“A EXPRESSÃO ESTUDANTIL MOSTRA MANAUS IN-VIÁ-VEL”
Rosilda Ferreira Gontan
sexta-feira, 12 fevereiro, 2010 às 2:38 pm
Moro em São paulo há mais de 22 anos, tenho dois filhos, a menina tem 16 anos e o menino 17 anos. Eu estou fazendo uma pesquisa na capital de Manaus, pois estou querendo ir embora de São Paulo, mais para isso preciso saber quais os tipo de comércio, indústria, que predomina na capital. Até pensei em vender meu imóvel e ir diretamente para Manaus, mais não conheço a cidade. Gostaria muito de algumas dicas.
Sem mais para o momento, abraços.
Rose
Proximidades Reais Intempestivas
O companheiro José deixa o seu e-mail para você, Rose, entrar em contato e travar uma conversação sobre a cidade.
“Olá, Rosilda, você quer vir, como tantos outros. Já no meu caso moro aqui há vinte e quatro anos, e estou querendo ir embora. Se interessar, entre em contato: oj.vidal@bol.com.br. Se eu puder lhe ser útil, o farei, pois podemos trocar informações. Boa noite!”
De nossa parte, vemos que em torno de Manaus sempre houve, desde o século XIX, um marketing muito grande em cores carregadas de exotismo. “Paris dos Trópicos!”, “Cidade na Selva!”, “Capital da Amazônia!”, “Princezinha do Norte!”, entre outras, afora as alcunhas dos governos de momento. Isso serviu – e como serve! – para vender o ideal de uma cidade entre o selvagem e o moderno. Ou seja, uma cidade onde se vai encontrar a natureza intocada, com uma fauna e flora exuberante, índios nus pelas ruas, macacos no galho da ingazeira da Praça da Matriz, e, de outro lado, os confortos(?) da civilização (asfalto, points de diversão, o Teatro Amazonas, a Ponta Negra, uma indústria possante, comércio desenvolvido, etc). Idealismo! Manaus sempre viveu (se se pode empregar esse verbo aqui) de surtos. O Período Áureo da Borracha, chamado de 1º Ciclo da Borracha, no final do século XIX, criou uma cidadela para barões de que é prova as mais imponentes construções da Belle Époque, entre elas o Teatro Amazonas, tudo à custa do sangue indígena (o golpe final do genocídio) e de cabocos, enterrados vivos dentro dos seringais.
Com a produção da borracha na Ásia, Manaus virou uma cidade fantasma a povoar a imaginação europeia, como se pode ver em filmes do início do século. Novo surto veio apenas várias décadas depois, durante a Segunda Guerra, quando os Estados Unidos, devido ao Japão fechar a saída de borracha asiática, plantaram aqui o 2º Ciclo da Borracha. Em um ano, cerca de 100 pessoas, principalmente nordestinos, migraram na esperança de enriquecer como “Soldados da Borracha”. Além da enganação da propaganda, com o fim da guerra, estes ficaram abandonados por aí pelos interiores da vastidão do Amazonas.
Finalmente veio o 3º surto: a criação da Zona Franca de Manaus, no ano de chumbo de 1968, que, com seus “incentivos fiscais”, propiciou a vinda de diversas multinacionais para cá e a corrida daqueles “abandonados” do interior, agora já multiplicados, e nova leva de outros estados e até de outros países. Cerca de 50% da população do imenso estado passou a habitar Manaus e esta cidade sozinha passou a conter 95% da renda econômica do estado. Uma cidade com cerca de 200 mil habitantes, em poucos anos tinha 2 milhões. Manaus inchou como um cachorro morto caído à rua: exploração da mão-de-obra barata, invasões faveladas, inexistência de saneamento básico, precariedade em praticamente todos os serviços públicos para que um lugar possa ser chamado de cidade.
Ainda hoje, há mais de 40 anos, se se tirar os olhos dos cartões postais no marketing governamental, quase a totalidade desses problemas persiste em todas as zonas da cidade. Mas não são apenas as multinacionais que lucram com isso, transformando a cidade que tem um dos maiores PIBs do país em uma ponte aérea de capital financeiro. Há uma classe que sempre lucrou com a miséria e é, na verdade, a sua produtora: os políticos. Não faremos aqui um histórico – seria preciso fazer um tratado -, tomemos apenas alguns fatos referentes aos atuais.
A começar pelo governador do estado, Eduardo Braga, ano passado foi acusado de desvio bilionário de combustíveis. A queixa foi retirada depois pela acusadora, mas como o Ministério Público Federal já havia se encarregado da denúncia, ela está correndo em algum lugar dos meandros da lei. Seu principal projeto em Manaus, o Prosamim, para as pessoas que vivem à beira do igarapé é muito diferente do marketing televisivo. O valor que o governo quer pagar de indenização, segundo eles, não lhes possibilita adquirir uma residência condizente.
O prefeito de Manaus, Amazonino Mendes, que já foi prefeito e governador tantas vezes, é conhecido como um dos políticos mais corruptos do Brasil, envolvido na compra de votos para a reeleição de Fernando Henrique, na gestão atual, foi cassado antes de assumir e até hoje continua prefeito a partir de liminar.
Quase todos os deputados estaduais e federais mais votados são os apresentadores de programas miserabilistas de exploração da miséria material e emocional das pessoas expostas a suas canalhices. O ex-deputado estadual Wallace Souza, cassado ano passado, um dos mais fortes e mais conhecidos entre eles, hoje se encontra na penitenciária por acusação de comandar, junto com seus irmãos e outros comparsas, grupos de extermínio, coações, tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, etc.
O vice-prefeito, Carlos Souza, irmão de Wallace, na associação com o irmão, chegou a ir para a penitenciária e, acredite, ao sair continua vice-prefeito, apesar de não mais aparecer em público.
A Câmara Municipal de Manaus (CMM) é totalmente subserviente ao prefeito cassado, sendo seu presidente do mesmo partido deste.
No que diz respeito aos serviços públicos: apesar do alto investimento do governo federal, os serviços de atendimento de saúde são precários; Manaus tem um dos piores serviços de transporte coletivo do Brasil; a educação, segundo todas as avaliações nacionais, inclusive o último Enem, está sempre como a pior do Brasil; sem esquecer a situação das ruas, que Manaus é conhecida no Norte como a “Cidade dos Buracos”, e por aí vai. Quer dizer, não vai.
O grande marketing demagógico epidêmico atual é que Manaus é sede da Copa 2014. Apenas mais um pequenino surto.
Se uma de suas razões, Rose, de querer sair de São Paulo e vir pra Manaus, é a péssima administração Serra-Kassab (PSDB-DEM), não seria trocar seis por meia dúzia, como diz o ditado. Seria algo como 0 x 0. É preciso abrir esse placar. Há o que se fazer em São Paulo e há o que se fazer aqui. Independente das atividades que se exerça na vida, sempre é possível contribuir com a afirmação da cidadania e fortalecimento da democracia.
Se não vieres, dê notícias (novidades!) de como vão as coisas, você que convive cotidianamente, na prática, com a realidade paulista-paulistana. Se vieres, dê notícias também para que este bloguinho possa conversar pessoalmente sobre suas impressões e seus planos…
Abraços afinianos!
Leitores Intempestivos