Arquivo para dezembro \11\UTC 2017

SUL21: ‘EM MUITOS PAÍSES CIVILIZADOS, OS CONDUTORES DA LAVA JATO ESTARIAM PRESOS’, DIZ DESEM BARGADOR

Desembargador Lédio Rosa de Andrade: “Estão sendo feitas verdadeiras barbaridades sob o ponto de vista jurídico”. (Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado)

Marco Weissheimer

 O discurso emocionado feito pelo desembargador Lédio Rosa de Andrade, magistrado no Tribunal de Justiça de Santa Cataria, na sessão fúnebre em homenagem ao reitor Luiz Carlos Cancellier, ganhou repercussão nacional ao denunciar a implantação de uma ditadura no Brasil e a ameaça do retorno do fascismo no país. Em sua fala, o desembargador fez, ao mesmo tempo, um alerta e uma convocação para enfrentar essa ameaça: “Esta noite fiquei a pensar quando a humanidade errou e não parou Hitler no momento certo, quando a humanidade errou e não parou Mussolini no momento certo… Eles estão de volta. Será que vamos errar de novo e vamos deixá-los tomar o poder? A democracia não permite descanso. Eles [os fascistas] estão de volta. Temos que pará-los”.

Passados pouco mais de dois meses do trágico suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, a Polícia Federal segue realizando operações em universidades públicas, como ocorreu na semana passada na Federal de Minas Gerais e na própria UFSC, mais uma vez. “Não há dúvida de que existe um planejamento para atacar as universidades. A gente não sabe ainda até que ponto esse planejamento é consubstanciado em provas de uma série de crimes dentro da universidade ou é um planejamento para destruir a universidade”, diz Lédio Rosa de Andrade, em entrevista ao Sul21.

“Aliás”, acrescenta o desembargador, “a gente não sabe nem o que é a Lava Jato mesmo. Temos apenas hipóteses. O que se sabe é que há processos muito bem estruturados pela Polícia Federal para atacar a universidade”. No Brasil, afirma ainda o magistrado, “estão sendo feitas verdadeiras barbaridades sob o ponto de vista jurídico e das conquistas civilizatórias em termos de Estado democrático de Direito, com a complacência dos tribunais superiores. Considerando o que está sendo feito na Lava Jato, em muitos países civilizados do mundo, os condutores estariam presos por ofensa à ordem democrática”.

Sul21: Após a morte trágica do reitor Luiz Carlos Cancellier foram tomadas algumas iniciativas para apurar as circunstâncias em que ela ocorreu e a responsabilidade de autoridades envolvidas no caso. Qual o estágio atual dessas apurações?

Lédio Rosa de Andrade: A situação, na minha ótica, é horrível. Neste exato momento em que estou falando contigo [dia 7 de dezembro, quinta-feira], a Polícia Federal invadiu novamente a nossa universidade. Estamos vivendo, efetivamente, a volta de uma ditadura, diferente da de 64, mas uma ditadura. Não tem outra palavra para definir o que está acontecendo. Estão utilizando uma interpretação totalmente afrontosa à legislação penal para, coercitivamente, levar pessoas que nunca foram intimadas a depor em lugar nenhum. A lei é clara. Você só pode levar alguém em uma condução coercitiva se essa pessoa se nega a depor. A partir da Lava Jato a interpretação é de que o juiz pode mandar levar alguém em condução coercitiva ou prender e pronto.

Estão fazendo isso como prática corriqueira. Eu não posso negar que seja possível a existência de crimes dentro da universidade. Onde há seres humanos, evidentemente, podem ocorrer crimes. Agora, a forma como estão agindo, deliberadamente ostensiva e violenta, não tem justificativa na história de qualquer estado democrático de direito em qualquer parte deste planeta.

Sul21: Esta nova ação da Polícia Federal na UFSC se refere ao mesmo caso da anterior?

Lédio Rosa de Andrade: Hoje (7), a gente não sabe exatamente. Pelo que li na imprensa, a polícia declarou que não tem relação com o outro processo.

Sul21: Chama a atenção que ela ocorreu um dia depois de outra ação da Polícia Federal na Universidade Federal de Minas Gerais…

Lédio Rosa de Andrade: Não há dúvida de que existe um planejamento para atacar as universidades. A gente não sabe ainda até que ponto esse planejamento é consubstanciado em provas de uma série de crimes dentro da universidade ou é um planejamento para destruir a universidade. No Brasil, lamentavelmente, essas coisas ocorrem. Nós não sabemos o que está acontecendo. Aliás, a gente não sabe nem o que é a Lava Jato mesmo. Temos apenas hipóteses. O que se sabe é que há processos muito bem estruturados pela Polícia Federal para atacar a universidade. Vamos esperar para ver se esse ataque é justificável ou não.

Sul21: O senhor tem uma hipótese que considera mais plausível acerca da natureza da Lava Jato?

“O Supremo e o STJ estão avalizando práticas de primeiro grau que, evidentemente, são práticas ilegais”. (Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado)

 Lédio Rosa de Andrade: Não tenho. Não consegui até hoje compreender isso com clareza. Não gosto de fazer hipóteses sem um mínimo de fundamento. Não consegui ainda ver um fundamento concreto que explique o que está acontecendo. O que vejo é que as coisas estão acontecendo de forma errada. Considerando o que está sendo feito na Lava Jato, em muitos países civilizados do mundo, os condutores estariam presos por ofensa à ordem democrática. No Brasil, estão sendo feitas verdadeiras barbaridades sob o ponto de vista jurídico e das conquistas civilizatórias em termos de Estado democrático de Direito, com a complacência dos tribunais superiores. O Supremo e o STJ estão avalizando práticas de primeiro grau que, evidentemente, são práticas ilegais. Isso eu não consigo entender.

Sul21: O reitor da Universidade Federal do Paraná escreveu um artigo na semana passada lembrando que, em um ano, quatro das maiores universidades federais do país foram alvo de operações da Polícia Federal com agentes fortemente armados e grande repercussão midiática. Isso não parece ser uma coincidência…

Lédio Rosa de Andrade: Tudo indica que não é. Chama a atenção a forma como essas operações vêm sendo feitas, com policiais mascarados. Essas são situações incompatíveis com uma universidade. Por mais que a polícia tenha que usar máscaras para algumas coisas com o objetivo de salvaguardar o policial, nós estamos falando da universidade. Não é preciso invadir a universidade com policiais mascarados. Não precisa nada disso. Efetivamente, são coisas planejadas com o intuito muito claro de agredir a universidade, que é o que está acontecendo.

Sul21: Na sua fala em homenagem ao reitor Cancellier, o senhor disse que nós estaríamos vivendo a pior das ditaduras. Em que sentido essa seria a pior das ditaduras?

Lédio Rosa de Andrade: Todas as ditaduras são ruins. Não tem ditadura boa e ditadura ruim. Usei o termo “pior” no sentido das dificuldades para combatê-la. Quando uma ditadura é ostensiva, como as ditaduras militares que tivemos na América Latina ou ditaduras comunistas, onde o Estado é o agressor direto e visível, você sabe que ali tem um inimigo e a tendência é você se organizar para combater a violência ilegítima do Estado. Agora, quando a ditadura vem travestida de justiça, como se estivesse fazendo o bem e não o mal, para a maioria leva mais tempo para cair a ficha. Ela perdura um tempo como algo bom e legitimado. Uma ditadura que consegue, através de um discurso falso, de um discurso ideológico alienante e enganador, ter a complacência e até o aplauso da população é uma ditadura que não será combatida até que as pessoas se dêem conta de que foram enganadas. Por isso que eu digo que ela é pior. Está travestida de bondade, quando, na verdade, é pura maldade.

Sul21: Como integrante do Judiciário e professor de Criminologia na UFSC, qual a sua avaliação sobre o papel que o poder Judiciário vem desempenhando em todo esse processo? A maioria desse poder apoia as práticas que estamos vendo ou há uma disputa mais ou menos equilibrada dentro dele?

Lédio Rosa de Andrade: O que tenho dito, onde tenho tido espaço para me manifestar, é que o Judiciário, apesar de ser extremamente conservador e reacionário em alguns casos, ainda não tem uma maioria que compactua com os desrespeitos ao Estado Democrático de Direito. O que é assustador é que maioria do Judiciário está absolutamente silenciosa. O que está fazendo com que as pessoas se mantenham caladas assistindo a todas essas barbaridades que estamos vendo. Isso é difícil de entender. Eu não diria que a maioria dos integrantes do Judiciário tem uma postura ideológica fascista, como são fascistas essas práticas sobre as quais estamos conversando. Apesar de conservador, o poder Judiciário não tem uma maioria de membros fascistas. Ele tem uma maioria de membros conservadores, isso sim.

Sul21: Como o senhor definiria o papel que o Supremo Tribunal Federal vem desempenhando nesta conjuntura?

Lédio Rosa de Andrade: Na minha opinião, o Supremo está deixando escapar, inclusive simbolicamente, o resguardo irrestrito do sistema constitucional. No momento em que avaliza práticas que afrontam o Estado Democrático de Direito, como permitir a prisão das pessoas sem trânsito em julgado, em nome da agilidade da Justiça. Isso afronta a Constituição claramente. Não só isso. No momento em que o Supremo fica inerte diante do desrespeito de suas próprias decisões como, por exemplo, a súmula 11, que proíbe o uso de algemas salvo em situações onde a pessoa realmente represente perigo. Hoje, a polícia vai na universidade, usa a condução coercitiva de forma ilegal e o Supremo fica inerte, assistindo tudo isso pela televisão . Com isso, ele perde a sua capacidade de ser o guia brasileiro do respeito ao Estado Democrático de Direito.

Sul21: Na sua fala em homenagem ao reitor, o senhor também fez um alerta e uma convocação sobre a necessidade de lutar para enfrentar o retorno do fascismo no Brasil. Saindo da esfera exclusiva do Judiciário, na sua visão, como essas práticas fascistas estão se manifestando na sociedade?

Na homenagem ao reitor da UFSC, desembargador alertou para o retorno da ameaça fascista no Brasil. (Foto: Reprodução/Youtube)

Lédio Rosa de Andrade: O tema sobre o qual estamos falando é de grande complexidade. Para entendê-lo, é preciso ir passo a passo. Todo o Estado que passa por um processo de crise e que possui uma estrutura sociopolítica injusta, cria na população determinados devaneios que são até justificáveis em certa medida. A população que está submetida a uma estrutura injusta de vida, que passa fome e necessidades materiais básicas, ela acredita em qualquer coisa para enfrentar essa situação de penúria. Os valores do Estado Democrático de Direito não fazem parte da vida cotidiana de milhões de pessoas que vivem nas periferias. Essas pessoas não usufruem materialmente dos benefícios do Estado Democrático de Direito que garante os direitos individuais das pessoas incluídas. Já as pessoas excluídas não possuem, na democracia, um valor de vida e trocam com muita facilidade qualquer valor democrático por segurança e trabalho.

Se vem um aventureiro, que tem por trás dele toda uma estrutura fascista de modo vida mas promete segurança e trabalho, as pessoas aceitam isso. Elas não estão preocupadas em preservar os valores da democracia porque estão passando necessidades básicas mesmo. Eu não posso falar mal das pessoas que vivem nestas condições. Nós não passamos fome, vendo os filhos chorar por que não tem o que comer. O Brasil atravessa uma forte crise de injustiça social, que perdura por anos, e a população está aceitando, no âmbito político, propostas que sacrificam a democracia, prometendo algo que não vão cumprir.

Sul21: O senhor viveu o golpe e a ditadura que se instalou em 64. Há alguma comparação que se possa fazer entre o que aconteceu naquela época e o que estamos vendo hoje?

Lédio Rosa de Andrade: Uma das principais diferenças é a conjuntura internacional. A ditadura de 64 foi estabelecida no contexto da guerra fria com evidente patrocínio norte-americano. Foi um projeto mundial do sistema capitalista que foi implantando ditaduras nos países periféricos. Isso não existe mais com essas características. Mas o espírito fascista nunca acabou. Seguem existindo pessoas com pensamento autoritário que não convivem no seu cotidiano com os pressupostos do Estado Democrático de Direito. Isso segue vivo e está ameaçando voltar.

Sempre me preocupei mais com o cotidiano das pessoas do que com as teorias. Estas, muitas vezes não dão certo porque não levam em conta que, lá na ponta, estão seres humanos que vão agir ou não conforme a teoria. Milhares de pessoas têm uma estrutura de pensamento que é fascista mesmo. O ser humano, psiquicamente, se dá muito bem com a violência, gosta dela e a pratica com prazer. Estamos sempre convivendo com isso.

Sul21: Em 2018, em tese, teremos eleições. Considerando que elas ocorram numa situação de legalidade, em que medida, na sua opinião, elas podem levar a uma superação da atual crise política?

Lédio Rosa de Andrade: O sistema representativo da democracia ocidental nem sempre é uma garantia de mudança. O sistema eleitoral, para que tenha condições de mudanças, necessita de uma população que tenha condições materiais de decidir. Uma coisa é o que acontece na Islândia, por exemplo, onde o povo vai para a rua, derruba governo, impede o pagamento da dívida resultante da exploração do sistema financeiro e colocam uma jovem feminista para governar o país. Eles têm condições, sem rupturas maiores, de mudar o país por meio do sistema representativo.

Não acredito que o Brasil tenha condições de fazer isso. Obviamente não estou defendendo o fim do sistema representativo e das eleições, mas precisamos evoluir para que o nosso sistema representativo funcione de maneira onde as pessoas, de fato, tenham condições materiais, de conhecimento e de educação básica mínima para raciocinar e poder tomar uma decisão política sobre o que é melhor para o país. Se mantivermos um processo eleitoral marcado pela enganação, pelo engodo e falsas promessas, onde o dinheiro é o principal motor, não temos como esperar grandes mudanças.

Sul21: Passados pouco mais de dois meses da tragédia envolvendo o reitor Cancellier, qual é o clima dentro da UFSC?

Lédio Rosa de Andrade: Foi muito difícil fechar o semestre. As pessoas estavam muito abatidas em um ambiente de tristeza e desânimo totalmente distinto da história da universidade. Foi um semestre muito difícil. Agora, estamos em um momento de provas finais e de término de atividades. Muitos dos professores terminaram as aulas mais cedo. Eu fui um deles. Não tinha mais condições nem ambiente para seguir as aulas. Eu diria que ainda estamos vivendo um momento de forte impacto, onde não se sabe bem o que vai acontecer.

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MÁRCIO POCHMANN: A TERCEIRA FASE DO GOLPE DE 2016

O ALVO É LULA
Depois da deposição de Dilma e a implementação de um programa neoliberal, impedimento da presença de Lula nas eleições presidenciais de 2018 visa a subjugar de vez a política aos interesses do mercado
por Marcio Pochmann*, para a RBA. 
 
                                                    RICARDO STUCKERT

golpe antidemocrático

Sem eleições livres, o golpe antidemocrático se completa, com o Brasil submetido à ditadura dos interesses do governo do Mercado

O processo de secundarização da política no Brasil vem ganhando contribuições adicionais e decisivas desde a implementação do golpe de Estado que permitiu ascensão do governo Temer, em 2016. Na época da escravidão, recorda-se, o Brasil encontrava-se sob o comando dos interesses da Casa Grande e tanto fazia o partido vencedor nas eleições fraudadas da fase experimental da democracia censitária, uma vez que era a economia que governava a política.

Dessa forma, dizia-se que nada mais liberal que um governo do partido conservador, ou mesmo nada mais conservador que o partido liberal no governo. O povo estava de fora do orçamento do Estado tanto Absolutista na monarquia (1922-1889) como Mínimo da República Velha (1889-1930) que tinha orientação para os interesses econômicos dos ricos.

Nos dias de hoje, a Casa Grande ganhou ares de modernidade capitalista, pois foi substituída pela expressão interesses do Mercado. E, para tanto, o governo Temer tem-se esforçado muito para subordinar, cada vez mais, a política aos interesses do Mercado.

Nesse sentido, percebe-se, por exemplo, como a Emenda Constitucional 95 que foi estabelecida pelo condomínio de interesses que sustenta o atual movimento golpista, como os próximos cinco mandados presidenciais estão comprometidos pelos interesses do Mercado. Assim, pelas próximas duas décadas (2018-2028), as despesas públicas em relação ao Produto Interno Bruto deverão perder participação relativa, especialmente no caso dos gastos sociais.

Em contrapartida, o exorbitante comprometimento orçamentário com o pagamento dos juros da dívida pública, por situar-se distante do radar do Mercado, manteve-se intocável, somente contido na contenção das despesas voltadas ao interesse do conjunto da população, sobretudo dos pobres. Os chamados porta-vozes do Mercado, bem como demais infiltrados nos meios de comunicação, consultorias e outros profissionais a disposição da disputa ideológica capitalista, repetem à exaustão que o povo não cabe no Orçamento.

Em não podendo se estabelecer o recurso revogatório das medidas adotadas por Temer, os governos, eleitos ou não a partir de 2018, tenderão a ser mera expressão da secundarização da política aos interesses do Mercado. Dessa forma, o regime democrático, se existente, substituirá a sua essência de representação popular pela mera aparência, tal com observado nos períodos da Monarquia e da República Velha.

Sem o poder do voto popular, a eficácia da democracia se reduz, impedindo que a maioria do povo posa decidir diferentemente dos interesses do Mercado. No tempo da escravidão, o povo estava de fora do regime censitário, capaz de aceitar apenas a participação eleitoral de homens, ricos e alfabetizados. O que significava uma participação de algo equivalente a menos de 1/10 da população.

Já se sabe que o governo Temer esvazia a presença dos pobres no orçamento público, com diversas mudanças nas políticas públicas para conter o gasto público operacional, não financeiro. Mas, para, além disso, ele também procura inviabilizar o poder do voto popular contrário aos interesses do Mercado.  

Pelo golpe de Estado do ano passado, a presidenta Dilma, democraticamente eleita, foi substituída por Temer que, sem voto popular e contrariando a maioria da população, promoveu o retorno das políticas neoliberais. Com a Emenda Constitucional 95, retirou o poder do voto popular sobre os próximos cinco presidentes a serem eleitos, pois não terão a possibilidade de escolher onde poderão comprometer os recursos públicos, salvo aqueles de interesses do Mercado.

Atualmente, após as duas fases do movimento golpista identificadas pela deposição da presidente Dilma e pela implementação das políticas neoliberais, avança-se para a sua terceira fase, com o movimento liberal-conservador em torno do impedimento da presença de Lula nas eleições presidenciais de 2018. Sem eleições livres, o golpe antidemocrático se completa, com o Brasil submetido à ditadura dos interesses do governo do Mercado e à política enquanto marionete da economia que funciona como um fim em si mesmo. Não um meio de elevação do padrão de vida do conjunto da população.

* Professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho, ambos da Universidade Estadual de Campinas.

FILÓSOFA MÁRCIA TIBURI DECLARA SEU CONTENTAMENTO COM LULA COMO POLÍTICO ENGAJADO COM A DEMOCRACIA

TEREZA CRUVINEL: LULA ALINHAVA PROGRAMA:RESERVAS SERÃO USADAS PRA INVSTIMENTO

Ricardo Stuckert

O discurso de Lula aos intelectuais e produtores culturais com quem se reuniu neste sábado no Rio foi resumido pela mídia numa frase: “Moro é do mal”. Muito mais, porém, disse o ex-presidente sobre sua caminhada para voltar à presidência da República, apontando inclusive algumas linhas de seu programa de governo, que segundo ele será elaborado com a participação e colaboração de vários segmentos sociais.  “Vamos falar ao coração das pessoas, vamos falar à alma das pessoas. Eu vou descobrir o ponto G da vontade dos brasileiros para consertarmos este país”.  Uma das linhas de ação apontada foi o uso de uma parte das reservas cambiais brasileiras – que hoje somam US$ 370 bilhões – para que o Estado possa retomar sua capacidade de investir. Outra novidade veio na afirmação de que, além de distribuir renda, é preciso acrescentar a distribuição de riqueza.

Confira algumas partes da fala de Lula.

Por que ser candidato novamente?  –  Lula recordou que, em seu segundo mandato, a bancada do PT chegou a defender a aprovação de uma emenda, do deputado Devanir, permitindo que ele disputasse um terceiro mandato.  “Eu não quis porque não acredito em democracia  que tem alguém imprecindível ou insubstituível”.  Apoiou Dilma e se recusou a dizer-lhe, como alguns queriam, que ela teria um mandato tampão,  porque ele iria voltar em 2014. “Tenho a consciência tranquila de que agi corretamente com ela”, disse acrescentando. “Eis que, este jovem que vos fala, não acha que tem 72 anos de idade mas sim, 30. Foi a desgraça que aconteceu a este país que  me convenceu. Até agora não entendi tudo o que aconteceu, desde aquelas manifestações de 2013.  O golpe não começou em 2015, começou a ser tramado muito antes.  Muita gente achava que a Globo estava sendo solidária com o pessoal do Passe Livre.  Então a Globo resolve até tirar a novela do ar para transmitir manifestações. Gente, a Globo não tirou novela do ar nem quando o Roberto Marinho morreu!  Ali começava um  movimento para questionar o governo. Nós subestimamos o fato de que a burguesia não tolera ver o povo da senzala subindo um degrau. Então, era preciso dar um golpe”.

Diferentemente de outros golpes, disse Lula, o de 2016 foi feito com uso de uma anestesia forte, tais como as usadas em grandes cirurgias.   “Eles anestesiaram o povo brasileiro e a gente até hoje não acordou desta anestesia. Levará tempo para que os trabalhadores entendam, por exemplo, os efeitos da reforma trabalhista”.

Lava Jato e condenações –  O combate à corrupção foi um dos ingredientes da anestesia disse Lula, passando a contar seus entreveros com a Lava Jato. Inicialmente ele achava que a Policia Federal, quando começasse a investigar as denúncias, veria que não tinham procedência e interromperiam os inquéritos. Mas eles continuaram. “Então passei a acreditar que os procuradores, esta aristocracia que governa o Brasil, aqueles meninos tão preparados,  quando examinassem os processos pediriam arquivamento,  mas as denúncias foram feitas”.  Referindo-se ao power point do procurador Dellagnoll, lembrou ter ele dito que o PT foi criado para atuar como organização criminosa, chegar ao poder e roubar. “ Só ele pode acreditar numa asneira destas.  Só pode acreditar nisso quem sofre de uma demência incurável. Por fim, disse acreditar que Sergio Moro, ao julgá-lo, iria querer passar à História como juiz justo e imparcial, e iria absolvê-lo.  Foi aí que disse:  “ Mas, ele é do mal, bicho. Ele aceitou.  Levei 83 testemunhas  de defesa.  As que levaram, de acusação, também me absolveram. O apartamento  não é meu. Eles sabem que não é meu mas mesmo assim ele me condenou a 9 anos e meio de cadeia e a pagar uma multa de 16 milhões. Faz três anos, gente, não são 3 dias, que leio todo dia. “Agora vão prender o Lula”.  Eu não tenho mais nenhuma razão para acreditar que vivemos num Estado de Direito”.  E mais adiante, voltando ao assunto:  “Eu não tenho medo deles. Tenho honra e vou provar minha inocência.  Quero fazer uma  campanha sem tocar nestes assuntos.  Não quero ser candidato para ficar discutindo o  Moro mas os problemas do país,  que precisa voltar a funcionar, que precisa voltar a crescer”.

Para consertar o Brasil – Nesta parte, Lula esboça algumas das linhas de seu programa de governo para consertar o Brasil, caso volte à Presidência:

“Não e difícil consertar o pais. Tenho uma máxima.  A melhor política econômica que você pode fazer para o país crescer  é incluindo o pobre na economia.  Foi isso o que fizemos e é isso que precisa ser feito.  Estão fazendo tudo isso, cortando investimentos e vendendo o patrimônio nacional com o argumento de que a dívida pública está muito alta, aproximando-se de 70% do PIB. Então, o negócio é aumentar o PIB. É fazer investimentos. Por que não pegar uma parte das reservas, transformar em reais e começar a investir? O Estado tem que ser o indutor do crescimento.  Foi o que fizemos a partir da crise de 2008. Aumentamos as obras do PAC, pegamos R$ 100 bilhões do compulsório e colocamos no BNDES para garantir investimentos, para evitar que a economia parasse e viesse a recessão.  O que não dá é para fazer o que estão fazendo. Vendendo tudo o que pais tem. Eles querem vender tudo.  Daqui a pouco não teremos nem dinheiro nem patrimônio. Esta é a coisa mais lesiva que estão fazendo.”

Mais adiante, ao falar da necessidade de inovar no programa de governo, apontou outra linha de ação que ultrapassa a natureza conciliadora de seus governos anteriores.

“Vamos falar em distribuição de renda mas agora vamos usar  uma palavra a mais: Distribuição de riqueza. A renda vem do salário, e cresce quando os salários crescem. Mas é preciso também redistribuir a riqueza, que está na terra, na moradia, nas riquezas nacionais que estão entregando”.

Não avançou mais sobre o tema mas é uma novidade.

O tom da campanha – Lula deu algumas pistas sobre como pretende conduzir a campanha desta vez, ao dizer à plateia.  “Quero fazer um convite a vocês. Lembram quando eu disse que sou uma metamorfose ambulante?  Pois é, gosto muito de ouvir, gosto de aprender, estou com a orelha caída de tanto ouvir.  Nós precisamos apresentar uma proposta nova para este país. Eu quero ouvir todo mundo, sobre todas questões. Vamos voltar a nos reunir  para discutir sobre cultura,  educação, pesquisa, ciência e tecnologia,  sobre tudo.  Vamos juntar todo mundo e formular.   Vamos tentar fazer as coisas de um modo diferente. Se ganharmos, vamos executar. Temos de propor coisas que sejam compreendidas pelo povo. Já ouvi dizer que intelectuais, com vocês, são 100% razão. Eu digo que todo ser humano é 30% razão e 70% emoção. Precisamos falar ao coração das pessoas. Elas vão entender. Vamos falar à alma das pessoas.  Eu vou encontrar o ponto G da vontade do povo brasileiro para mudarmos este país”.

O mercado – Lula repetiu o que já disse sobre a resistência do mercado a sua candidatura. “Estou ouvindo a velha conversa de que o mercado está com medo do Lula. E será que estão acreditando no Bolsonaro?  Eu não conheço o mercado. Não sou candidato do mercado, ele que se adapte”.

Desafio de governar – Lula começou sua fala aos intelectuais lembrando que “política não se aprende na universidade. É algo que você faz com as forças que tem, no momento que tem”.  Que o ideal, em política, é ganhar a presidência, fazer maioria na Câmara e no Senado. Infelizmente, mas isso não acontece. E aí, para governar, é preciso ter maioria nas duas Casas, e para isso é preciso fazer alianças programáticas.

Lembrou que as alianças erradas costumam cobrar um preço, e aqui deu uma estocada em Dilma, afirmando que em 2014 era contra manter a aliança com o PMDB. Seu empenho vinha sendo para manter a aliança com o PSB de Eduardo Campos, que seria o vice, e agora poderia estar sendo candidato a presidente com apoio do PT.  Deu no que deu, disse ele, por conta de vários problemas pelos quais muitos são responsáveis.

Mandou um recado também para os que cobram um programa mais à esquerda desta vez.  “Este negócio de esquerda e direita, se for necessário ser esquerdista, posso ser mais do que muita gente. Agora, não sou burro. Não sou principista. Se quiser ser principista, melhor não entrar na politica. Quando você está fora, você diz “eu acredito”, “eu penso”, “eu acho” etc. Agora, quando você está lá dentro, tem que escolher. Ou você faz ou não faz.

Por fim,  falou sobre a situação enfrentada pelo Rio de Janeiro, de sua vontade de ajudar o Rio a se reerguer, terminando com a defesa da candidatura do ex-chanceler Celso Amorim a governador, que estava presente e foi aplaudido, mas não chegou a se declarar como tal.  

INSTITUTO LAWFARE: O LAWFARE DOS INIMIGOS DA DEMOCRACIA USADO CONTRA LULA E O BRASIL

Facebook de Cristiano Zanin, advogado de Lula.

‘O NEOLIBERALISMO NÃO SÓ REDUZ PROTEÇÃOES COMO CRIA SOFRIMENTO PARA AUMENTAR A PRODUTIVIDADE’

CHRISTIAN DUNKER
“Quanto mais baixo na escala laboral, mais exposto à pasteurização do seu sofrimento pelos novos regimes de produtividade”, avalia o psicanalista e professor da Universidade de São Paulo
por Glauco Faria.
 
 
Christian Dunker

“As narrativas de sofrimento têm a ver com decisões políticas de quem queremos reconhecer e como”

“Não mais o medo e a inveja, e sim o ódio e de certa forma o ressentimento que se tornaram a moeda básica para se falar nas diferentes gramáticas de sofrimento no Brasil.” Essa é uma as ponderações do psicanalista e professor da Universidade de São Paulo Christian Dunker sobre o momento atual do país. Ele concedeu entrevista à RBA e também abordou temas como a infantilização dos comportamentos no debate público e a passividade de parte da sociedade diante da retirada de direitos.  

“A gente tem vergonha de ser enganado. De ter entrado em uma ‘conversinha’ e depois perceber que em nome da redução da corrupção, um princípio do qual ninguém diverge, fomos levados a decisões altamente contrárias ao que as pessoas comuns pensam”, avalia Dunker.

Segundo ele, já tivemos um “neoliberalismo mitigado” em outros períodos, mas a Era Temer inicia uma forma generalizada, onde o chamado princípio geral não está mais em discussão. “E o princípio geral é muito interessante porque podemos pensar o neoliberalismo como uma gestão premedita do sofrimento”, afirma.

Confira abaixo a entrevista.

Queria começar pelo seu livro mais recente, Reinvenção da Intimidade – Políticas do Sofrimento Cotidiano, que parte da premissa de que o sofrimento, embora vivido no sujeito, requer e propaga uma política. Como podemos usar esse conceito para ajudar a explicar, por exemplo, a situação política do Brasil hoje?

Esse trabalho dá continuidade a Mal-estar, sofrimento e sintoma: Uma psicopatologia do Brasil entre muros, onde tentei usar a noção de sofrimento para pensar um período mais amplo de formação da subjetividade no Brasil, notadamente a partir do pós-ditadura. Esse trabalho, Reinvenção da Intimidade, volta à noção do sofrimento, uma noção dependente dos dispositivos de reconhecimento, e aí contamos o Estado, aparelho jurídico, imprensa, até o reconhecimento pela comunidade, e as formas discursivas do reconhecimento. As narrativas de sofrimento têm a ver com decisões políticas de quem queremos reconhecer e como, qual tipo de sofrimento queremos dar visibilidade e qual queremos tornar invisível.

Acho que a questão fundamental desse novo livro é a ideia de que há formas de sofrimento que geram uma transformação, de si ou do outro, de si ou do mundo, e há formas de sofrimento que mantêm as coisas como elas estão. Indo para uma questão mais específica, temos uma mutação de afetos ligados ao sofrimento, não mais o medo e a inveja, e sim o ódio e de certa forma o ressentimento que se tornaram a moeda básica para se falar nas diferentes gramáticas de sofrimento no Brasil.

Quando você fala em duas formas de sofrimento, uma que transforma e outra que contribui para a estagnação, como é possível identificar uma e outra?

Vamos pensar na narrativa do romance. O romance clássico é uma investigação sobre causas, partilhada, coletiva, entre leitor, escritor e sua época, sobre qual é o regime de causalidade vigente naquele processo transformativo. A identidade do mundo, da pessoa, requer um trabalho para se manter, não é estática. Se você parar de fazer isso o mundo desmonta, a gente desmonta também, e às vezes acontece. Por exemplo, processos depressivos ou de pânico, angústia estão marcados por eu não conseguir contar mais a minha história, ela parece postiça, desatualizada, não chega mais no outro que quero que reconheça essa história.

Histórias transformativas têm esse sabor de novidade, tentam trazer uma certa consonância com uma interpretação do nosso tempo, do tempo em que aquela forma de sofrer está se sucedendo. Não posso dizer assim “isso está acontecendo porque Deus quis”. Isso é uma narrativa um pouco antiga. Dessa maneira, se uma coisa acontece porque Deus ou a natureza ou porque forças ocultas quiseram, qual a chance de eu interferir nesse processo? Muito pouca. O que vou ter que fazer é convocar uma narrativa que vai provocar em mim um processo de aceitação. O que às vezes é muito importante, ter um ponto que estabelece politicamente aquilo que a gente pode e quer aceitar.

Um sofrimento que desencadeia processos transformativos é aquele que envolve um certo enigma em relação à causalidade, não sabemos porque as coisas estão desse jeito, então podemos propor novas versões de mundo e novas versões de nós mesmos. E nesse processo inventamos outros mundos, outros nós mesmos e outras formas de sofrer.

Esses sofrimentos, desse ponto de vista, se relacionam com a nossa própria identidade e a forma com que partilhamos isso. Como hoje, na sociedade brasileira, temos uma parcela da população tão refratária a compartilhar sofrimentos de segmentos sociais como as diversas minorias excluídas de direitos?

Temos uma coisa que [Jacques] Lacan chama de tempo lógico. Em dados momentos percebemos nosso atraso. Como deveríamos ter feitos coisas lá atrás e não fizemos, e agora a conta chega e chega duplamente. Como uma atualização, mas também com o passivo que ficou atrás. Por muito tempo fomos complacentes com retóricas como a de que o negro ganhar menos não é uma fonte de sofrimento, tem motivos históricos, sempre foi assim… Ou o fato de nos relacionarmos com o sofrimento da mulher e dizer tem que ela tem que ficar quieta e calada, se virar sozinha, aceitar certos modos de violência. Isso foi se instituindo por tempo demais e agora temos uma espécie de onda retida que vai dizer: “olha, precisamos ajustar as contas com isso”.

Vale também para o homem, com aquilo de que homem não chora, é viril, lida com seus problemas sozinho, não admite pedir ajuda… Isso é uma questão de saúde pública, os homens não procuram o médico e aderem a um tratamento porque existe uma forma de sofrer masculina que rejeita, por exemplo, o exame de próstata porque vai ofender sua virilidade. Coisas ridículas que têm a ver com o atraso nas modalidades de sofrimento ligadas à condição de raça e de gênero.

E temos ainda um passivo muito forte relacionado ao sofrimento etário. A sensibilidade que temos com o sofrimento da criança é muito curiosa no Brasil. Por um lado, somos super sensíveis, “em nome da criança o Brasil vai se transformar, o berço esplêndido etc”, por outro lado, objetivamente deixamos crianças em estado de sofrimento por falta de alimentação, por falta de educação, por falta de cuidados básicos. Esse discurso não transformativo sobre o sofrimento da criança tem a ver com inações políticas. Portanto, precisamos escutar o sofrimento de nossas crianças de maneira diferente, e temos que fazer o mesmo com as pessoas da terceira idade.

O decisivo para o próximo ano, que vai ser agudo, é o sofrimento de classe. As interpretações que temos sobre o sofrimento de classe estão anacrônicas. O Brasil realmente se transformou, teve uma mobilidade social muito intensa, depois uma regressão violentíssima e estamos em um momento de anomia porque não sabemos o que fazer com o sofrimento de classe. Quem melhor está capitaneando isso não são os partidos, mas as religiões, que estão organizando de uma maneira – para o bem e para o mal – a insuflar mais ódio ou mais temperança e reconciliação em torno dessa mobilidade social que ainda foi incompreendida no Brasil.

Você falou dessa questão dos sofrimentos distintos e, em relação ao sofrimento da terceira idade, por exemplo, me remeteu a uma novela da Globo em que a neta tratava mal os avós durante toda a história. No final, seu pai a agride fisicamente em função disso e as pessoas vibram. Ou seja, a situação é resolvida com violência. O brasileiro está acostumado a enxergar a violência, de todos os tipos, como solução de uma forma geral?

É uma solução prêt-à-porter, que está à mão, quando não sabemos qual a causa do problema, recorremos à violência.

O exemplo é ótimo. Primeiro, porque fala de como as novelas no Brasil têm um papel fundamental na fixação de nossas narrativas de sofrimento. Daí a importância, mesmo que a gente vá criticar e ponderar, quando temos alguém com Síndrome de Down em uma novela, ou um transgênero, ou a situação da terceira idade, porque isso exemplifica o meu argumento de que a gente olha para aquilo e pensa: “nossa, mas essa pessoa sofre, nunca tinha pensado nisso”. Enxerga o que não se via antes.

Voltando para o ponto crucial, o que acontece quando nossas narrativas de sofrimento ficam muito simplórias, do tipo carrascos e vítimas? É a pulverização de nossas modalidades de sofrimento como se conseguíssemos reconhecer apenas uma por vez, como se fossem excludentes e concorrendo entre si. E o capitalismo por todos, o universal devorando a todos.

Essa impossibilidade de a gente se reconciliar e compor discursos comuns, não só narrativas, mas entroncamentos de narrativas que se associam, se compõem, é urgente para definir o que vai ser o Brasil depois de 2018.

Fizemos uma entrevista com o professor de Direito Constitucional Geraldo Prado que disse, em alusão a alguns atores da Operação Lava-Jato, mas não só a eles, que “na ficção infantil não existem resultados irreversíveis, justamente porque é uma ficção; na vida como ela é, em que as instituições funcionam, em que as pessoas atuam, em que uma decisão de prisão vai ser cumprida e uma pessoa vai ser encarcerada, não existe ressuscitar depois da morte como no jogo infantil.”

Ou seja, um dia na prisão, que seja, é algo irreversível e se torna uma mácula, como vimos no caso do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina Luiz Carlos Cancellier. Você vê uma sociedade brasileira hoje infantilizada, como se as pessoas encarassem às vezes a realidade como se fosse um filme ou videogame?

O exemplo da Lava-Jato é interessante porque acusa a ridícula simplicidade, a mediocridade com a qual lemos problemas complexos como a corrupção no país, a decadência da representatividade, do registro político. Para lidar com cenários altamente complexos como esses – e opacos, as pessoas não conseguem entender como funciona o poder – recorre-se a narrativas do tipo tem mocinhos e bandidos. De que lado você fica, petralhas ou coxinhas?

É incrível como essas narrativas simplificadoras pegaram carona na linguagem digital, que agora compreende essa participação massiva dessas pessoas que estavam excluídas, que não se sentiam produtoras das narrativas de sofrimento, apenas reprodutoras, e agora se sentem compartilhando. Quando há um número muito grande e muito novo de pessoas e questões altamente complexas em que se você fala mais de três parágrafos vira um “textão”, ninguém vai ler, se torna invisível, vira um afunilamento para dicotomias, para um emburrecimento, uma perda de qualidade discursiva que é o próximo desafio que temos pela frente.

Uma pesquisa recente mostrou que havia uma diferença grande no percentual de eleitores de Jair Bolsonaro entre aqueles que tinham acesso à internet, onde ele obtinha maiores índices, e os que não tinham. É possível inferir também que essas novas linguagens amplificam um segmento que talvez seja menor do que se imagina ou que as redes sociais, por exemplo, estimulam todo um discurso em torno do ódio?

Estimulam, mas, diria assim, sem demonizar essa nova linguagem, ressaltando que ela é nova, ensina a gente a tomar posição, a amar, a pensar politicamente, ensina a gente a sofrer. A disputa pela existência na rede, como lugar de reconhecimento acaba provocando uma redução do conflito a posições muito simples onde todo mundo pode reiniciar a conversa e se posicionar. Narrativas muito simples de sofrimento historicamente tendem ao conservadorismo, à segregação, ao preconceito, à simplificação dos processos de reconhecimento, narrativos e de transitivismo.

Aqueles que não estão na rede estão divididos em dois subgrupos. Os leitores clássicos, bem informados, e os antigos excluídos, que estavam excluídos de toda informação, e aí o que vale são as narrativas comunitárias, que em um certo sentido são mais complexas do que a que temos nas redes, porque são capazes de manter um pouco mais de estoicidade, de diversidade.

O neoliberalismo não só reduz as proteções mas descobre que pode criar premeditadamente sofrimento para aumentar a produtividade das pessoas

E no caso, por exemplo, dos haters da internet, quando se defrontam pessoalmente com alguém que escolheram odiar, muitas vezes não conseguem reproduzir o mesmo comportamento praticado nas redes sociais. Isso não seria, talvez, não por simples covardia, mas por ser muito mais fácil odiar um perfil ou um personagem do que alguém de carne e osso, ali na sua frente?

É um fenômeno conhecido, uma relação inversa que a gente tem entre a paranoia projetiva, de pegar um perfil, um estereótipo, uma imagem, e depositar ali todos os nossos fantasmas. O que não consigo admitir em mim, coloco nesse demônio, projeto nesse outro que representa o grande mal. É o esquema, por exemplo, da homofobia: não aguento minhas próprias fantasias homossexuais e começo a inventar, projetar coisas naqueles que acho que são homossexuais.

Essa paranoia trivial, sistêmica, que vemos também nas instituições, tem um tratamento que é simples, mas não operacional, que é a pessoalidade. Você chega com aquele seu monstro criado em seu condomínio privado e coloca para conversar com um petista real, um negro real, um homossexual real e a pessoa vai dizer: “não, mas não é com você que estou falando”. Inclusive muitos preconceituosos se defendem do seu preconceito dizendo exatamente isso, “eu tenho uma empregada doméstica, que adoro, e ela é negra, não posso ser racista”. Porque não tem a ver com a relação pessoal, tem a ver com a forma como lidamos com o outro impessoalmente.

“Ah, mas então é um mundo de ilusões.” É verdade, mas são ilusões extremamente perigosas porque a partir de determinado momento elas começam a tornar esse inimigo imaginário real. Se você tratar um negro que você vê na rua de uma forma segregatória, mesmo que em silêncio, em pequenos gestos, o que vai acontecer? Ele vai sentir isso e começar a responder. De forma justa. Daí se fecha um ciclo de projeção e reação à projeção que gera o caos que vivemos no momento.

E o silêncio em determinados momentos como quando um coronel da PM de São Paulo diz que trata as pessoas de forma diferente nos Jardins e na periferia, e as pessoas dos Jardins não se manifestam em relação a algo que devem julgar como natural, quem mora da periferia em um motivo concreto para odiar alguém dos Jardins…

Exato. Vai-se dualizando e segmentando nossas relações de ódio projetivo ao ponto de no final voltar a uma situação de solidão, de isolamento, de fragmentação, de perda de qualquer relação de pessoalidade e intimidade com o outro. Isso é extremamente perigoso do ponto de vista político, mas também do ponto de vista clínico. Depois de um tempo há uma epidemia de depressão, de pânico, de sofrimento, por exemplo, que se discute muito hoje na escola e nas universidades, com índices crescentes de suicídio, de abandono de se estar dentro de uma sala de aula. Por quê? Por onde está entrando o gás venenoso? É isso que nos atinge a todos enquanto uma experiência de perda do comum, uma experiência de, digamos, industrialização e operacionalização do sofrimento.

O policial que diz isso está dizendo indiretamente: com o sofrimento da periferia, lido de um jeito; com o do Jardins, de outro. O cidadão da periferia vai dizer: esse cara dos Jardins é meu inimigo, porque o meu sofrimento concorre com o dele, para onde vai a polícia, o dinheiro, a proteção. Armou-se a guerra e depois vão ser colhidos os frutos da administração dessas modalidades de sofrimento.

Dentro do seu conceito da lógica de condomínio que impera no Brasil, ela retroalimenta a cultura de ódio das redes sociais, uma fomenta a outra?

Nesse ponto faria uma revisão do meu livro anterior. Esse trabalho no fundo é um estudo sobre a degradação, sobre a ineficácia e inadequação da cultura do condomínio. Porque quando você estava no condomínio, você acreditava no muro, o muro o defende, se tem dinheiro, está tranquilo, tem suas câmeras, seus sistemas de segurança… Agora, as pessoas do condomínio não estão tranquilas, seja pelo universo virtual, pela convulsão que tomou conta das famílias, por outras modalidades de identidade que estão em jogo nessa nova conversa, que não é mais sobre quem está fora ou dentro do condomínio. O condomínio se tornou uma estrutura arcaica, que não dá mais conta da nossa realidade social.

Não adianta mais, com seu inimigo ou com aquele que você projeta sua impotência e irrelevância, colocar um muro entre você e ele. A coisa chega pelo ar, pela rua…

Essas diversas formas de violência física, simbólica, que temos hoje mostram a ineficácia dos muros.

Não dão conta, mas as pessoas constroem muros. Estivemos em uma intervenção clínica em Belo Monte, com os refugiados da construção da barragem, os ribeirinhos, e foi muito impactante. A pessoa que sai de uma ilha, dentro do rio Xingu, que tinha um modo de vida de coleta, de pesca, é desalojada brutalmente pelo Estado e vai para um assentamento urbano e não sabe mais quem é seu vizinho da frente. O que ela faz? Constrói um muro. Investe nesse negócio apesar de ele não estar funcionando.

E o fato de não haver mais o sentido de comunidade piora essa situação.

Piora. Mas o sentido de comunidade pode ter uma inflexão meio conservadora. Então qual é a solução? Vamos voltar à noção de família, de bairro…

Se você não faz o luto pode cair na melancolia, na depressão, na indiferença, no “eu não quero mais saber”. O que é o nosso suicídio fundamental

E é nisso que as igrejas investem fortemente hoje.

E prosperam porque isso se mostra eficaz de alguma maneira. Precisamos inclusive reinventar a interpretação do que é religiosidade no Brasil. Não é mais o esquema clássico de religiões afrodescendentes, espiritismo para a classe média, catolicismo com suas diferentes variedades como ponto de unificação… Não funciona mais. Entre outras coisas porque estamos às voltas com outro tipo de comunidade, de comunitarismo, outro tipo de experiência do comum.

E, para contrabalançar o que tinha dito antes, aí a linguagem digital é extremamente potente. Porque ela cria realmente comunidades virtuais que têm efeitos reais nunca antes vistos. Só que isso implica a gente pensar outra maneira de possuir coisas, especialmente simbólicas, de partilhar essas mesmas coisas, que estão sendo pesquisadas, inventadas, não apenas pelas religiões, mas também por outras formas de estar junto.

Entrevistei há alguns anos o falecido psicanalista José Ângelo Gaiarsa e ele dizia que por cinquenta dos, àquela altura, 82 anos dele, de 6 a 8 horas por dia só ouviu queixas familiares em seu consultório, falando que a família era muito falada, mas muito mal cuidada. Hoje, com essas novas tecnologias, o trabalho também não ocupa um lugar, se não semelhante, próximo também como causador de sofrimento e males psíquicos?

Temos uma hipótese com a qual estamos trabalhando há dois, três anos no Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP, de que há uma mutação de política de sofrimento ligada ao neoliberalismo, pensando o neoliberalismo como um momento específico do nosso modo de trabalhar, de gerir a produção e o consumo, que nasceu nos anos 1970 e 1980 e está chegando e se estabelecendo mais amplamente no Brasil agora. Já tivemos “namoros”, impasses, um neoliberalismo mitigado, mas a Era Temer inicia um neoliberalismo generalizado, onde o princípio geral não está mais em discussão.

E o princípio geral é muito interessante porque podemos pensar o neoliberalismo como uma gestão premedita do sofrimento. É o caso do Jack Welch, 10% dos funcionários de uma empresa vão ser demitidos. O que você cria com isso? Medo. Sofrimento dentro do trabalho, porque com esse sofrimento você faz as pessoas produzirem mais. Isso as leva para um estado de impotência a longo prazo, mas a curto prazo faz tirarem de si mais do que conseguiriam em estado normal de pressão e temperatura, em um Estado de Bem Estar Social.

O sofrimento faz mal para o trabalho. O neoliberalismo não só reduz as proteções mas descobre que pode criar premeditadamente sofrimento para aumentar a produtividade das pessoas. Isso tem a ver com trabalho intermitente, desregulamentado, inclusive com ideais sociais de conseguir trabalhar e se engajar em profissões, empresas, que tenham políticas alternativas para isso. Os nossos garotos estão ponderando muito entre se querem trabalhar em um regime de sofrimento gerenciado ou em um trabalho em que vão ganhar menos, mas conseguir ter mais realização pessoal, falar, serem reconhecidos, e isso está atingindo o neoliberalismo por dentro.

O sistema em que você faz a pessoa sofrer para vinculá-la ao trabalho tem limites e se aplica melhor a quem está fora, está excluído, despossuído, que no Brasil é o trabalhador de call center, do Uber, em um segundo sentido, que é quem vai ser explorado ao máximo, porque vai entregar sua força de trabalho, sua força de sofrimento, e vai ser explorado até o fim e depois trocado por outro grupo de pessoas. Quanto mais baixo você está na escala laboral, mais exposto vai ficar à pasteurização do seu sofrimento pelos novos regimes de produtividade.

Isso é uma loucura, é autodestrutivo e gera aumento de sofrimento sintomático, transtornos mentais e tudo o que Lacan chamou e analisou a partir da ideia do “mais de gozar”, produzindo uma civilização de adictos.

Tivemos a reforma trabalhista, antes a lei da terceirização, uma série de direitos retirados ou ameaçados e a discussão em torno de uma reforma da Previdência. Todas essas medidas altamente rejeitadas pela população, como mostram as pesquisas, e vindas de um governo, segundo os mesmos levantamentos, tido como o mais impopular da história. Como explicar a passividade das pessoas diante disso?

Boa pergunta. Vergonha. A gente tem vergonha de ser enganado. De ter entrado em uma “conversinha” e depois perceber que em nome da redução da corrupção, um princípio do qual ninguém diverge, fomos levados a decisões altamente contrárias ao que as pessoas comuns pensam.

O que acontece quando a gente é enganado? A gente sente vergonha. E a vergonha é um afeto extremamente transformativo, potente, muito mais potente que a culpa porque a culpa você faz a penitência e pode pecar de novo. A vergonha paralisa. Inibe. Diz assim: “não vou voltar mais lá, não quero saber desse assunto, não quero opinar sobre esse ponto, não quero mais saber de política”… É o que está acontecendo. Você entrega a coisa para a barbárie. Há um sentimento – e a gente escuta isso no divã, na cultura – de uma coisa impronunciável. O que a pessoa vai dizer? Vestiu a camisa da seleção, bateu panelas… E não são idiotas. Não são pessoas de má-fé, mas estavam acreditando no que estavam fazendo e no momento seguinte percebem que seu tio perdeu o emprego, sua filha não tem mais educação, que não vai mais se aposentar, e o que a pessoa vai dizer? “Ah, fui enganado, estou com vergonha disso.”

Muito difícil, especialmente no Brasil praticar este ato simbólico. A gente passa anos para tentar fazer uma pessoa aprender isso, que é voltar atrás. “Olha, eu pensava de um jeito e agora penso de outro, e sim, me deixei levar”. Você não é um idiota porque volta atrás, porque pede desculpas, mas no Brasil inventamos esse jeito e a vergonha, em vez de me reposicionar, fazer com que me reinvente, produz inibição, silenciamento, passividade, faz com que as pessoas se retirem da conversa e não que permaneçam com outra posição.

Isso vale tanto para a direita como para a esquerda, e durante anos boa parte dela olhava para o que estava acontecendo e dizia que não estava, mas vamos apoiar. Essa vergonha acumulada implica em descrença, dificuldade de implicação…

E uma das piores atitudes, até do ponto de vista psicanalítico provavelmente, é um outro chegar para essa pessoa, envergonhada, apontar o dedo e dizer “eu não falei?”

Aí o que acontece é a realização da fantasia do envergonhado. O outro está gozando da sua vergonha, daquilo que você mesmo não faria de novo hoje. Como vai se fazer uma reconciliação sem que isso seja tipicamente vivido como o Brasil faz, com o apagamento de conflitos?

Para fazer as pazes vamos ter que negar o conflito e aí não vai acontecer nada de novo, o que é um pouco a história do Brasil, desde a redemocratização.

Quando conversamos anteriormente, em 2015, você disse que parte dos fatores que explicava o início da crise política foi o fato de não se fazer o luto da derrota. E uma das maneiras de não fazer o trabalho do luto é suprimir os afetos, que resultaram nessa onda de ódio. Depois do impeachment, você acha que isso pode se repetir em 2018?

Acho que essa hipótese é ainda mais pertinente, mas o luto é de outro lado. A esquerda tem que fazer o luto. O luto de não ter se posicionado, ter corroborado com certas coisas, estamos unidos por uma espécie de perda dos dois lados que no fundo é a perda do Brasil, do que tínhamos em mente, seja de um lado, seja de outro.

Freud descrevia o luto em três tempos. Primeiro, você tem que admitir que perdeu. Segundo, é preciso pesquisar o que se foi com a perda, o que foi embora com essa pessoa que me deixou, quais os traços, experiências, memória. Depois desse trabalho, você vai comprimindo, reduzindo a coisa, até que um pedacinho daquilo que foi perdido se integra dentro de você. E então segue a vida com aquela lembrança daquilo que você deixou para trás.

O que acontece quando a gente, primeiro, não admite que perdeu, não se dá ao trabalho ao que chamamos na teoria social do trabalho da crítica? Perdi porque não amei o suficiente, porque o outro não me amou, perdi e vivo isso como culpa ou como vergonha. Quando não fazemos isso, surgem respostas maníacas. “Opa, agora posso pular esse processo doloroso e vou para o último capítulo, inventar um estado total de felicidade, um início do zero, glorioso, eufórico.”

Esse é o perigo representado pelo populismo de direita, conservador. Parece que a nossa tolerância com o Temer imaginariamente tem a ver com isso. Mais um motivo para entender nossa vergonha, era uma euforia com um negócio que era péssimo. Mas quando não fazemos um luto, vem a mania. Esse é um quadro em que venceria alguém que conseguisse capitalizar melhor a mania, mas acho que não vai vir. Não teremos uma eleição maníaca, é mais possível que tenhamos uma eleição depressiva, que é a segunda patologia do luto. Se você não faz o luto pode cair na melancolia, na depressão, na indiferença, no “eu não quero mais saber”. O que é o nosso suicídio fundamental, você e seu amigo dizem isso, mas o pilantra vai dizer “vão embora, seus deprimidos, porque vou continuar aqui empreitando o Estado a meu favor, fazendo o que sempre fiz com menos gente enchendo a paciência”. Esse seria um cenário péssimo, de desistência, mas que está de certa forma se anunciando.

A saída mais interessante seria se conseguíssemos ter um candidato que não é o novo, que é o maníaco, e que não é o velho, que está na depressão e não saiu disso, mas alguém que fizesse uma espécie de síntese das duas coisas. O que sobrou das nossas desilusões? O que aprendemos com essa guerra? O que sobrou nas ruínas? Ninguém está olhando pra isso, nossa política é esquecer a história e aí vamos repetindo.

E o que tem nas ruínas, pra você?

Tem o “fora do condomínio”, as bicicletas, a reocupação do espaço público… Esquecemos, mas tivemos a ocupação das escolas. Que tal olhar para o ensino de qualidade, para fazer acontecer? Tem o SUS, um projeto mundial, sem precedentes, uma aventura gigante do Brasil. É algo que está nas ruínas. Se não levarmos os pedaços das ruínas e reconstituirmos como um bom luto deve fazer, vamos ficar entre a mania e a depressão.

VENEZUELA REALIZA ELEIÇÕES MUNICIPAIS NESSE DOMINGO

  - Créditos: Eneas De TroyaSaiba quem é a candidata que está se destacando na disputa da mais importante da prefeitura do país

Fania Rodrigues

Brasil de Fato | Caracas (Venezuela)

Depois de meses de enfrentamento político, os venezuelanos estão tendo a oportunidade de decidir nas urnas quais os partidos e setores políticos vão governar as 335 prefeituras do país. A eleição municipal que é realizada neste domingo (10) é a terceira do ano, depois da Assembleia Nacional Constituinte, em julho, e as regionais para governador, em outubro. 

Entre as prefeituras mais disputados estão algumas localizadas na Grande Caracas, como o município Libertador, que abarca todo o centro da capital venezuelana, onde estão os principais órgãos do Estado, inclusive o palácio presidencial de Miraflores.

Nesse município quem lidera as pesquisas de opinião pública é uma jovem mulher, dirigente do movimento cívico-militar Frente Francisco Miranda. Érika Faria, de 45 anos, foi eleita deputada constituinte esse ano e nos últimos meses desempenhava o cargo de chefe de despacho da Presidência da República. Uma pesquisa eleitoral feita pela empresa Un Exit Poll, aponta 52% da intenções de votos favorece à candidata do partido socialista PSUV. Já a candidata opositora Maribel Castillo, do partido opositor Avançada Progressista, aparece com 38%, e Eduardo Samán, do Partido Comunista da Venezuela (PCV), tem 7, 5% das intenções de votos.

“Érika Faria representa a mulher lutadora, é um exemplo de feminismo. Esteve com o ex-presidente Hugo Chávez desde o início. É como se fosse uma filha de Chávez”, diz assistente social Maria Briceño, uma das 50 mil pessoas que assistia ao ato de encerramento de campanha no centro de Caracas na tarde de quinta-feira (7).

Segundo o integrante da direção nacional da Frente Francisco Miranda, Samuel Velazco, as mulheres venezuelanas aumentaram sua participação na política nos últimos anos e que Érika Faria representa esse setor que vem ganhando espaço nas bases da organizações. “75% das representantes de organizações sociais do país são mulheres. Além disso, 43% do total de candidaturas é composto por mulheres. O que mostra a força delas nessas eleições”, destacou Samuel Velazco.

Os partidos opositores optaram por lançar também uma mulher, a deputada da Assembleia Nacional, Maribel Castillo. Embora os principais partidos políticos da oposição, como Ação Democrática, Primeiro Justiça e Vontade Popular, tenham anunciado que não participariam das eleições municipais, muitos de seus militante e até dirigentes são candidatos através de partidos menores. Esse é o caso dos candidato do município de Chacao, Gustavo Duque, e de Baruta, Darwin González. Os dois são quadros históricos do Primeiro Justiça, um dos mais radicais partidos opositores.

Um total de 16 partidos participam da eleições municipais, entre eles quarto grandes organizações opositoras ao governo Maduro, entre elas estão Avançada Progressista, Copei, Un Nuevo Tiempo e Podemos.

Cada eleição uma batalha

Quem caminha pelo centro de Caracas, setor de maioria chavista, sente a diferença entre os municípios mais abastados onde a maioria é opositora ao governo de Nicolás Maduro. De um lado a agitação política, uma multidão na rua e todo fervor de uma campanha chavistas. No outro extremo da cidade, calmaria, uns poucos cartazes nas ruas e cabos eleitorais, que parecem sair de agência de modelo, distribuem santinhos nos sinais de trânsito e nos estabelecimentos comerciais. Duas maneiras de fazer política que definem a  conjuntura política e a divisão de classes do país.

“Para nós, chavistas, uma eleição é como uma batalha, porque aqui a gente tem que lutar por tudo, inclusive contra poderes estrangeiros”, explica Samuel Velazco enquanto caminha para a praça Diego Ibarra para escutar a Erika Faria pela última vez antes da eleição.

Para os observadores internacionais, que chegaram à Venezuela essa semana para acompanhar mais um processo eleitoral, importante é garantir um sistema transparente, onde cada um desses setores terão oportunidade manifestar sua vontade através das urnas.

“O importante é que a Venezuela tem um sistema eleitoral que é absolutamente seguro. Hoje isso é um consenso entre as pessoas, estudiosos, que estão aqui”, afirmou o observador brasileiro, o jornalista Paulo Moreira Leite, do site Brasil 247. Ele também falou de suas impressões sobre a realidade venezuelana. “Minha primeira impressão ao chegar na Venezuela foi que, mesmo enfrentando uma guerra econômica e uma sabotagem, o povo está dando um exemplo de resistência. A gente vê pessoas com dificuldades, mas tem uma política as favorece”, disse o jornalista brasileiro.

50 observadores de 19 países vão acompanhar as eleições venezuelanas no próximo domingo. Para a estadunidense Herlinda Hernández, esses estrangeiros que verão de perto como funciona cada etapa do voto, auditoria e apuração têm como obrigação de dizer ao mundo a verdade. “Não vamos ser apenas observadores, mas também temos que ser multiplicadores da verdade sobre a Venezuela”. Segundo ela, o sistema venezuelano “é mais avançado e democrático” que aquele aplicado no seu país.

Edição: Simone Freire


USAR O CONTROLE REMOTO É UM ATO DEMOCRÁTICO!

EXPERIMENTE CONTRA A TV GLOBO! Você sabe que um canal de televisão não é uma empresa privada. É uma concessão pública concedida pelo governo federal com tempo determinado de uso. Como meio de comunicação, em uma democracia, tem como compromisso estimular a educação, as artes e o entretenimento como seu conteúdo. O que o torna socialmente um serviço público e eticamente uma disciplina cívica. Sendo assim, é um forte instrumento de realização continua da democracia. Mas nem todo canal de televisão tem esse sentido democrático da comunicação. A TV Globo (TVG), por exemplo. Ela, além de manter um monopólio midiático no Brasil, e abocanhar a maior fatia da publicidade oficial, conspira perigosamente contra a democracia, principalmente, tentando atingir maleficamente os governos populares. Notadamente em seu JN. Isso tudo, amparada por uma grade de programação que é um verdadeiro atentado as faculdades sensorial e cognitiva dos telespectadores. Para quem duvida, basta apenas observar a sua maldição dos três Fs dominical: Futebol, Faustão e Fantástico. Um escravagismo-televisivo- depressivo que só é tratado com o controle remoto transfigurador. Se você conhece essa proposição-comunicacional desdobre-a com outros. Porque mudanças só ocorrem como potência coletiva, como disse o filósofo Spinoza.

Quer linha de corte? Este é esquizo. Acesse:

CAMPANHA AFINADA CONTRA O

VIRTUALIZAÇÕES DESEJANTES DA AFIN

Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

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