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O MEDIUM TELEVISIVO E A OPINIÃO PÚBLICA

“A televisão é decididamente despolitizante” (Muniz Sodré)

“A informação não é um dos aspectos da distração moderna, nem constitui um dos planetas da gláxia divertimento; é uma disciplina cívica cujo objetivo é formar cidadãos.” (Ignacio Ramonet)

.UMA TRISTE PESQUISA.

Uma pesquisa que trate o seu objeto de estudo como algo constituído em um espaço organizado como um dado não produz o estudo como criação e uma experiência do novo no mundo. Apenas constatar o que já é dado como evidente não modifica a existência humana e tampouco realiza um desdobramento da efetividade, produzindo problemas autênticos. Em suma: estudar a realidade já constituída nada produz, logo, nada instrui.

É dessa forma, como um não-estudo, ou como um estudo de expressão e conteúdo vazio, que pode ser considerado o “estudo” dos sociólogos norte americanos John P. Robinson e Steven Martin, da University of Maryland. Eles chegaram à extravagante conclusão, após 30 anos de pesquisa com quase 30 mil adultos, de que as pessoas infelizes assistem mais televisão do que aquelas que se crêem aquém da felicidade. Para tanto, a dupla de sociólogos pesquisou o uso do tempo e o comportamento social das pessoas usadas na pesquisa.

É mais do que evidente o quanto a tevê não produz a informação como alegria e o novo no mundo. Ao contrário, ela confirma o estado de insegurança, de “má igualdade” capitalista, de padronização das emoções, e de engendramentos desonestos com as notícias com seus factóides e espetacularizações da realidade. Assim, a tevê em nada é autônoma. Ela é sim heterônima a partir do instante em que é organizada pela coerção externa da subjetividade capitalística. Então a tevê reproduz em sua programação a necessidade de conservar a tristeza.

O que aparece não aparece no estudo da dupla de sociólogos é esta percepção do médium televisivo. Nem o princípio de identidade (A=A) existente entre capitalismo e tevê, o que faz um cúmplice da outra. É o óbvio que prevalece no então acunhado de estudo.

A tevê, de tanto dilatar a efetividade através de sua hiper-realidade, faz com que todo saber e conhecimento seja esvaziado de sentido. Tal como o estado de tristeza onde o espaço é dilatado e o interesse e sentido da existência deixam de ser relevantes. Tanto a tevê quanto a tristeza não tem a ação efetiva como referentes. Tanto o uso do tempo e o comportamento social, assim como as classificações morais de escolaridade, classe social, faixa etária, entre outras, instituídas pelo capitalismo, segundo a lógica de mercado, convergem para a tevê de forma adequada.

O que, efetivamente, não surge no “estudo” (pesquisa) dos sociólogos é a força da Aletheia (revelação). A revelação do óbvio da constatação de que pessoas infelizes assistem mais televisão, não como um dado constituído, mas como um problema que irrompe a relação entre tevê, comunicação, informação, capitalismo e existência. Ainda mais quando se sabe que a tevê não é simplesmente um dado ou objeto dentro de um espaço constituído, mas uma produção humana que tanto pode ser benéfica ou nociva para a existência das pessoas. E que, hodiernamente, a tevê tem em sua própria estrutura a nocividade do sistema capitalista.

O MEDIUM TELEVISIVO E A OPINIÃO PÚBLICA

.TELE-TOTALITARISMO.

Um regime totalitarista não está fechado em suas práticas fascistas de censura, de controle e restrição da liberdade política. Seu objetivo é impedir qualquer movimento intensivo que faça o povo produzir bons encontros. Deve-se conservar o povo na tristeza, na imobilidade, no irracional, na superstição. Fazer com que a realidade seja mitificada e mistificada. Daí que, em um regime totalitarista, tornam-se necessárias coligações com grupos que sejam clones de tal regime para uma melhor proliferação da tristeza. A mídia televisiva desempenha bem este papel de clone do totalitarismo. A Globo nunca conseguiu esconder sua afinidade com os militares durante o regime militar no Brasil. Assim, a mídia televisiva age de forma a aumentar a impotência imposta pelos regimes totalitários. Ela, então, torna-se a vitrine onde a tristeza será veiculada através das programações diárias. A televisão monta sua programação a partir do/para o sofrimento. Ela mantém o estado de coisas da tristeza do regime totalitarista como algo banal, cotidiano, habitual e natural.

“Nós vos pedimos com insistência: não digam nunca – Isso é natural: sob o familiar, descubram o insólito. Sob o cotidiano, desvelem o inexplicável. Que tudo o que é considerado habitual provoque inquietação. Na regra, descubram o abuso, e sempre que o abuso for encontrado, encontrem o remédio.” Bertolt Brecht

Mas não vão pensando que para a tevê ir alastrando a tristeza por aí tem que ter um regime totalitário rolando. Nada disso. Mirem-se nos exemplo que a tele-totalitária Globo gosta de nos dá. A Globo manda na seleção brasileira de futebol. Não teve Branca de Neve que segurasse o Dunga; ele disse logo que tava puto, mas como um bom Dunga, tranqüilo. Mas como ele vai ficar puto com a Globo porque ela manda no apático selecionado brasileiro? Ora, Dunguinha, e tu não sabes que com a televisão o estádio de futebol se tornou um grande estúdio de tevê e todas as partidas em espetáculos financeiros, e pra acabar logo com a frescura, que quem manda mesmo no futebol agora é a televisão? E os jogadores, juízes, torcedores, gandulas…? Simulacros perseguidos pelas câmeras disciplinares e controladoras. Tu és somente mais um dos vários que são, implacavelmente, atacados pela rancorosa Vênus Platinada. Quem não a obedece ou a desacata, ela bate mesmo. Olha o que o menino de recados da Globo Faustão tá fazendo: ele agora toma ares de analista de futebol, mas sabemos que apenas faz o que a patroa Globo manda. Assim como tu fez.

Em todo o Mundo, por meios diretos ou indiretos, a televisão decide onde, quando e como se joga. O futebol se vendeu a telinha de corpo, alma e roupa. Os jogadores são, agora astros de televisão. Quem concorre com seus espetáculos?” Eduardo Galeano

A Globo segue à risca o dito inspirado na bíblia: “Dize-me com quem tu andas e eu te direi quem tu és”. O clone Paulo Maluf ratificou a sua candidatura a prefeito de São Paulo ao lado da apresentadora globotária (também clone) Ana Maria Braga. Tudo certo: Globo e Paulo Maluf: tudo a ver. Paulo Maluf está sendo indiciado pela justiça America por desviar 11,6 milhões de dólares de obras públicas de São Paulo para um banco americano. Desta maneira mudamos, ao nosso modo, a frase de inspiração bíblica: “Dize-me quem tu apóias que eu te direi quem tu és”. Jornalismo Colonialista e tendencioso da Globo. Hoje no Jornal Bom Dia Brasil, Renato Machado, defendeu o regime colonialista na áfrica (Conversa Afiada). Em matéria feita no Jornal Nacional, sobre a operação da Polícia federal João de barro, o casal Simpson tentou envolver a ministra Dilma no caso de corrupção, proferindo a seguinte frase no final da matéria: “A ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, não quis comentar sobre o escândalo” (Bodega Cultural). Estas duas situações demonstram o compromisso que a Globo tem com o tele-totalitarismo.

Ainda com a Globo. De rainha à bruxa: beicinho, beicinho e bye, bye,Xuxa caiu do alto dos píncaros do ibope e viu a realeza se esvair. De rainha dos baixinhos passou a ser a bruxa dos baixíssimos índices de audiência. Ainda lhe deram uma chance e a colocaram agora com um programa para o público adolescente. Mas agora veio o inaceitável: quiseram mudar o horário do programa dela por conta da olimpíada. Imaginemos que ela bateu o pé como baixinho infantilizado, olhou para os seus carrascos da Globo e tenha dito: beicinho, beicinho e bye, bye. Se foi para a Europa de férias. Será que a Globo agora usa a mesma tática de algumas empresas que quando querem demitir o funcionário lhe dão férias? Nada disso. Globo e Xuxa estão juntas, mesmo se separadas fisicamente, seja lá em que emissora for.

Esse Longo Caminho percorrido

lado a lado, nos bons e maus momentos,

faz de nós dois um ser unificado

pelos mais fundos, ternos sentimentos.”

Drummond

SBsTeira nega tudo… quase tudo. Veio a Mara Maravilha pensando que ia ser uma maravilha ter um programa familial, e o patrão Silvio cortou. Ainda teve o pagodeiro Netinho de Paula dizendo que ia pagodear pelo SBsTeira, mas também o patrão cortou logo o pagode dele. Mas quando a Madrinha da Noite, Hebe Camargo, reclamou da mudança de horário do seu programa, o patrão de pronto fez o que a Madrinha mandou. O patrão Silvio é submisso à apresentadora? Claro que não. Ele é acima de tudo, empresário. Ele não aborrece um dos seus mais fundamentais elementos fático televisivo. Ele sabe que a apresentadora tem o rosto que faz a imagem certa ir ao tele-espectador. Para Silvio antes os milhões do que uma briga com a Madrinha da Noite.

Num estudo de caso sobre o programa de Hebe Camargo, Sérgio Miceli demonstra como a animadora afetava sempre uma postura de ‘carinho e aconchego’, como se fosse uma madrinha (mãe postiça), mas alternando os papéis de mãe, filha, ou dona-de-casa.” Muniz Sodré

Que diga a sua amiga da Daslu, que quando foi presa pela Policia Federal, teve em Hebe uma mãe dizendo ser um absurdo uma menina como aquela ser algemada e levada presa.

Dizem que Ratinho pode ir pra Band e ter um programa de humor por lá. Mas um exemplo que a tevê é a grande lastradora da tristeza.

O MEDIUM TELEVISIVO E A OPINIÃO PÚBLICA

.A AMBÍGUA MORAL DA MÍDIA TELEVISIVA.

A MÍDIA TELEVISIVA ESTÁ BEM ADEQUADA À MORAL AMBÍGUA — produção subjetiva cristã, capitalística e judaica. O bem e o mal devem ser conservados como instâncias maiores de mensuração das atividades humanas. Portanto, na mídia televisiva, para cada atividade, uma representação simbólica que exerça bem a separação entre bem e mal. Seja uma palavra de elogio ou de censura, seja um aceno de incentivo ou de desaprovação, sejam recompensas ou punições, premiações ou desvalorizações. Seja o que for: mas que venha para impor a idéia de que verdadeiramente existem pessoas, programas, canais e emissoras de televisão que estejam alojadas nas categorias morais de bem e mal.

É preciso aniquilar a moral para libertar a vida” Nietzsche.

Emissoras de tevê se esforçam para se mostrarem diferentes entre elas. Então mergulham na moral da ambigüidade para terem a ilusão da separação dos bem aventurados dos mal aventurados televisivos. Esperam poder separar o joio do trigo, enquanto não há nem joio nem trigo. Só o vazio. Então forjam acusações, intrigas, acusações, rivalidades, disputas, sem saber que bem e mal são uma só moral que se complementam e em nada se diferenciam. Instâncias transcendentes que impõem uma ordem (o bem) que melhor se organiza pela desordem (o mal). Assim a mídia televisiva é pessimista e niilista, pois está em conformidade e impõe a percepção formatada pela moral.

Não importa saber o que a televisão está levando ao ar, se os seus programas são de alto ou baixo nível; é ela própria, enquanto veículo, que altera o comportamento, condicionando a percepção no sentido do envolvimento geral, da participação (‘estar por dentro’ — lema dos jovens de hoje), apesar da resistência das elites de formação literária, que gostariam de levar à televisão o que chamam de “cultura”, impondo soporíferos programas lineares…” Decio Pignatari.

A mídia forja diferenças para se querer numa diversidade e assim, fazer o jogo do não jogar. Daí Jorge Fernando acreditar existir diversidade na tevê e que há realmente uma disputa teledramatúrgica entre Globo e Record. Disparate que resvalou no colunista da Folha Daniel Castro,fazendo-o cair no engano de admitir que haja uma disputa entre os autores de telenovelas João Emanuel Carneiro (Globo) e Tiago Santiago (Record). Entre pares não há disputas ou diversidade, contudo pode haver trocas a partir do sistema que ordena esses pares.

Televisão é um sistema informativo

homólogo aos códigos da

economia de mercado (…)” Muniz Sodré.

Nenhuma emissora pode falar entre si, como os escolares falavam aos valentões: “Vá procurar alguém do seu tamanho; não bata em mim”. São todas do mesmo tamanho, com o mesmo perfil, com a mesma limitação intelectual e, sobre tudo, não brigam entre si. A não ser dentro dos negócios produzidos pelo capitalismo. A SKY cortou o sinal da MTV. A MTV disse que a Sky não respeita o telespectador. A SKY justificou o corte do sinal, que agora só está sendo transmitido para São Paulo, dizendo haver um “abuso de preços” por parte da MTV quando da renovação do contrato com o canal de TV pago. A MTV quer para si a ubiqüidade divina quando diz saber que houve um desrespeito aos telespectadores. Em outra perspectiva. Os tele-espectadores, talvez agora, comecem a sair da cultura inútil transmitida pela MTV e tracem caminhos outros; bem que podem apenas migrar de uma emissora para uma outra que é a mesma (e aí está a moral televisiva). A SKY, economicamente (ou seja, dentro da ordem televisiva), está certa em sua justificativa. Quem não agüenta o agitadíssimo mundo business do capitalismo é cortado.

Se as emissoras na mídia televisiva, por conservarem a moral da ambigüidade, podem dizer juntas “Somos Iguais, não mudamos jamais”. Para ela também serve a advertência de um apóstolo. Então para que a mídia televisiva continue com os seus pares, citemos um apóstolo que foi um dos fundadores e fortificadores da moral: Paulo de Tarso.

Ai daquele que enquanto prega aos outros é ele próprio um réprobo!”

O MEDIUM TELEVISIVO E A OPINIÃO PÚBLICA

.A AUSÊNCIA DE REALIDADE NA TEVÊ.

Na tevê não há realidade. Os acontecimentos são engolidos pelas técnicas de produção e reprodução televisiva de imagens. As imagens em um espaço organizado que possamos perceber não são dados. Elas se constroem devido ao jogo dos órgãos sensório-motores que entre a visão e o movimento (da efetividade) vão estabelecendo coordenadas que possibilitam situar e orientar objetos na realidade. Esta espécie de jogo neuro-social vai ocorrendo a partir das relações de produção social que vai criando os modos de existência, tanto de pessoas quanto de objetos, no movimento da efetividade. Já na tevê, estas imagens surgem destituídas deste jogo, inseridas como pontos já dados. Logo estas imagens são colocadas a partir da rotina da vida cotidiana como coisas óbvias e triviais que não passam pela análise de que são frutos de relações de produção sociais captadas pelo ser humano como estímulos físicos e químicos.

Desta forma, a tevê elabora uma maciça codificação das imagens. Na tevê, as imagens não são produzidas, mas dadas em outro campo que já não é o campo da produção social que afeta as pessoas, trata-se antes de imagens destituídas de realidade, porque já não se encontram ao alcance de quem a produz e de quem as olha individualmente e se apropria delas. Elas são manipuladas, montadas, redirecionadas e organizadas para se adaptarem à ordem televisiva. Trata-se agora do que Paul Virilio chama de télescopagem, um choque entre o que é próximo e o que é distante, uma visão que não alcança a imagem que por mais que se estabeleça próxima, apresenta a distância como sua marca principal.

Ocorre, assim, uma “erosão do principio de realidade”. A tevê não trata da realidade. Nem poderia, uma vez que os acontecimentos ocorrem, se transformam e desaparecem no movimento da efetividade. O que a tevê captura é um efeito paralisado do real, que impõe ao tele-espectador como notícia destituída de suas causas. Daí compreender que a então chamada espetacularização exercida pela mídia (aqui principalmente a televisiva) está menos vinculada às questões de uma programação controlada pela força da lógica do mercado do que por uma estrutura midiática distante da efetividade; o que faz de sua programação um espetáculo em razão da realidade ser apresentada de forma mítica e mística: destituída das relações de produção social e pautadas na desrazão.

Na tevê, deve-se, ao máximo, liquidar a realidade e expropriar qualquer referência das relações sócias de produção com as suas imagens e sons. Ela estabelece uma amnésia topográfica (Paul Virilio): o lugar aonde os objetos, as relações entre as pessoas e a relação das pessoas com os objetos que vão produzindo imagens e referências, é esquecido; este é suplantado pelas imagens e sons distantes da tevê. Contudo, uma vez que a ordem da tevê é determinar uma presença de efeitos do real distante das causas na efetividade, a “realidade” televisiva ocorre quanto mais afastada estiver do movimento do real.

A perspectiva das experiências produzidas na efetividade é rejeitada pela perspectiva midiática. Assim tem sido com o caso da menina Isabella, onde sua imagem foi retirada da realidade e espetacularizada. Junto à imagem de Isabela foi destituída da realidade a própria ação humana. Da forma que os suspeitos do assassinato da menina foram tratados pela mídia (principalmente a televisiva), eles começaram a ser classificados como monstros que praticaram uma ação terrível, o que gerou uma forte ojeriza em muitas pessoas. O que a tevê não permitiu com a espetacularização deste caso foi colocar, não só este caso, mas tantos outros, a partir das relações de produção social. A cobertura midiática do caso descarta uma análise social do acontecido, que leve em conta um entendimento político que indague o caso a partir do ponto de vista de uma realidade ordenada pelo sistema capitalista, produzida pelo próprio homem. Ao contrário, a tevê e outras mídias mitificam e mistificam o caso, tirando-o do movimento da efetividade. Interessa à mídia televisiva (e outras) manipular e explorar as imagens e fazer do ocorrido apenas um espetáculo que possa tocar nos sentimentos padronizados dos tele-espectadores.

A função da tevê, portanto, seria a de fazer da realidade uma ausência. É a visão completamente destituída das relações das pessoas com o que as rodeia que suplanta a visão da superfície da realidade que nos afeta.

O MEDIUM TELEVISIVO E A OPINIÃO PÚBLICA

POR UMA MÍDIA QUE VÁ PELO MEIO

Ampliar a Noção Habitual de Mídia

Responsabilidade moral de erradicar o mal e mostrar as enfermidades sociais”. Este era o axioma central que fundamentava a transformação do jornalismo em profissão no século XIX, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Este axioma foi evoluindo junto às mídias e se constituiu como o código moral de classe cristalizado nos meios de comunicação. A mídia foi se estabelecendo como veículo de denúncias das mazelas sociais para se conservar como mantenedora da ordem. Então sua função não ficou em apenas fazer com que informações passassem de um ponto a outro no espaço e no tempo, mas também a de um agente “social” que destacasse casos na multidão de acontecimentos que servissem como exemplos para manter a constante manutenção da disciplina e do controle da ordem normativa.

A noção habitual de mídia então passou a ser entendida como uma espécie de vitrine que coloca à mostra a realidade para todos. Leva a realidade a ser vista através de suas técnicas e modelos de veiculação midiática. O profissional da mídia (seja lá qual for a sua função) se torna responsável por conscientizar o público e servir de exemplo.

Daí um problema habitual: sendo o modelo de mídia que se toma como oficial, centrado em grandes dinastias familiares, o que fazer para que a mídia não se limite aos ditames da moral de classe dessas dinastias midiáticas?

Talvez seja deste problema, colocado de maneira muito rápida, que nasça os brados que reivindicam uma mídia livre/alternativa, a partir de uma mudança de modelo. Mas a questão não é bem esta. Nem a do problema. Nem a da sua afoita solução.

Antes mesmo de a mídia funcionar como instrumento de dominação por essas dinastias, ela já se pretende como agente conservador da dominação capitalística. Percebe-se isto quando se vê que a mídia realiza uma antecipação de denúncias e repressões àqueles que infringirem a semiótica capitalística. O discurso da mídia é fundamentado em enunciados persecutórios próprios de um regime de signos despótico. Entretanto, a própria mídia desconhece isso. De tão inserida na subjetividade capitalística, ela faz isso com naturalidade e passa a ser personalizada por esta subjetividade dominante. Tanto que ela na ânsia de cumprir seu dever moral, naturalmente, só mostra o sujeito como indivíduo em momentos específicos.

Os meios de comunicação falam do mundo das pessoas, que transformam em até superpessoas. No jornal, no rádio, na televisão, nas revistas, o indivíduo só aparece no registro policial, quando se personaliza através da violência. Ou então no Carnaval, quando se torna personagem de um fato da história nacional. Ou ainda no misticismo ou no futebol, quando se destaca por seus dons ou poderes superiores. (Laymert G. dos Santos)

Uma noção ampliada da habitual de mídia, portanto, não está somente na abolição da lógica de mercado da sua organização. Uma questão que talvez não seja levada tanto em conta é que a noção predominante de mídia é aquela que é produzida pela subjetividade capitalística dominante. São as redundâncias dominantes capitalísticas que povoam a noção e a prática das mídias. Então, as formas de falar, os gestos, os procedimentos, a forma de usar a informação, a maneira com que os significados vão se apartando de qualquer acesso à realidade, instituem na mídia uma ordem fundamentada nos códigos capitalísticos.

Talvez a mídia seja vista somente como uma série de veículos de informações manipulados pela economia de mercado, que determina seus níveis de organização. Daí surgir idéias favoráveis de uma mídia livre/alternativa à medida que ela seja guiada pelas pessoas certas. Basta criar uma programação cultural, educacional e de entretenimento distante dos ditames do mercado. Logo se terá uma mídia comprometida com a sociedade. Todavia, a mídia não é apenas manipulada. Ela própria se esforça, com o seu aparato técnico-funcional, para teleguiar e codificar comportamentos e estabelecer valores da subjetividade capitalística. Ela traz em suas variadas estruturas técnicas (a impressão, a imagem, o som, a grafia, etc) a força de marcar a expropriação do que acontece no público e transformá-lo em uma banalidade cotidiana sem sentido, a qual é posta nas casas, fábricas, escolas e outros lugares como notícias “naturais” que repugnam, enojam ou reforçam as culpas familiares.

Transformar a mídia em livre ou alternativa não se trata de criar um modelo livre ou alternativo. A mídia pode muito bem mudar de organização e continuar mantendo sua planificação subjetiva. Ela pode ser tachada de alternativa, cultivar uma rede envolvida com os movimentos sociais, mas sempre conservando a reprodução da subjetividade capitalística. A preocupação em produzir um modelo de mídia diferente da que se toma por oficial já caracteriza uma reprodução desta subjetividade.

(…) Não se trata, nunca de propor um modelo alternativo. Mas sim de, ao contrário, tentar articular os processos alternativos quando eles existem. (Félix Guattari)

Talvez, colocar a mídia livre como uma opção não requeira uma transformação dos meios de comunicação. Mas, ao contrário, a produção de outros meios que estejam completamente fora da mídia dominante. Então são necessárias outras relações de fala e escuta, outra linguagem, criação de produções novas que não ocorrem de jeito algum na mídia dominante. Processos que atravessem as experiências das pessoas pelo meio de suas existências e não de pontos marcadores de poder. Uma mídia que se livre de qualquer ponto de referência capitalístico.

Partir do meio da existência. Partir de onde não há um começo ou um fim. Criar o caminho caminhando pelo meio dos acontecimentos. Desprezando as sistematizações arborescentes, hierárquicas de cima para baixo ou de baixo para cima dos acontecimentos. Não há o acontecimento mais importante. Há experiências que são únicas. Há encontro de experiências. Criar. Produzir o novo. Pelo meio. Pelo medium.

O MEDIUM TELEVISIVO E A OPINIÃO PÚBLICA

O MÉDIUM TELEVISIVO NÃO ULTRAPASSA A CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA

Uma Estrutura Perversa

Digamos que seja fácil descrever a estrutura do médium televisivo: sua organização é fundamentada em dividir para identificar, classificar para censurar e serializar para lucrar. Sendo mais curto ainda: ela existe em prol do grande amor do capitalismo: o capital. Poderíamos então inferir que o médium televisivo não se preocupa com uma programação que tenha a educação, a cultura, o respeito ao outro e o humor como produções históricas e sociais que vão alimentando o processo de construção da efetividade. Ao contrário: o médium televiso carrega os códigos da lógica do mercado para estes acontecimentos e os determinam como pontos de referência do capitalismo. Então o médium televisivo perverte estas produções políticas/sociais quando as desloca da criação humana e as converte em mercadorias de troca. Fazendo da informação o excedente que cunha a audiência e o ibope como valor/equivalência. Então tudo que é posto como parte da estrutura do médium televisivo deve se adequar aos códigos do mercado. Pois bem, podemos então concluir daí que para o médium televisivo não existe a criança, o adolescente e o adulto como entes reais, no mundo, integrados ao processo de produção das experiências. Estes são, pelo médium televisivo, convertidos em meras quimeras (não-entes) servindo ao propósito de serem tão somente repousos justapostos, sucessivos, marcados em uma temporalidade que indicam os horários de sua programação. Ora, então é isso! O médium televisivo se apavora frente à portaria 1.220, de 11 de julho de 2007, que entrou em vigor no último dia 08, porque é colocada a ela a seguinte questão: ou adéqua sua programação aos fusos horários de toda região, respeitando as classificações das indicações de faixa etária, ou muda seus horários de acordo com a necessidade do fuso de cada região?

A Portaria

A portaria 1.220 regulamenta as disposições da Lei nº 8.069 de 13 de julho de 1990 do Estatuto da Criança e do Adolescente e da Lei 10.359 e o Decreto 6.061 referentes à classificação indicativa das obras audiovisuais e congêneres. As indicações de classificação nas programações das tevês abertas seguem uma natureza informativa e pedagógica que pretende adequar as grades de programação das emissoras às faixas etárias recomendadas. Programas jornalísticos, esportivos, programas e propagandas políticas e publicitárias não serão sujeitados à classificação indicativa.

A Portaria e as Emissoras

Para que não tenham problemas com a classificação indicativa, bastavam as emissoras adequarem seus programas às crianças. Assim não teriam que mudar sua grade de programação e permanecer em seus horários, que são pesados, comercialmente, pela audiência e o ibope. Para isso só seria preciso que as emissoras produzissem uma programação inteligente, solidária, objetiva e que preservasse a alegria e potência criativa que a criança, intensivamente, traz consigo. Mas isso não é possível. O médium televisivo é infantilizado e não vive o devir criança.

Um Caso que Não é Contraditório

Se a TV Globo grita, ecoando seu próprio vazio, dizendo ter uma programação de qualidade, nos perguntamos: porque entre as chamadas grandes emissoras (todas irmãs siamesas) ela foi a que mais bateu o pezinho, infantilmente, contra a portaria? Ora, se sua programação é de qualidade em todos os níveis, nada ela deve temer. Mas se desesperou outra vez. Aí foi procurar auxilio com os que mais se aproximam de suas crenças decadentes. Ameaça apresentar uma proposta de Decreto Legislativo, através do anti-senador Arthur5,5%Neto, para derrubar a portaria. Alguém poderia dizer que a Globo está se contradizendo quando se preocupa com a adequação da sua grade de programação à classificação indicativa. Não se contradiz. Ela está mais que inserida em seus dizeres vazios, já que sua qualidade não ultrapassa seus estúdios e não chega nem de longe a tocar o Público.

Poucas Crianças Vão Ser Protegidas

“Não desistimos de convencer as pessoas de que a portaria é inócua, porque as pessoas vão migrar para a antena parabólica para continuar recebendo a programação no mesmo horário de antes. Se é que isso (a classificação) resolve e melhora alguma coisa, vai proteger só uma parte das crianças do Norte”. A frase é de Flávio Cavalcanti Junior, diretor-geral da Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão). Sua preocupação com as crianças do Norte não é sinal de solidariedade. A região norte foi onde a grade de programação das emissoras mais sofreu modificação, por causa da diferença de horário em relação a Brasília. Como empresário do ramo midiático televisivo, ele resume bem o que é a tevê em relação às crianças: uma ameaça da qual elas precisam ser protegidas.

Para Além do Horário e da Classificação Indicativa

Se fosse feita uma lei que em vez de avaliar a programação televisiva em relação à classificação da faixa etária indicada, avaliasse a capacidade e compromisso das emissoras em contribuir para a construção de processos democráticos onde as pessoas seriam cidadãos que construiriam comunidades a partir da união de suas potências alegres, não havendo assim diferenças de idades apenas como “paragens possíveis” (classificações advindas da imaginação), mas como “paragens reais” e víssemos a criança, o adolescente, o adulto e a velhice, não mais como divisões etáricas, mas como objetividades vivas que constroem, modificam e movimentam o mundo, alguma emissora ainda existiria?

O MEDIUM TELEVISIVO E A OPINIÃO PÚBLICA

A QUALIDADE DA OPINIÃO NO MERCADO DA GLOBO

Para Rede Globo, Qualidade é Respeitar a sua Própria Opinião

Para a Rede Globo de Televisão (RGTV), é difícil entender o que é Opinião. Para ela a opinião não é uma potência produtora de singularidades que correm por vários canais periféricos sociais, no momento do acontecimento, até a construção do fato social enquanto compostos de partículas intensivas: as experiências sempre únicas. A opinião para a RGTV não é produzida no mundo como doxa. Como Política. Opinião para a RGTV é simples articulação da combinação do aparelho fonador com os termos do sistema da língua. Surge e está como senso comum. Assim, a opinião se estabelece para a RGTV como uma ficção, produto da mitificação e mistificação da efetividade. E como não pode ser compreendida como a conjunção recíproca do movimento da percepção com o que é público, somente uma opinião lhe é valida: a dela própria.

Assim, a Globo convoca seus funcionários a dizer que sua patroa respeita a opinião pública e a liberdade de expressão. Então ela impõe ao tele-espectador um “Q de qualidade” presente em toda a sua programação. Daí ser possível inferir algumas coisas:

A Globo Não Sabe O Que é Qualidade

A qualidade para a Globo é uma imposição. Ela não nasce de variações perceptivas que indicam modos de ser e aspectos derivados de estímulos físicos, químicos, afetivos, psicológicos e sócio-econômicos que afetam os corpos. A Globo não compreende qualidade como o produto não definitivo ou convencional do jogo entre a sensibilidade (os sentidos/órgãos sensórios-motores), as características dos objetos e ações (suas propriedades comuns e adicionadas) e a capacidade neurofisiológica de recepção e transmissão destes sinais como impulsos nervosos (sistema nervoso periférico e central) no corpo humano. Então, impor uma qualidade a um objeto ou a uma ação é um ato vazio. Daí a Globo convocar seus funcionários para exaltar um “Q de qualidade”, porque estes, como a sua patroa, não participam deste jogo. Portanto, a Globo não sabe o que é qualidade, porque, como seus ajustados funcionários, não percebe e não é afetada pela realidade, mas se conserva na superstição de que somente sua opinião é válida.

A Qualidade da Globo Advém do Referente Mercado

Mas não é nem a própria Globo que impõe uma qualidade a sua programação. Ela é subjugada pelo referente mercado. Quando a Globo impõe uma programação como sendo de qualidade ao tele-espectador, ela imagina estar transmitindo uma mensagem por conta própria. Acredita ser ela a produtora do sentido de qualidade. Mas a Globo não percebe que a mensagem não indica um referente, ao contrário, desenvolve-se no referente, nas circunstâncias concretas em que se encontra e que lhe atribui um sentido. E sendo a Globo, como toda a mídia televisiva, reduzida cognitivamente, homóloga ao mercado, seu referente é o Mercado. Quem lhe atribui um sentido é o Mercado. Sua tão badalada qualidade advém do Mercado. A Globo carrega consigo os códigos do Mercado e é a partir destes que é orientada a fazer qualquer tipo de programação que lhe dará a qualidade que lhe convém.

A Qualidade da Globo Surge do Desespero

Todo o chamado império que a Globo construiu não dá mais sinais que desmorona. Ele já está em fase terminal. Percebe-se isso quando ela, desesperada, impõe uma qualidade surgida do desespero. Quem se autopromove é porque sentiu a necessidade de ser percebido justamente nos aspectos que ilusiona para si, mas não é notado pelo outro. A Globo se autopromove, dizendo ter uma programação de qualidade. Afirma uma ilusão. E, no caso da mídia televisiva, uma que pode ser contada, acumulada e funciona como mensurador do mercado para fechar contratos com as emissoras: o ibope. Para isso, é preciso pessoas dispostas a prestar audiência. Coisa que a Globo vem perdendo para outras emissoras que igualmente buscam garantir suas fantasias para manterem sua simbiose com o mercado. Então a Rede Globo tem que mostrar que é dona de uma qualidade. Chama seus funcionários e os faz mostrar o quanto é grato ser empregado desta emissora. Quer levar ao tele-espectador sua fantasia. Mas aproxima seu desespero. A qualidade da Globo nasce do desespero, porque nasce da sua insuficiência de querer a opinião como propriedade sua.

Uma Qualidade Truncada

A RGTV é acometida do complexo de Deus. Ela acredita ser onipotente, onipresente e onisciente. De que outra maneira saberia que a opinião das pessoas são a de que a sua programação é de qualidade? Mas ela apenas ficciona em suas alucinações a existência divina. Então, para ter a falsa certeza divina (ficciona ter o poder sobre a opinião de todos), ela se dá uma opinião truncada. A qualidade da Globo é fundamentada somente em sua própria opinião. Com sua desrazão, a Globo acredita poder mutilar a opinião pública (doxa, experiências e participação direta no movimento social. Política) e impor sua opinião acéfala ao público. Ledo engano. E para não correr o risco de ter a certeza do que ela já sabe, que é ser só mais uma das seqüelas e dos ramos das tristezas da direitaça, não se arrisca e convoca seus próprios funcionários para “opinarem” sobre o seu “Q de qualidade”. Que Qualidade!

O MEDIUM TELEVISIVO E A OPINIÃO PÚBLICA

REDE GLOBO: MORTUÁRIO TELEVISIVO

Saber é saber que se sabe. Ma a Globo disso não sabe. Pois quando tem noticiado as mortes e os problemas de saúde pública relacionados à epidemia de dengue no Rio de Janeiro, acerta sem saber do acerto. Ao noticiar a epidemia de dengue no Rio de Janeiro, o Jornal Nacional, sem querer acertar, mas acertando, vem demonstrando que o Governo Federal, através do Ministério da Saúde e do Ministro José Gomes Temporão (PMDB), tem realizado uma intensiva campanha de combate contra o vetor da dengue, o mosquito aedes aegipt e de conscientização comunitária, investindo maciçamente em distribuição de verbas para as cidades do país, principalmente para aquelas que apresentam mais necessidade.

Querendo em algumas reportagens atribuir o problema da epidemia a uma suposta ineficácia no trabalho de prevenção do Governo Federal, a Globo denuncia (não querendo denunciar) seu parceiro César Maia (DEM, conhecido antes como PFL), prefeito do Rio de Janeiro, de não fazer os devidos investimentos necessários para o controle da epidemia. Recebeu a verba Federal e não trabalhou em prol da população, fazendo com que a dengue no Rio tomasse as proporções que tomou. Tanto que o médico clínico e infectologista da Fiocruz, Antonio Sérgio da Fonseca, disse que em tese, era de se esperar que não houvesse nenhum caso de morte“. Pois está sendo realizado o trabalho de prevenção por parte do Governo Federal. E especialistas da Fiocruz ainda consolidaram as criticas do Ministro Temporão, que indicam “o modelo de assistência médica do Rio como um dos principais fatores para o número de mortes por dengue acima do esperado”.

O que agrava a epidemia no Rio é a volta de um tipo de vírus (do tipo 2), ausente desde os anos 90, para o qual as crianças que nasceram desde então não estão imunizadas. Daí, somando a desestruturação do modelo de assistência médica do Rio com a imunidade das crianças e o fato que nelas o vírus tem uma maior força, haver um fortalecimento da epidemia. Junto com a Globo, a sequelada Folha de São Paulo consolida mais ainda a desrazão da mídia que acerta sem saber que está acertando. Foi o caso de uma comparação, apoiada na moral de classe burguesa, feita na ânsia desmesurada de limitar o Governo Lula em problemas isolados, que um blog atrelado à limitada Folha disse que houve mais casos de dengue no Governo de Lula do que no de FHC. Falso problema, já que as epidemias de maior visibilidade acontecem em Estados onde a direitaça manteve cargos no Executivo. A Globo bem que forçou, mas não conseguiu sair de seu acerto involuntário. Noticiou ontem imagens e histórias de vítimas da epidemia de dengue no Rio (crianças e adolescentes). Após fazer da tevê uma vitrine obituária, logo em seguida, mostrou uma reportagem demonstrando que nos Estados Unidos houve uma política de prevenção melhor do que a daqui, em uma epidemia semelhante. Ora, é bem o hábito da mídia ver somente o que lhe convém. Como ela pode fazer uma comparação entre um sistema de saúde inexistente, como é o dos Estados unidos, como bem mostra Michael Moore em seu “Sicko” (no Brasil, “SOS Saúde”), com o do Brasil, que tem melhorado (mesmo com as más administrações públicas da direitaça e da esquerda tão esquerda que se confunde com a direita)? A Globo, como a Folha, como as outras mídias “somos iguais não mudamos jamais”, disto tudo sabem. E bem apresentam estas noticias ao povo, mesmo sem saber que estão noticiando. Mas, ora! Temos que admitir. Mesmo sem saber que está prestando um serviço público à população, a Globo faz. Como dizem alguns: “Quando o errado está dando certo, é melhor não mexer”.

MORTUÁRIO TELEVISIVO

São várias as formas de comportamentos que aparecem quando o assunto é morte. Alguns batem três vezes na madeira e impõem a expulsão e proibição da agourenta palavra. Outros ficam a olhar para cima na angústia de ter a cabeça sobrevoada por uma rasga mortalha. Ouve-se, daqueles que usam a morte para afirmar uma existência passiva, de que nada adianta fazer algo neste mundo, já que o futuro é ela. Há até enunciados fatalistas que sentenciam: “só existe uma certeza neste mundo: a morte”. E por aí vão as mistificações e mitificações sobre a morte. Ela é desviada de um movimento político/econômico/social como acontecimento na produção da práxis humana e colocada como um elemento distante de nossa realidade e posta nas relações supersticiosas do homem com o sobrenatural. E daí surge uma morte que é difundida como fixador do ressentimento e da exploração dos sentimentos alheios. Assim como a morte do Cristo de Paulo de Tarso é usada para gerar a culpa nos cristãos, a Globo usa a morte para reforçar as tristezas no médio televisivo. Então se explora os sentimentos padronizados e faz da morte apenas mais um elemento dentro da lógica do mercado a ser informada dentro de uma cadeia de significantes que impõem palavras de ordem. É desta forma que a apresentadora do Jornal Nacional, com a sua voz cavernosa (mais pela subjetividade fonética adquirida da superstição apoiada no capitalismo que ela carrega do que pelo timbre de voz), enuncia as mortes atribuídas a epidemia de dengue no estado do Rio de janeiro, agindo de acordo com a morta capacidade epistemológica da Globo que revela os seus estreitos laços de parceria com a direitaça. A Globo faz destas mortes espetáculos mediáticos, assim como fez com as mortes que ocorreram nos acidentes da GOL em 2006 e da TAM em 2007, explorando a angustia dos parentes das vítimas. Para a Globo a morte é apenas um signo constituído na superstição que deve ser usado segundo interesses midiáticos. E caso elas venham a constituir um excedente, então ela passa a categoria de signo-mercadoria e pode ser negociada como um valor de troca, uma vez que ela pode ser trocada pela audiência das percepções constituídas. Então o que aconteceria caso a morte deixasse de existir? E se junto com a morte as dores do mundo se desvanecessem ao vento? Não houvesse mais tristezas a serem noticiadas? O que seria da Globo e de toda a mídia com insuficiência cognitiva? “Sem a morte, não há ressurreição e sem ressurreição não há igreja”, diz Saramago no seu “As Intermitências da Morte”. Isto, adaptado a mídia, seria: “sem tristezas, sem mortes, sem dores, o que seria de nós?”

O MEDIUM TELEVISIVO E A OPINIÃO PÚBLICA

O que Toni Bellotto disse: fala ou frase?

A fala não está separada de uma práxis social. Ela surge como a composição de processos heterogêneos, fisiológicos, psicológicos, históricos, econômicos, sociais e políticos. Daí a fala ser uma percepção destacada do processo de assimilação da realidade espaço/temporal pela experiência (órgãos sensório-motores) mais o intelecto (ação Neuro-Cognitiva). A fala não pode ser considerada uma criação pura, mas uma seleção individual de atualização de uma ação coletiva: primeiro são captados os códigos do espaço/tempo perceptivo, depois realizado uma combinatória destes códigos, segundo a redundância da língua (instituição e sistema), para, enfim, expressar um discurso (mas a língua não determina a fala). Então, a fala é um posicionamento no mundo: como o mundo é percebido individualmente, como o mundo é lido e interpretado, como ele é sentido, como ele é comunicado. Falar é se posicionar frente a uma situação e expor publicamente sua opinião. A fala é sempre pública, posto que seja ação libertadora objetivando o bem comum para a cidade. Assim, a fala não é a redundância de significantes ou a imposição de clichês como palavras de ordem. Então uma frase pode ou não ser uma fala. Caso ela apenas siga a justaposição de palavras, segundo coordenadas que pretendem fechar os compostos da fala em sistemas e regras gramaticais, não é fala. Pois é montada no vazio do significante que não percebe o mundo em seus embricamentos, mas a partir de signos redundantes.

Neste movimento analisemos o que foi dito por Toni Bellotto sobre a TV Pública no Brasil:

TV Pública é uma piada. Primeiro, porque tem tudo para virar um instrumento de propaganda do governo. Segundo, é muito dinheiro investido para poucos resultados práticos. E nem deve ter muita audiência. Ninguém leva aquilo a sério.”

Primeiro, para o eleitor de Alckmin a TV Pública no Brasil é uma piada. Pois bem, ele concebe piada da mesma maneira como a mídia televisiva concebe humor: de forma preconceituosa e reduzida cognitivamente. Ele absorve o sentido vazio de piada como estória (ou história mesmo) sem interesse público, chacota, passa-tempo para diversão-vazia. Ele não percebe piada como humor que movimenta novos modos de existência e novas percepções da realidade, tais como uma TV Pública pode movimentar fazendo da informação/comunicação elemento de construção de opiniões públicas engajadas no bem comum, diferente das tevês que detêm a concessão de canais abertos presas ao grande amor no capitalismo: o capital.

Segundo, o funcionário da TV Globo diz que a TV Pública “tem tudo para virar um instrumento de propaganda do governo”. Não consegue perceber que a melhor propaganda do Governo Lula é o seu efetivo trabalho realizado ao país e ao povo. Mas por ser empregado da Globo, talvez só consiga ver propaganda como marketing que necessita retirar os objetos da efetividade do mundo e representá-los, esvaziadamente, como signos-clichês, por isso suporta ser funcionário da Globo.

Terceiro, o que não consegue ter uma compreensão de política para além da política profissional constituída, entende dinheiro preso a subjetividade capitalística. O vil metal deve suprir as faltas imediatamente. Não compreender o dinheiro como valor-equivalência como parte necessária a um processo. Daí não entender prática como práxis: processo de produção de subjetividade que ocorre nas composições que os homens realizam com a sua existência histórica.

Quarto, o que acredita que a banda Titãs faz críticas sociais diz que a TV Pública não terá muita audiência. Entende audiência como a sua patroa Globo. A partir do mensurador comercial IBOPE, que sela os contratos entre empresários donos das concessões dos canais de televisão e empresários de outros ramos. Entende-a como maioria, logo dentro de um metro-padrão. Não perspectiva (não enxerga além do que lhe é imposto) uma audiência fundamentada na minoria que percebe a informação/comunicação a partir de outros códigos que não sejam os mesmos da subjetividade capitalística.

Quinto, o inserido na tristeza da mídia seqüelada televisiva diz que ninguém levará a TV Pública a sério. Nisto ele acertou. A proposta da TV Pública é escapar ao padrão do médium televisivo, então deve escapar à tristeza, logo deve escapar a seriedade, como podemos perceber na filosofia de Sartre. Então a TV Pública pode caminhar fazendo o seu caminho na alegria e no humor necessário à liberdade.

De quebra, Toni Bellotto, o fixado empregado da TV Globo, afirma, confirma e deixa mais do que claro todo o pavor que os canais de tevê da mídia golpista/seqüelada reduzida epistemologicamente está sentindo com a movimentação da TV Brasil.

Então perguntamos: o que foi dito por Toni Bellotto é uma fala ou uma frase?

Respondemos: Toni Bellotto faz valer sua moral burguesa e sua incapacidade cognitiva de perceber o mundo em uma objetividade fora daquela ditada pelo capitalismo e seus instrumentos coercitivos como a mídia televisiva seqüelada. Logo ele diz uma frase. E no auge de sua limitação moral burguesa tem Público como contrário de sua realidade privada. Privada não só em casas fechada por altos muros, mas porque não consegue perceber Público como Povo. Então só lhe resta entender Público em sentido pejorativo.

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MÍDIA E CORRUPÇÃO: TUDO A VER

A mídia golpista/seqüelada toma por corrupção qualquer desvio da conduta constituída que ofenda ou ponha em risco a moral de classe, os bons costumes e a inabalável retidão dos seus iguais. Daí as mentiras, os subornos, as depravações, o desrespeito ao próximo, as injúrias, brigas públicas, acusações infundadas praticadas por políticos profissionais, como assassinatos, roubos, tráfico de drogas, catástrofes, traições, dilemas familiares e outras tristezas servirem de conteúdo para a programação das variadas, mas iguais, mídias. É se alimentando da dor que a mídia se torna aquela que pratica, exige e dá o exemplo do que é ser correto, sério, digno, humano e justo. A mídia descansa, portanto, tranqüila, no leito da retidão, pois luta contra a corrupção. Então porque não reforçar esta luta inventando estas tristezas, acusando sem provas, noticiando vaziamente, informando pela desinformação, construindo factóides, escondendo os fatos, não analisando os acontecimentos, reproduzindo notícias sem critérios, sendo parcial, inventando matérias, enfim, sempre em busca do “furo” que fundamente suas fraudes midiáticas. Sempre à frente (embora com a audiência em baixa) a Rede Globo vai mais longe. Ela é a parceira oficial da campanha “O que você tem a ver com a corrupção?”, que será lançada nacionalmente no dia 16 deste mês. Bem que a Globo entende de corrupção. Só para ficarmos em alguns exemplos: foi parceira da ditadura militar, a tentativa de fraudar as eleições de 1982 no Rio de Janeiro para prejudicar Leonel Brizola, suas omissões e recusas em transmitir as campanhas das Diretas Já, em 1984, a influência de Roberto Marinho na nomeação do ministro Maílson da Nóbrega, em 1988, e atualmente a condenação em primeira instância pelas acusações, sem provas, no então espetáculo midiático, o “Escândalo do Mensalão”. O que não passa pelas informações verborrágicas da mídia é que a corrupção é produzida como efeito da inércia social/política que ela própria contribui para fortificar. Se os principais objetivos da campanha são acabar com a impunidade e educar as futuras gerações para que não haja mais corrupção no Brasil, a parceria com a Rede Globo, Folha de São Paulo e outras bem servem de exemplo para sabermos o que é corrupção, tanto no sentido cristalizado-midiático como no social/político. Logo, a Globo, como toda a mídia que prefere a inércia epistemológica à criação de outras percepções que não sejam as já constituídas, tem tudo a ver com a corrupção.

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O NÍTIDO PRECONCEITO DA MÍDIA

Em um blog do jornalão Estadão de ontem, houve reforço para a homofobia e o preconceito na mídia televisiva. Em resposta a um e-meio que criticava uma cena de beijo entre dois atores e condenava o apoio do blog a cenas homossexuais na tevê, houve os seguintes esclarecimentos:

Elogiei a performance de Guilherme Weber [um dos dois atores] que está fantástico nesse papel e não a decisão da autora de mostrar um beijo entre dois homens”.

Antes deste judicativo esclarecimento, ainda houve um: “Tenho diversos amigos gays e sei o quanto sofrem por serem discriminados”.

No primeiro esclarecimento fica claro a despreocupação de uma análise política/social sobre a forma que a tevê usa o acontecimento gay em sua programação. Daí não ocorrer a percepção da relação existente entre homofobia, tevê e mercado.

Na segunda, justificando um não preconceito e uma solidariedade aos gays e aos seus sofrimentos por causa dos preconceitos, faz saltar a sabedoria popular que diz que quem muito justifica acaba se entregando.

Quanto ao conteúdo do e-meio, não se percebeu que tal conteúdo foi desencadeado como reprodução da programação da própria mídia que é criticada.

O início do texto no blog diz: “A temática gay voltou a agitar a TV”.

Não voltou, porque nunca existiu, e a volta é uma ilusão do tempo cronológico que ajusta as convenções. E tão pouco agitou a “TV”. Se na tevê não há movimento fora da realidade constituída pela lógica do mercado; logo, pelo grande capital. Não há agitação, pois não há deslocamento, desvio, fuga do já constituído.

E como poderia haver agito gay se a mídia, por mais que se esforce (equivocadamente), não consegue se aproximar do Mundo Gay. Não tem a alegria, a leveza, beleza e objetividade necessária para esse corte na superfície terrena.

E sobre o beijo: o que há de gay nisso? A boca tem sexo?

Nisto observamos que a mídia confirma sua insuficiência cognitiva, posto que esclarece seu preconceito, e o torna nítido, no momento em que tenta demonstrar que não é preconceituosa. Senão, o que são seus programas de humor decadentes homofóbicos? Os beijos nus apelativos para ganhar audiência, colocados como “beijos homossexuais”?

TV GLOBO É CONDENADA

A mídia é ávida por fazer justiça. E os telejornais tomam esta empreitada como o seu principal objetivo na sociedade. Mas como não percebem a justiça como a despersonalização dos interesses privados para que se abra um espaço público onde as opiniões possam movimentar os diversos modos de existência, acredita fazer justiça quando exige e/ou constrói culpados, manipula informações, espalha testemunhos, sejam eles certos ou duvidosos, insere palavras acusatórias em seus enunciados, faz ligações entre enunciados de violência e aqueles que quer atingir, se acredita a dona da verdade e fabrica-a. Daí que os telejornais, e em especial o Jornal Nacional, não chegarem nem próximo ao conceito de justiça do Estado de Direito que diz que algo é justo quando está atrelado à lei. Em um Estado de Direito, o que a lei prescreve é o que determina se algo é justo ou não. E quando se trata de informações que estão ligadas à formação da opinião pública, a justiça deve ter no mínimo a imparcialidade da notícia. Veja o que ocorreu com a TV Globo por causa da prática do Jornal Nacional de quanto mais comunicar menos informar; logo, mais desinformar. Texto de Venício A. de Lima no Blog do Nassif.

Esta coluna acredita na possibilidade da expansão da consciência pelas experiências autênticas que fazem soltar novas percepções, a criação de novos olhares sobre o mundo. Na alegria-estética de perceber o medium televisivo como uma violência à inteligência coletiva, contamos com a sua contribuição.

 

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OS DESENHOS ANIMADOS: A TRISTEZA NA TEVÊ

É grande a influência que a televisão exerce, atualmente, na hierarquia da mídia. E como sua programação está cada vez mais relacionada à lei do business e, conseqüentemente, à lógica do mercado, que fundamenta o ultraliberalismo que apartou a opinião (doxa/política) do espaço público de criação e alegria, a informação na tevê (e em outros veículos midiáticos) sustenta três características principais: ela deve ser fácil, rápida e divertida. A informação é produzida na televisão como uma ficção, com a função definida de distrair. Ela não surge como o esforço intelectual/material de aperceber as relações entre as pessoas, os objetos, as instituições, os espaços e seus cruzamentos a fim de se tornar um elemento constitutivo da cidadania. Ao contrário, as informações emitidas pela tevê apresentam-se como a paralisação da criação social, posto que sintetizam a realidade segundo os ditames da subjetividade capitalística. Daí ela ter que ser fácil, rápida e divertida, no claro intuito de impedir o estranhamento das imagens e da linguagem televisiva e nos conservar na empatia. É o que ocorre com os chamados desenhos animados, que tem como principal público as crianças e os adultos infantilizados.

Em 30 de abril de 1998 em Los Angeles, uma central de televisão, interrompeu sua programação infantil (uma vez que não é para crianças, mas infantilizada) para “informar” “ao vivo” um suicídio. As câmeras controladas/controladoras da mídia serva do mercado pegaram tudo: o homem ateando fogo em sua roupa e logo depois, com um fuzil, atirando em sua cabeça. A programação infantil era constituída de desenhos animados.

Este fato é contado pelo jornalista filosofante Ignácio Ramonet em seu A Tirania da Comunicação. Ele continua dizendo: “As crianças passaram portanto da violência virtual dos desenhos animados a uma das cenas realistas mais brutalmente traumatizantes”.

Os desenhos animados são fáceis, rápidos e divertidos. Pelo menos, é esta a impressão que vários tele-espectadores (que não são apenas crianças ou adolescentes) compartilham. São nestes onde muitos encontram a felicidade de se sentar e ver aqueles personagens antropomorfizados/seqüelados, que carregam com eles os signos do mundo do business e da lógica do mercado mundial. Eles demonstram sentimentos humanos padronizados, próprios da subjetividade capitalística, como: somente o mais esperto se dá bem, sensualidade sem sexo, o dinheiro como objeto de desejo, homofobia, violência gratuita, a divisão do mundo em céu e inferno, a paranóia estadunidense dos infindáveis ataques à Terra e a seu país, o ilimitado poder dos norte americanos, o estereótipo do estúpido e do imbecil, a banalização da inteligência, pornografia, propaganda ideológica, apologia ao consumo, entre outros.

O caso ocorrido em Los Angeles ilustra bem a insuficiência cognitiva da tevê, impulsionada pelo acordo latente que ela assegura com o mercado internacional. Pouco importa quem seja o tele-espectador. Ele sempre é um dado, um número cuidadosamente mensurado pela segmentaridade dura da tevê-mercado. Importa é lucrar. Se há uma preocupação por parte dos donos temporários das concessões dos canais de tevê com a divisão de horários, classificação de censuras, pesquisas de “opinião” para identificar público-alvos, é porque estas medidas são necessárias ao controle exercido pela mídia televisiva.

E os desenhos animados assumem bem este controle. Eles funcionam como coordenadas semióticas que vão impondo às crianças imagens/linguagem já prontas, constituídas. Isto dificulta a produção de imagens por parte das crianças. A criatividade e a variação contínua própria à criança, que não se encontra em uma espacialidade e temporalidade determinada por instituições e subjetividades laminadoras, vão sendo minadas pelas imagens/linguagens pré-concebidas dos desenhos animados.

No entanto, há a criança livre, que a partir de suas experiências únicas produz suas próprias imagens. A criança que está FORA do mundo duro que a tevê ajuda a conservar. A criança que preserva o seu ser como variação contínua infinita, que se metamorfoseia a cada novo contato com um modo de existência diferente. A criança que a tevê não consegue alcançar. A criança que brinca no tempo irreversível do turbilhão de criações e animações-alegres.

Enquanto a mídia televisiva se fecha em si própria, se encolhendo até os pés dos patrões do grande capital, com seus desenhos que nada animam e só conservam a tristeza, a criança joga, livremente, seu pião talhado da madeira e com ele participa dos movimentos que escapam à tristeza do mundo-adulto.

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MÍDIA: O NÃO-LUGAR DA POLÍTICA

A mídia, em geral, é uma instituição social. E como tal, estando relacionada à construção de opiniões, teria que está em reciprocidade com o que é público: criação de um espaço onde as opiniões são partículas constitutivas das composições que se dão pelos encontros dos acasos. E o que é público é político. Mas não político enquanto signo-clichê do poder que se limita a questões técnicas e burocráticas do Estado. Mas enquanto movimentação da res publica, para o bem coletivo. Ao contrário disto, pode-se perceber a mídia como um espaço de privações sociais: todos fechados ao alastramento das atividades das instituições transnacionais e ao mercado mundial. O que compromete suas informações, posto que estas sejam direcionadas de forma circunscrita às palavras de ordem do grande capital. Na mídia limitada cognitivamente, a política como criação do espaço público, não existe. Ela se assenta como o não-lugar da política. É daí que a mídia exerce boa parte de sua função de controle social. Suas enunciações não obedecem mais a interesses internos de instituições particulares (por mais que ainda tenha grande influência sobre elas), mas inclinam-se a um controle universal onde todos os veículos midiáticos, nativos e internacionais, realizam ecos da informação/padrão, onde as notícias são repetidas, segundo o seu maior grau de conservação da subjetividade capitalística.

O Caso da Renúncia de Fidel Castro

A renúncia do Presidente do Conselho de Estado e Comandante em Chefe de Cuba, Fidel Castro, ecoou na mídia seqüelada confirmando o seu estado de não-lugar político. A TV Globo, a Folha e a TV Bandeirantes, demonstrando seus laços com a direitaça internacional, continuaram taxando Fidel de ditador, assim como fazem com Hugo Chávez, por preservarem em seus países uma política que não obedece aos ditames da ordem imposta pelos Estados Unidos. Outros veículos midiáticos tiveram suas matérias (que praticamente não se diferenciavam muito umas das outras) focadas na quantidade de anos (49) em que Fidel esteve à frente da administração de Cuba o que caracteriza um discurso indireto com objetivo claro e na repercussão internacional da renúncia, dando ênfase às frases de Bush sobre a necessidade de uma transição democrática.

Escultura de

Oscar Niemeyer,

presenteada a Fidel Castro:

“Na defesa da soberania

(de Cuba) contra o monstro

imperialista”.

 

O que não pode ser discutido pela mídia reacionária foi a organização mundial que gira em torno dos Estados Unidos, de acordo com a lógica do capitalismo ordenado nas transnacionais e no mercado mundial. Por isso, não conseguiu perceber as contradições que estavam a noticiar, como as frases de Bush sobre democracia e liberdade. Fecharam as notícias sobre a renúncia de Fidel Castro nas limitadas referências que permite à mídia o uso da palavra ditador. Mas eles não compreendem um regime ditatorial para além da contagem numérica de anos. É difícil para a mídia o entendimento que um ditador é quem não consegue organizar um espaço onde as coisas passem do privado ao público a partir da necessidade de se garantir a existência da coletividade, sem privações. E mais difícil ainda é para a mídia golpista sair de sua condição de dependente da ordem mercadológica. Ela até perde em não fazer análises sobre as condições que se encontra Cuba, que poderiam oferecer um entendimento sobre o socialismo lá existente. Mas isto só se tornará possível quando a mídia for independente, livre, inteligente e democrática. Coisas que não são permitidas no império capitalista.

Esta coluna acredita na possibilidade da expansão da consciência pelas experiências autênticas que fazem soltar novas percepções, a criação de novos olhares sobre o mundo. Na alegria-estética de perceber o medium televisivo como uma violência à inteligência coletiva, contamos com a sua contribuição.

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A VIOLÊNCIA COMO METRO PADRÃO DOS TELEJORNAIS

O que é presente nos telejornais, em qualquer que seja a emissora de televisão, é a violência. Esta se conserva na escalada destes programas, definindo a redução epistemológica própria à estrutura do telejornal. Não é somente uma questão de quantidade: “quanto mais notícias sobre violência, melhor”. Ainda, não diz respeito aos altos índices de violência computados por instituições e divulgados pelos veículos de comunicação: o que validaria a justificativa que se há uma grande quantidade de notícias sobre violência é porque o país é violento. Sendo estas as opiniões dominantes e veiculadas na sociedade, outra hipótese escapa ao óbvio da mídia golpista. Trata-se, antes, de manter a violência como um metro padrão que possa se servir da violência como constante de base de relação para outras notícias. Aqui apresentamos três constantes.

Constante I: A Presença da Violência nos Telejornais

Nós vários blocos a que um telejornal dispõe, mais da metade é dedicado a notícias sobre violência. Há casos em que em dois blocos completos são direcionados a esta temática. Continuando como notícias que vão se entremeando entre outras ao longo dos outros blocos, divididas em nacionais e internacionais. Fazendo com que a violência seja o principal enunciado dos telejornais. Isto se agrava com programas que fazem parte das centrais de telejornalismo de diversas emissoras, especializados em reportagens policiais. Nestes, como nos telejornais diários, a violência é dissociada da ponte que é levantada entre o global e o local. É tratada como um assunto isolado como não fazendo parte dos acontecimentos próprios à existência e seus níveis sociais, econômicos, cognitivos, biológicos e afetivos. Menos ainda é apresentada à grande parcela de responsabilidade da mídia que, com a sua insuficiência cognitiva, reforça a violência quando veicula informações sem antes analisá-las ou até mesmo verificar suas procedências. Sempre agindo segundo interesses daqueles que garantem sua conservação financeira.

Constante II: A Relação Violência e Governo Federal

Uma notícia sobre violência, logo em seguida uma sobre alguma denúncia contra o Governo Federal. É sabido o quanto a mídia seqüelada, de fortes vínculos com a direitaça, tem se esforçado para demonstrar falhas no Governo Lula. Daí as relações entre notícias sobre violência e sobre o Governo Federal. Foram numerosos os casos. Como ilustração, podemos citar o caso de 2006, segundo turno das eleições para presidente, quando o Jornal Nacional divulgou as fotos montadas do dinheiro que estavam com os petistas Gedimar Pereira Passos e Valdebran Padilha, que seria, supostamente, utilizado para a compra de um dossiê contra o candidato ao governo do Estado de São Paulo, José Serra. Sendo que as outras emissoras divulgavam a noticia e informações sobre a queda do avião da empresa aérea Gol. Somente depois que os telejornais da Rede Globo de Televisão (RGTV) começaram a divulgar o acidente aéreo, explorando a dor dos parentes das vítimas. E, mais depois, telejornais de outras emissoras reproduziram as fotos tiradas do dinheiro. Os telejornais durante o Governo de Lula aumentam seus enunciados de violência tentando ligar este governo à hipótese de um país por demais violento por causa de uma má administração. Disto as conseqüências são um aumento abusivo do pânico que os telejornais constroem na sociedade, como foi o caso das noticias sobre a febre amarela, emitindo enunciados de violência sem nem um pouco de inteligência e as numerosas contradições que os telejornais cometem quando são obrigados a noticiar os bons índices de desenvolvimento para o país em várias áreas, proporcionados pela gestão Lula no Governo federal.

Constante III: A Violência que Evidencia a Redução Epistemológica Midiática

Os telejornais pretendem fazer da violência um problema específico para o país. Pretendem demonstrar um país em crise, que sofre de um grande mal: descaso com a justiça, com o povo, o país da impunidade. Sinal disto é quando as opiniões deixam de ser doxa, prática efetiva no espaço público onde as opiniões são instrumento de movimentação do bem público através da éris-philia, o conflito amigável, a discussão que pretende excluir da cidade as privações. E passam a ser reproduções dos enunciados midiáticos. Inclusive usando-se de pessoas-ícone famosas, que passaram por alguma situação classificada como violenta, para demonstrar a hipótese de um país violento (e surge o desespero midiático quando esta hipótese não é confirmada, como no caso da assalto a Paulinho da Viola). Monta-se daí uma cadeia de significantes que trazem a violência como um signo indissociado do estado de coisas onde se encontra e sem nenhuma relação com a constituição do controle social exercido a nível global e local. Pela redução epistemológica da mídia não passa o entendimento do que é específico. A mídia acredita ser especifico apenas o que é característica exclusiva e especial de algo: então, a violência como característica nociva exclusiva e especial da atual organização do país. Não chega a sua insuficiência cognitiva o conceito de específico como uma característica que transita pelo nocivo e o benéfico. Acreditando, irracionalmente, que usando a violência como metro padrão para todas as outras notícias, poderá mostrar sua preocupação com a sociedade e o cumprimento de seu dever cívico de realizar um serviço público, a mídia gera o terror, o pânico e a ausência de esclarecimentos sobre as razões da violência em um país, em um local, no mundo. O específico é como o “pharmakon” (fármaco/droga), é benéfico e nocivo. Quando a mídia acha estar agindo especificamente de forma benéfica, ela age nocivamente para com a existência das pessoas. O que evidencia sua perversidade e acentuada redução epistemológica.

O MEDIUM TELEVISIVO E A OPINIÃO PÚBLICA

INFORMAÇÃO E ETHOS

De onde vem a informação? Ela não tem origem ou uma raiz. Ou ainda: não é uma propriedade privada de um dono que a controla. Ela caminha à medida que faz seu caminho, atravessando os diversos canais que se constituem pelo espaço perceptivo a partir das experiências singulares e únicas, produtoras da pluralidade heterogênea. Atualização de virtuais que, sem cessar, desmancham-se a cada nova intersecção de canais. Flutuação. Queda livre que desequilibra os pólos clássicos: emissor e receptor. Variação. Encontro de diversidades. Ares, Marte e Ogum. Confronto. Batalha. Estratégia que vai tecendo os saberes no tecido social, produtor polivalente de elementos necessários à criação da opinião pública como doxa pública: materialização das composições dos corpos, criação da palavra como agente gerenciador do bem comum na cidade, salto para lá da ordem constituída que tenta frear, sem conseguir, os desejos incessantes. Alegria rejeitadora do Topos Uranos platônico. Ela é mais sofista e, sem dúvida, estoicista. Movimento. Violentamente apartada da causa primeira imóvel aristotélica. Produção espacial sensorial: objetos, coisas, ações, tudo emite, todos são receptores. Não há igualdade, posto que não haja hierarquia. Não é arborescente. Traça mapas. Onde a percepção a acha, ela não é de outro modo. É o mínimo ou o máximo de modo de ser que ela pode sustentar. Não tem ser. Não tem nada a suas costas. Não guarda segredos. Caminha no caminho que cria. Traça as linhas por onde corre na rede que constrói.

Poderíamos por um esforço de extrapolar a ordem etimológica dizer: a informação é uma in-formação, não tem forma. Ou: in-formação, são fluxos contínuos de partículas estranhas às já predominantes que são incluídas na forma, e assim, a desestrutura.

Eis o absurdo semiótico. A informação não é o que abarca uma série de signos que depois de relacionados com os seus referentes, aquilo que eles designam, tornam-se códigos, semanticamente estabelecidos, com seus sentidos bem definidos na área que irá ser requisitado. “Fora” dessa abstração vazia, não há informação. O receptor não compreende a mensagem emitida. Não faz sua interpretação, pois está sem solo significante, não tem referencial, está prestes a cair no abismo. Mas é este abismo que nos interessa. É este fora a nossa superfície, o nosso sentido. O sentido que não tem referencial, apenas é o que é enquanto é o que consegue manter no seu nível mínimo ou máximo de sua atualização.

O ethos grego também caminha por aí. Ele não surge como palavra-dicionário ou semântica com sentido restrito. Ele salta das experiências dos gregos antigos com a arte de apascentar os rebanhos (nemein) a fim de organizar, distribuir, dividir e assentar (dá morada) aos animais no pasto. Surge de uma relação direta com a terra, com a superfície, com o rasteiro. Salta da práxis de criar território que sirva de morada, habitação, onde possa haver práticas, relações entre os homens e as coisas e o meio em um espaço perceptivo. Práticas desenvolvidas em contratos que materializam uma forma de organização que mexe, desestrutura e muda a anterior. Práticas antes de regras. Regras para o bem comum. Nomos. Heráclito dizia algo como as necessidades das leis são como a necessidade da muralha. Muralha que não é apenas tijolos escalonados, mas polis: criação do espaço público, onde todos falam e todos ouvem, onde todos aparecem com os seus talentos para a criação de uma morada onde o bem comum seja necessário e as privações tenham suas forças diminuídas. Ethos não é ética (etiké) e ética não é moral. Muito menos palavras abstratas nulas, mas potencializações que se fizeram materializadas no corpus social.

Ética é o conjunto de fatores que estabelecem as práticas necessárias para a produção do bem comum. É o movimento que vai singularizando as ações dos indivíduos e as organizando dentro de um território. Isto para organizar este território. Organizar a morada em vários níveis. Atualizar os fluxos materiais e imateriais, segundo a necessidade do bem comum. Potencializar as singularidades e proporcionar processuais de singularização. Se pseudos políticos, assim como padres, pastores, professores e outros, tendem a confundir ética com moral é porque estes são conservados na tranqüilidade das prescrições ordenadas da temporalidade e espacialidade dos fóruns das subjetividades perversas como a do cristianismo (onde Cristo não é filho de Maria, mas pauliniano). Moral é o aprisionamento em regras que nascem antes da prática comunitária. Coordenadas normativas circunscritas ao íntimo de uma doutrina como a da igreja, da psicanálise, da escola, da família e do Estado. Enquanto a ética movimenta potências comunitárias para o bem comum, a moral limita-se a defender regras privadas que não alcançam o público.

Daí inferirmos que a informação caminha junto aos processuais que vão tecendo o ethos. Daí pensarmos que quando a informação é atribuída e reduzida ao seu corpo morfológico e sintático, ela tem sua força diminuída e tende a se harmonizar com o estado de coisas. Ela não cria, não produz, mas conserva, tenta se manter no estado de coisas.

É na mídia onde isto se torna notório. Nela a informação não produz uma morada onde os fluxos materiais e imateriais possam se materializar e atravessar as formas estabelecidas para perturbá-las. Nela não há disrruptura. Não há guerra. Há a harmonia tranqüila da confirmação da subjetividade capitalística que faz da palavra e da informação um signo-mercadoria, fechado em si mesmo, posto que acumula identidades.

A informação na mídia é convidada a se deitar no leito de Procusto. Ela, a informação, é adequada e sintetizada. É reduzida à moral midiática, que é a mesma do mercado capitalista. Salta daí a preocupação de percebermos até onde a informação é recolhida ao seu sentido semântico na mídia e, em especial, no telejornalismo. É desta preocupação que esta coluna continuará seu exame sobre o telejornalismo televisivo. Como a informação, enquanto despida do ethos e da ética, porém sobrecarregada de moral, encontra nas escaladas que organiza a estrutura do telejornalismo seu berço mais sereno, é nesta submídia que procuraremos agir.

Esta coluna acredita na possibilidade da expansão da consciência pelas experiências autênticas que fazem soltar novas percepções, a criação de novos olhares sobre o mundo. Na alegria-estética de perceber o medium televisivo como uma violência à inteligência coletiva, contamos com a sua contribuição.

O MEDIUM TELEVISIVO E A OPINIÃO PÚBLICA

A OUTRA VERTENTE DO TERRORISMO MIDIÁTICO

A palavra “terrorismo” tem sido usada nos últimos anos tanto pela mídia quanto pelos governos sobretudo estadunidense e aliados com um forte componente de moral de classe. Interessa dividir um mundo estupefato, em estado de choque, como sacou a filosofante Naomi Klein, e desorientado quanto a tempo e espaço vivenciais, em dois pólos facilmente identificáveis: os bons (ou “nós”), e os maus (eles, os terroristas).

O que escapa facilmente deste signo capturado pelo regime Significante Despótico do Estado capitalístico é que ele deixa de levar em conta as práticas, o modus operandi, que caracteriza e sempre caracterizou politicamente e cientificamente o terrorismo incluindo o terrorismo de Estado, praticado em ampla margem por EUA e muitos aliados, como Egito, Paquistão, Israel, dentre outros. Fato é que o Canadá, ainda que seja governado por um partido de direita, não hesitou em incluir os norte-americanos na sua lista de países que praticam o terrorismo.

Curiosamente, a mídia e estes governos procuram ocultar uma outra palavra, referente a uma prática próxima ao terrorismo: a tortura.

É sabido por quem se informa para além das ondas segmentadas da tevê e dos jornalões que os EUA praticam contumazmente a tortura em suas prisões no Iraque (Abu Ghraib é o exemplo mais conhecido), Cuba (a emblemática Guantánamo), Afeganistão, assim como praticou-a no Vietnam, nos Bálcãs, no seu quintal (podemos dizer ex-quintal?), a América Latina, em sua própria casa e em zil outros lugares. Consta que possui inclusive um serviço secreto, em estilo CIA, que seqüestra e tortura suspeitos de colaborar com os inimigos num avião, a fim de evitar as sanções internacionais, ligadas quase sempre aos territórios geopolíticos.

A mídia nesta jogada tem duas funções, uma bem clara, outra ainda difusa, mas com objetivos bem definidos e estratégias nada diferentes das usadas nos corredores e salas das já citadas prisões.

A primeira é a conhecidíssima cortina de fumaça. A criação do factóide e a ocultação do fato através do jogo de palavras, da omissão de informações que permitam a contextualização do acontecido no plano de historicidade, das trucagens de imagens e sons, fazendo com que se torne quase impossível a um videota-telespectador-leitor posicionar a notícia em relação ao seu próprio existir. Ao contrário, quando se trata de caluniar, difamar, criar uma situação inexistente a fim de prejudicar alguém, um governo ou um grupo de indivíduos, as notícias são minuciosamente construídas dentro do contexto individualista, de forma que o alvo possa adesivar o conteúdo à sua existência. Na primeira situação, o noticiário norte-americano de baixas no Iraque, bem como suas filiais mundo afora (Jornal Nacional e afins brazucas incluídos), que delimita o número de mortos diários numa enxurrada de outras palavras e num show estroboscópico de imagens. A notícia tem efeito neuroléptico. Sem possibilidade de reação. No segundo caso, a febre midiática é uma boa ilustração de como explorar o medo individualizado pode gerar resultados a curto prazo em termos de imobilização popular.

A outra vertente do terrorismo midiático é bem mais sutil.

A filial brasileira da MTV exibe na sua programação noturna um programa de uma colega estrangeira, legendado, onde um grupo de pessoas, com o objetivo de ganhar dinheiro, se submete a provas de tortura, como fazer cortes nas mãos com uma folha de papel e mergulhá-la em seguida numa solução de sal e vinagre, ou ser surrado nas nádegas com um pé-de-pato. A prova final é de inspiração Abu Ghraibiana: amarrar barbantes nos genitais e ter esse barbante violentamente puxado por outrem. E sem poder gritar. Na programação da engajada MTV brasileira (que já produziu a campanha que bem poderia ser by Boninho “ovos e tomates contra a corrupção”, e que defende ideais ambientais Greenpeaceanos), este programa é apenas mais um. Já houve quem se submetesse a cirurgias plásticas para ficar parecido com famosos, e até grupos considerados humorísticos (sic) cujo humor consistia em se colocar em situações de espancamento e outras violências auto-infligidas. A MTV brasileira, neste quesito, só tem rival na Rede TV!, com o seu anódino “Pânico”. Qual delas será a primeira a apresentar como atração principal o famoso waterboarding?

No entanto, existem formas mais sutis de tortura: humilhar, submeter as pessoas a situações vexatórias, condicionar o comportamento alheio e explorar a miséria social e existencial produzida pelos governos a fim de lucrar são formas de tortura que em nada diferem das torturas físicas, morais e psicológicas realizadas nos vôos da tortura estadunidenses. Programas de auditório estilo caldeirão, o humor estilo casseta, os programas pseudo-popularescos tipo ratinho, datena, irmãos covardes e companhia epistemologicamente limitada, Xuxa, enfim, qualquer programa televisivo ou coluna jornalística que coloque as pessoas como objeto de humilhação com o objetivo do lucro, ou que colocam as pessoas numa posição de impotência diante da sua própria condição social pode ser caracterizado como torturador.

Alguém poderia afirmar que se vive em uma sociedade civil de liberdades individuais, e que a estes participantes é dada a total livre escolha de participação ou não nestes programas. Não importa. Os meios de difusão de informações, independente se televisivos, impressos ou eletrônicos, são um serviço público, e devem ser analisados como tal. Tampouco se pode acusar telespectadores, produtores, apresentadores e participantes de sadismo. Sade buscava a libertação do corpo, não seu aprisionamento através da confirmação pelo olhar do outro (que não é outro) da condição de passividade social. Ainda, os participantes não estão limitados a um nicho social em particular. Todas as classes socioeconômicas tem seus representantes. Trata-se de uma modalidade da moral de classe, que se alimenta da dor própria e alheia para sustentar a ilusão do existir.

Mais sobre a Doutrina do Choque, aqui.

Esta coluna acredita na possibilidade da expansão da consciência pelas experiências autênticas que fazem soltar novas percepções, a criação de novos olhares sobre o mundo. Na alegria-estética de perceber o medium televisivo como uma violência à inteligência coletiva, contamos com a sua contribuição.

O MEDIUM TELEVISIVO E A OPINIÃO PÚBLICA

TELEJORNAL: QUEM OLHA QUEM?

De tanto olhar, a gente esquece que pode também ser olhado.”

(Roland Barthes)

Há noventa e nove anos os irmãos Lumière, pela Casa Lumière, demonstraram, mandando cineastas-repórteres ao mundo, que imagens de outros lugares poderiam chegar aos olhos de todos, mesmo que houvesse uma distância espacial-física a perder de vista o horizonte. Acontecimentos transformados em fatos ou meras curiosidades ocorridas em lugares distantes, a partir de então, chegavam como notícias, informações em pequenas salas de projeção onde eram exibidas ao público.

Começavam assim os chamados jornais-cinematográficos ou noticiários de actualidad, como eram chamados. As imagens trazidas de longe, postas em aparelhos (cinematógrafos) que as colocavam em movimento ou simplesmente paradas aos olhos do público, inauguravam a diminuição das distâncias geográficas no espaço e subtraiam o domínio físico temporal da regularidade início/meio/fim, uma vez que as imagens podiam ser vistas várias vezes e em ordens invertidas à maneira de quem as estivesse controlando através dos aparatos tecnológicos da época.

A nova maneira que as imagens chegavam até o público transportava os olhos para outros lugares. A distância era diminuída. A imagem, frente às testemunhas oculares, fazia com que a sensação da velocidade imperasse na percepção.

Antes do advento do aparelho televisão, já havia telejornais. Etimologicamente “jornal” vem de jornada e pode ser entendido como uma espécie de conjunto de fatos que ocorreram na jornada de um período limitado, como um dia. Daí a palavra “jornalista” ter o seu sentido etimológico de analista de um dia. Como a ação dos irmãos Lumière proporcionou que fatos, notícias e informações fossem deslocadas de seus locais de origem para olhares distantes, já se realizavam, portanto, uma análise de um dia, ou de uma jornada limitada, à distância. É o que indica a junção de tele=distância com o étimo de jornalista, jornal. Se a televisão nos sugere uma tele-visão, uma percepção visual do ao longe, os noticiários de actualidad, já realizavam este deslocamento perceptivo-visual.

Os jornais-cinematográficos, inclusive, antecipavam o que se chama hoje globalização. Eles tornavam-se telescópios do mundo, fazendo com que o lugar, o local, fosse atingido por uma série de informações e tomasse ares de totalidade. Diluía a hegemonia temporal-espacial da estagnação do acontecimento isolado. Contudo, ocorria um alastramento da informação com pequeníssimos repertórios (quantidade de informação), o que aumentava a audiência do público. A informação chegava como algo novo, uma surpresa. A própria maneira que o cinematógrafo fazia com que as imagens surgissem aos olhos realizava um corte na percepção constituída, quando apresentava imagens em planos que esquartejavam o corpo humano e colocavam imagens em movimento. Diferente da globalização hodierna que, através de um acúmulo exorbitante de informações “irradiado” pelos mass media, faz da informação um código mercadológico, onde “a informação oculta a informação” (Ignacio Ramonet), posto que sejam muitas informações, truncadas, para serem consumidas.

Se os jornais-cinematográficos tinham as informações como uma surpresa ao público, os atuais telejornais televisionados, e também suas versões na internet, fazem da informação shows, espetáculos, onde o que menos interessa é a autenticidade ou a importância social da notícia do que o impacto emocional padronizado que ela irá causar no tele-espectador.

O telejornal, em seu fascínio pelo “espetáculo do evento”, desconceitualizou a informação, imergindo-a novamente, pouco a pouco, no lodaçal do patético. Insidiosamente, estabeleceu uma espécie de nova equação informacional que poderia ser formulada desta maneira: ‘Se a emoção que vocês sentem ao ver o telejornal é verdadeira, a informação é verdadeira’”. (Ignacio Ramonet)

Os telejornais televisionados apresentam outro tipo de censura, diferente daquela que esconde, oculta, próprio dos regimes ditatoriais. Este outro tipo de censura é aberto e, ao invés de ser acionada pela escassez sistematizada de informações, opera na abundância. O intuito da grande quantidade de informação nos telejornais televisionados é não informar. A informação, quando se dá de modo que sua repercussão não se limite em um primeiro que comunica um segundo, mas pela redundância é re-passada constantemente a terceiros, de um grau a outro, justapostamente, ela impõe ordens, e todos os enunciados surgidos apenas ecoam as ordens anteriores. É a constituição da informação como palavra de ordem imposta pelos telejornais televisionados: uma abertura enorme de informações que não fazem outra coisa a não ser conservar uma subjetividade midiática pautada na truncagem da informação e invenção de factóides, próprios do Globalitarismo.

É preciso falar primeiramente aos olhos”. Era o que dizia o homem da estratégia, Bonaparte. O telejornal televisionado fala aos olhos. Sempre falou. Os olhos que, quando pensavam está descansando frente à “janela para o mundo”, se entretendo, apreciando um mundo que o estacionar significa a morte, onde a informação é veloz e em grande quantidade, onde tudo é aberto, mas também, onde “nenhuma imagem é inocente” e o signo sonoro é quase que obsoleto e serve apenas para se casar com as imagens que convém, não percebiam que, neste mundo das distâncias-próximas dos visuais e dos auditivos, eles também, eram olhados, examinados, calculados, vistos (e não ouvidos em razão do transe hipnótico que se encontram e, se muito falam, dizem o que são programados para dizer). O olho dos telejornais televisionados é o olho da harmonia do estado de coisas, o olho que garante a identidade mercado-consumidor.

Olhos encantados para uma janela aberta para o mundo, olhos olhados por uma janela que vai fechando as percepções. O telejornal televisivo expressa bem a televisão, o “telescópio doméstico”. Ele é espetáculo, show, entretenimento e informações vazias. Por isto sua escalada (a organização e distribuição das noticias) é muito parecida com a organização de filmes da indústria cinematográfica hollywoodiana. Tem um começo, um meio e um fim bem definido e sempre acabam se não com a esperança de tudo vir a dar certo um dia, com o tradicional Happy End. Ainda não há os efeitos especiais milionários produzidos nestes filmes, mas já tem seus galãs e suas musas, e quanto aos efeitos especiais, estes existem sim, não milionários e postos em fleches sucessivos e acelerados, mas feitos na velha forma truncada e dissimulada. Talvez tenha sido dessa intimidade que Berlusconi tem, não só com o telejornal, mas com toda a mídia golpista e seqüelada, que ele tenha sido inspirado para proferir a frase: “Quem não gosta de televisão não gosta da América”.

Esta coluna fará uma pesquisa sobre o telejornalismo televisivo seguindo alguns aspectos que fazem parte de sua escalada como: política profissional, violência, Verdade, estética, padronização das emoções, esporte, entre outros.

Esta coluna acredita na possibilidade da expansão da consciência pelas experiências autênticas que fazem soltar novas percepções, a criação de novos olhares sobre o mundo. Na alegria-estética de perceber o medium televisivo como uma violência à inteligência coletiva, contamos com a sua contribuição.

O MEDIUM TELEVISIVO E A OPINIÃO PÚBLICA

O DESESPERO DE BONINHO É O DESESPERO DA GLOBO

Há quem diga que quando o desespero ganha grandes proporções ele toma conta do indivíduo fazendo com que a raiva o domine. O desespero é convertido em raiva e esta, por sua vez, é jogada contra aqueles que menos estão envolvidos nas razões da construção do desespero. Isto ficou provado com a reunião que o diretor do programa Mais Você, da TV Globo, fez com a sua equipe. A reunião transcorreu aos berros de Boninho, que exigiu de sua produção aumento na audiência do com-o-pé-na-cova-programa. Boninho, em sua tentativa de colar na produção do programa a culpa pelos baixos índices de audiência, só esclareceu mais ainda a evidente queda de ibope que a TV Globo vem sofrendo. A raiva de boninho é apenas uma ilha de angústia em um oceano de desespero que a TV Globo vem se afogando.

Boninho foi convocado para ser o diretor do Mais Você como tentativa de impedir que ele se junte aos Programas Sem Audiência (PSA) que se tornaram constantes na TV Globo. Ledo engano da emissora! O programa continua com expressiva queda na audiência, antes perdendo para o Hoje em Dia e, atualmente, para o Fala Brasil, ambos programas da Record. Boninho não está conseguindo pôr os paus de escora na estrutura da Globo, que despenca.

O programa Mais Você funciona no melhor formato Globo: dentro da obviedade e do entretenimento medíocre inútil. Apelação descarada às emoções padronizadas mescladas com uma culinária estúpida, posto que não cria, através dos encontros das substância alimentícias, composições para além dos sabores já constituídos. Com tal estrutura, os baixos índices de audiência do programa não se configuram como um problema isolado para a TV Globo, ao contrário, demonstra que, como bem disse a ex-rainha dos baixinhos e a atual bruxa dos baixíssimos índices de audiência, Xuxa, é toda a rede Globo de Televisão (RGTV) que está estagnada no mercado midiático. Desespero. É a palavra que pode se aproximar da situação que a RGTV nunca antes na história da televisão brasileira poderia se imaginar. E é por esta razão que ela se vê agora próxima ao buraco televisivo, que é acumular PSA. Para a RGTV, o império midiático sempre foi seu. A emissora com os mais altos índices de audiência, os atores-mercadoria mais cobiçados pelo mercado midiático, os programas (em todos os gêneros) mais elogiados e uma total abrangência nacional, que fazia com que o seu sinal estivesse em todas as regiões do país. Seu mundo era fechado em si mesmo. Seus donos (a família Marinho), sempre envolvidos na política-profissional, influenciando decisões até mesmo no mais alto cargo executivo do país. Tudo girava ao seu redor, até o globo terrestre lhe pertence. O desespero começou quando a fantasia foi se diluindo. Começaram a aparecer as baixas de audiência, seus atores-mercadoria começaram a ser comercializados por outras emissoras, os programas já não são os melhores (em todos os gêneros), seu sinal agora tem uma concorrência acirrada e sua influência na política-profissional atualmente se resume a acompanhar o desespero da direitaça, bem caracterizado em FHC, diante do trabalho do Governo Lula, o que ficou claro nas desesperadas e inúteis tentativas de corromper as duas campanhas Lula.

Boninho pode berrar, pode gritar, chorar, rodar a baiana, puxar com força e gemer, que não adianta. Sua ‘desesperação’ demonstrou que nem sequer a raiva é criação sua, posto que seja efeito da diluição da fantasia global. Nem seus gritos são autênticos, nem o desespero é seu, nada lhe pertence neste ato, tudo faz parte da dor de não mais poder continuar na fantasia de se querer o maior, o melhor.

Contudo, a globo teve um acerto quando direcionou Boninho para o Mais Você. Ele tem familiaridade com a culinária estúpida do programa. Quando o assunto é fazer da comida um elemento de demonstração de insuficiência intelectual e agir como um filhinho de papai que tudo pode, Boninho é o melhor indicado. Não foi isto que ele demonstrou ano passado no Vídeo dos ovos? Boninho, Luiz Eduardo (neto de Brizola), Narcisa Tamborindeguy (socialyte) e Bruno Chateaubriand (apresentador do Viva a Noite), jogavam ovos de cima de um edifício nas pessoas que lá embaixo passavam na rua. Como na semiótica midiática-mercadológica todos são iguais, boninho e sua turma podem apresentar o Mais Você junto com Ana Maria Braga, e, em vez de irem para baixo da mesa fazendo caras e bocas, tudo parte da culinária estúpida que tenta dar ao público a impressão de que a comida está gostosa, Boninho e companhia jogariam a comida. Ora, onde reina a estupidez, nunca se têm estúpidos demais!

Esta coluna acredita na possibilidade da expansão da consciência pelas experiências autênticas que fazem soltar novas percepções, a criação de novos olhares sobre o mundo. Na alegria-estética de perceber o medium televisivo como uma violência à inteligência coletiva, contamos com a sua contribuição.

O MEDIUM TELEVISIVO E A OPINIÃO PÚBLICA

PANEGÍRICO PROMOCIONAL DA RGTV

Dos Conceitos

& Panegírico. Do grego panegyrichós. Denota discurso que profere elogio, apologia, ou louvor à algo.

& Promocional. Do latim promotione. Ato de promover, acesso, elevação a cargo ou categoria superior. Tratando-se de questões de mercado indica uma “ação comercial que visa a divulgação e venda de um novo produto ou o escoamento de mercadoria”.

Quando Promover e Elogiar são Necessários

Sendo a estrutura do médium televisivo independente de seus conteúdos programáticos, propriamente um elemento ativo da economia de mercado, tudo que se apresente nela passa a se constituir como mercadoria dentro da lógica do capital, seja um produto que se apresente vendável a partir de um comercial ou uma pessoa, um objeto, um gesto, uma fala ou expressão que apareça em algum programa, logo ele é capturado como signo televisivo-mercadoria. Portanto, comercialmente, ele precisa ser divulgado, difundido e mostrado como algo separado de seu status natural (a maneira que surge no mundo) e adquirir a forma a qual a tevê, enquanto fabricante de produtos para o mercado, achar necessária. É isto uma prática comum a todas as emissoras que forjam programas para promover seus modelos-produtos. Tal prática é inerente à lógica capitalista que não pretende o acúmulo do capital (entesouramento), mas ao contrário, sua veiculação constante e sua tendência a conservar modos de existência que estejam de acordo com a produção de sua subjetividade. E, no caso do médium televiso, a veiculação é de informações vazias, comportamentos, posturas e rostos que impeçam novas percepções. Daí o ato de expor seus produtos televisivos, promovendo e elogiando a si próprio, serem característicos a todos os canais de televisão. Mas daí, também, as redes de televisão não pensarem (se é que isto é possível!) uma só vez quando o que elas necessitam é expurgar o produto que já não rende audiência, ibope, de sua programação mercadologicamente calculada.

Quando Vamos Mal na Televisão… É Porque não Estamos Só

Apareceu na televisão, deu audiência, não importa como e porquê, então vendemos, porque lucramos. Então o óbvio: se o produto está demostrando um malbaratar para a rede de televisão, expurgamo-o. Este foi o caso da ex-rainha Xuxa, deposta pelo seu pretenso povo-público. Perdeu seu programa semanal, porque os níveis de audiência deste não estavam mais alcançando os antigos pontos positivos, e foi rebaixada para um programa que só vai ao ar aos sábados. Poderíamos dizer que agora a infantilidade mediática terá apenas um dia durante a semana? Estaríamos enganados se assim fizéssemos. Toda a programação televisiva é infantilizante. E nisto não há disputa entre as redes de TV (como não há em nada no médium televisivo, pois entre iguais não há disputa), pois todas alicerçam suas programações nisso, e nunca se preocuparam com a potência criadora que a criança movimenta ludicamente. Mas Xuxa, buscando o fio tênue de inteligência que a ex-realeza mediática pode lhe oferecer, abriu a boca para além de suas pronúncias abjetas programadas: não é somente a audiência de seu programa que está despencando, é a audiência de toda a Rede Globo de Televisão (RGTV) que desce morro abaixo. Sinal de coragem? Acreditamos que não. Tratando-se de produtos midiáticos, a coragem é desnecessária. Ela talvez tenha percebido que seu reinado na RGTV começa a ter um fim e inicia a tentativa de passar de um produto pertencente a RGTV, e procura outras emissoras para galgar outros reinados. Mas isto é o seu contrato, seu empresário, suas “qualidades” como produto-mediático que irão dizer.

Um Conto de Fadas às Avessas

Quando se é rainha, tudo é uma maravilha e tudo pode acontecer. E quando se é rainha no reino ordinário da mídia, o lugar do “tudo pode acontecer” é os programas que derramam o panegírico promocional televisivo. Que a RGTV está cheia destes programas isto é sabido por todos; no entanto, trataremos aqui (outros programas com esta mesma característica da RGTV, serão temas de novos textos nesta coluna) de um em especial, por ser aquele responsável pela promoção dos produtos-mediáticos da RGTV mais dedicado: o Domingão do Faustão. Este programa se resume em fazer a auto-promoção da RGTV. Nele, funcionários-atores da Globo aparecem para serem exaltados como modelos em suas áreas de atuação, na sua vida com os amigos de profissão e na sua vida intima e familiar. No último programa do ano de 2007, este programa realizou uma programação voltada para a premiação de pessoas que se destacaram em áreas artísticas, jornalisticas, musicais, entre outras. O caso é que toda a premiação estava fechada na apologia e elogio da programação da RGTV: os indicados aos prêmios foram escolhidos por funcionários da RGTV, na grande maioria os premiados pertencem à RGTV, Fátima Benardes, apresentadora, ao lado de seu marido BonnerSimpson, do telejornal Jornal Nacional, foi ganhadora desta edição do prêmio e de todas as outras anteriores; a grande homenageada do programa foi Glória Pires, que começou sua carreira de atriz-televisiva na RGTV, onde seu pai já era funcionário e o troféu, feito por Hans Donner, mostrava uma pessoa em pose de acensão, com os braços erguidos, com a cabeça levantada para o céu, segurando nas mão o símbolo maior da RGTV, seu logotipo que mistura um globo terrestre e a tela de uma televisão. Pois bem, muitos apareceram, todos sendo ligados à programação da RGTV, mesmo aqueles que não tem diretamente vínculos com a rede, como é o caso de grupos musicais (o que não é o caso da cantora Ivete Sangalo, que até já apresenta programas na emissora em questão), mas algo não ocorreu: não houve premiação para melhor programa direcionado ao público infantil (como a TV bem classifica). Nem a ex-rainha dos baixinhos apareceu. Geralmente os contos de fada são estórias onde a plebéia se torna princesa; no caso de Xuxa, ele se inverteu. Xuxa não teve o panegírico promocional ao seu lado, não ouviu os elogios do apresentador Fausto Silva, sempre dedicado ao exagero. Não foi rainha. Não apareceu. É certo que teve seu programa especial de natal, mas o que se transforma tradicional na mídia é enquanto é visto como recurso rentável. Xuxa caiu de rainha cinco dias por semana para apresentadora de programa para adolescentes somente aos sábados. No lugar do seu programa ficou um chamado TV Globinho, que traz três curiosidades: a primeira, que foi feito uma inversão de horário. Este programa ia ao ar somente aos sábados e agora fica no horário do antigo programa da antiga rainha e esta vai para os dias de sábado; segunda, que a troca não é somente de horário, mas também de conteúdo, se no ex programa de Xuxa, esta falava aos tele-espectadores em vários blocos, na TV Globinho a grande atração são os desenhos animados; terceira, o título do programa de Xuxa era TV Xuxa, ou seja, uma TV dela, agora é TV Globinho. Será uma tentativa de capturar com maior força os baixinhos que a ex-rainha não conseguiu cooptar diretamente para a subjetividade mercadológica da RGTV? Mas isto já é feito há muito tempo, com ou sem Xuxa. O fato é que a ex-rainha começa a andar nos horários plebeus da seqüelada mídia. Toda via, continua na promoção televisiva, pois se não está sendo divulgada como antes, agora está sendo escoada para outros recantos mediáticos-globotários.

Esta coluna acredita na possibilidade da expansão da consciência pelas experiências autênticas que fazem soltar novas percepções, a criação de novos olhares sobre o mundo. Na alegria-estética de perceber o medium televisivo como uma violência à inteligência coletiva, contamos com a sua contribuição.

O MEDIUM TELEVISIVO E A OPINIÃO PÚBLICA

DA AFETIVIDADE À ECONOMIA NATALINA FANTÁSTICA

Dos Conceitos

& Fantástico. Do grego phantastikós. Enquanto adjetivo, pode ser algo criado pela fantasia, fictício ou falso; mas seu sentido mais usado é como qualidade que identifica algo fora do comum, algo extraordinário.

Fantástico: um programa ordinário

Fantástico é o nome que a “Revista Eletrônica” da Rede Globo de Televisão (RGTV), que é transmitida aos domingos recebe. A escalada (organização e distribuição das notícias ao longo do programa) deste programa dominical faz com que o significado da palavra “fantástico” se esvazie e se torne um signo capturado pela subjetividade lingüística capitalística. Veiculada como signo representativo da forma de informar e comunicar peculiar a RGTV (manter a comunicação/informação como elemento de falseamento da efetividade da realidade, impotencializando a ação dos tele-espectadores), a palavra “fantástico” adentra no escalonamento de significantes ordinários próprios à não informação do médium televisivo. Todas as notícias veiculadas por este programa não escapam do estado comum da ordem estabelecida, ele inscreve em seu corpo comunicacional a freqüência do cotidiano preso à redundância. Suas noticias não causam a informação como criação do novo no mundo, mas adesiva todo o ordinário (o que é habitual, comum, dentro da ordem, mediano) à sua estrutura de programa televisivo.

O Natal Ordinário do Programa Fantástico

Entre as notícias que formaram a programação do Fantástico no último domingo, em sua edição especial de natal, famílias que estavam distantes de seus familiares de diferentes estados brasileiros apareciam para comunicar palavras de afeto e desejar um feliz natal àqueles queridos por eles e física-geograficamente separados. A câmera focalizava a pessoa ou família que emitia a mensagem natalina, que só era interrompida pelos pronunciamentos do repórter que indicava local e o horário que estes espaços que serviam de cenário para a reportagem estariam funcionando. Estes locais eram os principais shoppings das cidades da reportagem. Ao fundo das pessoas as imagens eram de enfeites natalinos, dos presentes e das lojas. O programa dominical da RGTV uniu o afeto típico ao significado do natal com os recursos econômicos próprios à data simbólica que é o natal. As famílias (visivelmente de classe média alta) dispunham de suas emoções à medida que o programa realizava o significante econômico natalino. Mesmo havendo outras reportagens neste mesmo programa que esperavam explorar o afeto natalino, o que vigorou foi o signo econômico do natal como uma data benéfica ao Mercado. As próprias emoções se tornaram mercadoria quando as famílias ligavam suas falas a compras de presentes, tendo como fundo um dos principais símbolos do capitalismo e do ultraliberalismo global: o shopping.

Esta prática é comum ao médium televisivo. Ele impõe a informação dentro dos modelos da economia de mercado e assim faz com que o significado de palavras e ações seja reduzido à imposição da ordem que exige o ordinário como elemento necessário para a conservação das emoções e da passividade televisiva.

Sendo a televisão uma estrutura propriamente ordinária, como ela haveria de entender o natal para além da data simbólica estipulada cronologicamente? Como ela haveria de compreender que quando Jesus, filho de Maria e do operário José, nasce, o que é anunciado não é o nascimento do salvador, mas a de uma criança no mundo, no meio de nós, pois é o nascimento do Novo?

Esta coluna acredita na possibilidade da expansão da consciência pelas experiências autênticas que fazem soltar novas percepções, a criação de novos olhares sobre o mundo. Na alegria-estética de perceber o medium televisivo como uma violência à inteligência coletiva, contamos com a sua contribuição.

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VIRTUALIZAÇÕES DESEJANTES DA AFIN

Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

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