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CASOS DE EUROPEUS VÍTIMAS DE TRÁFICO DE PESSOAS NO BRASIL SÃO IDENTIFICADOS PELO MINISTÉRIO DA JUSTIÇA

Seminário Internacional Brasil-União Europeia sobre Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas discutiu casos de europeus no Brasil vítimas de tráficos de pessoas e seu crescimento cujos objetivos são tanto para exploração sexual, como para o trabalho escravo e transplantes de órgãos e tecidos. Segundo a análise do Ministério da Justiça estes europeus chegam ao Brasil trazidos em função do crescimento econômico e iludidos por melhoria de vida.

De acordo com Paulo Abrão, secretário nacional de Justiça, a descoberta de problemas comuns entre esses países resultou na necessidade de se planejar ações e definir parâmetros para a troca de informações.

Durante muito tempo os brasileiros eram as maiores vítimas, quando iam aos países centrais. Agora, temos percebido que há ocorrência de tráfico de pessoas a partir da América Latina e dos países centrais, que estão em crise. Neles, existem ocorrências de tentativas de tráfico de pessoas enviadas ao Brasil com o mesmo propósito.

São principalmente mulheres entre 19 e 24 anos. Em geral, são traficadas para diferentes fins. Entre as modalidades mais comuns estão a exploração sexual, a remoção de órgãos e tecidos humanos, trabalho escravo ou servidão em casamento.

Vamos padronizar essa coleta de informações, para que, em um ano tenhamos dados confiáveis para formular novas políticas. O tráfico de pessoas já se constitui como o terceiro maior volume de ativos ilícitos no mundo”, disse Paulo Abrão.

Participando também no seminário, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse que é necessário a cooperação de todos para combater o tráfico.

Esse é um problema que preocupa muitos países do mundo, em especial a comunidade europeia. Portanto, o enfrentamento não passa apenas por medidas internas de nosso país. Sem uma relação internacional aprofundada e sem conjugação de esforços, não será possível encontrarmos a solução”, afirmou o ministro.

Falando sobre como a sociedade pode ajudar no combate ao tráfico de pessoas, Paulo Abrão, disse que basta denunciar nos núcleos e postos de enfrentamento ao tráfico de pessoas instalados em pontos de entrada no país e rodovias de diversos estados.

As pessoas podem procurar esses locais para apresentar suas demandas, pois são eles que administram, in loco, a ocorrência dos fatos e depois os levam ao âmbito federal, nível federal, para eventual ação articulada com a Polícia Federal”, disse Paulo Abrão.  

Ministro pediu a Cameron que não bloqueasse oferta de Murdoch

A Comissão Leveson, que investiga a relação da mídia com o mundo político britânico, revelou que o ministro da Cultura, Jeremy Hunt, pediu ao primeiro ministro David Cameron que não bloqueasse a oferta do grupo Murdoch pelo resto do pacote acionário da cadeia BskyB porque “os meios de comunicação britânicos sofreriam um golpe terrível”. Em uma carta, Hunt disse que Ruppert Murdoch estava “furioso com o que estava acontecendo”.

Marcelo Justo – Londres

Londres – O ministro da Cultura britânico Jeremy Hunt pediu ao primeiro ministro David Cameron que não bloqueasse a oferta do grupo Murdoch pelo resto do pacote acionário da cadeia BskyB porque “os meios de comunicação britânicos sofreriam um golpe terrível”. A Comissão Leveson, que investiga a relação da mídia com o mundo político, revelou que na carta enviada um mês antes de converter-se em avaliador da oferta, Hunt assinalou que o magnata internacional midiático Ruppert Murdoch estava “furioso com o que estava acontecendo” e que o governo não devia ceder à pressão da “BBC e do The Guardian” que se opunham à aquisição por seu impacto na liberdade de imprensa.

A Comissão Leveson desferiu outro duro golpe em Hunt que deverá defender na próxima semana sua afirmação de que era um observador imparcial da oferta. A Comissão revelou que, entre junho de 2010 e julho de 2011, o Ministério da Cultura trocou 799 mensagens de texto e 191 chamadas telefônicas com o principal lobista do grupo Murdoch, Frederic Michel. Entre as mensagens se destacam dois e-mails nos quais Michel elogia Hunt por sua destreza retórica. Em um deles, Michel dizia a Hunt: “estiveste magnífico na Câmara dos Comuns”. Ao que, Hunt, modesto, cosmopolita e afrancesado, respondeu: “Merci, um bom trago hoje à noite”. No dia 13 de janeiro de 2011, Michel elogiou Hunt por sua aparição no programa política de Andrew Marr: “Estiveste muito bem com Marr. Como sempre”. Sempre parisiense, Hunt respondeu: “Merci, com sorte quando esta consulta terminar poderemos tomar um café como nos velhos tempos”.

As datas, a quantidade e o conteúdo das mensagens são chave. Em junho de 2010, o grupo Murdoch ofereceu 8 bilhões de libras (cerca de 13 bilhões de dólares) para adquirir 61% do controle acionário que faltava para ter o controle completo da BskyB. Um ano e meio depois, retirou a oferta por causa do escândalo das escutas telefônicas que sua publicação dominical “News of the World” havia feito com o celular de uma adolescente sequestrada e assassinada. Durante esse período, Michel, diretor de temas institucionais europeus da News Corp., manteve um contato diário com o Ministério da Cultura apesar de o governo ter que decidir se a oferta era uma ameaça para a liberdade de imprensa pelo poder monopólico que oferecia a News Corp., dona de 40% da imprensa escrita do Reino Unido.

O lobista dos Murdoch afundou um pouco mais a faca no corpo do ministro da Cultura quando indicou, nesta quinta-feira, que, na avaliação dele, a série de e-mails que recebeu de Adam Smith, ex-assessor de Hunt, não fazia mais que transmitir mensagens do ministro. “Sempre supus que Smith falava representando seu chefe e que tudo o que me dizia eram um fiel reflexo do que havia falado com ele”, assinalou Michel.

Em abril, Smith renunciou quando a Comissão publicou os e-mails. Em um deles, o lobista contava a James Murdoch que em relação ao informe da agência reguladora dos meios de comunicação, OFCOM, Hunt “me pediu novamente que encontrássemos todos os erros legais que pudéssemos e que propuséssemos algumas soluções fortes a estas objeções”. No dia prévio ao anúncio feito por Hunt ao Parlamento sobre a decisão que o governo adotaria a respeito da oferta do grupo , Michel escreveu a Murdoch que “há muitos problemas legais, de modo que Hunt está tratando de obter uma versão favorável para nós”. O ministro da Cultura se defendeu dizendo que Smith havia se excedido em suas funções e que em nenhum momento havia representado seu pensamento.

O governo respaldou Hunt assegurando que não houve em nenhum momento nada inapropriado em sua relação com a oferta pela BskyB. A realidade é que o próprio primeiro ministro David Cameron e o ministro de Finanças, George Osborne, viram-se repetidas vezes envolvidos no tema por sua relação muito próxima com figuras chave da News Corp., desde o magnata Ruppert Murdoch e seu filho James, até a ex-editora executiva da operação britânica do grupo, Rebekah Brooks, e o ex-editor do News oh the World, Andy Coulson, que foi chefe de imprensa de Cameron. Até aqui, Hunt tem servido de escudo para Cameron. Está cada vez menos claro quanto tempo mais contará com esse escudo. Dependerá muito do depoimento do próprio Hunt na Comissão, marcado para a próxima semana.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

Carta Maior

Frente de Esquerda da França inspira-se em América Latina e pede nova constituinte

França terá eleições parlamentares no próximo mês. A candidata Raquel Garrido, da Frente de Esquerda, esteve no Brasil e explicou as propostas do grupo de Jean-Luc Mélenchon, como realizar uma assembléia constituinte. “Venezuela, Equador e Bolívia mostraram que não basta vencer uma eleição para a esquerda chegar ao poder, mas é preciso reconstruir o sistema”.

Marcel Gomes

São Paulo – Depois de apoiar o socialista François Hollande contra Nicolas Sarkozy no segundo turno das eleições presidenciais, a Frente de Esquerda da França volta a trilhar um caminho próprio. A chamada esquerda radical, liderada por Jean-Luc Mélenchon e que recebeu 11% dos votos no primeiro turno, quer crescer agora nas eleições parlamentares, marcadas para o próximo mês.

Em ritmo de campanha, a candidata Raquel Garrido esteve no Brasil no início da semana para apresentar suas propostas. Ela concorre para ser um dos representantes dos franceses que vivem no exterior, inclusive no Brasil. Oriunda de uma família chilena que teve se exilar após o golpe de Augusto Pinochet no Chile, em 1973, Garrido reforça as diferenças com os socialistas.

“Hollande quer uma saída suave para a crise, mas isso não vai acontecer. Precisamos enfrentar o FMI, a Comissão Européia e os mercados financeiros, rever o pacto fiscal e realizar políticas que incentivem o crescimento econômico do país”, disse à Carta Maior.

Entre as propostas da Frente de Esquerda, estão o incentivo à integração dos migrantes e a realização de uma assembléia constituinte, com o objetivo de reduzir o poder presidencial e ampliar o do parlamento. “Venezuela, Equador e Bolívia já mostraram que não basta vencer uma eleição para a esquerda chegar ao poder, mas é preciso reconstruir o sistema”, afirmou. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Carta Maior – Por que François Hollande não é a solução para a crise?
Raquel Garrido – Os governos de centro-esquerda que têm chegado ao poder após administrações ultraliberais não modificam as políticas estruturais. Continuam apostando na austeridade para conseguir boas notas das agências de classificação de risco, e com isso sacrificam a economia e os salários. Hollande até propôs renegociar o pacto fiscal, mas a Alemanha já vetou. Ele quer uma saída suave para a crise, mas isso não vai acontecer.

CM – O que a Frente de Esquerda propõe?
RG – Precisamos enfrentar o FMI, a Comissão Européia e os mercados financeiros, rever o pacto fiscal e realizar políticas que incentivem o crescimento econômico do país. A França precisa endurecer na negociação. Não há outra saída. Queremos um referendo para ouvir a população sobre as políticas de austeridade. Veja o caso da Irlanda. O país fará um referendo porque a constituição nacional assim exige. Se a austeridade for reprovada, todos na Europa teremos de renegociar o pacto fiscal. A França poderia seguir esse exemplo e aumentar a pressão contra a austeridade.

CM – O que mais é necessário?
RG – Precisamos relançar a economia francesa. Isso se faz não apenas combatendo o marco programático da rigidez orçamentária, mas com redistribuição da riqueza, busca de novas entradas fiscais, aumento de salários e a transição ecológica.

CM – A extrema-direita francesa tem ganhado muitos votos entre os operários, que tradicionalmente são eleitores da esquerda. O discurso xenófobo contra a imigração, sobretudo nessas épocas de crise, encontra eco. Como a esquerda pode enfrentar isso?
RG – Nós estamos crescendo cada vez mais nas periferias da França. E conseguimos isso com um discurso que mostra que a identidade francesa está vinculada à política, e não à religião ou à etnia. Os franceses se reconhecem a partir dos ideais da revolução, da igualdade, da liberdade e da fraternidade. Somos um povo miscigenado, temos um dos maiores índices de casamentos mistos do mundo.

CM – A Frente de Esquerda quer uma assembléia constituinte. Por quê?
RG – O presidente francês governa sem ouvir o parlamento. Isso é um problema gravíssimo. Três milhões de pessoas foram às ruas para protestar contra Nicolas Sarkozy pela reforma do sistema previdenciário, mas ele deu de ombros. Uma nova constituição será importante para restabelecer a importância do parlamento.

CM – Como vê o avanço da esquerda na América Latina?
RG – É nossa referência. No Brasil, a esquerda anda junta dos movimentos sociais. Na Argentina, houve o enfrentamento com o FMI. E Venezuela, Equador e Bolívia já mostraram que não basta vencer uma eleição para a esquerda chegar ao poder, mas é preciso reconstruir o sistema.

Carta Maior

Tsipras: “Refundar a Europa e derrotar o poder financeiro”

Em visita a Paris, onde se reuniu com Jean-Luc Mélenchon, o líder da esquerda radical grega, Alexis Tsipras, fez duras críticas à política europeia conduzida pela chanceler alemã Ângela Merkel e ao setor financeiro. “Esse poder é o grande inimigo dos povos, não governa mas decide sobre todas as coisas”, afirmou. Tsipras acusou Merkel de “estar levando a Europa a uma espécie de suicídio coletivo”. As últimas pesquisas dão ao partido de esquerda radical 28% dos votos, a frente da direita da Nova Democracia, que apresenta 24%. O artigo é de Eduardo Febbro, direto de Paris.

Eduardo Febbro – Paris

Paris – O homem que colocou em xeque o mega plano de austeridade que o Fundo Monetário Internacional e a União Europeia impuseram a Grécia enviou, desde Paris, uma mensagem muito clara: Alexis Tsipras, o líder da esquerda radical grega, Syriza, disse na capital francesa que era urgente “refundar a Europa e derrotar o poder financeiro. Esse poder é o grande inimigo dos povos, não governa mas decide sobre todas as coisas”.

Alex Tsipras veio a Paris para se encontrar com Jean-Luc Mélenchon, o líder da Frente de Esquerda francesa, candidato nas eleições presidenciais de abril e maio e, hoje, adversário direto da líder da extrema-direita, Marine Le Pen, nas eleições legislativas de 10 e 17 de junho.

Tsipras chegou na França em posição de força. A Grécia volta a realizar eleições legislativas no próximo dia 17 de junho e as sondagens indicam a vitória de seu partido, o que faria dele o próximo primeiro ministro. Dirigindo-se diretamente à chanceler alemã Angela Merkel, o homem que faz tremer a Europa fustigou com paixão e virulência os programas de austeridade e ajustes promovidos por Berlim, ao mesmo tempo em que desqualificou aqueles que não deixam a Atenas outra alternativa além de aceitar a austeridade ou morrer: “não se negocia com o inferno”, disse o responsável da Syriza. Quanto a Merkel, Alexis Tsipras acusou a chanceler alemã de “estar levando a Europa a uma espécie de suicídio coletivo”.

Para este político de 37 anos que surgiu no primeiro plano em plena hecatombe, o que está ocorrendo na Grécia não é uma crise passageira acompanhada por um enésimo plano de austeridade, mas sim um experimento que pretende ser ampliado: “não se trata de um simples programa de austeridade, mas sim de um experimento neoliberal de choque que conduz a Grécia a uma crise humanitária que, logo em seguida, deverá ser exportado a toda Europa”. O diagnóstico que Tsipras formulou em Paris é claro e combativo: “estamos vivendo uma guerra entre as forças do trabalho e as forças invisíveis da finança e os bancos”, disse ele junto a Mélenchon, que completou a mensagem dizendo que “a cadeia de resignação e de servidão que unia os povos europeus está se rompendo”.

O panorama eleitoral do partido Syriza tem contornos favoráveis para mudar as regras do jogo impostas pelo mundo financeiro. Esse “inimigo”, disse Tsipras, pode “cair” graças às eleições legislativas de 17 de junho. Segundo ele, a consulta eleitoral não será “um pseudo dilema entre o euro e o dracma – a antiga moeda grega -, mas sim uma escolha entre o memorando de austeridade e a esperança. Longe de ser um inimigo do euro, Tsipras se apresentou em Paris como um “partidário” da moeda única mas, ao mesmo tempo, como um adversário da “chantagem praticada pelos partidários da austeridade”. Os argumentos do Syriza ganharam muitos eleitores na Grécia. As últimas pesquisas dão ao partido de esquerda 28% dos votos, a frente da direita da Nova Democracia, que apresenta 24%.

O crescimento do Syryiza tem sido espetacular. Desde as eleições legislativas realizadas no último 6 de maio, quando surgiu como a segunda força política do país, o partido ganhou 16 pontos em intenções de voto.

Comparativamente, nas eleições de 2009, o Syriza havia obtido só 4%. Alexis Tsipras deixou bem claro em Paris que, em caso de vitória nas eleições de junho, não aceitará nenhuma negociação sobre o pacote de austeridade que a UE e o Fundo Monetário Internacional impuseram a Grécia em troca dos 130 bilhões de euros de resgate financeiro. Neste sentido, Tsipras defendeu os argumentos do presidente francês, o socialista François Hollande, a favor do crescimento como estratégia para sair da crise. “Se seguirmos como estamos agora, em seis meses será preciso aprovar um terceiro plano de ajuda e uma segunda reestruturação da dívida. Os governos europeus devem deixar de pedir aos contribuintes que sigam colocando seu dinheiro em um poço sem fundo. Sem crescimento, jamais poderemos pagar o dinheiro que nos emprestarem”.

Os cerca de 200 jornalistas credenciados na Assembleia Nacional nunca tinham escutado um discurso tão cirúrgico contra o sistema financeiro pronunciado dentro do sacrossanto recinto parlamentar. Tsipras definiu o plano de austeridade aplicado a Grécia como um “desastre humanitário”, como um “ato de barbárie ineficaz”. Tanto Tsipras como Mélenchon fustigaram a Europa por sua conduta em relação a Grécia e a condenação coletiva de Atenas no que diz respeito à crise. Ambos pediram uma “solução comum para um problema comum” porque, senão, a tragédia grega alcançará inevitavelmente outros países. “Ameaçar a Grécia é ameaçar a nós mesmos”, disse Mélenchon que, de passagem, recordou que 60% da dívida grega está em cofres públicos.

Apoiados pela brisa de uma mudança, Tsipras e Mélenchon defenderam uma associação completa da esquerda europeia destinada à “refundação da Europa baseada na coesão social e na solidariedade”. A linguagem juvenil e combativa de Alexis Tsipras não é angelical. O líder do Syriza sabe que, mesmo com a vitória política nas urnas, a estrada será árdua: “formar um governo não equivale a ter o poder. Se conseguirmos ser majoritários nas urnas teremos contra nós os bancos, os meios de comunicação e uma parte do Estado”, disse Tsipras.

O político grego se comprometeu em Paris a tomar uma série de medidas imediatas em caso de ganhar as eleições de junho: “um governo de esquerda – explicou – colocará fim imediatamente as medidas mais insustentáveis como a diminuição dos salários e das aposentadorias”. Tsipras reconheceu que para tirar a Grécia do marasmo será preciso fazer “sacrifícios”, mas também esclareceu que “do mesmo modo que todos os povos da Europa os gregos querem ter o sentimento de que seus sacrifícios são úteis e que os mais pobres não serão os únicos a pagar a conta”.

Tradução: Katarina Peixoto

Carta Maior

‘Vitória da esquerda na Grécia é decisiva para derrotar Merkel’

Um governo da Grécia que se oponha à política de austeridade é hoje a única possibilidade que a Europa tem de enfrentar a senhora Merkel. Não há nenhuma outra alternativa no curto prazo. Se isso acontecer teremos uma mudança política muito profunda. Esta é a única forma de enfrentar a chancelaria de Berlim, de vencer a direção da União Europeia, de vencer o Fundo Monetário Internaciona e de recuperar a democracia e a Europa. A avaliação é de Francisco Louçã, coordenador da Comissão Política do Bloco de Esquerda, de Portugal.

Esquerda.Net

Na sessão de encerramento da Conferência Econômica Internacional “Portugal na encruzilhada da Europa”, Francisco Louçã deixou duas reflexões: uma sobre a política europeia e outra sobre a situação da Grécia e as lições a retirar do caso grego.

Em primeiro lugar, o coordenador da Comissão Política do Bloco referiu-se à proposta apresentada pelo “senhor Trichet, ex governador do Banco Central Europeu (BCE) e que foi durante muito tempo a segunda pessoa mais importante da União Europeia, o ‘vice Merkel’.

Louçã frisou que a solução para a Europa apresentada por Trichet na Cúpula do G8 em Washington, e que constitui “a mais radical das soluções federais levadas ao seu extremo”, “tem uma longa história, porque já foi sucessivamente usada pelo menos em sete países diferentes e em momentos diferentes”.

Segundo adiantou o dirigente bloquista, a proposta de a Comissão Europeia tomar “conta do governo de qualquer país que não esteja cumprindo os seus acordos de austeridade com a União e, portanto, confiscar o poder de decisão orçamentário e tributário desses países”, já foi aplicada no México, pela França em 1862, no Egito, pela França e Inglaterra em 1876, no Perú em 1889, na Republica Dominicana, pelos EUA e potências europeias em 1905 e 1916, na Nicarágua, em 1902 e 1911, e no Haiti, em 1916, e sempre com o mesmo objetivo: “tomar conta do sistema tributário que irá ser utilizado para financiar o sistema financeiro de cada um dos países credores”.

E “as palavras do Sr. Trichet são para levar a sério”, alertou Francisco Louçã, porque “são precisamente um ensaio de algo que outros não podem dizer mas ele vai antecipando”.

“A dívida é a força, a cobrança é a força. A austeridade é a força, e a austeridade impõe-se mesmo que seja contra a vontade dos povos”, sublinhou Louçã, adiantando que Trichet, ao querer impor esta solução, não se deve esquecer que “não se entra na Grécia e em Portugal para dizer agora governamos nós sem que isso passe por uma exibição de força e por uma imposição de força que vá muito além da chantagem que está agora em curso”.

As lições a retirar do caso grego
Segundo o dirigente bloquista, mediante as últimas eleições na Grécia, e as já agendadas para junho, ganhamos a perceção de que “o tempo se esgotou e de que o mapa já mudou.

Louçã frisou que a discussão sobre “se é um partido de esquerda ou de direita, ou um partido da troika ou que se opõe à troika” que governará a Grécia “é um fato absolutamente novo na política europeia” e que é possível retirar quatro lições do caso grego.

Primeiro, que a “troika é insuportável”. “A austeridade chegou ao seu limite”, sendo que a “Grécia demonstrou que não existe economia que possa resultar com aquela punição”.

Segundo, que, se a troika é “insuportável”, os partidos da troika serão derrotados, “porque uma parte importante do povo não aceita a continuidade das políticas da troika”. “A esquerda na Grécia cria a ruptura com a troika e é isso que lhe permitiu ascender à posição de propor um governo e de propor uma alternativa”, avançou Louçã.

Terceiro, que os partidos de uma esquerda contra a troika ganharam nas eleições da Grécia, e é a primeira vez que tal acontece na Europa. “A Syriza representou a esquerda que, com consequência, com alternativa, com pragmatismo, com capacidade de diálogo, com força de compromisso, com respeito pelos seus valores e com uma proposta clara perante com o país, vem romper com a troika, recusar a dívida ilegítima, restabelecer as condições para defender o salário e as pensões, trazer a economia para a democracia e impor democracia na economia”, adiantou o deputado bloquista, afirmando ainda que “foi assim que ela venceu e é assim que disputa a possibilidade de formar governo”.

Na opinião de Francisco Louçã, a quarta lição a retirar do caso grego é a de que um governo da Grécia que se oponha à política de austeridade “é hoje a única possibilidade que a Europa tem de enfrentar a senhora Merkel”. “Não há nenhuma outra que, nas próximas semanas, nos próximos meses, nos possa dizer: há uma Europa que começa a mobilizar-se para vencer à austeridade e para recusar a recessão”, sublinhou o dirigente do Bloco.

Se assim acontecer, defendeu Louçã, ”teremos uma mudança de política muito profunda”. E, por isso, “essa esperança merece toda a nossa atenção e toda a nossa solidariedade”.

Se é possível haver um governo de esquerda, ele baseia-se, segundo Francisco Louçã, “exatamente na convicção de que qualquer destes países tem os recursos e a Europa tem a responsabilidade de criar uma economia de respeito, sustentável, socialmente equilibrada, que possa combater o desastre econômico e recuperar os salários e as pensões para a vida das pessoas”.

É tempo de mudar o mapa
O desemprego no nosso país, que atinge acima de um milhão de pessoas, traduz-se em perdas de “30 a 40 bilhões em produção e em contribuições para a segurança social”, destacou Louçã.

“Onde a economia morre e onde colapsa o sistema fiscal é onde há desemprego”, avançou, defendendo que “esses recursos que se perdem pela política da desigualdade são os que podem fazer uma economia que responda às pessoas, e a grande virada que nós precisamos na economia portuguesa é precisamente a política do emprego, do investimento, da sustentação”.

“Eu sei que António José Seguro e Pedro Passos Coelho se reuniram pela quinta vez no último ano, no dia em que se comemorava um ano em Portugal e creio mesmo que alguns comentadores muito bem-intencionados comentaram ‘que alívio para o país’”, afirmou o deputado do Bloco de Esquerda.

“Eu não vejo nenhum alívio para esses desempregados quando a direita fez votar uma lei na Assembleia da República com o beneplácito do PS para facilitar a demissão mais acelerada, mais barata, mais violenta e mais cruel em relação às pessoas que estão perdendo o emprego”, sublinhou o dirigente bloquista.

Para Francisco Louçã, “agora é o tempo de mudar o mapa, agora é o tempo de não esperar mais, de não ter meias palavras. É o tempo da coragem, da força, da determinação, da democracia, da luta por uma governança que à esquerda traga uma alternativa ao desastre que estamos a viver”.

“Esta é a única forma de enfrentar a chancelaria de Berlim, de vencer a direção da União Europeia, de vencer o Fundo Monetário Internacional, de recuperar Portugal, a democracia e a Europa”, rematou o dirigente bloquista.

Carta Maior

“Catástrofe liberal”: crise arrasta Europa para a incerteza

O cientista político, economista e ex-deputado ecologista Alain Lipietz resume o momento pelo qual atravessa a Europa com duas palavras: “a catástrofe liberal”. As bolsas europeias voltaram a fechar com índices negativos, enquanto a Espanha, arrastada pelo redemoinho da especulação e dos cortes, acusa a Grécia de ser a responsável pela situação. A União Europeia considera cada vez mais a possibilidade de a Grécia abandonar a moeda única. O artigo é de Eduardo Febbro, direto de Paris.

Eduardo Febbro – De Paris

Paris – A história cruza suas espadas e faz papel picado da construção europeia tal como ela foi plasmada no modelo ultraliberal. No momento em que o socialista François Hollande se prepara para assumir a presidência da República da França, a Europa está espremida em uma grave crise enquanto os mercados seguem movendo os fios para não perder um centavo de seus já abismais lucros: a Grécia continua sem formar um governo que aceite submeter o povo à sangria da austeridade imposta pelos mesmos que foram cúmplices da derrocada. As bolsas europeias – Paris, Londres, Milão, Frankfurt, Atenas – voltaram a fechar com índices negativos, enquanto a Espanha, arrastada pelo redemoinho da especulação e dos cortes, acusa a Grécia de ser a responsável pela situação.

“A instabilidade política grega é o principal elemento de incerteza e é aí que devemos agir. Temos que tomar decisões”, disse em Bruxelas o ministro espanhol da Economia, Luis de Guindos. A União Europeia se divide em torno do irmão menor. Responsáveis da Comissão Europeia, ministros, analistas e meios de comunicação já contempla, sem se escandalizar, o futuro da Europa com a Grécia fora do euro. Os responsáveis europeus colocaram Atenas ante uma disjuntiva com final similar: morrer dentro do euro, ou morrer fora dele. O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, disse que “se os acordos não são respeitados por um país, isso significa que não há condições para continuar com esse país”.

Na verdade, são os mercados que antecipam a hecatombe. Assustados pela eventualidade de um atraso ou de uma suspensão das ajudas financeiras prometidas a Atenas para que faça frente a seus vencimentos, os investidores se refugiam ali onde seus capitais estão a salvo, neste caso nos títulos alemães. A taxa de risco espanhola alcançou um máximo histórico ao mesmo tempo em que os títulos alemães, os Band, percorreram o caminho contrário: chegaram a seu piso mais baixo da história graças à corrida dos investidores para esse produto seguro. A crise grega se juntou com os desarranjos da banca espanhola oriundos de anos anteriores. O incêndio está chegando aos cofres dos bancos e se expande com as faíscas do passado.

A reforma bancária proposta pelo governo conservador de Mariano Rajoy obriga os bancos a aportar provisões de 30 bilhões de euros para sustentar as contas castigadas por empréstimos imobiliários de alto risco. Cinco dos principais bancos do país – Bankia, CaixaBank, Popular, Santander e BBVA – necessitam de 16 bilhões de euros para sanear-se. Os bancos espanhóis arrastam uma sombra de 238 bilhões de dólares de ativos imobiliários cujo valor é aleatório.

Como se isso não bastasse, o socialista François Hollande assume nesta terça-feira a presidência em pleno confronto com a Alemanha a propósito do manto de austeridade com o qual Berlim cobriu a Europa. O presidente francês se empenhou em renegociar o pacto fiscal adotado em março passado por 25 dos 27 países da União Europeia com a meta de superar a crise. Mas esse pacto implica severas políticas de austeridade e Hollande disse que a austeridade sem crescimento não faz sentido. O chefe de Estado francês quer renegociar o tratando incluindo medidas a favor do crescimento, algo que a Alemanha rejeita. No entanto, os analistas consideram que a força da crise grega obrigará Paris e Berlim a um consenso no momento em que a ideia da saída da Grécia do euro deixou de ser uma metáfora.

O tabu sobre a unidade em torno do euro foi reduzido a pedaços. A União Europeia considera cada vez mais a possibilidade de que a Grécia abandone a moeda única. O semanário britânico The Observer chegou até a publicar uma nota sobre “como a Grécia poderia deixar o Euro em cinco etapas difíceis”. Em Atenas, o chefe do partido de extrema-esquerda Syriza, negou-se a formar um governo com mandato para aplicar um programa que ele mesmo qualificou de “criminoso”. Sem governo na Grécia, a única alternativa seria realizar novas eleições daqui a um mês. Marcus Huber, membro da empresa de consultoria financeira ETX Capital, disse à imprensa que “essas eleições não só conduziriam a um novo rechaço das medidas de austeridade, como representariam um verdadeiro referendo sobre a permanência ou não do país na zona do euro”.

Antes impensável, essa eventualidade torna-se tangível e as capitais europeias já começaram a fazer contas. Na França, o governador do Banco da França, Christian Noyer, declarou que nenhum grupo financeiro, banco ou companhia de seguro atravessaria sérias dificuldades em caso de “um cenário extremo na Grécia”. O passivo da Grécia com os bancos franceses chega a 13 bilhões de euros.

Atenas deve cumprir com o plano de ajuste ou partir. O cenário de um erro sem a Grécia é menos otimista que as declarações oficiais. Se isso ocorrer, muitas empresas entrariam em situação de moratória. Segundo a agência de avaliação financeira Fitch, as repercussões da Grécia fora do Euro se fariam sentir nas notas de países como Itália e Espanha. De fato, a crise polifônica que atinge a Europa é consequência do dogma liberal: desmontar os Estados, impor a bota da austeridade e do rigor. Em termos de funcionamento, o dogma também criou desarranjos difíceis de corrigir: o Banco Central Europeu (BCE) não empresta dinheiro aos Estados, só aos bancos privados. Só o BCE tem o poder de desvalorizar o euro e unicamente o BCE e os bancos privados podem emitir moeda, não os Estados.

Por esta razão, a Grécia não pode nem desvalorizar nem criar moeda, nem obter dinheiro do Banco Central a uma taxa razoável. A universitária Sophia Mappa, pesquisadora no Laboratório de Investigações sobre a Governabilidade (Largotec) assinala que “a crise grega é o espelho dos limites do modelo liberal, não só econômico, mas também social”. O cientista político, economista e ex-deputado ecologista Alain Lipietz resume o momento pelo qual atravessa a Europa com duas palavras: “a catástrofe liberal”.

Nada retrata melhor sua análise do que as cifras do banco BBVA. No informe anual apresentado em abril passado pelo BBVA, ante a Comissão do Mercado de Valores dos Estados Unidos, o banco registrou: “A crise da dívida soberana na Europa se intensificou em agosto de 2011 e se contagiou com pressões de financiamento no setor financeiro. As tensões financeiras na Europa seguem em níveis superiores àquelas verificadas após a queda do Lehman Brothers em 2008”. Quatro anos depois da grande quebra do Lehman, a crise não fez outra coisa do que desenhar um redemoinho que arrasta povos inteiros ao desemprego, à pobreza e à incerteza.

Tradução: Katarina Peixoto

Carta Maior

Indignados da Espanha pedem apoio político do Brasil

Integrantes do movimento apostam na interlocução com agentes públicos do país para fortalecer a organização, vista por governos e por parte da população como um grupo de protesto sem objetivos concretos. “Nas suas reuniões pelo mundo, quando ouvirem que o 15M não tem propostas, indiquem a leitura da nossa Demanda de Mínimos que está na internet”, sugeriram ativistas ao governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, em Madri. A reportagem é de Naira Hofmeister, direto de Madri.

Naira Hofmeister – De Madri

Madri – Eles não se sentem representados por partidos políticos e questionam até a atuação de sindicatos, mas viram em experiências de participação popular desenvolvidas pelo governo do Rio Grande do Sul elementos comuns a suas demandas. São Os Indignados, que questionam a agenda política que atende aos interesses de 1% da população ligada ao capital financeiro em detrimento dos outros 99%.

A crítica ao sistema foi exposta publicamente nas ruas da Espanha a partir de maio de 2011 e ganhou repercussão com os acampamentos em praça pública que inspiraram atos semelhantes em todas as partes do mundo.

Em Madri, onde manteve uma agenda política e econômica no primeiro final de semana de maio, o governador Tarso Genro se encontrou com integrantes do movimento – eles não admitem ser chamados de líderes, porque defendem uma organização horizontal.

O que era para ser uma troca de ideias, na qual Tarso se dispunha a ouvir críticas à estrutura tradicional dos partidos e outras bandeiras do grupo, se transformou em um convênio informal entre o governo do Estado e o 15M (o movimento também é chamado assim em alusão à sua data de fundação, 15 de maio). E em um ato de desagravo aos Indignados.

“Acampar se tornou ilegal na Espanha, a imprensa nos criminaliza, a polícia nos persegue. Precisamos de pronunciamentos em nível internacional para suportar isso. Queremos apenas falar dos problemas da sociedade e de como ela poderia ser”, explicou Javier Toret, um jovem catalão que participou da montagem da rede digital de descontentes que disparou a campanha “Toma as ruas” e que originou o 15M.

Ocorre que em razão da heterogeneidade de manifestantes e bandeiras, a força política do grupo – que calcula ter mobilizado 8 milhões de pessoas em toda a Espanha nos três primeiros meses de atuação – se diluiu um pouco. “Temos capacidade de construir uma alternativa, mas para isso precisamos de interlocutores em governos e na sociedade civil”, avaliou Raúl Sanchez, que ciceroneou o governador Tarso Genro pelo centro cultural comunitário La Tabacalera, onde ocorreu o encontro.

Os Indignados salientaram a importância de ter apoio internacional e formar uma rede de cidadania global diante das pressões que vêm sofrendo na Europa: eles temem, inclusive, uma repressão violenta no próximo 12 de maio, quando ocorrerá um grande ato em diversas cidades espanholas para marcar um ano do movimento. “Se tivermos esse tipo de problema, é muito importante divulgar em outros países”, exemplificou Toret.

“Também queríamos pedir que nas suas reuniões, quando ouvirem que o 15M não tem propostas, indiquem a leitura de Demanda de Mínimos que está na internet. São meia dúzia de documentos e estão direcionados tantos a socialistas como à classe média”, complementou a ativista Simona Levi.

Tarso se mostrou simpático à provocação democrática que o movimento propõe, mas não deixou de fazer observações críticas. “Quando vocês tomaram a praça para dizer ‘¡No nos representan!’, foram notícia em todo o mundo, mas depois desapareceram porque propõem a radicalização do Estado de Direito. Como os argentinos, quando em 2001 saíram às ruas para pedir ‘¡Que se vayan todos!’ – o problema é que se sai a política, ela é substituída pela burocracia e pelo capital, avaliou o governador.

Movimento quer aproveitar modelo de participação popular
O governador gaúcho Tarso Genro se comprometeu a enviar para Os Indignados documentos que embasaram a construção do chamado Sistema de Participação Popular no Rio Grande do Sul. Trata-se de um conjunto de ferramentas que une desde a experiência do Orçamento Participativo, que dá às comunidades o poder de decidir prioridades nos gastos públicos em assembleias presenciais, até a Consulta Popular, no qual a população elege um projeto através de uma votação nas urnas e na internet.

Outro processo que integra o sistema chamou a atenção dos Indignados: o Gabinete Digital, com projetos como O Governador Pergunta e O Governador Responde, no qual dialoga virtualmente com a população, ou a Agenda Colaborativa, que recebe sugestões de pauta dos cidadãos via web.

“É preciso organizar um controle público sobre o Estado, implementar mecanismos de transparência e democratização da gestão para reduzir a força normativa do capital financeiro sobre os governos”, avaliou o chefe do executivo do Rio Grande do Sul.

Tarso ainda se comprometeu a encaminhar ao grupo relatórios sobre o Marco Civil da internet brasileira, texto que estabelece os princípios de uso da rede no país e que foi redigido quando ele era ministro da Justiça. Atualmente tramita no Congresso Nacional.

“Aqui na Europa se tende a restringir ao máximo o uso da internet. Estamos patrocinando apresentações para explicar aos eurodeputados que a rede é uma ferramenta para a democracia”, lamentou Simona.

O grupo se interessou ainda em receber informações sobre os projetos de economia solidária desenvolvidos no Brasil e no Rio Grande do Sul.

Fotos: Caco Argemi/Palácio Piratini

Carta Maior

Sarkozy perde, mas ressuscita a Besta

Domingo os franceses elegerão Hollande presidente, mas Sarkozy. para ganhar votos, deu legitimidade aos neofascistas e neonazistas franceses.

Comentando meu artigo prevendo a vitória do socialista François Hollande para a presidência da França, um leitor de direita, mal informado pela grande imprensa brasileira e mal humorado, comentou que eu decretara a vitória de Hollande.

Engano, foi o povo francês, cansado das estrepolias e traições do atual presidente Sarkozy, quem decretou, e isso tornou visível, já faz algumas semanas, a vitória de François Hollande.

Tudo ficou ainda mais evidente com o debate de três horas, desta quarta-feira, diante das câmeras da televisão francesa, depois do qual os comentaristas políticos franceses e pessoas entrevistadas deram vantagem para o candidato socialista. Foi um verdadeiro duelo, com a surpresa de se ver Hollande, que era chamado de fraco e sem presença, se transformar num agressivo, forte e convincente candidato.

A hora da verdade será domingo, dia 6, quando cerca de 53% dos eleitores mostrarão a porta dos fundos do Palácio do Eliseu para uma saída discreta do irriquieto Sarkozy por não cumprimento de promessas, por ter falhado na contenção do desemprego, por ter baixado os impostos para os ricos e aumentado para os pobres e outras tantas peraltices.

Sarkozy correu como um hiperativo insone para tentar debelar a crise econômica européia, contando com o apoio da chancelar alemã Angela Merkel, mas o plano de austeridade concebido pela dupla francoalemã aguarda o momento de ser abortado. A União Européia sabe que as regras vão mudar depois de domingo e seus dirigentes esperam as novas orientações de Paris, que não serão mais na direção do neoliberalismo.

Tudo vai mudar, porque já é historicamente reconhecido que a França tem sempre um papel de liderança e de vanguarda, no continente europeu, seja no mundo das idéias, dos costumes, como na economia e na política.

Assim como Jean-LucMélenchon eletrizou parte da esquerda francêsa adormecida e desencantada com sua nova leitura do socialismo, revivendo comícios dignos da Revolução Francesa, da Comuna de Paris ou da vitória do Programa Comum da esquerda que levou Mitterrand à vitória, em 1981, é certo que a derrota da direita de Sarkozy, em franco adultério com a extrema-direita de Le Pen, despertará os ideais socialistas nos eleitores europeus.

Os ventos vão mudar a partir de domingo, mas um espectro ressuscitado por Sarkozy, na louca tentativa de conseguir obter mais votos, ficará rondando à espera de intervir e de transformar a vitória de domingo numa catástrofe.

Sarkozy no seu desespero diante da derrota fez como Fausto um pacto com o Diabo e, pela primeira vez, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, ressurgiu na boca de uma presidente francês a linguagem do marechal Pétain, colaborador de Hitler após a ocupação da França.

No afã de conquistar os votos da extrema-direita francesa do Front National, liderada agora pela filha de Le Pen, Marine, o já quase ex-presidente deu legitimidade e tornou compatível o discurso racista, antiestrangeiros e nacionalista popular dos neonazistas franceses.

Mas tudo em vão, porque Marine Le Pen, que promete restabelecer a pena de morte, expulsar os estrangeiros e branquejar a França, tem outro plano – fragmentar e destruir a direita francesa para reconstituí-la como um forte partido híbrido de extrema-direita.

Em outras palavras, após a derrota de Sarkozy e os ajustes de contas que se seguirão, o partido do presidente derrotado implodirá, e no seu lugar surgirá um Front National com outro nome, versão light, enquanto Marine Le Pen, aparentemente lavada dos seus perigosos extremismos, poderá se sentar como líder entre os políticos franceses.

Como num pesadelo, ressurgirá na França um partido nacionalista, cujo programa lembrará os espectros do passado. E o pior poderá acontecer se François Hollande falhar no seu posto de presidente.

Mas, mesmo na versão otimista de um bom governo Hollande, haverá na cena política francesa a ameaça latente da ideologia fascista e nazista, numa versão mais leve e adoçada, porém com o mesmo veneno dos anos 30, escondido no seu interior. Essa a herança de Sarkozy.

Publicado originalmente no site Direto da Redação

Rui Martins, correspondente em Genebra.

Jornal Correio do Brasil

TRABALHADORES DE VÁRIOS PAÍSES DO MUNDO FIZERAM DO 1° DE MAIO DIA DE PROTESTO

As comemorações do Dia do Trabalho em vários países do mundo foram materializadas com amplos movimentos de protestos. A mola principal que impulsionou os movimentos de protestos foi a crise econômica mundial que vem tirando emprego de milhares de trabalhadores em todos os continentes e empobrecendo vastas sociedades. Um quadro desumano provocado pela voracidade financeira dos grandes bancos e empresas que praticantes do neoliberalismo só acreditam no lucro como o leimotiv de suas existências. Capitalismo paranoico que reflete a patologia de 1% dos que detém o poder econômico como denuncia os manifestantes do Ocupe Wall Street.

Nos Estados Unidos o movimento Occupy Wall Street realizaram suas manifestações em várias cidades do país e os protestos foram concretizados em frente aos edifícios bancários, grandes empresas multinacionais, praças e parques. Em alguns lugares a força policial braço violento protetor do capitalismo oprimiu os manifestantes usando cassetetes e bombas de efeitos moral, além de usarem alto-falantes para dispersar os manifestantes.

Na Grécia houve paralisação geral que contou com milhares de trabalhadores de vários setores produtivos, hoje muito desativado. Ônibus, trens e metrôs não funcionaram com paralisação de quatro na capital Atenas. Hospitais públicos e privados funcionaram com seus corpos médicos diminuídos.

Na França, em várias cidades, ocorreram 280 manifestações produzidas pelas lideranças sindicais. De acordo com os sindicalistas não houve espaço para mensagens de partidos políticos e candidatos que concorrem no segundo turno das eleições para Presidência da República francesa.

Vivendo dias apreensão contra pacotes de medidas econômicas de austeridades propagadas pelos governos de seus países, trabalhadores da Espanha e Portugal realizaram protestos contagiantes contra a situação de quase penúria que vivem os trabalhadores dos dois países europeus.

Na Turquia, especificamente em Istambul, milhares de representantes de partidos políticos e trabalhadores foram às ruas. Diante da gigantesca concentração o governo enviou mais de 20 mil policiais para a Praça Taksim, logradouro público de maior importância da cidade e território de reivindicações.

Em Cuba, o Dia 1° de Maio teve outras cores em vista de ser o dia de maior relevância no país. As festividades comandadas pelo governo Castro homenagearam os trabalhadores do mundo e os trabalhadores cubanos que construíram o socialismo latino

Manifestantes saíram às ruas de várias localidades da ilha para defender o socialismo carregando faixas com dizeres enaltecedores ao país e ao socialismo. Alguns cartazes com dizeres “Preservar e aperfeiçoar o socialismo”, se destacaram nas manifestações.

No Brasil, algumas manifestações em algumas cidades lembraram os trabalhadores na ótica bem realista, onde ele aparece ainda lutando por alguns direitos que ainda não foram conquistados e também empregos.

No Amazonas, particularmente em Manaus, não houve movimento de trabalhadores em função da miserável situação em que se encontra a maioria dos sindicatos. Uma maioria formada pela pelegada. Triste realidade com dirigentes alienados submissos aos governos municipal e estadual, ambos da ultradireita.

Mobilizações de maio serão decisivas, dizem Negri e Cocco

“No curto prazo, o mês de maio já se apresenta como um momento decisivo para sabermos se vamos poder contar com uma possível nova fase constituinte de lutas, depois daquela que conhecemos no ano passado. Muito depende de como o Primeiro de Maio organizado pelos “occupy” nos EUA e a mobilização global dos dias 12 e 15 de maio acontecerão. A grande questão é saber se o 15M e as redes sindicais conseguirão se encontrar num terreno não corporativo”, defendem Antonio Negri e Giuseppe Cocco em entrevista concedida na Espanha, onde ocorrerá esta semana o Seminário Internacional Crise da Representação e os Desafios da Democracia no século XXI.

Redação

Madri – No momento em que o movimento de contestação popular democrática 15M, também chamado de movimento dos indignados, completa um ano, o Governo do Estado do RS vai até a Espanha para apresentar seu sistema de participação cidadã. O Seminário Internacional Crise da Representação e os Desafios da Democracia no século XXI vai reunir pensadores, ativistas, representantes de sindicatos e governos para analisar experiências e soluções encontradas em várias partes do mundo, nos dias 4 e 5 de maio, na sede da Comissão Europeia, em Madri.

Nesta entrevista, Antonio Negri e Giuseppe Cocco traçam um panorama das mudanças provocadas por movimentos como o 15M, a crise da democracia nos países europeus e o papel que os países do sul podem desempenhar na busca por novos modelos de democracia, com novos canais e espaços de participação popular.

Antonio Negri, filósofo italiano, é professor titular aposentado da Universidade de Pádua (Itália) e professor de filosofia do Colégio Internacional de Paris (França). Entre outras obras, escreveu, em parceria com Michael Hardt, os livros “Império” e “Multidão”. Giuseppe Cocco, cientista político, doutor em história social pela Universidade de Paris, é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Entre outras obras, escreveu, com Antonio Negri, o livro “Glob(AL): Biopoder e Luta em uma América Latina Globalizada”.

Depois de um ano do início do movimento 15M, qual a força de mobilização e capacidade de renovação dos protestos?

Antonio Negri e Giuseppe Cocco: Uma boa maneira de se responder a essa pergunta é começando por uma definição adequada do que é o 15M, ou seja, o movimento da multidão na Espanha do ano passado. Uma primeira definição é muito simples: trata-se de um formidável processo de (re)apropriação da política por milhares de pessoas. Esses milhares de pessoas não se reúnem a partir de alguma identidade prévia (por exemplo, a condição objetiva dentro da divisão técnica e social do trabalho), mas se constituem como uma multidão de singularidades (a classe que nós podemos enxergar nessas lutas é uma produção de subjetividade).

Usando as palavras de Raúl Sanchez, podemos definir o 15M e as primaveras árabes também como movimentos de revolução democrática: inventores de democracia e radicalizadores da democracia. A invenção da democracia acontece na sua radicalização: na imanência que contém a forma e o conteúdo dessas lutas. Hoje o 15M está chegando a um ano de existência e se constitui como que um prisma a partir do qual se pode olhar para os movimentos que o anteciparam (a primavera árabe) e para os que o seguiram (o occupy wall street). Seu horizonte é o da sua globalização!

Os protestos e as mobilizações nunca pararam e continuaram a se propagar de maneira viral: atravessaram o Mediterrâneo até as praças de Tel Aviv, e depois atravessaram o Atlântico no Occupy Wall Street (que, por sua vez, teve como referência as longas manifestações na Assembléia Estadual em Wisconsin), generalizando-se em dezenas de cidades dos Estados Unidos, de costa a costa; depois disso, as lutas voltaram para a Praça Tahrir no Egito e para a Praça Syntagma de Atenas. No dia 15 de outubro do ano passado as manifestações foram globais e chegaram também ao Brasil (embora de maneira ainda embrionária).

Os contextos de cada um desses movimentos foram muito diferente e em nenhum deles se repetiu o que acontecia em outro lugar. Contudo, cada um deles conseguiu traduzir para a sua singularidade alguns elementos comuns. Como dissemos, esses movimentos desenvolveram-se numa “forma multidão”, algo como um “fazer-se da multidão”: frequentes assembléias e decisões participativas. As mídias sociais (como Facebook e Twitter) foram instrumentos de rede: evidentemente, elas não criam os movimentos, mas são ferramentas úteis, porque, em vários sentidos, correspondem à estrutura dos experimentos horizontais e democráticos dos próprios movimentos. Em outras palavras, o Twitter é útil, não porque divulga eventos, mas porque reúne as ideias de uma grande assembléia para uma decisão específica, em tempo real. Na rede, em seus códigos e protocolos, reside o mecanismo de ativação e modulação de um movimento que funciona como um enxame.

Assim, o movimento espanhol se constituiu numa primeira e potente resposta às consequências políticas e sociais da crise sistêmica do capitalismo global. Nesse sentido, ele herdou e requalificou os protestos da multidão grega, articulando a “recusa a pagar” pela crise do neoliberalismo com uma capacidade de mobilização autônoma e horizontal de tipo novo e constituinte, fortemente inspirada na relação estreita que as revoluções árabes estabeleceram entre as mídias sociais e as praças.

Além disso, o 15M foi também a invenção de uma zona de mobilização autônoma diante do impasse gerado pela gestão totalitária que o governo socialista espanhol optou por fazer da crise, obedecendo passivamente às medidas impostas pelas finanças, pela União Européia e agências de rating. O PSOE de Zapatero esvaziou totalmente o terreno da representação como possível espaço de negociação e acabou transformando a anunciada vitória da direita neofranquista em um verdadeiro pesadelo: sem alternativas.

Na impossibilidade de apelar para um voto reformista ou até simplesmente “útil” (pois teria significado aceitar e legitimar a chantagem da gestão antissocial e antidemocrática da crise implementada pelo PSOE a partir da ditadura das finanças) o movimento foi a única brecha encontrada; e podemos dizer ainda que um de seus grandes resultados foi o de esvaziar antecipadamente a legitimidade da vitória eleitoral da direita. Contudo, o movimento enfrenta hoje dois desafios: um primeiro – de tipo geral – é renovar-se nas mobilizações de rua e com isso avançar no terreno da luta contra a crise; um segundo – mais especifico – é conseguir inovar nas formas de mobilização, agora que a representação (o governo) se apresenta como aberta regressão reacionária e os espaços de manifestação democrática são submetidos à chantagem da repressão e da violência.

De maneira um pouco mais geral, a questão que se coloca hoje é de saber se esses protestos e mobilizações conseguirão continuar suas lutas com uma capacidade adequada de inovação. Podemos então reformular a questão inicial nesses termos: a multiplicação dos protestos que já acontece e se aprofundará, além de se constituir em horizonte inevitável de toda reflexão teórica e política, pode voltar a renovar suas dimensões constituintes? As múltiplas instâncias do 15M e dos movimentos “occupy” já enfrentaram o desafio apostando na recomposição dos movimentos em dois grandes momentos: o primeiro de maio (o May Day) lançado pelo Occupy Wall Street nos Estados Unidos, e o 12 e 15 de maio lançado pelo 15M espanhol.

O 15M – enquanto movimento global – já pode também contar com mais uma inovação: a mobilização operária e sindical. Houve uma grande manifestação nacional do sindicato dos trabalhadores metalúrgicos na Itália (a FIOM) e uma greve geral (de 24 horas) na Espanha. Na Itália, os metalúrgicos protagonizaram greves espontâneas, manifestações e piquetes de rua contra a reforma trabalhista e enfim confluíram numa grande manifestação nacional no dia 9 de março de 2012. Na Espanha, as duas principais centrais sindicais (UGT e CCOO) mobilizaram um vasto protesto contra a flexibilização selvagem do mercado do trabalho, tentando inclusive se tornar o eixo de referência do conjunto da oposição social à ditadura financeira consolidada no governo de direita (do PP). A greve geral foi atravessada pela constelação de realidades dos movimentos oriundos do 15M rumo à mobilização global de 12 e 15 de maio. Nas manifestações, a multidão dos jovens precários e desempregados clamava pela apropriação da greve (Toma la huelga) para preparar uma outra greve (Otra huelga).

Ao invés de constituir uma normalização do movimento nos moldes tradicionais de organização sindical, a greve geral espanhola acabou se mestiçando nas práticas de luta dos trabalhadores que já estão fora da relação salarial e precisam de novas formas de organização e, sobretudo, de um novo programa. Apareceu com clareza o desafio de juntar a greve “geral” contra a austeridade e o endividamento com a as lutas de defesa das condições gerais de vida (biopolíticas) democrática. A questão que está colocada é, pois, como a “greve geral” saberá se tornar uma outra greve, uma resistência geral contra a chantagem da austeridade e do endividamento, rumo a um programa que tenha como base a defesa da própria vida, das bases biopolíticas da democracia: greve geral e renda universal!

Quais as possibilidades de construção de sínteses a partir dessas novas mobilizações para uma nova agenda democrática?

AN e GC: Mais do que pensar na construção de novas “sínteses”, o desafio atualmente é a renovação e a propagação dos movimentos “constituintes” e, dentro e a partir deles, de uma nova agenda democrática, de um novo “programa”, um programa da multidão. O eixo desses esforços foi definido pelos próprios movimentos: trata-se da luta para a reapropriação social de tudo que a renda financeira expropria; uma luta rumo à construção de um “novo welfare”, capaz de libertar as vidas da chantagem dos dispositivos de endividamento e das infinitas modulações dos fragmentos de inclusão-exclusão, exclusão-inclusão.

Dito de outra maneira, diante do ataque generalizado a toda produção social, a única maneira de defender o trabalho é defender a cooperação social como um todo. A defesa do “trabalho” precisa enraizar-se na defesa de toda a produção social, ou seja, da conexão das lutas por salário “dentro” da empresa com as lutas de todas as subjetividades pela renda “fora” da empresa. Sem essa conexão, as lutas são incompreensíveis e impotentes. Já temos aqui o conteúdo e a função do programa. O novo programa será adequado se souber construir essa conexão: renda incondicional, welfare universal e a apropriação dos serviços e dos bens para além da clivagem público/privado, no terreno da constituição do comum.

A gestão da crise do capitalismo global está se dando num terreno de exceção, à qual somente as dinâmicas constituintes dos movimentos de tipo novo podem responder para transformá-la em radicalização democrática. Nesse sentido, as manifestações sindicais de 9 de março na Itália e a greve geral de 29 de março na Espanha constituíram importantes momentos de generalização das lutas. No curto prazo, o mês de maio já se apresenta como um momento decisivo para sabermos se vamos poder contar com uma possível nova fase constituinte, depois daquela que conhecemos no ano passado. Muito depende de como o May Day (Primeiro de Maio) organizado pelos “occupy” nos Estados Unidos e a mobilização global dos dias 12 e 15 de maio acontecerão.

De maneira mais geral, a questão é de saber se o 15M e as redes sindicais conseguirão se encontrar num terreno não corporativo, ou seja, na construção de uma agenda adequada. E a agenda somente será adequada se houver clareza sobre o fato de que não se trata de defender (apenas) o trabalho dentro da relação salarial (dentro do emprego), mas as bases sociais gerais de um trabalho que acontece também e, sobretudo, fora da relação de emprego, envolvendo a vida como um todo: no setor terciário (serviços), nas redes sociais, na precariedade e na informalidade. Sem esta compreensão das dimensões pós-industriais do trabalho produtivo, das qualidades cognitivas da força de trabalho e, enfim, das dimensões sociais que a qualificam ao mesmo tempo em que qualificam a produção como um todo, não haverá recomposição de classe. É nesse sentido que hoje a luta é pela defesa das condições gerais de vida e implica a construção de uma nova agenda democrática a partir do tema geral da Renda de Cidadania.

Mais ainda, sindicatos e movimentos têm que construir frentes e instituições como “Bolsas de trabalho” ou “Pontos de trabalho” para poder organizar reivindicações salariais para todos: para os que têm um emprego e para os que não o têm, para os que têm um estatuto e para os que estão na precariedade, e isso passa necessariamente pela luta em prol de uma renda social incondicional. Quando a empresa se torna social, o sindicato também deve tornar-se social. Isso é de grande atualidade no Brasil! Pensemos, por exemplo, em como as lutas dos sindicatos dos professores ficam hoje limitadas e corporativas ao não conseguirem se articular com os territórios.

Sem a reconquista da riqueza socialmente produzida por meio de uma renda social universal e incondicional, a relação salarial não saberá se tornar a base constituinte de uma agenda democrática, de maior liberdade e igualdade, para superar o neoliberalismo. O salário é hoje uma ferramenta social. É por isso que o capital financeiro controla direta ou indiretamente a indústria, os serviços, o trabalho social em geral; e sua atuação é imediatamente política: por essa razão o capital ocupa diretamente os governos que, por sua vez, operam a partir das métricas, das medições (ratings) que as próprias finanças impõem. Diante da governança financeira do trabalho social, os governos se tornam órgãos de execução de seu comando direto. Assistimos a uma inversão das tradicionais relações de servilismo entre governos e capital: os ministros não são mais empregados do capital, mas são os empregados do capital que se tornam ministros.

As acampadas do 15M, do Occupy, da Praça Syntagma e também aquelas embrionárias que aconteceram no Rio de Janeiro, em São Paulo e Salvador – a partir do conflito com o capital e seu governo – estão trilhando um terreno novo, ou seja recompondo – entre as redes e as praças – as lutas operárias, as lutas por moradia, por escola, pela saúde, e vão também começando a intervir na gestão das escolas e dos hospitais, elaborando experimentações de inovação do mercado do trabalho. Trata-se mesmo de fazer isso, de reconstruir desde baixo as redes das relações sociais que hoje permitem que as empresas funcionem; apontar as contradições no plano concreto, os elos inovadores e os que destroem as redes; apreender, junto dos trabalhadores e/ou dos cidadãos, os modos de produção de subjetividade que os instauram.

A síntese que hoje faz sentido é mesmo aquela de um “estilo de militância” que associe a luta pela generalização da renda universal em todos os segmentos do trabalho social e a recomposição das lutas das forças de trabalho sociais com as lutas dos operários industriais, no terreno da constituição do comum.

Quais perspectivas podem vir do Sul, onde a tradição democrática é mais jovem, mas as experiências das novas metodologias têm sido referência, como no caso do Brasil e o Rio Grande do Sul?

AN e GC: O governo da crise sistêmica do capitalismo global se apresenta como uma “revolução desde cima”. O capital financeiro, longe de ser reduzido dentro dos marcos de regulação que supostamente deveriam restabelecer seus critérios prudenciais (conservadores!), está se mostrando não como um desvio, mas como o próprio modo de ser do capitalismo contemporâneo. Com a crise, sua ação não se reduz, mas alcança um novo patamar: depois de ter assumido o controle das redes sociais de produção, de ter substituído a relação capital–trabalho por aquela de crédito e débito, o capital financeiro se torna abertamente governo, passando por cima das próprias regras da democracia formal. É um poder de exceção que atua ao longo de duas linhas: por um lado, a redução dos governos e de todo o mecanismo da representação a meros executores técnicos das diretivas dos mercados; pelo outro, a destruição do welfare residual e com isso a destruição das próprias condições biopolíticas da democracia formal assim como a conhecemos no segundo pós-guerra.

Os governos da América do Sul se constituíram, nessa primeira década do novo milênio, numa tímida porém real contratendência: depois de ter abandonado as políticas de privatização, passaram a elaborar novas formas de proteção social (em particular, com a distribuição de renda e a valorização do salário mínimo) e algumas inovações democráticas: no Brasil podemos destacar as novas formas de participação (o orçamento participativo de Porto Alegre), as brechas de transversalidade abertas no Ministério da Cultura de Gilberto Gil, as conferências nacionais de comunicação, cultura, segurança, além de outros elementos de inovação reformista no terreno, como por exemplo, da política de cotas raciais nas universidades, de democratização do acesso ao ensino superior (Prouni e Reuni), da política indígena (como no caso da demarcação contínua da Reserva Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima).

Na Argentina, as lutas pela democracia (em particular, com as políticas de direitos humanos e os processos da ditadura) e os “planes” de distribuição de renda foram particularmente importantes. Na Bolívia e no Equador tivemos intensos momentos constituintes. Além disso, os governos da América do Sul em geral e do Brasil em particular se engajaram nos rumos de uma nova política externa que articula criativamente o governo da interdependência com a multiplicação das relações Sul-Sul (no âmbito do G20, dos Brics, da Unasul etc.).

Nesse sentido, o Sul em geral e a América do Sul em particular pode ter um papel fundamental a desempenhar dentro da crise, colocando-se como um novo ponto de referência para os movimentos, no terreno da resistência democrática e de um reformismo inovador. Agora, esse papel não é nem automático e nem está consolidado. Pelo contrário, já existem inúmeras inflexões que nos fazem pensar em uma homologação dos projetos e das políticas dentro dos valores – decadentes, mas sempre em vigor – do capitalismo global.

Na Bolívia, por exemplo, onde parecia que as relações entre movimentos e governos fossem as mais abertas e íntimas, assistimos à multiplicação de conflitos (o gazolinazo no El Alto de La Paz, a marcha indígena no Tipnis contra a estrada construída com financiamento brasileiro por uma empreiteira brasileira) que envolvem diretamente a questão dos ‘projetos’ e dos ‘sujeitos’.

A solução “estatal” das escolhas de valores parece prevalecer sobre a opção da radicalização democrática. No Brasil também, o primeiro ano do governo Dilma conseguiu fechar – com rara obtusidade – uma série de interstícios que o pragmatismo da era Lula tinha deixado acontecer: a distribuição de renda continua fechada nos limites (neoliberais) da condicionalidade, mantendo o foco numa erradicação da pobreza que mais se assemelha a uma remoção dos pobres; a experiência inovadora do MinC foi destruída e com ela todas as políticas inovadoras em termos de uma política de redes; as relações com os movimentos sociais (organizados ou não) tornaram-se praticamente nulas; o Ministério das Comunicações abriu mão do plano de banda larga para agradar aos interesses das operadoras multinacionais de telefonia; as grandes obras (como Belo Monte, os Estádios da Copa e as Olimpíadas do Rio) são implementadas segundo uma lógica autoritária que é exatamente aquela da racionalidade capitalista; um governo oriundo das forças sindicais sequer é capaz de entender as revoltas endêmicas dos operários das barragens; a regulação dos vistos para os imigrantes estrangeiros reproduz para pior as piores políticas de discriminação dos mais pobres (os haitianos e os africanos) que os países do norte aplicaram (e aplicam) contra os brasileiros.

Enfim, parece que tudo se resolve em termos de taxa de juros e de crescimento, segundo linhas de valor transcendentes; ou seja segundo os padrões de valor dominantes. Acontece que esses valores estão hoje totalmente em crise e só se reproduzem com base numa preocupante redução dos espaços democráticos.

Enfim, a questão que se coloca é mesmo de saber se o Sul – e o Brasil em particular – quer mesmo se homologar pelos valores transcendentes (e decadentes) do Norte e de seu capitalismo financeiro ou se, ao contrário, é sua alteridade radical e a sua capacidade de produzir novos valores que interessa. No cerne dessa alternativa se encontra a questão dos pobres e da classe. Por um lado, as forças residuais do movimento socialista mantêm o que de pior houve na experiência socialista, ou seja, suas dimensões positivistas e desenvolvimentistas, aquelas que estiveram na base da degeneração totalitária do stalinismo e consideram a ciência e a indústria como um prêmio da luta de classe.

Nessa tradição – teoricamente extenuada mas ideologicamente ainda ativa – os “pobres” são um estorvo, fruto da anarquia do capital, algo a ser removido pelo crescimento e pela racionalidade, de modo a transformá-los todos em operários e classe média. Por outro lado, na tradição da classe entendida como constituição e luta (o “comunismo” na definição marxiana!), a ciência e indústria não constituem nenhum prêmio, mas são o próprio terreno do conflito, rumo a outros valores. Aqui, a luta dos pobres afirma sua alteridade, ou seja, a riqueza que somente os pobres produzem, em outras palavras, uma outra riqueza, uma outra sociedade. E a alteridade dos pobres tem como sua maior riqueza a diferença, isto é, a capacidade que os pobres têm de serem índios, favelados, negros, imigrantes, mulheres etc. – esta é a riqueza do Sul.

É esta riqueza que se tornou a referência nas montanhas de Chiapas e nos Fóruns Sociais de Porto Alegre. E essa alternativa tem um terreno bastante definido: por um lado, a comemoração da emergência de uma “nova classe média”; pelo outro, o trabalho de reconhecimento do processo de constituição de uma nova classe trabalhadora.

O governo do Rio Grande do Sul pode, nesse panorama, renovar a experiência que foi a base do Fórum Social Mundial de Porto Alegre, trabalhando ao longo de dois eixos: por um lado, com a inovação das práticas de participação no terreno da mobilização política e produtiva, retomando e qualificando as políticas mais inovadoras dos governos Lula (como está sendo feito com as cotas de cor nos concursos públicos); pelo outro, se apresentando diretamente na cena global junto aos movimentos, proporcionando ocasiões de debate sobre os espaços de construção democrática, entre expressão e representação.

O governo do Rio Grande do Sul tem dois terrenos fundamentais para a experimentação democrática: a evolução das políticas sociais de distribuição de renda em direção a uma Renda Universal (experimentações que podem envolver os próprios dispositivos das políticas sociais, mas também uma nova maneira de enfrentar e dialogar com o corporativismo sindical); a democracia em rede, que a experiência inovadora do Gabinete Digital prefigura como um consistente espaço de mobilização política e de radicalização democrática.

Carta Maior

David Harvey propõe retomada de espaços públicos nas cidades

Em entrevista ao programa Democracy Now, o geógrafo David Harvey fala sobre os desafios colocados para os trabalhadores neste 1º de maio e para os novos movimentos sociais nos Estados Unidos, na Europa, no Oriente Médio, África e outras regiões. Harvey destaca a eclosão do direitos das cidades, a mobilização das comunidades em defesa da reocupação de espaços públicos que já foram seus. Em Nova York, exemplifica, o espaço público não é verdadeiramento aberto ao público.

Amy Goodman – Democracy Now

(*) O teor da entrevista de Harvey está transcrito (editado) abaixo em português.

AMY GOODMAN: Terça-feira é 1º de maio, também conhecido como Dia Internacional dos Trabalhadores, um feriado em que se celebra os direitos e as conquistas dos trabalhadores organizados, como a jornada de oito horas. Este ano, a campanha do Ocupe Wall Street espera mobilizar dezenas de milhares de pessoas ao redor do país com o slogan “Greve Geral. Sem Trabalho. Sem compras. Ocupe em toda parte”. São planejados eventos em 125 cidades. A campanha Ocupe planeja protestar em 99 alvos só em Manhattan, inclusive nos escritórios do JP Morgan Chase e Bank of America.

Na última quinta os ativistas se reuniram no Parque Union na cidade de Nova York para anunciar os planos dos protestos massivos para o Primeiro de Maio, incluindo grupos de imigrantes, trabalhadores sindicalizados, membros do Ocupe Wall Street.

Bem, para falar mais a respeito do Primeiro de Maio e da campanha Ocupe, estamos hoje com o professor de antropologia David Harvey, do Graduate Center da Universidade da Universidade da Cidade de Nova York. Ele vem dando aulas sobre O Capital, de Karl Marx, há quase 40 anos, é autor de uma série de livros, incluindo Os Limites do Capital e Uma Breve História do Neoliberalismo. Seu livro mais recente se chama Cidades Rebelde: do direito às cidades à Revolução Urbana. Explique, David Harvey.

DAVID HARVEY: Eu estou tentando olhar a história dos levantes urbanos. E, na verdade, se você olha para a situação ao redor do mundo hoje, você vê exemplos em Berlim. Você os vê também no Cairo. Vê-los sendo levados a cabo com o movimento dos indignados na Espanha e, é claro, na Grécia. E também os vê no Chile. Nos últimos anos, temos visto levantes como o de Los Angeles, vinte anos atrás. Então é isso – e eu estou interessado no tipo de significado político desses movimentos. E eu penso que em certo aspecto o Movimento Ocupe Wall Street está nessa linha.

E as ações combinadas para este 1º de maio, que serão descentralizadas em toda a cidade, de certo modo estão dizendo “Vamos tomar a cidade de volta e chamá-la de nossa cidade, em vez de ser a cidade que pertence ao 1%”. E assim, é como se disséssemos: “Vamos ter a nossa cidade, e vamos torná-la nossa cidade”. E, é claro, um dos exemplos em que isso ocorreu de maneira mais enfática foi na Comuna de Paris, em 1871.

AMY GOODMAN: O que foi a Comuna de Paris de 1871?

DAVID HARVEY: A Comuna de Paris foi um levante contra o governo, numa tentativa de criar uma forma alternativa de governo da cidade em Paris, em 1871, num contexto de guerra e coisas do gênero. E, é claro, foi brutalmente reprimida, assim como estamos vendo na Síria, neste exato momento, em Homs, na verdade. Então, isso, esses movimentos podem às vezes dar certo e às vezes serem brutalmente reprimidos.

AMY GOODMAN: Indo além da Comuna de Paris, você fala a respeito do direito das cidades. O que significa isso?

DAVID HARVEY: O direito das cidades significa – quem tem direito à cidade de Nova York? Quem pode mudar as coisas aqui? Quem pode realmente mudar a vida aqui? E quando falamos a respeito do poder do 1%, estamos falando de um grupo extremamente poderoso que na verdade domina a maior parte dos investimentos na cidade, a maior parte de sua reconstrução da cidade. E temos um prefeito bilionário que é aliado deles. Em todo caso esta dificilmente seria uma cidade governada pela imagem de sem tetos ou da população empobrecida. Assim, ao reivindicar o direito – ao exigir o direito à cidade, estamos tentando de fato falar a respeito das pessoas comuns que podem mudar a vida urbana e definir um padrão diferente de ambiente urbano, no qual vão viver.

AMY GOODMAN: No começo deste mês (abril), o prefeito de Nova York, Michel Bloomberg comparou o projeto de lei que instituía um salário mínimo para os trabalhadores da cidade com o comunismo. O projeto aumentaria o salário dos trabalhadores com subsídio da cidade. Bloomberg fez esse comentário numa entrevista na rádio WOR. Qual a sua opinião sobre isso?

DAVID HARVEY: Esta é a história de sempre. Mas olhe para a situação. Os 1% da cidade de Nova York ganham – em retorno de impostos, algo como 3,75 milhões de dólares por ano. Isso é o que o topo dos 1% ganham, em média. Há 34 mil famílias, quase 100 mil pessoas que tentam viver na cidade com com 10 mil dólares por ano. Metade da população da cidade de Nova York está tentando viver com com 30 mil dólares por ano. Isto é, os níveis de desigualdade na cidade são absolutamente assombrosos, e estão crescendo imensamente desde os anos 1970.

Quem domina a vida urbana? Quem comanda das decisões? Bem, é o 1%. Assim, eu penso que o Ocupe Wall Street e o resto estão dizendo que nós só temos uma forma de poder, que é o poder do povo nas ruas, das ações nas ruas. Nós não temos o poder de dominar a mídia. Não temos o poder do dinheiro, de comandar a política. E esta é a situação em que estamos. Assim, o Ocupe Wall Street está tentando dar uma expressão política diferente à política tradicional.

AMY GOODMAN: O movimento Ocupe tem enfrentando respostas repressivas crescentes, da polícia. Em novembro o Democracy Now! falou com Stephen Graham, que escreveu o “Cidades sitiadas: o Novo Urbanismo Militar” [Cities Under Siege: The New Military Urbanism], que analisa a influência crescente da tecnologia militar nas forças policiais locais. Você sabe, nós temos uma lei, a Posse Comitatus, que diz que soldados não podem marchar nas ruas, mas parece que o jeito que as autoridades encontraram de lidar com essas novas situações é a militarização da polícia.

DAVID HARVEY: Sim, é. Mas eu tomo isso como um sinal de como o 1% está nervoso. Quero dizer, entramos nesta crise e efetivamente o 1% tem passado muito bem fora da crise. Ninguém foi preso por tudo o que sabemos que fizeram de errado. E eu penso que o 1% está é apavorado, com a possibilidade de que o povo venha a escutar a retórica do Ocupe Wall Street. E em algum grau, as pessoas já o fizeram, porque a conversa mudou um pouco em relação à desigualdade social e à pobreza no país. E eu penso que os movimentos repressivos da polícia não estão ocorrendo apenas na cidade de Nova York, mas em todo o país. Parece quase coordenado, parece-me que há quase uma linha direta de instrução de conduta, você sabe, como se o JP Morgan desse mundo e todos os caras ricos meio que dissessem: “Vocês tem de manter essa gente quieta, vocês têm de esmagá-los pela raiz. Pela raiz”.

AMY GOODMAN: E a polícia acabou com todos os acampamentos.

DAVID HARVEY: E a polícia tem feito isso. E eu penso que o Ocupe Wall Street está se inspirando um pouco, parece-me, na coragem do povo da Praça Tahir ou no Bahrein, e em todo o resto, para dizer, “Olha, as coisas tem de mudar. E nós estamos tentando fazer com que isso aconteça de maneira pacífica”. Eu quero dizer, isto é, de novo um dos sinais disso. Esta é uma forma pacífica de demonstração e tem se tornado implacavelmente, algumas vezes, tumultos policiais.

AMY GOODMAN: Você fala a respeito da criação de espaços urbanos comuns.

DAVID HARVEY: Sim. Bem, a coisa impressionante da cidade de Nova York, por exemplo, é que há todos esses espaços públicos, mas há um espaço que de que possamos dispor como uma Ágora ateniense, e ter discussões políticas? A resposta é não. Você tem de protocolar permissões, de todos os tipos, para o uso, e é altamente regulado. Assim, de fato o espaço público não é verdadeiramente aberto ao público. Muito dos parque se tornou agora, claro, canteiros de flores, de modo que temos grandes lugares para a mistura de tulipas, mas não temos um lugar em que o povo possa se reunir. E assim, uma das coisa que estamos tentando fazer neste 1° de maio é dispor de lugares para nos reunirmos, de espaços em que possamos falar sobre as coisas. Então, há um certo tipo de universidade livre no Parque Madison. Eu vou participar disso. Assim de muitas outras ações desse tipo, em que se visa a liberar espaços na cidade nos quais se possa ter discussão política e nos quais se tenha diálogo político aberto.

AMY GOODMAN: Você fala a respeito da festa de Wall Street estar encontrando a sua Nemesis.

DAVID HARVEY: Bem, eu penso que o Ocupe Wall Street realmente se tornou algo. A coisa tocou um acorde. E a grande – eu falo da repressão sobre ele, mas – e eu penso que o acorde que o movimento tocou é, de fato, medido pela velocidade e virulência dos movimentos repressivos acionados. Então, eu penso que está começando a ser escutado, e eu espero que amanhã (hoje, 1 de maio) haverá uma situação em que muita gente dirá “Olha, a coisa tem de mudar. Algo diferente tem de acontecer.”

Tradução: Katarina Peixoto

Carta Maior

URNAS DE MAIO: O QUE ELAS ESCONDEM

Durante 30 anos o discernimento histórico foi entorpecido pela radiola do pensamento único, a proclamar as virtudes e a autossuficiência da ordenação da sociedade sob a égide dos livres mercados. O dinheiro solto era mais eficiente que o desenvolvimento planejado.

Mais que um martelar teórico, tornou-se a única experiência tangível em escala relevante, sendo a sua crítica um exercício mais de resistência ideológica, do que uma confrontação prática de experiências e projetos. Esse tempo acabou.

Hoje a opinião pública mundial desfruta o privilégio de comparar lógicas divergentes em ação. Nesse acerto de contas cabe à Europa, que figurou no pós-guerra como um contraponto de democracia social ao capitalismo americano, o enredo da tragédia. Assiste-se ali à derrocada de nações que mergulharam na crise de 2008 subordinadas à supremacia das finanças desreguladas e, mais que isso, desprovidas de lideranças capazes de resgatá-las da austeridade suicida, quando a sobrevivência do modelo tornou-se sinônimo de sacrifício terminal.

O mergulho da Inglaterra na fogueira recessiva da UE, cujas labaredas já consomem a Espanha, Portugal, Itália, Grécia e outros sob o lança-chamas ortodoxo de Angela Merkel, reforça a abrangência de um divisor histórico. As eleições francesas emprestam a ele uma primeiro escrutínio de polarização pedagógica. Mas não cabe ilusão.

O mundo que arde em recessão, desemprego, Estados falidos e dívidas soberanas impagáveis não é um produto de teorias ou de livros textos. Esse mundo tem dono. Sua dominância está entranhada em instituições capilarizadas , dispõe de vocalização midiática abundante, abriga interesses fortes encastoados nas estruturas sociais. O fogaréu recessivo do euro não figura aos olhos dessa teia como um sacrifício despropositado, mas um ajuste imperativo entre credores e devedores.

A austeridade ortodoxa é o preço a pagar. As urnas francesas, tudo indica, devem mudar a ponta desse iceberg. Trocar Sarkozy por François Hollande em 6 de maio –no mesmo dia em que os gregos elegem um novo parlamento, enfrentando dilemas equivalentes aos dos franceses– é um passo. Mas ainda não altera a essência do poder.

Na França, na Grécia,Espanha, Itália ou Portugal, quem vencer eleições terá que afrontar acordos, como o pacto de arrocho fiscal do euro imposto por Berlim, e rendições que remetem diretamente à cota de arrocho social necessária à preservação do poder financeiro. Na Grécia, estão pré-contratados cortes equivalentes a 5,5% de um PIB que há quatro anos está em recessão.

Na Europa em geral, segundo o próprio FMI, o ‘saneamento’, leia-se, a salvação de 58 maiores bancos privados pressupõe uma desalavacagem (contração recessiva de créditos) da ordem de dois trilhões de euros.

Curto e grosso: preservar os bancos reverterá em mais prejuízos à sociedade. Deixá-los à bancarrota não será menos caótico. Esses mesmos bancos são muitas vezes os maiores credores do Estado ,configurando-se um paradoxo em que o tomador precisa assegurar a sobrevivência do credor. Na Itália os bancos tem o equivalente a 32% do PIB em títulos públicos nas suas carteiras; na Espanha ele equivalem a 26,5% do PIB, segundo o FMI.

No ciclo que ora agoniza as interações entre Estados e mercados financeiros tem sido marcadas pela subordinação imperial dos primeiros aos segundos por meio da dívida pública e do manejo da liquidez e dos juros. Alterar essa relação de poder implica alterar a natureza do sistema de crédito e financiamento na economia, um serviço público até aqui predominantemente privatizado.

Esse é o grande desafio embutido nas urnas de maio. Transformar a polarização eleitoral num debate fascista sobre imigrantes é apenas a maneira ardilosa a qual o conservadorismo recorre historicamente para embaralhar os dados da história. Resta saber se os vencedores terão escopo para mudar as regras do jogo.

Saul Leblon

Carta Maior

O colonialismo liberal europeu mostra a sua face

É o cúmulo do absurdo que o Parlamento Europeu, que reúne representantes do povo, se preste a votar uma resolução contra a Argentina, em defesa dos interesses de uma multinacional. O mesmo parlamento que nada faz para denunciar as empresas do Velho Continente que, em nome da segurança jurídica, investiam seus capitais em países amordaçados por regimes assassinos que, ao mesmo tempo que ofereciam segurança jurídica aos investidores, jogavam seus povos no poço da repressão, da corrupção e da pobreza. O artigo é de Eduardo Febbro, direto de Paris.

Eduardo Febbro – De Paris

Paris – Os impérios do Ocidente estão nervosos. A decisão da presidenta argentina de renacionalizar os recursos petrolíferos do país reativou nos europeus o ímpeto da ameaça e da desqualificação, assim como a política dos valores em escala variável. O santo mercado tem prerrogativas acima de qualquer oposição. Além da agressiva campanha que se desatou na Espanha em defesa de uma companhia que, na realidade, sequer é espanhola, a União Europeia somou seus votos em respaldo à multinacional. A inesgotável e esgotadora responsável pela diplomacia da UE, Catherine Ashton, advertiu que a decisão argentina “era um muito mau sinal” para os investidores estrangeiros. Por sua vez, o presidente da Comissão Europeia José Miguel Barroso, disse que estava muito “decepcionado” pela medida de Buenos Aires.

O vice-presidente da Comissão Europeia, o italiano Antonio Tajani, sacou um leque de ameaças: “Nossos serviços jurídicos estudam, de acordo com a Espanha, as medidas a adotar. Não se exclui nenhuma opção”, disse. Cúmulo do absurdo, o Parlamento Europeu de Estrasburgo, que reúne os representantes do povo, se presta a votar uma resolução contra a Argentina.

Um traço mais da confusão que leva a uma instituição política, surgida do voto popular, a clamar pelos interesses de uma multinacional. O Parlamento Europeu nada fez para denunciar as empresas do Velho Continente que, em nome da segurança jurídica, investiam e investem seus capitais em países amordaçados por regimes assassinos que, ao mesmo tempo que ofereciam segurança jurídica aos investidores, jogavam seus povos no poço da repressão, da corrupção, do assassinato das liberdades e da pobreza. A defesa dos interesses nacionais contra os do mercado é algo que ficou na garganta da muito liberal União Europeia.

A UE revisitou seus “valores” recentemente, no ano passado: em troca da ajuda aos países árabes, a UE pede eleições democráticas, luta contra a corrupção, abertura comercial e proteção dos investimentos. Antes, não lhe importava que um punhado de ditadores e autocratas esmagassem seus povos enquanto a abertura comercial e a proteção dos investimentos estivessem garantidas. A fonte da democracia fechava os olhos enquanto suas empresas pudessem operar a seu bel-prazer.

A mesma dupla linguagem, duplo valor, envolve a escandalosa política das subvenções agrícolas da UE. Instrumento de destruição dos mercados, perverso mecanismo de falsificação dos preços internacionais, as subvenções se aplicam em apoio a uma corporação, a dos agricultores. Pouco importa que o planeta pague pela proteção de um setor. O porta-voz do Comissário Europeu para o comércio, John Clancy, disse ao canal EuroNews que a decisão da presidenta “destrói a estabilidade que os investidores procuram”.

Tocar numa empresa europeia é sinônimo de uma declaração de guerra ou de pisotear a identidade. Hoje reúnem o Parlamento Europeu, em outras épocas talvez tivessem enviado a marinha para bloquear o porto de Buenos Aires como ocorreu em 1834, quando Juan Manuel de Rosas se negou a que os súditos franceses ficassem isentos de suas obrigações militares e decidiu impor um gravame de 25% às mercadorias que chegavam do exterior com destino a Buenos Aires.

A imprensa europeia e os analistas propagam um cúmulo alucinante de omissões e mentiras. Frases como “nacionalismo petroleiro” ou “tentação intervencionista” do Estado argentino, se tornaram uma consigna repetida em todas as colunas. Como se qualificaria então a defesa de uma empresa por parte das instituições políticas da União? Euro-nacionalismo de mercado, escudo político para os interesses privados, etnocentrismo liberal?

E, assim mesmo, o discurso do nacional contra o global, do local contra o multilateral não é uma exclusividade peronista. O próprio presidente francês, Nicolas Sarkozy, o reativou com um vigoroso discurso durante a campanha eleitoral para as eleições presidenciais do dia 22 de abril e seis de maio (primeiro e segundo turno). O presidente candidato propôs renegociar o acordo de Schengen que regula e garante a livre circulação das pessoas e revisar os acordos comerciais que ligam os 27 países membros da União Europeia.

No primeiro caso e por razões claramente eleitorais, Sarkozy considera que os acordos de Schengen não permitem regular para baixo os fluxos migratórios. No segundo, que tem dois capítulos, se trata primeiro de instaurar na Europa um mecanismo similar ao Buy Act American com um “Buy European Act” a fim de que as empresas que produzem na Europa obtenham dinheiro público em caso de licitações. Em segundo lugar, Sarkozy exigiu à Comissão Europeia que imponha um critério de reciprocidade a seus sócios comerciais. Sarkozy disse em seu discurso: “A Europa não pode ser a única região do mundo que não se defende. (…). Não podemos ser vítimas dos países mais fortes do mundo”.

Isto pode ter vigência também para o resto do planeta. O patriotismo europeu bem vale o suposto “patriotismo petroleiro”. Ali onde se encontra em desvantagem, a UE impõe seus limites, ativa seu lobby ou bota suas instituições democráticas a atuar como polícia moralizadora. O livre comércio e o direito monárquico das empresas sobre os recursos naturais, a vida humana e as geografias não é o último estado da humanidade. Há vida depois de tudo, antes e depois da Repsol.

Todo o aparato jurídico da UE se colocou em marcha para sancionar isso que o jornal espanhol El País chama “o vírus expropriador” de Cristina Fernández de Kirchner. O “vírus” do mercado global começa a fazer seu trabalho. A UE está ofendida. Tocaram em seu filho pródigo, a liberdade de brincar com o destino dos povos em benefício de suas empresas. Uma guerra moderna onde o gigante vai sancionar um sócio que deixou de apostar em um tabuleiro onde só ganham os capitais que se volatilizam como os valores democráticos e de justiça que defenda a sacrossanta União. Seu hino à liberdade é geométrico. Enquanto a grana encha seus bancos, o sangue pode correr, como na Tunísia, Líbia, Egito e tantas outras ditaduras africanas que proporcionam o petróleo para acender as luzes de um século cujo destino está em mãos privadas e suas instituições às ordens das entidades financeiras e das empresas.

Tradução: Libório Junior

Carta Maior

Pesquisas seguem apontando vitória de socialista na França

Faltando apenas uma semana para o primeiro turno das eleições presidenciais francesas os dois principais candidatos mediram suas forças e sua capacidade de mobilização em duas gigantescas concentrações em Paris. As pesquisas parecem ter congelado em um mesmo marcador: a vitória de François Hollande. No sábado passado, os ponteiros das pesquisas voltaram a colocar Hollande acima de Sarkozy no primeiro turno e ampliaram a margem de vitória do socialista no segundo turno, em 6 de maio.

Eduardo Febbro – De Paris

Paris – A confrontação eleitoral ocupou as ruas. Faltando apenas uma semana para o primeiro turno das eleições presidenciais francesas os dois principais candidatos mediram suas forças e sua capacidade de mobilização em duas gigantescas concentrações ao final das quais não há um ganhador, mas sim um imitador, o presidente candidato Nicolas Sarkozy. O chefe de Estado convocou seus partidários à Place de la Concorde depois que seu rival socialista François Hollande chamou os seus apoiadores para se concentrar em Vincennes. Sarkozy copiou o dia, a hora e até usou o truque de adiantar a hora oficial de seu discurso para ganhar de François Hollande. Estes truques revelam as dúvidas e as preocupações que atingem o campo conservador.

As pesquisas parecem ter congelado em um mesmo marcador: a vitória de François Hollande. No sábado passado, os ponteiros das pesquisas voltaram a colocar Hollande acima de Sarkozy no primeiro turno e ampliaram a margem de vitória do socialista no segundo turno marcado para o próximo 6 de maio. A confrontação filosófica é apaixonante: um candidato presidente que se apresenta como o salvador de uma “civilização” em perigo, que agita todos os espantalhos do medo, o medo do vermelho, dos estrangeiros, dos mercados; o outro, o socialista, que fez da raiva contra as injustiças concentradas nesta década de governos de direita o seu fio condutor, que fala de concórdia, que desarticula o medo com sua postura ponderada, com sua lentidão calculada. A oposição é total, até no silêncio. Nicolas Sarkozy funciona como uma sinfonia extravagante. François Hollande como uma delicada sonata.

Sarkozy na Place de la Concorde e Hollande em Vincennes, ambos promoveram uma concentração de aproximadamente cem mil pessoas. O objetivo dos dois comícios era distinto: para Sarkozy, tratava-se de mobilizar suas tropas e de oferecer uma demonstração de forças, enquanto que o candidato socialista buscava protagonizar um “momento festivo” para deixar claro que, digam o que digam as pesquisas, a disputa “não está ganha”. Os dois candidatos lutam no sentido contrário: Hollande adverte para que ninguém se iluda em acreditar que as pesquisas de opinião já garantiram a vitória, e Sarkozy para animar seu eleitorado diante dos prognósticos negativos das pesquisas.

Nicolas Sarkozy, com seu estilo autoritário e nervoso, dirigiu-se à “maioria silenciosa” dizendo: “povo da França, não tenham medo, eles não ganharão se vocês decidirem que vocês querem ganhar”. O discurso de Sarkozy foi tão confuso quanto sua campanha. Uma grande mistura em um ritmo tão trepidante e enredado que, por momentos, não se sabia se quem estava falando era um liberal, um social democrata, um político da extrema direita, um centrista ou um tecnocrata de Bruxelas. Sarkozy pediu emprestado a cada um desses setores um pouco de seus conteúdos. O presidente candidato permitiu-se até o luxo de roubar referências culturais do candidato da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon.

Como um boxeador que luta contra vários espectros no ringue, Sarkozy acusou seus adversários de “dilapidar a herança da França eterna”, defendeu a urgência de controlar as fronteiras para frear a imigração, questionou a validade do livre comércio, atacou o Banco Central Europeu (BCE) e pediu ajuda para ganhar. Tudo num só programa! Os papeis se inverteram nesta campanha. Nicolas Sarkozy tirou o traje de presidente para ser candidato e deixar esquecido o balanço de sua gestão. Ao mesmo tempo, o candidato socialista adotou uma postura quase de chefe de Estado em exercício, sereno, sempre flutuando nas alturas.

No comício de Vincennes, François Hollande colocou o acento nas “falsas evidências das pesquisas “ e na “euforia”. O candidato da rosa socialista evocou essa “esperança calma, firme, lúcida” que se sente crescer no país. “Não tenham medo. Eles estão dispostos a tudo, mas nós estamos prontos para presidir a França”, disse Hollande á multidão. Respondendo diretamente à estratégia que a direita usou durante a semana com o discurso do medo e do caos que invadiriam a França em caso de vitória socialista,
Hollande declarou: “Eles dizem que depois virá o caos. Não. Depois deles virá a mudança”. Logo em seguida, o candidato socialista desqualificou a ideia segundo a qual existe uma maioria sem voz, a qual se dirigiu Sarkozy na Place de la Concorde: “não há uma minoria ruidosa e uma maioria calada”, rebateu.

O combate frontal entre Sarkozy e Hollande restaurou na França a esquecida e insuperável oposição entre a esquerda e a direita. Esse antagonismo reencarnado nestas eleições presidenciais deixou muito para trás os demais candidatos. Só a extrema-direita da Frente Nacional e a esquerda radical de Jean Luc Mélenchon tem um espaço de escuta consequente no eleitorado. É paradoxal que Nicolas Sarkozy tenha repetido em seu comício o esquema que seus próprios aliados e conselheiros questionam.

A imprensa francesa registrou esta semana da profunda incerteza que se apoderou do campo conservador. Não sabem se é o caso de guinar para a direita, de viajar mais uma vez pelos territórios da extrema-direita ou de dar uma volta para o centro. “Nossas ideias não estão colando”, reconheceu, sob anonimato, um conselheiro de Sarkozy citado pelo Le Monde. O comício do presidente candidato foi uma síntese dessa dúvida: um pouco de cada coisa, um giro do timão para a direita, outro para o centro, uma passagem pela socialdemocracia e assim por diante. O barco liberal-conservador navega para as urnas com um timão sem rumo e sem uma mensagem precisa.

Tradução: Katarina Peixoto

Fotos: Le Monde

*Carta Maior

Sarkozy esquece aliado e usa Espanha para semear medo

Entre liberais, a amizade e a proximidade ideológica não garante uma solidariedade inquebrantável. A direita francesa tirou todos os espantalhos do armário para apregoar uma “crise de confiança massiva” se o socialista François Hollande ganhar as eleições presidenciais de abril e maio próximos (22 e 6). “Nós ou o caos”, diz o presidente candidato que põe como exemplo o dramático caso da Espanha. O jornal El País respondeu: “Com amigos assim quem precisa de inimigos”.

Eduardo Febbro – De Paris

Paris – “Os amigos se conhecem nas boas e nas más horas”, reza o conhecido ditado. O presidente francês Nicolas Sarkozy não é um adepto desta sábia filosofia popular. Entre liberais, a amizade e a proximidade ideológica não garante uma solidariedade inquebrantável. A direita francesa tirou todos os espantalhos do armário para apregoar uma “crise de confiança massiva” se o socialista François Hollande ganhar as eleições presidenciais de abril e maio próximos (22 e 6). “Nós ou o caos”, diz o presidente candidato que põe como exemplo o dramático caso da Espanha. À direita e ao centro ocorreu a calamitosa ideia de apresentar a Espanha como o exemplo dinástico do que espera a França se a direita não conservar o poder.

Sarkozy não foi o único europeu que penetrou no território do medo. Também o Presidente do Conselho Italiano, Mario Monti, esgrimiu os casos da Espanha, Grécia e Portugal como influências nefastas. Estas manifestações de egoísmo eleitoral motivaram uma resposta do Chefe de Governo espanhol, o conservador Mariano Rajoy, que pediu aos dirigentes europeus que sejam “prudentes” em seus comentários sobre a Espanha. O mais dramático é que Nicolas Sarkozy encara a estratégia do pavor no momento em que a Espanha afunda cada dia mais, apesar dos cortes faraônicos que o Executivo espanhol decidiu nos últimos dias – perto de 40 bilhões de dólares. A imprensa espanhola está enfurecida com seu ex-amigo. O jornal El País disse há poucos dias: “Com amigos assim quem precisa de inimigos?”.

Chovem adjetivos sobre Sarkozy na mesma medida de sua impiedade eleitoral. O mesmo jornal El País trata-o como “frustrado refundador moral do capitalismo”. O presidente francês afirmou: “Vejam como está a Espanha depois de sete anos de socialismo”. A França está melhor, mas não fugiu nem da crise, nem de suas consequências, nem dos fabulosos déficits acumulados nos anos Sarkozy, nem tampouco da sanção que consistiu em perder o Triplo A que as agências de classificação de risco outorgam aos maus alunos da carreira liberal.

O segundo eixo da campanha da direita francesa é assustar as pessoas com o dilúvio que cairia sobre a França se a socialdemocracia chegasse à presidência. Sarkozy e seus conselheiros estão correndo atrás das pesquisas de opinião que, invariavelmente, vaticinam uma vitória de François Hollande e perseguem os indecisos – 30% do eleitorado -, os que se abstém – 20% – e os eleitores do centro – 9,5% -, assustadiços e muito adeptos à disciplina fiscal. Os socialistas aparecem retratados como os coveiros da economia, esbanjadores irresponsáveis do dinheiro público, adeptos dos déficits crônicos, gestores obcecados por fazerem os ricos pagarem mais impostos e campeões da assistência social à custa da estabilidade global.

Os males que, segundo o presidente-candidato, esperam a França “no minuto seguinte” à vitória socialista são um catálogo da escatologia
liberal: “Desastre”, “catástrofe”, “crise massiva de confiança”, “ataques contra a zona euro”, “implosão do sistema econômico” francês.

Medo sobre medo. E, ainda assim, a direita francesa governa há dez anos, há uma década o próprio presidente Sarkozy ocupa funções chaves no Executivo e nos últimos cinco anos de seu mandato presidencial acumulou uma coleção de cifras negativas: a França perdeu a sacrossanta Triple A, houve um milhão de desempregados a mais, uma sucessão de déficits impressionantes e um crescimento da dívida pública de 500 bilhões de euros. O liberalismo tem a memória curta e a língua muito longa.

Tradução: Libório Junior

Carta Maior

França: o debate que interessa a toda a esquerda

Em entrevista ao Le Monde esta semana, Daniel Cohn Bendit, o líder rebelado de 1968, hoje um manso deputado verde do parlamento europeu, criticou duramente o programa da Frente de Esquerda na França.

O programa e o candidato tornaram-se a grande novidade da disputa pela sucessão de Sarkozy, que acontece no próximo dia 22. Jean-Luc Mélenchon detém 15% das intenções de voto com um discurso em que tenta erguer pontes entre agendas até aqui solteiras: a radicalização da democracia; o controle público de setores estratégicos, como as finanças e a energia, e, finalmente, a planificação ambiental.

A Frente de Esquerda não surpreende apenas pela ousadia do projeto. Deixou de ser apenas uma referência exclamativa ao lograr a façanha de unir socialistas descontentes com a domesticação da social-democracia pelos mercados , mas também os comunistas do PCF que viviam à deriva desde o desmanche da União Soviética, ao lado de radicais e progressistas de diferentes gêneros e matizes, inclusive os adeptos do ambientalismo político. Uma convergência de envergadura tal que não se viu nem em Maio de 1968.

Em meio ao funeral do Estado do Bem-Estar social europeu, que cede lugar a uma darwiniana luta pela sobrevivência, a ponto de tornar o suicídio uma opção de incidência assustadora em alguns países do euro, o programa da Frente de Esquerda, na França, tem o mérito de devolver à política um sentido de esperança revogado pelo absolutismo dos mercados.

Os comícios de Mélenchon tem sido os maiores e mais vibrantes da campanha francesa.O debate provocado pela sua ascensão extrapola os limites do pleito local para falar à esquerda em geral, inclusive à brasileira e a seu braço hegemônico, o PT.

Cohn Bendit fuzila a intenção de dar organicidade política e coerência macroeconômica a bandeiras que tem evoluído de forma paralela, quando não antagônica, na busca de alternativas às diferentes dimensões da crise mundial, a saber: a desordem dos mercados desregulados; a saturação ambiental das formas de viver e de produzir sob corolário do consumismo predatório e a impotência da democracia representativa para defender a sociedade dos impulsos descontrolados da finança global.

O deputado verde desautoriza a incorporação da agenda ambiental pela Frente de Esquerda. Cohn Bendit acusa Mélenchon de render tributo ao autoritarismo de Chávez , de Castro e dos chineses, ademais de adotar o que trata ironicamente como um discurso requentado da guerra-fria contra “o imperialismo americano”. Para o líder das gigantescas manifestações de Maio de 68 que todavia não impediram a retomada do poder por De Gaulle, a Frente de Esquerda pertence à mesma cepa jacobina e estatista do PCF, é tributária, o seu entender, de uma concepção de poder incompatível com a descentralização econômica e política que constituiria o requisito indispensável a um projeto ambientalmente coerente.

“Que diferença faz se o setor de energia for estatal – como quer Mélenchon, que propõe re-nacionalizar essa área na França – ou comandado pelo setor privado?’, pergunta aquele que há 44 anos era jovialmente conhecido como ‘Dani, Le Rouge’.

É um bom debate. Um debate urgente e necessário sobre o passo seguinte da desordem neoliberal. Um debate sobre o projeto de poder capaz de reordenar a lógica predatória dos livres mercados, a ponto de subordiná-los aos desígnios da uma democracia efetiva.

*Por Saul Leblon

*Carta Maior

DILMA AO FALAR COM OBAMA MOSTROU A PREOCUPAÇÃO DO BRASIL COM A DESVALORIZAÇÃO DO DOLAR E A IMPORTÂNCIA DO BRICS

Em sua viagem aos Estados Unidos a presidenta Dilma Vana Rousseff se encontrou com o presidente do país que se toma como imperial, Barack Obama, e falou sobre a preocupação dos países emergentes com a política de expansão monetária praticada pelos países desenvolvidos com o interesse de saírem da crise internacional.

Segundo Dilma, essa prática desvaloriza o dólar que acaba por obstruir o desenvolvimento dos países emergentes. Dilma disse também que o crescimento da economia norte-americana pesa sobre os países que fazem parte do BRICS, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

“Manifestamos ao presidente Obama a preocupação do Brasil com a expansão monetária, sem que os países com superávits equilibrem essa expansão monetária com políticas fiscais baseadas na expansão dos investimentos.

Essas políticas monetárias solitárias, no que se refere a políticas fiscais, levam à desvalorização das moedas dos países desenvolvidos, levando ao comprometimento dos países emergentes.

Os países do BRICS respondem hoje por uma parte muito expressiva do crescimento econômico, mas é importante saber que retomada do crescimento, num horizonte de médio prazo, passa também pela retomada expressiva da economia norte-americana.

O Brasil, como os Estados Unidos, tem áreas estratégias nas quais cooperar, ou melhor, aprofundar nossa relação, por exemplo, na área de energia. Temos um grande campo de cooperação quando se considera o petróleo e o gás. Tanto no que se refere ao fornecimento de equipamentos e serviços, tanto no que se refere à participação nas relações comerciais.

Nós também somos parceiros na área de biocombustíveis. Queria saudar a redução às barreiras de etanol ocorrida recentemente. Queria ressaltar também um grande espaço de cooperação na área de eficiência energética, que é tão cara ao presidente Obama”, disse a presidenta. 

As eleições na França

Segundo as pesquisas, a final será disputada entre dois candidatos: o atual presidente Nicolas Sarkozy, e o socialista François Hollande. E todas apontam a vitória de Hollande no segundo turno Mas restam ainda várias semanas de campanha e muita coisa pode acontecer. Além disso, cerca de um terço dos eleitores não decidiram ainda em quem votar. O entusiasmo provocado por Jean-Luc Melenchon deu uma nova esperança às classes trabalhadoras , aos militantes veteranos e a milhares de jovens indignados. O artigo é de Ignacio Ramonet.

Ignacio Ramonet

Na França, a eleição presidencial é “a mãe de todas as votações” e o ponto incandescente do debate político. Ela ocorre a cada cinco anos. É um sufrágio universal direto em dois turnos. Em princípio, qualquer cidadão francês pode se apresentar como candidato no primeiro turno, que desta vez será no dia 22 de abril. Deve, porém, cumprir uma série de requisitos. Entre eles, contar com o apoio de 500 representantes eleitos de, pelo menos, 30 departamentos (estados) distintos [1]. Se nenhum candidato obtiver maioria absoluta (50% dos votos mais um), um segundo turno será realizado duas semanas depois. Desde a inauguração da Quinta República em 1958, sempre houve um segundo turno. Participam dele somente os dois candidatos mais votados no primeiro turno. Ou seja, será preciso esperar até o dia 6 de maio para conhecer o resultado. Neste período, toda a vida política do país gira em torno desse acontecimento central.

No momento, ninguém pode considerar a disputa ganha. Segundo todas as pesquisas, a final será disputada entre dois candidatos: o atual presidente conservador Nicolas Sarkozy, e o líder socialista, François Hollande. Mas restam ainda várias semanas de campanha e muita coisa pode acontecer [2]. Além disso, cerca de um terço dos eleitores não decidiram ainda em quem votar.

Os debates se desenvolvem em um contexto marcado por dois fenômenos principais: 1) a maior crise econômica e social que a França já conheceu nas últimas décadas [3]; 2) uma crescente desconfiança sobre o funcionamento da democracia representativa.

A Constituição só autoriza dois mandatos consecutivos. O presidente Sarkozy anunciou oficialmente, no dia 15 de fevereiro, sua candidatura à reeleição . Desde então, a poderosa máquina de seu partido, a União por um Movimento Popular (UMP), foi colocada briosamente em funcionamento e conseguiu que todos os demais candidatos de direita (com exceção de Nicolas Dupont-Aignan) se retirassem da disputa, deixando Sarkozy como único representante da corrente conservadora [4]. A batalha, porém, não será fácil. Todas as pesquisas apontam Sarkozy como derrotado no segundo turno pelo candidato socialista François Hollande.

Sarkozy tornou-se muito impopular. No exterior, muitas pessoas não aceitam isso, unicamente porque privilegiam sua imagem de líder internacional enérgico, dirigindo, junto com Angela Merkel, as cúpulas europeias ou as reuniões do G-20. Além disso, em 2011, ele assumiu também uma postura de chefe militar e conseguiu ganhar duas guerras, na Costa do Marfim e na Líbia.

Por outro lado, no terreno do “glamour”, seu casamento com a célebre ex-modelo Carla Bruni, com quem acaba de ter uma filha, contribuiu para fazer dele um ator permanente da imprensa de celebridades. Daí a perplexidade de parte da opinião pública estrangeira ante sua eventual derrota eleitoral.

Mas é preciso levar em conta, em primeiro lugar, um princípio político quase universal: não se ganham eleições graças a um bom balanço de política externa, por melhor que ele seja. O exemplo histórico mais conhecido é o de Winston Churchill, o “velho leão” britânico vencedor da Segunda Guerra Mundial e derrotado nas eleições de 1945. Outro exemplo é o de Richard Nixon, o presidente estadunidense que colocou um fim à Guerra do Vietnã e reconheceu a China Popular, mas se viu obrigado a renunciar para não ser substituído. É preciso considerar também que outra lei parece ter se estabelecido na Europa nestes últimos anos no contexto da crise financeira: nenhum governo que disputou a reeleição saiu vencedor.

Em segundo lugar, está o balanço do seu mandato, que é execrável. Além dos numerosos escândalos em que esteve envolvido, Sarkozy foi o “presidente dos ricos” a quem brindou com regalias fiscais inéditas, enquanto sacrificava as classes médias e desmantelava o Estado de bem estar. Essa atitude alimentou críticas de todos os cidadãos que, pouco a pouco, foram sendo engolidos pelas dificuldades: perda de emprego, redução do número de funcionários, ampliação da idade de aposentadoria, aumento do custo de vida. Não cumpriu suas promessas e a decepção dos franceses aumentou.

Sarkozy cometeu também gigantescos erros de comunicação. Já na noite de sua eleição, em 2007, ele se exibiu em um célebre restaurante parisiense na avenida Champs Elisées, festejando sem constrangimento na companhia de um punhado de multimilionários. Aquela interminável farra no Fouquet’s acabou se tornando o símbolo da vulgaridade e ostentação de seu mandato. Os franceses não esqueceram dela e muitos de seus eleitores mais humildes jamais o perdoaram.

Com sua hiperatividade, sua vontade de estar presente em todas as partes e de decidir tudo sozinho, Sarkozy esqueceu uma regra fundamental da Quinta República: o presidente – que possui mais poder que qualquer outro chefe de Executivo das grandes democracias mundiais – deve saber ser reservado e dosar com prudência suas intervenções públicas. Deve ser o senhor da penumbra e não se queimar por excesso de exposição. E foi o que acabou acontecendo. O excesso de visibilidade acabou por desgastar sua autoridade, convertendo-o em uma caricatura de si mesmo, a caricatura de um dirigente permanentemente empolgado, impetuoso, excitado…

Nenhuma pesquisa, até agora, aponta Sarkozy como vencedor destas
eleições. Mas ele é um guerreiro disposto a tudo. E também, às vezes, um pilantra sem escrúpulos, capaz de agir como um verdadeiro aventureiro. Foi assim que, desde que se lançou na campanha no mês passado, com um descaramento monumental não hesitou em seu apresentar – ele que foi o “presidente dos ricos” – como o “candidato do povo”, esgrimindo argumentos próximos da xenofobia para roubar votos da extrema-direita. O movimento teve eficácia eleitoral. Imediatamente as pesquisas de intenção de voto disseram que ele ganhou vários pontos conseguindo ultrapassar o candidato socialista no primeiro turno.

François Hollande é, no momento, o favorito, segundo as pesquisas. Todas, sem exceção o apontam como vencedor no próximo dia 6 de maio. Pouco conhecido no exterior, Hollande é considerado por seus próprios eleitores como um “burocrata” por ter sido durante mais de onze anos (1997-2008) o primeiro secretário do Partido Socialista [5]. Contrariamente a sua ex-companheira Segolène Royal, nunca foi ministro. E sua indicação como candidato dos socialistas não foi pacífica. Ele só garantiu a nomeação após duríssimas eleições primárias no interior do partido (nas quais, por razões fartamente conhecidas [6], Dominique Strauss-Kahn, o preferido dos eleitores socialistas, não pode competir).

François Hollande é um social-liberal de centro, conhecido por suas habilidades como negociador e sua dificuldade em tomar decisões. Ele é reprovado por ser demasiadamente tímido e manter-se permanentemente em situações confusas. Seu programa econômico não se distingue nitidamente, nas questões de fundo, do programa dos conservadores. Após ter afirmado em um discurso eleitoral que “o inimigo principal” era o setor financeiro, ele se apressou em ir a Londres para tranquilizar os mercados lembrando a eles que ninguém privatizou e liberalizou mais que os socialistas franceses [7]. No que diz respeito ao euro, à dívida soberana e aos déficits orçamentários, Hollande – que afirma agora querer renegociar o Pacto Fiscal [8] – segue a mesma linha de outros dirigentes social-democratas, como Yorgos Papandreou (Grécia), José Sócrates (Portugal) e José Luis Zapatero (Espanha), que depois de terem renegado seus princípios e aceitado a forca de Bruxelas, foram eleitoralmente expulsos do poder.

A flacidez política de François Hollande aparece ainda mais flagrante quando comparado com o candidato da Frente de Esquerda, Jean-Luc Melenchon. Com 14% das intenções de voto, ele é a grande revelação destas eleições. Seus comícios são os que reúnem o maior número de pessoas e seus discursos, verdadeiros modelos de educação popular, são os que despertam maior entusiasmo. No dia 18 de março, aniversário da revolução da Comuna de Paris, conseguiu mobilizar cerca de 120 mil pessoas na Praça da Bastilha, algo jamais visto nos últimos cinquenta anos. Tudo isso deveria favorecer uma guinada à esquerda dos socialistas e de François Hollande, ainda que as diferenças de propostas entre os dois sejam abismais.

O programa de Jean-Luc Melenchon, resumido em um pequeno livro intitulado “L’Humain d’abord!” [9] (O humano em primeiro lugar!), que já vendeu centenas de milhares de exemplares, propõe, entre outras medidas: repartir a riqueza e abolir a insegurança social; retirar o poder dos bancos e dos mercados financeiros; planificação ecológica; convocação de uma Assembleia Constituinte para uma nova República; rompimento com o Tratado de Lisboa e construção de outra Europa; iniciar a “desmundialização”.

O entusiasmo popular provocado por Jean-Luc Melenchon dá uma nova esperança às classes trabalhadoras , aos militantes veteranos e a milhares de jovens indignados. É também uma resposta a uma democracia em crise, na qual muitos cidadãos já não acreditam na política nem no ritual das eleições.
Enquanto a extrema-direita diminui de tamanho e fracassa a tentativa de revivê-la mediante o experimento de Marine Le Pen, estas eleições presidenciais francesas podem demonstrar que, em uma Europa desorientada e em crise, segue vida a esperança de construir um mundo melhor.

NOTAS
[1] Esta exigência se revelou insuperável para ao menos dois pretendentes importantes: Dominique de Villepin, gaulista, ex-primeiro ministro, e Corinne Lepage, ecologista, ex-ministra, acabaram excluídos da competição.

[2] Por exemplo, o assassinato de três militares no sul da França e a odiosa matança de crianças judias em Tolouse no dia 19 de março, cometidos por um jovem jihadista relacionado com a Al Qaeda, impactaram com força a campanha, dando naturalmente um protagonismo particular ao presidente Nicolas Sarkozy.

[3] Taxa de desemprego: 9,8%. Desemprego dos jovens com menos de 25 anos: 24%. Número total de desempregados: 4,5 milhões.

[4] Retiraram-se da disputa em favor de Sarkozy: Christine Boutin (Partido Democrata Cristão), Hervé Morin (Novo Centro) e Frédéric Nihous (Caça, Pesca, Natureza e Tradições). Pelo mesmo motivo, o centrista Jean-Louis Borloo não apresentou sua candidatura. E a eliminação de Dominique de Villepin e de Corinne Lepage terá também como consequência a migração do apoio da maioria de seus eleitores para a candidatura de Sarkozy.

[5] Nas pesquisas, dois terços dos eleitores de Hollande declaram que o fazem por “rejeição a Sarkozy”; só um terço diz que adere às ideias de Hollande.

[6] Sobre esse tema ler: “Uma izquierda descarriada”,de Ignacio Ramonet, Le Monde Diplomatique em espanhol, junho de 2011.

[7] The Guardian, Londres, 14 de fevereiro de 2012.

[8] Sobre esse tema ler: “Nuevos protectorados”, de Ignacio Ramonet, Le Monde Diplomatique em espanhol, março de 2012.

[9] http://www.lhumaindabord2012.fr/

*Tradução: Katarina Peixoto

*Carta Maior

América Latina é fonte de inspiração para esquerda francesa

Jean-Luc Mélenchon, o “homem milagre” da esquerda francesa nas eleições presidenciais que se aproxima, dá entrevista exclusiva para o correspondente da Carta Maior em Paris, Eduardo Febbro. Ele fala sobre como o projeto político da Frente de Esquerda é muito mais que uma máquina anti-liberal, incorporando conceitos de ecologia política que questionam nosso atual padrão de consumo e de desenvolvimento. “Os modelos que tomamos como inspiração são os da América Latina, eu me inspirei no que aconteceu lá. A Frente Ampla foi uma fonte de inspiração para mim”

Eduardo Febbro

Paris – Um após o outro, os trabalhadores expõem seus problemas, o confronto com o patronato, as consequências do deslocamento das empresas, o desperdício dos recursos, a destruição ecológica, o custo desumano das reengenharias industriais, os erros monumentais de gestão, as ideias concretas para salvar uma fábrica e, com ela, centenas de empregos. Os trabalhadores da CGT, com microfone em mãos, apresentam a história que os meios de comunicação ocultam, com um empenho perverso. Jean-Luc Mélenchon os escuta, toma notas, pergunta, pede esclarecimentos. São 10 da manhã de um dia primaveril. A sede de campanha do candidato da Frente de Esquerda fica num subúrbio popular do norte de Paris e tem tudo a ver com o seu apelido: “a fábrica”. Um grande galpão onde certa vez houve uma fábrica de sapatos foi adaptado agora para estes dias de batalha eleitoral. O sol está fora e dentro deste amplo local onde não se respira outra coisa que a própria vida: humilde, sã, problemática, solidária, trabalhadora, humana. O sol chega com as pesquisas de opinião que vão apresentando o movimento que Jean-Luc Mélenchon lidera no lugar de um ator decisivo das eleições presidenciais do próximo 22 de abril e seis de maio: 6%, 9%, 10% até hoje quase 14%, que vai o empurrando para o terceiro lugar, atrás do presidente Nicolas Sarkozy e do candidato do partido socialista François Hollande.

Uma história incrível para um movimento político recém fundado e em cujo seio coabitam comunistas do PCF, esquerda radical e anti-liberal, socialistas dissidentes e ecologistas duros. A maioria desses partidos estiveram ao ponto de sair da história. Agora estão juntos num projeto que os mobilizou e, assim, tornou realidade um dos sonhos mais inalcançáveis da esquerda mundial: pactuar um consenso orgânico acima das querelas assassinas que os dispersaram. Em 2009, a Frente de Esquerda ganhou cinco cadeiras no parlamento europeu. O leque se ampliou de maneira espetacular, com as eleições presidenciais. Tanto que durante o comício que a Frente realizou na Praça da Bastilha há duas semanas Jean-Luc Mélenchon não pôde terminar o seu discurso porque embargou a voz, de emoção. O militante das correntes minoritárias tinha diante de si 120 mil pessoas na praça mais emblemática da história da humanidade.

O projeto político da Frente de Esquerda é muito mais que uma máquina anti-liberal. A Frente incorporou a ecologia política em seu programa e, com essa contribuição, desenhou-se um projeto de sociedade novo, que contrasta com a passividade da social democracia e no gueto em que caíram os partidos ecologistas tradicionais. Não basta ser anti-liberal para defender um modelo de sociedade distinto.

Nesta entrevista para a Carta Maior, Jean-Luc Mélenchon, o homem milagre da esquerda radical revela seus modelos e o coração de uma proposta que, de uma maneira ou de outra, mudará as alianças e a filosofia política futura dos partidos de esquerda.

Carta Maior – Qual é a fórmula para unir correntes distintas e, amiúde, antagônicas, dentro de um mesmo movimento? Você uniu o que estava disperso e teve êxito nessa estratégia.

Jean-Luc Mélenchon – Tudo nosso é novo, o Partido de Esquerda é novo, fazemos quatro anos no próximo mês de novembro. A Frente de Esquerda também é nova. Nós acabamos de sair das catacumbas, somos uma corrente que esteve a ponto de desaparecer da paisagem política. Na realidade, os modelos que tomamos como inspiração são os da América Latina, eu me inspirei no que aconteceu lá. Por exemplo, a Frente de Esquerda é uma fórmula política que liga partidos muito diferentes. Agora temos até ecologistas oriundos das tendências mais radicais. Na mesma Frente temos partidários do não crescimento, partidários do crescimento e comunistas.

Todos chegaram a uma intersecção. Este caso, o modelo que se pode evocar é o da Frente Ampla uruguaio. Para mim foi uma fonte de inspiração, há muitos anos. A revolução cidadã é um projeto federativo, porque inclui a ideia do poder cidadão. Essa palavra permitiu a convergência de tradições revolucionárias muito distintas. Pois bem, esta ideia eu a tomei do Equador. A maneira de enfrentar o sistema dos meios de comunicação eu a tomei de Néstor e Cristina Kirchner. Aqui, na França, atribuíram esse estilo ao meu mau humor, a minhas dificuldades, mas na realidade, não é assim: eles me manipulam e eu os manipulo. Agora os trato a pão seco, assim como o fizeram o ex-presidente Néstor Kirchner e a presidenta Cristina Kirchner. Em suma, inspiro-me muito na tradição revolucionária da América Latina. Nossa consigna é: que se vayan todos! Esta consigna eu a tirei da crise argentina de 2001.

CM – Qual é a chave, a palavra de ordem que está na base do consenso de tantas esquerdas?

J-L Mélenchon – Diria que sim, há uma palavra de ordem-chave, que é a seguinte: a racionalidade concreta. Meu postulado inicial consiste em dizer que não há problema algum a que não se possa oferecer uma resposta técnica, concreta, radical. Trata-se de sair dos debates perguntando-se como se pode superar o marco da contradição. Eu diria aos camaradas que quisessem nos imitar que às vezes há que se pegar o velho vocabulário, deixa-lo de lado, voltar a começar desde o zero, como se acabássemos de nascer. Através das palavras podemos criar uma nova gramática, uma síntese nova e convergências extraordinárias.

CM – Estamos numa época de crise global e profunda. Seu discurso de ruptura tem encontrado forte eco no eleitorado. Que tipo de socialismo ou de agenda de esquerda se pode formular dentro e movimentos de sensibilidades similares, mas confrontadas com o enfrentamento da crise a mudar o sistema?

J-L Mélenchon – Na época da crise argentina, houve uma discussão com uns camaradas que tinham ocupado um hotel em Buenos Aires. Tivemos uma discussão sobre o tipo de socialismo que era necessário plasmar através das críticas que se podiam fazer ao modelo venezuelano ou cubano. O camarada que estava conosco disse: “Olhem, vocês, os europeus, são muito interessantes na hora de fazer polêmica, mas estão em crise. A última vez que houve uma crise desencadearam uma Guerra Mundial e a Shoah para sair da crise. Que vão fazer agora?”. Ficamos mudos. Aquele camarada tinha posto o dedo na ferida: a crise do capitalismo de nossa época conjuga crise econômica e crise ecológica e provoca deflagrações que vão muito além de esquemas teóricos, são deflagrações que ameaçam a própria humanidade. É preciso que nossa esquerda se cure da mania das querelas teológicas, das discussões aterradoras sem fim. É preciso ter uma prática racional. Quando se apresenta uma dificuldade, trata-se de desconstrui-la, de desconstruir seu conteúdo e voltar a construí-lo, com os elementos que funcionam. É impossível separar prática de trabalho teórico. Tenho uma intuição, um tipo de certeza histórica e política: a classe trabalhadora está cheia de ideias, de conhecimento, de especialistas. É uma fonte fabulosa! A dialética do intercâmbio nos permite avançar.

CM – Como se disse antes, dentro da Frente de Esquerda estão os ecologistas. Mas sua presença não é decorativa, é orgânica. A ecologia política é o núcleo do projeto que você defende.

J-L Mélenchon – No princípio não tinha me dado conta dessa dimensão. Tinha uma sensibilidade em relação ao meio ambiente, frente ao desperdício e à contaminação, mas não ia além disso. Na antiga esquerda éramos capazes de pensar tudo, mas parávamos em ângulos mortos. Um dos ângulos mortos era: “como vivemos?”. Na história do socialismo há um tipo de obsessão com o homem novo. No entanto, essa é uma noção tão turva que termina se tornando perigosa. O que é esse homem novo, a que queremos dar forma? E a partir de que o faremos? Em seguida, vimos aparecer o risco totalitário. Esse era um ângulo morto. O outro estava no fato de que o desenvolvimento mesmo do sistema pode pôr em questão as mesmas bases da existência do sistema, porque esgota os recursos e saqueia o meio ambiente. Foram os verdes que puseram o tema sobre a mesa. Reconheço a dívida intelectual que tenho com eles. Alguém disse que a ecologia política era um novo paradigma organizador da esquerda, e tem razão. Interessei-me pelo tema e para mim foi um choque intelectual, similar ao choque que tive quando, na minha juventude, li o livro de Marx e Engels A Ideologia Alemã. Para mim foi uma revelação intelectual, uma chave de compreensão. O mesmo me ocorreu com a ecologia política.

Nessa busca voltei a Marx por meio da lembrança de uma frase na qual Marx falava da natureza e dizia que esta era um corpo inorgânico do homem. Marx descreve a relação do ser humano com a natureza de uma maneira dialética, na qual o ser humano é um dos episódios da natureza e não simplesmente uma criatura exterior que surge do nada e se pergunta sobre o controle da natureza. Assim, terminei por formular uma síntese entre a antiga esquerda, da que eu era representante, e o novo paradigma.

CM – Essa síntese conduziu depois ao aprofundamento do princípio de planejamento ecológico como modelo de gestão.

J-L Mélenchon – Sim. Assim surgiu a ideia de planificação da ecologia. Com essa planificação, pode-se desenvolver as forças produtivas e diminuir a destruição ambiental pela humanidade.

CM – Seu argumento quer dizer que a esquerda deixou de lado a questão do meio ambiente, dos recursos naturais, que não integrou esse elemento fundamental no seu projeto de sociedade.

J-L Mélenchon – O problema da esquerda foi adotar o princípio segundo o qual os padrões de vida dos ricos eram um bom caminho. Por conseguinte, isso é o que faltava para o todo da sociedade. E é a isso que há de se renunciar. Quanto ao padrão de consumo, a riqueza é sinônimo de irresponsabilidade. Foi um erro da antiga esquerda pensar que não. Tínhamos uma perspectiva acrítica sobre o consumo. Além disso, quando surgia uma perspectiva crítica, esta era tomada como absurda por ser basear em princípios morais. A ecologia política permitiu-nos solucionar muitos problemas teóricos. Por exemplo, toda a ideia progressista repousa sobre a igualdade e sobre a similitude dos seres humanos. mas isso é uma mera ideia. Se alguém olha ao redor, vê que os seres humanos não são em nada iguais. Mas nós fundamos nossa ideia de igualdade sobre uma igualdade natural. A Revolução de 1789 disse: os seres humanos nascem e permanecem livres e iguais em direito. Essa é a razão pela qual na França nasceram todas as matrizes dos pensamentos totalitários e racistas: eles postularam que não era assim, que por natureza havia diferenças, desigualdades, raças. Quem negou a desigualdade natural conduziu todos os regimes igualitários a serem totalitários, porque tiveram de forjar algo contra a natureza. A ecologia política resolve esse obstáculo teórico, encerra a discussão. Por que? Porque diz que só existe um ecossistema compatível com a vida humana. Quer dizer, todos os seres humanos são semelhantes, pelo fato de que, se este ecossistema desaparece, os seres humanos desaparecem ao mesmo tempo.

Somos então iguais frente às obrigações do ecossistema. Isso quer dizer que se temos um só ecossistema que torna a vida possível, há então um interesse humano geral. Esse interesse humano geral é uma realidade. Desta maneira, chegamos a refundar o conjunto dos paradigmas organizadores do pensamento de esquerda, quer dizer, o socialismo, o humanismo, as Luzes, a República e a democracia.

CM – Nesta linha de pensamento, você pôs em primeiro plano à classe trabalhadora como ator ecológico e a ideia da planificação ecológica.

J-L Mélenchon – Exatamente! São os trabalhadores que manipulam produtos nocivos à saúde e ao ambiente. Estes produtos arruínam o primeiro segmento da natureza, que são eles mesmos: os pulmões, quando se respira porcarias, a fecundidade, etc. A classe que está em contato com a catástrofe ecológica é a classe trabalhadora. A planificação ecológica consiste em organizar a produção, que hoje é pensada no curto prazo. As empresas estão sob o controle dos investidores, das agências de qualificação, que exigem prestação de contas a cada três meses. Não há qualquer estratégia de longo prazo. Tornar compatíveis os processos de produção e de intercâmbios com os imperativos da ecologia requer tempo. A planificação consiste em qualificar o tempo, o qual é uma dimensão social e ecológica fundamental. A segunda ideia subjacente concerne à política da oferta a partir de uma pergunta: de que necessitamos? Daí surge uma outra ideia, a do imperativo comum: algo comum a todas as reflexões e a toda a produção e a todos os intercâmbios. Isso é a regra verde, quer dizer, diminuir o custo ecológico da produção de uma forma séria, metódica, profunda.

CM – Nesse contexto, seu projeto da revolução cidadã se distancia dos princípios da social democracia, já que, por exemplo, põe-se contra a crença no crescimento econômico como fórmula do progresso.

J-L Mélenchon – No projeto da revolução cidadã há com efeito uma ruptura teórica de fundo com a social democracia. Nós não dizemos que vamos repartir o fruto do crescimento. A social democracia está organicamente ligada ao produtivismo, porque declara que o progresso social só existe dentro do produtivismo. Não. Nós pensamos o contrário. Acreditamos que o progresso econômico só é possível se há progresso humano e progresso social. Para nós, o progresso humano e social é a condição do desenvolvimento econômico. Estamos em duas visões diametralmente opostas. Temos de recuperar a audácia dos pioneiros, daquelas pessoas que diziam “este mundo é belo, é novo”. Temos de conhecer, descobrir, proteger e impedir o saque dos recusos. A Terra é de uma grande beleza, nem tudo está perdido.

*Tradução: Katarina Peixoto

*Carta Maior

“Nosso objetivo é redistribuir a renda e o poder”, diz fundador do Occupy Wall Street

Stephen Lerner, um dos militantes “fundacionais” do movimento Occupy Wall Street, que tomou o centro do capital financeiro norteamericano, esteve em São Paulo esta semana participando de um debate no Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região. “As pessoas acordaram. A polícia entrou na ocupação no final do ano passado. A ocupação quebrou. No inverno achamos que acabaria, mas não. O Occupy que tanto inspirou as pessoas, começou a se engajar com outros movimentos comunitários”.

Fábio Nassif

(*) Os vídeos do debate estão disponíveis na página do Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região.

São Paulo – O movimento que tomou o centro do capital financeiro norte-americano, no auge da crise financeira internacional, foi um marco, a partir do qual se espera uma “fertilização cruzada” segundo Stephen Lerner, um dos militantes “fundacionais” do Occupy Wall Street. Lerner, que tem 54 anos e 30 de militância, defende que o novo movimento, que tomou as ruas do centro financeiro com questionamentos claros à concentração de renda pelo capitalismo financeiro, inspire os tradicionais sindicatos americanos, ao mesmo tempo em que usufruam da experiência dessas organizações. “Espero que o encontro seja entre o melhor do mundo dos sindicatos e o melhor do Ocuppy. Deve ser uma visão combinada, conjunta”, afirmou.

Lerner fez parte de entidades como International Ladies’ Garment Workers’ Union (ILGWU) e Communications Workers of America (CWA). Na década de 80, entrou para o Service Employees International Union (Seiu), entidade integrante da UNI Sindicato Global, onde permanece até hoje. Ele veio ao Brasil participar de várias atividades, incluindo uma reunião com o MST e um debate no Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osaco e Região, na última quarta-feira (28). Abaixo, os principais trechos do debate:

Conjuntura
Estamos em um momento que abre possibilidades nos EUA depois de muitos anos de defensiva. Pelo movimento Occupy, a população descobriu que o sistema financeiro influencia diretamente na nossa democracia.

Durante 30 anos tivemos um processo de transferência de renda para uma ínfima minoria. Neste período, os sindicatos foram destruídos. Hoje somente 7% dos trabalhadores estão nos sindicatos. Quanto mais as pessoas se endividavam, mais os bancos emprestavam.

Em 2008 tivemos uma crise enorme, com a perda de emprego de milhões de pessoas. Nós demos US$ 17 trilhões de ajuda aos bancos e grandes empresas. Mas as pessoas não reagiram. Sentiam-se chocadas e não houve protestos no começo. De uma maneira estranha, as pessoas que marcharam e se organizaram foram as pessoas de direita. Eles diziam que o problema era que os trabalhadores ganhavam demais.

Foi uma estratégia brilhante: na beira de jogar o mundo inteiro na crise, ao invés de você se defender, você ataca.

Cabe uma crítica às organizações, pois repetiam os mesmos protestos que faziam antes da crise. O movimento Occupy sabia que os culpados eram os muito ricos e que precisávamos entrar em confronto diretamente com os responsáveis.

Mídia
No começo a mídia ignorou, depois passaram a falar que eram malucos. Quando a polícia chegou batendo nas pessoas, de repente a coisa começou a acontecer, muito por conta da internet e redes sociais que desbloquearam esse caminho. O Occupy liberou a verdade sobre a gula do capital financeiro.

O despertar
O movimento já dura seis meses e uma semana. As pessoas que nunca você esperaria se manifestaram, por todo o país. Isso dominou as discussões nos EUA.

As pessoas acordaram. A polícia entrou na ocupação no final do ano passado. A ocupação quebrou. No inverno achamos que acabaria, mas não. O Occupy que tanto inspirou as pessoas, começou a se engajar com outros movimentos comunitários. O mundo de Occupy, que todos dizem que é horizontal, começou a se juntar com o movimento mais tradicional.

Novas ações
Iniciamos o “Occupy as nossas casas”. É uma ação para impedir que as pessoas sejam despejadas de suas casas. E as pessoas que já foram desalojadas por causa das dívidas, estão voltando às casas que os bancos roubaram.

Estima-se que estudantes americanos devem 1 trilhão de dólares pros bancos. Quando houve o corte dos subsídios públicos, as pessoas fizeram empréstimo aos bancos. Então agora temos um movimento estudantil pra ocupar as escolas e universidades.

Outra iniciativa é o treinamento de cerca de 100 mil pessoas para ações não violentas, para saberem o que fazer quando a polícia interfere nos movimentos.

Alguns estão levando seus móveis para as agências de bancos, já que esses levaram suas casas. Outros depositam no interior do banco todo o lixo retirado de suas casas. Em um dos bancos iremos fazer um grande “beijaço”.

Perspectivas
Este é um movimento que está caminhando a passos de bebê. Nos EUA não temos, historicamente, a idéia de desafiar. Agora, nosso objetivo é redistribuir a renda e o poder. Queremos dizer que a crise é apenas para pessoas normais.

Alguma coisa está se construindo nos EUA. Algo está acontecendo. Nos próximas semanas e meses vocês vão ver que o movimento Occupy vai chacoalhar e esperamos que isso abra brechas para a construção de um mundo diferente.

Novas formas de organização
As vezes essas formas funcionam, mas as vezes é muito difícil. Numa assembleia grande é muito complicado. Esvaziam por conta disso. Mas precisamos sempre pensar como expandimos a democracia, transparência e participação direta, mas de uma forma que avance.

Em Nova York, o movimento se divide em grupos de trabalho e subcomissões. Muitas demonstrações de movimentos sindicais tradicionais não criam poder. O Occupy deixa as pessoas participarem de maneira mais ativa e isso cria uma nova energia. Cria vontade da desobediência cívica não violenta.

Ideologia
No começo os fundadores tinham uma ideologia anarquista. Mas há muitas tendências. A unidade vem de uma análise em comum de onde está o poder. Conseguimos evitar as lutas sectárias.

O inimigo
Das relações históricas do movimento anti-global, tem muita gente em comum que participa hoje. Eu não sei se o Banco Mundial e o FMI seriam alvos principais desse movimento. Acho que as pessoas querem manter o foco nas empresas e bancos. Mas isso deve ser debatido. Se milhares de pessoas estão envolvidas, não precisa todo mundo fazer a mesma coisa.

Eu acho que os progressistas e a esquerda deram facilidades pra direita pressionar a conjuntura. Eles dominaram a narrativa do país.

Uma posição única é que Occupy pode forçar que os candidatos vencedores se preocupem com a questão de Wall Street. Nós teríamos uma fraqueza muito grande se acreditássemos que temos poder só nas eleições.

Alternativa de esquerda
As organizações mais tradicionais acharam legais o Ocuppy, mas não podem voltar a fazer as coisas exatamente como era antes. As pessoas acham ruim que o Occupy não cabe em uma ideologia. E o Occupy precisa saber que sozinho não vai ser grande o suficiente. Nos EUA os sindicatos estão diminuindo, as organizações tradicionais também. Espero que tenha uma fertilização cruzada, onde o Ocuppy ajude as organizações, inspire os sindicatos americanos para lutar de outra forma. Inspirar e lutar junto. E que os recursos e a experiência dessas organizações sejam muito valorizadas pelo Occupy. Espero que o encontro seja entre o melhor do mundo dos sindicatos e o melhor do Ocuppy. Deve ser uma visão combinada, conjunta.

*Carta Maior

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CAMPANHA AFINADA CONTRA O

VIRTUALIZAÇÕES DESEJANTES DA AFIN

Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

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