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Mobilizações de maio serão decisivas, dizem Negri e Cocco

“No curto prazo, o mês de maio já se apresenta como um momento decisivo para sabermos se vamos poder contar com uma possível nova fase constituinte de lutas, depois daquela que conhecemos no ano passado. Muito depende de como o Primeiro de Maio organizado pelos “occupy” nos EUA e a mobilização global dos dias 12 e 15 de maio acontecerão. A grande questão é saber se o 15M e as redes sindicais conseguirão se encontrar num terreno não corporativo”, defendem Antonio Negri e Giuseppe Cocco em entrevista concedida na Espanha, onde ocorrerá esta semana o Seminário Internacional Crise da Representação e os Desafios da Democracia no século XXI.

Redação

Madri – No momento em que o movimento de contestação popular democrática 15M, também chamado de movimento dos indignados, completa um ano, o Governo do Estado do RS vai até a Espanha para apresentar seu sistema de participação cidadã. O Seminário Internacional Crise da Representação e os Desafios da Democracia no século XXI vai reunir pensadores, ativistas, representantes de sindicatos e governos para analisar experiências e soluções encontradas em várias partes do mundo, nos dias 4 e 5 de maio, na sede da Comissão Europeia, em Madri.

Nesta entrevista, Antonio Negri e Giuseppe Cocco traçam um panorama das mudanças provocadas por movimentos como o 15M, a crise da democracia nos países europeus e o papel que os países do sul podem desempenhar na busca por novos modelos de democracia, com novos canais e espaços de participação popular.

Antonio Negri, filósofo italiano, é professor titular aposentado da Universidade de Pádua (Itália) e professor de filosofia do Colégio Internacional de Paris (França). Entre outras obras, escreveu, em parceria com Michael Hardt, os livros “Império” e “Multidão”. Giuseppe Cocco, cientista político, doutor em história social pela Universidade de Paris, é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Entre outras obras, escreveu, com Antonio Negri, o livro “Glob(AL): Biopoder e Luta em uma América Latina Globalizada”.

Depois de um ano do início do movimento 15M, qual a força de mobilização e capacidade de renovação dos protestos?

Antonio Negri e Giuseppe Cocco: Uma boa maneira de se responder a essa pergunta é começando por uma definição adequada do que é o 15M, ou seja, o movimento da multidão na Espanha do ano passado. Uma primeira definição é muito simples: trata-se de um formidável processo de (re)apropriação da política por milhares de pessoas. Esses milhares de pessoas não se reúnem a partir de alguma identidade prévia (por exemplo, a condição objetiva dentro da divisão técnica e social do trabalho), mas se constituem como uma multidão de singularidades (a classe que nós podemos enxergar nessas lutas é uma produção de subjetividade).

Usando as palavras de Raúl Sanchez, podemos definir o 15M e as primaveras árabes também como movimentos de revolução democrática: inventores de democracia e radicalizadores da democracia. A invenção da democracia acontece na sua radicalização: na imanência que contém a forma e o conteúdo dessas lutas. Hoje o 15M está chegando a um ano de existência e se constitui como que um prisma a partir do qual se pode olhar para os movimentos que o anteciparam (a primavera árabe) e para os que o seguiram (o occupy wall street). Seu horizonte é o da sua globalização!

Os protestos e as mobilizações nunca pararam e continuaram a se propagar de maneira viral: atravessaram o Mediterrâneo até as praças de Tel Aviv, e depois atravessaram o Atlântico no Occupy Wall Street (que, por sua vez, teve como referência as longas manifestações na Assembléia Estadual em Wisconsin), generalizando-se em dezenas de cidades dos Estados Unidos, de costa a costa; depois disso, as lutas voltaram para a Praça Tahrir no Egito e para a Praça Syntagma de Atenas. No dia 15 de outubro do ano passado as manifestações foram globais e chegaram também ao Brasil (embora de maneira ainda embrionária).

Os contextos de cada um desses movimentos foram muito diferente e em nenhum deles se repetiu o que acontecia em outro lugar. Contudo, cada um deles conseguiu traduzir para a sua singularidade alguns elementos comuns. Como dissemos, esses movimentos desenvolveram-se numa “forma multidão”, algo como um “fazer-se da multidão”: frequentes assembléias e decisões participativas. As mídias sociais (como Facebook e Twitter) foram instrumentos de rede: evidentemente, elas não criam os movimentos, mas são ferramentas úteis, porque, em vários sentidos, correspondem à estrutura dos experimentos horizontais e democráticos dos próprios movimentos. Em outras palavras, o Twitter é útil, não porque divulga eventos, mas porque reúne as ideias de uma grande assembléia para uma decisão específica, em tempo real. Na rede, em seus códigos e protocolos, reside o mecanismo de ativação e modulação de um movimento que funciona como um enxame.

Assim, o movimento espanhol se constituiu numa primeira e potente resposta às consequências políticas e sociais da crise sistêmica do capitalismo global. Nesse sentido, ele herdou e requalificou os protestos da multidão grega, articulando a “recusa a pagar” pela crise do neoliberalismo com uma capacidade de mobilização autônoma e horizontal de tipo novo e constituinte, fortemente inspirada na relação estreita que as revoluções árabes estabeleceram entre as mídias sociais e as praças.

Além disso, o 15M foi também a invenção de uma zona de mobilização autônoma diante do impasse gerado pela gestão totalitária que o governo socialista espanhol optou por fazer da crise, obedecendo passivamente às medidas impostas pelas finanças, pela União Européia e agências de rating. O PSOE de Zapatero esvaziou totalmente o terreno da representação como possível espaço de negociação e acabou transformando a anunciada vitória da direita neofranquista em um verdadeiro pesadelo: sem alternativas.

Na impossibilidade de apelar para um voto reformista ou até simplesmente “útil” (pois teria significado aceitar e legitimar a chantagem da gestão antissocial e antidemocrática da crise implementada pelo PSOE a partir da ditadura das finanças) o movimento foi a única brecha encontrada; e podemos dizer ainda que um de seus grandes resultados foi o de esvaziar antecipadamente a legitimidade da vitória eleitoral da direita. Contudo, o movimento enfrenta hoje dois desafios: um primeiro – de tipo geral – é renovar-se nas mobilizações de rua e com isso avançar no terreno da luta contra a crise; um segundo – mais especifico – é conseguir inovar nas formas de mobilização, agora que a representação (o governo) se apresenta como aberta regressão reacionária e os espaços de manifestação democrática são submetidos à chantagem da repressão e da violência.

De maneira um pouco mais geral, a questão que se coloca hoje é de saber se esses protestos e mobilizações conseguirão continuar suas lutas com uma capacidade adequada de inovação. Podemos então reformular a questão inicial nesses termos: a multiplicação dos protestos que já acontece e se aprofundará, além de se constituir em horizonte inevitável de toda reflexão teórica e política, pode voltar a renovar suas dimensões constituintes? As múltiplas instâncias do 15M e dos movimentos “occupy” já enfrentaram o desafio apostando na recomposição dos movimentos em dois grandes momentos: o primeiro de maio (o May Day) lançado pelo Occupy Wall Street nos Estados Unidos, e o 12 e 15 de maio lançado pelo 15M espanhol.

O 15M – enquanto movimento global – já pode também contar com mais uma inovação: a mobilização operária e sindical. Houve uma grande manifestação nacional do sindicato dos trabalhadores metalúrgicos na Itália (a FIOM) e uma greve geral (de 24 horas) na Espanha. Na Itália, os metalúrgicos protagonizaram greves espontâneas, manifestações e piquetes de rua contra a reforma trabalhista e enfim confluíram numa grande manifestação nacional no dia 9 de março de 2012. Na Espanha, as duas principais centrais sindicais (UGT e CCOO) mobilizaram um vasto protesto contra a flexibilização selvagem do mercado do trabalho, tentando inclusive se tornar o eixo de referência do conjunto da oposição social à ditadura financeira consolidada no governo de direita (do PP). A greve geral foi atravessada pela constelação de realidades dos movimentos oriundos do 15M rumo à mobilização global de 12 e 15 de maio. Nas manifestações, a multidão dos jovens precários e desempregados clamava pela apropriação da greve (Toma la huelga) para preparar uma outra greve (Otra huelga).

Ao invés de constituir uma normalização do movimento nos moldes tradicionais de organização sindical, a greve geral espanhola acabou se mestiçando nas práticas de luta dos trabalhadores que já estão fora da relação salarial e precisam de novas formas de organização e, sobretudo, de um novo programa. Apareceu com clareza o desafio de juntar a greve “geral” contra a austeridade e o endividamento com a as lutas de defesa das condições gerais de vida (biopolíticas) democrática. A questão que está colocada é, pois, como a “greve geral” saberá se tornar uma outra greve, uma resistência geral contra a chantagem da austeridade e do endividamento, rumo a um programa que tenha como base a defesa da própria vida, das bases biopolíticas da democracia: greve geral e renda universal!

Quais as possibilidades de construção de sínteses a partir dessas novas mobilizações para uma nova agenda democrática?

AN e GC: Mais do que pensar na construção de novas “sínteses”, o desafio atualmente é a renovação e a propagação dos movimentos “constituintes” e, dentro e a partir deles, de uma nova agenda democrática, de um novo “programa”, um programa da multidão. O eixo desses esforços foi definido pelos próprios movimentos: trata-se da luta para a reapropriação social de tudo que a renda financeira expropria; uma luta rumo à construção de um “novo welfare”, capaz de libertar as vidas da chantagem dos dispositivos de endividamento e das infinitas modulações dos fragmentos de inclusão-exclusão, exclusão-inclusão.

Dito de outra maneira, diante do ataque generalizado a toda produção social, a única maneira de defender o trabalho é defender a cooperação social como um todo. A defesa do “trabalho” precisa enraizar-se na defesa de toda a produção social, ou seja, da conexão das lutas por salário “dentro” da empresa com as lutas de todas as subjetividades pela renda “fora” da empresa. Sem essa conexão, as lutas são incompreensíveis e impotentes. Já temos aqui o conteúdo e a função do programa. O novo programa será adequado se souber construir essa conexão: renda incondicional, welfare universal e a apropriação dos serviços e dos bens para além da clivagem público/privado, no terreno da constituição do comum.

A gestão da crise do capitalismo global está se dando num terreno de exceção, à qual somente as dinâmicas constituintes dos movimentos de tipo novo podem responder para transformá-la em radicalização democrática. Nesse sentido, as manifestações sindicais de 9 de março na Itália e a greve geral de 29 de março na Espanha constituíram importantes momentos de generalização das lutas. No curto prazo, o mês de maio já se apresenta como um momento decisivo para sabermos se vamos poder contar com uma possível nova fase constituinte, depois daquela que conhecemos no ano passado. Muito depende de como o May Day (Primeiro de Maio) organizado pelos “occupy” nos Estados Unidos e a mobilização global dos dias 12 e 15 de maio acontecerão.

De maneira mais geral, a questão é de saber se o 15M e as redes sindicais conseguirão se encontrar num terreno não corporativo, ou seja, na construção de uma agenda adequada. E a agenda somente será adequada se houver clareza sobre o fato de que não se trata de defender (apenas) o trabalho dentro da relação salarial (dentro do emprego), mas as bases sociais gerais de um trabalho que acontece também e, sobretudo, fora da relação de emprego, envolvendo a vida como um todo: no setor terciário (serviços), nas redes sociais, na precariedade e na informalidade. Sem esta compreensão das dimensões pós-industriais do trabalho produtivo, das qualidades cognitivas da força de trabalho e, enfim, das dimensões sociais que a qualificam ao mesmo tempo em que qualificam a produção como um todo, não haverá recomposição de classe. É nesse sentido que hoje a luta é pela defesa das condições gerais de vida e implica a construção de uma nova agenda democrática a partir do tema geral da Renda de Cidadania.

Mais ainda, sindicatos e movimentos têm que construir frentes e instituições como “Bolsas de trabalho” ou “Pontos de trabalho” para poder organizar reivindicações salariais para todos: para os que têm um emprego e para os que não o têm, para os que têm um estatuto e para os que estão na precariedade, e isso passa necessariamente pela luta em prol de uma renda social incondicional. Quando a empresa se torna social, o sindicato também deve tornar-se social. Isso é de grande atualidade no Brasil! Pensemos, por exemplo, em como as lutas dos sindicatos dos professores ficam hoje limitadas e corporativas ao não conseguirem se articular com os territórios.

Sem a reconquista da riqueza socialmente produzida por meio de uma renda social universal e incondicional, a relação salarial não saberá se tornar a base constituinte de uma agenda democrática, de maior liberdade e igualdade, para superar o neoliberalismo. O salário é hoje uma ferramenta social. É por isso que o capital financeiro controla direta ou indiretamente a indústria, os serviços, o trabalho social em geral; e sua atuação é imediatamente política: por essa razão o capital ocupa diretamente os governos que, por sua vez, operam a partir das métricas, das medições (ratings) que as próprias finanças impõem. Diante da governança financeira do trabalho social, os governos se tornam órgãos de execução de seu comando direto. Assistimos a uma inversão das tradicionais relações de servilismo entre governos e capital: os ministros não são mais empregados do capital, mas são os empregados do capital que se tornam ministros.

As acampadas do 15M, do Occupy, da Praça Syntagma e também aquelas embrionárias que aconteceram no Rio de Janeiro, em São Paulo e Salvador – a partir do conflito com o capital e seu governo – estão trilhando um terreno novo, ou seja recompondo – entre as redes e as praças – as lutas operárias, as lutas por moradia, por escola, pela saúde, e vão também começando a intervir na gestão das escolas e dos hospitais, elaborando experimentações de inovação do mercado do trabalho. Trata-se mesmo de fazer isso, de reconstruir desde baixo as redes das relações sociais que hoje permitem que as empresas funcionem; apontar as contradições no plano concreto, os elos inovadores e os que destroem as redes; apreender, junto dos trabalhadores e/ou dos cidadãos, os modos de produção de subjetividade que os instauram.

A síntese que hoje faz sentido é mesmo aquela de um “estilo de militância” que associe a luta pela generalização da renda universal em todos os segmentos do trabalho social e a recomposição das lutas das forças de trabalho sociais com as lutas dos operários industriais, no terreno da constituição do comum.

Quais perspectivas podem vir do Sul, onde a tradição democrática é mais jovem, mas as experiências das novas metodologias têm sido referência, como no caso do Brasil e o Rio Grande do Sul?

AN e GC: O governo da crise sistêmica do capitalismo global se apresenta como uma “revolução desde cima”. O capital financeiro, longe de ser reduzido dentro dos marcos de regulação que supostamente deveriam restabelecer seus critérios prudenciais (conservadores!), está se mostrando não como um desvio, mas como o próprio modo de ser do capitalismo contemporâneo. Com a crise, sua ação não se reduz, mas alcança um novo patamar: depois de ter assumido o controle das redes sociais de produção, de ter substituído a relação capital–trabalho por aquela de crédito e débito, o capital financeiro se torna abertamente governo, passando por cima das próprias regras da democracia formal. É um poder de exceção que atua ao longo de duas linhas: por um lado, a redução dos governos e de todo o mecanismo da representação a meros executores técnicos das diretivas dos mercados; pelo outro, a destruição do welfare residual e com isso a destruição das próprias condições biopolíticas da democracia formal assim como a conhecemos no segundo pós-guerra.

Os governos da América do Sul se constituíram, nessa primeira década do novo milênio, numa tímida porém real contratendência: depois de ter abandonado as políticas de privatização, passaram a elaborar novas formas de proteção social (em particular, com a distribuição de renda e a valorização do salário mínimo) e algumas inovações democráticas: no Brasil podemos destacar as novas formas de participação (o orçamento participativo de Porto Alegre), as brechas de transversalidade abertas no Ministério da Cultura de Gilberto Gil, as conferências nacionais de comunicação, cultura, segurança, além de outros elementos de inovação reformista no terreno, como por exemplo, da política de cotas raciais nas universidades, de democratização do acesso ao ensino superior (Prouni e Reuni), da política indígena (como no caso da demarcação contínua da Reserva Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima).

Na Argentina, as lutas pela democracia (em particular, com as políticas de direitos humanos e os processos da ditadura) e os “planes” de distribuição de renda foram particularmente importantes. Na Bolívia e no Equador tivemos intensos momentos constituintes. Além disso, os governos da América do Sul em geral e do Brasil em particular se engajaram nos rumos de uma nova política externa que articula criativamente o governo da interdependência com a multiplicação das relações Sul-Sul (no âmbito do G20, dos Brics, da Unasul etc.).

Nesse sentido, o Sul em geral e a América do Sul em particular pode ter um papel fundamental a desempenhar dentro da crise, colocando-se como um novo ponto de referência para os movimentos, no terreno da resistência democrática e de um reformismo inovador. Agora, esse papel não é nem automático e nem está consolidado. Pelo contrário, já existem inúmeras inflexões que nos fazem pensar em uma homologação dos projetos e das políticas dentro dos valores – decadentes, mas sempre em vigor – do capitalismo global.

Na Bolívia, por exemplo, onde parecia que as relações entre movimentos e governos fossem as mais abertas e íntimas, assistimos à multiplicação de conflitos (o gazolinazo no El Alto de La Paz, a marcha indígena no Tipnis contra a estrada construída com financiamento brasileiro por uma empreiteira brasileira) que envolvem diretamente a questão dos ‘projetos’ e dos ‘sujeitos’.

A solução “estatal” das escolhas de valores parece prevalecer sobre a opção da radicalização democrática. No Brasil também, o primeiro ano do governo Dilma conseguiu fechar – com rara obtusidade – uma série de interstícios que o pragmatismo da era Lula tinha deixado acontecer: a distribuição de renda continua fechada nos limites (neoliberais) da condicionalidade, mantendo o foco numa erradicação da pobreza que mais se assemelha a uma remoção dos pobres; a experiência inovadora do MinC foi destruída e com ela todas as políticas inovadoras em termos de uma política de redes; as relações com os movimentos sociais (organizados ou não) tornaram-se praticamente nulas; o Ministério das Comunicações abriu mão do plano de banda larga para agradar aos interesses das operadoras multinacionais de telefonia; as grandes obras (como Belo Monte, os Estádios da Copa e as Olimpíadas do Rio) são implementadas segundo uma lógica autoritária que é exatamente aquela da racionalidade capitalista; um governo oriundo das forças sindicais sequer é capaz de entender as revoltas endêmicas dos operários das barragens; a regulação dos vistos para os imigrantes estrangeiros reproduz para pior as piores políticas de discriminação dos mais pobres (os haitianos e os africanos) que os países do norte aplicaram (e aplicam) contra os brasileiros.

Enfim, parece que tudo se resolve em termos de taxa de juros e de crescimento, segundo linhas de valor transcendentes; ou seja segundo os padrões de valor dominantes. Acontece que esses valores estão hoje totalmente em crise e só se reproduzem com base numa preocupante redução dos espaços democráticos.

Enfim, a questão que se coloca é mesmo de saber se o Sul – e o Brasil em particular – quer mesmo se homologar pelos valores transcendentes (e decadentes) do Norte e de seu capitalismo financeiro ou se, ao contrário, é sua alteridade radical e a sua capacidade de produzir novos valores que interessa. No cerne dessa alternativa se encontra a questão dos pobres e da classe. Por um lado, as forças residuais do movimento socialista mantêm o que de pior houve na experiência socialista, ou seja, suas dimensões positivistas e desenvolvimentistas, aquelas que estiveram na base da degeneração totalitária do stalinismo e consideram a ciência e a indústria como um prêmio da luta de classe.

Nessa tradição – teoricamente extenuada mas ideologicamente ainda ativa – os “pobres” são um estorvo, fruto da anarquia do capital, algo a ser removido pelo crescimento e pela racionalidade, de modo a transformá-los todos em operários e classe média. Por outro lado, na tradição da classe entendida como constituição e luta (o “comunismo” na definição marxiana!), a ciência e indústria não constituem nenhum prêmio, mas são o próprio terreno do conflito, rumo a outros valores. Aqui, a luta dos pobres afirma sua alteridade, ou seja, a riqueza que somente os pobres produzem, em outras palavras, uma outra riqueza, uma outra sociedade. E a alteridade dos pobres tem como sua maior riqueza a diferença, isto é, a capacidade que os pobres têm de serem índios, favelados, negros, imigrantes, mulheres etc. – esta é a riqueza do Sul.

É esta riqueza que se tornou a referência nas montanhas de Chiapas e nos Fóruns Sociais de Porto Alegre. E essa alternativa tem um terreno bastante definido: por um lado, a comemoração da emergência de uma “nova classe média”; pelo outro, o trabalho de reconhecimento do processo de constituição de uma nova classe trabalhadora.

O governo do Rio Grande do Sul pode, nesse panorama, renovar a experiência que foi a base do Fórum Social Mundial de Porto Alegre, trabalhando ao longo de dois eixos: por um lado, com a inovação das práticas de participação no terreno da mobilização política e produtiva, retomando e qualificando as políticas mais inovadoras dos governos Lula (como está sendo feito com as cotas de cor nos concursos públicos); pelo outro, se apresentando diretamente na cena global junto aos movimentos, proporcionando ocasiões de debate sobre os espaços de construção democrática, entre expressão e representação.

O governo do Rio Grande do Sul tem dois terrenos fundamentais para a experimentação democrática: a evolução das políticas sociais de distribuição de renda em direção a uma Renda Universal (experimentações que podem envolver os próprios dispositivos das políticas sociais, mas também uma nova maneira de enfrentar e dialogar com o corporativismo sindical); a democracia em rede, que a experiência inovadora do Gabinete Digital prefigura como um consistente espaço de mobilização política e de radicalização democrática.

Carta Maior

O papa e o marxismo

O papa Bento XVI tem razão: o marxismo não é mais útil. Sim, o marxismo conforme muitos na Igreja Católica o entendem: uma ideologia ateísta, que justificou os crimes de Stalin e as barbaridades da revolução cultural chinesa. Aceitar que o marxismo conforme a ótica de Ratzinger é o mesmo marxismo conforme a ótica de Marx seria como identificar catolicismo com Inquisição. Poder-se-ia dizer hoje: o catolicismo não é mais útil. Porque já não se justifica enviar mulheres tidas como bruxas à fogueira nem torturar suspeitos de heresia. Ora, felizmente o catolicismo não pode ser identificado com a Inquisição, nem com a pedofilia de padres e bispos.

Do mesmo modo, o marxismo não se confunde com os marxistas que o utilizaram para disseminar o medo, o terror, e sufocar a liberdade religiosa. Há que voltar a Marx para saber o que é marxismo; assim como há que retornar aos Evangelhos e a Jesus para saber o que é cristianismo, e a Francisco de Assis para saber o que é catolicismo.

Ao longo da história, em nome das mais belas palavras foram cometidos os mais horrendos crimes. Em nome da democracia, os EUA se apoderaram de Porto Rico e da base cubana de Guantánamo. Em nome do progresso, países da Europa Ocidental colonizaram povos africanos e deixaram ali um rastro de miséria. Em nome da liberdade, a rainha Vitória, do Reino Unido, promoveu na China a devastadora Guerra do Ópio. Em nome da paz, a Casa Branca cometeu o mais ousado e genocida ato terrorista de toda a história: as bombas atômicas sobre as populações de Hiroshima e Nagasaki. Em nome da liberdade, os EUA implantaram, em quase toda a América Latina, ditaduras sanguinárias ao longo de três décadas (1960-1980).

O marxismo é um método de análise da realidade. E, mais do que nunca, útil para se compreender a atual crise do capitalismo. O capitalismo, sim, já não é útil, pois promoveu a mais acentuada desigualdade social entre a população do mundo; apoderou-se de riquezas naturais de outros povos; desenvolveu sua face imperialista e monopolista; centrou o equilíbrio do mundo em arsenais nucleares; e disseminou a ideologia neoliberal, que reduz o ser humano a mero consumista submisso aos encantos da mercadoria.

Hoje, o capitalismo é hegemônico no mundo. E de 7 bilhões de pessoas que habitam o planeta, 4 bilhões vivem abaixo da linha da pobreza, e 1,2 bilhão padecem fome crônica. O capitalismo fracassou para 2/3 da humanidade que não têm acesso a uma vida digna. Onde o cristianismo e o marxismo falam em solidariedade, o capitalismo introduziu a competição; onde falam em cooperação, ele introduziu a concorrência; onde falam em respeito à soberania dos povos, ele introduziu a globocolonização.

A religião não é um método de análise da realidade. O marxismo não é uma religião. A luz que a fé projeta sobre a realidade é, queira ou não o Vaticano, sempre mediatizada por uma ideologia. A ideologia neoliberal, que identifica capitalismo e democracia, hoje impera na consciência de muitos cristãos e os impede de perceber que o capitalismo é intrinsecamente perverso. A Igreja Católica, muitas vezes, é conivente com o capitalismo porque este a cobre de privilégios e lhe franqueia uma liberdade que é negada, pela pobreza, a milhões de seres humanos.

Ora, já está provado que o capitalismo não assegura um futuro digno para a humanidade. Bento XVI o admitiu ao afirmar que devemos buscar novos modelos. O marxismo, ao analisar as contradições e insuficiências do capitalismo, nos abre uma porta de esperança a uma sociedade que os católicos, na celebração eucarística, caracterizam como o mundo em que todos haverão de “partilhar os bens da Terra e os frutos do trabalho humano”. A isso Marx chamou de socialismo.

O arcebispo católico de Munique, Reinhard Marx lançou, em 2011, um livro intitulado O Capital – um legado a favor da humanidade. A capa contém as mesmas cores e fontes gráficas da primeira edição de O Capital, de Karl Marx, publicada em Hamburgo, em 1867.”Marx não está morto e é preciso levá-lo a sério”, disse o prelado por ocasião do lançamento da obra. “Há que se confrontar com a obra de Karl Marx, que nos ajuda a entender as teorias da acumulação capitalista e o mercantilismo. Isso não significa deixar-se atrair pelas aberrações e atrocidades cometidas em seu nome no século 20″.

O autor do novo O Capital, nomeado cardeal por Bento XVI em novembro de 2010, qualifica de “sociais-éticos” os princípios defendidos em seu livro, critica o capitalismo neoliberal, qualifica a especulação de “selvagem” e “pecado”, e advoga que a economia precisa ser redesenhada segundo normas éticas de uma nova ordem econômica e política.”As regras do jogo devem ter qualidade ética. Nesse sentido, a doutrina social da Igreja é crítica frente ao capitalismo”, afirma o arcebispo.

O livro se inicia com uma carta de Reinhard Marx a Karl Marx, a quem chama de “querido homônimo”, falecido em 1883. Roga-lhe reconhecer agora seu equívoco quanto à inexistência de Deus. O que sugere, nas entrelinhas, que o autor do Manifesto Comunista se encontra entre os que, do outro lado da vida, desfrutam da visão beatífica de Deus.

Frei Betto é escritor e assessor de movimentos sociais

*Jornal Correio do Brasil

O ÊXODO DE JESUS PARA A VIDA

Ser um animal falante é o que faz o homem produzir para si uma nova natureza naturada, posto que rompa com a natureza naturante; e isto faz com que ele se torne responsável pelos mundos humanos construídos. Daí a transformação da natureza em múltiplos mundos políticos. O homem não apenas diz sua existência em uma coletividade, mas se faz, constitutivamente, ele próprio, um dizer para o bem comum da cidade. Homem, discurso e cidade estão imbricados como uma síntese disjuntiva. Negando a capacidade intelectiva humana de traduzir o mundo através do discurso, e assim, fazendo com que o mundo seja humanizado em uma práxis transformadora dos códigos constituídos, o homem nega sua própria existência liberada do corpus normalizado e normalizante de uma cidade de sujeitos mudos, estes que são a doença da cidade. Jesus, filho de Maria e José (ambos camponeses), não foi uma doença da cidade. Pelo contrário, fez com que a fala se agitasse como processual de inovação de um mundo com valores decadente. Assim, fez da sua existência a afirmação da mortalidade humana, percebendo a necessária importância de suas ações políticas na antecipação de sua própria impossibilidade (a morte). Acreditamos que é justamente nisso em que Jesus praticou o êxodo dos lugares de poder de sua época e coroou a afirmação da Vida contra a cultura tanática de um cristianismo doente. Jesus desertou os lugares de poder, produziu a linha de fuga, necessária, desvinculando a Vida dos buracos negros constituídos pela perversidade da lógica castradora da lei e da tradição do capital. É deste modo que percebemos Jesus como subversivo, isto é, como singularidade que não se deixou ser tomado e absorvido pela relação de dominação, onde sempre deve haver o subordinador e o subordinado. Jesus, pelo dizer, fez a si mesmo antes de falar junto da multidão. Jesus, negador da potestas (poder). Jesus, afirmador da potentia (potência). O discurso de Jesus foi e é um esforço de elucidar o discurso responsável por dissociar a violência da lei, a fé da exploração, o espírito da superstição, a Vida da morte. Tudo isto efetivando o corolário entre a Vida e o Amor Político.

Desertar os lugares de Poder

A Vida é produção. A produção não está reduzida ao ciclo de reprodução da economia política capitalística. Nesta impera a reprodução dos valores do mercado autônomo aos quais está subordinada a vida. Neste sentido, a vida deve obedecer à lógica da propriedade privada para que a liberdade, a igualdade e a fraternidade possam surgir como verdades inquestionáveis. Não é à toa que é após a revolução burguesa francesa onde o Estado de Direito vai se constituir. O Estado se funda na violência do direito a propriedade e faz da economia a base de sua estrutura regulamentar, tendo na ordem jurídica a normatividade necessária para a exploração. Deste modo, a vida em sociedade deve obedecer às leis da economia, da troca de mercadorias, capitalista, fazendo da equivalência a medida das relações de produção e das relações sócio-políticas. É necessário separar o social do político para que a economia possa exercer sua organização, pois:

“A esfera da circulação, ou seja, da troca de mercadorias, em cujos limites realiza-se a compra e a venda da força de trabalho, era um verdadeiro Éden dos direitos inatos do homem. Ali reinavam apenas a Liberdade, a Igualdade, a Propriedade e Bentham. Liberdade!- pois o comprador e o vendedor de uma mercadoria, como força de trabalho, por exemplo, são determinados apenas por suas livres vontades. Firmam o seu contrato como pessoas livres, juridicamente iguais. O contrato é o resultado final, através do qual suas vontades assumem uma expressão jurídica comum. Igualdade! – pois entram em relação recíproca somente como possuidores de mercadoria e trocam equivalente por equivalente. Propriedade!- pois cada um dispõe apenas do que é seu. Bentham- pois cada um cuida apenas de si mesmo. O único poder que os reúne e põe em relação é o próprio proveito, da vantagem pessoal, dos seus interesses privados. Exatamente porque, deste modo, cada um cuida de si e ninguém do outro, todos realizam – sob os auspícios de uma harmonia preestabelecida das coisas ou de uma providência sagaz ao extremo – tão somente a obra da vantagem recíproca, do proveito comum e do interesse geral” (Karl Marx).

Isto tudo enraizado na violência da acumulação como única forma de organização da cidade. Esta produção própria do capital é reproduzida e ecoada para os mais distantes níveis da sociedade e pretende ser o invólucro da vida. Esta produção dobra-se no real (Antonio Negri). E o Estado não se contenta em ser o único lugar desta violência, como muitos já asseveraram. O Estado não é foco de poder por excelência, o centro de toda emanação e dispersão da violência estatal e de seus aparelhos ideológicos. Em sua completa falta de natureza e essência, “O Estado não é um ponto que toma para si a responsabilidade dos outros, mas uma caixa de ressonância para todos os pontos” (Deleuze e Guattari).
E isto não significa dizer que o poder vá de um ponto a outro, de uma instituição prescritiva a outra, de um poder discricionário a outro. Há agenciamentos entre os múltiplos pontos que, constitutivamente, vão formando os lugares de poder e sua dinâmica. Há o eco, a reprodução, a caixa de ressonância que se dá como “vaso fechado”. Mas também não há apenas distribuição de poder pelos diversos lugares por onde o poder irá realizar seus exercícios, mais do que a disciplina dos corpos para que estes sejam dóceis, numerados, classificados e divididos para a produção de mais-valia, há um poder sobre a vida, esta produção pretende gerenciar a própria vida em sua dinâmica. Daí quando se falar de Estado, e principalmente de violência do estado, a necessidade de não reduzirmos as análises ao Estado como único foco de poder; e que ao derrotar o Estado poderíamos, enfim, constituir uma nova realidade. O maior perigo no Estado está na reprodução do seu discurso. Ou seja: fazer com que as singularidades sejam destruídas e que os indivíduos não se realizem no acontecimento, mas como produtos de um discurso carregado de pressuposto. Deste modo, seremos apenas sujeitos sujeitados, efeito da imagem do pensamento do Estado.

Mas, contudo, a Vida continua a ser produção. Mas agora a Vida já não é produzida no ciclo da produção capitalística, mas torna-se o processo pelo qual uma nova economia política é engendrada. A própria Vida torna-se a condição necessária da produção. Tudo emerge da atividade social que não é dissociada da política e não se reduz ao domínio do econômico (relações de troca fundamentada no direito a propriedade privada). E para que a Vida seja o devir de uma produção humana, “a chave essencial para transformar o próprio em comum” (Antonio Negri), há a exigência de desertarmos os lugares de poder. Mais do que isso: é necessário que possamos recusar e resistir toda a reprodução e eco do discurso do poder do capital difundido, para que não tenhamos o mesmo fim de Narciso e Eco. Desertar os lugares de poder para efetuarmos o êxodo para a Vida.

Jesus efetivou este êxodo. Fez pulsar a Vida como devir da humanidade. Jesus não foi apenas contra o domínio perverso político, econômico, social e espiritual de sua época. Ele não apenas sabotou a estrutura e ordem estabelecida. Fez muito mais. Ele teve uma atitude diagonal, efetivou um declive nos códigos religioso-jurídicos e no sistema dominante do Império Romano. Jesus recusou e resistiu a reprodução do discurso constituído e se fez turbulência. O que pode ser produzido em uma ordem auto-referente? O que pode ser produzido em um campo homogêneo? Nada. Nestes lugares tudo deriva para o estável, para o equilíbrio pré-estabelecido. O iniciar é já chagar ao fim que é o equilibrado. Todos os caminhos levam ao mesmo. E todos os caminhos que se originam do mesmo são reproduções. É necessário esvaziar os lugares de poder. É preciso vencer os obstáculos. É preciso ter a potência do rio que nunca é o mesmo e como fluído vai criando seu próprio leito na desmedida em que vai compondo com o terreno, destruindo as barreiras. Quando o vazio surge da destruição da ordem pré-estabelecido os caminhos tornam-se relativos, multiplicidades, moleculares. E não é necessária a força maior, molar,  para que o vazio venha a ser a condição da multiplicidade e da criação de um novo modo de existir. Estamos no terreno do menor. O menor declive, o menor desvio, a menor descida, o menor discurso, mas o menor que inaugura uma existência completamente apartada dos códigos constituídos:

“De modo que se pode dizer, à escolha, que a queda atômica é dotada de declive total ou de declive nulo. É um fluxo como tal, homogêneo, desfrutando de uma força única. De um certo modo, é o equilíbrio, mas seria antes um pré-equilíbrio. Então, a declinação define um declive. É o declive desencadeado por um desvio do equilíbrio, por uma diferença em relação a esse pré-equilíbrio que é homogêneo. Ora, justamente, o clinâmen é definido por Lucrécio, e duas vezes, por um mínimo. É o menor declive possível abrindo os caminhos para a existência. (…) Logo, o clinâmen é o menor desvio e o declive ótimo” (Michel Serres).

O (dis)curso de Jesus é diferença, não identidade. O dizer de Jesus é o menor porque vai contra os obstáculos posto por sua época e codificado em atos reacionários. Jesus nega reproduzir o discurso que gera a doença da cidade e começa a fazer do discurso a arma que engendrou quando criou a linha de fuga dos buracos negros. E não basta este discurso ficar com Jesus, ele deve ser partilhado, ele deve trabalhar para o bem comum, para a riqueza de todos na cidade. A cidade tem que ser o lugar do discurso, pois é dela que o discurso sai. Jesus vive primeiro para depois discursar, sente o mundo para poder ser o que diz. Bem comum, perseverar a existência como produção nova da Vida, da Vida como condição da produção do novo. Eis a importância política de desertar os lugares de poder e seguir o fluxo do novo.

Da Cidade surge a lei: não há morte 

Pensar a morte. Ter a experiência da morte – a saber, são disposições humanas que estão intimamente relacionadas à linguagem, ao falar e ao dizer. A morte como antecipação da impossibilidade própria a nós mortais (Heidegger). Nesta antecipação podemos nos afastar da morte e fazer de sua negatividade uma paixão positiva. Para não morrer é preciso estar disposto para a Vida. Talvez o lugar por excelência (arete) para pensar o pensar e a negação da morte seja a cidade e suas leis.

Primeiro, o que é pensar? Deleuze, a partir da conferência “O que quer dizer pensar?” de Heidegger diz: “Lembremo-nos dos textos profundos de Heidegger, mostrando que, enquanto o pensamento permanece no pressuposto de sua boa natureza e de sua boa vontade, sob a forma de um senso comum, de uma ratio, de uma cogitatio natura universalis, ele nada pensa, prisioneiro da opinião, imobilizado numa possibilidade abstrata…: ‘o homem sabe pensar, na medida em que tem a possibilidade disto, mas este possível não nos garante ainda que sejamos capazes disto’; o pensamento só pensa coagido e forçado, em presença daquilo que ‘dá a pensar’, daquilo que existe para ser pensado  – e o que existe para ser pensado é do mesmo modo o impensável ou não pensado, isto é, o fato perpétuo que ‘nós não pensamos ainda”.

Pensar, portanto, seria pensar o impensado, o novo, tudo que está “fora” dos pressupostos. Pensar não é representação. Seria uma disposição para o impensado, para o novo. Para nós, pensar seria não reproduzir a imagem do pensamento do Estado, isto é, não reproduzir as definições de liberdade, igualdade e solidariedade, segundo os pressupostos das relações econômicas da produção capitalística. Percebe-se, nesta reprodução, na organização jurídica das relações de troca, a lei como coerção, a justiça como castigo, uma imposição que, como nos diz Antifonte, gera uma legalidade capaz de coagir nossos sentidos, prescrevendo aos olhos “o que devem ver e o que não devem ver” (Barbara Cassin). Pensar a lei nesta produção significa agir, comportar-se e viver de acordo com os pressupostos impostos, conhecidos como legalidade.

É a cidade que é o lugar da lei. E quando a cidade é governada por leis motivadas pelo danoso, pelo castigo e pela vontade privada de satisfazer a admoestação como exemplo de conduta, a cidade perde sua potência de compartilhamento do pensar como novidade e transgressão da ordem natural. A lei é produção humana coletiva, desvinculada da produção econômica (por exemplo, a lei de mercado) a lei é um consenso que se dá pela ação do discurso, da persuasão pertencente a todos, onde todos possuem a técnica justaposta à razão e decidem juntos pelo bem comum da cidade. Lei: transgressão da ordem natural para a produção da cidade através da cooperação de todos aos olhos de todos.

Jesus via na lei não a coerção, mas a disposição de se compreender a necessidade do bem comum a todos na cidade. A lei, portanto estava para a Vida, não para a reprodução da violência do imperialismo romano e dos códigos religioso-jurídicos de sua época. Tanto que foi um subversivo, não se fez um subordinado, mas criou um novo modo de ser, posto que criou um novo pensar sobre a Vida. Daí Jesus ser Vida e ninguém ir ao Bem se não através dele, digo, de seu discurso. Podemos dizer, destarte: Jesus estava para além do bem e do mal, foi uma pessoa rara, um espírito livre, pois tinha a disposição para pensar o impensável no fato e, assim, problematizar o real.

Se a lei é um produto da cidade e da relação recíproca entre os discursos de seus concidadãos, a lei surgindo da cidade e não ao contrário, esta lei é uma tendência ao bem comum, e é saudável que nela possamos viver conforme, pois ela não se perseverar pela coerção, nem pelo temor, tão pouco pelo sentimento de vingança ou por um dinamismo do qual apenas transfere a interdição, a dor e o mesmo de um lugar a outro como uma metástase, mas porque, ela própria, a lei, será a ordem racional da cidade, a transgressão da ordem natural e mística a serviço da cidade e de todos que nela vivem. A lei será a fala de todos produzindo a cidade e sempre será o mote da jurisprudência filosófica.

É deste modo que dizemos: Jesus jamais morreu. Longe da morte que os cristãos são remetidos através de um Cristo paulino, acreditamos, singularmente, que o discurso de Jesus habita no mundo, é preservado por cada pensamento disposto a pensar o impensável. A estreita relação entre morte e linguagem (o domínio da linguagem sobre a morte, a forma pela qual o incondicional, o desconhecido é apreendido pela classificação gramatical) aqui ganha um novo fôlego: a linguagem não mais domina a morte, mas a liberta de seu fim inconteste, pois o homem como animal falante preserva seu ser nas inúmeras composições de seus discursos. Jesus não mais na Cruz. Jesus livre, solto como criança, como nos diz o poeta lusitano Pessoa. Jesus Vivo.

É deste modo que a paixão de Cristo aqui é transformada em uma paixão positiva de Jesus e sua caminhada até a crucificação é simplesmente o sentido da sua subversão e desertificação dos lugares de poder, da reprodução dos discursos perversos do poder. Importa Jesus Vivo. Por isso, em meio a multiplicidades de verdades, caminhamos junto a ternura, o humor e a inteligência com uma: a páscoa é linha de fuga, recusa e resistência, libertação e possibilidade de uma nova Vida, de novos códigos para a existência, sempre a pensarmos no bem comum na cidade. Jesus efetivou o êxodo para a Vida.       

    

Café filosófico / domingo 22 de Janeiro às 17h30

 
 
 
 
 
 
 
 
:: Dia 22| domingo
 
 
Piano-bar , 17h30

 

 

Café Filosófico

 

Orientador: Tomás Magalhães Carneiro

 

 

 

 

 Clube Literário do Porto

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Contra o estrago do liberalismo, recuperar o Marx filósofo

O filósofo francês Dany-Robert Dufour refletiu sobre as mutações que esvaziaram o sujeito contemporâneo de relatos fundadores. Essa ausência é, para ele, um dos elementos da imoralidade liberal que rege o mundo hoje. Seu trabalho como filósofo crítico do liberalismo culmina agora em um livro que pergunta: que indivíduo surgirá depois do liberalismo? Talvez seja o caso, defende, de recuperar o Max filósofo, que defendia a realização total do indivíduo fora dos circuitos mercantis.

Eduardo Febbro – Direto de Paris

Alguns já o veem terminado, outros a ponto de cair no abismo, ou em pleno ocaso, ou em vias de extinção. Outros analistas estimam o contrário e afirmam que, embora o liberalismo esteja atravessando uma série crise, seu modelo está muito longe do fim. Apesar das crises e de suas consequências, o liberalismo segue de pé, produzindo seu lote insensato de lucros e desigualdades, suas políticas de ajuste, sua irrenunciável impunidade. No entanto, ainda que siga vivo, a crise expôs como nunca seus mecanismos perversos e, sobretudo, colocou no centro da cena não já o sistema econômico no qual se articula, mas sim o tipo de indivíduo que o neoliberalismo terminou por criar: hedonista, egoísta, consumista, frívolo, obcecado pelos objetos e pela imagem fashion que emana dele.

A trilogia da modernidade liberal é muito simples: produzir, consumir, enriquecer. O filósofo francês Dany-Robert Dufour refletiu sobre as mutações pós-modernas que esvaziaram o sujeito contemporâneo de relatos fundadores. Essa ausência é, para o filósofo, um dos elementos da imoralidade liberal que rege o mundo contemporâneo. Seu trabalho como filósofo crítico do liberalismo se desenvolveu em livros como “Le Divin Marché” (O Divino Mercado) e culmina agora em um apaixonante livro que coloca uma pergunta que poucos se fazem: como será o indivíduo que surgirá depois do liberalismo?

Dany-Robert Dufour não só lança mais uma diatribe sobre o sistema liberal, mas explora os conteúdos sobre os quais pode-se refundar a humanidade despois desse pugilato planetário do despojo e da estafa que é o ultra-liberalismo. Mas a humanidade não se funda no automatismo, mas sim através dos indivíduos. Seu livro, “L’individu qui vient…après le libéralisme” (O indivíduo que vem…depois do liberalismo) explora o transtorno liberal do passado e esboça os contornos de um novo indivíduo ao qual o filósofo define como “simpático”, ou seja, abertos aos outros que também o constituem.

O liberalismo, que se apresentou como salvador da humanidade, terminou levando a o ser um humano a um caminho sem saída. Você considera o fim desse modelo e se pergunta sobre qual tipo de ser humano surgirá depois do ultra-liberalismo?

Dany-Robert Dufour: No século passado conhecemos dois grandes caminhos sem saída históricos: o nazismo e o stalinismo. De alguma maneira e entre aspas, depois da Segunda Guerra Mundial fomos liberados desses dois caminhos sem saída pelo liberalismo. Mas essa liberação terminou sendo uma nova alienação. Em suas formas atuais, ou seja, ultra e neoliberal, o liberalismo se plasma como um novo totalitarismo porque pretende gerir o conjunto das relações sociais. Nada deve escapar à ditadura dos mercados e isso converte o liberalismo em um novo totalitarismo que segue os dois anteriores. É então um novo caminho sem saída histórico. O liberalismo explorou o ser humano.

O historiador húngaro Karl Polanyi, em um livro publicado depois da Segunda Guerra Mundial, demonstrou como, antes, a economia estava incluída em uma série de relações sociais, políticas, culturais, etc. Mas, com a irrupção do liberalismo, a economia saiu desse círculo de relações para converter-se no ente que procurou dominar todos os demais. Dessa forma, todas as economias humanas caem sob a lei liberal, ou seja, a lei do proveito onde tudo deve ser rentável, incluindo as atividades que antes não estavam sob o mandato do rentável.

Por exemplo, neste momento eu e você estamos conversando, mas não buscamos rentabilidade e sim a produção de sentido. Neste momento estamos em uma economia discursiva. Mas hoje, até a economia discursiva está sujeita ao “quem ganha mais”. Cada uma das economias humanas está sob a mesma lógica: a economia psíquica, a economia simbólica, a economia política, daí o derretimento da política. O político só existe hoje para seguir o econômico. A crise que atravessa a Europa mostra que, quanto mais ela se aprofunda, mais a política deixa a gestão nas mãos da economia. A política abdicou ante a economia e esta tomou o poder. Os circuitos econômicos e financeiros se apoderaram da política, A crise é, por conseguinte, geral.

O título de seu livro, “O homem que vem depois do liberalismo”, implica a dupla ideia de uma fase triunfal e de um fim do liberalismo…

DRD: Paradoxalmente, no momento de seu triunfo absoluto o liberalismo dá sinais de cansaço. Nos damos conta de que nada funciona e as pessoas vão tomando consciência desta falha e têm uma reação de incredulidade. Os mercados se propuseram a ser uma espécie de remédio para todos os males. Você tem um problema? Pois então recorra ao Mercado e este aportará a riqueza absoluta e a solução dos problemas. Mas agora nos damos contra de que o mercado acarreta devastações.

Assim, vemos como esse remédio que devia nos fornecer a riqueza infinita não traz senão miséria, pobreza, devastação. O capitalismo produz riqueza global, sim, mas ela é pessimamente repartida. Sabemos que há 20, 30 anos, as desigualdades têm aumentado pelo planeta. A riqueza global do capitalismo despoja de seus direitos a milhões de indivíduos: os direitos sociais, o direito à educação, à saúde, em suma, todos esses direitos conquistados com as lutas sociais estão sendo tragados pelo liberalismo. O liberalismo foi como uma religião cheia de promessas. Nos prometeu a riqueza infinita graças a seu operador, o Divino Mercado. Mas não cumpriu a promessa.

Em sua crítica filosófica ao liberalismo, você destaca um dos principais estragos produzidos pelo pensamento liberal: os indivíduos estão submetidos aos objetos, nãos aos seus semelhantes; ao outro. A relação em si, a sensualidade, foi substituída pelo objeto.

DRD: As relações entre os indivíduos passam ao segundo plano. O primeiro é ocupado pela relação com o objeto. Essa é a lógica do mercado: o mercado pode a cada momento agitar diante de nós o objeto capaz de satisfazer todos nossos apetites. Pode ser um objeto manufaturado, um serviço e até um fantasma construído pelas indústrias culturais. Estamos em um sistema de relações que privilegia o objeto antes do sujeito. Isso cria uma nova alienação, uma espécie de vício com os objetos. Esse novo totalitarismo que é o liberalismo coloca nas mãos dos indivíduos os elementos para que se oprimam a si mesmos através dos objetos. O liberalismo nos deixa a liberdade de alienarmos a nós mesmos.

Você situa o princípio da crise nos anos 80 através da restauração do que você chama de o relato de Adam Smith. Você cita uma de suas frases mais espantosas: para escravizar um homem é preciso dirigir-se ao seu egoísmo e não a sua humanidade.

DRD: Adam Smith remonta ao século XVIII e sua moral egoísta se expandiu um século e meio depois com a globalização do mercado no mundo. De fato, Smith demorou tanto porque houve outra mensagem paralela, outro Século das Luzes, que foi o do transcendentalismo alemão.

Ao contrário das Luzes de Smith, as alemãs propunham a regulação moral, a regulação transcendental. Essa regulação podia se manifestar na vida prática através da construção de formas como as do Estado a fim de regular os interesses privados. A partir do Século das Luzes, há duas forças que se manifestam: Adam Smith e Kant. Esses dois campos filosóficos coexistiram de maneira conflitiva ao longo da modernidade, ou seja, através de dois séculos. Mas, em um determinado momento, o transcendentalismo alemão perdeu força e deu lugar ao liberalismo inglês, o qual adquiriu uma forma ultra-liberal. Pode-se datar esse fenômeno a partir do início dos anos 80. Há inclusive uma marca histórica que remonta ao momento em que Ronald Reagan, nos Estados Unidos, e Margaret Thatcher, na Grã-Bretanha, chegam ao poder a instalam a liberdade econômica sem regulação. Essa ausência de regulação destruiu imediatamente as convenções sociais, ou seja, os pactos entre indivíduos.

Daí provém a trilogia “produzir, consumir, enriquecer”. Você chama essa trilogia de pleonexía.

DRD: O termo “pleonexía” é encontrado na República de Platão e quer dizer “sempre ter mais. A República grega, a Polis, foi construída sobre a proibição da pleonexía. Pode-se dizer então que, até o século XVIII, toda uma parte do Ocidente funcionou com base nessa proibição e se liberou dela nos anos 80. A partir daí se liberou a avidez mundial, a avidez dos mercados e dos banqueiros. Lembre o discurso pronunciado por Alan Greenspan (ex-presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos) ante à Comissão norteamericana depois da crise de 2008. Greenspan disse: “pensava que a avidez dos banqueiros era a melhor regulação possível. Agora, me dou conta de que isso não funciona mais e não sei por quê”. Greenspan confessou assim que o que dirige as coisas é a liberação da pleonexía. E já sabemos para onde isso conduz.

Chegamos agora ao depois, ao hipotético ser humano de depois do liberalismo. Você o enxerga sob os traços de um indivíduo simpático. Que sentido tem o termo simpático neste contexto?

DRD: Ninguém é bom ao nascer como pensava Rousseau, nem tampouco mau como pensava Hobbes. O que podemos fazer é ajudar as pessoas a serem simpáticas, ou seja, a não pensarem somente em si mesmas e a pensarem que, para viver com o próximo, é preciso contar com ele. O outro está em mim, as imagens dos outros estão em mim e me constituem como sujeito. A própria ideia de um indivíduo egoísta é sem sentido porque isso obriga a que nos esquecer de que o indivíduo está constituído por partes do outro. E quando falo de um indivíduo simpático não emprego o termo em sua acepção mais comum, alguém simplesmente simpático, digamos. Não, trata-se do sentido que a palavra tinha no século XVIII, onde a simpatia era a presença do outro em mim. Necessito então da presença do outro em mim e o outro precisa de minha presença nele para que possamos constituir um espaço onde cada um seja um indivíduo aberto ao outro. Eu cuido do outro como o outro cuida de mim. Isso é um indivíduo simpático.

Sigamos com a simpatia, mas sobre que bases se constrói o indivíduo que vem depois do liberalismo? A razão, a religião, o esporte, o ócio, a solidariedade, outra ideia de mercado?

DRD: Neste livro fiz um inventário sobre os relatos antigos: o relato do logos, da evasão da alma dos gregos, o relato sobre a consideração do outro nos monoteísmos. Dei-me conta de que em ambos relatos havia coisas interessantes e também aterradoras. Por exemplo, a opressão das mulheres no patriarcado monoteísta equivale à opressão da metade da humanidade. Por acaso queremos repetir essa experiência? Certamente que não.

Outro exemplo: no logos, para que haja uma classe de homens livres na sociedade é preciso que haja uma classe oprimida e escravizada. Queremos repetir isso? Não. Refundar nossa civilização após os três caminhos sem saída que foram o nazismo, o estalinismo e o liberalismo requer uma refundação sobre bases sólidas. Por isso realizei o inventário, para ver o que podíamos recuperar e o que não, quando do passado podia nos servir e quanto não. A segunda consideração diz respeito aquilo que poderia ajudar o indivíduo a ser simpático, ao invés de egoísta. Neste contexto, a ideia da reconstrução do político, de uma nova forma do Estado que não esteja dedicado a conservar os interesses econômicos, mas sim a preservar os interesses coletivos, é central.

Qual é, então, o grande relato que poderia nos salvar?

DRD: Deixamos no caminho os grandes relatos de antes e acreditamos cada vez menos no grande relato do mercado. Estamos a espera de algo que una o indivíduo, ou seja, um grande relato. Eu proponho o relato de um indivíduo que deixou de ser egoísta, que não seja tampouco o indivíduo coletivo do estalinismo, nem tampouco o indivíduo mergulhado na ideia de uma raça que se crê superior, como no nazismo e no fascismo. Trata-se de um relato alternativo a tudo isso, um relato que persiste no fundo da civilização.

Creio que o valor da civilização ocidental radica no fato de ter coloca o acento na individuação, ou seja, na ideia da criação de um indivíduo capaz de pensar e agir por si mesmo. Não é para esquecer a noção de indivíduo, mas sim reconstruí-la. Contrariamente ao que se diz, não creio que nossas sociedades sejam individualistas, não, nossas sociedades são lamentavelmente egoístas. Isso me faz pensar que há muita margem de existência ao indivíduo como tal, que há muitas coisas dele que não conhecemos.

Temos que fazer o indivíduo existir fora dos valores do mercado. O indivíduo do estalinismo foi dissolvido na massa do coletivismo; o indivíduo do nazismo e do fascismo foi dissolvido na raça, o indivíduo do liberalismo foi dissolvido no egoísmo. O indivíduo liberal é um escravo de suas paixões e de suas pulsões. Devemos nos elevar desse caminho sem saída liberal parar recriar um indivíduo aberto ao outro, capaz de realizar-se totalmente.

Há textos filosóficos de Karl Marx que não são muito conhecidos e nos quais Marx queria a realização total do indivíduo fora dos circuitos mercantis: no amor, na relação com os outros, na amizade, na arte. Poder criar o máximo a partir das disposições de cada um. Talvez seja o caso de recuperar esse relato do Marx filósofo e esquecer o do Marx marxista.

*Tradução: Katarina Peixoto

“O HUMANISMO ESTÁ NO FIM”, DIZ PASOLINI


A entrevista a seguir foi publicada na segunda-feira, dia 19/12/2011, enviada por Luis Nassif, às 10:27, extraída por Raquel do IHU Online. A entrevista é interessante porque Pier Paolo Pasolini fala de temas que tanto nos seus livros como no cinema ele sempre tratou:  burguês, política,  humanismo, economia, marxismo, comunismo, socialismo, revolução e nos trás um tema atualíssimo que é o consumismo, que ele chama da mais nova revolução. Por estarmos na quadra natalina e de festas consumistas reverberamos na rede essa magnífica contribuição do cineasta italiano.

”Eu sei que muitos pensam que sou louco, mas o humanismo está no fim”. Entrevista com Pier Paolo Pasolini

Uma entrevista inédita com o escritor italiano Pier Paolo Pasolini, gravada em Estocolmo, na Suécia, no dia 30 de outubro de 1975, pouco antes da sua morte. “Não há mais católicos e marxistas no meu país. Venceu a revolução consumista”. O texto completo está publicado no novo número da revista Espresso.

A reportagem é do jornal La Repubblica, 16-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O senhor foi escritor, ainda é. Como decidiu fazer cinema?

Isso tem raízes distantes. Quando eu era jovem, tinha 18-19 anos, por um momento pensei em ser diretor. Depois, veio a guerra, e isso cortou por longos anos toda possibilidade e toda esperança. E depois houve circunstâncias: depois que eu publiquei o meu primeiro romance, Ragazzi di vita, que teve sucesso na Itália, fui chamado para fazer roteiros. Quando gravei Accattone, era a primeira vez que eu encostava em uma câmera. Ele nunca tinha feito nem uma fotografia, e nem agora eu sei fazer uma fotografia.

O senhor prefere atores não profissionais. Como trabalha? Busca um ambiente e, quando o encontra, escolhe as pessoas depois?

Não é exatamente assim. Se eu faço um filme de ambiente popular, pego pessoas do povo, isto é, não profissionais, porque acredito que é impossível para um ator burguês fingir que é um operário ou um agricultor. Soaria falso de modo intolerável. Ao contrário, se eu faço um filme de ambiente burguês, já que não posso pedir que um engenheiro, um médico ou um advogado venha ser ator para mim, eu pego atores profissionais. Naturalmente, falo da Itália, e da Itália de dez anos atrás. Se eu estivesse na Suécia, provavelmente pegaria atores, porque não há mais diferença entre um burguês e um operário na Suécia. Falo de um fato físico. Na Itália, há uma diferença assim como entre um branco e um negro.

Nos seus últimos filmes, não há elementos religiosos, não é?

Não estou tão certo de que não haja elementos religiosos nos meus últimos filmes. Nas Mille e una notte, também havia uma espécie de inspiração religiosa em todo o filme. Não havia religiosidade confessional, temas religiosos diretos, mas uma situação de mistério e de irracionalidade havia. Todo o episódio deNinetto, que é a parte central das Mille e una notte

O senhor participou do diálogo entre católicos e marxistas na Itália?

Não há mais marxistas e católicos na Itália, não há mais católicos na Itália.

Explique, então, qual é a situação.

Na Itália, ocorreu uma revolução, e é a primeira da história italiana, porque os grandes países capitalistas tiveram pelo menos quatro ou cinco revoluções, que tiveram a função de unificar o país. Penso na unificação monárquica, na revolução luterana reformista, na revolução francesa burguesa e na primeira revolução industrial. Mas a Itália, ao contrário, teve pela primeira vez a revolução da segunda industrialização, isto é, do consumismo, e isso mudou radicalmente a cultura italiana em sentido antropológico. Antes, a diferença entre operário e burguês era como entre duas raças. Agora, essa diferença quase não existe mais. E a cultura que foi mais destruída foi a cultura camponesa, que era então católica. Assim, o Vaticano não tem mais sobre as costas essa enorme massa de agricultores católicos. As igrejas estão vazias, os seminários estão vazios. Se você vai a Roma, não vê mais filas de seminaristas que caminham pela cidade, e, nas duas últimas eleições, houve um triunfo do voto secular. E os marxistas também foram mudados antropologicamente pela revolução consumista, porque vivem de outro modo, em uma outra qualidade de vida, em outros modelos culturais e também foram mudados ideologicamente.

São marxistas e consumistas ao mesmo tempo?

Há essa contradição, todos aqueles que são declaradamente marxistas, mesmo que votem em marxistas, são ao mesmo tempo consumistas. Não só isso: o Partido Comunista Italiano aceitou esse desenvolvimento.

Mas quando o senhor fala de marxistas, fala do Partido Comunista ou de outras facções?

Sim, dos comunistas, socialistas, extremistas. Por exemplo, os extremistas italianos jogam bombas e depois, de noite, assistem à televisão, Canzonissima [programa de variedades da RAI], Mike Bongiorno [famoso apresentador de TV italiano].

Ainda existe a sociedade de classes?

As classes existem, mas – e este é o ponto original da Itália – a luta de classes é no plano econômico, não mais no plano cultural. Agora, a diferença é econômica entre um burguês e um operário, mas não há mais diferença cultural entre os dois.

E o novo movimento fascista?

O fascismo acabou, porque se apoiava em Deus, família, pátria, exército, todas as coisas que agora não têm mais sentido. Não há mais italianos que, diante da bandeira italiana, se comovam.

Há, portanto, uma dissolução da sociedade italiana de hoje, não é verdade?

Eu considero o consumismo um fascismo pior do que o clássico, porque o clérico-fascismo, na realidade, não transformou os italianos, não entrou dentro deles. Foi totalitário, mas não totalizante. Só um exemplo que posso dar: o fascismo tentou, durante todos os 20 anos em que esteve no poder, destruir os dialetos. Não conseguiu. Ao contrário, o poder consumista, que diz querer preservar os dialetos, os está destruindo.

Faça uma profecia, seja Tirésias. Há esperança no futuro?

Deveria ser mais Cassandra do que Tirésias. Perguntei hoje a dez jovens suecos com quem falei, fiz-lhes esta pergunta: vocês ainda se sentem mais próximos da civilização humanista ou já se sentem dentro da civilização tecnológica? E me parece que eles responderam, tristemente, contudo, que eles se sentem como a primeira geração de cerca de 30 gerações diferentes daquilo que tem havido até agora. E, para concluir, tudo o que eu disse, eu o disse a título pessoal. Se vocês conversarem com outros italianos, eles lhes dirão: “Aquele louco do Pasolini”…

Extraído do blog do Luis Nassif Online

ARGUMENTOS DO PROFESSOR IVAN VIANA CONTRA A GESTORA DA ESCOLA ESTADUAL DOM MILTON CORRÊA PEREIRA

Este blog recebeu e publica a defesa produzida pelo professor Ivan Viana do Nascimento contra a decisão da gestora da Escola Estadual Dom Milton Corrêa Pereira que o repreendeu e aplicou-lhe suspensão de cinco dias.

“À Senhora Gestora da Escola Estadual Dom Milton Corrêa Pereira, Ildeci Vinhote de Souza

Da Defesa

Eu, Ivan Viana do Nascimento, pessoa, humana, cidadão e professor, matrícula 153.820-9B, integrado, lotado na Escola Estadual Dom Milton Corrêa Pereira, turno vespertino onde ministro a disciplina de Filosofia, venho por meio desta, apresentar minha própria defesa contra a suspensão de minhas atividades laborais nesta instituição, baseado no Estatuto do Magistério do Estado do Amazonas, artigo 163, parágrafo primeiro, sobre o direito de defesa que é constitucional.

Dos argumentos

Primeiro. Do erro de nomenclatura do termo e da inexistência do ato infracional.

Diz o texto que o documento é um “Termo de Advertência”, mas na realidade trata-se de um termo de Repreensão Suspensão. Não existe uma repreensão, mas a suspensão e o relato de um fato ocorrido no dia 25/10/11 em que sou acusado injustamente de segundo o texto do termo “levou alunos adolescentes sem a prévia autorização dos pais e/ou responsáveis para uma manifestação em frente à Assembleia Legislativa do Estado”. A senhora gestora só esqueceu-se de dizer a verdade e o horário de ocorrência do fato. Não fui eu que os levei, foram as suas vontades livres, seus sonhos de uma vida digna, de uma educação de qualidade, de um ambiente descente e digno, além de suas próprias pernas e dos ônibus de linhas. O ato político realizado pelo cidadão Ivan Viana do Nascimento que por coincidência biofísica habita o mesmo corpo habitado pelo professor Ivan Viana do Nascimento que só existe como função estatal, fora realizado no horário das 8 às 10:00 h, fora do expediente de trabalho, os cidadãos que por coincidência são estudantes da escola no turno vespertino, saíram de suas próprias casas com o conhecimento de seus devidos responsáveis e inclusive financiados por estes. E não atrapalharam em nada o andamento das atividades da escola no dia do ocorrido. Estatutariamente eu não posso ser punido por este ato, a não ser que haja algum registro de pai ou responsável indignado com a atitude do professor de querer um ambiente descente e digno de produção de conhecimento se repressão. Outro fato que deve ser observado é que ninguém foi coagido a participar e que o ato foi legítimo e dentro dos parâmetros da decência, do respeito mútuo, da boa convivência e da cultura da paz sustentável de um Estado democrático de direito. Há que se consultar o dicionário para se aprender a diferença de motivação e obrigação. Mas uma motivação não pode ser vista como uma obrigação a não ser por puro interesse político espúrio.

Segundo. Da violação à Constituição e à Carta dos Direitos Humanos

A carta dos direitos humanos que é reconhecida pelo Estado brasileiro garante que todas as pessoas são livres para pensarem e agirem livremente em qualquer  estado que reconheça e aceite a carta o que é o caso do Brasil. O artigo primeiro da Constituição Federal, diz que o Brasil é um estado democrático e de direito, tem como fundamento dentre outros os seguintes: a soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa humana e o pluralismo político. No artigo terceiro, diz que constitui um dos objetivos da República Federativa do Brasil: “construir uma sociedade livre, justa e solidária. Já o artigo quarto afirma que a República Federativa do Brasil rege-se em sua relações internacionais pelo princípio dos direitos humanos que coroamos com o artigo quinto que estabelece “a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança”. Tudo porque lutávamos. Só estávamos realizando este evento, esta aula de Filosofia e a cidadania, porque é de conhecimento de todos que a Escola Estadual Dom Milton Correa Pereira está há dez anos sem uma reforma: 1 – as estruturas físicas do prédio estão em péssimas condições e é uma ameaça constante à vida, vá que o teto resolva despencar por sobre algumas cabeças de alunos e professores, o valor de uma vida não pode ser pago em dinheiro porque não dinheiro no mundo que seja capaz de recriar a vida, os banheiros dos alunos não podem ser chamados de banheiros porque falta decência e dignidade, e apresenta pias e vasos quebrados, não funcionais, a quadra da escola é descoberta, fato que viola os direitos humanos por submeter estudantes a altas cargas de radiação solar causadores de envelhecimento precoce e de câncer de pele ou simplesmente impedindo a prática dos esportes em dias de chuva. 2 – a rede elétrica do prédio foi projetada para suportar ventiladores e não condicionadores de ar que exigem muito mais energia, a rede trabalha sobrecarregada e como conseqüência lógica produz o caos com as constantes queimas dos aparelhos condicionadores de ar. 3 – a escola não atende às necessidades dos portadores de deficiências físicas como os cadeirantes. 4 – faltam espaços educacionais fundamentais como auditório, anfiteatro, laboratório de ciências naturais, democratizar o uso do laboratório de informática da escola, dispor de pontos de acesso à internet na biblioteca da escola. O ato que pune politicamente um cidadão violando todos os direitos acima citados é um ato que viola a Constituição Federal  e a carta dos direitos humanos pelo fato de não reconhecer a pessoa como ser humano portador de direitos invioláveis. Não reconhece o ser humano porque não reconhece seus direitos políticos, seu direito de pensar, de ir e de vir livremente. É um ato de aspecto totalitário e fascista porque não se baseia na justiça, na igualdade e na equidade. Porque intimida a cidadania e manda um aviso de que não é permitido lutar por melhoria da qualidade de vida e nem por dignidade e por levar o sujeito a se submeter a situações desumanas e degradantes de trabalho. É também um assédio moral gravíssimo porque é intimidador, grosseiro, leviano, injusto e imoral. Porque depõe contra e atenta contra a vida e a liberdade do ser humano como cidadão. Eu sou uma pessoa, sou um cidadão, sou também funcionário  público. Sou assim uma comunidade de personalidades e de consciências políticas autônomas que habitam o mesmo corpo. Por isso a pessoa humana e o cidadão que há em mim não poder ser punidos junto com a função pública.

 Terceiro. da publicidade do fato

O fato era de conhecimento público e notório e consta no meu plano bimestral como prática de cidadania crítica, pacífica e participativa com dois instrumentos de ação. 01 – um abaixo-assinado em que coletamos mais de 6500 (seis mil e quinhentas) assinaturas pela reforma imediata da Escola Estadual Dom Milton Corrêa Pereira. Este abaixo-assinado foi elaborado por cada turma de estudantes e cada estudante se responsabilizou por coletar assinaturas em casa, na rua, no bairro, no trabalho, na igreja e onde desse. 02 – protocolo do abaixo-assinado na ALE.

Do prejuízo da formação dos estudantes

A suspensão de atividade do professor de filosofia trás duas perdas inestimáveis e importantíssimas. Primeiro que é o prejuízo da carga horária da disciplina que ficará incompleta, causando um prejuízo real e temporal que leva os estudantes à ociosidade e desmotivação de aprenderem. Segundo, leva o estudante a formar um caráter passivo, subserviente e alienado de seus direitos fundamentais básicos quando pune o único professor que tomou uma atitude de luta digna Diane da realidade de descaso da SEDUC com a qualidade da educação que nesse caso é uma violação grave aos direitos humanos. O prejuízo, sobretudo espiritual que expõe a Psicologia de massa da SEDUC que não se diferencia em nada daquele tipo descrito por Reich, no seu livro, A Psicologia de Massa do Fascismo.

Da solicitação

Diante dos fatos e dos argumentos apresentados, solicito a anulação deste “Termo de advertência” que é termo de repreensão e a solicitação de desculpas por este ato (só comparado a atos próprios de estados nazifascistas) que é injusto, inconstitucional e que viola a carta dos direitos humanos e constitui como assédio moral porque visa intimidar a pessoa, o cidadão e o funcionário que habitam o mesmo corpo.

Atenciosamente a pessoa humana e o cidadão que responde pelo nome de Ivan Viana do Nascimento, que realiza a função pública de professor sob a matrícula número 153.820-9B.

Ivan Viana do Nascimento”

PROFESSOR DE FILOSOFIA SOFRE RETALIAÇÕES DA SEDUC-AM

O fato ocorrido com o professor Ivan do Nascimento, da Escola Estadual Dom Milton Correa Pereira, foi divulgado por alguns órgãos de imprensa local apenas como fato, não fazendo do evento um desdobramento, uma análise, pois como se sabe, todos os jornais e demais órgãos jornalísticos no Amazonas, sem exceção, estão ligados ao poder constituído e nada que o critique é publicado.

Nesta ocasião, estamos publicando um boletim de esclarecimento produzido pelo professor Ivan do Nascimento e outros educadores,  sobre o acontecimento do dia 25 de outubro de 2011, ocorrido na frente da Assembleia Legislativa do Amazonas.

“O professor de Filosofia, Ivan do Nascimento, da Escola Estadual Dom Milton Corrêa Pereira, localizada no Bairro Cidade Nova, em Manaus, fez seu plano de aula tendo como tema, Filosofia e Cidadania.  Como gesto concreto da atividade filosófico-educadional, os estudantes fizeram um abaixo-assinado coletando seis mil e quinhentas assinaturas em prol da reforma da escola.

A atividade filosófico-educacional culminou com um evento público em frente à Assembleia Legislativa do Estado no dia 25 de outubro de 2011, exigindo a reforma da escola abandonada a mais de 10 anos pelo Governo do Estado. O evento era chamado de aula de cidadania.

A aula da cidadania teve participação da Rádio Libertária Candiru, trabalhadores em educação, escritores e estudantes do Ensino Médio.

Professores e estudantes do Ensino Médio levaram o abaixo-assinado à Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas.

O abaixo-assinado em prol da reforma da escola foi entregue no ato ao presidente da Assembleia Legislativa, deputado Ricardo Nicolau, numa aula de cidadania, ministrada por professores com Licenciatura Plena em Filosofia pela Universidade Federal do Amazonas – UFAM.  Mas a Secretaria de Estado da Educação e Qualidade do Ensino – SEDUC, na pessoa do seu Secretário de Estado e professor do Departamento de Filosofia da UFAM, Gedeão Timóteo Amorim retaliou o movimento da cidadania, suspendendo o professor de Filosofia por um tempo de cinco dias. Com efeito, esta conduta do Secretário pode representar estratégia de terror contra a comunidade escolar.

Por causa da aula da cidadania, em 03 de novembro, o professor de Filosofia foi conduzido pela direção da escola a assinar o Registro de Ocorrência (RO) sendo suspenso de suas atividades educacionais por cinco dias sem lhe terem concedido o constitucional direito de defesa, caracterizando assédio moral contra o professor, numa conduta do governo, reacionária e extremamente repressiva, só comparável aos governos fascistas.

Essa conduta revela o desejo do governo em querer sabotar e acabar com o estudo de Filosofia na rede estadual de ensino do Amazonas. Parece vingança de Gedeão, que fora derrotado pela Associação dos Sociólogos do amazonas, que juntamente com os professores e  de maneira pacífica conquistaram a realização de aulas de filosofia nos três anos consecutivo do Ensino Médio. Revoltado com esta situação, o secretário em questão, agora persegue professores que promovem a formação da cidadania.

Que moral tem este secretário para suspender professores? Secretário que emprega professores em condições sub-humanas através de processos seletivos e em cargas dobradas. Secretário que permite educadores sofrerem constrangimentos  e vexames na hora das chamadas renovação de contratos, onde os professores são forçados a curvarem a cabeça e a submeter-se a avaliações inadequadas feitas por seus diretores que também são professores e a cada eleição transformam-se em meros cabos eleitorais fazendo da escola  trampolim eleitoral.”

Além do Manifesto, o professor Ivan do Nascimento e demais educadores traçam o quadro tanático do ensino no Estado do Amazonas e indagam porque no último resultado do Exame Nacional do Ensino Médio fomos os piores. Como causa,  indicam: processo seletivo contínuo, concurso público de 2011 ainda não concluído mas que não atenderá ao número de vagas; silêncio do SINTEAM que se encontra vendido ao governo; silêncio das massas; questão salarial, gestão escolar e estrutura física das escolas.

A educação no Amazonas tem sido tema constante neste blog. Nos últimos dias abordamos a questão da inutilidade que é comitiva da SEDUC-AM participar de Mostras de Painéis quando há outros mecanismos de avaliar o desempenho de uma escola como através da própria internet e do SADEAM, especificamente. Tratamos da educação municipal com o prefeito  cassado, distribuindo prêmios e fazendo promessas.

A atitude do professor Ivan do Nascimento, numa escola conservadora, inerte, fechada, para o sistema é um vexame. Vexame para a direção da Escola e de seus pedagogos que pelo visto não acompanham o planejamento dos professores, pois se o acompanhassem teriam visto que o mesmo havia colocado no seu plano de aula o tema Filosofia e Cidadania e como parte prática a coleta de assinaturas num abaixo-assinado exigindo a reforma da escola. Teriam discutido, refletido sobre a proposta. Como não há planejamento e cada professor faz o seu, acontecem situações como essas. O professor fugiu da aula desértica, da aula do livro. O professor foi para a aula prática e cidadania é práxis, é vivência e o viver daquilo que estudou, leu e com a razão, distancia-se e refletindo, participa da vida coletiva. Exigir a reforma de uma escola degradada, sem condições, sem quadra para a prática de esporte não pode jamais ser considerado como crime e que sem dar o direito de defesa, punir o profissional com suspensão como se aluno fosse. Escola não é lugar para punição, nem de professor, nem de aluno ou de quem quer que seja. Em havendo tais arbitrariedades,  significa que não possuímos escolas democráticas e por isso nossos índices nas avaliações nacionais dão sinais de que há muita coisa errada na educação do Amazonas.

PROFESSOR DE FILOSOFIA DA USP DIZ QUE ATAQUES NAS REDES SOCIAIS CONTRA LULA É OBRA DA “DIREITA RESSENTIDA”

O professor de filosofia Vladimir Safatle da Universidade de São Paulo (USP) em entrevista ao site Brasil Atual analisou a fúria odienta que invadiu as redes sociais com mensagens nazistas contra o presidente Lula. Um verdadeiro quadro psiquiátrico próprio do discurso da mente dos indivíduos psicopatas que vai de representante da juventude (?) do PSDB passando pela voz ecolálica do poder capitalista, Lúcia Hipólito, que se tomou como a campeã da moral e médica ao atribuir ao próprio Lula à causa de sua doença. Doença que não é dele, é claro, mas do homem. Toda doença é do Homem. Só os estúpidos como os que vociferam psicopaticamente acreditam que a doença é de uma pessoa.

“Não é surpresa o abuso da fala do presidente, que jamais teve um exercício de fonoaudiologia, e estava no palanque todo santo dia, tabagismo e alcoolismo”, disse a amestrada das Organizações Globo engrossando o surto dos psicopatas sociais.

Para Vladimir Safatle, que “existe um setor da vida nacional que se aproveita dos sentimentos mais arcaicos para expressar sua incompreensão completa com o que está em jogo na sociedade brasileira”.

Quais as motivações para os comentários contra o ex-presidente Lula?

Tem duas coisas interessantes para se pensar. Com o advento da internet, o que aconteceu em larga medida foi que o conjunto de opiniões que são extremamente preconceituosas, que muitas vezes beiram o racismo, a xenofobia e coisas da mesma natureza, foram tendo o direito de cidadania. Porque a internet garante o anonimato das opiniões. Pode-se fazer uma apologia do nazismo em um comentário que isso não vai redundar em nada porque você tem várias maneiras de aparecer como anônimo. Claro que tem sempre esse tipo de mediação feito pelos servidores, mas a internet entrou em um processo de radicalização de opiniões. Muitas vezes ela não serve como um fórum de debates, ela serve como um caso de injúrias.

Nesse caso, além disso, o ex-presidente Lula é uma personalidade que desperta amor e ódio. Fenômenos dessa natureza acabam permitindo que esses sentimentos contrários aflorem.

Por que Lula desperta essa relação de amor e ódio?

Queira ou não, é uma das figuras mais importantes da história brasileira desde 1945. Independente do julgamento que se possa faz do presidente Lula, esse aspecto é inegável. Foi o único presidente eleito na história do Brasil que conseguiu eleger seu sucessor de maneira democrática. Isso demonstra, entre outras coisas, uma posição muito privilegiada dele no cenário político brasileiro. Daqui para a frente, muito do que acontece vai ser em função dele. De como se posicionar frente a Lula, do pós-Lula, questões dessa natureza. Não me parece estranho que seja um personagem que desperta tanta controvérsia de opiniões.

A origem humilde e a vida sindical alimentam essa parcela do ódio?

É difícil dizer porque não vi o perfil desses tipos de comentários. O que se sabe é que há um histórico de violência não só em relação a ele, mas à esquerda em geral, por parte de setores da vida nacional que colocam todos no mesmo balaio e fazem afirmações das mais radicais. Basta ver os posts sobre questões ligadas à ditadura militar, que são da ordem do medonho, dizendo que eram bandidos, que tinham de ser torturados. Me parece que é mais uma das manifestações muito recorrentes, cada vez mais por conta da internet, de uma certa parcela da direita brasileira que é muito ressentida com a presença da esquerda na vida política nacional.

Coincidentemente, isso ocorreu um ano após as manifestações contra nordestinos nas redes sociais.

É a vida política nacional no seu nível mais raso. Acredito que esse tipo de opinião, pelo menos de maneira explícita, é veiculada por uma minoria, que grita muito, mas pelo menos não é muito grande – isso de maneira explícita. Aquilo decorreu da visão de que o Brasil havia sido dividido eleitoralmente, o que era uma meia verdade porque as votações do PT foram expressivas em todos os estados. Existe um setor da vida nacional que se aproveita dos sentimentos mais arcaicos para expressar sua incompreensão completa com o que está em jogo na sociedade brasileira.

Qual o papel da imprensa na formação do imaginário sobre Lula nestes setores da sociedade?

Uma questão da democracia é que sempre será preciso tolerar um pouco isso. Tem um setor da imprensa nacional extremamente agressivo no que diz a respeito de seus oponentes porque se vê como perseguido, que gosta de se utilizar dessa figura, e que no fundo usa dos expedientes retóricos mais crassos possíveis. Nesse sentido, nada disso me impressiona muito. Até porque uma doença de um ex-presidente é tratada em qualquer lugar do mundo da maneira mais serena possível. Existe todo um imaginário em torno das doenças dos políticos, sempre há muita especulação porque se for alguma coisa grave o político sai de cena. Uma figura como o Lula, se sai da vida política, traz uma série de consequências muito importantes. Desde a época da finada União Soviética que não se sabia nada sobre a saúde dos políticos. Faz parte da esfera política essa questão sobre a saúde.

MINISTRA QUER QUE PROPAGANDA EM QUE APARECE GISELE BÜNDCHEN USANDO SEU CORPO PARA VENDER LINGERIE SEJA SUSPENSA

Para o filósofo Marx, quando o dinheiro compra a força de produção do operário e a transforma em mercadoria refletida em salário fetichizado, está instituído o capital nas relações sociais. O capital, como dinheiro signo-fetiche, submete a força de produção do operário a um estado reificado em forma de mais-valia. Ou seja, o operário passa a ter um valor que não reflete sua força de produção. O mesmo ocorre com todos os objetos-mercadorias. Nunca eles são o que são, mas somente um valor de referência reificada. Ou, em outra linguagem – mas na mesma -, a mercadoria é clivada como um valor de lucro. Assim, em sua lógica predadora, o capitalismo sobrevive da transformação de tudo em mercadoria lucrativa. Para ele, só interessa o que ele pode clivar como mercadoria-lucro.

Quando uma mulher submete seu corpo à vitrine especulativa do capital, ela já há muito é uma mercadoria clivada como referência lucrativa. E não adianta ela afirmar que se trata de seu corpo e ela faz dele o que quiser, porque ele não lhe pertence e nem ela faz o quiser com ele. Ele é uma mercadoria reificada como signo-sensual de sedução da sociedade de consumo. Ele carrega um valor monetário. Sua função é tão somente ajudar a azeitar à maquina trituradora dos corpos e mentes fetichizados.

Portanto, o corpo-mercadoria não tem sexo. Todas as indicações biológicas desse corpo foram dissipadas pela clivagem-capital. Não há vagina, seios, bunda, pênis, boca, rostos, nada. Tudo foi substituído pela fantasmagoria da simulação, como afirma o filósofo Baudrillard. Fingir ter o que não se tem. Fingir ter uma vagina, seios, através do lingerie quando nada mais há no local dissipado pelo capital, visto que ele próprio não tem essência e nem existência concreta que se possa afirmar sensorial e racionalmente. É como no filme pornô: não há sexo. Existem poses-eróticas sem sexo.

Este, o perigo, sem qualquer moralismo burguês ou esquerdista, da exibição do capital-erótico nos meios de comunicação diante de crianças, que estão constantemente submetidas às investidas da sociedade de consumo, como se essas mercadorias fossem necessárias para elas serem felizes. Ainda mais quando esse capital-erótico é exibido por alguém que foi fabricada pela sociedade de consumo como um ícone para o propósito da mídia simuladora, como é o caso da modelo – nada da filosofia de Platão – Gisele Bündchen.

Por esta perspectiva e exame, a ministra Iriny Lopes, da Secretaria de Políticas para Mulheres, encontra-se bem fundada quando pretende que seja suspensa a propaganda – “a arma do negócio” – em que Gisele Bündchen, como instrumento capitalista de sedução, usa seu corpo para vender sutiã e calcinha, ensinando o “charme da mulher brasileira”, como diz a Hope, empresa que lhe paga. Por tal, a ministra recorreu ao Conselho de Autorregulação Publicitária (Conar) para tratar da suspensão da propaganda.

Segundo a ministra, já foram mais de seis reclamações que seu ministério recebeu para que a propaganda seja retirada. Além de que, ainda segundo a ministra, a propaganda fere os artigos 1º e 5º da Constituição Federal, que tratam da dignidade da pessoa humana e da igualdade perante a lei. As queixas apresentadas para que a propaganda seja retirada é que ela reforça o estereótipo da mulher como objeto sexual – se dissesse assexuado seria mais certo – e ignora a conquista da sociedade contra o sexismo.

Por seu lado, exibindo a inteligência própria de quem é do ramo da publicidade, a empresa Hope argumentou que o objetivo da propaganda era mostrar, de forma bem-humorada, que a sensualidade da mulher brasileira – um verdadeiro chavão discriminador – pode ser uma arma eficaz. E que seria um absurdo a empresa, que vive da preferência das mulheres, tomar qualquer atitude depreciativa contra as mulheres.

Certa vez o escritor George Orwell afirmou que a propaganda é o fruto mais sujo do capitalismo. Nos parece que ele também poderia afirmar que não há vida inteligente na publicidade. As declarações da Hope confirmam exatamente isso. O que ela entende de preferência da mulher é só a confirmação de Marx sobre a lógica do fetiche propagada pelo dinheiro. A mulher, para a Hope, é nada mais que uma mercadoria, seja ela Bündchen ou seja ela a consumidora.

AMAZONINO E SUA MANAUS VIRTUAL

I – As Teorias da Virtualização

O filosofo francês Pierre Lévy, seguidor da teoria do virtual, possível, atual e real do filósofo Deleuze, ao desdobrar os pressupostos deleuzianos, estabeleceu a certeza de que o processo da virtualização, com suas teletecnologias, pode auxiliar profundamente na criação de novos saberes ligados às novas formas de relações e produções sociais. Ou seja, Pierre Lévy acredita que essas teletecnologias são instrumentos capazes de criar facilidades na ordem da administração e direção dos componentes sociais.

Já para os filósofos Jean Baudrillard e Paul Virilio, essas novas teletecnologias são em verdade agentes do desaparecimento das potências criativas do homem. Elas contribuem para desaparecimento da experiência sensorial e mental, fundando o vazio com suas imagens e ideias simulacros – que substituem o real – forjadas fora da percepção direta que se realiza em um campo composto de figura e fundo, o fundamento do conhecimento. Para os dois filósofos, o que predominam são imagens virtualizadas alienadas do campo da troca e suas equivalências. O sujeito e o mundo, com seus atributos naturais relevo, velocidade, lentidão, movimento e repouso são despojados dos sentidos e sua mente produtiva. Propriedades necessárias para o conhecimento humano. Espaço, tempo, campo de profundidade, ação, relação, alternância, fatores do conhecimento humano desaparecem no ato da virtualização.

O filósofo Pierre Lévy tem razão em sua defesa da teoria da virtualização quando manifesta a necessidade do uso dessas teletecnologias com o objetivo não de substituir a realidade, mas como fator pedagógico capaz de produzir problemas e através de suas conclusões estabelecer redes de conhecimentos que sejam eficazes nas relações sociais. O que ainda não foi absorvido na maior parte da prática contemporânea.

Entretanto, o que se tem observado é a proliferação em todos os quadrantes da sociedade os pressupostos apresentado pelos filósofos Baudrillard e Virilio. Contestando os seus desafetos, que os chamam de filósofos da catástrofe. O mundo vem se tornando virtual. De Big Brother ao filme pornô, passando pelos candidatos aos cargos legislativos e executivos. A realidade de uma sociedade do simulacro vem se alastrando em todas as formas ditas de comunicação que nada comunicam, pois não tem matéria para comunicar. Disseminou-se um mercado onde o irreal está sendo vendido como real. O shopping virtual se alastra em sua obscenidade-replicante na televisão, nos computadores, nos meios de comunicação e, pateticamente, nas escolas, como verdadeiro acinte e violência aos estudantes.

A regra é simular e dissimular, como diz Baudrillard. Fingir ter o que não se tem, e fingir não ter o que se tem. No primeiro caso, o fingir persegue a afirmação de que tem realidade. No segundo, finge não ter o vazio. Usados em política antidemocrática, o primeiro serve para toda forma escamoteadora de publicidade, e o segundo para esconder o cretinismo hipócrita.

II – A Dissipação da Cidade de Manaus

O prefeito de Manaus, Amazonino Mendes, cassado em primeira instância pela proba juíza Maria Eunice Torres do Nascimento, depois de fazer uma campanha eleitoral mostrando os erros administrativos de seu antecessor, ex-prefeito Serafim (PSB), caiu na mesma incongruência administrativa que já havia apresentado aos amazonenses quando fora prefeito biônico e governador por três vezes.

A cidade de Manaus – que nunca foi filosoficamente uma cidade, visto que jamais foi à expressão das potências de todas as famílias, mas somente dos interesses das famílias dos governantes e apaniguados – é hoje um cenário muito pior do que na gestão Serafim. Todas as necessidades básicas da população não seguem os princípios democráticos dos direitos que fazem de seus habitantes cidadãos, mas tão somente servos, como dizem os filósofos Spinoza/Negri. Do transporte coletivo à escola, saltando pelos atávicos buracos das ruas, tudo se encontra fora do que se chama filosoficamente de cidade, morada democrática dos cidadãos. Polis da associação, do diálogo e da amizade, como pensam os filósofos Guatarri/Deleuze sobre a democracia grega.

Mas eis que se aproximam as eleições, e como Amazonino foi liberado pelo ministro Marcelo Ribeiro em seu processo de cassação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por causa de um histórico lamentável cochilo do MPE/AM, ele já se colocou como candidato do PDT – ai, ai, ai, Brizola, secou o chimarrão? – à reeleição. Então, em processo de campanha antecipada, dissimulada em prestação de contas de sua gestão à população manauara, Amazonino recorreu às teletecnologias virtuais e gravou um DVD com imagens de uma cidade que ele apresenta como Manaus. Uma cidade virtual, que dissimula o real da cidade cotidiana da população amazonense. Principalmente a parte que cabe aos bairros. A parte que mais depende de uma administração democraticamente pública.

Como o virtual não pode substituir o real quando ele é materializado pelos sujeitos concretos, sujeitos históricos, como diz Marx, e como a população de Manaus experimenta em seu cotidiano as agruras produzidas pela ausência de uma administração real, ela, ao tomar ciência do DVD, anda gargalhando do espetáculo virtual promovido pelo prefeito da cidade virtual. A cidade é tão virtualmente perfeita que a população dos bairros – onde fica o maior número de eleitores – vem dizendo que não gostaria de morar nesse topos cibernético, pois nada que desperte a dimensão ativa dos habitantes é sugerido nela de tão virtual que é. Na verdade não é uma cidade, mas sim o paraíso. E paraíso na terra é angustiante. Puro tédio.

O certo é que o prefeito Amazonino, com sua Manaus virtual, conseguiu atingir dois pontos decorrentes de sua investida na virtualização. Um, é que se ele acreditava que o DVD ia lhe conferir eleitores, esse ponto pode ser descartado. A reação de quem entrou em contato com o DVD confirma o contrário. O que pode acontecer é ele ser prefeito de sua cidade virtual, já que ele, nesse momento, ocupa duas prefeituras: a prefeitura da Manaus real, do descaso, e a prefeitura da Manaus virtual, a da aparência. Dois, é que ele, por tanto querer ser tomado como intelectual e amante dos pensadores, conseguiu o intento. Realizou os pressupostos das filosofias de Baudrillard e Virilio: a virtualização realiza o desaparecimento do real.

DIÁLOGOS COM O FILÓSOFO ZYGMUNT BAUMAN – FRONTEIRAS DO PENSAMENTO 2011

Nouriel Roubini: ‘Karl Marx estava certo’

Há um velho axioma que diz que “sábia é a pessoa que aprecia a sinceridade quase tanto como as boas notícias”, e com ele como guia, situa decididamente o futuro na categoria da sinceridade.

O professor de economia da Universidade de Nova York, doutor Nouriel Dr. Catástrofe Roubini disse que, a não ser que haja outra etapa de massivo incentivo fiscal ou uma reestruturação da dívida universal, o capitalismo continuará a experimentar uma crise, dado o seu defeito sistêmico identificado primeiramente pelo economista Karl Marx há mais de um século.

Roubini, que há quatro anos previu acuradamente a crise financeira global disse que uma das críticas ao capitalismo feitas por Marx está se provando verdadeira na atual crise financeira global.

A crítica de Marx em vigor, agora

Dentre outras teorias, Marx argumentou que o capitalismo tinha uma contradição interna que, ciclicamente, levaria a crises e isso, no mínimo, faria pressão sobre o sistema econômico. As corporações, disse Roubini, motivam-se pelos custos mínimos, para economizar e fazer caixa, mas isso implica menos dinheiro nas mãos dos empregados, o que significa que eles terão menos dinheiro para gastar, o que repercute na diminuição da receita das companhias.

Agora, na atual crise financeira, os consumidores, além de terem menos dinheiro para gastar devido ao que foi dito acima, também estão motivados a diminuírem os custos, a economizarem e a fazerem caixa, ampliando o efeito de menos dinheiro em circulação, que assim não retornam às companhias.

“Karl Marx tinha clareza disso”, disse Roubini numa entrevista ao The Wall Street Journal: “Em certa altura o capitalismo pode destruir a si mesmo. Isso porque não se pode perseverar desviando a renda do trabalho para o capital sem haver um excesso de capacidade (de trabalho) e uma falta de demanda agregada. Nós pensamos que o mercado funciona. Ele não está funcionando. O que é racional individualmente … é um processo autodestrutivo”.

Roubini acrescentou que uma ausência forte, orgânica, de crescimento do PIB – coisa que pode aumentar salários e o gasto dos consumidores – requer um estímulo fiscal amplo, concordando com outro economista de primeira linha, o prêmio Nobel de economia Paul Krugman, em que, no caso dos Estados Unidos, o estímulo fiscal de US$ 786 bilhões aprovado pelo Congresso em 2009 era pequeno demais para criar uma demanda agregada necessária para alavancar a recuperação da economia ao nível de uma auto expansão sustentável.

Na falta de um estímulo fiscal adicional, ou sem esperar um forte crescimento do PIB, a única solução é uma reestruturação universal da dívida dos bancos, das famílias (essencialmente das economias familiares), e dos governos, disse Roubini. No entanto, não ocorreu tal reestruturação, comentou.

Sem estímulo fiscal adicional, essa falta de reestruturação levou a “economias domésticas zumbis, bancos zumbis e governos zumbis”, disse ele.

Fora o estímulo fiscal ou a reestruturação da dívida, não há boas escolhas

Os Estados Unidos, disse Roubini, pode, em tese: a) crescer ele mesmo por fora do atual problema (mas a economia está crescendo devagar demais, daí a necessidade de mais estímulo fiscal); ou b) retrair-se economicamente, a despeito do mundo (mas se muitas companhias e cidadãos o fizerem junto, o problema identificado por Marx é ampliado); ou c) inflacionar-se (mas isso gera um extenso dano colateral, disse ele).

No entanto, Roubini disse que não pensa que os EUA ou o mundo estão atualmente num ponto em que o capitalismo esteja em autodestruição. “Ainda não chegamos lá”, disse Roubini, mas ele acrescentou que a tendência atual, caso continue, “corre o risco de repetir a segunda etapa da Grande Depressão”—o erro de ‘1937’.

Em 1937, o presidente Franklin D. Roosevelt, apesar do fato de os primeiros quatro anos de massivo incentivo fiscal do New Deal ter reduzido o desemprego nos EUA, de um cambaleante 20,6% na administração Hoover no começo da Grande Depressão, a 9,1%, foi pressionado pelos republicanos congressistas – como o atual presidente Barack Obama fez com o Tea Party, que pautou a bancada republicana no congresso em 2011 – , rendeu-se aos conservadores e cortou gastos do governo em 1937. O resultado? O desemprego estadunidense começou o ano de 1938 subindo de novo, e bateu a casa dos 12,5%.

Cortar os gastos do governo prematuramente feriu a economia dos EUA em 1937, ao reduzir a demanda, e Roubini vê o mesmo padrão ocorrendo hoje, ao se seguir as medidas de austeridade implementadas pelo acordo da dívida implemented by the U.S. debt deal act.

Roubini também argumenta que os levantes sociais no Egito e em outros países árabes, na Grécia e agora no Reino Unido têm origem econômica (principalmente no desemprego, mas também, no caso do Egito, no aumento do custo de vida). Em seguida, argumenta que, ao passo que não se deve esperar um colapso iminente do capitalismo, ou mesmo um colapso da sua versão estadunidense, o capitalismo corporativo – capitalismo e mercados livres são rápidos demais e capazes de se adaptarem – dizer que a ordem econômica atual não está experimentando uma crise não é correto.

Tradução: Katarina Peixoto

NIETZSCHE PARA CHÁVEZ

De todos os filósofos que trataram a tese doença, ou enfermidade, foi o filósofo alemão Nietzsche quem melhor enunciou com brilhantismo e profundidade. Ou seja, a doença como a potência da saúde. Foi ele quem viu e sentiu na doença a potência da vontade de vida. Não a vontade de querer viver psicológico, ou religioso, mas a vontade como a competência e íntima ação da vida. Daí, Nietzsche, que sempre era acometido de alguma doença, ou enfermidade, sair do estado da dor em vigor. A bem-profunda disposição.

Foi sua filosofia da vontade de potência, que é a vida, o viver alegre, o que se processa distributivamente que alguns filósofos conceberam a doença, ou enfermidade, não como mal, castigo, provação, dor, mas como um signo que anuncia a vida que se pretende movimento. Nisso a saúde, ou cura, não surge apenas como estado de satisfação, mas manifestação da ação da vida, que antes parecia em estado de entropia. Imobilizada.

Foi esse entendimento médico-filosófico de Nietzsche que levou o filósofo Deleuze a conceber a doença também como manifestação da vontade de potência. Diz Deleuze, amparado pelo filósofo alemão, que todos que veem muito – e aí ele se refere aos não-filósofos, como Nietzsche, entre poucos – têm uma saúde frágil. Porque a vida passa mais como potência criativa neles. Nietzsche viu muito. Claro, ver não é o que já se encontra posto como referência-mundo, mas o devir-vida. O que ainda vai se tornar o novo pelo processual produtivo. Deleuze, assim como Nietzsche e Spinoza, também tinha uma saúde frágil.

Hoje, dia 14 de julho, queda da Bastilha, da nostalgia histórica da Revolução Francesa que não se fez revolução, a não ser para a burguesia, o presidente da Venezuela, cuja seleção se encontra classificada para a segunda faze da anti-bolivariana Copa América, dada a mediocridade reinante, Hugo Chávez, em comunicação com seus patrícios, citou o filósofo Nietzsche. Não citou só o filósofo alemão, mas também, sem citar, o escritor Aldous Huxley.

Chávez diz que se encontra lendo Nietzsche, Assim Falava (ou Falou, dependendo da tradução) Zaratustra. Se ele entende ou não o filósofo, o que importa é que ele manifestou para seus conterrâneos a importância da filosofia em todos os momentos da existência. E que ela trata da vida e não da morte, a tese suprema do capitalismo. A morte como sociedade tanática. Chávez, ao enunciar Nietzsche, confirmou que a filosofia é a práxis da vida. Ao mesmo tempo que trouxe Marx para o povo venezuelano: “A filosofia não é exterior ao mundo.”

Olá. Admirável mundo novo. Bom dia, vamos continuar a vida. Eu falo do meu quartel. Com o toque da alvorada, eu começo minha batalha. Vamos viver e vencer.

Então, no entanto a vida tem sido mais querida do que jamais foi toda minha sabedoria”, twittou Chávez.

Esse bloguinho intempestivo já havia composto com Nietzsche para enunciar posições de Chávez em sua doença, ou enfermidade. Agora Chávez cita o filósofo da vida. Ou ele estuda mesmo Nietzsche ou foi mero acaso.

FERNANDO HENRIQUE SE PERMITIU CHEGAR AOS 80 ANOS PARA REVELAR QUE FOI ELE QUEM ASSINOU O SIGILO ETERNO DOS DOCUMENTOS

Um dos grandes pressupostos da filosofia, principalmente em Marx, é o envolvimento com os falsos problemas. Na história, sociedades inteiras, grupos e indivíduos tiveram seus crescimentos e suas liberdades obstaculizados por terem cultuado falsos problemas. Muitos deixam os falsos problemas dirigir suas existências em função de não poderem criar para si uma existência autêntica. Seria a lógica: é melhor existir com falsos problemas do que com nenhum.

Nas últimas semanas, o governo federal, o Congresso Nacional, o Poder Judiciário e a sociedade civil vêm se debatendo com o problema dos chamados documentos sigilosos do país. A questão está em se saber se o governo deve ou não tornar público esses documentos que tratam dos mais simples acordos do Brasil até as suas relações exteriores. Se o sigilo deve ser parcial ou total, ou se não deve ter sigilo. Ou seja, tudo deve ser publicado para que a sociedade seja informada das ações da história oficial do Brasil. E como dizem alguns: impedir que os documentos se transformem em conteúdos do WikiLeaks.

Pois eis que ao chegar ao Congresso Nacional, hoje, dia 30, para ser homenageado pela passagem de seus 80 anos, 8 de destruição do Brasil, mas de sua maior glória narcísica, Fernando Henrique, o “príncipe” sem principado, revelou a causa do falso problema que hoje é tema central das discussões ditas políticas nas hostes brasileiras.

Foi sem saber. Era o último dia e tinha uma pilha de papéis para assinar”, confessou o “príncipe” sem principado que fora o criador do falso problema. Fernando Henrique assinou o decreto que garante sigilo “eterno” dos documentos oficiais. Um presidente que assinou um documento sem ler, como ele diz, “sem saber”, leva ao público “chavesano” (irmão do Chapolin Colorado) todo o direito imaginativo de dizer que foi “sem querer, querendo”.

Mas hoje, dia 30, para tirar as broncas, e limpar sua barra reacionária – que não vai limpar -, o “príncipe” sem principado disse que “essa garantia de segredo eterno já não é necessária”. Só que passaram mais de 8 anos para ele confessar a autoria do falso problema.

A confissão atrasada de Fernando Henrique só vem fortalecer o que se sabe dele desde os tempos da ditadura, quando ele explorava a fama de Lula para se projetar. Naquelas épocas já se sabia que ele era um vaidoso oportunista. E como poderia dizer o filósofo dos Afetos, Spinoza, que todo vaidoso tem uma ideia “superior de si mesmo”, o “príncipe” sem principado, quando presidente, tinha a ideia de si tão superior que, para si, ele era uma entidade deificada. Daí, tudo que fizesse estava certo. Por isso, como um “deus” assinava papéis sem saber do que se tratava.

Se Deus não falha, por que ele, Fernando Henrique, haveria de falhar?

PARLAMENTARES EVANGÉLICOS E CATÓLICOS UNIDOS CONTRA A RAZÃO PRATICAM HOMOFOBIA, MAS LADY GAGA, SPINOZA E NIETZSCHE…

Lady Gaga, em um de seus shows, cantando e dançando sob as pernas de um de seus bailarinos, diz que ele ama garotos e garotas. É como Cristo, ama todos. Parlamentares da chamada bancada evangélica e católica, sem qualquer conhecimento sobre o tema que Lady Gaga tem conhecimento, se reuniram ontem, dia 1º, com seus fiéis, no Congresso Nacional para protestarem contra a aprovação do projeto de lei que criminaliza a homofobia, e aprovação de um projeto de decreto legislativo para suspender a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que reconheceu a união estável do mesmo sexo.

O filósofo Spinoza, que viveu no século XVII, e logicamente não conheceu Lady Gaga, mas que teve um entendimento símile ao da cantora/dançante, e que por isso foi excomungado pela mesma crença que os malafaias imaginam defender, disse que o mais baixo grau de inteligência é o responsável pela criação no homem de um mundo cheio de medo e ódio, com profunda distância do mais alto grau de inteligência que é produzido pela razão.

O que Spinoza queria dizer é que aprisionados pela imaginação fabulosa saída do mais baixo grau da inteligência, certos homens tornam-se prisioneiros de suas próprias superstições que os colocam na condição suprema de escravos, auxiliares diretos dos tiranos, que também se encontram fabulados nesses mais baixos graus de inteligência.

É aí que se encontram os disangélicos. Os que carregam consigo a má mensagem, a mensagem da dor, do ressentimento, da amargura, rancor, julgamento, cobrança, dívida, todos os afetos que mostram a condição triste de quem vive no medo produzido pela imaginação fabulosa, como diz o filósofo Nietzsche. Nisso a disposição anêmica de querer julgar os homoafetivos como se fossem os mais próximos da inteligência e vontade de Deus. Na verdade, seus atos discriminadores mostram o quanto se rivalizam com Ele, visto, que como bem disse Lady Gaga, Ele ama todos. E por incrível que pareça, até os disangelistas. Certo que possivelmente com ressalvas. Ressalvas do tipo: “Se queres entrar no Reino do Senhor, muda tua consciência. Entra primeiro no Reino da Razão. Posto que se te dei a Razão é para usá-la. Ou será que não sabes que também és racional?”.

No mais, o filosofo Spinoza, que afirmou que a grande importância da Bíblia está em ela ser um tratado político do Estado Hebreu, portanto, preenchido de enunciações racionais e não fabulosas, apesar das fantasias milagrosas, sintetizando a escolha que os disangelistas fizeram em se tornar escravos, alimentos dos tiranos, disse: “O medo é a origem, o alimento e permanência da superstição”. É essa a arma dos que perseguem os homoafetivos: o medo. E um dos piores medos: o medo da existência do outro. Daí essa perseguição paranóica exacerbada como se os homoafetivos fossem destruir o mundo. Daí, essa moral irracional que pretende anular o Estar-Ontológico do outro. E tudo em nome de Deus.

Que blasfêmia! Ah, se Deus fosse vingativo! Mas não é. Se assim fosse não seria Deus, seria um tirano. Deus não trama vingança, mesmo vendo que esses disangelistas querem usurpar seu trono, pretendendo diante dos incautos serem mais semelhantes a Ele, quando pela própria recusa do outro, o próximo, confirmam que são o simulacro. O que finge ser o que não é.

ZÉ ALENCAR, POR ONDE A VIDA PERCORRE EM INFINITO COMO DEVIR QUE NÃO MORRE

Há duas formas de se conceber a vida. Uma, pelos recursos dos artifícios, o conceito cultural. Outra, pela naturalidade como potência contínua de existir. Enquanto a primeira se mostra como referência das produções dos homens, em enunciados antropológico, científico, econômico, social, político, estético, religioso, etc, a segunda se mostra como produção filosófica.

A vida biológica é para a ciência uma revelação consignada na semiologia de seus postulados. A vida está codificada e decodificada pela semiótica científica. No caso de doenças, ela diagnostica e traça terapias. Quando seus recursos interpretativos se mostram ineficazes, ela enuncia sua sentença final: morte. Assim, vida para a ciência não é nada mais do que respostas de seus enunciados selecionadores e classificadores.

Mas nos quadros interpretativos, que seguem uma enunciação valorativa, a vida salta supersticiosamente das consignações biológicas e é apresentada como discurso mítico-místico. O discurso que permeia a semiologia biológica, um falso confronto, visto que as enunciações míticas-místicas, no final, prevalecerão. Aqui, não há morte, mas somente uma passagem. Assim enunciam as religiões.

Esse Bloguinho Intempestivo, durante todo o tempo em que o ex-presidente José Alencar, o Amante da Vida, Zé da Vida, vivenciou as terapias para combater a enfermidade que tentava subtrair seu ser-biológico sempre o teve como um homem que sabia que a vida não é um pressuposto cientifico, como também não é uma cognominação mítica-mística, mas que ela precede as produções e as enunciações culturais humanas como um a priori, e se movimenta para além como infinito a posteriori. Que é vida, por ser um processual criativo infinito. Um para além metafísico que escapa ao homem. A potência poiética que possibilita a existência que os postulados científicos e míticos-místicos tomam como vida. A vida, como diz o filósofo Spinoza, como Substância, com seus atributos, e modus de ser, manifestados não só no chamado homem, mas também em todos os entes que compõem a Natureza-Naturante e a Natureza-Naturada. Adeus sive Natura. Deus é Natureza. O resto são cientificidades e mitificações-mistificações humanas demasiadamente humanas. E como diz o filósofo Nietzsche, o Devir, a Vontade de Potência.

De formas que o que esse Bolguinho Intempestivo sempre compôs com o companheiro Zé Alencar, Amante da Vida foram processuais criativos que ele manifestava nos episódios de internações. A vida se mostrando contra a doença. Vigor que traspassa a doença sem se deixar aprisionar, como diz Nietzsche. Ainda mais porque a doença do Amante da Vida não era um produção da vida, posto que a vida não adoece, era uma produção do homem. Uma produção arqueológica humana. Esse, o devir constantemente revolucionário do Amante da Vida. Não permitir que a patologia humana substituísse o mostrar-se da vida através de um conceito estranho à vida. O conceito de vida contido no acervo cultural do humano.

Assim, o Amante da Vida jamais nos mostrou a doença, mas tão somente o quanto ele é vida. O quanto ele se encontra encadeado em outras potências como devir processante infinitamente. Não havia obstinação em querer, vista por muitos quando de suas internações. Sua simples questão é ser vida, só isso. É provável que seus próprios médicos não tenham jamais visto esse modus de ser. Sabe-se, a medicina empurra seus postulantes para um território alienado da vida, por isso eles enunciam nada mais do que postulações. Enquanto o Amante da Vida continuava processando a persistência contínua da vida. O que impede os maus agouros – como se diz na linguagem afônica – da piedade, das condolências, das lágrimas carpideiras, da hipocrisia calculista.

O Amante da Vida sabia a potência que carregava. E o que carrega como vida que escapa às qualificações. “Josá Alencar, era um homem íntegro!” “José Alencar era um honesto companheiro, solidário com as causas do povo!” “Nuca vi um homem conta vontade de viver!” José Alencar não tinha inimigos, era um democrata!” Nenhuma qualificação o alcança.

Em sua inteligência coletiva, caosmótica, Natureza-Naturada, ele decifrou o enigma do filósofo Epicuro. “Quando estamos vivos é a morte que não existe, quando morremos somos nós que não existimos”. A vida é alegria!

Nova operação colonial contra a Líbia

Filosofo Domenico Losurdo

Não satisfeitos com o bloqueio solitário de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU condenando o expansionismo de Israel na Palestina ocupada, os Estados Unidos vêm hoje se apresentar novamente como os interpretes e campeões da “Comunidade internacional”. Convocaram o Conselho de Segurança, e não foi para condenar a intervenção das tropas saudistas em Bahrein, mas sim para exigir, e finalmente impor o lançamento da “no-fly zone” e outras medidas guerreiras em contra da Líbia.

Algumas medidas agressivas já eram tomadas unilateralmente por Washington e por alguns de seus aliados, como a aproximação da frota militar americana das costas da Líbia e o apelo ao instrumento clássico da política do canhão. Mas Obama não parou por aí: nestes últimos dias, vinha intimando tanto Khadafi de modo ameaçador a abandonar o poder e pressionava o exercito líbio a dar um golpe de Estado. Mais grave ainda, desde há algum tempo os agentes estadunidenses, juntos com os de França e Grã-Bretanha, vinham deixando os funcionários líbios diante de um dilema: ou passar para o lado dos rebeldes ou ser processado perante a Corte Penal Internacional e passar o resto de sua vida encarcerados por “Crimes contra a humanidade”.

A fim de dar cobertura à retomada das práticas colonialistas mais infames, o gigantesco aparelho mediático de manipulação e desinformação lançou sua campanha e, entretanto, basta ler com atenção a própria imprensa burguesa para perceber o engodo. Por exemplo, diz-se há dias que a aviação de Khadafi bombardeia a população civil. Mais em 1° de março, o jornal a Stampa escreve, pag. 6, e pela pena de Guido Ruotolo: “È verdade, provavelmente não houve bombardeio”. Mudou radicalmente a situação nos dias seguintes? Dia 16 de março, Lorenzo Cremonesi escreve de Tobruk no Corriere della Serra: “Como já aconteceu nas outras localidades onde interveio a aviação, o que houve são apenas raids de advertência”. “Eles queriam assustar; muito barulho por nada”, nos disse pelo telefone um dos porta-vozes do governo provisório. São portanto os próprios rebeldes que desmentem os “massacres” invocados para justificar a intervenção “humanitária”

A propósito dos rebeldes. Eles são celebrados dia após dia como os campeões da democracia em toda a sua pureza, eis porém a forma como foi relatada por Lorenzo Cremonasi, no Corriere della Serra do 12 de março, sua retirada frente à contraofensiva do exercito líbio: “Na confusão geral, acontecem também atos de pilhagem. O mais notório é o do hotel El Fadeel, de onde levaram televisores, colchões, cobertores, transformaram as cozinhas em lixeiras e os corredores, em acampamentos imundos”. Não parece ser o comportamento de um exercito de liberação, e o mínimo que se pode dizer é que a visão maniqueísta do conflito na Líbia não tem o menor fundamento.

Há mais. A cada dia denunciam as “atrocidades” da repressão na Líbia. Mas, falando de Bahrein, conta Nicholas D. Kristoff no International Herald Tribune: “No curso destas ultimas semanas, vi cadáveres de manifestantes, quase todos executados de perto por armas de fogo, vi uma moça retorcendo-se de dor após ter sido espancada, vi o pessoal das ambulâncias ser golpeado por tentar salvar manifestantes”. Um vídeo de Bahrein mostra o que parecem ser forças de segurança atingir com uma granada lacrimogênea um homem de meia-idade e desarmado, a poucos metros delas. O homem caí no chão e tenta levantar-se. Atiram então nele, na cabeça, com outra granada. Caso não seja suficiente, vale lembrar que “Nestes últimos dias, as coisas vão de mal a pior”. Antes mesmo da repressão, é na vida quotidiana que a violência se expressa; a maioria chiita é submetida a um regime de “apartheid”.

Para reforçar o aparelho de repressão, agem os “mercenários estrangeiros” com tanques de assalto, armas e gás lacrimogêneo estadunidenses. O papel dos Estados Unidos é decisivo, como o explica o jornalista do International Herald Tribune, ao contar um episodio por si esclarecedor: “Umas semanas atrás, um colega meu do New York Times, Michael Slackman, foi capturado pelas forças de segurança de Bahrein. Ele me contou que chegaram a apontar armas para ele. Receoso de alguém atirar nele sem mais nem menos, ele pega seu passaporte e grita que é jornalista dos Estados Unidos. A partir dali, o humor do grupo muda de repente. O chefe chega perto dele, aperta a sua mão e muito animado, lhe diz “Não se preocupe. Nós gostamos dos Estados Unidos!”

De fato, a Quinta Frota dos Estados Unidos tem base em Bahrein. Inútil dizer que tem como dever defender o impor a democracia: sempre que não seja em Bahrein ou mesmo no Yemen, e sim… na Líbia ou em algum outro pais que, por sua vez, entre na mira de Washington.

Por mais repugnante que seja a hipocrisia do imperialismo, não é uma razão suficiente para esconder as responsabilidades de Kadhafi. Embora tenha, historicamente, o mérito de ter acabado com a dominação colonial e as bases militares que intimidavam seu país, ele não soube montar uma camada dirigente bastante ampla. Além do mais, ele utilizou os lucros do petróleo para construir improváveis projetos “internacionalistas” sob a bandeira do “Livro Verde”, em vez de desenvolver uma economia nacional, moderna e independente. Perdeu-se assim uma chance única de pôr fim à estrutura tribal da Líbia e ao antigo dualismo entre Tripolitânia e Cirenáica, e de contrapor uma sólida estrutura econômico-social diante das manobras renovadas e às pressões do imperialismo.

E temos não obstante, de um lado, um líder do Terceiro Mundo que, de forma rústica, confusa, contraditória e bizarra, segue uma linha de independência nacional, enquanto, de outro lado, em Washington, um dirigente expressa de forma elegante, educada e sofisticada as razões do neo-colonialismo e do imperialismo. Somente um surdo à causa da emancipação dos povos e da democracia nas relações internacionais, ou então quem se deixa conduzir antes pelo esteticismo que pelo raciocínio político, pode alinhar-se com Obama, Cameron e Sarkozy!

Aliás, será tão elegante assim este refinado Obama que, embora condecorado com o premio Nobel da Paz, não leva sequer um instante em consideração a sábia proposição dos paises sul-americanos, ou seja o convite de Chávez e outros dirigido às duas partes em luta na Líbia para que elas se esforcem por chegar a uma solução pacífica do conflito, em benefício da salvação e da integridade territorial do país? Imediatamente após a votação da ONU, e indo ainda além da proposição que mal acabava de ser votada, o presidente dos Estados Unidos lançava um ultimato a Kadhafi, e teve a pretensão de agir em nome da “comunidade internacional”. Desde sempre, a ideologia dominante revela o seu racismo ao identificar a humanidade com o Ocidente; agora, desta vez, são excluídos da “Comunidade internacional” não apenas os dois paises cuja população é a mais numerosa, mas também um pais chave da União Européia. Quando se coloca como interprete da dita “Comunidade internacional”, Obama demonstra uma arrogância racista ainda pior do que aqueles que, no passado, reduziram os seus ancestrais à escravidão.

Será tão elegante e refinado este Cameron que, para vencer em sua casa a oposição à guerra, repete até a obsessão que ela responde aos “interesses nacionais” da Grã-Bretanha, como se o apetite em relação ao petróleo não fosse já bastante claro?

E que dizer enfim de Sarkozy? Nos jornais, pode-se ler tranqüilamente que, mais do que no petróleo, ele pensa nas eleições: quantos líbios o presidente francês tem necessidade de matar para que sejam esquecidos os seus escândalos, suas gafes, e tenha maior possibilidade de ser reeleito?

Os jornalistas e os intelectuais da corte gostam pintar um Kadhafi isolado, acuado por um povo unido; porém, para quem acompanha atentamente os acontecimentos, é fácil perceber o grotesco dessa representação. O voto recente no Conselho de Segurança desmascarou outra manipulação; aquela que inventa a fábula sobre uma “Comunidade internacional” unida na luta contra a barbárie. Na realidade, se abstiveram e expressaram fortes reservas a China, a Rússia, o Brasil, a Índia e Alemanha! Os dois primeiros paises não foram além da abstenção e não usaram o seu poder de veto por uma serie de motivos. Pois não sempre é fácil desafiar a superpotência solitária. Não se trata apenas disso e tanto China quanto Rússia conseguiram em troca que não se enviem tropas de terra (e de ocupação colonial); evitaram intervenções militares unilaterais de Washington e de seus aliados os mais próximos, semelhantes às intervenções contra a Iugoslávia em 1999 e no Irak em 2003; tentaram conter as manobras dos círculos mais agressivos do imperialismo, que gostariam deslegitimar a ONU e substituí-la pela OTAN e a Aliança das Democracias; enfim, apareceu uma contradição no seio do imperialismo ocidental conduzido pelos EUA, como o mostra o voto da Alemanha.

Ao fazer referência a um país como a China dirigida por um partido comunista, deve-se observar que o compromisso que ela quis aceitar em nada engaja os povos do mundo. Mao Zedong explicou em seu tempo que as exigências de política internacional e os próprios compromissos dos paises de orientação socialista ou progressista são uma coisa e outra coisa, por sua vez, é a linha política de povos, classes sociais e partidos políticos que não conquistaram o poder e por isso não estão engajados na construção de uma nova sociedade.´

Fica claro então que a agressão a Líbia torna mais urgente que nunca o ressurgimento da luta contra a guerra e o imperialismo.

*Tradução de Ana Maria Dávila

O FILÓSOFO NIETZSCHE E OS COMERCIANTES EXPLORADORES DAS VÍTIMAS DO RIO

O filósofo alemão Nietzsche diz que o espírito comercial se enraíza nos homens “que são incapazes de elevar-se a uma paixão que lhes dê amplos objetivos”. Esses são um gênero de homens cujo significado é o mesmo “dos escravos da antiguidade”.

Essa classe, que é repugnante para Nietzsche, de acordo com seu aforismo “sabe taxar tudo, é especialista nas necessidades do consumidor e, portanto, não é especialista em si mesma. Para tanto, possui um esquema para seu tipo de cultura: oferta e demanda por toda parte, logo, o valor de coisas e pessoas”.

O filósofo da Vontade de Potência oferece aos brasileiros atentos os signos necessários para entender a comportamento explorador dos comerciantes que estão usando o sofrimento e a necessidades das pessoas vítimas no estado do Rio de Janeiro para concretizar a lei maior do capitalismo: o lucro.

Às favas a dor alheia!”, posicionam-se esses especuladores do sofrimento em seus buracos negros da paranoia capitalista. Como são “especialistas nas necessidades do consumidor”, acirram a oferta diante da demanda criada pelo cataclismo. E não adianta protesto moralista cristão. Eles estão fazendo uso da abertura oferecida pela moral cristã do capitalismo. Tal qual estão fazendo os meios de comunicação, principalmente a “religiosa” Rede Globo. A única diferença é que o lucro não é concretizado instantaneamente, como a venda feita no exato momento pelos comerciantes, onde a moeda se faz real no momento da troca.

Para todos, não importa se as velas compradas são para iluminar o que sobrou das residências, para o culto aos parentes perdidos ou para servir de conteúdo de reportagens nos meios de comunicação. O que importa é que as velas com os preços majorados servem para o lucro tanto dos comerciantes de varejos e atacados, como para os comerciantes midiáticos.

É fácil compreender, com Nietzsche, porque esses comerciantes conduzem-se sordidamente. É que para eles o valor das pessoas, é o mesmo que das coisas. Das mercadorias. São as pessoas traduzidas no fetiche do dinheiro, da mesma forma que mercadorias.

E ainda tem intelectual que afirma que Nietzsche, em sua filosofia, falhou porque não tratou de política. Que respondam os comerciantes inescrupulosos do cataclismo do Rio de Janeiro e a Rede Globo, “escravos da antiguidade” permanentes na falaciosa pós-modernidade.

VERA FISCHER, ESCRITORA DE SI MESMA, DA MESMA FORMA QUE MUITOS ESCRITORES

O filósofo francês Jean-Paul Sartre, em sua obra O Que é a Literatura?, afirma que qualquer pessoa que saiba escrever pode ser um escritor. Sartre queria dizer que todos os alfabetizados escrevem, não importando o que se escreve. Mas Sartre não resumia banalmente o ato de escrever ao simples fato de fazer aparecer na folha de papel palavras escritas por quem está alfabetizado. Sartre sempre colocou o ato de escrever como um ato apolítico. O que forma uma literatura engajada. Uma literatura voltada para as situações que contam a liberdade do homem, muito diferente do simples ato do exercício caligráfico ou ortográfico. A responsabilidade do escritor está em colocar sua literatura comprometida com a existência e essência do homem. O homem Ponto Final, pensava Sartre.

O outro filósofo francês, Deleuze, diz que a literatura é vida, e não clínica, por isso não é escritor quem escreve com suas neuroses, que é escrito clínico. Deleuze diz que as neuroses das pessoas são enunciações capturadas na ordem da imagem do pensamento dogmático. Quem acredita escrever com suas neuroses não é escritor. Escritor é o que escreve por cortes, devires, hecceidades, rizomas, velocidades, lentidão, movimento e repouso. O novo. O ainda não assinalável. O ainda não posto como conhecido. Escrever com suas neuroses é apenas pôr o já posto para mais uma recognição. Ver o mesmo outra vez.

Já o filosofo Michel Foucault diz que se escreve para perder a fisionomia. Para não permanecer o mesmo. Não ser uma imagem multiplicada.

A ex-miss Brasil, e atriz de telenovela da Globo, Vera Fischer, depois de ser acusada por um jornal de São Paulo de haver dito que não escrevia para pobre, ontem, dia 21, em uma livraria da Gávea, no momento do lançamento de seu livro Serena, aproveitou para desmentir o que foi divulgado pelo jornal. “Fiquei muito magoada com a situação. Meu livro custa R$ 33, é barato, nunca disse isso e o povo brasileiro sabe que eu amo eles”.

Mas deixando a mágoa de Vera Fischer de lado, o que importa mesmo é seu entendimento de escritora. Vera diz que depois que escreveu suas memórias deu vontade de continuar. “Depois que escrevi minhas memórias deu vontade de continuar escrevendo. Escrevi dez livros em um ano e todos estão prontos”, afirmou a ex-miss, acrescentando que seu plano é “lançar um ou dois por ano”. Um nostálgico narcisismo.

Alguém, em tom professoral, pode dizer: “Esperar o quê da Vera Fischer?”. Sim, Vera escreve com suas neuroses, põe o já posto, mostra imagens imóveis, recognições do vazio do óbvio, nada é devir do não assinalável, nada do que põe é engajado, ou significa um ato político, tudo que apresenta é para confirmar mais ainda sua fisionomia, mas Vera não se encontra só quando se trata de literatura no Brasil, e no mundo. A maioria dos chamados escritores que carregam fama nacional, e alguns internacional, escrevem com suas neuroses e para solidificar suas fisionomias, para eles, necessárias ao mercado editorial. O que levava Deleuze afirmar que nessa condição literária é difícil surgir um novo Kafka, Beckett, Lawrence, Carmelo Bene, etc.

Um bom exemplo são as academias de letras. Seus imortais buscaram a imortalidade exatamente através de seus feitos dirigidos pela imagem do pensamento dogmático do Estado, onde não há o novo, só o já constituído. O sentimento e a forma. O modelo social que diz o que o indivíduo é. E que serve de fonte para as verves desses notórios escritores.

Como a ex-miss Vera Fischer, esses notórios escritores validam a enunciação do filósofo Sartre de basta saber escrever para ser um escritor. Ao mesmo tempo que deixam de ser escritores quando escrevem com suas neuroses – patético narcisismo -, como diz Deleuze, e quando fazem ostentação de suas fisionomias, como diz Foucault. Nesse quadro, é mais difícil encontrar um não-escritor, o que carrega devires, afetos e movimentos, do que um escritor, o que carrega a sentimentos e formas expressadas nas imobilidades das palavras petrificadas. O buraco negro da literatura.

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VIRTUALIZAÇÕES DESEJANTES DA AFIN

Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

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