Arquivo de outubro \31\UTC 2007

CORTEJO NO ILÉ AŞÉ DO PAI-GEOVAŅO DE AJAGÙNNỌN

Atendendo a pedidos de leitores desse bloguinho, postamos aqui o primeiro trabalho que realizamos sobre o Candomblé, trata-se de um Cortejo, seguido de um toque no terreiro do Pai Geovano em 09 de junho deste ano de 2007.


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Foi lá na IV Etapa do Jorge Teixeira, já na extremidade com o Valparaíso. Começou com um almoço servido aos convidados, seguido de rezas e cantos como preparativos/produções para o acontecimento singular: o cortejo para levar Oxaguiã (Ògiyán) e seu ibá para o novo terreiro. Oxaguiã é uma das qualidades de Oxalá, “é um santo jovem e guerreiro, que luta pelo aparecimento de coisas novas e boas”, explica-nos o jovem candomblecista Douglas de Souza.

Após o cortejo, a energia dos candomblecistas continuou em cima, o batuque dos atabaques e a batida dos agogôs soaram no terreiro e puxada pela potente voz de Pai Geovano (ao centro, na foto acima) formou-se a roda de Candomblé: cerca de três horas de cantos, rezas e danças para louvação de vários santos do terreiro, enquanto a bandeja de delicioso mingau circulava como comida do santo para os convidados.

Depois de tudo isso, Pai Geovano ainda nos atendeu com simpatia e conversou com lucidez sobre alguns assuntos que dizem respeito às vivências candomblecistas: como, por exemplo, a desinformação que leva à formação de preconceitos e deturpações com relação ao Candomblé; sobre o trabalho dele e dos filhos em estudos e pesquisas, principalmente sobre a língua Yorubá presente nos rituais, para que possíveis distorções não venham afastar os favores dos santos; finalmente, sobre o que ele denominou de “obras sociais no terreiro”, afirmou que pretende utilizar o espaço para rodas de capoeira, diversos cursos para a comunidade, aulas de Afoxé (músicas e danças do Candomblé) e teatro.

Afinadamente, aproveitamos a ocasião para firmar a realização em próxima edição do vetor literário da AFIN, o “Phylum”, de uma entrevista com Pai Geovano para desenvolvermos estas e outras questões e ele abriu também as portas de seu barracão para este Afinsophiacontinuar com esse trabalho que vimos realizando aqui a respeito da religião do Candomblé.

A MÍDIA NÃO REFLETE A OPINIÃO PÚBLICA

A mídia é uma instância social comunicacional organizada por códigos lingüísticos conceituais, imagéticos e sonoros emanados das relações individuais como fatos consumados ou imaginados. Como instância democrática, transportadora de enunciados coletivos, ela é uma disciplina cívica. Sua práxis carrega considerações semióticas auxiliares à construção da rede de comunicação entre os indivíduos necessária à veiculação de seus saberes produzidos por suas faculdades perceptiva, cognitiva, sexual, imaginativa, volitiva, afetiva, etc, quando de suas experiências singulares. Em seu processo de comunicação, ela procura realizar, em sociedade, o feedback de suas mensagens imprescindíveis à lógica e à ética da realidade referencial dos indivíduos na construção de suas cidadanias. Seus direitos e deveres democráticos. Seu ato de informar se realiza como alternância entre o in=dentro (saído dos encontros fora) com forma=imagem: combinações de códigos do sujeito produtivo. O homem poiético. O criador de si em comunalidade.

A OPINIÃO PÚBLICA

Opinião salta da palavra grega Doxa. Como enunciado político, opinião é um comentário sobre um fato, objeto ou idéia nascido da práxis social dos indivíduos quando da construção de sua realidade histórica. Carrega como elementos opinantes uma força intelectiva. Algumas vezes ocultada pela imaginação. O que faz com que o fato, o objeto e a idéia não sejam atingidas como conhecimento. Entretanto, a opinião sempre sai de um processual coletivo. Jamais individual. Mesmo quando se mostra apenas como um enunciado imaginativo, força um desdobramento cognitivo como inteligência coletiva. As sociedades em suas multiplicidades produtivas tecem e movimentam suas próprias opiniões singulares. Daí se encontrar as variações de realidades expressadas nos juízos saídos das experiências destas sociedades. Já pública salta do latim publicus como enunciado político a potência de si, por si, para si. A potência democrática. Encontro das potências liberdades individuais voltadas à produção do Código Civil. A constituição dos direitos e deveres socializados como cidadania. A comunalidade. Daí a máxima: o que é comum em todos. Comum porque sai, é produzido e endereçado a todos. De sorte que aquele que se apossa do público é alienado a esse público. Portanto, um corrompido.

A MÍDIA SEQÜELADA

É possível situar a mídia brasileira nestes dois enunciados? Com toda boa vontade, não. Ela não é uma instância social portadora de códigos comunicacionais atuantes como disciplina cívica. Ela não processa elementos educacionais como auxiliares à produção de cidadania. Ela não compõe o público potência/comunalidade. Ela está para ele como alienação, corrompida, seqüelada. Seqüelada não porque sofreu a ação de um agente patogênico que lhe alterou a essência. Não. É seqüelada por se tratar de uma tara democrática. Seqüelada perceptiva, congnitivamente não vê o fora. Existe em suas dores. Sempre foi assim. Sua pathobiografia, sempre contrária ao público, confirma seu espírito seqüelado. Seu corpo/fonte constitui-se de agentes teratológicos emissores de aberrações opiniáticas dirigidas ao controle do receptor. Monstros sádicos/persecutórios cuja principal missão é impedir que a mensagem teratológica seja decodificada para a fantasia catastrófica continuar prevalecendo. Daí o abuso do significante/ecolálico em seus enunciados sonoros/imagéticos/gráficos. O discurso da imobilidade. Tudo muito bem planejado por uma engenharia psicótica. Por isso, sempre persegue metodicamente um personagem cujos desejos coletivos confluem. JK, Jango, agora Lula. Teratologizar Lula para enfraquecer os desejos coletivos é seu delírio maior. Seu delírio capitalista de mercado. Mas não consegue. Congregam-se em orações Mainardi, Reinaldo, Jabour, Clóvis Rossi, Noblat, Cony, Mitre, Catanhêde, Leitão, Jô, Hipólito, Josias… E nada. Transfigura imagens, clama aos raios e trovões… Nada. É impossível uma subjetividade imobilizada no infantilismo da superstição aprisionada teratologicamente por monstros nazi/fascistas refletir a opinião pública. É impossível uma mídia paralisada por sua seqüela cultuada compulsivamente alcançar o movimento produtivo da opinião pública. Então, só lhe resta os mimos monstruosos. Quis ser Mercúrio, mensageiro dos deuses, sem suspeitar que os deuses têm seus caprichos. Agora paga a ousadia de querer usurpar um trono para ser tomada como uma deusa da sensibilidade e sapiência. Glória da ignorância.

ENUNCIAÇÕES DAS ESQUERDAS DE MANAUS

Muitos equívocos os homens cometem seduzidos pelos signos lingüísticos. Tomam os enunciados pelo objeto, crendo ter alcançado seus corpos perceptivo ou intelectivo. Forjam existências, crentes em uma realidade irrefutável. Por elas lutam e morrem, mas nunca suspeitam do imaginativo/lingüístico. Definem-se como identidade inalterável. A identidade sem experiência do real que enunciam. Assim, definiram-se esquerda. Uma definição sem atuação. Não se é apanhado em uma experiência transformadora, mas por uma superstição lingüística. Brada-se: “Sou da esquerda!”. Nos últimos estertores da ditadura, aqui em Manaus, aconteceu muito disso. Muitos esquerdas resíduos castradores familiais. Ódio/amor pai/pastor/mãe complacente/marimacho projetados aleatoriamente. Como diria o filósofo Deleuze: muitos falsos drogados, falsos esquizofrênicos, falsos rebeldes escritores, atores, pintores…, tudo sem exame do real. A maior parte emergidos no fim de 70, quando ninguém era mais preso, e 80, menos ainda. Hoje, estabelecidos, continuam não suspeitando de sua esquerda. Não pensa direita e esquerda com Deleuze como percepção/ponto. A direita como um cartão postal. Parte de casa, chega a rua, o bairro, a cidade, o país, o mundo. Se tudo corre bem para si, lutará para assim permanecer: em sua casa cartão postal. A esquerda percebe no ponto/ horizonte. Caminha do distante periférico para a casa. Primeiro pensa o mundo fora. Lá no ponto/horizonte onde as políticas não chegaram. Lá onde não há vaidade e segurança burguesa, o que é próprio da direita. Muitos desses esquerdas são deleuzianamente direita. Eis porque é impossível as transformações pensadas por Marx acontecerem por aqui. Aqui brincou-se e brinca-se de esquerda. Até governantes direitas gostam de brincar de esquerda.

Pois bem, a razão deste esquerdismo enunciatório, deve-se ao comentário enviado a este bloguinho intempestivo pela filósofa, educadora e amiga Humsilka Amorim. Em seu comentário ela trata de um texto publicado por nós em maio com o título Parla! Parla! Lamento, onde examinamos os juízos do deputado estadual Eron Bezerra (PCdoB-AM), sobre os pronunciamentos do deputado federal Francisco Praciano (PT-AM) quanto à adesão do comunista ao governo de Eduardo Braga, um direita apresentado pelos direitas Amazonino e Gilberto Mestrinho, ex-governadores, e sua afirmação de ser o criador da esquerda no Amazonas. A filósofa, em seu comentário, rebate a afirmação do comunista e lista os nomes, para ela, atuantes na construção da esquerda amazonense. Para que nossos amigos blogueiros, principalmente os que ainda não leram, fiquem inteirados do texto, republicamos no afinsophia.blog.com e publicamos no afinsophia.wordpress.com. Assim como também o texto da filósofa…

Nietzsche diz que as ações dos homens são valorações apresentadas de duas formas: adotadas e refletidas. As primeiras, em maior quantidade, são transportadas na infância e conservadas na vida adulta. Negação do atual. A segunda, bem menor, é atualizada racionalmente na vida adulta. Embora ambas sejam antagônicas, nas práticas sociais elas se confundem e são confundidas. A filosofia apresenta exemplos concretos. O filósofo alemão Heidegger, ao ser questionado por sua participação como reitor no governo nazista de Hitler, se defendeu dizendo que cometera um erro. O filósofo francês Sartre, percebendo a armadilha lingüística/moral, defendeu-o, afirmando que o alemão cometera um equívoco. Erro e equívoco. O erro apresenta-se como efeito resultante de uma idéia adotada como única verdade possível em um território temporal. Uma estreiteza do pensamento. O equívoco, uma escolha variante em uma multiplicidade de idéias transportadoras de elementos virtuais imprevisíveis cuja atualização/futurante depende do entrelaçamento das variações das potências. No primeiro caso, a não realização apresenta um julgamento moral: sou culpado. No segundo, um convite a novos movimentos por outros territórios: idéias. Não há culpa. Há sempre um pensamento livre construtor. Pois bem (sem ser um bem), a ‘parla’ dos dois parlamentares, o camarada Eronildo Bezerra e o companheiro Francisco Praciano, no nosso humilde e restrito entendimento de manaura, é mais um lamento que fala dado o emaranhado de erros (auto-produzidos), em maior quantidade, e equívocos (menos importantes a ambos).

O camarada afirma — em cores sem o riso tese de Lênin, como via o filósofo Althusser e o humor de Marx que pertubava a burguesia — que construiu a esquerda do Amazonas pedra por pedra, tijolo por tijolo (cabe Chico Buarque: “Tijolo por tijolo num desenho lógico”. A lógica, uma criação do homem para tranqüilizar a consciência de quem teme o intempestivo). E os outros companheiros? Ricardo Parente, Sardinha, Rui Brito, Humsilka… Robinson Crusoe, solitário na ilha, cria seus objetos materiais tendo como referência sua memória-social, resultante de sua vivência coletiva. Mesmo a idéia de homem refletida em seu ‘caso’ Sexta-feira, se atualiza como coletiva. Confirma a história construída pelas forças sociais nos propósitos de Marx. O Eremita, solitário na floresta, diz ao Zaratustra de Nietzsche, que se recolheu por não suportar mais os homens. Todavia, continua pensando coletivo. Nada está posto só. Nenhum homem constrói sozinho. Mesmo ficção. O feito sozinho carrega a ilusão do Mito do Herói. Enunciação hercúlea. Um homem temeroso e esperançoso, diria o filósofo Spinoza. Nos mostram os norte-americanos: Homem-Aranha, 3000… Cristo, real e não metafísico, renegou. Desespero dos judeus. Poucos entendem. Em suas teses sobre Feuerbach, Marx, afirma que “o ser humano não é uma abstração inerente ao indivíduo isolado. Na sua realidade, o conjunto das relações sociais”. Marxistamente, infere-se que a propalada esquerda é uma mistificação.

A MORTE RONDA

O camarada lembra do perigo dos contestadores serem mortos. A última prisão no Brasil aconteceu em fins da década de 70: em Recife o ativista cristão Cajá. De lá para cá ficou por conta da nostálgica heroicidade. A truculência havia arrefecido lenta e gradualmente. Mesmo com os aparelhos de segurança ainda em função. Coisa que nenhum estado abdica. E a maior parte dos homens, também. Entretanto, sejamos justos com a prisão do ator Greco, comemorada entusiasticamente depois de uma manifestação pela Amazônia na praça da matriz. Fim de 70 e começo de 80, ser preso era a glória. Correr da força policial local e se esconder no ICHL, entre a Major Gabriel e Emílio Moreira, era o bicho. Metamorfoseia-se até em fato histórico das lutas populares em livro didático. As passeatas consentidas, clamando, historicamente, ao já anêmico refrão (que afirmasse Vandré): “Quem sabe faz a hora…”. O revolucionário chavão: “O povo unido jamais será vencido!”. Se a repressa ainda tivesse força para prender, torturar, e matar teria feito. Nada segura a irracionalidade. Nem herói. A subjetividade era outra. Lembremos João Batista de Figueiredo. Mesmo pedindo que o esquecesse. Nos parece que o camarada toma sua história como uma moralidade própria para comparar como superioridade sobre outras. Como um status de engajamento esquerdista chega a dar ordem ao companheiro para que ele deixe o PT, lembrando o tempo da ditadura com o seu: “Brasil, ame-o ou deixe-o!”. Ingenuidade duas vezes: a história de um homem só diz a ele: não serve para comparação com outras — são suas partículas corporais e incorporais que o conduzem ao ser social. As comparações de currículos nos remete ao patriarcalismo-fálico freudiano, com sua teoria da rivalidade genital em grande parte dos homens: todo homem é meu rival sexual. Por fim, tudo que aconteceu com um homem, como afirma Sartre, está tematizado. Não conta mais. O que conta são suas atualizações nos movimentos intensivos presente/futuro.

FRAGMENTAÇÃO DO MATERIALISMO

Se no caso não contar, contemos, pois, sobre o argumento crítico do camarada para defender sua participação e de seu partido no governo estadual (municipal também), com o camarada Lênin, em seu artigo de 1901, Por Onde Começar, quando se refere a situação semelhante dos comunistas amazonenses como “praticismo estreito”. Ou quando, em Que Fazer?, se opõe à crítica socialista daquele momento muito parecida com a hodierna: “Aqueles que não fecham os olhos, deliberadamente, não podem deixar de ver que a nova tendência “critica” no socialismo nada mais é que uma nova variedade do oportunismo”. Nos parece saltar do argumento um empirocriticismo e um neokantismo: puro Idealismo. Mistificação teocrática. Nada de Materialismo Histórico e Materialismo Dialético. Se Marx diz na Ideologia Alemã que “as circunstâncias moldam os homens, do mesmo modo que os homens moldam as circunstância”, até onde poderemos acreditar que os comunistas amazonenses moldarão o governo que servem sem o materialismo? Se mostrarão, no poder,os problemas que a direita procura sempre esconder(Deleuze). Ainda mais quando o camarada promete falar sobre o governo no devido tempo.

DA IGUALDADE CAMARADA E COMPANHEIRO

A igualdade não existe, mas como abstração, sim. Portanto… O camarada e o companheiro em dois momentos se mostram iguais. I–Momento: Quando falam de esquerda tomam como posição o conceito topos-anatômico-realeza: a esquerda do Rei. Não percebem que a esquerda faz parte do corpo possuidor da direita. Conjunção de partes-totalidade: a esquerda está ligada à direita. Faz até carinho. Unidade corporal. Daí a confusão: O que é esquerda? O que é direita? Não tomam o conceito do filósofo Deleuze, para quem esquerda é uma questão de percepção horizontal: o que encontra-se distante de mim. O que me compromete com o Outro em uma linha periférica, me obrigando ao contínuo movimento deviriano como potência de ser. Direita, a territorialidade imóvel: o que está em mim sem o Outro. Minha alienação. Meu Em-Si: nada me escapa, nada me sopra. Os meus quereres: prepotência, ambição, vaidade, egolatria, preconceito, reacionarismo, reconhecimento, capachismo, subserviência arrivista…

Fixado no conceito topos-anatômico-realeza, o companheiro afirma que as esquerdas estão ganhando espaço no Amazonas. Temos deputado, senador… A eleição de alguém está ligada à opinião valorativa do eleitor. O eleito foi Alfredo, não João Pedro. Como se diz: ele está senador por cortesia da lei eleitoral. Mas se dissermos que o ministro Alfredo é esquerda? Bem, aí o senador João Pedro é esquerda expansiva. Se um corpo rígido e o Manifesto Comunista no sovaco não faz o esquerda, pelo menos uma enunciação faz. II-Momento: Quando conceituam o talento de Márcio Souza. Em homenagem na Assembléia ao ex-membro do governo Fernando Henrique, o camarada considera sua literatura simples, fácil, de bom agrado. Inteligente. Se acredita analista literário por ser um privilegiado: ter lido mais de mil livros. Não se lê um livro, nem mil. Um livro é um devir-afeto não quantificado. Escapa como intensidade indivisível. Quando quantificado é um conglomerado de enunciados sobrecodificados do discurso da semiótica dominante. Envolvido em seus conceitos reconhecedores, não percebe que um escritor, como fala Foucault, escreve para perder o rosto. Não para ser reconhecido. Se perder nas hecceidades intempestivas, impessoais, nas zonas de indiscernibilidade. O que transforma o mundo. Ou Deleuze: “Todo escritor é uma sombra… Não pode haver narcisismo de uma sombra”. A melancolia do ritual acadêmico e as lágrimas do acadêmico ritualizado imortal. O rosto é do burguês. Um significante ecolálico. Uma vaidade capitalista. Uma estratégia de pôr o já posto. Vide: Paulo Coelho. Falar das massas, só com romantismo europeu. Nada de corte. Nada de ruptura. Só a glória desnarcisada. Lawrence, Beckett, Kafka não tinham rosto: não eram escritores. O companheiro, ufanista, pede que a Câmara Municipal outorgue um prêmio ao talentoso ajuricabano, por seu sucesso na Globo. Petistas enciumados protestam. Mas o companheiro tem razão: um escritor rostificado é para TV. Território nobre da dolência existencial. Ponto central das celebridades do Show voyeur do espectro possessão da mente. A crueldade inútil, para o cineasta Rossellini.

No mais, observando de longe nossas esquerdas diáfanas, respeitamos o que elas tomam como suas posições, pois compactuamos com Brecht: Todo homem se sente melhor em sua própria pele.


O TEXTO DA FILÓSOFA

Camaradas e companheiros que construiram a esquerda em Manaus através do movimento estudantil nuniversitário e secundarista: Francisco Wilmar (Autor de 3 Manifestos Socialitas, visando combater a ditadura militar e fazer a revolução), Jorge e Ivanete Machado (atuação política no sindicato dos jornalistas e no CREA/Arquitetura-Secretaria de Estado, que fez o projeto da nova Ponta Negra), Lilian Farias e Cristina Tolentino (titulares na EBN e Faculdade de Medicina-Diretório Acadêmico), Nestor Nascimento (líder do MOAM-Movimento Alma Negra), Guto Rodrigues e Orlando Farias (atuação no sindicato dos bancários e dos jornalistas), Laerte Aguiar (advocacia e magistério), Humsilka Amorim (Voz da Unidade e Dirigente do Comitê do PCB/Amazonas), Lúcia Cordeiro (atuação no sindicato dos jornalistas).

Outros: Nonato Pereira, Luiza Garnelo, Xisto, Ana, Dayse.

Secundaristas: Marivon, Marinelson, Pai da Mata, Carril, Pinto, Mara…

Companheiros: Marco Aurélio, Luis Marreiro, Marcos José, Ricardo Parente, Maciel, Beckinha, etc…
Vale um artigo sobre a construção da esquerda em Manaus, vale incrementar uma cultura oposicionista, vale relembrar velhos amigos.

Obrigada,

Humsilka Amorim – Filósofa e Professora

MANAUS: UM PASSEIO PELA NÃO-CIDADE

SAÚDE MENTAL

Um Olhar Sobre o Território Segmentado de Manaus

Diz-se, a repeito do Estado do Amazonas e sua capital, Manaus, que ficam numa região geográfica isolada por vias terrestres do restante do Brasil, pela Floresta Amazônica, patrimônio da Humanidade, segundo a ONU. Esta região sempre sofreu, de acordo com o discurso oficial, diversas limitações em termos de expansão territorial e econômica devido à preocupação com a preservação deste patrimônio natural . A partir da segunda metade do século XX, com a decadência do chamado ciclo da borracha, a região caiu num declínio econômico, do qual somente sairia, supostamente, com a criação da Zona Franca de Manaus, em 1967. Embora saibamos de todos os furos deste entendimento sobre o quadro econômico da região, esta é, em linhas gerais, a versão ainda aceita por alguns estudiosos e pela quase totalidade da classe constituinte dos poderes governamentais locais. A partir daí é possível compor um quadro que carrega algumas compreensões sobre a condição da saúde mental no Amazonas.

Uma compreensão: este conceito de economia, de estagnação, é próprio da subjetivação capitalista, e tem por objetivo consolidar o modelo econômico de relações que, num país em desenvolvimento como o Brasil, ainda carece de certas estruturas. Fica, portanto, a região amazônica, neste contexto de expansão do modelo de economia industrial, como uma região de dependência de outras áreas, conforme pode se verificar no quadro acima exposto. Dependência econômica, no capitalismo, significa ser ao mesmo tempo consumidor dos produtos industrializados de ponta, e fornecedor de mão-de-obra barata. Evidentemente que as relações não são apenas materiais, mas ultrapassam este domínio. Portanto, significa estabelecer uma estratégia de dominação onde esta relação de dependência se consolide nas mais diversas áreas da convivência humana. Manaus passou a ser um centro importador não só de gêneros alimentícios, mas de um modo de existência típico de setores mais avançados da economia capitalística. Importação de bens materiais, de enunciados, de ressentimentos.

Outra compreensão: uma das conseqüências mais mortíferas deste modo de produção de existência é que, a partir do processo de anulação das potências afetivas e de ação das pessoas, impede-se a construção de outras formas de subjetivação, e esta imposição discursiva-corpórea que se constitui como “única verdade” faz com que os corpos adoeçam, com que os afetos arrefeçam. Existir num quadro em que o corpo esteja preso a limitações estéticas e que os afetos sejam impedidos de se constituir como composições positivas é uma violência, e deixa suas marcas, seja nas inúmeras patologias que acometem o corpo (as doenças da modernidade), seja na tentativa de capturação dos fluxos revolucionários pelos enunciados normatizadores da Psiquiatria e da Psicologia, ou seja, a chamada doença mental.

A partir destas duas compreensões, é possível apontar dois processos que estão intimamente ligados à questão da saúde mental em Manaus.

Migração e Subjetivação. A ilusão de incremento econômico que a ZFM engendrou, trouxe também o processo de incentivo à migração (patrocinado pela farta propaganda veiculada pela classe parlamentar amazonense, principalmente nos últimos 25 anos, visando manter-se nos cargos eleitorais mais propícios à apropriação de recursos financeiros), sobretudo de cidades do interior de estados como Maranhão, Pará e Ceará. Estas pessoas carregam dos seus locais de origem formas de existir e de se relacionar com o outro e com as coisas. Isto se modifica profundamente quando da chegada à Manaus, e toma-se consciência do engano: terão de lidar com uma miséria ainda maior do que a de onde saíram (pois muitos venderam tudo o que tinham e gastaram suas economias na viagem), com o desemprego, com a fome, com a ausência de solidariedade, com uma situação inversa à toda propaganda governamental e de consumo que é veiculada nos meios de mediatização. O desespero surge como conseqüência do engano e da ausência de perspectivas que atinge a maciça maioria dos migrantes. Esta condição torna o terreno fértil para a proliferação do alcoolismo, da exploração pelas igrejas apocalípticas e da violência-ressentimento principalmente da juventude sem perspectivas. Processo semelhante ocorre em outras cidades e até outros países, como pudemos verificar recentemente na França, com o enfoque que recebeu da mídia o revide dos imigrantes, em sua maioria africana e do leste europeu, à constante violência e restrição que sofrem da sociedade e do governo francês. Tanto lá quanto cá, os representantes do governo constituído nada compreenderam, e respondem como de costume: mais violência.

Enunciados da Dependência. A atuação dos governos nos últimos 25 anos principalmente tem contribuído em muito para a proliferação desta subjetivação criadora de enfermidades do corpo e do existir. As políticas implementadas nas mais diversas áreas tem por interesse muito menos o desenvolvimento de lideranças e comunidades autônomas e capazes de compreender, discutir e resolver seus problemas do que engendrar a mercadorização dos serviços públicos e incentivar a concentração de renda. Na saúde, a absoluta falta de investimentos por parte dos órgãos competentes, a mudez e a paralisia política das classes profissionais envolvidas no processo (e que muitas vezes preferem mesmo a mudez, pois que mais ganham em termos de recursos financeiros com a falência da saúde pública), criam um estado de miserabilidade que em nada tem de comum com a propaganda oficial. Na educação, o sucateamento das estruturas, a adoção de uma concepção de educação tecnicizante, excludente do pensamento e da criatividade, adoradora da repetição e da obediência cega, subserviente aos melindres do mercado de trabalho, que infelizmente é compartilhada conscientemente ou não pela maioria da classe técnica e docente (formada numa universidade que aceita e dissemina esta mesma definição de educação, incapaz de compreender sua própria condição, que dirá promover uma ampliação do entendimento com a sociedade), e que tem como conseqüência a transformação das escolas em locais de expiação e humilhação. Nas assim chamada Cultura, a fomentação de uma classe de técnicos – que não são artistas – subalternos de uma visão segregadora e elitista (e em Manaus existe elite?) – que privilegia alguns, usando como critério a bajulação, o clientelismo, o nepotismo, ignorando que um artista é um agenciador de fluxos revolucionários, de afectos e perceptos, e que a arte deveria ser um devir comunitário. Na assistência social, promovendo o assistencialismo que fortalece a dependência e a baixa auto-estima, fomentando programas de atendimento aos chamados excluídos que não ouve, não vê e não compreende o quadro social em que vive e trabalha, aliado à psicologia, psiquiatria e outras áreas da saúde mental com a mesma perspectiva de controle social. Enfim, utilizando os mecanismos governamentais para fortalecer essa subjetivação da dependência, característica de um modo de produção pautado no discurso vazio. A própria compreensão sobre o que vem a ser a floresta, seja sob a perspectiva do turismo, seja a do protecionismo, a da maioria das ONG´s ecológicas, e a mesma concepção: entendem a floresta como uma abstração, um enunciado significante desprovido de materialidade. Resumem-se a repetir o discurso capitalista, que vê a floresta como mercadoria e, mesmo quando procuram defender e preservar, é como mercadoria, como objeto de consumo que o fazem. Pouco ou nada aprenderam com os povos nativos que, à época da conquista do território ainda-não brasileiro, constituíam uma população de mais de um milhão de habitantes em relação ecosófica com a floresta, fazendo parte da mesma, num devir naturante.

Estratégias de Laminação: Saúde Produzindo Doença.

Pode a Saúde Mental aliar-se a governos que engendram enunciados produtores da doença mental? Em Manaus, parece que sim. A compreender todo este contexto, devemos ainda, infelizmente, somar um olhar psiquiátrico que ignora e pior, ajuda a compor este quadro de atraso epistemológico e decadência social na cidade. Todos os projetos que envolvem o uso do termo “saúde mental” na cidade de Manaus (e no Estado) estão intimamente ligados com a manutenção destas estratégias de laminação dos fluxos revolucionários, voluntariamente ou não, visto que em sua estrutura de implantação seguem o mesmo modelo desospitalizante, já explanado acima, desconsiderando todas as reflexões a respeito do processo de desinstitucionalização (ou ignorando-as, o que dá no mesmo). Acreditam que a pulverização dos serviços oferecidos no hospital psiquiátrico em células dispostas nas zonas geo-eleitorais é fazer a reforma psiquiátrica. Acreditam que se unir aos governantes que produzem a subjetividade laminadora é fazer a revolução. Pior, ignora-se a diferença entre as estruturas físicas do hospital e as estruturas semióticas da instituição (confunde-se “vamos desmontar a Psiquiatria” com o “vamos desmontar o hospital”), demonstrando uma certa falta de élan perceptivo-racional ao ignorarem que as grandes modificações na estrutura epistemológica da Psiquiatria ocorreram, em sua maioria, dentro dos hospitais psiquiátricos, e que era todo o tempo de uma transformação das consciências e das atitudes que se falava, e não das estruturas físicas e/ou do engodo burocrático. O entendimento oficial seja do governo, seja das instituições responsáveis por esta discussão, oscila entre o silêncio reacionário (de que nos falava Sartre) e a repetição atabalhoada de enunciados e discursos não-examinados e por isso mesmo em desconformidade com uma idéia de Reforma Institucional.

Enquanto este delírio impõe seus tentáculos nos diversos locais de atuação e discussão, transformando em discussões epistemologicamente características do pensamento mágico infantilizado (do tipo “este hospital é meu”, “eu sou o herói disso-e-daquilo”), enquanto não se for capaz de produzir saberes e afetos não comprometidos com a manutenção deste quadro social adoecido-adoecedor, enquanto não se perceber que a Reforma Institucional é Ético-Estética e Política, mais do que segmentaria, e que deve envolver a todas as pessoas politicamente conscientes das suas potências criadoras, modificando assim o entendimento sobre o conceito de saúde mental, pouco se poderá fazer para mudar este quadro.

COLUNA VERTEBRAL

Se a Vertebral não analisou nada se realizou

# “Ai! Perdi as forças!”, gritou e desabou a Laurinda, depois de mandar ver na Parada GLST. Até agora está dormindo como uma deusa grega. Nem sei se as deusas gregas dormiam. Acho que deusas não dormem. O certo (ou incerto?) é que a festança foi boa para quem acredita na livre expressão de cada um. Entretanto, em acontecimentos como estes sempre ocorre de se manifestar alguns percalços. Por exemplo, os organizadores permitirem corpos alienados buscarem evidências, como no caso dos parlamentares. Tá na cara que só estão em busca de aceitação eleitoral. Os GLST não precisam de madrinha. Isto fica parecido com torneio de pelada. Quem é a madrinha do torneio? As meninas e os meninos têm se tornar a causa mais politizada para não ficar com este rosto de mendicância que só serve aos aproveitadores. Bicha não é coitadinha. Na verdade, bicha nem é bicha. Bicha é deboche. Antes da bicha existe a singularidade de pessoa. Não pode se colocar sempre como alienado político/social. Ir à luta, mas com cientificidade social. Só assim a exclusão enfraquece e desaparece. Nesta segundona não há lugar para TDPM – Transtorno Disfórico Pré Menstrual.

# O senador Cristovam Buarque discursa no Senado sobre educação, desapreciando, ainda no seu interminável ressentimento, a política educacional do governo Lula. Entre muitas acusações, afirma que as escolas deveriam eleger seus diretores. O senador Jefferson Péres pede um aparte e afirma que em Manaus o prefeito realizou este ato. Os diretores das escolas do município foram escolhidos em seleção, acabando com o velho vício do clientelismo e dependência política em que os diretores eram escolhidos de acordo com o interesse dos políticos. Que bonitinho, o senador! Que bonitinho o paladino da moral! Só que o bonitinho esqueceu de falar do real atual. A seleção foi só uma péssima encenação para mostrar para os inimigos políticos, tipo ex-prefeito e governador Amazonino, que agora a coisa era séria. Hoje a SEMED é um universo de perseguição com funcionários e professores temerosos. Sem falar dos muitos diretores que foram demitidos por não concordarem com a administração Ciryno e família. O velho clientelismo e os privilégios dos apaniguados estão a todo vapor no telúrico batelão das negociatas. Bonitinho, procure conhecer Manaus.

# “O Futuro será melhor”. Diz o outdoor do candidato a prefeito, ex-prefeito e ex-governador Amazonino. A Licinha pirou. Ou melhor, destrambelhou metafisicamente e ficou analisando o enunciado e inquirindo a todos. A enunciação teológica é: “O futuro a Deus pertence”. Só Deus é Senhor dos tempos. O antes, o agora e o depois. Só ele é onisciente para saber o conteúdo do infinito. Só ele é onipresente para está em todos os tempos: está no futuro vivendo o que já se encontra ocorrendo. Emperiquitada metafísica/politicamente, ela perguntou se o Amazonino é Deus. Ou se já era quando foi prefeito e governador. Como Deus, em sua onisciência sabe tudo e pode fazer o melhor. Se era, porque não fez Manaus a melhor cidade do mundo e o Amazonas, também, o melhor estado do mundo? Pelo resultado das obras, não era. Manaus e o Amazonas existem pessimamente. Então, se não era e como agora afirma que o futuro será melhor, é porque ele nesse período em que esteve distante das governanças ele encontrou o dom divino. Sendo assim, ele não é mais humano. E não sendo humano não pode se candidatar, pois de acordo com nossas leis, eleições são com os humanos. Daí que não sendo mais candidato, e detendo o dom da premonição, ou da futuração: o futuro será melhor, ele vai ter que se haver com os outros candidatos que lhe vão querer como aliado. Ele poderá ensinar como o futuro ser melhor. Bem que Manaus está precisando urgentemente.

        Assim é que não canso do rock

                    Porque não fui de reboque

                                Muito menos fiquei parada

                                            Por isso estou ressaqueada

                                                        Mas se tiver quem me convoque…

Beijos e Abraços Vertebrais!

PARADA GAY MANAUS: APESAR DA FESTIVIDADE, AINDA NÃO HÁ UM CORPO POLÍTICO

Clique aqui para acessar a PARADA GAY MANAUS 2008.

Clique nas foto para ampliá-las

Um arraso a VII PARADA GLBTT MANAUS 2007! “DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA PRA TODOS”. O arco-íris estava lindo. As bichas, todas montadas. Veio gente de tudo o que é lugar do Brasil, dos interiores do Amazonas e de Manô a participação foi maravilhosa, vindo gente de todas as zonas, de todas as idades, para se movimentaram nessa festa de cores e liberação do corpo e da alma. Ao todo devem ter participado quase 200 mil pessoas entre homoeróticos, gays, lésbicas, trans, travestis, heteros, simpatizantes, desvelados, descobrindo-se, encontrando-se, um verdadeiro pansexualismo. O que não vale é ficar enrustido, segurando no pescoço o machismo.

Apesar de toda essa borbulhança, diferente de outras Paradas Gays pelo Brasil, houve uma apropriação eleitoreira de certos parlamentares, os quais não têm nenhum entendimento do corpo enquanto potência atuante no mundo, e, mesmo com sua presença física, em suas ações percebe-se que comparecem apenas folcloricamente ou por encontrarem no número de participantes do evento uma caixa de ressonância eleitoreira, como o vereador Braz Silva, o primeiro a discursar sobre o carro de som. Outro destes carros trazia um imenso banner da vereadora Conceição Sampaio e um outro vinha fazendo uma campanha aberta ao vice-governador prefeiturável Omar Aziz. Finalmente, a vereadora Glória Carrate, além de ser posta como madrinha do evento, foi praticamente quem deu início oficial à Parada. É claro que essa atitude aproveitadora dá-se somente porque existe em Manaus a falta de organizações politicamente constituídas no entendimento do homoerotismo como uma luta pela liberdade de minorias oprimidas – não é uma questão de número, mas de posição de discurso – e não um servilismo, em decorrência de aquisições físicas estruturais, aos grupos dominantes. O oportunismo de uns com o servilismo de outros funda uma tirania que dificultará uma tomada de posição político-cidadã independente da opção sexual de quem quer que seja. As organizações GLBTT não podem cair nessa barganha-chantagem desses parlamentares parasitários.

Mas, por outro lado, havia também entidades ligadas às questões de liberdade sexual, direitos humanos e estudantis. E foi nessa que as doidas da AFIN se envolveram lá numa conversa com umas amigas da Movimentação Anarquista Organizada, que deram um toque fundamental:

VOCÊ SABE O QUE SIGNIFICA HOMOFOBIA? Homofobia é o preconceito contra aqueles que amam pessoas do mesmo sexo. É o preconceito contra pessoas que têm sentimentos, anseios, necessidades e esperanças como qualquer outro ser humano. O que há de errado nisso? Nada! Não devem existir regras para o amor. Ele deve seguir apenas o respeito e a liberdade”.
E assim o som continuou, e as performances cada vez mais belíssimas, esplêndidas até que a madrugada se vá com o sol que, tal qual o arco-íris, também é gay. Aliás, como afirmamos sempre aqui nesse bloguinho intempestivo, o mundo é gay. O movimento GLBTT, portanto, tem de seguir em todos os dias do ano, em todos os cantos do planeta enquanto uma alegria intensiva liberadora da vida em todos os sentidos, em toda sua potência.

*……….::::: CHAGÃO! :::::……….*

Chagão!

Θ GARRINCHA, DEVIR-PERNA TORTA. Há dois tipos de acontecimento. Um é um equívoco da inteligência, quando trabalha apenas com o visível e o perceptível, e não percebe que o que se passa para além disso é muito maior e mais intenso. O acontecimento real, aquele que carrega elementos materiais e imateriais de transformação, acontece no movimento. Não o físico, perceptível, mas aquele que só se percebe quando aconteceu, não se deixa capturar, escapa, transborda. Garrincha foi um acontecimento. Uma hecceidade, individuação sem sujeito, um acontecimento. Algo passou nele, que passa em todo mundo – há milhões de jogadores de futebol, sempre o houve – mas quando esse ‘algo’ passou pelo corpo-mané, foi modificado. Uma ruptura se deu, um devir passou, e Garrincha apareceu. Os grandes jogadores entraram para a história. Garrincha passou. É que a história tem sua linguagem, e como toda linguagem, captura, seleciona, exclui e conta algo que em sua formatação se pretende neutro, mas que faz parte – Foucault já o sabia – das relações de força. Garrincha foi incapturável. O futebol, quando jogo e não entretenimento, faz parte da condição existencial do ser humano. Homens se fazendo livres criando entre si regras para com-viver. Garrincha transbordou as regras do jogo. O campo desaparecia, o espaço se alterava, Mané provava com os pés a ineficácia da teoria da relatividade Einsteniana, antecipando a física quântica. Onde está Mané? “Só dribla para a direita”, diziam os técnicos europeus. O drible é sempre o mesmo, o zagueiro já sabe pra onde ele vai puxar, sempre para o mesmo lugar, o mesmo movimento, e mesmo assim ninguém pega, não há como se antecipar. A perfeição do drible é criar outros espaços, só Mané e Maradona sacaram essa. Por isso, Mané subverteu o futebol. Criou um outro, a partir de si, na impessoalidade do movimento incapturável do Ser. O futebol de Garrincha não é o mesmo de Pelé. Por isso, Pelé pode ser comparado, Garrincha não.

 

Mané Botafogo

Primeira Garrinchada: Mané entorta o conceito de corpo – “era um pobre resto de fome e de poliomielite, burro e manco, com o cérebro infantil, uma coluna vertebral em S e duas pernas tortas para o mesmo lado”, descreve Eduardo Galeano. “Nunca houve um ponta-direita como ele”, completa. Como pode um corpo inútil e improdutivo fazer o que faz Garrincha? É que ninguém sabe do que um corpo é capaz, até que ele mostre, espinozianiza com as pernas o Mané Filosofante.

Segunda Garrinchada: Mané entorta as regras do jogo – contam que num jogo contra a Alemanha, amistoso preparatório para a Copa de 1962 (se esta coluna não se engana), Mané driblou o time inteiro, e parou a bola sobre a linha do gol. O técnico brasileiro, desesperado, pediu que arrematasse. Ele retirou a bola, voltou à entrada da área, e driblou de novo, toda a zaga alemã. O técnico esbravejou, ameaçou tirar Mané do time, acusando-o de irresponsável. Semanas depois, no Chile, Mané ganharia o mundial, quase sozinho, assombrando o mundo. É que o jogo só é jogo quando são os homens livremente que o fazem, e o homem só é verdadeiramente homem quando joga, sartreaniza o Existencialista Mané.

Terceira Garrinchada: Mané entorta as certezas do mundo – toda história e crônica sobre Mané quase que invariavelmente termina com a lição moral: ‘foi derrotado pelo álcool’, ‘irresponsável, gênio, inconsequente’, ‘não soube administrar o sucesso’. Mané não cabia na pequenez do mundo, procurava pelo inperceptível, só o invisível é que lhe servia, com a bola, com o copo, com os lábios da morena, Mané “limava pacientemente o muro”, para, como Van Gogh, descobrir o que havia pode detrás. “Furava o guarda-chuva, para que os raios do sol pudessem passar”, como fez D. H. Lawrence. Talvez tivesse sido um atleta, não fizesse o que fez. Garrincha jamais soube o que era ser um atleta, menos ainda o que era ser sucesso. Não lhe interessava. ‘É que eu vi demais, entendi demais, muito para que este corpo suportasse, por isso minha saúde sempre foi pequena, como a dos filósofos’, deleuzeaniza a Hecceidade Mané.

No futebol atual, que deixou de ser jogo para ser entretenimento, existe cada vez menos espaço para que homens, no uso de sua liberdade, talento e potência criadora, possam criar para além do óbvio aquilo que tornou o futebol uma comunalidade: o devir. Mané, que foi acontecimento, não tem aniversário. Tem data comemorativa. 28 de outubro, data do acontecimento devir-perna torta, vulgo Mané Garrincha.

Θ GOL DE GARRINCHA: Foi em 1958, na Itália. A seleção do Brasil jogava contra o Fiorentina, a caminho do mundial da Suécia. GarrinchaEm ação! invadiu a área, deixou um beque sentado, e se livrou de outro, e de outro. Quando já tinha enganado até o goleiro, descobriu que havia um jogador na linha do gol: Garrincha fez que sim, fez que não, fez de conta que chutava no ângulo, e o pobre coitado bateu com o nariz na trave. Então, o arqueiro tornou a incomodar. Garrincha meteu-lhe a bola entre as pernas e entrou no arco. Depois, com a bola debaixo do braço, voltou lentamente ao campo. Caminhava olhando para o chão. Chaplin em câmara lenta, como que pedindo desculpas por aquele gol, que levantou a cidade de Florença inteira” (Eduardo Galeano, Futebol ao Sol e à Sombra)

Θ BRIGA NO EX-CLUBE DOS 13: Reportagem desta semana na revista Carta Capital, assinada pela excelente Phydia de Athayde, mostra os bastidores de reunião do chamado Clube dos 13 (na verdade com 20 integrantes), que relata o racha entre dirigentes. Alguns, interessados no atual regime de cotas de transmissão capitaneado pela Globotária, que submete os clubes a risíveis proventos diante do valor de mercado das respectivas marcas, e outros, que preferem um modelo de gestão mais próximo dos clubes ingleses, que negociam diretamente com as emissoras de TV seus jogos. Será que vão defender também o grau de profissionalismo do futebol inglês, modelo de futebol entretenimento, e que mesmo assim não escapa da sanha especulativa de milionários que tem comprado os clubes um a um? A disputa também envolve uma proposta da rede Record pelo campeonato brasileiro de 2009. A rede teria oferecido pelo menos o dobro do que paga a Globotária, e mesmo assim o clube rejeitou. Excelente matéria de quem não foi sequelada pela limitação epistemológica que contamina a grande mídia esportiva.

Θ MARADONA DRIBLA NOVAMENTE a IER (imprensa epistemologicamente reduzida). Desta vez, em entrevista à colombiana RCN, El Diez toca mais uma vez na ferida que ninguém toca. “Caso tivesse abraçado Blatter, seria da família FIFA, mas seria um filho da puta. Estaria do lado de Pelé, de Platini e Beckenbauer. (…) Todos [eles] alcançaram lucro, mas isto é triste. Querem mais um na família, mas não me interessa”. Todos sabem que Maradona, além de inigualável em campo, também é ferrenho opositor do futebusiness fifático, que retira do jogo aquilo que ele tem de mais necessário à existência: a autonomia e a liberdade do homem. Maradona, como um psicólogo (nietzscheano, claro), com sua inteligência e independência, analisa os fatos, e escolhe ficar ao lado dos jogadores. Aproveitou e mandou um recado aos domesticados jogadores argentinos da seleção de Basile: “O problema é a falta de fome de glória. A fome de correr atrás da bola não morre nunca: é preciso respeitá-la”. Messi e Aguero têm muito o que aprender, dentro e fora das quatro linhas.

Θ APERTURA’07 URUGUAY: em sua 10ª fecha, os Rampla Juniors voltaram a liderar (22 pts). Defensor Sporting (20), Danubio (18), Wanderers (16) e Tacuarembó (15) completam os cinco primeiros. Resultados:

Danubio 2  X  2 Bella Vista

Tacuarembó 3  X  3 Central Español

Nacional 3  X  1 River Plate

Rampla Jrs 2  X  1 Juventud

Cerro Porteño 2  X  0 Miramar Misiones

Progreso 2  X  3 Wanderers

Liverpool 4  X  0 Fénix

Peñarol  X  Defensor Sporting (Adiado)

Θ APERTURA’07 CHILE: em sua 17ª jornada, o líder continua sendo o Audax Italiano, com 39 pontos, seguido pelo Universidad de Chile, com 35. O’Higgins (32), Colo Colo (30) e Cobresal (29) completam os cinco primeiros. Resultados:

Wanderers 0  X  4 Colo Colo

Deportivo Concepción 3  X  2 Palestino

Univ. Catolica 3  X  1 Puerto Montt

La Serena 1  X  1 Cobresal

Univ. Chile 2  X  1 Lota Schwager

Cobreloa 2  X  1 CD Everton

Huachipato 2  X  0 Univ. Concepción

Melipilla 4  X  0 Coquimbo

Nublense 4  X  0 Antofagasta

Audax Italiano 2  X  0 O’Higgins

Θ APERTURA’07 ARGENTINO: em virtude das eleições porteñas, donde foi eleita Cristina Kirchner, não houve neste final de semana rodada do Argentino.

Θ NACIONAIS EUROPEUS: Bundesliga: o líder Bayern de Munique visitou o Borussia Dortmund e empatou sem gols. Segundo colocado, o Hamburger SV foi até Duisburg e venceu o time local pela vantagem mínima. Werder Bremen, Karsruher e Schalke 04 completam os cinco primeiros. La Liga: o ainda líder Madrid venceu em casa o Deportivo de La Coruña por 3 a 1. O Barcelona venceu também em casa o Almería por 2 a 0. Villareal, Valência e Atlético de Madrid completam os cinco primeiros. Ligue 1: o líder Lyonaiss venceu fora de casa o Paris Saint-German, por 3 a 2. Com um jogo a menos, em segundo lugar, o Nancy empatou sem gols fora de casa com o Metz. Rennes, Bordeaux e Le Mans completam os cinco primeiros. Premier League: o líder Arsenal empatou em 1 gol com o Liverpool, na terra dos Beatles. Os red devils do United golearam o Middlesbrough por 4 a 1 em casa. Manchester City, Chelsea e Blackburn seguem. Serie A: líder do calcio, a Internazionale tropeça sem gols em Palermo contra o time da casa. Bom resultado para o Roma, que venceu o Milan berlusconiano e a torcida do histérico narrador da TV aberta brasileira (ai, Kaká, se você soubesse…) por 1 a 0 e segura um segundo lugar. Fiorentina, Juventus e Udinese completam. BWIN Liga: o líder Porto FC joga amanhã contra o Leixões, em casa. O Benfica, com a ajuda do ganês-americano Adu, venceu o Marítimo por 2 a 1, e segue em segundo. Sporting, Guimarães e Marítimo completam os cinco primeiros.

Θ BRASILEIRÃO’07 já tem seu campeão (aliás, faz tempo): falta um ponto para o São Paulo efetivar o pentacampeonato nacional. Santos, Palmeiras, Cruzeiro, Grêmio e até o Flamengo lutam por uma vaga na Libertadores. Resultados:

Cruzeiro 1  X  1 Atlético PR

Fluminense 1  X  1 Atlético MG

Santos 3  X  0 Goiás

América RN 0  X  1 Flamengo

Grêmio 4  X  3 Náutico

Sport Recife 1  X  2 São Paulo

Corinthians 2  X  1 Figueirense

Juventude 1  X  1 Botafogo

Paraná 1  X  0 Internacional

Vasco da Gama 2  X  2 Palmeiras


USAR O CONTROLE REMOTO É UM ATO DEMOCRÁTICO!

EXPERIMENTE CONTRA A TV GLOBO! Você sabe que um canal de televisão não é uma empresa privada. É uma concessão pública concedida pelo governo federal com tempo determinado de uso. Como meio de comunicação, em uma democracia, tem como compromisso estimular a educação, as artes e o entretenimento como seu conteúdo. O que o torna socialmente um serviço público e eticamente uma disciplina cívica. Sendo assim, é um forte instrumento de realização continua da democracia. Mas nem todo canal de televisão tem esse sentido democrático da comunicação. A TV Globo (TVG), por exemplo. Ela, além de manter um monopólio midiático no Brasil, e abocanhar a maior fatia da publicidade oficial, conspira perigosamente contra a democracia, principalmente, tentando atingir maleficamente os governos populares. Notadamente em seu JN. Isso tudo, amparada por uma grade de programação que é um verdadeiro atentado as faculdades sensorial e cognitiva dos telespectadores. Para quem duvida, basta apenas observar a sua maldição dos três Fs dominical: Futebol, Faustão e Fantástico. Um escravagismo-televisivo- depressivo que só é tratado com o controle remoto transfigurador. Se você conhece essa proposição-comunicacional desdobre-a com outros. Porque mudanças só ocorrem como potência coletiva, como disse o filósofo Spinoza.

Quer linha de corte? Este é esquizo. Acesse:

CAMPANHA AFINADA CONTRA O

VIRTUALIZAÇÕES DESEJANTES DA AFIN

Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

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