BRASIL, ITÁLIA, UNIÃO EUROPEIA: VOCÊS QUEREM A DEMOCRACIA PARA QUÊ?

CARTA DE BERLIM #
Conte tomou posse na última sexta (1º) como primeiro-ministro de governo anti-establishment na Itália
por Flavio Aguiar.
CC/GOVERNO.IT
Giuseppe Conte

Conte, o novo premier da Itália: eEstá dado o labiríntico imbróglio da democracia europeia, que vai perdendo cada vez mais seu emblema ‘social’

A democracia submergiu numa crise sem precedentes no Brasil, ninguém de bom senso duvida disto. Talvez possa afundar ainda mais, mas já está na UTI das profundezas. E quando digo “sem precedentes” não quero dizer que não tenhamos vivido e sobrevivido a coisas tão ou até mais graves do que as que hoje estamos vivendo. Quero dizer que nunca houve esta situação, de um golpe civil, sem participação dos militares, cuja vanguarda é composta de setores do Judiciário, arautos na mídia, setores policiais, os perdidos dentro do Palácio do Planalto e mais alguns congressistas e cujo resultado é uma das maiores badernas e anomias já instaladas no país. Os coxinhas sangram: Parente teve de sustar de momento o aumento do diesel? Pois tomem lá um aumento da gasolina! Li outro dia: “Paneleir@s, não têm gasolina? Encham o tanque com Moet-Chandon”.

Mas há outras democracias em questão. A crise italiana é evidência de uma delas. E que diz respeito não apenas à Itália, e sim a toda a União Europeia.

Na última eleição formou-se uma maioria ad hoc com o movimento “anti-establishment” M5 (de Cinco Estrelas) e a Lega (que estrategicamente tirou o “Nord” do nome). A pedido do presidente Sergio Mattarella, os dois líderes respectivos, Luigi di Maio e Matteo Salvini, encarregaram o obscuro (politicamente) Giuseppe Conte de formar um governo.

Ele o fez, e entregou a lista de ministeriáveis ao presidente. Surpreendendo a todos, este recusou o nome do proposto ministro das Finanças, Paolo Savona, de 81 anos, por ser este um conhecido eurocético, isto é, visto como inimigo tanto do euro como da União Europeia. Resultado: Conte demitiu-se antes de assumir o governo, situação também inusitada e confusa, a de um governo que caiu antes de assumir.

As reações foram as mais desencontradas possíveis. As bolsas, oscilaram, o euro caiu, alguns apoiaram Mattarella, outros criticaram. A reação mais contundente – logo contundida, pois seu autor pediu desculpas – veio do representante alemão do Comitê do Orçamento da União, Günther Oettinger, que disse ser aquilo uma lição para os italianos sobre “não votarem em populistas, seja à direita ou à esquerda”.

Nota Bene: no jargão da hegemonia neoliberal da União e da mídia mainstream do continente, “populista” é tudo que se afaste dela. E o novo governo propunha, além de uma repressão sobre imigrantes, medidas heréticas, como a conjunção de uma redução drástica de impostos com um aumento nas aposentadorias, por exemplo. Houve reações àquela reação: Donald Tusk, o presidente do Conselho Europeu, pediu respeito ao eleitorado italiano. Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, também defendeu a democracia eleitoral, dizendo ser ela um valor de todo o continente.

No Parlamento Europeu as reações de dividiram: os blocos conservadores e da social-democracia/socialistas apoiaram o presidente italiano. O bloco dos Verdes criticou-o, em nome do respeito à democracia eleitoral, embora manifestasse desacordo com o programa do M5 e da Lega. Na mídia mainstream ninguém se preocupou em ouvir o bloco de esquerda, como de costume, o que também evidencia características deste menu de democracia que aqui impera.

Na quinta (31), anunciou-se que o presidente italiano daria mais tempo à coligação para formar um governo. O seu recuo pode ser interpretado como uma reação diante de um impasse que se criou. No vácuo da “demissão” de Conte, ele teria de convocar novas eleições para o segundo semestre, no “outono”, como se diz aqui, ou seja, a partir do final de setembro. Até lá, assumiria (como já houve antes) um governo dos sonhos dos tecno-burocratas de todos os quadrantes: o primeiro-ministro seria um ex-dirigente do FMI, Carlo Cottarelli, que nomearia um ministério “técnico” e não “político”.

Porém esse governo teria de ser aprovado no Parlamento, onde, em conjunto, M5 e Lega têm maioria. Derrotado o novo governo, também antes de assumir, o Parlamento chamaria eleições antecipadas para julho. Luzes amarelas (vermelhas, jamais) se acenderam um Bruxelas, sede executiva da União Europeia, em Estrasburgo, que divide com a capital belga ser a sede do Parlamento Europeu, e em Frankfurt-am-Main, sede do Banco Central Europeu e do Banco Central Alemão, seu vizinho: uma eleição em julho poderia aumentar o poder de fogo da coligação M5 + Lega, ao invés de diminui-lo.

Resultado geral: o presidente italiano recuou, a coligação M5/Lega fez concessões e arranjos, e vai assim o governo.

Está dado o labiríntico imbróglio da democracia europeia, que vai perdendo cada vez mais seu emblema “social”. A pergunta que se impõe é: o que pesa mais nesta tentativa de “dobrar” ou “domar” o eleitorado italiano: a xenofobia prometida pelo programa do novo governo ou as heresias diante do neoliberalismo, como a promessa de uma renda mínima, além do aumento nas aposentadorias?

Há outras perguntas que se impõem. Houve casos semelhantes de “intervenções” em países do continente a partir das lideranças da União. Em 2011, Berlusconi foi praticamente “apeado” do poder por pressão da então dupla Merkel-Sarkozy. Mas Berlusconi tinha contra si seu comportamento, digamos, pouco ortodoxo em matéria de decoro do poder. Na mídia mainstream ninguém chorou.

Em 2015, o governo do Syriza, liderado  por Alexis Tsipras, na Grécia, teve seu programa de esquerda simplesmente pulverizado pela UE, sob o comando, desta vez, da dupla Merkel-Wolfgang Schäuble, este o implacável ministro das Finanças alemão. Mas a Grécia representa um percentual muito pequeno do PIB da União e do Euro. Não houve muitas lágrimas pela artilharia anti-Syriza na mídia mainstreamda Europa então.

Já a Itália é a quarta economia da Europa, a terceira da Zona do Euro e também a terceira da União no caso de se concretizar a defecção do Reino Unido, que até o momento parece inevitável, apesar dos esforços de Georges Soros no sentido de provocar um novo plebiscito a respeito.

Aliás, isto de plebiscito chama a atenção. Quando da constituição da União, planejada sob hegemonia de uma social-democracia autêntica e realizada sob uma hegemonia conservadora que engoliu os partidos social-democratas, realizaram-se plebiscitos em países recalcitrantes (como a França) até que o resultado fosse favorável à UE. Depois, adeus plebiscitos.

O exemplo mais uma vez vem da Grécia: Georgyos Papandreou, primeiro-ministro socialista do país, foi igualmente defenestrado em 2011 devido à pressão das lideranças da UE, por ter ameaçado fazer um plebiscito sobre o plano de “recuperação” econômica do país imposto pela União, pelo Banco Central Europeu e pelo FMI. Foi substituído pelo também tecno-burocrata Lucas Demetrius Papademos, ligado ao FMI, prova de que há plebiscitos que interessam e outros que não, e de que sempre haverá uma solução “técnica” à disposição da receita neoliberal.

Por outro lado, tem sido evidente a complacência, apesar das declarações tonitruantes, das lideranças da UE com governos de extrema-direita, como o de Viktor Orban da Hungria, ou o de Andrzej Duda e Mateusz Morawiecki na Polônia, além da política de avestruz diante dos desmandos de Mariano Rajoy e sua Guardia Civil na Catalunha.

Fica a pergunta sobre o cataclisma que aconteceria caso governos de esquerda assumissem o poder na Alemanha ou na França.

Conclusão: no mundo economicamente hegemônico do neoliberalismo, embora este não mais desfrute da hegemonia das ideias que teve no final do século passado, a democracia não é um valor “universal”, como ele mesmo gostava de apregoar, nem mesmo permanente.

Esta nova forma de “hegemonia”, diferente da do conceito clássico gramsciano – pois se impõe através da sua impulsão apenas dentro de uma série de agentes selecionados (como os golpistas brasileiros de um lado, ou dos tecno-burocratas europeus, ou ainda da “comunidade econômico-militar-midiática” dos Estados Unidos) –, se afirma a partir de sua dominação dos currículos em escolas de Economia, onde os jovens estudantes aprendem o beabá das coisas, assim como Tarzan aprendeu inglês nas cartilhas abandonadas na cabana de seu pai, para se sentir superior aos macacos que cuidaram dele depois do passamento daquele e de sua mãe, e tornar-se o seu “rei”. Exemplo: todo mundo é contra, mas tomem lá um aumento no preço da gasolina, seus babacas. Parente caiu, mas quem vai assumir?

Na Espanha renasce uma esperança: Rajoy cai, Sanchez, do Psoe sobe. Conseguirá fechar um governo com o Podemos?

Em resumo, em matéria de pensamento conservador, tem-se saudades de Winston Churchill, para quem a democracia era a pior forma de governo, “com exceção de todas as demais”.

Anúncios

0 Responses to “BRASIL, ITÁLIA, UNIÃO EUROPEIA: VOCÊS QUEREM A DEMOCRACIA PARA QUÊ?”



  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s




USAR O CONTROLE REMOTO É UM ATO DEMOCRÁTICO!

EXPERIMENTE CONTRA A TV GLOBO! Você sabe que um canal de televisão não é uma empresa privada. É uma concessão pública concedida pelo governo federal com tempo determinado de uso. Como meio de comunicação, em uma democracia, tem como compromisso estimular a educação, as artes e o entretenimento como seu conteúdo. O que o torna socialmente um serviço público e eticamente uma disciplina cívica. Sendo assim, é um forte instrumento de realização continua da democracia. Mas nem todo canal de televisão tem esse sentido democrático da comunicação. A TV Globo (TVG), por exemplo. Ela, além de manter um monopólio midiático no Brasil, e abocanhar a maior fatia da publicidade oficial, conspira perigosamente contra a democracia, principalmente, tentando atingir maleficamente os governos populares. Notadamente em seu JN. Isso tudo, amparada por uma grade de programação que é um verdadeiro atentado as faculdades sensorial e cognitiva dos telespectadores. Para quem duvida, basta apenas observar a sua maldição dos três Fs dominical: Futebol, Faustão e Fantástico. Um escravagismo-televisivo- depressivo que só é tratado com o controle remoto transfigurador. Se você conhece essa proposição-comunicacional desdobre-a com outros. Porque mudanças só ocorrem como potência coletiva, como disse o filósofo Spinoza.

Acesse esquizofia.wordpress.com

esquizofia.wordpress.com

CAMPANHA AFINADA CONTRA O

VIRTUALIZAÇÕES DESEJANTES DA AFIN

Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

_________________________________

BLOG PÚBLICO

Propaganda Gratuita

Você que quer comprar entre outros produtos terçado, prego, enxada, faca, sandália, correia, pé de cabra ou bola de caititu vá na CASA UYRAPURU, onde os preços são um chuchu. Rua Barão de São Domingos, nº30, Centro, Tel 3658-6169

Pão Quente e Outras Guloseimas no caminho do Tancredo.
PANIFICADORA SERPAN (Rua José Romão, 139 - Tancredo Neves - Fone: 92-8159-5830)

Fique Frio! Sabor e Refrescância!
DEGUST GULA (Avenida Bispo Pedro Massa, Cidade Nova, núcleo 5, na Rua ao lado do DB CIdade Nova.Todos os dias).

O Almoço em Família.
BAR DA NAZA OU CASA DA VAL (Comendador Clementino, próximo à Japurá, de Segunda a Sábado).

Num Passo de Mágica: transforme seu sapato velho em um lindo sapato novo!
SAPATEIRO CÂNDIDO (Calçada da Comendador Clementino, próximo ao Grupo Escolar Ribeiro da Cunha).

A Confluência das Torcidas!
CHURRASQUINHO DO LUÍS TUCUNARÉ (Japurá, entre a Silva Ramos e a Comendador Clementino).

Só o Peixe Sabe se é Novo e do Rio que Saiu. Confira esta voz na...
BARRACA DO LEGUELÉ (na Feira móvel da Prefeitura)

Preocupado com o desempenho, a memória e a inteligência? Tu és? Toma o guaraná que não é lenda. O natural de Maués!
LIGA PRA MADALENA!!! (0 XX 92 3542-1482)

Decepcionado com seus desenganos? Ponha fé nos seus planos! Fale com:
PAI GEOVANO DE OXAGUIÃ (Rua Belforroxo, S/N - Jorge Teixeira IV) (3682-5727 / 9154-5877).

Quem tem fé naõ é um qualquer! Consultas::
PAI JOEL DE OGUM (9155-3632 ou paijoeldeogum@yahoo.com.br).

Belém tá no teu plano? Então liga pro Germano!
GERMANO MAGHELA - TAXISTA - ÁGUIA RADIOTAXI - (91-8151-1464 ou 0800 280 1999).

E você que gostaria de divulgar aqui seu evento, comércio, terreiro, time de futebol, procurar namorado(a), receita de comida, telefone de contato, animal encontrado, convites diversos, marocagens, contacte: afinsophiaitin@yahoo.com.br

Outras Comunalidades

   

Categorias

Arquivos

Blog Stats

  • 4,195,807 hits

Páginas

junho 2018
D S T Q Q S S
« maio    
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930

Arquivos

Anúncios

%d blogueiros gostam disto: