EUROPA: EM DEBATE, O QUE FAZER COM A SUÁSTICA…

KA

Por Flávio Aguiar, de Berlim, no Blog do Velho Mundo.

Tentativa da marca americana de recuperação ao menos comercial do símbolo foi alvo de críticas da opinião pública

Quando fui a Mumbai, na Índia, fazer a cobertura do 4º Fórum Social Mundial, para a Carta Maior, levei um susto: era suástica – aquela cruz nazista – pra todo lado. Inclusive no terreno do fórum. E nos espaços budistas, e hinduístas, e outros… Logo compreendi o que desconhecia até então. A suástica era um símbolo arquiantigo nas religiões do extremo oriente, datando de algo como quatro séculos antes de Cristo. E depois eu soube que estava presente entre os povos africanos, outros asiáticos, mesoamericanos…

Os nazistas tinham se apropriado da cruz porque queriam se apresentar como os legítimos descendentes nordeuropeus de uma criação fantasmagórica deles, uma raça ariana pura que habitara a Ásia mas migrara para a Europa. Graças a isso, teriam evitado os problemas que os que permaneceram na índia e arredores acabaram enfrentando e a eles sucumbindo, decorrentes da – aaaargh! – miscigenação, mistura, mestiçagem…

Mas ocorreram outros problemas. Europeus que lá estavam ficaram indignados com aquele exército de suásticas. Achavam que os indianos tinham de compreender que quem definia agora o significado da suástica eram eles, europeus, antidescendentes (claro, estávamos no Fórum Social Mundial, conhecido como The Porto Alegre Fórum, devido ao tempo em que esta cidade fora a capital do século 21 e tivera projeção mundial) dos nazis. E pensavam que os indianos deveriam banir as seculares suásticas de seus símbolos. Por quê?

Porque na Europa estava a verdade conceitual do mundo. Pelo menos assim pensavam eles.

Se na Europa se bania a suástica, então o resto do mundo tinha que bani-la também. Foi o caso mais complicado de eurocentrismo que acompanhei. Até porque inútil: na Índia, ninguém baniu suástica nenhuma. Ela era deles, não “deles”. E nos termos locais significava “bem-estar”, “bem ser”, “prazer”, “fraternidade”…

Agora, aqui na Europa, estamos acompanhando o mesmo problema pelo avesso. Uma empresa – conhecida como KA – lançou em julho uma coleção de camisetas adornadas com… a suástica! Alegavam que queriam devolver este símbolo a seu significado original: alegria e confraternização. Produziram até um vídeo a respeito, muito interessante. Mas… despertaram muita ira pelo caminho.

Claro: embora cercassem a cruz suástica com palavras como “Love”, “Peace”, associações judaicas e outras, atuantes no campo dos direitos humanos, protestaram com tal veemência que a empresa simplesmente retirou as camisetas do mercado.

O que há por trás de tudo isto? A ilusão de que definir o significado de algo é um empreendimento subjetivo. A condenação dos indianos pelos eurocêntricos era tão ilusória quanto a ilusão de que na Europa a suástica poderia ser bem recebida no século 21 – quando as cicatrizes do nazismo e até alguns de seus coevos ainda estão vivos. Ou seus filhos e netos. Três gerações, apenas, nos separam do fim da Segunda Guerra e das atrocidades nazis. É muito pouco.

Símbolos e palavras carregam seu sentido original sim. Mas se adequam, plasticamente, aos novos contextos onde aterrissam. Vejam o exemplo da palavra “nacionalismo”.

Na Europa, o liberalismo mainstream sempre a associa à direita. A esquerda também o faz. Nacionalismo na Europa quer dizer sempre xenofobia, exclusão, no limite racismo.

Mas… em que pese o eurocentrismo de muitos intelectuais d’aquém e d’além mar, na América Latina o significado da palavra é outro. Significa em primeiro lugar anti-imperialismo. E tem um ressaibo inclusivo, popular, esquerdista. Tanto que no tempo da ditadura, ao se falar dos partidários do general Albuquerque Lima, era necessário qualificá-los: “nacionalistas… de direita”.

A associação dos integralistas de Plínio Salgado com o nacionalismo se perdeu: ficou mesmo sua associação com os nazifascistas de então. “Nacionalistas” eram Getúlio e Brizola, Jango…

Outro exemplo: “populismo”. Na Europa, para o pensamento da mídia mainstream, que define o vocabulário básico do europeu comum, “populista” é tudo quilo que se afasta do liberalismo. “Populistas” são, igualmente, a direitista Marine Le Pen e o trabalhista Jeremy Corbyn, o proto-fascista Viktor Orban da Hungria e Die Linke, a agremiação esquerdista alemã. As esquerdas latino-americanas, tão variadas como na Europa, são todas mais ou menos populistas.

No nosso ambiente latino-americano, o “populista” da gema será sempre de esquerda. A palavra, tomada de empréstimo ao círculo europeu e estadunidense, serviu como qualificação depreciativa da esquerda pela direita. Mas hoje a esquerda até que a reivindica, embora ironicamente. 

Agora, nesta era que se inicia capitaneada por Gilmar Temer de Cunha, com a sombra de FH Neves Serra Alckmin de Doria, pode ser que tenhamos um “populista” de direita, para nossa mídia mainstream golpista e amiga das ditabrandas, em Bolsonaro, pai ou filho. A ver.

De todo modo, fica esta lição: o que pode ser bom para a Índia, nem sempre é bom para a Europa. E certamente vice-versa. Muito menos para a América Latina.

Em Berlim não faz o menor sentido vender camisetas com suásticas “paz e amor”. E na Índia não faz o menor sentido exigir que templos budistas antiquíssimos deletem de suas fachadas as suásticas, só porque um biruta financiado pelos banqueiros contra o comunismo definiu, no século 20, que elas seriam o símbolo de sua loucurália. 

Marca americana tenta “explicar”
sentido milenar da suástica para
justificar lançamento “ousado”


 

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"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

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