanto outros bradavam em volta daquela coisa queimando que não conseguíamos identificar. Outro colchão? Os mesmos que deixaram o colchão queimando na Jandaia? Mas quem eram eles?

De repente algumas pessoas gritaram e nós,mais outros e os franciscanos, corremos achando que talvez o choque estaria avançando. Afinal de contas, era óbvio que a polícia iria descer o cacete em quem tinha levantado aquele fogaréu (aliás, será q ela só tinha visto agora, que estava daquele tamanho todo?). Só que não.

Na corrida descobrimos que era a equipe da TV Record. Estavam fugindo do local – a multidão indo pra cima deles – depois de terem o carro da reportagem queimado. Não, não era um colchão. Era o carro de reportagem de uma rede de televisão. O olhar no rosto da repórter me comoveu. Ela, como nós, não conseguia encontrar muito sentido em tudo que estava acontecendo. Ao lado de onde conversávamos, uns quatro policiais militares. Parados. Assistindo o fogo, a equipe sendo perseguida… Resolvemos dar no pé que bobos nós não somos. Tinha algo muito, mas muito errado (e estranho) ali.

Voltamos andando bem rápido para a Sé, onde os moradores de rua continuavam alertas, e os franciscanos tentavam recolher pertences caídos pelo chão na fuga e se organizarem novamente para dar continuidade a sua missão. Nós não fomos tão bravos e decidimos voltar para nossas casas.

7. Prelúdio de um… golpe?

No metrô um aviso: as estações de trem estavam fechadas. É, pois é, aquela coisa que havíamos falado antes e tal. Mal havíamos chegado em casa, porém, uma conhecida posta no facebook que um amigo não conseguiu chegar em lugar nenhum porque algumas pessoas invadiram os trilhos da CPTM e várias estações ficaram paradas, fechadas. Não era caos “normal” da CPTM, nem problemas “técnicos” como a moça anunciava. Era de propósito. Seriam os mesmos do colchão, do carro da Record?

Lemos, em seguida, em redes sociais, que havia pessoas saqueando lojas e destruindo bancos no centro. Sabíamos que eram o mesmos. Recebi um relato de que uma ocupação de sem-teto foi alvo de tentativa (?) de incêndio. Naquele momento sabíamos que, quem quer que estivesse por trás do “caos” no centro, da depredação de ônibus na frente do Palácio dos Bandeirantes no dia anterior, de tentativas de criar caos na prefeitura, etc. não era o MPL. Também sabíamos que não era nenhum grupo de esquerda: gente de esquerda não quer exterminar sem-teto. Esse plano é de outro grupo político, esse que manteve a PM funcionando nos últimos 20 anos com a mesma estrutura da época da ditadura militar.

Algum tempo depois, mais uma notícia: em Belo Horizonte, onde já se fala de chamar a Força Nacional e onde os protestos foram violentíssimos na segunda-feira, havia ocorrido a mesma coisa. Depredação total do centro da cidade, sem nenhum policial por perto. Nenhunzinho. Muito estranho.

Nessa hora eu já estava convencida de que estamos diante de uma tentativa muito séria de golpe, instauração de estado de exceção, ou algod do tipo. Muito séria. Muito, muito, muito séria. Postei algumas coisas no facebook, vi que havia pessoas compartilhando da minha sensação. Sobretudo quem havia ido às ruas no dia de hoje.

Um pouquinho depois, outra notícia: a nova embaixadora dos EUA no Brasil é a mesma embaixadora que estava trabalhando no Paraguai quando deram um golpe de estado em Fernando Lugo.

Me perguntaram e eu não sei responder qual golpe, nem por que. Mas se o debate pela desmilitarização da polícia e pelo fim da PM parece que finalmente havia irrompido pelos portões da USP, esse seria um ótimo motivo. Nem sempre um golpe é um golpe de Estado. Em 1989 vivemos um golpe midiático de opinião pública, por exemplo. Pode ser que estejamos diante de outro. Essa é a impressão que, ligando esses pontos, eu tenho.

Já vieram me falar que supor golpe “desmobiliza” as pessoas, que ficam em casa com medo. De forma alguma. Um “golpe” não são exércitos adentrando a cidade. Não necessariamente. Um “golpe” pode estar baseado na ideia errônea de que devemos apoiar todo e qualquer tipo de indignação, apenas porque “o povo na rua é tão bonito!”.

Curiosamente, quando falei sobre a manifestação do dia 13 com meus alunos, no dia 14, vários deles me perguntaram se havia chances de golpes militares, tomadas de poder, novas ditaduras. A minha resposta foi apenas uma, que ainda sustento sobre este possível golpe de opinião pública/mídia: em toda e qualquer tentativa de golpe, o que faz com que ela seja ou não bem-sucedida é a resposta popular ao ataque. Em 1964, a resposta popular foi o apoio e passamos a viver numa ditadura. Nos anos 2000, a reposta do povo venezuelano à tentativa de golpe em Chávez foi a de rechaço, e a democracia foi restabelecida.

O ponto é que depende de nós. Depende de estarmos nas ruas apoiando as bandeiras certas (e há pessoas se mobilizando para divulgar em tempo real, de maneira eficaz, onde está o ato contra o aumento da passagem, porque já não podemos dizer que é apenas “um” movimento, como fez Haddad em sua entrevista coletiva). Depende de nos recusarmos a comprar toda e qualquer informação. Depende de levantarmos e irmos ver com nossos próprios olhos o que está acontecendo.


Se essa sequencia de fatos faz sentido pra você, por favor leia e repasse o papel. Faça uma cópia. Guarde. Compartilhe. Só peço o cuidado de compartilharem sempre integralmente. Qualquer pessoa mal-intencionada pode usar coisas que eu disse para outros fins. Não quero isso.

Quero apenas que vocês sigam minha linha de raciocínio e me digam: estamos mesmo diante da possibilidade iminente de um golpe?

Estou louca?

Espero sinceramente que sim. Mas acho que não.

Cordel da Regulamentação da Comunicação

Para que a liberdade chegue aos ditos meios de comunicações que hoje é acorrentada com as atuais consessões. Por uma televisão e rádio voltadas as  educações que ultrapassa todas condições, que represente as varias vozes, sotaques, expressividades, vivências, festas, histórias de nosso povo, da nossa nação.

Vídeo produzido pelo Centro de Cultura Luiz Freire (CCLF) para a Campanha Nacional Para Expressar a Liberdade (www.paraexpressaraliberdade.org.br).

Ficha técnica:

Direção: Dea Ferraz;
Produção: Laura Lins;
Fotografia: Luiz Henrique;
Som: Rafa Travassos;
Realização: Centro de Cultura Luiz Freire;

O MEDIUM TELEVISIVO E A OPINIÃO PÚBLICA

“A televisão é decididamente despolitizante” (Muniz Sodré)

“A informação não é um dos aspectos da distração moderna, nem constitui um dos planetas da gláxia divertimento; é uma disciplina cívica cujo objetivo é formar cidadãos.” (Ignacio Ramonet)

.UMA TRISTE PESQUISA.

Uma pesquisa que trate o seu objeto de estudo como algo constituído em um espaço organizado como um dado não produz o estudo como criação e uma experiência do novo no mundo. Apenas constatar o que já é dado como evidente não modifica a existência humana e tampouco realiza um desdobramento da efetividade, produzindo problemas autênticos. Em suma: estudar a realidade já constituída nada produz, logo, nada instrui.

É dessa forma, como um não-estudo, ou como um estudo de expressão e conteúdo vazio, que pode ser considerado o “estudo” dos sociólogos norte americanos John P. Robinson e Steven Martin, da University of Maryland. Eles chegaram à extravagante conclusão, após 30 anos de pesquisa com quase 30 mil adultos, de que as pessoas infelizes assistem mais televisão do que aquelas que se crêem aquém da felicidade. Para tanto, a dupla de sociólogos pesquisou o uso do tempo e o comportamento social das pessoas usadas na pesquisa.

É mais do que evidente o quanto a tevê não produz a informação como alegria e o novo no mundo. Ao contrário, ela confirma o estado de insegurança, de “má igualdade” capitalista, de padronização das emoções, e de engendramentos desonestos com as notícias com seus factóides e espetacularizações da realidade. Assim, a tevê em nada é autônoma. Ela é sim heterônima a partir do instante em que é organizada pela coerção externa da subjetividade capitalística. Então a tevê reproduz em sua programação a necessidade de conservar a tristeza.

O que aparece não aparece no estudo da dupla de sociólogos é esta percepção do médium televisivo. Nem o princípio de identidade (A=A) existente entre capitalismo e tevê, o que faz um cúmplice da outra. É o óbvio que prevalece no então acunhado de estudo.

A tevê, de tanto dilatar a efetividade através de sua hiper-realidade, faz com que todo saber e conhecimento seja esvaziado de sentido. Tal como o estado de tristeza onde o espaço é dilatado e o interesse e sentido da existência deixam de ser relevantes. Tanto a tevê quanto a tristeza não tem a ação efetiva como referentes. Tanto o uso do tempo e o comportamento social, assim como as classificações morais de escolaridade, classe social, faixa etária, entre outras, instituídas pelo capitalismo, segundo a lógica de mercado, convergem para a tevê de forma adequada.

O que, efetivamente, não surge no “estudo” (pesquisa) dos sociólogos é a força da Aletheia (revelação). A revelação do óbvio da constatação de que pessoas infelizes assistem mais televisão, não como um dado constituído, mas como um problema que irrompe a relação entre tevê, comunicação, informação, capitalismo e existência. Ainda mais quando se sabe que a tevê não é simplesmente um dado ou objeto dentro de um espaço constituído, mas uma produção humana que tanto pode ser benéfica ou nociva para a existência das pessoas. E que, hodiernamente, a tevê tem em sua própria estrutura a nocividade do sistema capitalista.

O MEDIUM TELEVISIVO E A OPINIÃO PÚBLICA

.TELE-TOTALITARISMO.

Um regime totalitarista não está fechado em suas práticas fascistas de censura, de controle e restrição da liberdade política. Seu objetivo é impedir qualquer movimento intensivo que faça o povo produzir bons encontros. Deve-se conservar o povo na tristeza, na imobilidade, no irracional, na superstição. Fazer com que a realidade seja mitificada e mistificada. Daí que, em um regime totalitarista, tornam-se necessárias coligações com grupos que sejam clones de tal regime para uma melhor proliferação da tristeza. A mídia televisiva desempenha bem este papel de clone do totalitarismo. A Globo nunca conseguiu esconder sua afinidade com os militares durante o regime militar no Brasil. Assim, a mídia televisiva age de forma a aumentar a impotência imposta pelos regimes totalitários. Ela, então, torna-se a vitrine onde a tristeza será veiculada através das programações diárias. A televisão monta sua programação a partir do/para o sofrimento. Ela mantém o estado de coisas da tristeza do regime totalitarista como algo banal, cotidiano, habitual e natural.

“Nós vos pedimos com insistência: não digam nunca – Isso é natural: sob o familiar, descubram o insólito. Sob o cotidiano, desvelem o inexplicável. Que tudo o que é considerado habitual provoque inquietação. Na regra, descubram o abuso, e sempre que o abuso for encontrado, encontrem o remédio.” Bertolt Brecht

Mas não vão pensando que para a tevê ir alastrando a tristeza por aí tem que ter um regime totalitário rolando. Nada disso. Mirem-se nos exemplo que a tele-totalitária Globo gosta de nos dá. A Globo manda na seleção brasileira de futebol. Não teve Branca de Neve que segurasse o Dunga; ele disse logo que tava puto, mas como um bom Dunga, tranqüilo. Mas como ele vai ficar puto com a Globo porque ela manda no apático selecionado brasileiro? Ora, Dunguinha, e tu não sabes que com a televisão o estádio de futebol se tornou um grande estúdio de tevê e todas as partidas em espetáculos financeiros, e pra acabar logo com a frescura, que quem manda mesmo no futebol agora é a televisão? E os jogadores, juízes, torcedores, gandulas…? Simulacros perseguidos pelas câmeras disciplinares e controladoras. Tu és somente mais um dos vários que são, implacavelmente, atacados pela rancorosa Vênus Platinada. Quem não a obedece ou a desacata, ela bate mesmo. Olha o que o menino de recados da Globo Faustão tá fazendo: ele agora toma ares de analista de futebol, mas sabemos que apenas faz o que a patroa Globo manda. Assim como tu fez.

Em todo o Mundo, por meios diretos ou indiretos, a televisão decide onde, quando e como se joga. O futebol se vendeu a telinha de corpo, alma e roupa. Os jogadores são, agora astros de televisão. Quem concorre com seus espetáculos?” Eduardo Galeano

A Globo segue à risca o dito inspirado na bíblia: “Dize-me com quem tu andas e eu te direi quem tu és”. O clone Paulo Maluf ratificou a sua candidatura a prefeito de São Paulo ao lado da apresentadora globotária (também clone) Ana Maria Braga. Tudo certo: Globo e Paulo Maluf: tudo a ver. Paulo Maluf está sendo indiciado pela justiça America por desviar 11,6 milhões de dólares de obras públicas de São Paulo para um banco americano. Desta maneira mudamos, ao nosso modo, a frase de inspiração bíblica: “Dize-me quem tu apóias que eu te direi quem tu és”. Jornalismo Colonialista e tendencioso da Globo. Hoje no Jornal Bom Dia Brasil, Renato Machado, defendeu o regime colonialista na áfrica (Conversa Afiada). Em matéria feita no Jornal Nacional, sobre a operação da Polícia federal João de barro, o casal Simpson tentou envolver a ministra Dilma no caso de corrupção, proferindo a seguinte frase no final da matéria: “A ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, não quis comentar sobre o escândalo” (Bodega Cultural). Estas duas situações demonstram o compromisso que a Globo tem com o tele-totalitarismo.

Ainda com a Globo. De rainha à bruxa: beicinho, beicinho e bye, bye,Xuxa caiu do alto dos píncaros do ibope e viu a realeza se esvair. De rainha dos baixinhos passou a ser a bruxa dos baixíssimos índices de audiência. Ainda lhe deram uma chance e a colocaram agora com um programa para o público adolescente. Mas agora veio o inaceitável: quiseram mudar o horário do programa dela por conta da olimpíada. Imaginemos que ela bateu o pé como baixinho infantilizado, olhou para os seus carrascos da Globo e tenha dito: beicinho, beicinho e bye, bye. Se foi para a Europa de férias. Será que a Globo agora usa a mesma tática de algumas empresas que quando querem demitir o funcionário lhe dão férias? Nada disso. Globo e Xuxa estão juntas, mesmo se separadas fisicamente, seja lá em que emissora for.

Esse Longo Caminho percorrido

lado a lado, nos bons e maus momentos,

faz de nós dois um ser unificado

pelos mais fundos, ternos sentimentos.”

Drummond

SBsTeira nega tudo… quase tudo. Veio a Mara Maravilha pensando que ia ser uma maravilha ter um programa familial, e o patrão Silvio cortou. Ainda teve o pagodeiro Netinho de Paula dizendo que ia pagodear pelo SBsTeira, mas também o patrão cortou logo o pagode dele. Mas quando a Madrinha da Noite, Hebe Camargo, reclamou da mudança de horário do seu programa, o patrão de pronto fez o que a Madrinha mandou. O patrão Silvio é submisso à apresentadora? Claro que não. Ele é acima de tudo, empresário. Ele não aborrece um dos seus mais fundamentais elementos fático televisivo. Ele sabe que a apresentadora tem o rosto que faz a imagem certa ir ao tele-espectador. Para Silvio antes os milhões do que uma briga com a Madrinha da Noite.

Num estudo de caso sobre o programa de Hebe Camargo, Sérgio Miceli demonstra como a animadora afetava sempre uma postura de ‘carinho e aconchego’, como se fosse uma madrinha (mãe postiça), mas alternando os papéis de mãe, filha, ou dona-de-casa.” Muniz Sodré

Que diga a sua amiga da Daslu, que quando foi presa pela Policia Federal, teve em Hebe uma mãe dizendo ser um absurdo uma menina como aquela ser algemada e levada presa.

Dizem que Ratinho pode ir pra Band e ter um programa de humor por lá. Mas um exemplo que a tevê é a grande lastradora da tristeza.

O MEDIUM TELEVISIVO E A OPINIÃO PÚBLICA

.A AMBÍGUA MORAL DA MÍDIA TELEVISIVA.

A MÍDIA TELEVISIVA ESTÁ BEM ADEQUADA À MORAL AMBÍGUA — produção subjetiva cristã, capitalística e judaica. O bem e o mal devem ser conservados como instâncias maiores de mensuração das atividades humanas. Portanto, na mídia televisiva, para cada atividade, uma representação simbólica que exerça bem a separação entre bem e mal. Seja uma palavra de elogio ou de censura, seja um aceno de incentivo ou de desaprovação, sejam recompensas ou punições, premiações ou desvalorizações. Seja o que for: mas que venha para impor a idéia de que verdadeiramente existem pessoas, programas, canais e emissoras de televisão que estejam alojadas nas categorias morais de bem e mal.

É preciso aniquilar a moral para libertar a vida” Nietzsche.

Emissoras de tevê se esforçam para se mostrarem diferentes entre elas. Então mergulham na moral da ambigüidade para terem a ilusão da separação dos bem aventurados dos mal aventurados televisivos. Esperam poder separar o joio do trigo, enquanto não há nem joio nem trigo. Só o vazio. Então forjam acusações, intrigas, acusações, rivalidades, disputas, sem saber que bem e mal são uma só moral que se complementam e em nada se diferenciam. Instâncias transcendentes que impõem uma ordem (o bem) que melhor se organiza pela desordem (o mal). Assim a mídia televisiva é pessimista e niilista, pois está em conformidade e impõe a percepção formatada pela moral.

Não importa saber o que a televisão está levando ao ar, se os seus programas são de alto ou baixo nível; é ela própria, enquanto veículo, que altera o comportamento, condicionando a percepção no sentido do envolvimento geral, da participação (‘estar por dentro’ — lema dos jovens de hoje), apesar da resistência das elites de formação literária, que gostariam de levar à televisão o que chamam de “cultura”, impondo soporíferos programas lineares…” Decio Pignatari.

A mídia forja diferenças para se querer numa diversidade e assim, fazer o jogo do não jogar. Daí Jorge Fernando acreditar existir diversidade na tevê e que há realmente uma disputa teledramatúrgica entre Globo e Record. Disparate que resvalou no colunista da Folha Daniel Castro,fazendo-o cair no engano de admitir que haja uma disputa entre os autores de telenovelas João Emanuel Carneiro (Globo) e Tiago Santiago (Record). Entre pares não há disputas ou diversidade, contudo pode haver trocas a partir do sistema que ordena esses pares.

Televisão é um sistema informativo

homólogo aos códigos da

economia de mercado (…)” Muniz Sodré.

Nenhuma emissora pode falar entre si, como os escolares falavam aos valentões: “Vá procurar alguém do seu tamanho; não bata em mim”. São todas do mesmo tamanho, com o mesmo perfil, com a mesma limitação intelectual e, sobre tudo, não brigam entre si. A não ser dentro dos negócios produzidos pelo capitalismo. A SKY cortou o sinal da MTV. A MTV disse que a Sky não respeita o telespectador. A SKY justificou o corte do sinal, que agora só está sendo transmitido para São Paulo, dizendo haver um “abuso de preços” por parte da MTV quando da renovação do contrato com o canal de TV pago. A MTV quer para si a ubiqüidade divina quando diz saber que houve um desrespeito aos telespectadores. Em outra perspectiva. Os tele-espectadores, talvez agora, comecem a sair da cultura inútil transmitida pela MTV e tracem caminhos outros; bem que podem apenas migrar de uma emissora para uma outra que é a mesma (e aí está a moral televisiva). A SKY, economicamente (ou seja, dentro da ordem televisiva), está certa em sua justificativa. Quem não agüenta o agitadíssimo mundo business do capitalismo é cortado.

Se as emissoras na mídia televisiva, por conservarem a moral da ambigüidade, podem dizer juntas “Somos Iguais, não mudamos jamais”. Para ela também serve a advertência de um apóstolo. Então para que a mídia televisiva continue com os seus pares, citemos um apóstolo que foi um dos fundadores e fortificadores da moral: Paulo de Tarso.

Ai daquele que enquanto prega aos outros é ele próprio um réprobo!”

O MEDIUM TELEVISIVO E A OPINIÃO PÚBLICA

.A AUSÊNCIA DE REALIDADE NA TEVÊ.

Na tevê não há realidade. Os acontecimentos são engolidos pelas técnicas de produção e reprodução televisiva de imagens. As imagens em um espaço organizado que possamos perceber não são dados. Elas se constroem devido ao jogo dos órgãos sensório-motores que entre a visão e o movimento (da efetividade) vão estabelecendo coordenadas que possibilitam situar e orientar objetos na realidade. Esta espécie de jogo neuro-social vai ocorrendo a partir das relações de produção social que vai criando os modos de existência, tanto de pessoas quanto de objetos, no movimento da efetividade. Já na tevê, estas imagens surgem destituídas deste jogo, inseridas como pontos já dados. Logo estas imagens são colocadas a partir da rotina da vida cotidiana como coisas óbvias e triviais que não passam pela análise de que são frutos de relações de produção sociais captadas pelo ser humano como estímulos físicos e químicos.

Desta forma, a tevê elabora uma maciça codificação das imagens. Na tevê, as imagens não são produzidas, mas dadas em outro campo que já não é o campo da produção social que afeta as pessoas, trata-se antes de imagens destituídas de realidade, porque já não se encontram ao alcance de quem a produz e de quem as olha individualmente e se apropria delas. Elas são manipuladas, montadas, redirecionadas e organizadas para se adaptarem à ordem televisiva. Trata-se agora do que Paul Virilio chama de télescopagem, um choque entre o que é próximo e o que é distante, uma visão que não alcança a imagem que por mais que se estabeleça próxima, apresenta a distância como sua marca principal.

Ocorre, assim, uma “erosão do principio de realidade”. A tevê não trata da realidade. Nem poderia, uma vez que os acontecimentos ocorrem, se transformam e desaparecem no movimento da efetividade. O que a tevê captura é um efeito paralisado do real, que impõe ao tele-espectador como notícia destituída de suas causas. Daí compreender que a então chamada espetacularização exercida pela mídia (aqui principalmente a televisiva) está menos vinculada às questões de uma programação controlada pela força da lógica do mercado do que por uma estrutura midiática distante da efetividade; o que faz de sua programação um espetáculo em razão da realidade ser apresentada de forma mítica e mística: destituída das relações de produção social e pautadas na desrazão.

Na tevê, deve-se, ao máximo, liquidar a realidade e expropriar qualquer referência das relações sócias de produção com as suas imagens e sons. Ela estabelece uma amnésia topográfica (Paul Virilio): o lugar aonde os objetos, as relações entre as pessoas e a relação das pessoas com os objetos que vão produzindo imagens e referências, é esquecido; este é suplantado pelas imagens e sons distantes da tevê. Contudo, uma vez que a ordem da tevê é determinar uma presença de efeitos do real distante das causas na efetividade, a “realidade” televisiva ocorre quanto mais afastada estiver do movimento do real.

A perspectiva das experiências produzidas na efetividade é rejeitada pela perspectiva midiática. Assim tem sido com o caso da menina Isabella, onde sua imagem foi retirada da realidade e espetacularizada. Junto à imagem de Isabela foi destituída da realidade a própria ação humana. Da forma que os suspeitos do assassinato da menina foram tratados pela mídia (principalmente a televisiva), eles começaram a ser classificados como monstros que praticaram uma ação terrível, o que gerou uma forte ojeriza em muitas pessoas. O que a tevê não permitiu com a espetacularização deste caso foi colocar, não só este caso, mas tantos outros, a partir das relações de produção social. A cobertura midiática do caso descarta uma análise social do acontecido, que leve em conta um entendimento político que indague o caso a partir do ponto de vista de uma realidade ordenada pelo sistema capitalista, produzida pelo próprio homem. Ao contrário, a tevê e outras mídias mitificam e mistificam o caso, tirando-o do movimento da efetividade. Interessa à mídia televisiva (e outras) manipular e explorar as imagens e fazer do ocorrido apenas um espetáculo que possa tocar nos sentimentos padronizados dos tele-espectadores.

A função da tevê, portanto, seria a de fazer da realidade uma ausência. É a visão completamente destituída das relações das pessoas com o que as rodeia que suplanta a visão da superfície da realidade que nos afeta.

O MEDIUM TELEVISIVO E A OPINIÃO PÚBLICA

POR UMA MÍDIA QUE VÁ PELO MEIO

Ampliar a Noção Habitual de Mídia

Responsabilidade moral de erradicar o mal e mostrar as enfermidades sociais”. Este era o axioma central que fundamentava a transformação do jornalismo em profissão no século XIX, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Este axioma foi evoluindo junto às mídias e se constituiu como o código moral de classe cristalizado nos meios de comunicação. A mídia foi se estabelecendo como veículo de denúncias das mazelas sociais para se conservar como mantenedora da ordem. Então sua função não ficou em apenas fazer com que informações passassem de um ponto a outro no espaço e no tempo, mas também a de um agente “social” que destacasse casos na multidão de acontecimentos que servissem como exemplos para manter a constante manutenção da disciplina e do controle da ordem normativa.

A noção habitual de mídia então passou a ser entendida como uma espécie de vitrine que coloca à mostra a realidade para todos. Leva a realidade a ser vista através de suas técnicas e modelos de veiculação midiática. O profissional da mídia (seja lá qual for a sua função) se torna responsável por conscientizar o público e servir de exemplo.

Daí um problema habitual: sendo o modelo de mídia que se toma como oficial, centrado em grandes dinastias familiares, o que fazer para que a mídia não se limite aos ditames da moral de classe dessas dinastias midiáticas?

Talvez seja deste problema, colocado de maneira muito rápida, que nasça os brados que reivindicam uma mídia livre/alternativa, a partir de uma mudança de modelo. Mas a questão não é bem esta. Nem a do problema. Nem a da sua afoita solução.

Antes mesmo de a mídia funcionar como instrumento de dominação por essas dinastias, ela já se pretende como agente conservador da dominação capitalística. Percebe-se isto quando se vê que a mídia realiza uma antecipação de denúncias e repressões àqueles que infringirem a semiótica capitalística. O discurso da mídia é fundamentado em enunciados persecutórios próprios de um regime de signos despótico. Entretanto, a própria mídia desconhece isso. De tão inserida na subjetividade capitalística, ela faz isso com naturalidade e passa a ser personalizada por esta subjetividade dominante. Tanto que ela na ânsia de cumprir seu dever moral, naturalmente, só mostra o sujeito como indivíduo em momentos específicos.

Os meios de comunicação falam do mundo das pessoas, que transformam em até superpessoas. No jornal, no rádio, na televisão, nas revistas, o indivíduo só aparece no registro policial, quando se personaliza através da violência. Ou então no Carnaval, quando se torna personagem de um fato da história nacional. Ou ainda no misticismo ou no futebol, quando se destaca por seus dons ou poderes superiores. (Laymert G. dos Santos)

Uma noção ampliada da habitual de mídia, portanto, não está somente na abolição da lógica de mercado da sua organização. Uma questão que talvez não seja levada tanto em conta é que a noção predominante de mídia é aquela que é produzida pela subjetividade capitalística dominante. São as redundâncias dominantes capitalísticas que povoam a noção e a prática das mídias. Então, as formas de falar, os gestos, os procedimentos, a forma de usar a informação, a maneira com que os significados vão se apartando de qualquer acesso à realidade, instituem na mídia uma ordem fundamentada nos códigos capitalísticos.

Talvez a mídia seja vista somente como uma série de veículos de informações manipulados pela economia de mercado, que determina seus níveis de organização. Daí surgir idéias favoráveis de uma mídia livre/alternativa à medida que ela seja guiada pelas pessoas certas. Basta criar uma programação cultural, educacional e de entretenimento distante dos ditames do mercado. Logo se terá uma mídia comprometida com a sociedade. Todavia, a mídia não é apenas manipulada. Ela própria se esforça, com o seu aparato técnico-funcional, para teleguiar e codificar comportamentos e estabelecer valores da subjetividade capitalística. Ela traz em suas variadas estruturas técnicas (a impressão, a imagem, o som, a grafia, etc) a força de marcar a expropriação do que acontece no público e transformá-lo em uma banalidade cotidiana sem sentido, a qual é posta nas casas, fábricas, escolas e outros lugares como notícias “naturais” que repugnam, enojam ou reforçam as culpas familiares.

Transformar a mídia em livre ou alternativa não se trata de criar um modelo livre ou alternativo. A mídia pode muito bem mudar de organização e continuar mantendo sua planificação subjetiva. Ela pode ser tachada de alternativa, cultivar uma rede envolvida com os movimentos sociais, mas sempre conservando a reprodução da subjetividade capitalística. A preocupação em produzir um modelo de mídia diferente da que se toma por oficial já caracteriza uma reprodução desta subjetividade.

(…) Não se trata, nunca de propor um modelo alternativo. Mas sim de, ao contrário, tentar articular os processos alternativos quando eles existem. (Félix Guattari)

Talvez, colocar a mídia livre como uma opção não requeira uma transformação dos meios de comunicação. Mas, ao contrário, a produção de outros meios que estejam completamente fora da mídia dominante. Então são necessárias outras relações de fala e escuta, outra linguagem, criação de produções novas que não ocorrem de jeito algum na mídia dominante. Processos que atravessem as experiências das pessoas pelo meio de suas existências e não de pontos marcadores de poder. Uma mídia que se livre de qualquer ponto de referência capitalístico.

Partir do meio da existência. Partir de onde não há um começo ou um fim. Criar o caminho caminhando pelo meio dos acontecimentos. Desprezando as sistematizações arborescentes, hierárquicas de cima para baixo ou de baixo para cima dos acontecimentos. Não há o acontecimento mais importante. Há experiências que são únicas. Há encontro de experiências. Criar. Produzir o novo. Pelo meio. Pelo medium.


USAR O CONTROLE REMOTO É UM ATO DEMOCRÁTICO!

EXPERIMENTE CONTRA A TV GLOBO! Você sabe que um canal de televisão não é uma empresa privada. É uma concessão pública concedida pelo governo federal com tempo determinado de uso. Como meio de comunicação, em uma democracia, tem como compromisso estimular a educação, as artes e o entretenimento como seu conteúdo. O que o torna socialmente um serviço público e eticamente uma disciplina cívica. Sendo assim, é um forte instrumento de realização continua da democracia. Mas nem todo canal de televisão tem esse sentido democrático da comunicação. A TV Globo (TVG), por exemplo. Ela, além de manter um monopólio midiático no Brasil, e abocanhar a maior fatia da publicidade oficial, conspira perigosamente contra a democracia, principalmente, tentando atingir maleficamente os governos populares. Notadamente em seu JN. Isso tudo, amparada por uma grade de programação que é um verdadeiro atentado as faculdades sensorial e cognitiva dos telespectadores. Para quem duvida, basta apenas observar a sua maldição dos três Fs dominical: Futebol, Faustão e Fantástico. Um escravagismo-televisivo- depressivo que só é tratado com o controle remoto transfigurador. Se você conhece essa proposição-comunicacional desdobre-a com outros. Porque mudanças só ocorrem como potência coletiva, como disse o filósofo Spinoza.

Quer linha de corte? Este é esquizo. Acesse:

CAMPANHA AFINADA CONTRA O

VIRTUALIZAÇÕES DESEJANTES DA AFIN

Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

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