Arquivo para a categoria 'Sociedade de Controle'

A CONDIÇÃO DO IDOSO NA SOCIEDADE DE CONTROLE: SEIS ANOS DE ESTATUTO

Hoje comemora-se o Dia Internacional do Idoso. Pontuação burocrática temporalizante, armadilha da sociedade de consumo, atribuir um dia especial a uma categoria social que, se bem capturada, enredada na teia da semiótica capitalística, cai, e se acredita especial nesta data, ignorando que os outros 364 dias do ano – igualmente uma pontuação burocrática! – também serão especiais se eles assim o fizerem.

Idoso é todo aquele que possui idade. Uma criança de um ano é idosa, pois possui já na contagem cronológica uma idade. A sociedade do consumo e do culto à um ideal de vida que nada tem da Vida, mas que é uma caricatura tanática, criou modos de ser cujas expressões anulam a potência de agir e transformam o corpo em dócil produtor do que interessa aos ditames desta sociedade.

Daí a chamada “terceira idade” ser o retrato da passividade e da morte-em-vida no plano político, social, e principalmente ético-estético, nas produções coletivas do corpo. Uma velhice apassivada, triste, que não tem envolvimento com a coletividade, e que concentra a existência no consumo, comprando e aceitando docilmente o mote “saúde é o que interessa”, é o efeito de uma existência dentro da estratificação sócio-temporal que se produz na sociedade burguesa: nesta chamada terceira idade, cuida-se das mazelas adquiridas nas décadas anteriores, de exploração absoluta da força de trabalho.

Resultante de uma existência falhada na sua potência de agir, o idoso que cai no engôdo da terceira idade cultua um corpo destroçado por décadas de trabalho explorado e improdutividade existencial, e só não é descartado imediatamente porque ainda têm capacidade de consumo. A indústria de fármacos que o diga.

Ao contrário, a velhice como efeito de uma existência ativa e produtiva é apenas uma mudança, sutil mudança nos modos de sentir e perceber. É, como afirma o filósofo Deleuze, uma outra suavidade, um modo diferente de sentir a existência. Plenitude e beatitude, um corpo ativado pelo aumento da potência de agir, e que não aceita a passividade e o lugar que lhe destina a sociedade de controle. Daí outro filósofo, Toni Negri, afirmar ser inaceitável a aposentadoria, já que ela não coaduna com os fluxos criadores da vida. Se não sabemos do que um corpo é capaz (Spinoza), em termos de produção de afetos (modos de existir), também não podemos lhe determinar um “prazo de validade”, nem mesmo do ponto de vista biológico.

Ainda que produtivo, é evidente que do ponto de vista físico/fisiológico, as relações são outras. E numa sociedade que privilegia a produção extensiva e a exploração da força de trabalho em todos os sentidos possíveis, é preciso, do ponto de vista do direito, garantir a essas pessoas a possibilidade de exercer sua cidadania de forma equitativa. Daí a importância do Estatuto do Idoso, que completa hoje seis anos, garantindo direitos básicos dentro de uma sociedade que é feita para uma velocidade extensiva, mas que não carrega nada de produção intensiva. Coisa que somente uma existência suave poderia trazer. Esta sociedade precisa da velhice mais do que a velhice precisa dela.

PROSAMIM: DO MARKETING À INTERDIÇÀO SOCIAL

A moral de classe é um sistema de valores e enunciações hierarquizantes que tem por objetivo estabelecer uma ordem classificatória e segregatória dentro de uma sociedade.

Entende-se daí que esta moral é um mecanismo incorporal de capturação de linhas de produção, que atinge todo aquele que ainda não conseguiu realizar um exame racional da sua condição no mundo. Assim, a classe média incorpora no seu trato social os valores e enunciados das alcunhadas elites, sem no entanto compreender que é justamente este sistema de valores que lhe segrega e estabelece a fronteira divisória da moral do rebanho. A morte do Desejo como produção autônoma, a diminuição da potência de agir e a capturação pelo buraco negro do Significante Despótico.

Claro que um governo que esteja a serviço desta ordem moralizante e que prefira construir armadilhas para seu povo a permitir que as linhas produtivas de comunalidades irrompam livremente irá trabalhar no fortalecimento da segregação pela signagem da moral de classe.

Assim, um povo educado é um povo bem adequado aos ditames do modo de produção do capital. Como é o caso do governo do Amazonas. Evidência profética, diriam alguns, a exibição do déjà vu, diriam os mais atentos, quando anos atrás, o então governador e agora prefeito sub judice, Amazonino Mendes, dava tapinhas à cabeça do então candidato e hoje governador, Eduardo Braga, exclamando “esse é o meu garoto!”. Toda “boa educação” é efeito da subalternidade. Por isso, como afirmam os filósofos Michel Foucault e Antonio Negri, cada um a seu modo, o Estado teme a Multidão. Nela, não há elementos de controle, os signos da dominação moral não encontram território para estabelecerem a troca simbólica.

Como governante bem educado, Braga, bom cristão que é, sabe que “a boa educação começa em casa”. Significa dizer que a família, como elemento propagador da ordem moralizante, cumpriu seu papel de sufocar a maior parte das manifestações de Vida e da potência de agir de seus membros. A neurose familiar, como bem mostrou o antipsiquiatra David Cooper, quando mostra que, nas famílias bem ajustadas, não é a “ovelha negra” mas sim o filho exemplar, o que mais exibe os sintomas da interdição.

PROSAMIM: DO MARKETING À INTERDIÇÃO SOCIAL

Como já mostrado neste bloguinho, o Prosamim carrega menos elementos de transformação social efetiva num plano constitutivo de uma cidade que de ação marketística de ordenamento hierárquico tocado a golpes de fórceps. Já ficou claro que num plano cosmético – a cosmética da assepssia social – o programa é um sucesso, quando o quesito é mover num plano físico os problemas sociais fermentados sob décadas de miserabilidade sustentadas pelos governos.

Quando os agentes governamentais tentam cobrir a ferida social aberta com o programa, que apenas transporta a violência e a ausência de perspectivas de desenvolvimento econômico para as famílias, num estado onde a economia é apêndice, fica claro a predominância da imagem do pensamento do Estado.

Daí os agentes do Prosamim tomarem os efeitos pelas causas, e proporem cursos de boas maneiras (a chamada “etiqueta”) para os moradores transferidos. São temas anódinos e expressivos da incapacidade do Estado em atender as reais demandas sociais de uma cidade que não se fez cidade. Evidência da incapacidade dos governos que passaram e os atuais em ver que que “os pobres se esquivam pelas barreiras e cavam túneis que enfraquecem as muralhas” (Toni Negri).

Uma ilustração é o próprio Prosamim: na área onde tudo foi ‘reurbanizado’, e que passa por baixo da ponte Benjamin Constant, a ponte metálica, enquanto toda a estrutura para um parque fica à míngua, e vários quiosques de comércio apodrecem à espera de que algum apadrinhado das secretarias estaduais/municipais tomem conta, do outro lado, na Av. São João, na Santa Luzia, os moradores do Parque Residencial Jefferson Péres transformaram o calçadão em mini-shopping, com venda de bebidas, roupas, bares e até uma danceteria.

Longe da submissão aos ditames da moral de classe e do controle social dos governos, a população mostra que não precisa que lhe mostrem o que é bom. Basta que abram o caminho e ela mesma o faz.

O ORGULHO DO GOVERNO, OS SISTEMAS E OS TERRORISMOS DE ESTADO COTIDIANOS

A inteligência do Estado se manifesta como imagem do pensamento. Mas o pensamento só existe quando se transborda a imagem para constituir o Novo. No estado capitalista, onde predominam a lógica do lucro e a semiótica laminadora que corta os fluxos intensivos produtores do novo, não pode haver pensamento.

No capitalismo, os objetos não deixam de carregar seu valor de uso; no entanto, não é este valor que predomina nas relações. Por exemplo, o mercado da arte, onde um quadro vale menos como objeto fruto do trabalho intelectivo/cognitivo/ do artista do que o status ilusório, patologia do existir, que os grandes milionários exibem quando adquirem “um legítimo Fulano de Tal”. O que, para a psicanálise existencial, revela a autosabotagem e malogro da existência, má-fé que se traduz no elogio à impotência: “não sou capaz de criar, mas posso, com meu dinheiro, me apossar da criação do outro, e assim me sentir, ainda que falsamente, superior a ele”.

As ultratecnologias são uma das formas de expressão da “inteligência” do sistema capitalista. Submetidas à mesma lógica/fórmula da subversão do objeto ao valor-vazio (o equivalente universal), estas ultratecnologias são também uma ilustração da impotente inteligência do estado e de seus agentes.

O homem cria o objeto-mercadoria tecnológico para que ele substitua uma função “natural”. Suas próteses: máquinas que substituem e fazem com uma eficácia “inumana” a maior parte das atividades humanas. Sistemas de informação e redes de comunicação. A assepssia do conhecimento. Redes poderosíssimas, e nada a dizer. Sem ruído, sem turbulência, não há inteligência. É um pouco o que sacaram alguns jovens, nascidos na era do CD, que recorrem ao velho LP para ouvir uma batida.

UMA ANEDOTA DA INTELIGÊNCIA DO GOVERNO DO AMAZONAS

O governo do Amazonas, capturado pela ilusão do afeto-orgulho, lança um sistema informatizado para marcação de consultas e exames na rede pública de atendimento. Logo nos primeiros dias, as notícias de que o sistema não funciona geram filas enormes nos pontos tradicionais de marcação de exames, como o PAM da Codajás, zona sul de Manaus.

Orgulhoso de sua inteligência asséptica, que elimina o tempo e o espaço, fazendo com que os exames e consultas necessárias aos pacientes ocorram automaticamente, sem o indesejado fator de incerteza da “falha humana” – como se não fossem humanos os criadores das máquinas, materiais e imateriais, os representantes do governo do estado atribuem o problema a uma fase de adaptação.

No dia 06 de julho deste ano, um leitor intempestivo deste bloguinho foi até uma unidade básica de saúde na zona sul de Manaus, para uma consulta. Realizada a mesma, foi passado pelo médico um exame simples, um raio-X. O leitor/paciente deixou a guia de requisição do exame com o atendente da UBS para que ele marcasse, via sistema, o local e a data do exame.

Na quinta-feira, dia 08, o exame ainda não havia sido marcado. O leitor/paciente retornou ainda à UBS nos dias 10, 13, 15, 20, 23 e 29 de julho, e em nenhuma destas datas obteve resposta para o seu exame. A justificativa era sempre a de que o sistema estava fora do ar, fosse por telefone, pelo computador, e até diretamente, quando a própria diretora da unidade, em ato contrito, levou todas as guias ao DISA-Sul para tentar marcar.

No dia 31, quando esteve pela última vez na UBS, o leitor/paciente soube que o exame tinha sido finalmente marcado, mas para o dia anterior, 30, às 07h da manhã. O sistema não falha…

Sem ruído, é a lógica da assepssia, um violento desequilíbrio na correlação de forças, que gera, como terapêutica, o surgimento dos fenômenos extremos. Assim, por exemplo, as doutrinas de segurança e de vigilância do tempo e espaço para a garantia da segurança absoluta gera o terrorismo. O terrorismo que encontra no próprio estado a sua maior expressão, a hostilidade ao cidadão, que se manifesta no paradoxo: a justiça informatizada que não escapa ao labirinto kafkiano da Lei e da Injustiça, a saúde que cria doença, a educação que embrutece, o entretenimento que embota as consciências, a comunicação que desorienta, o transporte que imobiliza…

São as armadilhas que os governantes insistem em preparar para os seus cidadãos, em um sistema de governo antidemocrático. Enquanto isso, as costas do leitor/paciente só…

O OLHAR VIGILANTE DA PREFEITURA E O OLHAR DOS ESTUDANTES

A prefeitura irregular de Manaus, em gestão sub judice e conflituosa da dupla Amazonino e Carlos Souza, apresenta uma nova ferramenta da “educação”: agora os pais dos alunos da rede pública e particular de ensino poderão, se desejarem, acessar via internet quais as rotas de ônibus que seus filhos tomaram nos últimos 30 dias.

O dispositivo, antes usado somente pela força policial para elucidar situações de crime agora será colocada à disposição e deleite paranóide de pais e educastradores em toda a cidade.

Evidência de que a gestão da dupla Amazonino/Souza tem menos um viés de interesses particulares sobrepondo-se sobre o público do que a patologia social do tirano. As duas vertentes, aliás, andam juntas. No entanto, a uma gestão patológica, amplamente contraditória a qualquer senso democrático, não basta criarem situações que facilitem a subtração do bem público a interesses privados: ela pretende submeter a cidade a uma enunciação de controle absoluto, de imobilidade e impossibilidade criadora. O panóptico. “Podes fazer de tudo, mas Eu saberei”, enunciado capturador que se encontra já na teologia cristã-paulina, e que é atualizada nas novas teletecnologias por governos cujo entendimento de mundo passa pela mesma má consciência que elaborou um deus ciumento e vingativo.

Nada, portanto, de educação. A ponto de revelar para qualquer estudante de primeiro período de qualquer curso de Psicologia, até da UFAM, a psicologia educastradora da SEMED, quando a sua psicopedagoga vai a um jornal local afirmar que a ferramenta “educativa” (as aspas são nossas) é útil, mas não substitui o diálogo familiar. Ignora a psicopedagoga que, em uma sociedade onde predominam elementos de ordem da democracia efetiva, o diálogo é condição de existência na medida em que seja produtor de novos dizeres e saberes, e que não se reduz à família, mas transborda por todo o social. Comum Unidade. Se não há diálogo, não há democracia. Se há democracia, ferramentas de controle não só não seriam úteis; elas simplesmente não seriam necessárias.

A ausência do diálogo que constrói da democracia já se encontra em cada escola, em cada secretaria do município e do estado, e se evidenciou claramente no conluio entre Executivo e Legislativo municipais, imprensa domesticada e setores reacionários do movimento estudantil, ao subtrair o direito à meia-passagem dos estudantes, beneficiando os interesses do empresário e prefeito vitalício de Manaus, Acyr Gurgacz. Acyr, aliás, como prefeito, já teria até anunciado a desativação dos terminais I e II (Constantino Nery e Cachoeirinha) sem que o IMTT ou a assessoria de imprensa da prefeitura viessem desmentir a informação.

O OLHAR DOS ESTUDANTES SOBRE A PREFEITURA NÃO É PANÓPTICO…

De seu lado, os estudantes, subtraídos em seu direito constituído, mas no exercício do seu direito constitutivo, vão às ruas, se mobilizam e lançam a campanha pedindo o impeachment do atual prefeito e de seu vice.

Uma evidência de que o olhar estudantil nada têm de controlado e embotado, e que, diferente do olhar institucional da gestão Amazonino, consegue vislumbrar uma cidade para além da cidade. Os estudantes sabem que um tirano controlador é antes uma consciência controlada e insegura, incapaz de lidar com produções coletivas que engendrem a potência democrática. Daí, o olhar crítico e clínico dos estudantes desejarem a subtração deste corpo que não carrega com a democracia nenhuma noção comum, e que só consegue compor, há mais de três décadas, afetos tristes, que impedem o surgimento da democracia de fato.

NOTAS SOBRE A PASSAGEM DA CPI DA PEDOFILIA POR MANAUS E COARI

Є O senador Magno Malta (PR/ES) não sabe que a pedofilia mais incisiva e perigosa socialmente é aquela que segrega os signos de uma infância solapada, um infantilismo sequelado, fruto da ilusão dos adultos capturados pela ordem do capital, e que foram interditados em seus fluxos intensivos e potência de agir, e que estão na tevê, na internet, na moda, nos dizeres, na música, nos corporais e incorporais da sociedade de consumo, submetendo as crianças a uma infância que não é a delas. Soubesse, a sua CPI teria que estabelecer uma base de atuação perene nas emissoras de tevê, com suas Anas Marias Bragas, Xuxas, Sashas, Maísas…

Є No entanto, a CPI tem se prestado, no plano democrático, a um importante trabalho: aproveitando a comoção emocional em torno da temática a pedofilia, bem mais carregada de elementos de ordem doutrinária igrejal que de ciência e de reflexão racional, desvelando aquilo que era evidente, mas que não se atualizava como real para o plano midiático: o envolvimento de membros das chamadas esferas do poder em práticas de violência sexual e exploração de mulheres, crianças e adolescentes, não apenas no sentido da tara psicopatológica, mas na tara social: o lucro pela exploração. Tal como no Caso Wallace, Adail, apontado como o chefe do esquema de desvios de royalties do gás natural de Urucum, é chefe, mas não apareceu ainda o chefe-do-chefe.

Є O presidente da CPI da Pedofilia, senador Magno Malta, ao chegar a Manaus, afirmou ter recebido muitas pressões para que a CPI não viesse à cidade. De certa forma, não veio. Contando com apenas o presidente como membro titular, que criticou a ausência dos colegas de CPI e dos três senadores do Amazonas, os trabalhos terão de se reduzir àquilo que já estava previamente estabelecido. Malta não poderá, por exemplo, convocar para depôr ninguém além daqueles que já estavam previamente convocados, nem mesmo se denunciados em audiência pública.

Є Um déjà vu: o senador Arhur Neto, por exemplo, já atuou em defesa do Amazonas quando o assunto era exploração sexual infanto-juvenil. Foi ele quem articulou, junto com o senador Ney Suassuna (PMDB/PB), a retirada do nome de Omar Aziz da lista de indiciados da CPI da Prostituição Infantil, numa articulação que deixou boquiaberta a relatora, Deputada Maria do Rosário (PT/RS) – leia aqui e aqui. O tratamento amplamente favorável à Omar dado pela imprensa local sobre o caso fez com que o professor do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Amazonas, Gilson Monteiro, fosse agredido dentro das dependências do campus, por dois irmãos de Omar, atual vice-governador. Gilson usava a tibieza e comprometimento da imprensa local com os políticos locais como exemplo em uma aula de ética, quando uma sobrinha de Omar, debutante do curso, levantou-se e chamou o pai para defender a honra da família – leia aqui.

Є Em Manaus, a CPI tomou os depoimentos de 12 pessoas, dentre elas, Fábio Marques Martins, da agência Mega Models, Andréa Domingues de Abreu, ambos considerados agenciadores das adolescentes, e Haroldo Portela, ex-secretário de comunicação da prefeitura de Coari. Portela é considerado a peça-chave no inquérito do Ministério Público sobre os desmembramentos da Operação Vorax. Era Portela quem organizava a exploração, mantinha contatos com os agenciadores e realizava o pagamento. Uma adolescente, identificada como Brenda, supostamente vítima da exploração pela quadrilha de Coari, também foi ouvida. Os programas eram pagos sempre com dinheiro público, e discriminados como “prestação de serviços para eventos sociais”. Em Coari estão previstos mais dez depoimentos, entre eles o de Adriano Salam, ex-secretário de administração e o do ex-prefeito, apontado como o chefe da quadrilha, Adail Pinheiro. A CPI realiza hoje os trabalhos na cidade do gasoduto e da Operação Vorax.

MICHAEL JACKSON: 50 ANOS NA PÓS-MODERNA SOCIEDADE DO ESPETÁCULO

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Quando a imagem já não pode mais encerrar-se numa existência individual, mas carrega elementos que, biograficamente, servem para perceber um tempo e, principalmente, um processual de subjetivação, já não contam mais o tempo cronológico e os ritos particulares. Assim, morreu ainda há pouco um dos maiores “ídolos” pop de todos os tempos: Michael Jackson. Mas tivesse isso ocorrido há 20 anos passados ou daqui a 80 anos, o importante são os entendimentos que se pode tirar para fazer ver aquilo que muitas vezes está invisível numa existência superexposta pela mídia paparazzi em redundâncias e clichês, como a desse “astro” pop.

Michael Jackson 04SINOPSE BIOGRÁFICA

Michael Jackson nasceu em 29 de agosto de 1958, em Gary, cidade do estado norte-americano de Indiana. Começou a cantar e dançar profissionalmente ainda criança, aos 6 anos, juntamente com os irmãos Jackie, Tito, Jermaine, Marlon, que formavam o grupo Jackson Five, que tinha supervisão do tirânico pai, explorador sádico do talento das crianças. Segundo se conta, Michael às vezes vomitava somente de vê-lo e carregou traumas por toda a existência provenientes dos abusos paternos que sofreu.

A partir de 1972, passou a apresentar-se sozinho, numa carreira cada vez mais conhecida e promissora, até culminar com o disco Thriller, em 1982. Somente nos Estados Unidos o álbum vendeu 21 milhões de cópias, e mais de 27 milhões em todo o mundo. Dessa época ficou famoso também o passo de dança com o qual ele desliza para trás arrastando a ponta dos pés.

Em 1994, Michael Jackson casou-se com Lisa Marie Presley, a filha única do roqueiro Elvis Presley. O casamento durou apenas dois anos. Mas, ainda em 1996, ele se casou novamente, agora com Debbie Rowe, com quem teve dois filhos até a separação em 1999.

Ao todo, Michael Jackson teve três filhos: Michael Joseph Jackson Jr., Paris Michael Katherine Jackson e Prince “Blanket” Michael Jackson II.

Ultimamente, ele tinha um contrato para 20 shows, que deveriam ocorrer entre 8 de julho deste ano e 24 de fevereiro do ano que vem, no 02 Arena, em Londres. Apesar dos preços caríssimos, a procura era tamanha que ele já havia programado estender a temporada para 50 shows.

AS METAMORFOSES DE MICHAEL JACKSON

Michael Jackson 05Principalmente a partir da década de 80, a existência do “ícone” pop foi, esmiuçadamente, perseguida pela mídia e envolta em diversos escândalos, que vão desde conflitos com a gravadora Sony, a cena surrealista do pop perseguir uma galinha no Cenral Park, até acusações de fraudar o INSS e pedofilia. Mas nada sofreu tanta especulação quanto a mudança na cor da pele, que se esbranquiçava cada vez mais. Para quem observa a sociedade de controle, sociedade do espetáculo, a metamorfose – que Michael Jackson chegou a confirmar ser vitiligo, mas a mídia mundial nunca deu crédito, publicando sempre novas desconfianças sobre a tentativa deliberada do astro em tornar-se branco – aparece como uma ridicularização às avessas do racismo baseado na superioridade da cor branca da pele. Ele, de certa forma, sabe disso, tanto que faz uso disso no mais famoso vídeo-clip de sua carreira, transmitido simultaneamente para 27 países, com audiência de mais de 500 milhões de pessoas ao mesmo tempo: Blck or White. A indústria de consumo sendo levada ao extremo por seu próprio produto.

INFANTILISMO MENTAL X PEDOFILIA

E quanto mais ele se isolava em Neverland, mais os escândalos proliferavam. Em 1993, repercutiu em todo o mundo a acusação de pedofilia feita por um garoto de 13 anos. Ao final, Michael fez um acordo secreto milionário com o pai do garoto, e o caso, que não chegou a tramitar legalmente, foi encerrado. Mas, em 2003, Jackson foi novamente acusado de pedofilia. Elisabeth Taylor, que esteve junta com o cantor e o garoto, saiu em sua defesa: “Não houve nada anormal nisso. Nós rimos como crianças, assistimos um monte de filmes da Disney. Não havia nada de estranho nisso.” (Com certeza, assistir filmes da Disney não tem nada de estranho, só imagens-decalques para infantilizações prosopopéicas.) Um certo doutor Stan Katz foi chamado, e conversou durante horas com o cantor e também com o acusador, chegando à conclusão que Michael era mentalmente infantil e não agia de acordo com a conduta de um pedófilo. Em junho de 2005, muito abalado física e emocionalmente, Jackson foi absolvido, por falta de provas, de todas as acusações.

AO FINAL, HUMANITARISMO PÓS-MODERNO

Em 2002, como sempre envolto em escândalos midiáticos, Michael teve o terceiro filho, do qual dizia ser a mãe anônima e afirmando que o filho nascera de inseminação artificial, levando mais uma vez ao ápice as possibilidades pós-modernas.

303547FAo mesmo tempo, passou, progressivamente, como querendo preservar um humanismo em outros lugares, típico do humanitarismo pós-moderno, a fazer doações para entidades humanitárias de todo o mundo, tanto que chegou ao Guinness devido à quantidade de pessoas que ajudou a partir da Dangerous World Tour. Em 1999, doou ao então presidente da África do Sul, o líder africano Nelson Mandela, um cheque de $ 1.000.000. A lista de doações em cheque, de artigos seus para leilão, de shows beneficentes é imensa. Ultimamente, ele havia, inclusive, manifestado desejo de encontrar-se com Lula para contribuir com os trabalhos sociais em efetivação pelo governo democrático do Sapo Barbudo. Mas o encontro fica pra próxima, pois hoje, 25 de junho de 2009, aos 50 anos, Michael Jackson cumpriu sua pendência existencial. Mas as mutações continuam, pois ele, que levou às vezes além do limite a própria pós-moderna sociedade do espetáculo que o produziu, não será tão cedo abandonado por ela, em que pese a volatilidade desta.

O BARULHO DOS AFRICANOS E O SILÊNCIO DOS ‘BOLEIROS’

A relação do homem com o tempo não é uma relação direta. É necessário ao homem, para suportar o real, estabelecer com ele uma relação de territorialidade: organização dos signos e elementos (corporais e incorporais) de modo a estabelecer não uma referência de ordem estática (identidade, pertencimento), mas uma linha a-significante, que no entanto remete a uma territorialização que permite o estabelecimento de um modo de existir, em toda a sua complexidade.

A cultura africana têm, entre diversas outras culturas, uma relação de proximidade e intimidade singular com os sons e ritmos. Longe de um mimetismo da natureza, assim como os povos nativos da Amazônia, por exemplo, os africanos compõem com os objetos novas formas e corpos, outros afetos e perceptos. Um organizador semiótico que produz territórios existenciais, que diferentemente de uma identidade ou de uma subjetivação, não é estática e nem pode ser capturada. Daí a explosão transbordante dos sons africanos em todos os outros continentes, com toda a complexidade e riqueza: os atabaques e os orixás que o digam…

O SOM QUE INCOMODA O MERCADO DA BOLA

Em meio a um torneio caça-níqueis, menos futebolístico que financeiro, são elas que estão em voga: as vuvuzelas. Não que sejam novidade no mundo do futebol. Desde a década de 60 elas estão aí, pelos estádios. Mas, com a força do capital, chegaram à África e compuseram com a musicalidade dos africanos uma poderosa melodia.

Contam que jogadores, técnicos e equipes de tevê e rádio presentes à África do Sul têm reclamado do barulho ensurdecedor das vuvuzelas, sopradas desde antes até muito depois das partidas da Copa das Confederações. Mais ainda quando um time do continente, como o Egito, apronta, como o fez, para cima de Brasil e Itália.

Estranhamento em realidade estranho, se considerarmos que outros “ruídos”, bem mais daninhos ao futebol e aos jogadores são ignorados ou bem suportados. Os jogadores, submetidos ao ritmo alucinante de treinamentos, concentrações, confinamentos, pressão física e psicológica, alterações de fuso horário, rotina determinada por outrem, sem direito a férias, jogando um torneio posicionado cirurgicamente nas semanas que sucedem o término da anterior temporada européia (onde jogam a maioria deles) e precedem a seguinte. Nenhuma reclamação. Igualmente, o ruído estranho ao futebol como produção ludoestética do homem, ao transformar o jogo em mercadoria, tentando interditar o intempestivo. O anódino circo do futebol se incomoda com um objeto que faz parte do bestiário deste mesmo mercado (alguém levou as ‘vuvuzelas’ para a África com o claro intento de lucrar), e que encontrou numa composição entre objeto e humano, uma produção de som que transborda a ordem do futebusiness. Por que os jogadores não se incomodam com o estranho ruído do silêncio que é a ausência do futebol (e a presença saturada do negócio, do futebusiness) num torneio internacional de seleções? Por que à imprensa esportiva não incomoda o silêncio dos jogadores das chamadas grandes potências (Brasil, Itália), mais preocupados com o gerenciamento da carreira, e que encaram o torneio como uma obrigação contratual, em contraposição aos jogadores, por exemplo, de um Egito, que correm, brigam e se entregam à disputa do jogo sem a intromissão de elementos exógenos?

Enquanto os ‘boleiros’ não ouvem o ensurdecedor silêncio do futebol que lhes falta, terão de se contentar em se incomodar com as vuvuzelas. Pode ser que, em termos de espetáculo, só reste ao torcedor mirar a alegria dançante e contagiante da torcida africana, ainda que seja pelo mistificado olhar do pseudo-antropólogo do exótico.

DESAPARECIMENTO DE AVIÃO REVELA A AUSÊNCIA DO REAL NA MÍDIA

Quando o avião da Air France desapareceu em alto mar, sem deixar vestígios que pudessem revelar o seu paradeiro, dois sistemas constitutivos da chamada pós-modernidade foram ameaçados: a onisciência/onipotência/onipresença da teletecnologia e a força de mobilização midiática.

Para além da dor e angústia (reais) dos parentes e amigos dos passageiros, existe uma máquina de produção do hiperreal que move suas engrenagens na tentativa de cobrir o rasgo epistemológico que ocorre diante de tal acontecimento.

A imprensa trabalha produzindo decepção: termo usado pelo filósofo das velocidades, Paul Virilio, para designar a produção de saberes que tem por objetivo menos informar que ocultar. Contraprodução de informação, ausente dos elementos de ordem sígnico-cognitiva que permitiriam aos espectadores, telespectadores e leitores formarem uma sentença a partir dos fatos.

Para isso, se utiliza do aparato tecnológico que dispõe: imagens “em tempo real”, produção de dizeres em cascata, superposição de imagens e som em sequência ultrarrápidas, adesivação de valor pseudocientífico aos dizeres através do “especialismo midiático” – o exército de especialistas sempre prontos a opinar sobre quaisquer assuntos onde quer que esteja uma telinha – cortes e sequências de cenas em formato de filme de ação hollywoodianos, montagem da reportagem em formato filme estilo suspense (nada de Hitchcock), a telinha pulsante transbordando um real “mais real do que o real” (Baudrillard). A tensão emocional pasteurizada procura produzir no espectador uma sensação de dor e expectativa, uma contaminação emotiva em cadeia nacional de rádio e televisão. Tudo, é claro, entremeado pelo intervalo comercial. Parte do que a cientista social Naomi Klein chamou de “Doutrina de Choque”.

No entanto, o telespectador, sem os elementos necessários à composição neurocognitiva, é incapaz de produzir uma relação emotiva com o acontecimento. O discurso televisivo, como de resto os discursos padronizados das teletecnologias – incluindo a internet – impossibilita que o aparato neurocerebral humano consiga produzir territórios cognitivos nos quais possa se posicionar. É o criador se sujeitando à criatura. Sem os referenciais espaço-temporais necessários à produção estética (mesmo uma produção estética carregada dos códigos da loucura têm sua territorialidade e suas coordenadas, ainda que diversas do “padrão”), o discurso se torna ele próprio esquizofrenizado. Ao ponto de um apresentador televisivo, num noticiário matutino, ter ficado espantado pelo fato de um avião tão grande ter simplesmente desaparecido. O que causou numa telespectadora não capturada pela rede estupidificante a reação imediata: “o avião pode ser grande pra ele, mas no meio do mundo, é apenas um grão de areia”. Complexo de Kaspar Hauser?

Mesmo a ilusão da deusa Teletecnologia, que tudo sabe e tudo vê, não sobrevive à queda e desaparecimento de um avião no ar: no momento em que deveriam evidenciar a sua eficiência, os mil aparatos tecnológicos que circundam o globo em órbita supersônica e os nanoapatrechos do supermoderno avião que fazem tudo ficar mais fácil e automático, falharam. Naquele momento, um navio viking ou uma caravela genovesiana teriam sido mais eficazes: poderiam facilmente avistar e se aproximar do local da queda.

Enquanto a mídia produz uma desterritorialização relativa em termos de referenciais neurocognitivos, visando produzir um efeito emotivo em cascata e padronizado, consegue o efeito contrário: impossibilitados de compor afetivamente com o acontecimento, resta ao telespectador-videota o embotamento afetivo. A indiferença. Não houve queda, sequer existiu avião, da mesma forma que não se ouvem as bombas que diuturnamente explodem no Afeganistão, Iraque, Palestina, e os gritos dos torturados em Guantánamo, nas prisões secretas estadunidenses e na delegacia da vizinhança.

O que resta é um espectro da dor, culto à morte por uma instância social de uma sociedade tanática (mídia, governos), e que somente a eles pertence e diz respeito. Do outro lado, uma dor real: a dos parentes e amigos das vítimas, que sofrem uma dupla violentação, a da perda dos entes queridos, e a do uso de sua dor como móbil para o lucro.

MUTIRÃO CARCERÁRIO DO CNJ EM MANAUS

Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões e começou a bradar: ‘Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos’.” (Padre António Vieira, Sermão do Bom Ladrão)

Ninguém é ingênuo (muito menos no conceito de Friedrich Schiller) para entrar em conformidade com a teoria do bom selvagem, de Jean-Jacques Rosseau, mote do sensabor Romantismo brasileiro: “Todo homem nasce bom, a sociedade é que o corrompe.” Por outro lado, haverá alguém que de tanta imbecilidade maniqueísta seja capaz de dizer que os homens são in natura maus, devendo, portanto, ser segregados e controlados?

Ao contrário da possibilidade de ambas imbecilidades citadas acima, a quantidade de presos e os tipos de presos que contêm uma sociedade demonstram o quanto esta sociedade é tirânica, sendo esta tirania ditada (no caso de ditadura militar, por exemplo) ou disfarçada em falsa democracia.

No caso do Amazonas, matéria já estudada por quem está fora e vivenciada por quem está dentro das prisões, o número de presos extrapola a capacidade prisional, não somente pelo desrespeito aos direitos humanos dos detentos, mas também na postura violenta de um Estado que pratica a punição generalizada, em detrimento de gestão e serviços públicos, como forma de coibir a criminalidade.

Ao todo, segundo dados oficiais, o Amazonas tem 4.163 presos. Desses, 1.402 são condenados e 2.761, provisórios. Sabendo-se da morosidade do Judiciário e das corrupções nos tribunais e no sistema prisional amazonenses, o Conselho Nacional de Justiça – CNJ iniciou ontem um mutirão carcerário que acontecerá, além da capital Manaus, nos municípios de Coari, Humaitá, Itacoatiara, Manacapuru, Maués, Parintins, Tabatinga e Tefé, onde ocorrerá “inspeção em cadeias e a instalação de postos de advocacia voluntária. (…) Além de averiguar a situação dos processos, o mutirão carcerário também promove ações de capacitação e reinserção social dos egressos de sistema prisional”.

Para um estado onde o governador está sendo investigado pela Procuradoria Geral da República por fraude bilionária em combustíveis, onde o prefeito cassado da capital assumiu a partir de liminar, onde deputado controla tráfico de drogas e chefia grupos de extermínio, onde desembargador trama morte de outro desembargador, onde as polícias são consideradas das mais corruptas do país…, afora os que estão atrás das grades com ligação com mandantes como esses “acima de quaisquer suspeitas”, é provável que o CNJ encontre apenas inocentes. O mesmo não se poderia dizer, do ponto de vista judicial, para muitos que estão à frente das grades.

CMM DISCRIMINA PROSTITUTAS E EVIDENCIA FALÊNCIA POLÍTICA E RELIGIOSA

A moral é um conjunto de códigos e valores que determinam formas de comportamento dentro de uma sociedade. Pode ser uma moral que reflita um povo livre e democrático, e pode ser uma moral de rebanho, de uma sociedade decadente. Principalmente quando os códigos e valores desta moral são intercessores do fluxo do existir e de formas mais gratificantes de comportamento.

Assim, aos psicólogos e antropólogos sociais, cabe, caso queiram compreender os motivos do fracasso de uma sociedade, observar como são “vistos” aqueles, dentro de uma determinada sociedade, que não estão bem “sintonizados” com os preceitos morais carregados por ela.

Em Manaus, por exemplo, a Câmara Municipal de Manaus recebeu proposta para votação de concessão de utilidade pública para a Associação das Prostitutas do Amazonas. Proposta esta imediatamente rechaçada pela chamada bancada evangélica, através da frase de um de seus representantes, o pastor da igreja Restauração, Marcel Alexandre.

Disse Alexandre que não votará a favor do projeto porque é contrário à sua família. De quebra, argumentou (?) que o Estado não é laico, pois “somos todos cristãos”.

Estranho comportamento do ponto de vista político e religioso. Primeiro porque ignora a laicidade do Estado. O campeão da moral cristã Marcel Alexandre não concebe alguém que tenha nascido fora dos desígnios da dogmática cristã (paulina, não de Cristo). Há que se saber o que pensa sobre isso, por exemplo, as comunidades budista, islâmica, atéia… Além do mais, trata-se de claro desconhecimento do funcionamento das estruturas de Estado. Caso, em uma sociedade civilizada, para afastamento da função pública, que requer a capacidade para lidar com a diversidade e para compreender a coletividade para além da identidade do EU.

Ignora ainda um dos dizeres mais populares do livro sagrado: “quem não tem pecados, que atire a primeira pedra” (João, cap. 8).

Triste ilustração de uma sociedade onde os códigos econômicos/sociais/políticos permitiram a emersão do aspecto mais brutal e retrógrado da dogmática apostólica romana. Longe de uma evolução, a irrupção das igrejas que se guiam (alguma não se terá guiado?) pela lógica do lucro, o patrulhamento das consciências, a laminação dos modos de existir alternativos, a interdição da inteligência são evidências de que uma sociedade fracassa.

Daí a importância dos chamados outsiders, como mendigos, prostitutas, ladrões, entre outros: a minoria, neste caso, longe de ser a exceção, confirma a regra. O fracasso do social está não em sua existência em si, mas na existência dos chamados certos, retos, os campeões da moral: são eles que segregam, controlam, classificam, hierarquizam, excluem, discriminam.

Para surpresa, talvez, de Marcel Alexandre e seus seguidores, comportamento bem contrário ao daquele jovem palestino, Filho de Maria, que não atirou a pedra à mulher adúltera, e caiu nos braços de uma Madalena.

UNIDADE DE ESPECIALIDADE MÉDICA EM MANAUS NÃO ATENDE USUÁRIOS DE UNIDADES BÁSICAS DE SAÚDE

Leitores intempestivos relataram a este bloguinho que o PAM da Codajás, unidade de saúde especializada da zona Sul de Manaus, não estaria aceitando encaminhamentos dos clínicos-gerais das unidades básicas de saúde (postos e casinhas).

O procedimento, segundo alguns médicos ouvidos pelo blogue, é efetivamente irregular, já que o procedimento hierárquico dentro da estrutura do SUS é o de que as unidades básicas de saúde são a porta de entrada no sistema, e que as especialidades só devem ser acessadas após a primeira avaliação, que ocorre ora nas unidades básicas, ora nas unidades de urgência e emergência (hospitais, SPA`s).

No entanto, as pessoas estão se dirigindo aos postos de saúde, e ao serem encaminhadas para acompanhamento por especialistas, ao chegarem no PAM para marcar, são informados de que a consulta não poderá ser feita. Os mesmos são ainda orientados a procurar um SPA para de lá serem encaminhados e conseguir a necessária consulta com o especialista.

MEDICINA DE MERCADO E O ADOECER BIOSSOCIAL

Ainda segundo fontes intempestivas, a questão tem sido levantada exclusivamente pelos usuários do sistema. Entre o meio médico, predomina o corporativismo. Os rumores que correm dão conta de que os médicos especialistas estariam envolvidos na não-aceitação dos encaminhamentos, alegando que os clínicos-gerais estariam apenas “despachando” os pacientes nos postos e casinhas, não realizando sequer procedimentos simples de acompanhamento, que segundo os primeiros, poderia ser feito sem a necessidade da especialidade. Do outro lado, médicos das unidades básicas estariam incomodados com a inércia dos colegas especialistas, que não estariam aceitando atender problemas de saúde de suas áreas.

No meio do deixa-que-eu-deixo, o usuário do sistema, que precisa do tratamento, e tem que encarar a fila quilométrica, tanto no posto de saúde para pegar uma ficha, quanto nos PAM, para marcar uma consulta ou exame.

Sinais de uma medicina de mercado, distanciada do exercício cívico e democrático do conhecimento em função do fazer coletivo, e próxima do marketing e da lógica da objetização e monetarização do corpo e de seus males. Medicina que produz doença biossocial.

É por isso que Hipócrates anda jurando de pés juntos que no Amazonas não tem medicina…

TRÊS NOTAS CURTAS DO MICROFASCISMO ANTIFUTEBOLISTA

QUANDO A BOLA MURCHA, O CORPO SOCIAL PADECE

O presidente do São Paulo, Juvenal Juvêncio, mostrou o quanto entende de futebol ao tratar sobre uma partida do campeonato paulista em que o tricolor enfrentará o São Caetano. O time interiorano quer transferir a partida para a cidade de Presidente Prudente, e o cartola tricolor “ameaçou” colocar os juvenis do clube para jogar a partida. Juvêncio afirmou que o time prioriza a Libertadores, e que não coloca os juvenis “em respeito ao torcedor, à mídia e às empresas que investem dinheiro”. Faltou falar do (des)respeito aos futuros profissionais do clube, que são usados como arma de vingança, evidenciando o aspecto mais marketista do que futebolista do clube. O “patrão” Juvenal, com sua atitude, além de evidenciar a ignorância sobre futebol, comete assédio moral, já que deprecia a qualidade ou o trabalho de seus subordinados. Caso para para a Delegacia Regional do Trabalho paulista. Ou o time juvenil do São Paulo é tão ruim quanto o adulto?

O Corinthians também anda usando técnicas de marketing de guerra para sobreviver no deserto futebolístico brasileiro. Mas o alvinegro paulista, diferente do irmão siamês tricolor, não ameaçou: já colocou em prática o seu plano antifutebolístico. O clube anda cobrando “couvert” artístico para colocar Ronaldo em campo. Contra Itumbiara e Palmeiras, foram 450 mil reais a mais nos cofres, graças à presença estática do ex-jogador em campo. Mas do que um sintoma de que no futebol brasileiro, fala-se de tudo, menos de futebol, a atitude é no mínimo engraçada. Resta saber se a atração bisonha vai arrastar multidões curiosas com o inusitado mais tempo do que o artista da fome de Kafka… Na ficção, o artista foi substituído por uma pantera. E no hiper-real, quem substituirá o artista do fastio futebolístico?

Restou à psicanálise explicar porque meandros a homossexualidade latente, o desejo refreado e interdito pela Lei e pela ordem da moral social, se manifesta inconscientemente no plano consciente. A homofobia é um deles. Bate-se num homossexual não pelo ódio ao outro, mas pela impossibilidade de suportar a homossexualidade mal resolvida em si. O futebol, que pode ser entendido como uma sublimação dos investimentos libidinais homossexuais, já que promove a confraternização entre homens tendo a bola como efêmera justificativa, não por acaso, é palco-mor da homo e da xenofobia. Assim, o machão, machinho, machasso técnico do Figueirense, de Santa Catarina, Roberto Fernandes, usa um vestido cor-de-rosa como método (anti)pedagógico de punição. O jogador que treinar e apresentar baixo rendimento deve usar durante todo o dia um vestidinho rosa, e ser vítima de achaques e chistes de seus colegas. Considerações analíticas à parte, trata-se de uma evidência de estreiteza epistemológica. Fosse em uma escola, seria passível de processo. Já que se trata de futebol (tratar-se-á?) a questão é de ordem intelectiva: ou como afirma o ditado popular dos tempos de guerra: amedronta o inimigo com aquilo que a ti causa pavor.

A EDUCAÇÃO DO GOVERNO DE SÃO PAULO E OS “DOIS PARAGUAIS”

Um saber é constitutivo de uma potência-ativa quando seus elementos semióticos transportam territorialidades que permitem um movimento intensivo que permita às pessoas alcançarem um grau mais alto de potência: somente um saber que liberta é saber.

A função educativa, quando se faz num plano democrático (de outra forma não é educação), estabelece nas territorialidades construídas a possibilidade de transbordar numa outra existência, ampliando a consciência e compreendendo melhor o mundo ao redor. Daí um saber desconectado da realidade coletiva não ser mais que um recurso patológico da sociedade de consumo.

Tal como a educação de governo amazonense (que só encontra elogios na pariceira Istoé, amiga do governo Braga), a educação paulista vive mais do vazio do marketing do que de produções intensivas materiais e imateriais. Rescaldo da política governamental de esvaziamento da escola pública – com uma pausa na gestão de Marta Suplicy – as escolas paulistas, de modo geral, não traduzem para seus alunos a sociedade onde eles vivem.

O grau de desterritorialização do real (quando um signo se desprende daquilo que o torna coletivamente inteligível, e só resta uma imagem sem referente) chega a tal ponto na produção do hiper-real na educação paulista, que alunos das escolas públicas receberam material de ensino de geografia onde a representação gráfica da América do Sul mostra Paraguai e Uruguai em posições invertidas, além de um “clone” do país de Fernando Lugo.

Fosse um requinte educacional, para falar de um Paraguai “pré-Lugo” arrasado pela economia de mercado do consenso de Washington, e um outro, que elegeu o presidente-bispo e pretende acabar com décadas de domínio monopartidário, até estaria valendo. No entanto, a questão é mesmo de ordem do erro factual.

Mais revelador da (des)educação paulista do governo Serra é o grau de alienação dos agentes envolvidos no imbróglio: enquanto a secretaria estadual de educação culpa a fundação que produziu o material, enquanto mantém no seu site uma nota de errata que só pode ser acessada pelos diretores de escola, a fundação responsável pela confecção do material rebate, afirmando que os professores que elaboraram o material foram indicados pela própria secretaria. No meio deste empurra-empurra, perdida mesmo, fica a educação.

A mesma educação que passou pelas mãos da iniciativa privada de forma predatória na gestão Paulo Renato de Souza, no octênio FHC, e que, não por acaso, numa gestão tucana no Rio Grande do Sul, pretende desmontar as escolas do MST, por disseminarem “perigoso conteúdo marxista”.

O que é assustador no caso do Paraguai invertido não é o fato do mapa estar de ponta-cabeça, mas da educação de governo paulista não conseguir perceber que ela própria está fora do mapa da existência de seus estudantes.

CASO WALLACE, “O MAIS GRAVE NOS ÚLTIMOS 20 ANOS”? E ONDE ANDAVAM OS GOVERNOS NESTES ANOS?

Na essencialidade democrática com sua práxis de liberdade, nenhum homem livre quer que o governo de um estado seja uma espécie de vigilante-onipresente de seus cidadãos. Um Panóptico, onde “o olhar está alerta em toda parte”. Uma condição paranóica, “um estado consciente e permanente de visibilidade que assegura o funcionamento automático do poder”, como afirma o filósofo Foucault. E nem tão pouco, que o governante seja o Big Brother, Grande Irmão, com sua força de controle sobre todos, como nos mostra o escritor George Orwell em sua obra “1984”. Entretanto, quando autoridades do poder judiciário afirmam que o caso do deputado Wallace é o “mais grave nos últimos 20 anos”, os habitantes de Manaus são levados a mais simples das indagações: “Onde andavam os governos nestes anos?”. A quantas andava o poder público em todas suas determinações, legislativa, jurídica e executiva( também o quarto poder: a imprensa)? Ou em sua especificidade, onde andava a instituição policial-judiciária que nada viu, e por isso não atuou? Isto porque, nenhum grupo se “organiza”, se expande e age, a margem da lei, na invisibilidade que lhe possibilitaria escapar da inteligência preventiva e repressiva dos profissionais da justiça. Nenhum homem, ou grupo, por mais força que detenha, é invisível. Tem matéria, forma e sonoridade. Sempre é visto e escutado. Deixa sempre vestígios sensoriais que se desdobram em entendimento intelectual. Faculdades, no caso dos direitos jurídicos, promotoras da segurança social dos cidadão.

A indagação da população manauara torna-se mais racional quando se analisa o depoimento do deputado que afirma ter sido pobre a ponto de vender picolé. Daí que, adulto sem curso superior, ou uma profissão que lhe possibilitasse ganhar dinheiro, sendo apenas um apresentador de um programa ‘viserabilista’, que usa o pobre como suporte para seus intentos materiais, como que poderia formar uma confraria com tanta força de atuação, sem ser notado e ainda deter uma postura de decisão no cenário ‘político’, a ponto de auxiliar candidatos a serem eleitos, através de seu prestígio.

Quer alguns queiram, ou não, em 20 anos de atuação, este caso deputado Wallace, para o cidadão manauara, não é só um caso Wallace. Implica algumas variáveis do que era, ou é, o conceito político-administrativo-jurídico dos governos que se tomaram como poder nestes anos. E o pior, eleitos democraticamente. Sem possibilidade de nenhuma desculpa de que tudo aconteceu porque vivíamos em uma ditadura. Época do forte por si mesmo, e Deus contra os miseráveis.

IGREJA RENASCER – POR QUEM O TETO CAI?

Nenhuma folha cai de uma árvore se não for providência divina. Todas as causas e efeitos encontram-se em Deus. Por mais minúsculos e imperceptíveis que sejam aos homens”, sentenciam os bíblicos. Obras de Deus. Todos os fiéis crêem que Deus põe e dispõe ao homem como provação e aprovação. Quando o teto de uma igreja cai, para estes, estava nos desígnios de Deus.

Mas se a fé é metafísica, projeto trans-mundo, o teto é físico, estar-no-mundo. Faz parte dos negócios dos homens. Ninguém, em oração, encontra-se embaixo de um teto descarnado, só em estado etéreo.

A queda do teto da igreja Renascer ao cair, não caiu como o mundo da cantora Dolores Duran, cuja queda era o fim de um romance. Esse não tem matéria. Afeta, fere, mas nada que um novo amor não cicatrize. O teto é matéria no mundo real-físico sobre corpos, embora em imaginação deslocada para um trans-mundo, a sua força causa cortes na carne-viva, sangrenta. Nenhuma superstição, por mais apaixonada que seja, os livra. Principalmente quando a superstição é o primeiro motor do lucro.

TETO MAKE MONEY

O teto era uma questão física-arquitetônica. Uma questão de base, suporte e equilíbrio em um mundo de vibrações alternadas que fazem com que a construção de um prédio seja de acordo com sua função. E quando um prédio, erguido para uma função específica, passa a ser usado para outra função, com vibrações mais intensas e extensas, sua estrutura é abalada, e tende a desabar, como já dizia a professora Honorina. Como desabou, renascendo como causa de uma grave acidente. O prédio da Renascer, nasceu como um cinema, com função para um número exato de espectadores corpos-sonoros-vibráteis. Encampado, passou a ter a função inversa, em razão do propósito de seus proprietários que o tinham como templo de lucro-fervoroso.

É o efeito da providência capitalista do neo-liberalismo. Liberou geral. “Fé é lucro, mister Bill!”. Pretendendo se dar bem, um dia o cara tem uma bela fantasia: fundar uma igreja. Essa a professora Honorina não dizia. Não era do seu tempo. Hoje, tudo está exposto, no mundo fetichista de mercado. E a fé, também é, nesse caso, mercadoria de lucro. Motor de propulsão do lucro fácil. A fé, como industria, precisa de grandes espaços para realização na terra, de seus credos trans-mundo. Alienada do mundo real, a empresa fervorosa, segue o mesmo modelo dos locais de mega-show dos “artistas” reificados pela sociedade de consumo. Quanto maior o espaço maior o número de crentes, e maior a quantidade de crentes mais “quinzinho”. Mais “quinzinho”, mais ilusão do paraíso. E seus proprietários “enchendo as burras”, como diria o gajo, Zé Gaspar.

A iniciação do sacerdócio vocacionado realizado pelos códigos da doutrina dogmática do cristianismo, como Fé e Razão, nos preceitos de São Thomás de Aquino, desrealizou-se na força da “teologia” make money. Por quem o teto da Igreja Renascer caiu. Nove mortos, mais 150 feridos, e o resto desesperado. Nada de Deus. Negócio dos homens. Qualquer um “divinizado” pode se auto-proclamar representante de Deus. Um bom pastor.

Se antes o templo era invejado por ter sido palco do sacramento de seu maior mantenedor, o jogador Kaká, o fino do esporte mercantilista, hoje, é signo real da cobiça. Um dos pecados necessários ao lucro.

O irônico deste perverso acidente, é que os proprietários da Renascer, com a exploração da miséria, afirmaram Marx quando ele, em sua crítica da religião, diz: “A religião não é só o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, como também é o espírito de uma época sem espírito. Ela é o ópio do povo”. Inebriados pelo ópio capitalístico em “um mundo sem coração”,portanto, impedidos de sentir “o suspiro da criatura oprimida”, impossível era ver a realidade do prédio. Aí, não podia dar outra.

LULA, O ECON’OTIMISTA E O OLHAR ARGUTO DE DELFIM NETTO

A Economia, como bem mostra o filosofante Toni Negri, é uma disciplina do homem. É, pois, um corpus de saberes e dizeres que se modifica de acordo com as condições materiais e imaterias de cada época. Assim como os filósofos são fruto de sua época, a economia de cada tempo exprime os conflitos e a relação do homem em sociedade e em relação à natureza.

Os tecnocratas, à serviço – voluntário ou não – da subjetividade capitalística, que tenta reduzir à órbita do Significante Despótico os saberes e os signos culturais, produções humanas nas suas mais diversas vertentes, crêem numa economia científica. Cientificidade dura, que dispensa os elementos “intempestivos” e se aferrando a uma lógica silogística e estéril. Equívoco comum à, por exemplo, ciência física moderna, como afirma o filosofante dos saberes, Michel Serres, para quem a física é physys, passando por Lucrécio, Demócrito, Epicuro, não se reduz ao saber que lamina aquilo que não cabe em sua codificação, mas transborda na existência e no filosofar.

Não muito longe da filosofia e da ciência intempestiva, o economista Delfim Netto (que o jornal O Estado de São Paulo, quando lhe é oportuno, recorda que foi ministro da ditadura militar) afirma um alicerce da disciplina econômica: o trabalho e as relações humanas.

Com seu saque para além dos “cabeças de planilha”, alcunha dada pelo também economista que salta do senso banal, Luis Nassif aos tecnocratas, Delfim deita e rola, afirmando que o único economista que presta no Brasil é Lula.

Afirma Delfim que a economia se dá a partir do trabalho e do pacto social. Portanto, uma alcunhada crise como a que se avizinha nada mais é do que produto da especulação do mercado financeiro, e da quebra do pacto social realizada pelos banqueiros e investidores. A crise, lê-se nas entrelinhas, é de moral econômica.

Lula (alcunhado “O Otimista”, pela grande imprensa), sabe, como qualquer estadista, que a confiança no futuro determina os investimentos. As frases de Lula, capturadas como estúpidas e levianas pela imprensa, caem ao ouvido da população como um diálogo, uma explicação para além dos códigos metodológicos da economia de cátedra. Daí Delfim desmontar: a vantagem de Lula é não ter diploma superior! Para estupefação dos entrevistadores. Ele sabe: caso tivesse passado pela sobrecidificação da academia, talvez Lula não fosse Lula, o Otimista. Talvez não soubesse que a parte mais importante da economia não se traduz em números, mas emerge das relações sociais. Coisa que a ala misógina da economia desconhece.

Sabiamente, o economista da direita que muito esquerdista inveja não faz previsões econômicas: sabe bem que elas só interessam à especulação e à produção de uma condição de instabilidade e desconfiança. Não são previsões, são votos. Votos de que o país vá mal, e a direita tenha algum fio de esperança eleitoral em 2010.

UMA ANALOGIA LITERÁRIA-ECONÔMICA

O escritor polonês Jerzy Kosinski, em seu romance “O Vidiota”, faz um quadro da sociedade estadunidense que é, em outra análise, a analogia da sociedade do consumo que move a economia atual.

A personagem principal, Chauncey Gardiner, ou simplesmente ‘Chance’ jamais viu o mundo fora dos jardins da casa onde nasceu, e todo o conhecimento que possui advém da televisão. Um dia, com a morte do dono da casa, ele é obrigado a sair. Em seus caminhos, nos acasos dos encontros, é atropelado e levado a se hospedar na casa de um rico empresário. Gardiner é monossilábico e incapaz de travar um diálogo. Reduz-se a repetir os slogans e falas de programas de tevê. Ainda assim, suas frases prontas sobre jardinagem e tiradas de programas de televisão atingem em cheio um grupo de empresários às voltas com uma crise financeira que ameaça o país. Sempre repetindo suas frases, sem entender uma vírgula do que lhe acontece ao redor, Chance vai se tornando cada vez mais um rosto conhecido midiaticamente, a ponto de ser entrevistado no principal programa de tevê dos EUA. Entre mil e uma tentativas do serviço secreto americano encontrar pistas sobre o seu passado, Chance se torna o principal conselheiro econômico do presidente estadunidense. O conto-romance termina com as especulações do grupo econômico às voltas com a eleição presidencial, e o nome de Chance é o mais provável para vencer o pleito.

Em meio à espetacularização do Real promovida pela própria sociedade, ouve-se a voz da personagem: “Neste país, quando sonhamos com a realidade, a televisão nos desperta. Acho que a guerra, para milhões, é apenas mais um programa de tevê. Mas lá longe, na frente de batalha, homens de carne e osso estão entregando suas vidas”. A Faixa de Gaza que o diga.

Lula, que está para a personagem principal do conto-romance menos que o seu colega, Obama, sabe que o otimismo, neste momento, é uma estratégia de luta. E que, nesse quesito, a população está a seu lado.

Arriscamo-nos uma previsão: como em 2002 e 2006, as viúvas do trágico porvir vão errar.

GOVERNADOR BRAGA TENTA BARRAR DVD “RENATA” E NÃO DEVE IR AO OSCAR

Foi divulgado neste final de semana que o governador Eduardo “Maria da Penha Nele!” Braga pediu, às vésperas do primeiro turno da eleição passadas, a um juiz do tribunal da Justiça do Trabalho, que proibisse a cópia e distribuição do DVD – “AMORES ELEITORAIS – A Narrativa de Renata Barros” por parte das empresas do PIM que trabalham com este tipo de mídia. O juiz também determinou multa diária de 5 mil Reais para quem desrespeitasse a decisão, além de determinar a apreensão de quaisquer cópias encontradas. O objetivo era preservar a campanha vitoriosa de seu candidato, Omar Aziz, à prefeitura de Manaus. Com a derrota do candidato, resta ao governador tentar se desvencilhar do processo que corre no Supremo Tribunal de Justiça, através do procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza. Braga aparece como indiciado no processo, junto com seu suposto sócio, Nei Braga, marido de Renata.

SINOPSE: “AMORES ELEITORAIS”.

Para quem não sabe ou ainda não viu o vídeo, Renata denuncia os esquemas de benefícios ilícitos na sociedade Braga-Barros, e um esquema para distribuição e compra de votos em troca de combustível para a campanha de Omar. Apesar da proibição, qualquer turista ou interessado no filme, pode assisti-lo no site YouTube ou comprar a sua cópia no camelódromo da Praça dos Remédios, centro de Manaus.

IMPLICAÇÕES MERCADOLÓGICAS (OU PORQUE O FILME NÃO VAI AO OSCAR)

Apesar de toda a propaganda, o DVD “A Narrativa de Renata Barros” vende menos que os cedês da banda paraense Calypso. Comparação desproporcional, é claro, primeiro porque o Calypso faz muito mais sucesso entre os amazonenses do que o governo Braga, e segundo, porque os códigos que carregam Joelma e Chimbinha são outros. Apesar do fracasso mercadológico, à época de seu lançamento, o DVD fez tanto sucesso que o então candidato Amazonino quis – dizem! – pagar 2,5 milhões de Reais pelas lágrimas de Renata capturadas em plano fixo.

A pirataria, no entanto, realizou o pesadelo braguístico: qualquer pessoa pode ter acesso ao DVD, em qualquer lugar do mundo, de forma que o seu valor de mercado decaiu, ainda que, num delírio paranóide, o governador Braga tenha impedido uma produção em escala industrial nas empresas do PIM. Nesta, Braga, que recentemente posou ao lado do anabolizado Exterminador do Futuro (dos californianos), Arnold Schwarzenegger, imita outro hollywoodiano, Antonio Banderas. Banderas, depois que alcançou o sucesso nas terras do Tio Sam, tentou impedir a circulação do cinema de Almodóvar, A Lei do Desejo, onde Banderas, amante latino, aparecia em tórridas cenas homoeróticas. Como Braga, Banderas foi vencido pela indústria das cópias.

Como sucesso de público, mas fracasso de arrecadação pelos meios tradicionais, o DVD “Amores Eleitorais” não deve ser indicado ao Oscar, embora carregue signos que o aproximam da maioria das obras já agraciadas com a estatueta. No entanto, há duas indicações certas: uma, a do prêmio de canastrice eleitoral do ano, dado pelo Supremo Tribunal de Justiça, que deve encontrar na obra ficcional elementos nada ficcionais comprometedores do governo Braga. E outra, igualmente certa e esperada, é a multisessão reprise no horário eleitoral de 2010. A conferir!

DO DIREITO À MORTE AO DIREITO À VIDA — DOIS CASOS

Preservar a vida. E, para tanto, a humanidade faz disso um controle. Então não há mais preservação, mas conservação. A vida deixa de ser movimento ontológico para passar a ser mero objeto de experiências em laboratórios, tanto os científicos como os políticos. E, se realmente se faz verdade, a afirmação de que a experiência do conhecimento tem o seu início nas ciências experimentais, estudar a vida, na atual sociedade da velocidade e da tecnociência, é a forma de se pensar os mecanismos necessários ao seu controle. É aí onde a ciência e a política rondam em torno de seus limites, procurando, delirantemente, superá-los, dominando a genética, os processos de escolha, endurecendo cada vez mais um estado extremo que os afastam da razão e do conhecimento e os arrastam para o vazio da existência.

PRIMEIRO CASO

Neste percurso, em primeiro de julho de 1996, foi posta em prática a lei australiana do Terminal Act (Lei do Ato Terminal). O doutor Nitschke inventou uma máquina na qual o sistema de perfusão sanguínea do enfermo é ligado a um computador. Se o enfermo clicar SIM, ele terá um prazo legal de nove dias para novamente clicar SIM pela segunda vez. Se ele fizer isso, uma injeção mortal será aplicada e em trinta segundos ele morrerá. Bob Dent, um sexagenário que sofria de câncer, pôs em prática esta lei em 26 de setembro do mesmo ano.

O filósofo e urbanista Paul Virilio, diz que “a partir do conjunto desses fatos — nove meses para nascer sem ter decidido isso, nove dias para morrer voluntariamente e trinta segundos para mudar de idéia — coloca-se a questão dos limites da ciência, de uma ciência que propõe o desaparecimento como medida terapêutica. Ciência do desaparecimento programado ou suicídio assistido por computador?”.

Coloca-se nesse caso a questão de quem é o responsável pela vida e pela morte. Se a própria pessoa ou profissionais que inventam formas de transferência de suas responsabilidades através de meios tecnocientíficos?

SEGUNDO CASO

Hannah Jones, de 13 anos de idade, conseguiu que os médicos de Herefordshire, em Londres, não cultivassem ações legais que a obrigassem a fazer um transplante de coração. Este caso se passa agora. Hannah Jones sofre de leucemia e teve o seu coração afetado em razão dos medicamentos muito fortes que toma. Os médicos então optaram pelo transplante, o qual Hannah não aceitou por causa dos perigos muitos altos de morte durante o tratamento. Então os médicos iniciaram recursos legais para que o transplante ocorresse mesmo sem o consentimento dela e de seus pais. Mas Hannah conseguiu persuadir as autoridades responsáveis pela proteção do menor do hospital de que está ciente de seu caso e que prefere ficar em casa, mesmo sabendo do risco que corre.

As autoridades responsáveis pela proteção do menor do hospital de Herefordshire, onde Hannah recebia revisões periódicas, em Londres, disseram que ela “parece entender a gravidade de sua doença. Ela é consciente de que pode morrer”.

Mais um caso onde a responsabilidade de profissionais que cuidam da vida parece ser transferida. E se assim for, poderíamos dizer o quanto estamos afastados do intuito de preservar a vida.

OS DOIS CASOS

Enquanto no primeiro caso houve a invenção de uma máquina que permitisse um “óbito voluntário”, no segundo houve a escolha voluntária de viver, justamente negando os meios tecnocientíficos. Podemos querer entender os dois casos separando-os. Primeiro se trata de uma pessoa sexagenária, doente, onde a morte seria a melhor escolha. No segundo, trata-se de uma garota de 13 anos que já não suporta mais o espaço hospitalar e não quer mais passar por operações, deseja estar com a família e com os amigos. Mas ambos tratam da Vida e do mundo. E para além de todo controle que possam exercer em prol da conservação da vida, sempre se trata da escolha individual que vai de encontro à coletividade.

Embora seja ainda predominante a crença em um mundo absoluto onde a idéia especulativa de que o filho engendra a mãe, que o efeito produz a causa, que o cristianismo faz nascer o paganismo e o resultado antecipa o princípio, o mundo se faz ouvir e demonstra o quanto não tem culpa alguma de seu estado atual. Saramago alumia esta situação: “Claro que o mundo, pobre dele, não tem culpa dos males de que padece. O que chamamos estado do mundo é o estado da desgraçada humanidade que somos (…)”

Nem haveria de ter. Se há culpa é porque tudo é produção humana. E se o mundo está como está é por conta deste alto nível de humanização a qual recebe a todo instante.

Então a própria morte e a vida são invenções humanas. Ou passam a ser quando são colocadas como enunciados que tentam ordenar a mistura de corpos que acontecem no acaso. E aí são representados e traduzidos pelos saberes constituídos e válidos: a medicina, a biologia, o direito, a psicologia, a psicanálise, a psiquiatria, etc, etc. Então, a ordem estabelecida na qual a vida precede a morte. E seria um absurdo ir contra esta ordem. E a escolha da vida ou da morte deve passar antes pelas leis morais e sociais.

A VIDA

Para além desta conservação da vida há um movimento que não está preso. Há uma vida desejante de outras percepções, justamente fora da redundância que quer a vida como eco de tudo que é imposto como ordem. Lá onde o desvio do equilíbrio se faz necessário, um desvio para fora. Onde a superfície é produzida pelas criações das sensações. Onde a experiência do pensamento não é testada, comprovada e validada, mas, ao contrário, movimentada como o novo no mundo. Neste outro caso, o desejo é pelo absurdo de ir contra a ordem que possa colocar a vida precedendo a morte ou a morte a preceder a vida. Neste caso, não pode haver contradição, posto que escolher tanto a vida como a morte é sempre um caso de VIDA.

A INDÚSTRIA ORIGINAL MORDE SEU PRÓPRIO RABO QUANDO ATACA A PIRATARIA

Quando surgiram os primeiros apetrechos neo-tecnológicos, apêndices da indústria do entretenimento, os proprietários dos meios de produção não imaginariam que as próprias crias fossem se voltar contra os “criadores”.

Quando a onda tecnológica se reduzia aos CD Players, aos Walkmans, aos microsystems, ainda não se visualizava o estrago que se faria na indústria audiovisual: é que o produto em si, a produção artístico-comercial, vinda dos artistas, esta era a real fonte de riqueza, e o industrial se interpunha entre o emissor-produtor e o receptor-consumidor.

Com a ascensão das mídias domésticas, notadamente com o CD gravável (CD-R) e o regravável (CD-RW), a ameaça se tornou visível: milhares de pessoas deram adeus às prateleiras das lojas de cedê e passaram a copiar as músicas ou obras inteiras de originais comprados por amigos e emprestados aos “piratas”.

Da pirateação individual, para deleite solitário ou em soirée com os amigos, para uma para-indústria da pirateação foi um salto. O barateamento dos equipamentos de duplicação em massa dos chamados originais só facilitou, e cada pessoa hoje pode ter uma minigravadora em casa. Como se não bastasse o baque, as ultra-novas mídias, como o mp3 player, o Ipod, os aparelhos celulares, os pen-drives e a própria internet deram o que parece ser o golpe de misericórdia na velha maneira de se comercializar música e vídeo.

A BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA DA INDÚSTRIA DE ENTRETENIMENTO

Hoje, as principais manchetes dos jornais e suplementos de informática trazem a luta das empresas gravadoras e detentoras dos direitos de uso e reprodução de obras artísticas audiovisuais contra a comunidade “Discografias”, do Orkut, que reunia exatos 766.619 membros, no momento em que este texto foi escrito, e cuja principal atividade é a disponibilidade de links para sites de armazenamento de dados, onde se encontram arquivos que remontam a uma discoteca com incontáveis artistas musicais de todos os tempos. Em cada tópico dedicado a um artista, o visitante tem acesso a links para praticamente toda a sua discografia. Existem tantos quanto imaginar o leitor intempestivo. A comunidade é organizada por três pessoas, mas os links são postados pelos próprios participantes. Os administradores são anônimos.

A principal inimiga da “Discografias” é a APCM (Associação Antipirataria Cinema e Música), fusão de duas entidades de defesa dos interesses das indústrias fonográfica e audiovisual. A APCM tem pressionado o Google, administrador do site Orkut, a acabar com a comunidade, alegando que estaria em desacordo com a legislação do país. O Google tem feito subtrações aqui e acolá na comunidade, eliminando tópicos e deletando usuários, com a justificativa de que o site é para discussão, e não compartilhamento.

O Google chama o Orkut de site de relacionamentos. Trocar arquivos, como dantes se trocavam LP´s e depois CD´s, não é uma forma de se relacionar? Paradoxalmente, foi necessária ameaça de exclusão do Orkut da web brasileira para que fossem liberadas informações de perfis de suspeitos de troca de material de pedofilia no site, por parte da polícia federal.

Contra a lepra orkútica que assola a comunidade, os usuários lançaram um abaixo-assinado eletrônico que pretende reunir um milhão de assinaturas contra a atitude do Google.

A PROPRIEDADE E SUA USURPAÇÃO

Como já pirateado neste bloguinho, a lei deixa de ser nomos (potência-comunalidade efeito da composição racional dos seres humanos em coletividade) para ser tirania quando as leis servem menos à produção de comunidades mais vastas do que à conservação de interesses econômicos.

A propriedade, seja ela física ou “intelectual” – como querem as indústrias do entretenimento – é sempre uma corrupção das relações com o outro. Um produto é o resultado do trabalho, que é sempre coletivo, ainda que realizado por um homem apenas. É coletivo porque envolve saberes e a capacidade humana de transformação da matéria, características comuns a todos os humanos, uma vez que são desenvolvidas em convívio. E o produto do trabalho é sempre coletivo, na medida em que este trabalho remete a uma coletividade de humanos. Até mesmo Platão, em Atenas, na Grécia, sacou essa, quando afirmou em sua Res Publica (coisa pública) a necessidade de levar em conta as profissões e habilidade dos cidadãos na construção de uma democracia.

Na propriedade, corruptela do produzir, é necessário esvaziar do objeto o seu caráter de finalidade. Todo produto remete a um fim, a sua instrumentalidade ou finalidade. Na transfiguração do objeto-produto em objeto-mercadoria, perde-se a sua finalidade. Para o capitalista ou o agente do mercado capitalista, o arroz não tem a função de alimento: sobrepõe-se a esta a sua valoração abstrata como ente absoluto no reino das relações humanas. O capitalista não compra o arroz para comer, mas para transformá-lo em lucro, trocando-o pelo objeto-mor do mercado do valor relativo: o dinheiro.

Assim, o desespero empresarial em torno da troca de mídias audiovisuais nos meios da novíssima tecnologia é o medo do déjà vu: o já-visto. Quando uma gravadora se “apossa” de uma música, ou no caso, de todo o catálogo de obras de um artista, ela se apropria não como entidade socialmente engajada na comun-ação desta obra, mas como mercado capitalista de produção de lucro: a mais-valia produzida pelo artista.

Com as mídias, há um curto-circuito na segmentaridade e no fluxograma do lucro empresarial: sem as distâncias e sem a limitação tecnológica, o fã chega ao artista sem ter que passar pela loja de discos ou videoteca. Pela internet, baixa o filme do diretor preferido, seja ele cinegrafista ou cinegástrico, e ainda descola as legendas na língua natal feitas por algum multilíngue solidário que fez o arquivo de legendas. Podem ainda comprar as músicas ou baixá-las gratuitamente, de zil sites e blogue. E caso ainda não tenha sido abraçado pela inclusão digital, pode comprar os cedês e devedês a preço módico no camelô da esquina.

As campanhas recentes das indústrias tentam aproximar o comércio da pirataria com o mercado das chamadas drogas. Consumir produto pirata é financiar o tráfico. Mas tampouco comprar aquele cedê daquela artista das pernas grossas e da voz fina é compactuar menos com o tráfico: não é por acaso a indústria do mainstream, dos holofotes e do lusco-fusco das superstars e seus produtores e gravadores-engravatados um dos que mais consomem os produtos do mercado do barato?

Dois outros argumentos mostram-se tão fracos quanto o anterior: o primeiro é aquele que afirma o prejuízo financeiro ao idolatrado-querido artista, que ficaria sem o seu quinhão da venda dos cedês “originais” a cinquenta e poucos Reais (dos quais ele recebe generosos 5 centavos, quando muito). O Radiohead faturou mais com o seu pague-o-quanto-quiser “In Rainbows” do que com os dois discos anteriores. Os artistas paraenses Calypso e Wanderley Andrade (dentre outros) distribuem os lançamentos diretamente aos camelôs, e vivem dos shows que fazem, e que jamais lotariam se os fãs não tivessem acesso facilitado às obras.

O segundo argumento é o que afirma que a indústria pirata lucra, não paga impostos e não gera empregos. Então não seria o caso de incentivar a sua legalização? Ou será que, mesmo pagando impostos, os comerciantes piratas continuariam vendendo os cedês e devedês muito mais barato do que a indústria original? Não que não haja conglomerados piratas que exploram a mão-de-obra “camelozal”, não se trata disso: é a indústria original é que não é nenhuma vestal, muito menos tem mais direito de explorar a mão-de-obra artística do que seus “primos pobres”.

NÓS SOMOS OS POBRES!”

O revolucionário não está na indústria pirata, que é apenas uma outra face da moeda do mercado capitalista, mas na produção da riqueza: riqueza aqui no sentido que o filósofo Toni Negri dá à palavra, marxeando-a: modos de produções de relações materiais e imateriais produtoras de novas relações e produtos no mundo. Produção de outros modos de existir. A parafernália tecnológica foi criada com o intuito de capturar e imobilizar ainda mais o consumidor nas suas relações de dependência com a indústria tradicional. Eis que, a partir da potência criadora, estes consumidores, o elo mais fraco da corrente, os pobres, criam novos caminhos, desviam, cavam buracos, escapam, furam a parede, e quando a indústria se dá conta, os aparelhos de capturação são usados para a libertação da dependência econômica dela, na produção de outros tipos de relação e até de uma nova forma de solidariedade. Resta a esta indústria se adaptar ou fenecer.

GOVERNO DO ESTADO CENSURA A INTELIGÊNCIA COLETIVA

DO VETOR AFINADO: TEATRO MAQUÍNICO

A AFIN – Associação Filosofia Itinerante, da qual este bloguinho é um vetor, dentre outros, trabalha também com o Teatro Maquínico, que propõe um encontro com a platéia-ativa na produção de dizeres e saberes sobre a sua condição social, animando e enriquecendo a inteligência coletiva. Para tal, “carrega” estes temas através de vetores do Teatro Maquínico, que são encenações criadas pela própria AFIN sobre temáticas do cotidiano a partir de uma análise da condição social da cidade, do Estado, do país. O mais importante não é a encenação, mas a conversa que se produz a partir do encontro teatral com a platéia. Há mais de dez anos, em tempo de eleição, a AFIN produz vetores a partir dos enunciados que se evidenciam no contexto social de Manaus e do Brasil.

Este ano, desde o início de maio, o Teatro Maquínico apresenta o vetor “À Procura de Um Candidato”, onde convida a platéia-ativa a discutir sobre a situação política da cidade, e a dificuldade em se produzir uma candidatura que venha de uma semiótica diferente das candidaturas que se apresentaram nas últimas décadas, responsáveis pelos problemas enfrentados todos os dias pelos moradores da cidade de Manaus.

Sem falar especificamente de nenhuma candidatura atual, o vetor apresenta situações cotidianas da cidade, em quadros: “A Parada de Ônibus”, “Sem Água é Fogo”, “O Buraco”, “Tempo de Eleição” e “Pleito Geral”. Embora o vetor apresente personagens, incluindo personagens-candidatos, interessa à AFIN evidenciar os discursos que se apresentam na atual eleição, seus elementos corporais e incorporais, seus nós e imobilizações. Daí, como afirma o filósofo Nietzsche, ser possível apenas falar de acontecimentos, não de pessoas. Mas às vezes, como diz a sabedoria popular, a carapuça serve.

DA CENSURA DA SEDUC/CDH À INTELIGÊNCIA COLETIVA

Pois bem, o vetor “À Procura de Um Candidato”, desde maio, já realizou mais de 60 apresentações em centros comunitários, religiosos, ruas, praças, escolas públicas e particulares, sempre onde as linhas intensivas desejantes são ativadas através de pessoas disponíveis para composições alegres: os bons encontros.

Cerca de três semanas atrás, o Teatro Maquínico se apresentou na Escola Estadual Dom Mário Monacelli, no bairro Alfredo Nascimento, zona Leste de Manaus, no horário vespertino, a convite de uma professora, e com a anuência e participação ativa da direção da escola, esta democrática. No entanto, na última terça-feira, quando novamente a professora contactou o diretor para uma outra apresentação, no horário noturno, a permissão – à contragosto do diretor, que gostaria de que o evento ocorresse – foi negada. A alegação foi a de que ele foi “orientado” pela SEDUC – Secretaria Estadual de Educação a não mais permitir apresentações do vetor e/ou do referido grupo na escola. A reprimenda ocorreu porque uma funcionária do CDH – Conselho de Desenvolvimento Humano, presidido pela primeira-dama, Sandra Braga, assistiu um trecho da apresentação vespertina, e imediatamente comunicou o ato “subversivo” aos seus superiores.

Uma semana antes, na Escola Estadual Dom João, na Cidade Nova II, zona Norte, o diretor também impediu que fosse realizada a apresentação, alegando não querer se “queimar” com a secretaria. A alegação dele era de que a “peça teatral” tem muita crítica ao governo, mostrando muitas situações “negativas” da cidade.

Nesta quarta-feira, foi a vez de um professor da Escola Estadual Maria Rodrigues Tapajós, do bairro Redenção, zona Centro-Oeste, convidar a AFIN para uma apresentação, com a condição de que “cortasse” a aparição de um determinado personagem. A razão seria a de que, no entendimento dos dois, o tal personagem, um dos “candidatos” que se apresentam no enredo do vetor, carregaria elementos alusivos a um outro candidato, este na disputa oficial pela prefeitura de Manaus, legítimo representante da direita da Direita manoniquim. A proposta, claro, não foi aceita.

A TIRANIA E A IMAGEM DO PENSAMENTO DO ESTADO

Um governo é tirânico quando as suas ações não são causa de si – potência-comunalidade como produção ativa de uma sociedade de homens livres – mas efeito do acaso, uma insuportável conseqüência dos encontros com entes fantasmáticos, produzidos por governantes que não conseguiram superar o primeiro grau de conhecimento, aquele onde os enganos são freqüentes, e a superstição supera a razão.

Nascida de um engano, de uma idéia inadequada, a noção de cidade que estes governantes tirânicos carregam é reproduzida em suas ações à sua imagem e semelhança. Logo, de um governo tirânico só se pode esperar a dor e o ressentimento contra tudo o que negue o seu estado de coisas, ainda que este seja produtor de dores sociais (fome, violência, passividade, estupidez, repressão, entre muitas).

A ação do governo – cujo secretário de educação, Gedeão Amorim, é formado em Filosofia – revela a predominância de elementos discursivos e práticas censoras à inteligência coletiva, já que tenta impedir pela força institucional a possibilidade de trabalhar no âmbito escolar conteúdos diversos dos saberes instituídos no conteúdo programático. A nova forma de fazer política do governo Braga considera moderno subestimar a consciência política dos professores, mas não aceita práticas filo-pedagógicas que enfraqueçam a imagem do pensamento do Estado, automatismo intelectivo onde predomina a aridez epistemológica e tem pavor do saber que liberta e que permite o movimento intensivo do Ser. Este aniquila a tirania.

À PROCURA DE UM CANDIDATO

PRÓLOGO

Respeitável Público!

Vamos contar uma história

Que foge à razão

Que nem o melhor artista

Teria tanta imaginação

Pois sua realidade

Não é para admiração.

De acordo com a democracia

Toda eleição é plural

Composta de vários partidos

Cada um com seu ideal

Para que o eleitor com seu voto

Construa um governo real.

Acontece que nessa eleição

Para prefeito da cidade

Embora com muitos candidatos

Ocorre uma triste verdade

Nenhum deles para a população

Representa uma novidade.

Alguns são velhos governantes

Que nada fizeram de novo

Outros se disseram diferentes

Mas não governaram com o povo

Outros falam em mudança

Mas nasceram do velho ovo.

Portanto, respeitável Público!

Esta é a triste situação

De uma cidade sem candidato

Que represente renovação

Por isso, neste teatro

Pedimos sua atenção

Para analisar todos fatos

Que negam o cidadão

Pois na democracia

É do povo a opinião.

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Quer linha de corte? Este é esquizo. Acesse:

CAMPANHA AFINADA CONTRA O

VIRTUALIZAÇÕES DESEJANTES DA AFIN

Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

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