O CAPITALISMO É INCOMPATÍVEL COM A SOBREVIVÊNCIA DO PLANETA

No momento em que estudos demonstram a gravidade e a extensão dos danos ao meio ambiente, podemos confiar que o capitalismo irá reparar o que ele causou?


 

Jean-Jacques Régibier, L%u219Humanité

 
AFP

 
 
As más notícias sobre o aquecimento global e a degradação ambiental se acumulam a um ritmo alarmante desde o início do verão (no hemisfério norte) como uma avalanche de estudos científicos que levam ao mesmo diagnóstico: se medidas drásticas não forem tomadas muito rapidamente em escala global, parte do planeta corre o risco de se tornar inabitável em um curto espaço de tempo. Alguns estudos afirmam que já é tarde demais para uma correção de rota.
 
Amostra não exaustiva dessas crônicas de verão de uma catástrofe planetária anunciada:

 – Na revista Nature, o climatologista francês Jean Jouzel e um grupo de cientistas preveem que, se dentro de três anos, as emissões de gases de efeito estufa não forem estabilizadas, o planeta passará a outro tipo de clima com “consequências catastróficas”: aumento do número de mortes causadas pelo calor (em algumas regiões da França as temperaturas poderiam passar de 50°), incêndios, crescimento do número de refugiados climáticos vindos de regiões particularmente afetadas, como o Chifre da África, o Oriente Médio, o Paquistão ou o Irã (já existem 65 milhões de refugiados climáticos no planeta), além de menores safras agrícolas etc.
 
 – Um relatório elaborado por mais de 500 cientistas de mais de 60 países [2] mostra que o ano de 2016 baterá o recorde de temperaturas, de emissões de gases de efeito estufa, de aumento do nível dos oceanos e de terras sujeitas a seca.
 
 – De acordo com o climatologista americano Michael Oppenheimer, com a saída dos Estados Unidos do acordo de Paris, as chances de sucesso de implementação não passam de 10% (outros pesquisadores estimam em 5% das chances).
 
 – De acordo com estudo realizado por pesquisadores do MIT e da Universidade Loyola Marymount, o calor pode tornar o Sudeste asiático uma região inabitável antes de 2100.
 
 – Uma avaliação científica realizada em abril passado pela Unesco concluiu que, se as emissões de gases de efeito estufa não forem reduzidas rapidamente, os 24 recifes de corais considerados patrimônio mundial terão desaparecido até 2100. Para 20% deles, já é o caso.
 
 – No início de julho, um estudo realizado por pesquisadores americanos e mexicanos [3] mostra que o número de espécies de vertebrados na terra recua a um ritmo só comparável ao desaparecimento dos dinossauros, há mais de 60 milhões de anos. Os pesquisadores falam da “sexta extinção em massa” e analisam as consequências “catastróficas” dessa “defaunação” tanto para os ecossistemas quanto para a economia e a sociedade em geral.
  
 – De acordo com artigo da Science Advances, o derretimento das calotas polares na Groenlândia, região onde o aquecimento acontece duas vezes mais rápido do que no resto do mundo, vai se acelerar nos próximos anos. De acordo com um dos autores do estudo, Bernd Kulessa (College of Science, Swansea University), se o gelo desaparecer completamente, o nível do oceano subiri sete metros.

Para confirmar a tese do aceleramento do derretimento, há alguns dias, um navio gaseiro de 300 metros com a bandeira do grupo Total atravessou a passagem do Nordeste, geralmente bloqueada por bancos de gelo, sem a ajuda de um quebra-gelo. Este sonho de ligar o Atlântico ao Pacífico pelo Estreito de Bering, há muito tempo acalentado pelos petroleiros e também por países como a Rússia, agora é realidade.

 – Para coroar, um instituto de pesquisa internacional que analisa os dados fornecidos pela ONU [4] afirma que, desde o fim de julho, o planeta vive “a crédito”, isto é, a humanidade consumiu em sete meses todos os recursos que a Terra pode produzir em um ano. Circunstância agravante: esta data fatídica chega cada vez mais cedo.

Finalmente, ainda sobre o consumo, outro estudo diz que se todos os habitantes do mundo desejassem viver como um francês médio, seriam necessários três planetas Terra para atender suas necessidades.
 
Capitalismo responsável
Além de se sobreporem e se complementarem em suas constatações, os estudos também concordam em outro ponto: a explosão da produção e a exploração ilimitada dos recursos do planeta desde o início da Era industrial são as causas do desastre em curso. O fato de a situação ter se deteriorado rapidamente durante as últimas décadas comprova a tese. Essa aceleração está diretamente ligada ao desenvolvimento do capitalismo nos países emergentes e, mais amplamente, à extensão hegemônica deste modo de produção em todo o planeta. Lembremos que a China, o maior e mais rico dos países emergentes, também é o primeiro país emissor de gases de efeito estufa, logo à frente dos Estados Unidos, a principal potência capitalista mundial. “A lógica do crescimento vai ao encontro da autodestruição do sistema, é o que acontece quando confiamos a gestão dos recursos da humanidade aos interesses privados”, avalia o eurodeputado espanhol Xabier Benito (GUE/NGL).

É a mesma opinião de Daniel Tanuro, que lembra que, sendo o objetivo do sistema capitalista gerar lucro, não há alternativa senão substituir o trabalho vivo por trabalho morto para combater quedas no rendimento e, portanto, “aumentar cada vez mais rápido a quantidade de produtos, o que exige o consumo cada vez maior de recursos e de energia”. O ecossocialista repete: “O crescimento capitalista é a causa da crise ecológica, bem como do desemprego em massa permanente “. Por isso, Daniel Tanuro argumenta que é essencial vincular as lutas social e ambiental.
 
Também não há ilusão sobre o “capitalismo verde” promovido pela União Europeia internacionalmente. Para Daniel Tanuro, que dedicou um livro ao tema [5], “o capitalismo verde é um paradoxo”. “O que vemos hoje, na destruição que o capitalismo opera em todo o planeta é, pelo contrário, sua violência”, diz Eleonora Forenza (GUE/NGL), que explica, por exemplo, como o Sul da Itália se tornou o depósito de lixo do Norte.
 
Que alternativas?
Uma vez reconhecido que a via da “modernização” ou “esverdeamento” do capitalismo é um beco sem saída (assim como a promoção de valores “pós-materialistas” ou “pós-classes” que a acompanham), devemos afirmar claramente, analisa a historiadora Stefania Barca, que “o capitalismo é o problema”, e pensar a política a partir deste postulado, em termos novos em relação aos do século XX. “Onde podemos bloquear o capitalismo?” torna-se uma questão política central, explica Dorothée Haussermann, do Ende Gelände, um grande coletivo de organizações ambientais e grupos políticos que promove ações de bloqueio de minas de linhito e carvão na Alemanha. “O carvão é parte do problema do aquecimento global, devemos impedir sua produção. Temos de começar em algum lugar, cabe a nós tomar as rédeas do problema”, diz Dorothée Haussermann.
 
Em se tratando de mudanças climáticas, o que não falta é informação, observa Rikard Warlenhus (Left Party, da Suécia), mas persiste a sensação de que mudar o rumo das coisas está além das nossas capacidades. Porque, pelas razões que acabamos de ver, como observa Ernest Cornelia (GUE /Die Linke), “imaginar o fim do capitalismo é impossível”. Para ele, a questão é: “Como passar do estágio atual para a próxima etapa?”. Esta questão é ainda mais crucial porque, como explica Rikard Warlenhus, “as questões climáticas tendem a nos dividir”. Por exemplo, explica Dorothée Häussermann, “o movimento ambiental pode ser concebido como uma ameaça ao emprego”. Por isso, parte do movimento sindical se converteu ao “capitalismo verde”, embora seja evidente que o desemprego continua a crescer, e que muitos sindicatos ainda apoiem os combustíveis fósseis. “Uma dificuldade que deve ser imputada às três décadas de declínio do movimento operário”, analisa a historiadora Stefana Barca, sem esquecer que a questão causa divisões. Por isso, ela acrescenta, a luta ambiental deve ser concebida como “uma forma de luta de classes a nível global entre as forças do trabalho e do capital”. “
 
Reconhecendo a vitalidade das batalhas ambientais em todo o mundo, de formas e com atores tão diferentes, os participantes destacaram a necessidade de promover articulações entre todos esses movimentos e atores institucionais, quando for o caso (cidades e regiões, por exemplo), ou sindicatos, partidos, tudo isso no nível internacional. O objetivo é se posicionar “na mesma escala que o oponente”, como diz Rikard Warlenhus, “porque o capital extrapola a estrutura do estado nacional.”
 
O papel crucial das mulheres
Muitos analistas também apontam como ponto crucial o papel das mulheres na luta ambiental e social. Não se trata de dizer que seja bom que as mulheres participem em pé de igualdade com os homens (a igualdade entre homens e mulheres é um leitmotiv consensual de nossas sociedades, em geral não respeitado), mas de acentuar a contribuição específica, determinante e inovadora das mulheres enquanto mulheres, nas novas formas de combate. A deputada Eleonora Forenza (GUE/NGL) vê na mobilização que se seguiu ao desastre de Seveso, em julho de 1976, o evento fundador deste eco-feminismo. “As mulheres desempenharam um papel essencial ao exigir que se realizassem estudos médicos, pois as mulheres grávidas corriam o risco de gerar crianças com malformações. Elas também deram início à primeira campanha pelo aborto na Itália.” (O aborto foi legalizado no país em 1978, mas ainda é muito difícil de ser realizado). A contribuição das mulheres para o combate ecológico também é importante para Daniel Tanuro. Ele explica que “o lugar que o patriarcado atribui às mulheres lhes dá uma consciência particular”. Ele lembra que 90% dos alimentos dos países do hemisfério Sul são produzidos por mulheres, que estão, por isso, na ponta de lança dos combates atuais ligados à agricultura, à propriedade da terra, à poluição ou ao clima.
 
 (1)   Seminário no Parlamento Europeu em 27 de Março de 2017, Bruxelas
(2)   Publicado na revista Proceedings of the Natural Academy of Science (PNAS)
(3)   Publicado em julho pela Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA (NOAA) e pela Sociedade Americana de Meteorologia (AMS)
(4)   The Global Foodprint Network, Oakland, Califórnia
(5)   Daniel Tanuro, « L’impossible capitalisme vert », La Découverte.”
 
 Tradução de Clarisse Meireles

Créditos da foto: AFP

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