“O sonho que ele acalentava era ver o médico, pois com todo aquele tempo de espera ele nunca tinha visto um médico durante toda sua vida de porta de hospital e ele precisava ver como era um médico.”
Este blog reproduz abaixo depoimento-denúncia feito por um pai, membro da Associação Filosofia Itinerante de um desatendimento médico no Pronto Socorro da Criança mais conhecido como Joãozinho, que não é o sambista Trinta.
Relata o pai que não bastasse a epidemia de dengue, viroses que lotam hospitais na cidade de Manaus e Tefé no Amazonas, os cidadãos tem que conviver com a irresponsabilidade de alguns profissionais escalados para plantões, ganhando fortunas, mas que não aparecem para trabalhar.
Na tarde/noite do dia 02 de março de 2011, seu filho, KI, de 08 anos brincava com outras crianças quando caiu e bateu a cabeça. Horas depois começou vomitar, apresentar moleza e sonolência. A mãe procurou a emergência do referido hospital e foi atendida pelo neurologista de plantão, que, diante do quadro da criança, recomendou fazer um raio x da cabeça, internação para que ficasse em observação, receitou soro e às 07h do dia 03 seria avaliado por outro plantonista.
O hospital estava lotado de crianças internadas. Havia crianças sentadas e deitadas em cadeiras desconfortáveis, nos braços de cansadas mães, outras em camas, nos corredores. KI alojou-se numa maca de emergência e a qualquer hora poderia ser desalojado. Fomos às cadeiras às 07h, porque ia iniciar os atendimentos de emergência.
Por volta das 02h20min da madrugada o pai da criança substituiu a mãe para que esta providenciasse a documentação para o funeral de seu genitor falecido às 01h40min daquela madrugada em sua residência.
“Como todo doente é irmão”, o pai conversava com outras mães sobre as péssimas condições de desconforto hospitalar. Indagando sobre o horário da troca de plantão, uma das mães falou que era 07h, mas que só seriam atendidos por volta das 09h. Isso preocupou o pai por dois motivos: o primeiro que a criança, por tratar-se de batida na cabeça, precisava ser avaliada e, segundo, por ter que estar às 12h num outro órgão do Estado.
Às 07h iniciou a troca de plantão. Além de KI havia outra criança acompanhada da mãe que necessitava de uma receita de remédio controlado porque sua filha estava com sequelas de meningite e tinha hora marcada para tomar.
O relógio passou das 08h, deu 09h e o vaticínio do Oráculo de Delfos daquela mãe dito na madrugada se confirmava e não confirmava. Não fomos atendidos às 09h.
Diante da situação, o pai de KI resolveu reclamar da irresponsabilidade do médico. Foi ao balcão de serviços e protestou. Enfermeiras(os), médicas solicitaram que procurasse a enfermeira chefe, Márcia. O pai não a viu, segundo seu depoimento-denúncia como uma chefa, uma líder, pois demonstrou incapacidade de encarar um neurologista da internação para ir pedir a receita para a criança que precisava tomar o remédio controlado. A enfermeira pediu que a mãe fosse e a mãe insistia que era a enfermeira que teria que ir lá com ele, pois a mãe havia conversado no corredor com o neurologista, por sinal, senhor de si, importante, nem parecia um médico, “porque um médico não é como um homem qualquer, se ele fosse um homem qualquer ele não seria médico, um médico deve ter alguma coisa superior e que é por isso que ele não aparece”, lembra o pai de KI de parte de um texto da peça Saúde, Doutor!, de 1998. A mãe conseguiu a receita depois de muito vai não vai. E ficava KI na expectativa da avaliação por um ser que não se sabia de sua existência.
Depois dos protestos do pai de KI, chamaram o neurologista de plantão pelo serviço de som, mas necas, disse o pai. A próxima a ser procurada foi a Assistente Social, mas também, como a enfermeira-chefe, não demonstrou autonomia, iniciativa para resolver a questão. Disse que o médico poderia estar no Hospital João Lúcio ou na Internação. O pai protestou que não estava correto, porque se era plantão de emergência era para estar na emergência, e se estava em locais onde em hipótese alegava era uma prova de que faltava médico para atender o povo.
Como nem a enfermeira-chefe, nem a Assistente Social resolveram a questão, o pai procurou a direção do hospital, que pediu um tempo e que daria uma resposta. Passados vinte minutos, a decisão estava tomada. Telefonaram para a Cooperativa do faltoso e colocariam falta no seu plantão.
Por volta de 11h15min, a direção solicitou que o neurologista acima apresentado atendesse KI, atendimento que ocorreu em menos de um minuto. O médico olhou o raio X, passou visto no prontuário e liberou a criança. Sequer indagou algo de K ou tocou na criança.
Essa situação é uma marca do péssimo atendimento médico-hospitalar no Estado do Amazonas. Se Pablo Picasso tivesse vivo poderia muito bem retratar a dor, o desespero como fez no quadro Guernica por ocasião do bombardeio dessa cidade durante a guerra civil espanhola ocorrida entre 1936 e 1939. Como Pablo vive doutra forma, diz o pai de KI, nos encarregamos de retratar esse quatro pela prosa. Prosa comprometida, porque são 30 anos de descaso com educação, habitação, saneamento, transporte e doenças dentre outros serviços de responsabilidade do Estado do Amazonas.
A questão das doenças virou caso mais sério porque se chegou ao ponto de não haver mais quase médicos do Estado, pois tudo agora vem se tornando um monopólio de Cooperativas que exploram, chantageiam, ameaçam com greve o governo em troca de aumento salarial, aumento para plantonistas, que, como o escalado para trabalhar no dia 03/03/11, não comparecem na emergência, colocando em risco a vida de pacientes.
Nas encenações do Teatro-Existência
Para concluir, o pai de KI relembrou da peça Saúde, Doutor! apresentada em Manaus, pelo pessoal do então Teatro Cabocão, hoje Teatro Maquínico da AFIN, que em forma de farsa satirizava o sistema de tratamento médico hospitalar de doenças no Amazonas e no Brasil, e dentre um dos quadros havia um diálogo entre dois personagens doentes que aguardavam atendimento médico. “Um falava que estava na fila há vários anos, cheio de doenças e que as doenças eram sua felicidade. Que se aposentara por tempo de espera para ser atendido por um médico. Que ele conhecia todo mundo do hospital, os médicos, enfermeiros inclusive nomeava-os. Que conhecia os doentes que estavam lá dentro e os que estavam fora. Os que chegaram pela primeira vez, os que chegaram pela segunda… Conhecia tudo perto do hospital. O velho do bombom, o rapaz do lanche, o cara da farmácia, a gatinha do mingau, o gordo que vendia caixão, o amarelão que vendia vela, o negão que vendia veneno. Com todo esse conhecimento e tempo de espera, o outro paciente perguntava para ele: “E porque o senhor ainda não morreu?” “Porque Deus não quis, porque sou teimoso e porque tenho um sonho.” O sonho que ele acalentava era ver o médico, pois com todo aquele tempo de espera ele nunca tinha visto um médico durante toda sua vida de porta de hospital e ele precisava ver como era um médico. Depois dele relatar que um cachorro fugiu com a perna de um paciente de dentro do hospital, muito emocionado ele avisou o companheiro que o atendimento ia iniciar. Ele olha pra dentro do hospital e grita: “Lá vem o médico! Lá vem o médico! Agora eu posso morrer. Realizar meu sonho. Abraçar-me com ele. Morrer em seus braços me desfazendo em sangue, pus, catarro, mijo, merda, largando todo o couro… (Solta um grito): “Ai, ai, ai, que dor. Eu não posso morrer agora. Ele tá chegando. Quase chegando. Quase…” (Cai morto) No outro quadro da peça um Terceiro doente explica a morte do paciente. “No dia que chegou a vez dele ser atendido ele estava muito feliz, ia ver o médico. Aí o homem de branco apareceu. Era o médico. (Cortando): “Ele realizou o sonho.” “Não.” “Não? O homem de branco não era o médico.” “Não era médico?” “Não. Era um acadêmico. Um estudante. Eu descobri depois.”
Assim caminha o não atendimento médico hospitalar no Estado do Amazonas. Que este relato-denúncia promova novas tomadas de decisões por parte do povo que muitas vezes se sente impotente diante do descaso com que são tratados pelo poder público de nosso Estado.
Leitores Intempestivos