I – As Teorias da Virtualização
O filosofo francês Pierre Lévy, seguidor da teoria do virtual, possível, atual e real do filósofo Deleuze, ao desdobrar os pressupostos deleuzianos, estabeleceu a certeza de que o processo da virtualização, com suas teletecnologias, pode auxiliar profundamente na criação de novos saberes ligados às novas formas de relações e produções sociais. Ou seja, Pierre Lévy acredita que essas teletecnologias são instrumentos capazes de criar facilidades na ordem da administração e direção dos componentes sociais.
Já para os filósofos Jean Baudrillard e Paul Virilio, essas novas teletecnologias são em verdade agentes do desaparecimento das potências criativas do homem. Elas contribuem para desaparecimento da experiência sensorial e mental, fundando o vazio com suas imagens e ideias simulacros – que substituem o real – forjadas fora da percepção direta que se realiza em um campo composto de figura e fundo, o fundamento do conhecimento. Para os dois filósofos, o que predominam são imagens virtualizadas alienadas do campo da troca e suas equivalências. O sujeito e o mundo, com seus atributos naturais relevo, velocidade, lentidão, movimento e repouso são despojados dos sentidos e sua mente produtiva. Propriedades necessárias para o conhecimento humano. Espaço, tempo, campo de profundidade, ação, relação, alternância, fatores do conhecimento humano desaparecem no ato da virtualização.
O filósofo Pierre Lévy tem razão em sua defesa da teoria da virtualização quando manifesta a necessidade do uso dessas teletecnologias com o objetivo não de substituir a realidade, mas como fator pedagógico capaz de produzir problemas e através de suas conclusões estabelecer redes de conhecimentos que sejam eficazes nas relações sociais. O que ainda não foi absorvido na maior parte da prática contemporânea.
Entretanto, o que se tem observado é a proliferação em todos os quadrantes da sociedade os pressupostos apresentado pelos filósofos Baudrillard e Virilio. Contestando os seus desafetos, que os chamam de filósofos da catástrofe. O mundo vem se tornando virtual. De Big Brother ao filme pornô, passando pelos candidatos aos cargos legislativos e executivos. A realidade de uma sociedade do simulacro vem se alastrando em todas as formas ditas de comunicação que nada comunicam, pois não tem matéria para comunicar. Disseminou-se um mercado onde o irreal está sendo vendido como real. O shopping virtual se alastra em sua obscenidade-replicante na televisão, nos computadores, nos meios de comunicação e, pateticamente, nas escolas, como verdadeiro acinte e violência aos estudantes.
A regra é simular e dissimular, como diz Baudrillard. Fingir ter o que não se tem, e fingir não ter o que se tem. No primeiro caso, o fingir persegue a afirmação de que tem realidade. No segundo, finge não ter o vazio. Usados em política antidemocrática, o primeiro serve para toda forma escamoteadora de publicidade, e o segundo para esconder o cretinismo hipócrita.
II – A Dissipação da Cidade de Manaus
O prefeito de Manaus, Amazonino Mendes, cassado em primeira instância pela proba juíza Maria Eunice Torres do Nascimento, depois de fazer uma campanha eleitoral mostrando os erros administrativos de seu antecessor, ex-prefeito Serafim (PSB), caiu na mesma incongruência administrativa que já havia apresentado aos amazonenses quando fora prefeito biônico e governador por três vezes.
A cidade de Manaus – que nunca foi filosoficamente uma cidade, visto que jamais foi à expressão das potências de todas as famílias, mas somente dos interesses das famílias dos governantes e apaniguados – é hoje um cenário muito pior do que na gestão Serafim. Todas as necessidades básicas da população não seguem os princípios democráticos dos direitos que fazem de seus habitantes cidadãos, mas tão somente servos, como dizem os filósofos Spinoza/Negri. Do transporte coletivo à escola, saltando pelos atávicos buracos das ruas, tudo se encontra fora do que se chama filosoficamente de cidade, morada democrática dos cidadãos. Polis da associação, do diálogo e da amizade, como pensam os filósofos Guatarri/Deleuze sobre a democracia grega.
Mas eis que se aproximam as eleições, e como Amazonino foi liberado pelo ministro Marcelo Ribeiro em seu processo de cassação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por causa de um histórico lamentável cochilo do MPE/AM, ele já se colocou como candidato do PDT – ai, ai, ai, Brizola, secou o chimarrão? – à reeleição. Então, em processo de campanha antecipada, dissimulada em prestação de contas de sua gestão à população manauara, Amazonino recorreu às teletecnologias virtuais e gravou um DVD com imagens de uma cidade que ele apresenta como Manaus. Uma cidade virtual, que dissimula o real da cidade cotidiana da população amazonense. Principalmente a parte que cabe aos bairros. A parte que mais depende de uma administração democraticamente pública.
Como o virtual não pode substituir o real quando ele é materializado pelos sujeitos concretos, sujeitos históricos, como diz Marx, e como a população de Manaus experimenta em seu cotidiano as agruras produzidas pela ausência de uma administração real, ela, ao tomar ciência do DVD, anda gargalhando do espetáculo virtual promovido pelo prefeito da cidade virtual. A cidade é tão virtualmente perfeita que a população dos bairros – onde fica o maior número de eleitores – vem dizendo que não gostaria de morar nesse topos cibernético, pois nada que desperte a dimensão ativa dos habitantes é sugerido nela de tão virtual que é. Na verdade não é uma cidade, mas sim o paraíso. E paraíso na terra é angustiante. Puro tédio.
O certo é que o prefeito Amazonino, com sua Manaus virtual, conseguiu atingir dois pontos decorrentes de sua investida na virtualização. Um, é que se ele acreditava que o DVD ia lhe conferir eleitores, esse ponto pode ser descartado. A reação de quem entrou em contato com o DVD confirma o contrário. O que pode acontecer é ele ser prefeito de sua cidade virtual, já que ele, nesse momento, ocupa duas prefeituras: a prefeitura da Manaus real, do descaso, e a prefeitura da Manaus virtual, a da aparência. Dois, é que ele, por tanto querer ser tomado como intelectual e amante dos pensadores, conseguiu o intento. Realizou os pressupostos das filosofias de Baudrillard e Virilio: a virtualização realiza o desaparecimento do real.






















Leitores Intempestivos