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Neoliberalismo tingido de verde de olho na Rio + 20

Em entrevista à Carta Maior, a antropóloga e ambientalista Iara Pietricovsky adverte para os riscos do agenda da chamada economia verde na Rio+20. “O ambiente de crise financeira dos países ricos estaria jogando água no moinho da lógica neoliberal de enxugamento dos estados nacionais também na área ambiental e abrindo generosos parágrafos para o setor privado se credenciar como o principal gestor de um novo paradigma econômico e ambiental”, diz.

Rodrigo Otávio

Rio de Janeiro – A antropóloga e ambientalista Iara Pietricovsky faz parte do grupo de articulação da Cúpula dos Povos (evento das organizações não-governamentais que será realizado no Aterro do Flamengo em paralelo à Rio + 20) e tem acompanhado as negociações oficiais das Nações Unidas em Nova York para a redação do documento oficial a ser apresentado na Rio + 20.

O que ela tem visto não é animador. Em um ambiente de crise financeira dos países ricos, os rascunhos do documento abrigam a lógica neoliberal de enxugamento dos estados nacionais ao tratarem e formularem políticas ambientais, e abrem generosos parágrafos para o setor privado se credenciar como o principal gestor de um novo paradigma econômico e ambiental, nessa ordem de importância.

Em entrevista à Carta Maior, Iara classifica a Rio + 20 em geral e a Cúpula dos Povos em particular como momentos cruciais para, a partir de grandes mobilizações populares, questionar esse modelo de “economia verde” e as diferentes vozes iniciarem um processo longo, mas efetivo, de uma nova agenda ambiental e econômica para o século XXI.

O que está em disputa na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio + 20?

É o modelo de desenvolvimento e as opções para um futuro de sustentabilidade para o planeta Terra. O que nós, da Cúpula dos Povos, defendemos é um modelo que significa uma crítica frontal a mercantilização e financeirização da vida. E somos totalmente favoráveis ao aprofundamento da ideia de bens comuns. Ou seja, bens água, bens ar devem continuar sendo bens comuns, que devem ser preservados e não podem ser privatizados e mercantilizados.

E como transformar essas críticas em ações?

Nós estamos há algumas décadas apresentando e constituindo ações e experiências concretas alternativas. Um exemplo bastante evidente é a agricultura familiar, que está relacionada diretamente às questões climáticas, de insustentabilidade, de expansão de gado e desmatamento, esse confronto que está colocado na agenda rumo a um modelo sustentável.

Nós sabemos que a agricultura familiar, a agroecologia, é responsável por 75% da comida que vai ao prato do brasileiro. Ou seja, é real e concreto que esses setores sejam financiados, sejam vistos como fundamentais e estratégicos para o desenvolvimento de uma política pública, porque eles geram empregos, fixam as pessoas no campo, produzem alimentos de qualidade, estimulam comércios locais e processos complementares de produção. É uma alternativa a um modelo que pensa só em grande escala, que pensa em termos de mercado, a plantar soja aqui para os animais lá na China comerem. É outra lógica, e é uma lógica de sustentabilidade, de valorização e de humanização. Estaremos o tempo inteiro defendendo essas alternativas na Cúpula dos Povos, em contraposição aquilo que está sendo defendido pelas grandes empresas e corporações.

Um dos pontos da agenda da Rio + 20 é a questão da governança global dentro desse rearranjo de sustentabilidade e desenvolvimento. O que está inserido aí? Quem vai gerir essa nova engrenagem, e para quem?

Essa é a grande questão. Hoje, da maneira como a coisa está colocada, quem vai gerir isso é fundamentalmente o Banco Mundial, que é uma instituição constituída para aprofundar e construir resposta a esse modelo que a gente vive hoje, que é um modelo que já se provou incapaz de dar solução inclusiva, afirmando o direito de todos e todas a uma vida digna.

Então são instituições financeiras e comerciais – OMC (Organização Mundial do Comércio), Banco Mundial e G-20, como uma instância política que vem formulando também sobre tudo isso, – que não correspondem à necessidade de democratização e participação para a construção de soluções que sejam de fato soluções que beneficiem à totalidade da população e a preservação do planeta. Assim, o que está hoje como cenário de governança global e quem está gerindo essas propostas são aqueles que vêm produzindo esse modelo que está falido.

O que nós queremos é pensar outras alternativas, outra arquitetura internacional que seja feita de forma democrática e reconhecendo a diversidade, as responsabilidades comuns porém diferenciadas dos países na produção deste modelo predador.

Os estados nacionais chegarão a assinar a transferência do poder de gestão ambiental para instituições como G-20 e Banco Mundial? Em quanto essa transferência é reversível? Qual o espaço de manobra para iniciativas como a Cúpula dos Povos interferirem nesse processo?

Eu estou acompanhando o processo oficial da ONU pela Cúpula dos Povos e o que eu estou vendo é um processo de aceleração de uma privatização de todas as definições que produziriam essa transição de um modelo predador para um modelo sustentável. Os estados estão se desobrigando e as grandes corporações se aproximando para serem as responsáveis e promotoras desses novos acordos…

…com documentos oficiais assinados?

Isso está lá no documento (N.R.: Documento oficial da ONU sendo rascunhado em Nova York para a Rio + 20). O documento fala claramente no preâmbulo e no primeiro capítulo sobre economia verde que o principal aliado para a transição de modelo sustentável é o setor privado. E todos os setores organizados dentro do setor privado já estão diretamente participando com propostas, inclusive no desenvolvimento daquilo que eles estão chamando de metas de desenvolvimento sustentável.

Outro detalhe que é fundamental é que nesse documento, que é um documento que tenta articular o pilar social, o pilar econômico e ambiental, ou seja, são três dimensões importantes de estarem aí articuladas, eles estão querendo retirar tudo aquilo que se refere e se afirma pelos parâmetros dos direitos humanos dentro dos direitos econômicos, sociais e culturais, que foram tratados em convenções que todos os países, exceto os Estados Unidos, firmaram.

Esses direitos obrigam os estados nacionais a serem os efetivadores das ações, portanto eles têm que garantir o máximo de recursos disponíveis, de forma progressiva e sem discriminação, para a efetivação desses direitos. No momento em que você tira esses direitos, você diz assim, “muito bem. Vamos universalizar a energia, vamos universalizar acesso a água e tal”. Quem é que vai fazer isso? Os governos não estão presentes, estão em crise, não têm dinheiro. É o setor privado.

Seria uma privatização dos órgãos internacionais de regulação e gestão?

Quando eles colocam uma proposta de que o setor privado é prioridade e de que os direitos serão retirados, você está dando chance e abrindo as portas para que as soluções sejam dadas “business as usual”, quer dizer, dentro dos padrões de negócios que são usados comumente e que já ganharam os governos, compraram os governos e agora estão comprando as Nações Unidas.

Isso, nós da Cúpula dos Povos somos absolutamente contra. Nossa vida não está à venda. Nossa natureza não está à venda. O raciocínio não pode ser esse, o raciocínio tem que ser “os estados têm obrigações, e eles têm que ser mediadores e têm que responder aos interesses públicos dentro de processos democráticos de participação em que todos e todas sejam beneficiados”.

Não é isso que eles estão fazendo. Por exemplo, existe uma proposta de um rascunho dentro das negociações para a Rio + 20 que está definindo quais serão essas tais metas de desenvolvimento sustentável que vão substituir as tais metas do milênio, que já foram uma redução de toda uma série de debates no campo dos direitos.

Então eles estão dizendo assim; “ah, em 2030 nós vamos dobrar o uso de energia renovável”. É tudo sempre em 2030! Ora, o uso de energia renovável no mundo não chega a 4% da energia utilizada por todas as populações do planeta. Dobrar significa 8%. É nada do ponto de vista de soluções concretas, rápidas, de redução do padrão de uso energético da matriz energética baseada em recursos naturais.

Os prazos são menores?

Nós estamos esgotados! A solução tem que ser aqui e agora, “era para ontem”, não é em 2030 você chegar a 50% de um percentual que é insignificante em relação ao tamanho do problema. Essas coisas todas estão lá nos documentos, estão em jogo e estão muito evidenciadas.

Há espaço para sermos otimistas sobre essa irreversibilidade da privatização dos recursos naturais? Só como exemplo, há dez anos a Alca (Área de Livre Comércio das Américas) era dada como certa e hoje está morta e enterrada. Essa “economia verde” emplaca 2022?

Olha, eu acho o seguinte. Vamos ser otimistas. A gente tem que ter a utopia e tem que sonhar, mas o otimismo para mim está ligado a uma luta consciente, concreta e pragmática que a gente tem que fazer hoje e agora na nossa vida. A gente tem que se informar e a gente tem que mobilizar.

A Rio+20 vai ser um momento fundamental de mobilizar a população, de vir às ruas, de expressar posições às coisas que estão acontecendo, como por exemplo a privatização das Nações Unidas. Ou, por exemplo, não reconhecer a importância de uma outra institucionalidade internacional que de fato lide com esses três pilares, e que o econômico se submeta às necessidades e a dignidade de vida das populações.

O otimismo vem da minha esperança que a população mundial e a população do Rio de Janeiro, a população do Brasil, acorde para a importância de olhar para esse evento que parece ser mais um “eventozinho no Rio”, mas que não é, é um dos eventos mais importantes que definirão, e aí vem um outro otimismo, que eu acho que é aonde a gente pode influenciar a partir da nossa mobilização, a agenda futura dos próximos dez anos.

Quer dizer, como é que a gente vai, primeiro, impedir que esse acordo entre governos e setor privado se realize. E como é que a gente vai dizer “não, não, não. Reconhecemos a necessidade de um setor produtivo, mas que setor produtivo nós queremos? Que estado nós queremos?”. Como nós vamos nos mover para de fato fazer uma agenda futura que responda aos direitos, necessidades, qualidade de vida, e justiça ambiental, social e econômica que as populações têm?

Porque, veja bem, fazer mensuração de mudanças dos estados, dos países, caminhando para um modelo de desenvolvimento sustentável, tudo bem, todo mundo é favorável a isso. Só que, por favor, quem foi responsável historicamente pelo padrão desagregador, predador, que tem no mundo, não fomos nós. Participamos, proporcionalmente, com parcelas ínfimas se você comparar com o que é os EUA do ponto de vista de consumo de energia no mundo e na emissão de gases de efeito estufa etc.

Então, se a gente não fizer uma “metas de desenvolvimento sustentável” que seja para os países ricos, porque eles têm que mudar o padrão de produção e consumo, e obviamente nós também, com responsabilidades diferenciadas, não começaremos a avançar.

Há caminhos para se chegar a essa proposta de responsabilidades diferenciadas?

Aí o Princípio do Rio (documento aprovado na conferência ambiental das Nações Unidas em 1992 listando 27 princípios que reforçam a soberania dos estados nacionais na gestão dos recursos naturais dentro de uma conjuntura preservacionista, inclusiva e democrática), que foi um princípio aprovado na Rio 92, é fundamental, é estrutural, é um eixo que orienta o quê deve ser esse documento. Se esse documento retira isso, por exemplo, você vai estar destruindo a possibilidade de uma agenda que vai mudar efetivamente o padrão de produção e consumo.

O meu olhar positivo e otimista é que a gente consiga influenciar essa agenda, porque nós não vamos resolver isso aqui e agora no Rio de Janeiro, mas sim determinar um processo global, porque aí sim, essas coisas vão mudar, essas coisas vão vir à tona, a consciência pública vai emergir e buscar um novo caminho planetário para os nossos desafios do momento.

Carta Maior

“O HUMANISMO ESTÁ NO FIM”, DIZ PASOLINI


A entrevista a seguir foi publicada na segunda-feira, dia 19/12/2011, enviada por Luis Nassif, às 10:27, extraída por Raquel do IHU Online. A entrevista é interessante porque Pier Paolo Pasolini fala de temas que tanto nos seus livros como no cinema ele sempre tratou:  burguês, política,  humanismo, economia, marxismo, comunismo, socialismo, revolução e nos trás um tema atualíssimo que é o consumismo, que ele chama da mais nova revolução. Por estarmos na quadra natalina e de festas consumistas reverberamos na rede essa magnífica contribuição do cineasta italiano.

”Eu sei que muitos pensam que sou louco, mas o humanismo está no fim”. Entrevista com Pier Paolo Pasolini

Uma entrevista inédita com o escritor italiano Pier Paolo Pasolini, gravada em Estocolmo, na Suécia, no dia 30 de outubro de 1975, pouco antes da sua morte. “Não há mais católicos e marxistas no meu país. Venceu a revolução consumista”. O texto completo está publicado no novo número da revista Espresso.

A reportagem é do jornal La Repubblica, 16-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O senhor foi escritor, ainda é. Como decidiu fazer cinema?

Isso tem raízes distantes. Quando eu era jovem, tinha 18-19 anos, por um momento pensei em ser diretor. Depois, veio a guerra, e isso cortou por longos anos toda possibilidade e toda esperança. E depois houve circunstâncias: depois que eu publiquei o meu primeiro romance, Ragazzi di vita, que teve sucesso na Itália, fui chamado para fazer roteiros. Quando gravei Accattone, era a primeira vez que eu encostava em uma câmera. Ele nunca tinha feito nem uma fotografia, e nem agora eu sei fazer uma fotografia.

O senhor prefere atores não profissionais. Como trabalha? Busca um ambiente e, quando o encontra, escolhe as pessoas depois?

Não é exatamente assim. Se eu faço um filme de ambiente popular, pego pessoas do povo, isto é, não profissionais, porque acredito que é impossível para um ator burguês fingir que é um operário ou um agricultor. Soaria falso de modo intolerável. Ao contrário, se eu faço um filme de ambiente burguês, já que não posso pedir que um engenheiro, um médico ou um advogado venha ser ator para mim, eu pego atores profissionais. Naturalmente, falo da Itália, e da Itália de dez anos atrás. Se eu estivesse na Suécia, provavelmente pegaria atores, porque não há mais diferença entre um burguês e um operário na Suécia. Falo de um fato físico. Na Itália, há uma diferença assim como entre um branco e um negro.

Nos seus últimos filmes, não há elementos religiosos, não é?

Não estou tão certo de que não haja elementos religiosos nos meus últimos filmes. Nas Mille e una notte, também havia uma espécie de inspiração religiosa em todo o filme. Não havia religiosidade confessional, temas religiosos diretos, mas uma situação de mistério e de irracionalidade havia. Todo o episódio deNinetto, que é a parte central das Mille e una notte

O senhor participou do diálogo entre católicos e marxistas na Itália?

Não há mais marxistas e católicos na Itália, não há mais católicos na Itália.

Explique, então, qual é a situação.

Na Itália, ocorreu uma revolução, e é a primeira da história italiana, porque os grandes países capitalistas tiveram pelo menos quatro ou cinco revoluções, que tiveram a função de unificar o país. Penso na unificação monárquica, na revolução luterana reformista, na revolução francesa burguesa e na primeira revolução industrial. Mas a Itália, ao contrário, teve pela primeira vez a revolução da segunda industrialização, isto é, do consumismo, e isso mudou radicalmente a cultura italiana em sentido antropológico. Antes, a diferença entre operário e burguês era como entre duas raças. Agora, essa diferença quase não existe mais. E a cultura que foi mais destruída foi a cultura camponesa, que era então católica. Assim, o Vaticano não tem mais sobre as costas essa enorme massa de agricultores católicos. As igrejas estão vazias, os seminários estão vazios. Se você vai a Roma, não vê mais filas de seminaristas que caminham pela cidade, e, nas duas últimas eleições, houve um triunfo do voto secular. E os marxistas também foram mudados antropologicamente pela revolução consumista, porque vivem de outro modo, em uma outra qualidade de vida, em outros modelos culturais e também foram mudados ideologicamente.

São marxistas e consumistas ao mesmo tempo?

Há essa contradição, todos aqueles que são declaradamente marxistas, mesmo que votem em marxistas, são ao mesmo tempo consumistas. Não só isso: o Partido Comunista Italiano aceitou esse desenvolvimento.

Mas quando o senhor fala de marxistas, fala do Partido Comunista ou de outras facções?

Sim, dos comunistas, socialistas, extremistas. Por exemplo, os extremistas italianos jogam bombas e depois, de noite, assistem à televisão, Canzonissima [programa de variedades da RAI], Mike Bongiorno [famoso apresentador de TV italiano].

Ainda existe a sociedade de classes?

As classes existem, mas – e este é o ponto original da Itália – a luta de classes é no plano econômico, não mais no plano cultural. Agora, a diferença é econômica entre um burguês e um operário, mas não há mais diferença cultural entre os dois.

E o novo movimento fascista?

O fascismo acabou, porque se apoiava em Deus, família, pátria, exército, todas as coisas que agora não têm mais sentido. Não há mais italianos que, diante da bandeira italiana, se comovam.

Há, portanto, uma dissolução da sociedade italiana de hoje, não é verdade?

Eu considero o consumismo um fascismo pior do que o clássico, porque o clérico-fascismo, na realidade, não transformou os italianos, não entrou dentro deles. Foi totalitário, mas não totalizante. Só um exemplo que posso dar: o fascismo tentou, durante todos os 20 anos em que esteve no poder, destruir os dialetos. Não conseguiu. Ao contrário, o poder consumista, que diz querer preservar os dialetos, os está destruindo.

Faça uma profecia, seja Tirésias. Há esperança no futuro?

Deveria ser mais Cassandra do que Tirésias. Perguntei hoje a dez jovens suecos com quem falei, fiz-lhes esta pergunta: vocês ainda se sentem mais próximos da civilização humanista ou já se sentem dentro da civilização tecnológica? E me parece que eles responderam, tristemente, contudo, que eles se sentem como a primeira geração de cerca de 30 gerações diferentes daquilo que tem havido até agora. E, para concluir, tudo o que eu disse, eu o disse a título pessoal. Se vocês conversarem com outros italianos, eles lhes dirão: “Aquele louco do Pasolini”…

Extraído do blog do Luis Nassif Online

ENTREVISTA COM OS IRMÃOS BOCCHINI, DO BLOG “FALHA DE SÃO PAULO”, CENSURADO PELA ULTRADIREITA FOLHA DE SÃO PAULO

da Rede Brasil Atual

O jornalista Lino Bocchini contou à Rede Brasil Atual como esse processo afetou suas vidas e como outros blogueiros devem se comportar diante da pressão da mídia. Confira a entrevista a seguir:

Como você e seu irmão tem encarado o processo?

Olha, esse ano teve várias fases. No comecinho foi muito difícil montar a defesa, o caso era pouco conhecido e os prazos jurídicos, muito apertados. E, enquanto a Folha nos processa com um dos maiores escritórios de advocacia do país, nós temos advogados – bem corajosos – que topam nos defender voluntariamente, em nome da causa. Ao longo dos meses foi muito gratificante ver o apoio de toda blogosfera brasileira e até de entidades internacionais, como a organização Repórteres sem Fronteiras, que condenou a censura da Folha. Hoje usamos a questão (inédita no Brasil e de relevância para o coletivo) para uma discussão mais ampla da liberdade de expressão e da imprensa no Brasil.

O que acharam da decisão do juiz de manter o site fora do ar, mas de classificar seu conteúdo como paródia? Tem esperança nas próximas instâncias? Vão recorrer a essa decisão?

Vamos recorrer, afinal o site segue fora do ar. Estamos estudando com nossos advogados a melhor forma de fazer isso. Por outro lado, a sentença traz pontos bastante interessantes para o futuro da liberdade de expressão em geral, pois ela derrubou todos os argumentos da Folha. Considerou o site de paródia; disse não haver interesse comercial; afirmou que nem um “tolo apressado” confundiria nosso blog com a página oficial da Folha; negou a tese de que alguém poderia digitar Falha em vez de Folha acidentalmente e ainda considerou descabido pedido de dinheiro a título de indenização por danos morais. Enfim, o juiz não concordou com a Folha em nenhum ponto.

Quando vocês fizeram o blogue imaginavam essa reação do jornal?

Não mesmo. Não recebemos sequer uma notificação, nada. Chegou direto a liminar em casa, e já com o aviso de que existia um processo de 88 páginas do jornal contra nós protocolado no Fórum João Mendes. Foi uma reação bastante violenta.

O caso de vocês mostra como a “censura” é usada pela grande mídia como convém?
Sem dúvida. A dita “grande” imprensa dá repetidas demonstrações de que não está acostumada para aceitar o contraditório, e muito menos preparada para a realidade da internet, onde todos podem falar, contestar e ter voz. A censura da Folha ao nosso blog foi apenas um desses episódios que mostram que há um abismo entre o discurso de liberdade de expressão amplo e irrestrito supostamente defendido pelo “Jornal do Futuro” (sic) e outros veículos e suas atitudes práticas.

Vocês pretendem montar um outro blogue com o mesmo conteúdo?

Não. Voltar com o conteúdo proibido pelo jornal sem terem se esgotado todos os recursos representaria, inclusive, um risco financeiro, já que a liminar que nos deixa fora do ar determina uma multa diária de R$ 1.000 em caso de desobediência.

Antes de ser retirado do ar, o blogue tinha bastante audiência ? E sua repercussão na internet?

Nem uma coisa, nem outra eram significativas. O processo da Folha aumentou bastante a visibilidade do caso e de nossas críticas.

Algum conselho para outros blogueiros que pretendem ter blogues semelhantes ou que queiram expor os erros da grande mídia?

Sim: jamais se deixem intimidar por umas empresas envelhecidas e reacionárias, como a Folha. Falem tudo o que quiserem, mesmo que alguém venha dizer que “é perigoso” ou algo assim. Caso contrário, essa realidade em que só os peixes grandes têm uma total liberdade de expressão de fato nunca vai mudar.

MINISTRO DOS TRANSPORTES, EM SUA PRIMEIRA ENTREVISTA COLETIVA, DIZ VAI FAZER AJUSTES EM SUA PASTA

O novo ministro dos Transportes, Paulo Sérgio Passos, em sua primeira entrevista coletiva, disse que vai fazer ajustes em seu ministério, e que ajustes para ele, também, troca de nomes do comando de órgãos ligados ao ministério, assim como mudanças na forma de contratação de projetos para evitar irregularidades. Entretanto, a indicação dos novos nomes depende da presidenta Dilma, assim como a permanência ou não do diretor-geral do DNIT, Pagot, disse ele. O ministro disse ainda que não vai misturar a sua administração com relação política.

Fazer ajustes significa tomar todas as atitudes que sejam necessárias e isso envolve troca de pessoas e modificações em processos.

No momento ele (Pagot) está de férias. Ainda não conversei com a presidenta para avaliar qual a sua decisão sobre a decisão da direção geral do DNIT. Ele é um profissional responsável e dedicado. Não tenho nenhum registro que possa depor contra ele.

É preciso não confundir a gestão administrativa de uma pasta com relações políticas. Eu não misturo as duas coisas. Vamos trabalhar escolhendo pessoas certas nos lugares certos, que tenham competência experiência e honorabilidade.

Não tenho compromisso com erros. Meu compromisso é com um trabalho honesto, competente.

É natural que os órgãos de controle encontrem irregularidades, o importante é que se atue para corrigir as causas que provocam falhas nos projetos executados. Vamos trabalhar no aprimoramento voltado para os instrumentos de fiscalização e controle, mudar rotinas e a definição de responsabilidades.

Sei que tenho um desafio e uma tarefa árdua, uma missão desafiadora”, disse o ministro.

O ASTROFÍSICO NORTE-AMERICANO HAWKING DIZ QUE NÃO HÁ CÉU NEM VIDA APÓS A MORTE, TUDO NÃO PASSA DE MEDO

Em entrevista ao diário inglês The Guardian, o famoso astrofísico norte-americano Stephen Hawking, autor, em parceria com Leonard Mlodinow, da obra Uma Nova História do Tempo, de 1988, e estudioso da teoria que afirma que as flutuações quânticas no início do universo, que tornaram possíveis as galáxias, as estrelas e a vida humana, como também estudioso da Teoria M, que une a teoria das cordas e que é tida por muitos cientistas como a melhor teoria para explicar a teoria do tudo – que poderia explicar todas as forças do Universo, e levar o homem a “conhecer a mente de Deus” -, afirmou que não havida após a morte.

Eu vivi com uma perspectiva de uma morte próxima pelos últimos 49 anos. Eu não tenho medo da morte, mas eu não tenho pressa em morrer. Eu tenho muita coisa para fazer antes. Eu considero o cérebro como um computador que vai parar de trabalhar quando seus componentes falharem.

Não há céu nem vida após a morte para computadores quebrados, isto é um conto de fadas para as pessoas com medo do escuro”, disse o astrofísico.

O mais novo livro de Hawking, lançado no ano de 2010, The Grand Design, que afirma que não há necessidade de um criador para explicar a existência do Universo, é uma posição oposta ao que é afirmado na obra Uma Nova História do Tempo.

ENTREVISTA COM DOM TOMÁS BALDUÍNO QUE SÓ QUER UMA SOCIEDADE JUSTA QUE RESPEITE OS DIRETOS DOS POVOS DA TERRA

Aos 88 anos, o bispo emérito de Goiás, dom Tomás Balduíno, mora no Convento dos Dominicanos São Judas Tadeu, em Goiânia, mas viaja pelo mundo a convite de organizações para palestras sobre latifúndio, monocultura e água. Cofundador do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), da qual foi presidente, ele defende uma sociedade mais equilibrada, sem tamanha sede de consumo e conforto a todo custo. Bem-humorado, manteve sua postura crítica durante as quase duas horas de entrevista. Confira os principais trechos.

O que mudou no tratamento do homem do campo da ditadura­ até hoje?

Superamos um estado de repressão, de desaparecimento, de matança. Eles não brincavam em serviço. Mas o golpe foi dado prioritariamente para quebrar a espinha dorsal das organizações camponesas, porque eles achavam que elas eram a porta de entrada do comunismo internacional. Não sei se os militares faziam isso (por conta própria) ou se eram orientados pelos Estados Unidos. Eles generalizavam porque eram partidos de esquerda que organizavam os trabalhadores. Foi por isso que nasceu a CPT: havia repressão aos trabalhadores rurais e aos indígenas. Então a Igreja entrou em cena. O MST nasceu nesse tempo, embaixo do guarda-chuva das igrejas ligadas às Comunidades Eclesiais de Base, e cresceu com a abertura lenta e gradual. Assim como as organizações indígenas, que cresceram muito. Hoje há muitas organizações, autônomas. E isso é que é bonito: a Igreja com a opção pelos pobres. A gente não discutia com eles, apoiava.

Hoje há mais de 300 conflitos envolvendo indígenas, trabalhadores rurais e quilombolas. A questão da terra está longe de ser resolvida?

Os povos indígenas, quilombolas, quebradeiras de coco, ribeirinhos e seringueiros têm outro relacionamento com a terra, com as águas. Por isso não são levados em consideração pelas políticas, já que o governo se relaciona com a terra do ponto de vista da produção, do agronegócio. O cerrado, escolhido para o avanço da monocultura, foi tomado primeiro pela soja e está sendo dominado pela cana para o etanol e pelo eucalipto para a celulose, entre outras culturas. Isso preocupa muito porque, embora seja de grande importância para o equilíbrio ecológico do país e da América Latina, é um bioma desvalorizado pelo capital, tratado como área de exploração. Suas plantas funcionam como reservatórios de água do nosso país. Se o cerrado for arrasado pela monocultura, haverá desequilíbrio.

Qual a razão desse interesse no cerrado?

Porque o terreno em geral é plano, com vegetação frágil, tortuosa, pequena, não dificulta o trabalho das máquinas. O que não acontece na floresta, onde é mais complicado desmatar em pouco tempo para fazer campos de monocultura até perder de vista. O desmatamento do cerrado prejudica o sistema freático. A rama, a copa das plantas, tem o correspondente em raiz – que funciona como uma esponja, uma caixa d’água, alimentando o freático e a planta durante a estiagem. Se arrancá-la, o circuito da água deixa de ser vertical, em direção ao freático, e torna-se horizontal, causando erosão, assoreamento de córregos e rios.

Mas há alternativas que garantam maior produção em menor área plantada?

Há várias alternativas à destruição da vegetação nativa que vão em direção oposta à chamada revolução verde (o plantio de eucaliptos em grandes extensões). Aparentemente são bonitas as grandes extensões verdes, que produzem o suficiente para alimentar o mundo, não é? Mas isso é um engano. A revolução verde foi pensada para substituir aquilo que existia antes, onde entra o trator que corrige a terra, aduba, põe calcário, semente, tudo de uma forma mecânica, pesada. Embora a cobertura seja verde, é na verdade um deserto verde. Esse modelo destrói o meio ambiente, acaba com as nascentes, leva à seca. Na Bacia do São Francisco, onde há plantação de eucalipto, ficaram secas 1.500 pequenas vertentes que fluíam para o São Francisco.

Há quem defenda que monoculturas como a do eucalipto só ocasionam problemas quando não há manejo correto.

Há mil justificativas para a manutenção desse modelo que destrói o bioma em troca de dinheiro, divisas. Mas não se buscam alternativas técnicas. Nós temos em Goiás, Tocantins, Bahia, Minas, grupos extrativistas organizados, que convivem com o cerrado sem destruí-lo. São todos desconsiderados. O que realmente interessa ao governo, bem como aos anteriores, é o agronegócio que passa por cima das pequenas propriedades mas não mata a fome, porque seu objetivo não é distribuir, mas concentrar, sobretudo o lucro. Está comprovado que 70% do alimento consumido no país vem dos pequenos produtores.

E quanto à energia?

Com a energia é a mesma coisa. Insiste-se no mesmo modelo, seja de usina hidrelétrica, seja de nuclear. Ficam de lado outras possibilidades, como a energia solar, que alimenta diversas cidades na Alemanha. O excedente das casas vai para as redes de distribuição. É claro que isso requer pesquisas, abertura ao entendimento e resistência às pressões do mercado. Às vezes, o governo segue uma linha predatória, prejudicial aos povos indígenas, por exemplo, porque sofre pressão fortíssima de conglomerados econômicos nacionais e internacionais. Por que tem de prevalecer a lógica da superprodução? O índio se relaciona com a mãe terra de maneira harmoniosa, mística, afetiva. Não é transformada violentamente, depredada, arrasada, destruída­ em nome da produção, do ter cada vez mais. O povo da terra do semiárido também tem consciência do valor e da riqueza da caatinga, em oposição ao capital. Durante muito tempo, prevalecia a proposta dos versos de Luiz Gonzaga, de ir embora dali. Agora eles estão descobrindo que o semiárido tem água, um total de 37 bilhões de metros cúbicos. Segundo técnicos, isso prova o equívoco da transposição do São Francisco, um investimento caríssimo para levar água ao Nordeste. Mas lá não falta água, e sim política governamental para distribuir essa água que está concentrada. Uma vez distribuída, alimenta tudo. Com a transposição do São Francisco, vão ser levados 3 bilhões de metros cúbicos para uma região que tem 37 bilhões. Se com 37 bilhões não se resolve o problema da seca, como é que 3 bilhões vão resolver?

Os acidentes nucleares no Japão põem em xeque os projetos de construção de usinas atômicas como­ os previstos no Nordeste?

Um desenvolvimento “de ponta”, né? Bem no momento em que o mundo começa a repensar esse modelo nuclear para a produção de energia. O Japão, por exemplo, que na conferência do clima em Cancún lutou para anular o Tratado de Kyoto e não ter de reduzir as emissões de poluentes nem o lucro, tem um modelo mundialmente questionado. Suas usinas não resistiram aos terremotos, têm vazamentos e passaram a ser uma ameaça à população. Independentemente de estar no Nordeste, no Centro-Oeste, Sudeste ou Japão, é o modelo que está sendo questionado pelos melhores técnicos, por todos aqueles que eram a favor e agora são contra. É o feitiço que se volta contra o feiticeiro. Acredito que brevemente toda a humanidade estará esclarecida e terá uma consciência contrária a respeito. Por enquanto são grupos mais seletos, cientistas que começam a repensar a coisa. A consciência ecológica, aliás, é um ganho para a humanidade, um avanço como a conquista da igualdade dos direitos da mulher, que custou séculos para chegar a esse ponto e deve ser aprimorada, mas é uma conquista.

Qual é o modelo que o senhor defende? Menos produção, consumo e conforto?

Isso mesmo. É necessário tudo isso que se busca? O conforto dos Estados Unidos pode ser aplicado a uma população de 6 bilhões, mas a terra é insuficiente, e isso mostra que tem algo errado aí. Como pensar num mundo e numa humanidade equilibrados e sustentáveis? Produzindo de acordo com a necessidade. Uma coisa é a necessidade em que todos participem. Outra, é atender a um modelo superpredador de determinados países do Primeiro Mundo. Então, volto à pergunta anterior. Não seria a hora de questionar o modelo vigente e dar a palavra à população camponesa, ao indígena?

A CPT conta com apoio do Vaticano?

O Vaticano está muito longe. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), à qual pertence a CPT, é um organismo suficiente para resolver o problema pastoral, eclesial. A CPT nasceu assim, da Igreja, e não para a Igreja, a serviço do trabalhador do campo. Como o bom samaritano que se dá para levantar o caído, dando a ele autonomia para se erguer e um dia levantar outro caído, tratando-o como sujeito, e não objeto da nossa ação caritativa. A Pastoral Indigenista segue o mesmo princípio, de dar todo o auxílio a uma população que sofre repressão, vive em conflito com o roubo da terra e a expulsão do campo pelas autoridades armadas para deixar o terreno livre para a monocultura do grande capital. A terra pode ser de japonês, americano, alemão, desde que seja do capital. Não pode ser dos índios, dos lavradores, senão vem a polícia e despeja. São milhares de ações de despejo no nosso Judiciário contra quem ocupa a terra há vários anos de forma pacífica.

Como o senhor avalia a impunidade no campo? Dorothy Stang, Corumbiara, Eldorado dos Carajás…

Entre 1985 e 1996, a CPT fez um levantamento sobre os assassinatos no campo por disputa pela terra. São assassinatos encomendados pelo latifúndio. Raramente aparece o mandante. Há o pistoleiro que é contratado, faz o serviço e recebe. Nesses 11 anos do estudo, foram constatados cerca de mil assassinatos, dos quais só 70 viraram processos levados ao tribunal e apenas 14 tiveram os pistoleiros condenados. Dos mandantes, só sete foram condenados e cinco fugiram. Os pistoleiros que escaparam na certa voltaram a matar. É o quadro da impunidade. Eu participei de uma sessão do Supremo Tribunal Federal em que se julgava a possibilidade de federalizar os crimes contra os direitos humanos. Era justamente na época do assassinato da Dorothy. Como envolvia vítima internacional, norte-americana, o estado do Pará agilizou o processo, que está praticamente concluído. Muito boa a Justiça naquele caso. E nos demais? E naqueles em que o assassinado não é norte-americano ou alemão? Isso tem favorecido a manutenção do crime, o que interessa aos grandes fazendeiros, a muitos detentores do poder, juízes, latifundiários e parlamentares. E, por falar em parlamentar, a proposta de confisco da terra onde há trabalho escravo, para fins de reforma agrária, não caminha. Acho que com esse time que está aí, de congressistas latifundiários, uma bancada ruralista fortíssima e numerosa, jamais será aprovada.

O que o senhor acha da atualização do Código Florestal?

É um desastre, um absurdo diminuir a já pequena cobertura vegetal em torno dos mananciais, facilitar a devastação da floresta e não oferecer nenhuma proteção ao meio ambiente. A gente sabe que nem todas as pessoas no Congresso concordam com isso. Pena que sejam minoria.

Como o senhor vê o fato de termos pela primeira vez uma mulher na Presidência da República?

É muito positivo, mas não deixa de ser um continuís­mo, um tempo de inverno para o movimento de reforma agrária. E, com o avanço do agronegócio, pior ainda. Do ponto de vista do homem da terra, ainda há retrocesso. Durante a campanha, ela nada falou sobre reforma agrária, o que pode ser significativo. Embora tapeasse e protelasse, dizendo que ia cumprir as promessas de campanha, Lula dialogava e não reprimia, ao contrário de FHC. Em compensação, durante os anos FHC os movimentos se fortaleceram, com todo o grande capital por trás. É que, conhecendo o adversário, isso fica mais fácil. Tanto que a oposição ao governo tucano foi feita mais pelos movimentos do que pelo PT. Mais do que enrolar, Lula traiu o compromisso de fazer a reforma agrária, que acabou ficando por conta dos movimentos via ocupações e pressões das bases, e não do Incra, cada vez mais sucateado.

E quanto aos transgênicos?

O transgênico é sério porque atinge a semente, e ela é a força do lavrador. Em vez de manipular sua semente para plantar, ele tem de ir ao mercado e pagar (por ela). O pessoal diz que tudo o que é transgênico é duvidoso, não se tem segurança. Mas nós, da área rural do CPT e os trabalhadores rurais, consideramos que o principal veneno é o fato de a semente ser subtraída. Aquilo que é vital para o trabalhador, e é milenar, ser levado ao monopólio. O trabalhador tem de ter o domínio da semente e da terra.

O senhor já recebeu ameaças de morte? 

Várias vezes. E tive medo não por mim, mas por outros padres, sacerdotes. Ninguém vinha direto a mim, mas estimulavam gente maluca. Eu soube de vários planos de morte, como uma emboscada numa festa em que iria, numa paróquia, mas fui ao sepultamento do padre Rodolfo e do índio Simão, assassinados por fazendeiros. Toda noite rezo para o padre Rodolfo, que me salvou de uma emboscada. Soube também que na ditadura fui vigiado durante todo o tempo. Pior é quando é pistoleiro, como aquele que atirou no padre Chicão, um defensor dos sem-terra, que levou tiro de cartucheira no rosto e ficou cego dos dois olhos. Sei que aquele tiro era para mim. Mas é complicado matar um bispo. Escapei, e agradeço ao Chicão.

Fonte: Rede Brasil Atual

Não é a velha Europa que dá o exemplo, é a América Latina

Hernando Calvo Ospina*

São poucos os franceses que conhecem o nome da máxima autoridade da Igreja Católica no país, mas a imensa maioria sabe quem é o Monsenhor Jacques Gaillot. Homem extremamente humilde, de olhar sereno e voz pausada, que sem usar frases grandiloquentes diz o que gostaríamos de escutar de muitos políticos.

Nasceu em 11 de setembro de 1935 em Saint-Dizier, uma pequena cidade da França. Aos 20 anos, deixou o seminário para realizar o serviço militar. Foi para a Argélia, onde havia uma guerra de libertação contra o colonialismo francês. Conta que foi uma sorte não ter sido obrigado a usar armas, pois foi destacado para trabalhos sociais, a viver com a comunidade.

- O que significou para você ter vivido essa guerra?

- Esta experiência começou a mudar a minha vida. Ali me encontrei com o Islã, uma religião muito diferente da católica e sobre a qual nada conhecia. Fiquei sabendo que os muçulmanos tinham fé em um Deus, que oravam e que eram hospitaleiros. Eles foram como meus irmãos. Esta interreligiosidade influiu em minha fé. Também vivi a violência da guerra, razão pela qual fui me convertendo em um militante da não violência. Realmente, a Argélia foi um seminário para mim.

- Após 22 meses na Argélia, você foi enviado a Roma e, em 1961, foi ordenado sacerdote. Até que, em 1982, foi nomeado bispo da cidade de Evreux, na França. Mas em 13 de janeiro de 1995, o Vaticano decidiu retirar-lhe essa missão pastoral. O que aconteceu?

Alguns dias antes dessa data fui chamado a comparecer diante das autoridades do Vaticano sem saber por quê. Ante minha incredulidade, em algumas horas fui declarado culpado e, em menos de um dia, foi decretada minha expulsão da diocese. O cardeal Bernardin Gantin, prefeito da Congregação dos Bispos, me propôs que eu assinasse minha demissão e assim poderia manter o título honorífico de bispo emérito de Evreux. Não assinei nada. Então me nomearam bispo de Partenia, uma diocese que não existe desde o século V, situada na atual Argélia.

Com minhas poucas roupas deixei a diocese de Evreux. Como não tinha onde ficar, me instalei durante um ano em um prédio recuperado por famílias sem teto e estrangeiros sem documentos, em Paris. Depois fui acolhido por uma comunidade de missionários.

- O que levou o Vaticano a tomar uma decisão tão drástica? Talvez suas posições políticas e compromissos sociais? Porque, vejamos: em 1983, foi um dos bispos que não votou a favor de um texto episcopal sobre a dissuasão nuclear. Em 1985, apoiou o levante palestino nos territórios ocupados por Israel, além de se encontrar com Yasser Arafat em Tunís. Em 1987, preferiu viajar até a África do Sul para visitar um preso, militante contra a segregação racial, ao invés de ir à peregrinação pela Virgem de Lourdes. Em 1988, defendeu na revista “Ele” a ordenação de homens casados. No mesmo ano se declarou a favor de dar a benção a homossexuais. No dia 2 de fevereiro de 1989, publicou na revista “Gai Pied” um artigo intitulado “Ser homossexual e católico”. Desde 1994, você se envolveu diretamente na fundação de associações de apoio a marginalizados, passando a ser conhecido como “O bispo dos sem”: sem documentos, sem teto…Não acredita que isso já seja o suficiente para conseguir inimigos entre os círculos de poder eclesiástico e civil?

Ainda que siga sem provas concretas até hoje, fontes confiáveis me disseram que o governo francês, em particular o ministro do Interior da época, Charles Pascua, tem a ver com a decisão do Vaticano. Não esqueçamos que, na França, este ministério está encarregado dos Cultos. Tenho certeza que um livro meu contra a lei de imigração foi a gota d’água que entornou o copo.

O Vaticano e o governo francês quiseram me isolar. Mas em 1996, no primeiro aniversário de minha partida de Evreux, alguns amigos criaram na internet a Associação Partenia (1), fazendo de mim um “bispo virtual”. Não imaginaram que eu iria acabar animando a única diocese em expansão, com mais fiéis no mundo e em diferentes idiomas.

Imediatamente agradeci ao Vaticano e a Pascua, porque eles me fizeram dar mais passos na direção da outra margem, onde encontrei outra vida. Agora tenho toda a liberdade, vivo na ação com os excluídos da sociedade. Posso viver com as pessoas, compartilhar suas alegrias e suas angústias. Tem sido maravilhoso conhecer todas as pessoas que conheci. Enquanto isso, Pascua está sendo processado por vários delitos e a Igreja a cada dia perde mais cristãos.

Como, você avalia atualmente a Igreja Católica?

- A Igreja nos ensinou que Deus quis trazer-nos as desgraças e assim nos leva à resignação. Isso não é cristão. A Igreja procura fazer Deus intervir para nos forçar a obedecer e a não pensar. Muitos discursos sobre Deus falam dele, mas quando alguém fala bem do ser humano, isso me diz muito de Deus. A Instituição segue impávida em seu pedestal, longe do povo e de Deus. A seguir assim, se converterá em uma seita, porque muitas pessoas estão partindo para outras religiões. A Igreja vive uma hemorragia.

A Igreja deve mudar, modernizar-se, reconhecer que os casais têm direito a se divorciar e a usar a camisinha, que as mulheres podem abortar, que homens e mulheres podem ser homossexuais e se casar, que as mulheres podem chegar ao sacerdócio e ter acesso às esferas de decisão. Deve-se revisar a disciplina do celibato para que os sacerdotes possam amar como qualquer outro ser humano, sem ter que viver relações clandestinas, como delinquentes.

A situação atual é perversa e destruidora tanto para os indivíduos como para a Igreja. O Vaticano é a última monarquia absoluta da Europa. A Igreja deve aceitar a democracia em todos os níveis. E deve mudar de modelo porque o atual não é evangélico.

- O que você pensa da Teologia da Libertação, que teve um desenvolvimento importante na América Latina?

Eu me interessei por ela porque é uma teologia que fala dos pobres. Não se fala da liturgia, nem do catecismo, nem da Igreja; fala-se do povo pobre. Ensina que são os próprios pobres que devem tomar consciência da necessidade de sua libertação.

Alguns de nós fomos muito tocados pelos ensinamentos de Dom Helder Câmara, no Brasil, um grande teólogo (2); do Monsenhor Leónidas Proaño, no Equador (3); de Oscar Romero, em El Salvador, e outros sacerdotes latino-americanos, principalmente. Para mim foi um choque brutal quando Romero foi assassinado celebrando a missa, em 24 de março de 1980. Ele havia deixado a Igreja dos poderosos para estar com os pobres. Achei admirável essa conversão.

Na América Latina, existiram alguns padres e freiras que pegaram em armas (4). Eu respeito sua decisão, não os julgo, ainda que não esteja de acordo com ela por ser um adepto da não-violência.

Evidentemente, a Teologia da Libertação é perigosa para os poderosos. Quando os pobres são submissos aceitam seu triste destino, então não há nada que temer, são pão abençoado para os poderosos. Os detentores do poder podem dormir tranquilos. Mas se os pobres despertam e adquirem consciência de sua condição, convertendo-se em atores da mudança, então isso produz medo no poder.

Parece que é terrível quando os pobres tomam a palavra e questionam a instituição eclesiástica. No mesmo instante, ela diz: “Atenção, cuidado com esses comunistas”. Porque sempre prevaleceu a obsessão da infiltração comunista. Por isso, regularmente, as ditaduras, os governos repressivos e o Vaticano se unem em um combate comum. Infelizmente não existem muitos rebeldes na Igreja, porque a instituição sempre formou para a obediência e para a submissão.

- Como você vê a situação social e econômica na França hoje?

Eu julgo uma sociedade em função do que ela faz pelos mais
desfavorecidos. E é claro que eu só posso fazer um juízo severo, porque na França não se respeita a todos os seres humanos. Para mim o problema número um é a injustiça que reina por toda parte. Os que estão no poder não investem nos pobres. Temos um governo que só favorece os ricos. Por isso temos três milhões de pobres.

Muitos de nossos cidadãos acreditam que os trabalhadores ilegais se aproveitam do sistema, sem saber que eles recebem o formulário de impostos em suas casas. Ou seja, eles são conhecidos pelo governo, mas como não estão com os papéis em dia não podem se beneficiar de nenhuma ajuda social. Isso é uma extorsão por parte do Estado!

E a Igreja o que faz? Tomemos como exemplo o que ocorreu em 23 de agosto de 1996, quando quase mil policiais das forças especiais forçaram a ponta de machado as portas da Igreja Saint-Bernard-de-la-Chapelle em Paris, tirando a força 300 estrangeiros em situação irregular. Eu estava escandalizado e desgostoso porque o próprio bispo havia pedido sua expulsão. E quando alguém expulsa humanos que se protegem em uma igreja, está dessacralizando essa igreja. Desgraçadamente, isso continua acontecendo.

E o que se faz com os estrangeiros ilegais? São jogados em centros de detenção, e recebem um tratamento próprio de campos de concentração. Isso é o que ocorre hoje na França. Nas prisões, ocorre um suicídio a cada três dias. É um número enorme. O único horizonte para muitos desses presos é o suicídio, Nunca se viu algo igual. Na Europa, a França tem o recorde de suicídios por enforcamento na prisão.

E o discurso sobre a crise econômica, onde se situa?

Nesta crise, não são os ricos que estão em crise, são os mais pobres. Protestamos o ano passado contra as leis propostas pelo governo porque elas penalizavam os pobres. Hoje, muitos franceses só vão ao médico, ao dentista, ao oftalmologista quando é algo verdadeiramente de urgência. E às vezes já é tarde. Os direitos sociais estão sendo eliminados. E a crise atinge as famílias. Se alguém comprou uma casa, perde o trabalho e não arruma outro, deve revendê-la. Isso traz muitos problemas de droga e delinquência.

A moradia social não é uma prioridade política, porque aqueles que estão no poder possuem boas mansões. Constrói-se pouco e as pessoas não sabem aonde ir, restando-lhes as ruas ou algum sótão insalubre. E isso não importa, ainda que existam muitos edifícios vazios em Paris. Quando chega o inverno, o governo fala de “planos”. Então, abrem-se ginásios ou algumas salas para abrigar os milhares que não tem onde morar. Mas esses “planos” não são solução para o frio. A solução é construir habitações dignas. É uma vergonha, é desumano e não é cristão deixar que centenas de pessoas morram de frio nas calçadas e ruas da França.

Como disse o escritor Victor Hugo: “Fazemos caridade quando não conseguimos impor a justiça”. Porque não é de caridade que necessitamos. A justiça vai às causas; a caridade, aos efeitos. Eu não estou dizendo que não se deve ajudar com um prato de sopa ou um abrigo a quem está nas ruas. Existem urgências. Eu faço isso, mas minha consciência não fica tranquila, porque penso que devemos lutar contra as causas estruturais que prendem essas pessoas na injustiça. O mais triste é que as pessoas vão se acostumando com a injustiça. E eu digo: Despertem! Tenham vergonha! Vamos nos indignar contra a injustiça!

Hoje, a injustiça está presente por toda a França. Existem oásis de riqueza, de luxo exorbitante, e extensos guetos de miséria. Na França, há uma violação flagrante dos Direitos Humanos. Por isso devemos combater, para que os direitos das pessoas sejam respeitados.

No ano passado, ocorreram manifestações massivas de protesto contra diferentes projetos do governo, que se fez de surdo para o barulho das ruas.

Eu acredito que, quando não se respeita o povo que se expressa nas ruas, não se tem em conta o futuro. Na França, ficou um sentimento de raiva. Isso não pode seguir assim. Não se pode seguir metendo a polícia por todas as partes para conter a inconformidade do povo. Isso está nos levando na direção de um regime policial. A injustiça não traz paz. É exatamente o contrário. Existe fogo sob uma panela que querem manter fechada. Ela pode explodir.

As suas lutas pela justiça não se dão só na França. Sua palavra e ação se manifestam em outros lugares também. Poderia dar alguns exemplos?

Seguimos lutando pelos direitos do povo palestino. Israel é um Estado colonialista que rouba terra palestina e exclui esse povo pela força. Há mais de 60 anos que a Palestina vive sob a ocupação israelense e a injustiça. E a chamada “comunidade internacional” faz bem pouco ou nada. Por isso estamos nos mobilizando em todas as partes para exercer uma pressão sobre o governo israelense. E uma das ações é boicotar os produtos vindos de Israel, principalmente aqueles que são produzidos nos territórios ocupados. Cerca de 50 produtos agrícolas são produzidos na Palestina para benefício israelense. Enquanto os palestinos viverem na injustiça, não haverá paz.

Cuba. Este é um país que tem futuro. Eu pude constatar que é um povo digno, corajoso e solidário. Em Cuba pode haver pobreza, mas não existe a miséria que se vê em qualquer país da América Latina, ou na França, ou nos Estados Unidos. Apesar do bloqueio imposto pelos EUA, todos têm saúde e educação gratuita, e ninguém dorme nas ruas. É incrível!

Eu faço parte do Comitê Internacional pela Libertação dos Cinco Cubanos presos nos EUA. Eles lutaram contra as ações terroristas que estavam sendo preparadas em Miami. Resolvi participar do Comitê porque me dei conta da injustiça cometida contra eles e que não pode ser tolerada.

- Qual a sua avaliação sobre a maneira pela qual a imprensa francesa trata os processos sociais e políticos alternativos que se desenrolam na América Latina? Por que essa imprensa tem a tendência a ridicularizar presidentes como Evo Morales e Hugo Chávez?

Esse comportamento da imprensa deve-se ao fato de que, regularmente, a França apóia a quem não deveria apoiar. É uma questão de interesses. Estes presidentes não fazem o que os ricos querem, assim a França se coloca ao lado dos ricos. É como faz na África também.

Agora, a participação das mulheres latino-americanas na política é sensacional. Uma mulher na presidência do Brasil é algo extraordinário! Na França, não fomos capazes nem de ter uma primeira ministra: somos tão machos! Ah, sim, uma vez tivemos a senhora Edith Cresson, mas ela não pode ficar por muito tempo já que tentaram massacrá-la em função de sua condição de mulher. Somos machos e vulgares como não se pode imaginar! Hoje, não é a velha Europa que dá o exemplo, é a América Latina. Devemos olhar para lá.

Duas últimas perguntas: o que outros altos membros da Igreja Católica pensam do senhor? E, como cidadão e ser humano, vê alguma alternativa para a situação social da França?

Em geral, minhas relações com os outros bispos são cordiais, ainda que alguns prefiram me ignorar. Não me enviam nenhum documento da Conferência Episcopal, não me convidam para a assembleia anual em Lourdes. Tampouco dizem o porquê, e eu também não perguntei, embora outros sacerdotes tenham perguntado, sem receberem uma resposta até hoje. Às vezes, isso não é confortável, mas o que me conforta é que estou em paz com minha consciência, por dizer o que penso, por denunciar a injustiça.

Quanto à segunda pergunta, tenho confiança e esperança nos homens e mulheres. Vamos seguir avançando. Existem movimentos cidadãos que estão criando um tecido associativo alternativo. Vejo muitas lutas que nascem e se desenvolvem pouco a pouco. É formidável! Cada um deve encontrar o caminho onde outros lutam. A unidade: é isso que pode ajudar a salvar a democracia e os direitos das pessoas. Eu tenho esperança.

Notas:

1) http://www.partenia.com/

2) Foi arcebispo de Olinda e Recife. Morreu em 27 de agosto de 1999.

3) Chamado de « Bispo dos Índios », e também de « O bispo vermelho». Exercia seu trabalho pastoral na cidade de Riobamba. Morreu em 31 de agosto de 1988.

4) Vários sacerdotes e freiras somaram-se às guerrilhas. O precursor foi Camilo Torres, na Colômbia, que morreu em combate em 15 de fevereiro de 1966. Na Nicarágua, durante a guerra contra a ditadura de Somoza, muitos seguiram seu exemplo, sendo Ernesto Cardenal o mais famoso.

(*) Hernando Calvo Ospina, jornalista colombiano residente na Europa, autor de vários livros, entre os quais: Salsa, Don Pablo Escobar, Perú: los senderos posibles y Bacardí: la guerra oculta

Tradução: Katarina Peixoto, da Carta Maior

Entrevista com Lula

por Hélio Campos Mello e Ricardo Kotscho*

Encontramos Luiz Inácio Lula da Silva, um senhor grisalho de “guayabera” branca, calça e sapatos pretos, já na pista do aeroporto de Congonhas para dar início a mais uma viagem de rotina. Conforme o combinado com ele na véspera, vamos entrevistar o presidente Lula nessa viagem a Ribeirão Preto e depois a Brasília, para fazer um balanço dos seus oito anos de governo. Faltavam 38 dias para Lula terminar seu segundo mandato, mas o clima já era de despedida.

Até os tripulantes da FAB, escalados para esse voo no Embraer 190 – o jato executivo reserva da Presidência (o AeroLula estava em manutenção) -, vieram pedir para tirar uma foto com o presidente antes de ele ir embora. “Preciso começar a desacelerar”, repete para si mesmo, evitando pensar no que pretende fazer depois de passar a faixa presidencial, no dia 1o de janeiro de 2011, para sua amiga Dilma Rousseff, a sucessora que ajudou a eleger do alto dos mais de 80% de aprovação do seu governo.

Mais que uma entrevista de prestação de contas, essa foi uma conversa entre velhos amigos, três sexagenários que se conheceram no final dos anos 1970, na cobertura das históricas greves dos metalúrgicos do ABC comandadas por Lula – o líder sindical, o repórter e o fotógrafo da revista IstoÉ - que naquela época jamais poderiam imaginar um filme com esse desfecho.

Nessa viagem pelo tempo, em que foi acompanhado pelo ministro Luiz Dulci, da Secretaria Geral da Presidência, Lula não deixou pergunta sem resposta e respondeu até sobre o que não perguntamos, quando falou da sua polêmica política externa e da questão do Irã. Melhores e piores momentos dos oito anos, expectativa sobre o governo Dilma, as tensas relações com a imprensa, as principais conquistas e o que faltou fazer, o adversário tucano, a decepção com Obama, as histórias e os personagens que o marcaram, o que pretende fazer da vida. Falamos um pouco de tudo e, ao final da conversa, Lula parecia satisfeito consigo mesmo, com cara de missão cumprida.

Valeu, amigo Lula.

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva – Quem quer adoçante?

Brasileiros - Eu não estou tomando café, presidente, obrigado… Parei de fumar… A que horas você saiu daquela festa ontem? (Um jantar em sua homenagem oferecido pela comunidade luso-brasileira.).

Presidente Lula – Mais de meia-noite… Foi uma festa portuguesa com certeza. Cheguei em casa uma e pouco da manhã e agora, antes das nove, já estou aqui dentro do avião. Eu trabalho muito…

Brasileiros – Bom dia, presidente. Para começar, vou fazer uma pergunta difícil: tudo bem?

Presidente Lula – Buon giorno… Sabe que esse “tudo bem” não é fácil da gente responder… Um dia desses, eu perguntei “tudo bem?” para uma mulher no elevador e ela me respondeu: “Você fala tudo bem porque ainda não foi à feira hoje!”. Mas isso foi no tempo da inflação a 80%… Aliás, eu estava lendo aqui a matéria (publicada na edição de novembro da Brasileiros) sobre o livro do Maílson da Nóbrega, que era o ministro da Fazenda na época, muito interessante. Mostra o poder que o Roberto Marinho tinha. Ele descreve como o Sarney o chamou para ir lá na ilha dele, no Maranhão. Depois de três horas de conversa, o Sarney fez o convite para ele assumir o Ministério, mas explicou que ainda teria de fazer algumas consultas políticas. E pediu para ele conversar com o doutor Roberto Marinho. O Maílson foi lá, conversou durante várias horas com o doutor Roberto Marinho e, terminada a conversa, o doutor Roberto Marinho disse que gostou dele. Lá, ele encontrou com o Antonio Carlos Magalhães, que também tinha ido conversar com o doutor Roberto Marinho, que lhe comunicou: “Olha, Maílson, o homem te aprovou!”. Aí, ele foi novamente procurar o Sarney, porque o presidente Sarney ia anunciar a nomeação. Mas, antes de ele chegar ao Sarney, a Globo já deu a notícia sobre o novo ministro da Fazenda. O Maílson diz assim: “Aí que eu descobri que o doutor Roberto Marinho tinha força no poder paralelo…”. O Sarney ainda não tinha indicado oficialmente o nome dele e a Globo anunciou o novo ministro. Não deixa de ser hilário…

Brasileiros – Alguém ainda tem esse poder? Seria possível acontecer algo parecido hoje em dia ou o País mudou?

Presidente Lula – Acho que não é possível você exercer a Presidência da República, se estiver subserviente a algum setor, a algum empresário ou a algum político. Ou seja, você só pode exercer a Presidência corretamente se estiver totalmente independente para tomar as decisões. Eu tenho um profundo respeito pela imprensa brasileira, tenho um profundo respeito pela democracia, mas as pessoas precisam aprender que a liberdade de imprensa é, sobretudo, a boa qualidade da informação, a neutralidade da informação, a isenção da informação. Se a sociedade puder, livremente, fazer suas opções e interpretações daquilo que ela vê, ouve e lê, a imprensa cumpre seu papel. Você participou daquele fatídico almoço na Folha de S.Paulo, em 2002, quando eu me levantei da mesa e saí porque fui desrespeitado. Foi o último. Então, eu acho que essa relação entre a imprensa e o governo mudou. Mudou porque mudou o Brasil, porque mudou a economia, porque mudou a consciência das pessoas. Melhorou a visão empresarial, melhorou a visão dos trabalhadores, os meios de comunicação são muito mais numerosos. Nós temos, hoje, muito mais opções. Não temos apenas uma revista ou um canal só de televisão, apenas um jornal. Temos muitos jornais, muitas televisões, temos a internet… Acho que isso é muito bom para o Brasil, isso é bom para o povo brasileiro.
Brasileiros –
Presidente, faltam poucas semanas para o término dos seus dois mandatos como Presidente da República. Como o senhor gostaria de ser lembrado pelos historiadores do futuro, daqui a cem anos?

Presidente Lula – É muito difícil responder a esta pergunta. Seria presunção da minha parte dizer como é que eu quero ser lembrado. Isso depende da ótica das pessoas que forem estudar o que aconteceu no período do meu governo. Certamente, se algum historiador, daqui a cem anos, for consultar apenas um ou outro jornal para saber como foi o meu governo, ele poderá ter uma impressão negativa. Mas se esse mesmo historiador tiver o cuidado de analisar além da imprensa brasileira, a imprensa internacional e acessar a internet da época, ver as mudanças ocorridas na economia brasileira, irá constatar a melhoria no padrão de vida do povo brasileiro. Assim, ele poderá ter uma outra impressão, eu diria favorável, do nosso governo, daqui a cem anos. Mas, de qualquer forma Ricardo, a nossa passagem pelo governo é como se fosse a construção de uma casa. Se eu fiz o alicerce, o alicerce está feito. Se eu fiz a parede, a parede está feita. Se eu fiz o telhado, o telhado está colocado. Ou seja, as pessoas só podem ver aquilo que está sendo feito. Eu, sinceramente, gostaria de ser lembrado da forma mais honesta possível, seja por um pensamento contrário ou a favor do meu governo. Só quero que a pessoa seja justa na avaliação que está fazendo. Depois, é o seguinte: não dá para escolher como você quer ser lembrado. Tem gente que vai se lembrar do Ronaldão pelos gols que ele fez no Inter de Milão, que vai se lembrar dele quando jogou no Barcelona, que vai se lembrar dele da Copa do Mundo de 2002… Tem gente que vai se lembrar do Ronaldo do Corinthians… Então, vai depender muito sob qual ótica a pessoa estiver analisando.

Brasileiros – Se o senhor tivesse de definir em poucas palavras qual a marca que ficou do seu governo, o que diria? Por exemplo: Fernando Henrique Cardoso foi o presidente do Plano Real e da estabilidade econômica. E no seu caso?

Presidente Lula – Foi o governo da inclusão social. Veja bem, Ricardo, deixa eu te falar uma coisa: um governo poderia ser medido por uma única coisa, mas nós não podemos ser. Porque, veja, quando eu falo em inclusão social, é que nós nunca tivemos uma relação entre Estado e sociedade como nós temos agora. Nunca tivemos a participação da sociedade na condução do governo como nós temos agora. Você deve ter visto o jornal Valor desses dias: todas as empresas de economia aberta tiveram o maior ganho da história delas, tivemos o maior número de empresas criadas… Nós vamos chegar a dois milhões e meio de empregos criados com carteira profissional assinada, só de janeiro a outubro deste ano. No nosso período, registramos o mais importante processo de distribuição de renda. É um conjunto de medidas que nós tomamos, voltado para a inclusão social de milhões de brasileiros. Até me assustei outro dia em uma reunião sobre microcrédito com a quantidade de coisas que está acontecendo nessa área. Eu, que sou o presidente da República, não tinha dimensão do que está acontecendo com o microcrédito em nosso País.

Brasileiros – No começo do governo, o senhor admitia que teria dificuldades na área econômica, perante a difícil situação em que o País se encontrava, e repetia sempre: “Nós só não podemos errar na política”. Ao fazermos um balanço desses oito anos, notamos que o governo acabou acertando mais na economia e encontrou mais dificuldades na área política. O que aconteceu? Por quê?

Presidente Lula – Nós tivemos dificuldades nos dois, acertamos nos dois e também erramos nos dois, na política e na economia. Tivemos um extraordinário crescimento econômico já em 2004. Quando eu falei do espetáculo do crescimento, em agosto de 2003, não foram poucas as charges e os artigos irônicos com o presidente da República. No ano seguinte, nós crescemos 5,2%, um número excepcional que há muito tempo não acontecia no Brasil. Em 2005, nós cometemos um erro na política econômica, apertamos muito, não crescemos. Ao mesmo tempo, foi o ano da grande crise política, tivemos problemas sérios. No balanço geral, acho que nós conseguimos ir bem nos dois, nos saímos bem na economia e nos saímos bem na política.

Brasileiros – Se pegarmos agora os indicadores econômicos e sociais de 2003 e compararmos com os números de 2010, até os líderes da oposição reconhecem que o País melhorou em todos os campos. Com toda franqueza, ao assumir o governo o senhor sonhava com esses resultados e a consequente aprovação do governo acima de 80% no final do segundo mandato? O senhor esperava mesmo isso?

Presidente Lula – Não, veja… A única coisa que eu tinha certeza era que eu não podia errar, eu tinha convicção de que, se eu errasse, nunca mais um trabalhador iria chegar à Presidência da República. Então, eu tinha de acertar, eu tinha de provar a cada dia, a cada hora, que nós éramos capazes de governar esse País. Ninguém precisava provar, mas eu precisava provar. Graças a Deus, saímos vencedores.

Brasileiros – Em que área se deu a principal mudança positiva e qual foi a maior deficiência do seu governo, que ficarão como herança para a sua sucessora… (Antes que eu terminasse de fazer a pergunta, o taifeiro da Aeronáutica vem com o carrinho e começa a servir o café da manhã completo: frutas, pães, frios, omelete, sucos, café expresso.)

Presidente Lula – Espera aí… Agora, eu vou comer… Sabe, um dia desses estava vindo nesse avião e peguei um pacotinho de manteiga… Não conseguia abrir a embalagem. Você tem de abrir com a faca, é um absurdo. Fiquei invocado e liguei para o Inmetro… Fiz uma denúncia para o Inmetro, falei que isso era uma vergonha. Essa aqui você puxa e abre, tem outras que não têm como abrir… O Inmetro mandou uma certificação mostrando que nenhuma marca estava dentro das normas, e comunicou às empresas para consertar…

Brasileiros – Presidente, saiu isso no Fantástico domingo… Todas as empresas foram reprovadas e foram obrigadas a mudar a embalagem.

Presidente Lula – Mas o que Fantástico não falou é que fui eu que fiz a denúncia, porque certamente o Inmetro não comunicou para eles…

Brasileiros – Voltando para a pergunta: em que área se deu a principal mudança positiva e qual foi a deficiência do seu governo, que fica de herança para a sua sucessora?
Presidente Lula –
Ricardo, se fosse fácil resumir assim, meu filho, eu poderia dizer muitas vezes que foi a inclusão social. Eu sempre vou dizer que a inclusão social foi a grande conquista do nosso governo, mas é preciso especificar o que é essa herança social, ou seja, você tem o Bolsa Família, você tem uma redução da pobreza, a geração de empregos, a distribuição de renda, então eu acho que a inclusão social foi o grande mote.

Brasileiros – E qual foi a principal deficiência, a herança maldita do seu governo?
Presidente Lula –
Isso não existe, mas certamente existem coisas que a gente não conseguiu fazer. Não existe herança maldita, sobretudo para a Dilma, porque tudo que nós construímos, nós construímos juntos. Pode ser que depois de alguns meses ela descubra uma herança maldita…

Brasileiros – Mas ela não vai poder falar, ela participou do governo… Presidente, o senhor percorreu o Brasil inteiro, várias vezes, para cima e para baixo. Nunca um Presidente viajou tanto pelo País. Qual foi o lugar que mais o marcou, a cena, a pessoa, a viagem, que ficará para sempre em sua memória?

Presidente Lula – Ah, tem muita coisa! A minha cabeça não é uma máquina fotográfica… É uma máquina de filmar… Tem muita coisa na minha cabeça, Ricardo. Por exemplo, a primeira vez que eu fui visitar uma plataforma da Petrobras. Eu fiquei muito emocionado, porque é um monstro, é uma cidade de aço. Antes de eu chegar à Presidência, diziam que a gente não tinha tecnologia para fazer, e nós fizemos e mostramos para o Brasil. Também quando eu cheguei ao canal da transposição do São Francisco… Quando a gente fica sobrevoando a região de helicóptero e vê aquele canal de água no meio do sertão seco, é um negócio emocionante… Agora, o que mais me emociona mesmo é que em volta das obras estão as pessoas que fizeram aquilo ali ou se beneficiaram delas. A alegria delas é contagiante…

Brasileiros – Lembra do que te falou uma dessas pessoas…

Presidente Lula – Posso me lembrar de uma mulher em Cabrobó, porque ela me contou a sua história. Quando começou o canal do São Francisco, ela pediu 50 reais emprestados para o sobrinho dela e começou a fazer pastel para o pessoal da obra. Vendeu muito pastel e guaraná e começou a oferecer mais coisas. Em seis meses, ela estava com um restaurante, servindo mais de 400 refeições, comprou motocicleta… A alegria dela era incrível. Ela falou para mim: “O meu maior orgulho é que neste ano eu paguei 5 mil reais de Imposto de Renda…”. Pois é, enquanto o presidente da República estava recebendo devolução – no ano passado, eu recebi a devolução -, essa mulher estava pagando 5 mil reais de Imposto de Renda, e ela falava com orgulho daquilo. A outra história que eu me lembro é a de um baixinho do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, lá de Pernambuco. Ele veio para uma reunião comigo, em Brasília, e eu percebi que ele não tinha dente. E eu falei: “Companheiro, não dá para colocar dente na boca?”. “Ah! Não tenho dinheiro”, ele respondeu. Aí, eu perguntei para o governador Eduardo Campos: “Não tem um programa Brasil Sorridente lá em Pernambuco?”. “Tem, presidente.” “Então leva esse companheiro!” Aí, ele levou o baixinho ao dentista e depois eu encontrei esse companheiro com dentinho na boca, bonitinho, e ele me falou quando o encontrei de novo: “Fazia muito tempo que eu não conseguia mastigar, agora eu estou mastigando tudo. Eu não podia comer uma castanha, eu não podia comer uma carne! Presidente, só falta o senhor me dar uma coisa, agora que eu estou com a boca boa… Eu preciso de um carrinho…!”. Mas deixa eu dizer uma coisa antes da próxima pergunta: vocês precisariam viajar comigo para ver as grandes obras que estamos tocando. Hoje, o Brasil está construindo as três maiores hidrelétricas do mundo, estamos fazendo as duas maiores ferrovias e as duas maiores refinarias do mundo. É pouco?

Brasileiros – Presidente, do que o senhor mais vai sentir falta ao deixar o governo?

Presidente Lula – Eu acho que eu vou sentir falta das amizades que eu construí nesses oito anos. Vou voltar agora para o meu berço natural, o meu ninho em São Bernardo, deixar de lado amigos que conheci nos anos de governo. Foi muita gente que eu conheci, e agora cada um vai cuidar da sua vida. Vou dizer uma coisa para você: eu estou consciente de que, ao deixar a Presidência da República, eu tenho de desencarnar do mandato. É um processo de desencarnação mesmo. Eu quero ficar desintoxicado do poder, fazer uma limpeza no corpo, tirar da minha vida tudo que não precisa, sabe… Tenho de começar a desacelerar. Porque eu preciso ficar o mais próximo possível da vida de um ser humano normal, e não ficar querendo curtir um status de ex-presidente, que não tem importância. Porque ex-presidente, você sabe, é que nem ex-marido, vale muito pouco… E eu também não quero ficar vivendo de saudade, sabe como é? Eu vou guardar recordação das coisas boas e vou ter de tocar a vida para a frente…

Brasileiros – O que o senhor gostaria de fazer nessa nova fase que começa a partir do dia 1o de janeiro de 2011?

Presidente Lula – Eu quero voltar ao Pacaembu para ver jogo do Corinthians, vestido de torcedor, encontrar os meus companheiros do sindicato e tomar uma cerveja, eu quero ser um homem comum…

Brasileiros – Como era antes de ser presidente…

Presidente Lula – É isso… Um pouco mais livre até… Porque, antes de ser presidente, eu queria ser presidente, e eu agora já fui presidente…

Brasileiros – Por falar nisso, o que o senhor gostaria de ter feito, e não conseguiu, para melhorar a vida do povo brasileiro? Qual foi a sua maior frustração. E qual foi a sua maior alegria no governo?

Presidente Lula – Alegrias foram muitas e frustrações, também muitas. Antes de terminar o mandato, a gente não deve ficar dizendo que foi tudo só alegria. Eu vou dizer para você que a minha maior tristeza no governo não foi o mensalão, nem foram as críticas da oposição. Para mim, a coisa mais dolorida foi a tentativa de culpar o governo por aquele acidente da TAM no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Nunca vi tanta perversidade de alguns setores dos meios de comunicação, ao tentar jogar nas costas do governo a responsabilidade pelo maior acidente aéreo do País. Depois que ficou provado que tinha sido erro humano, ainda assim nenhum crítico teve coragem de pedir desculpas. Este foi o momento mais duro nos oito anos de mandato.

Brasileiros – E a maior alegria?

Presidente Lula – Meu mandato é um rosário de coisas boas, mas, obviamente, quem conviveu comigo sabe que eu colocava eleger a minha sucessora como uma das grandes conquistas do meu governo. E conseguir, depois de oito anos de mandato, eleger a primeira mulher presidenta da República do Brasil, eleger uma mulher que a maioria dos políticos não acreditava que pudesse chegar lá, é bom demais, é o maior reconhecimento pelo nosso trabalho. Tenho certeza de que a Dilma vai ser uma excepcional presidenta da República.

Brasileiros (brincando) – Então, tua maior alegria vai ser na hora em que passar a faixa para ela… E eu pensei que a tua maior tristeza tivesse sido quando eu saí do governo…

Presidente Lula – Sempre tem um momento de tristeza no governo quando alguém sai. Na verdade, são dois momentos diferentes. Uma coisa é quando é o ministro que pede para sair, é o cara que procura o presidente e comunica: “Presidente, eu vou sair, porque eu quero ser candidato a isso, vou fazer tal coisa na vida”. O cara só comunica e não se preocupa em saber se o governo vai ficar bem ou mal. O cara vai embora e pronto. Agora, quando é o presidente que decide tirar o cara… haja sofrimento!

Brasileiros – Para você, sempre foi muito difícil isso, mandar alguém embora, demitir um amigo, eu me lembro, desde os tempos do sindicato…

Presidente Lula – É difícil porque tem gente que chora, tem gente que fica às vezes sem falar nada… Teve gente que começou a chorar antes mesmo de eu comunicar a demissão. O bom do ser humano é isso, o lado emocional estar presente em todas as coisas. Mas, realmente, é muito difícil você chegar para o cara e falar: “Olha, companheiro, eu não quero mais você trabalhando comigo”. Agora, se é o contrário, o sujeito chega para você com a maior desfaçatez e diz simplesmente: “Presidente, eu vou embora!”.

Brasileiros – Em algum momento, o senhor se arrependeu de ter sido eleito Presidente?

Presidente Lula – Eu briguei a vida inteira para ser presidente… Você me conhece, no sindicato, quando as coisas estavam feias eu dizia: “Quem quiser me derrotar vai ter de ir para a rua”. No PT e no governo, a mesma coisa: eu dizia que quem quisesse me derrotar, teria de ir para a rua. De modo que, Ricardo, o importante é que eu vou terminar o meu mandato de oito anos sem mágoas, sem nenhuma razão para ter nenhuma tristeza. Não há razão para guardar qualquer mágoa dos meus opositores nem de nenhum companheiro. Fui oposição muito tempo, e sei qual é o papel da oposição – sobretudo, fazer oposição quando o governo está bem.

SAÚDE

Brasileiros – Pelo jeito, você está chegando ao final do seu governo de alma leve…

Presidente Lula – De alma leve… Me sinto muito mais sabido do que quando entrei, muito mais preparado. Com muita humildade, vou utilizar todas as coisas que foram bem-sucedidas no meu governo para trocar experiências com países mais pobres do que o Brasil. Se você quiser encontrar um homem de alma limpa hoje, olhe para mim… Te digo que Deus foi generoso comigo em excesso, por ter me permitido fazer tudo o que eu fiz. Não é uma obra de capacidade e de inteligência, é alguma coisa superior guiando a gente. Eu acredito nisso.

Brasileiros – Ao se despedir de Fernando Henrique Cardoso, no dia da sua posse, em 2003, o senhor disse a ele na porta do elevador: “Saiba, Fernando, que você deixa aqui um amigo”. O que vai dizer para a Dilma nessa hora, ao se despedir dela?

Presidente Lula – Não sou eu, é ela quem vai ter de dizer alguma coisa para mim… Eu vou te contar uma coisa, embora eu tenha consciência de que “rei morto, rei posto”, embora eu tenha consciência de que a Dilma tenha de montar um governo com a cara e à semelhança dela, eu não sou inocente para não saber que tenho responsabilidade. Não sou inocente para desconhecer a relação que eu tenho com a sociedade brasileira. Quero exercitar essa relação de amizade, a respeitabilidade que eu conquistei e o companheirismo que eu produzi no governo para ajudar a Dilma a fazer mais e melhor do que eu fiz.

Brasileiros – Pegando um pouco, o que o senhor falou sobre a oposição em seu discurso da vitória, a presidente eleita estendeu a mão à oposição. Como será a sua postura em relação ao Fernando Henrique, ao PSDB, o senhor vai trabalhar para uma união…

Presidente Lula (cortando a pergunta no meio) – Não existe essa possibilidade, não existe. Nós temos de ter claro o seguinte: Partido Democrata é Partido Democrata, Partido Republicano é Partido Republicano, PSDB é uma coisa e PT é outra coisa. Está certo que nós temos amigos comuns, que de vez em quando, no afã de nos ajudar, falam pensando que a gente é a mesma coisa… E não é, não tem similaridade entre um tucano e uma estrela, não tem. Já estivemos próximos, é verdade, no começo da criação do PSDB, por ocasião da Constituinte, ou seja, já estivemos bem mais próximos do que hoje, mas isso acabou com o tempo.

Brasileiros – Só para lembrar um fato: no final de 1993, em um almoço na Cantina do Mario, discutindo o cenário para a campanha presidencial de 1994, o senhor chegou a falar com o Tasso Jereissati sobre a possibilidade da formação de uma chapa PT-PSDB…

Presidente Lula (cortando a pergunta) – Não, não falei só com o Tasso Jereissati, falei com mais gente. Era o Tasso, era o Fernando Henrique, era o Sérgio Machado, era o José Serra, falei com todos eles. Nós chegamos a discutir a composição da chapa, mas não foi possível. E eu acho que nem eles devem ter remorso e nem nós. Ou seja, nós trilhamos caminhos diferenciados, o que é importante para a democracia brasileira. O que é grave é que, na campanha passada, os tucanos se apresentaram com uma predisposição de baixar o nível do debate, como eu não via há muito tempo. Sinceramente, do ponto de vista de quem vê de fora, o Serra saiu um pouco menor desta vez que em 2002. Do ponto de vista da questão ética, da questão moral, eu acho que ele saiu inferiorizado, o tempo é que vai mostrar. O tipo de campanha que ele fez não combina com a trajetória política dele. Eu vou ter um comportamento na minha vida agora como teve o Pelé, como teve o Rivelino, que pararam de jogar, mas não desaprenderam. Vou ser apenas torcedor, e torcedor tem mais autonomia. Pode gritar mais, não têm as barreiras que um dirigente partidário tem.

Brasileiros – Não vai ser técnico, mas vai dar seus palpites, é isso?

Presidente Lula – Vou, sim… Sou um homem hoje realizado, um homem feliz.

Brasileiros – Dá para perceber…

O comandante informa que o pouso está autorizado e, dentro de instantes, pousaremos no aeroporto de Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Fechamos a mesa, desligamos os gravadores, mas o presidente continua falando.

Presidente Lula – Agora em off… (ao final, ele só pediu para não publicar um determinado trecho da conversa). Me lembro quando fui a primeira vez a uma reunião do G8, a convite do Chirac. Eu só tinha uns cinco meses na Presidência. Cheguei lá e já estavam o Putin, o Bush, o Tony Blair, o Prodi, o Schroeder, o primeiro ministro do Canadá. Como convidados, estavam também o presidente do Senegal, o rei da Arábia Saudita, estava o Fox, do México, o presidente da Indonésia, e eu fiquei pensando o que estava fazendo lá no meio deles… De repente, eu fiquei olhando para a cara daquele pessoal e pensei: “Espera aí, o que esses caras são mais do que eu? Quem eles representam e quem eu represento? Quem pode falar em nome dos trabalhadores mais do que eu?”. E hoje eu me dou conta, Ricardo, que eu me reuni mais vezes com os trabalhadores dos países deles do que eles próprios, e depois de ser presidente! Quando vou ao G20, a referência para os dirigentes sindicais sou eu. Então, eu fiquei pensando: o que Tony Blair representa, o que o Bush representa, qual é o público deles? Por que eu tenho de me sentir inferior a eles?

Brasileiros – Em que momento você se deu conta do que representa ser presidente do Brasil?

Presidente Lula – Eu percebi, eu me lembro como se fosse hoje, na hora em que o Bush entrou no salão. Estava sentado ao lado do Kofi Annan, estava todo mundo sentado na hora em que o Bush entrou. Todo mundo se levantando, eu segurei na mão do Celso Amorim e falei: “Fica aí, daqui a gente não vai levantar”. Ninguém levantou para mim, por que eu tenho de levantar? Fiquei sentado e o Bush foi até lá para me cumprimentar. E aí, meu caro, eu vi que respeito é respeito. Respeito não é porque você tem dinheiro ou porque você tem arma nuclear. O respeito vem pelo seu comportamento. E eu termino o meu mandato com uma relação de amizade internacional extraordinária, eu tenho consciência de que as pessoas me respeitam, e é isso que eu quero. O Brasil não precisa ser mais do que ninguém, mas também não precisa ser inferior a ninguém.

O avião agora já está parado na pista, mas Lula continua falando sobre a política externa.
Presidente Lula –
Essa questão do acordo com o Irã me deixou pessoalmente decepcionado.
Brasileiros – Foi um erro o Brasil entrar nessa história?

Presidente Lula – Foi um erro deles…

Brasileiros – De quem? Do Irã?

Presidente Lula – Não, foi um erro do Bush, do Obama… O que eles queriam? Queriam levar o Irã para a mesa de negociação? Eu perguntei ao Obama se ele já tinha conversado com o Ahmadinejad. Não. Perguntei ao Sarkozy. Não. Perguntei ao Gordon Brown: você já conversou com o homem? Não. Ninguém nunca tinha conversado com ele! Ficam brigando pelos assessores… Aí, eu falei para o Obama: “Obama, você é o presidente mais importante do mundo. Pega um telefone e liga para o cara. Convida ele para vir aqui…”. Falei para o Sarkozy a mesma coisa. No final da reunião, eu avisei para eles: “Eu vou ao Irã. Vou a Israel, vou ao território palestino e vou conversar com o Ahmadinejad”. Eles passaram a dizer que não ia dar certo, não ia dar certo, não ia dar certo. E eu falei: “Só queria que vocês não fizessem o bloqueio ao Irã antes de eu ir lá”. Porque eles queriam fazer o bloqueio de qualquer jeito. Daí, o Obama ficou muito nervoso, muito irritado. Os outros também mostraram irritação, mas todo mundo, pela nossa relação de amizade, ficou condescendente. Fui embora e, quando ia viajar ao Irã, antes de ir, recebi uma carta do Obama, que dizia textualmente quais as coisas que ele achava importantes o Ahmadinejad fazer para permitir o acordo. E o Ahmadinejad fez exatamente o que estava pedido na carta do Obama. Para minha surpresa, quando viajei ao Irã, passei na Rússia, e o Obama tinha ligado para o Medvedev, para reclamar da minha ida. Chego no Qatar, a Hillary Clinton tinha ligado para o Emir do Qatar para reclamar da minha ida. Na verdade, a dona Hillary Clinton trabalhou contra o tempo inteiro. Nós chegamos lá, eu e o Celso Amorim, passamos o dia inteiro em reuniões, fui falar até com o grande líder religioso deles, o Khomeini. A toda hora, eu falava para o Ahmadinejad: “Vim aqui para fazer o acordo. Se você não fizer acordo, estará abrindo mão dos dois países que querem contribuir para a paz, o Brasil e a Turquia. Você sabe que eu estou perdendo a amizade com os meus aliados, porque eu acho que a paz vale tudo isso.” Na hora em que ele topa os termos do acordo, os caras não aceitam! Não aceitam o que eles mesmos queriam que o cara fizesse. Sabe aquele negócio… Eu te devo 50 dólares. Aí, eu demoro para pagar e, quando vou pagar, você fala: eu não quero mais os 50 dólares! Então, eu fiquei sentido pessoalmente. De qualquer forma, eu descobri também que o Conselho de Segurança da ONU precisa mudar e eles não querem mudar nada. Eles estão em um baile com cinco caras e cinco mulheres bonitas. Por que convidar um sexto ou um sétimo cara para o baile?

A entrevista é finalmente interrompida para o presidente descer do avião, e cumprir seus compromissos em Ribeirão Preto: início das obras do alcoolduto São Sebastião-Uberaba e apresentação dos resultados das ações governamentais para o setor sucroenergético no período 2003-2010. Só retomamos a conversa, já no avião novamente, às quatro da tarde. Na cabine presidencial, agora também viaja o ministro da Agricultura, Wagner Rossi.

Brasileiros – Qual a coisa que o senhor mais tem vontade de fazer em seu primeiro dia sem agenda, sem protocolo, depois de entregar a faixa à presidente? Ninguém acredita que o Lula vai ficar parado em casa, sem fazer nada, sentado no sofá…

Presidente Lula – Realmente, eu não vou conseguir ficar sentado em casa no sofá. É o que eu disse: vou ter de primeiro desencarnar da Presidência, até por necessidade de sobrevivência. Quero estar bem com a minha cabeça quando deixar de ser presidente. A gente não deixa apenas quando entrega a faixa, a gente só deixa quando consegue tirar da cabeça a ideia de que você foi presidente. Tem de voltar a ser o que você sempre foi antes, entendeu? A única profissão que eu tive na vida foi a de torneiro-mecânico. É a única coisa que eu aprendi a ser. Agora, nem isso sei mais, mudou tudo. No meu tempo, torneiro tinha de ser um artista, agora é um operador de máquina. Presidente não era profissão, era exercício de um mandato. Acabou… Graças a Deus, acabou bem…

Brasileiros – Na imprensa, sai todo dia matéria sobre os planos de Lula para o futuro ao deixar a Presidência. O senhor, afinal, já definiu o que pretende fazer da vida, depois de descansar alguns dias?

Presidente Lula – Ainda não defini e não tenho preocupação em definir, e não sei o que eu pretendo fazer da vida. Só posso definir o que eu quero fazer depois que eu deixar de ser presidente. Enquanto eu for presidente, eu não penso sobre isso e não decido o que eu vou fazer.

Brasileiros – Como o senhor imagina que será o governo Dilma? Apenas uma continuidade do governo Lula ou terá outras características? E quais seriam? Em que Dilma é diferente de Lula?

Presidente Lula (brincando) – Se for só uma continuidade, já vai ser uma grande coisa… Agora, como é outra pessoa, é outra cabeça, certamente ela pode fazer mais e pode fazer melhor. Além disso, a Dilma já vem com uma experiência de oito anos de governo. Portanto, ela pode marcar um gol de placa que eu não marquei… A situação do Brasil hoje é invejavelmente melhor do que quando eu peguei o País em 2003. O Brasil está em outro patamar. E ela tem mais conhecimento hoje do que eu quando entrei no negócio. A relação dela com os partidos é muito melhor que a minha quando ganhei as eleições. Então, todas as condições, meu filho, estão dadas para ela fazer um extraordinário governo. Eu espero estar na arquibancada, gritando e torcendo. Não sou daqueles que vai ao estádio para vaiar o meu time. Eu vou para aplaudir o meu time.

Brasileiros – Nesse seu último Natal no Palácio da Alvorada, que presente o senhor gostaria de receber?

Presidente Lula – Eu não sou de esperar presente de Natal. Veja, para mim, Ricardo, que sou um homem de poucas pretensões materiais, se a minha família estiver com saúde, se meus amigos estiverem todos bem, eu, sinceramente, me sentiria muito gratificado. Se eu estiver com toda a minha família, e se o Zé Alencar puder tomar um gole comigo, já está ótimo.

Brasileiros – O que o senhor vai dizer ao companheiro do PT, que certamente vai aparecer, para lançar o seu nome para 2014?

Presidente Lula – Eu acho que qualquer resolução sobre 2014 deve ser encabeçada pela companheira presidenta, quando ela entender que chegou o momento de discutir a eleição. Como eu acredito que ela vai fazer um bom governo, ela pode conquistar o segundo mandato, e ganhar as eleições.

*Entrevista originalmente publicada na Revista Brasileiros.

ENTREVISTA COM LULA DEPOIS DA DISPUTA COM COLLOR

 

UMA ELEIÇÃO ENTRE A ÉTICA E A POLÍTICA

O primeiro grande balanço público da campanha d PT em 1989. Esse acabou sendo o resultado da entrevista que Lula concedeu para a confecção deste livro, numa manhã quente do final de fevereiro de 90. Acordado de uma grande ressaca, como ele mesmo definiu, dois meses depois do segundo turno, o ex-candidato falou com franqueza dos erros do partido, das suas próprias dificuldades, dos momentos de emoção.

A entrevista foi concedida por Lula dia 23 de fevereiro na chamada sede II, uma casa na Vila Mariana, que funciona como segunda morada do Diretório Nacional do PT e onde Lula despacha quando está em São Paulo. Durante duas horas e meia, Lula se submeteu a uma bateria de perguntas, algumas bastante incômodas, sobre a campanha de 89.

A presença de Ricardo Kotscho e Aloizio Mercadante, os assessores mais próximos de Lula durante todo o ano, ajudou a compor o clima do balanço que acabou acontecendo naquela manhã, além do entrevistado, Kotscho e Aloizio, participaram da conversa Cícero Araújo, Breno Altman e André Singer.

André – Lula, qual avaliação você faz deste processo que quase te levou à Presidência da República?

Lula – Olha, perder uma eleição numa campanha como esta, que envolveu tanta gente, é como se a gente, dois meses depois, tivesse acordado de uma grande ressaca. Estou ainda procurando respostas, razões do porquê perdemos as eleições – eleições que, na minha opinião, estavam ganhas pelo menos até 10 ou 11 de dezembro. É verdade que nunca estivemos na frente nas pesquisas de opinião pública, mesmo nas mais otimistas, mas vínhamos num clima de crescimento que qualquer analista político de bom senso via como irreversível a nossa vitória dia 17 de dezembro.

O simbolismo da imagem muitas vezes cala mais fundo, e eu acho que o Collor trabalhou isto bem. Veja, nós é que somos os verdadeiros caçadores de marajás, e ele é que levou a fama; nós éramos a oposição de verdade ao governo Sarney, e ele que levou a fama. Esse simbolismo nós não conseguimos trabalhar.

André – Lula, em algum momento você achou que não ia dar para chegar ao segundo turno?

Lula – Nunca perdi a fé de que a gente pudesse ir para o segundo turno. Mesmo nos comícios mais fracos, sempre achei que a hora em que a militância fosse pra rua, a gente ia para o segundo turno.

André – Mesmo em julho?

Lula – Mesmo quando a gente estava com 5% nas pesquisas, eu tinha esta convicção. Eu sabia que o Brizola tinha muita força em dois estados, e nós tínhamos força espalhada por todo o país. É lógico que, naquele momento, era muito difícil passar otimismo, como 5% das intenções de voto. É como um time que está perdendo de quatro a zero e, quando termina o primeiro tempo, vem a pergunta: “dá pra virar?”

Mas estava convencido que o jogo ia virar. A gente fazia campanha no Brasil inteiro, e percebia que o clima nos outros estados era melhor que o de São Paulo.

Eu falava sempre para o comitê que era preciso atacar mais São Paulo. Havia uma confiança exagerada do nosso pessoal sobre os resultados no estado. Depois do primeiro turno, a gente chamou os prefeitos pra discutir, pra ver o que fazer no sentido dos prefeitos se jogarem de corpo e alma na campanha, tentando reverter o quadro em São Paulo.

André – Parece que essa foi uma reunião muito dura…

Lula – Não, até que não… Eu tomei a iniciativa de não culpar os prefeitos pelos resultados do primeiro turno. Se é verdade que perdemos alguns eleitores  em algumas cidades, entre quem se desencantou com nosso prefeitos, também é fato que, por causa de nossas vitórias nestas mesmas cidades, em 1988, nós ganhamos votos na Paraíba, no Rio Grande do Norte, em Pernambuco. Eu me assustei quando fui ao Nordeste e vi aqueles enormes comícios, cada vez com mais gente.

André – Em que mês você começou a perceber que a coisa estava mudando?

Lula – A partir de setembro.

Cícero – Em que lugar você sentiu que estava dando a virada?

Lula – Na visita a Teresina, no Piauí, durante a penúltima caravana ao Nordeste antes de 15 de novembro. Fizemos um comício às três horas da tarde, com a praça entupida de gente, depois saímos em passeata e, por conta da quantidade de gente que aderiu à caminhada, tivemos que fazer um novo comício. Tomamos conta da cidade e ali eu senti que começava a virada.

Cícero – Aqui em São Paulo também teve um momento em que a militância saiu da apatia, marcado talvez pelo comício de setembro na Praça da Sé.

Lula – Olha, eu nunca gostei da campanha em São Paulo. Nós não estávamos como o pique de sempre, a militância paulista não estava com a mesma garra que em outros lugares, ficamos na defensiva. Sabe por quê? Porque aqui nosso pessoal tinha que justificar o ônibus, os buracos na rua, o lixo. Já se sentia governo, estava politicamente inibido.

Breno – Você acha que as administrações municipais colocaram na defensiva a militância do PT?

Lula – Acho. Aliás, um dia desses eu tive uma conversa com a Marilena Chauí e a Luíza Erundina e elas me contaram coisas da campanha que nem eu sabia: carros nossos eram apedrejados em passeatas, atacavam manga e mamão em nosso pessoal, abriam as portas e batiam em militantes dentro dos carros.

Ricardo – Até a última semana, o PRN não existia em São Paulo. De repente, os caras saíram da toca – parecia a Marcha com Deus e a Família pela Liberdade. O que aconteceu?

Lula – Não acontece nada de repente. Na medida em que despontou a possibilidade da gente ganhar as eleições, foi desencadeado um processo de terrorismo contra o PT. Diziam que o Lula ia acabar com as igrejas não-católicas, que íamos tomar um quarto de quem tivesse dois, uma casa de quem tivesse duas, um carro de quem tivesse dois, uma televisão de quem tivesse duas. Ora, a boca pequena, com milhares de pessoas comentando, é um negócio criminoso.

André – Você acha que o PT deveria ter uma outra estratégia para negar estas acusações?

Lula – Eu acho que, muitas vezes, nós pecamos por excesso de otimismo. Certas coisas, nós discutíamos a partir da nossa cabeça, a partir da cabeça do pessoal politizado. Quando disseram que a gente ia acabar com a religiões não-católicas, nós fizemos um único programa especial sobre o tema, quando deveríamos ter realizado várias inserções.

Precisávamos ter insistido nestas questões, porque é exatamente na faixa menos politizada que essas coisas pegam, neste setor funciona a estória que, para bom entendedor, meia-palavra basta: para este segmento não se deixar levar por estes boatos, não basta meia-palavra, é preciso, quem sabe, um livro inteiro. Eu acho que a gente não conseguiu ter uma linguagem para este setor mais vulnerável da sociedade, a gente não conseguiu penetrar nesta camada do jeito que deveríamos.

Cultura passou a fazer parte de um projeto nacional, diz Juca Ferreira

Buenos Aires – em entrevista à Agência Brasil, o ministro da Cultura, Juca Ferreira, faz um balanço das realizações da sua pasta durante o governo Lula, das ações que desenvolveu ao longo de sua gestão e das verbas e projetos culturais em andamento, além de sinalizar seu interesse  em relação ao governo da presidenta eleita, Dilma Rousseff. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O que mudou na cultura brasileira desde que o senhor assumiu o ministério?

Quando assumimos, em 2003, o então ministro (Gilberto) Gil chamou a atenção para o fato de que a cultura era tratada como algo secundário. Os recursos para o setor eram o menor orçamento da República – 0,2%; não se tinha noção de política pública; não se tratava da cultura como uma necessidade básica de todo ser humano. A grande mudança foi esta: hoje, a cultura é parte de um projeto nacional. O governo Lula não só aumentou o poder aquisitivo da população, incluindo milhões de brasileiros  em outro nível da sociedade, mas melhorou o padrão de outras políticas públicas, incluindo a educação e a cultura. Nós saímos de um orçamento de 0,2% para 1,3%, ou seja, em termos concretos saimos de R$ 287 milhões para quase R$ 2,5 bilhões. Isso é um crescimento vertiginoso mas, para as necessidades de demanda de um país com 190 milhões de habitantes, acho que o orçamento ainda precisa crescer mais um pouco. Acho que a cultura precisa chegar a, no mínimo, 2% do orçamento público.

Como esse dinheiro é distribuído?

A verba atual é distribuída a projetos de todo o Brasil. Essa é uma qualidade da nossa gestão: desconcentramos o acesso aos recursos. Quando nós chegamos, 80% desses recursos iam para projetos culturais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Hoje, estamos conseguindo disponibilizar os recursos para o Brasil inteiro e para todas as áreas da cultura, sem discriminação e sem privilégios. Não fizemos opção por nenhuma área. Pelo contrário: optamos pela diversidade cultural brasileira e pela abrangência, pelo seu conjunto.  Acho que estamos perto de afirmar que dinheiro não é mais o principal problema da cultura.

Qual é o principal problema?

O principal problema da cultura brasileira é formação, capacitação, montagem de uma infraestrutura que dê atendimento a todo o território nacional. Mais de 90% dos municípios brasileiros não têm um teatro, um cinema sequer. Estamos zerando agora municípios sem biblioteca. Só não zeramos ainda porque abrimos uma biblioteca, mas o prefeito fecha porque não quer pagar o salário de duas bibliotecárias e três funcionários. Mas vamos zerar. Estamos perto de montar uma estrutura, mas o déficit é muito grande no Brasil. Nunca se cuidou, seriamente, de disponibilizar cultura para todos os brasileiros, em todo o território nacional.

Como o senhor analisa o atual momento da cultura brasileira?

Acho que  estamos vivendo um excelente momento. Por exemplo: pela primeira vez, depois de muitos anos, tem mais filme brasileiro sendo exibido nas salas de cinema do que filme estrangeiro. Isso acontece sem nenhum mecanismo de proteção. É pelo interesse da população. Nós estamos colocando mais dinheiro no cinema brasileiro do que na época da Empresa Brasileira de Filmes (Embrafilme, criada em 1969 e extinta em 1990). Estamos vivendo um novo ciclo que, evidentemente, ainda tem seus problemas, mas isso é parte desse processo que estou relatando, de investimento pesado na cultura.

Quais os projetos culturais em andamento até o fim do governo Lula?

Temos muitos projetos em andamento até o fim do ano. Abrimos agora uma série de editais, em torno de R$ 300 milhões, para atender a várias áreas culturais. Vamos lançar a pedra fundamental de um centro de referência sobre Luiz Gonzaga  (cantor e compositor pernambucano e autor, juntamente com Humberto Teixeira, do clássico Asa Branca) e outro centro sobre  Sivuca (sanfoneiro paraibano). Estamos recuperando o engenho onde José Lins do Rego escreveu o principal romance dele – Menino de Engenho -  e também estamos criando uma casa de samba no Rio de Janeiro para a velha guarda das escolas de samba. Estamos com muitas iniciativas. Eu prometi ao presidente Lula que iria trabalhar até o dia 31 de dezembro e até 31 de dezembro estarei trabalhando.

De Buenos Aires o senhor segue para Montevidéu, no Uruguai. Alguma associação cultural em vista?
A missão no Uruguai é uma demanda pessoal do presidente José Mujica. Na última reunião que tivemos do Mercosul Cultural,  o presidente pediu maior integração com as políticas do Ministério da Cultura do Brasil. Então, vamos começar essa conversa. A missão no Uruguai é o primeiro passo para estabelecer novo termo de cooperação com a área cultural do governo Mujica.

O governo da presidenta eleita Dilma Rousseff começa no dia 1ª de janeiro. Se for convidado, o senhor continuará no cargo?

Se for convidado a permanecer no Ministério da Cultura, continuo. A presidenta eleita deixou claro que ela vai escolher o seu ministério na volta desta semana de descanso. Se me convidar, eu tenho todo o interesse.

DILMA CONCEDE ENTREVISTA COLETIVA

Muito contente e afetuosa com os presentes, a primeira presidenta eleita no Brasil, Dilma Vana Rousseff, concedeu, junto com o presidente Lula, sua primeira entrevista coletiva, ontem (3), no Palácio do Planalto. A presidenta falou de temas variados, do MST à mensagem de felicitações enviada pelo governador eleito de São Paulo, Geraldo Alckmin, passando pelo Pré-Sal, saúde, educação, salário mínimo.

Trechos da entrevista

Oposição às práticas violentas no campo

No meu governo, não vai haver outro Eldorado dos Carajás. O que precisamos é transformar o pequeno agricultor em proprietário, e que ele tenha melhorias dentro do campo e na educação. O proprietário tem que ter renda e tem de perceber que mudou de vida.”

Sobre os ministros

Faço absoluta questão de que os ministros tenham vínculo muito forte com o Brasil e com os princípios do meu governo, da política que eu defendo.”

Sobre uma eventual CPMF

Não pretendo enviar ao Congresso a reedição da CPMF, mas nesse país vamos negociar com os governadores.”

Sobre as felicitações de Geraldo Alckmin

Recebi uma ligação correta, republicana, do governador eleito de São Paulo, o Alckmin, que acenou com o que considero que deve ser a maneira correta de proceder. Vou negociar com todos os governadores e estar atenta às necessidades dos estados.”

Sobre o salário mínimo

Dilma Vana Rousseff, afirmou que pretende manter a fórmula atual que leva em conta o crescimento da economia, Produto Interno Bruto(PIB) dos dois anos anteriores mais a inflação do ano corrente. Porém, a presidenta afirmou que há em estudo uma compensação por causa do desempenho do ano passado. “Já em 2011, já estará acima dos R$ 600. Nós vamos fazer esse ajuste. Mas quero dizer, que mantido o atual critério, por volta de 2014, teremos um salário mínimo acima de R$ 700.

No caso do Bolsa Família, tenho um objetivo, mas é assegurar que a cobertura do Bolsa Família a 100%. Houve muitas dificuldades dos estados no cadastramento. São as prefeituras que cadastram, mas, no período do meu governo, vou buscar um nível maior de benefício, proporcional ao que o país possa dar a esse conjunto de família.”

Sobre o pré-sal e a política para o petróleo

A questão do pré-sal está na pauta do Congresso. Tem um governo no exercício pleno da sua atividade e um Congresso idem. A partir do momento que se encerrar a atividade do governo e do congresso o que restar será discutido em sequência.

Não podemos ser exportadores de óleo bruto, porque senão vamos perder muito dinheiro. Temos que refinar o nosso óleo até chegarmos a entrar em outro plano, que é o da petroquímica. Aí os ganhos sobem a 1000%.”

ECONOMISTA MARIA DA CONCEIÇÃO TAVARES DIZ QUE “LULA É UM GÊNIO DO POVO”

foto: Marcelo Carnaval

Em longa entrevista ao jornal português Público, a economista portuguesa Maria da Conceição Tavares fala sobre diversos assuntos tanto do passado quanto do presente, da vinda ao Brasil por causa do ditador Salazar à política internacional do mundo de hoje.

Mas os pontos principais da entrevista se dão nos momentos em que ela fala de Lula e quando tocam às questões envolvidas nas eleições no Brasil. Dizendo-se amiga de Dilma e Serra, Conceição critica a agressividade do tucano e declara seu voto em Dilma.

Sobre Lula

É uma inteligência nata. É um génio do povo. Nós tivemos um génio do povo. Se não, não teria chegado lá. Você acha que alguém vindo de onde ele veio, com as dificuldades que teve, chega a presidente? Não. Ele é um génio do povo, mesmo, e impressiona qualquer um.”

A preocupação dele é tornar cidadãos os que estão à margem. E não com palavras, com factos. Indo até eles, dando-lhes direitos, com a preocupação de que as políticas sociais sejam para incorporação.

O Lula, entre as derrotas, fez várias viagens ao Brasil inteiro, chamadas Caravanas da Cidadania. A palavra que escolhe sempre é cidadania. Por isso digo que é republicanização. O que ele quer é que todos os brasileiros tenham cidadania, possam-se expressar, ter direitos. Quer acabar com os dois Brasis, em resumo. Quer fazer disto uma nação.”

Primeiro, não é populista porque é do povo. Populista seria um cara da elite que estivesse manipulando o povo. Ele ascendeu do povo, e foi sendo feito pelo povo.
Depois, ignorante, coisa nenhuma. O Lula sabe mais do Brasil do que ninguém. E sabe mais de economia aplicada, prática, do que ninguém.”

Sobre Serra

Não que sejam amigos pessoais, como eu sou amiga dos dois [Dilma e Serra]. Mas sempre tiveram boa relação. O Serra era um sujeito civilizado. Não sei o que deu na cabeça dele agora.”

Essa mania de chamar um partido de nazi, acho de maluco, num país democrático como é hoje o Brasil. A gente está extremando o argumento. O Serra está muito agressivo. É verdade que essa deve ser a última oportunidade, mas parece que lhe bateu o desespero.”

ele virou muito conservador e é frontalmente contra a política externa do Brasil, essa política de autonomia. Ele não é a favor das relações Sul-Sul. Preferia que a gente mantivesse a relação Norte-Sul, mais estreita com os Estados Unidos, o que acho um erro. E ele é muito fiscalista. Tanto, que o que está dizendo é contraditório. É a favor do corte do gasto público, mas diz que vai dar não sei quantos mil de salário mínimo, e para os aposentados. Está fazendo promessas demagógicas…”

Sobre Dilma

É uma moça que sempre fez política, como o Serra. Fez política nos partidos radicais nos anos 70, ficou presa muitos anos, teve um comportamento fantástico na prisão, é uma mulher de muita coragem, de nervo. Ela não se desmorona à toa.
Em 80 veio para Campinas, para o doutoramento. Era brilhante.”

O que ela não tem é o conhecimento político do Lula. Mas foi ministra de Minas e Energias, um sector pesado, em plena crise de energia eléctrica — herança da política boba do Fernando Henrique —, e foi Chefe da Casa Civil, uma casa política. E está com ele [Lula] todos os dias. Tem aprendido com ele tudo o que há para aprender sobre o Brasil.”

Para ler a íntegra da entrevista, clique aqui.

O HISTORIADOR MONIZ BANDEIRA AFIRMA QUE SERRA É SUBMISSO AOS INTERESSES DOS ESTADOS UNIDOS

Em entrevista à Agência Carta Maior, o historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira fez várias análises sobre o papel da direita nessa eleição. Entre elas, Moniz Bandeira afirmou que o candidato Serra representa os interesses do capital internacional representado pelos Estados Unidos. Esse, o grande perigo que o Brasil corre com uma possível vitória do candidato da elite retrógrada do Brasil.

Analisando a campanha do candidato Serra, que se encontra ensandecido querendo de qualquer forma conseguir ser eleito, Moniz Bandeira afirmou: “O atual processo eleitoral está infectado por uma intensa campanha terrorista, uma guerra psicológica, promovida não apenas pela direita, mas pela extrema-direita como a TFP – Tradição Família e Propriedade -, OPUS DEI, e núcleos nazistas do sul, e sustentada por interesses estrangeiros, que financiam a campanha contra a política exterior do presidente Lula, pois não querem que o Brasil se projete mais e mais como política global.

Os dois projetos em disputa são definidos: o Brasil como potência econômica e potência global, socialmente justo, militarmente forte, defendido pela candidata do PT, Dilma Rousseff; o outro, representado por José Serra, candidato do PSDB-DEM, é o Brasil submisso às diretrizes dos Estados Unidos, com sua economia privatizada e alienada aos interesses dos estrangeiros.

Evidentemente, os Estados Unidos, quaisquer que seja seu governo, não querem que o Brasil se consolide como potência econômica e política global integrando toda a América do Sul como um espaço geopolítico com maior autonomia internacional”.

Explicitando mais sua análise sobre a diferença das duas candidaturas, o historiador Moniz Bandeira, expôs. “A mudança dos rumos da política externa, como José Serra e seus mentores diplomáticos pretendem, teriam profundas implicações para a estratégia de defesa e segurança nacional. Ela significa o fim do programa de reaparelhamento e modernização das Forças Armadas, a suspensão definitiva da construção de submarino nuclear e a paralisação do desenvolvimento de tecnologias sensíveis, ora em curso mediante cooperação com a França e a Alemanha, países que se dispuseram a transferir Know-how para o Brasil, ao contrário dos estados Unidos. Essa mudança de rumos, defendida pelos mentores de José Serra em política externa, levaria o Brasil a aceitar a tese de que o conceito de soberania nacional desaparece num mundo globalizado e, com isto, permitir a formação de Estados supostamente indígenas, em regiões da Amazônia, como querem muitas 100 ONGs que lá atuam”.

Analisou o professor historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira, que ainda tratou de outros temas, como América Latina, ALCA, política externa brasileira como reservas de exportação, as profundas diferenças entre o governo de Fernando Henrique e o governo de Lula.

A MAGNÍFICA ENTREVISTA DE LULA AO PORTAL TERRA

Antonio Prada
Bob Fernandes
Gilberto Nascimento
Direto de Brasília

Foto: Josué Rabello/Terra

A três meses e meio do término de seu governo, o presidente Lula está certo da vitória de sua candidata à presidência da República, Dilma Rousseff, mas recomenda: “cautela”. Numa conversa exclusiva de uma hora com o Terra no Palácio do Planalto, Lula, provocado, esmiúça o que pensa da mídia e sobre a mídia. Diz que, de alguma forma, o país tem, terá que discutir e legislar – no Congresso, ele ressalva – sobre o assunto. Para definir como percebe o olhar da chamada grande mídia, Lula resume:

- Eles têm preconceito, até ódio…

A ênfase, a contundência no julgamento e comentários quando o tema é este, mídia, são permeadas por gestos e palavras que mostram um presidente da República disposto e pronto para o próximo comício. Bem humorado, carregado de adrenalina. Antes do início da entrevista, Lula quer conversar, diluir ansiedades e tensões.

“Baby…”, diz a um jornalista, “pô, que gravador é esse, não tinha um digital?”, provoca outro. Segura a gravata de um terceiro, parece admirar o tecido, os desenhos, e opina:

- Mas essa gravata… esses desenhos parecem uma ameba!

O presidente da República faz as honras da casa, pede que se sirva um cafezinho, uma água antes de, atraído para o tema, partir para o ataque:

- Na campanha passada, os caras diziam porque o avião do Lula… porque o Aerolula… (Estavam) disseminando umas bobagens… vai despolitizando a sociedade. Agora, estão dizendo que a TV pública é a TV do Lula. Nunca disseram que a TV pública de São Paulo é do governador de São Paulo e as outras são dos outros governadores…

Para Lula, críticas à falta de liberdade na área de comunicação, mais do que injustas, não têm sentido. Ele diz duvidar que outros países tenham mais liberdade de informação do que o Brasil.

(Seleção de trechos)

1ª PARTE

Lula: “nove ou dez famílias” dominam a comunicação no Brasil

Nesse momento do Brasil, falar em falta de liberdade de comunicação? Eu duvido. Eu quero até que vocês coloquem em negrito isso aqui. Eu duvido que exista um país na face da Terra com mais liberdade de comunicação do que neste País, da parte do governo.”

A verdade é que nós temos nove ou dez famílias que dominam toda a comunicação desse País. A verdade é que você viaja pelo Brasil e você tem duas ou três famílias que são donas dos canais de televisão. E os mesmos são donos das rádios e os mesmos são donos dos jornais.”

No Brasil – foi o Cláudio Lembo que disse isso para o Portal Terra -, a imprensa brasileira deveria assumir categoricamente que ela tem um candidato e tem um partido. Seria mais simples, seria mais fácil. O que não dá é para as pessoas ficarem vendendo uma neutralidade disfarçada.”

O Brasil, independentemente de que de quem esteja na Presidência da República, vai ter que estabelecer o novo marco regulatório de telecomunicações desse País. Redefinir o papel da telecomunicação. E as pessoas, ao invés de ficarem contra, deveriam participar, ajudar a construir, porque será inexorável.”

Para ler a primeira parte completa da entrevista clique aqui.

2ª PARTE

Lula: Erenice jogou fora a chance de ser uma grande funcionária

Tem coisa que tem dimensão séria, tem coisa que é boato, especulação, tem coisa que não tem profundidade. Então, qual é o papel de um presidente da República? Ou seja, na hora que você sabe de uma situação dessa, a primeira coisa que você faz é criar uma sindicância interna, ou seja, a CGU, a Casa Civil começa a investigar e a Polícia Federal abre inquérito. A partir desse momento, o presidente da República fecha a boca, certo? Porque, a partir daí, não pode ter mais nenhuma influência do governo no processo de investigação. Quando tiver resultado de todas as pessoas darem depoimento, aí você então comunica a sociedade o que aconteceu de fato e de direito.”

Mas deixa eu contar uma coisa para vocês… Acho que as pessoas não estão entendendo ainda o que aconteceu na comunicação nesse País. Lá em casa, ninguém compra mais jornal. Em casa, a molecada toda lê o que tiver que ler na internet, em tempo real, sem ter que esperar: “ah, vamos ver o que vai acontecer amanhã ou depois de amanhã”. São 68 milhões de brasileiros que acessam a internet. Um quarto das residências brasileiras que já tem computador. A tendência natural é isso crescendo de uma forma tão rápida, que daqui a pouco serão 150 milhões brasileiros… é por isso que o governo se interessou tanto na questão da banda larga.”

Que governo doido iria fazer um programa Luz Para Todos se não fosse o meu? Quem das pessoas que governaram esse País estavam preocupadas em levar luz para uma aldeia indígena? Então, nós fizemos um investimento, que é o seguinte: nós já colocamos mais de 1,1 milhão km de fio neste País. Já colocamos 6 milhões de postes neste País. Já colocamos mais de um milhão de transformadores. Às vezes uma ligação custa R$ 10 mil, mesmo assim… muita gente diria: “Lula, você é louco. Gastar R$ 10 mil para atender um cara que está lá não sei onde!”. Esse “cara” é tão brasileiro quanto quem mora em Copacabana ou mora na avenida Paulista. Ele tem direitos.”

Triste era o tempo que o Brasil só tinha um canal de televisão. Triste era o tempo que o Brasil só tinha uma grande rádio. Triste era o tempo que nós tínhamos dois ou três jornais. Hoje você percebe que os grandes jornais do País não são aqueles que acham que são grandes. São os populares que existem em vários lugares. Os jornais a R$ 0,50, jornais a R$ 1, jornais de graça, jornais de Metrô… sabe?”

Nós estaremos fazendo quase que um reparo aos acontecimentos da década de 70 no País, da década de 60. Ou seja, o êxodo rural quando milhões de brasileiros se locomoveram de suas casas e vieram para os grandes centros urbanos. Por conta disso, a irresponsabilidade dos administradores públicos da época que foram permitindo que o povo fosse ocupando espaços inadequados, espaços proibidos, espaços à beira de córregos, nas encostas de morros… e foram se constituindo as grandes favelas e junto com as favelas os grandes problemas. Nós estamos num processo de fazer reparação nisso. Reconstruindo a cidadania a partir das favelas.”

Eu acho normal, não fico com raiva quando o cidadão de classe média, seja no Rio de Janeiro, seja em São Paulo ou em Belo Horizonte, tomando seu uísque com os amigos critica o Bolsa Família de assistencialista. Eu acho normal. Ele dá de gorjeta o Bolsa Família. Agora para uma pessoa que está com fome, R$ 100, meu filho… Quando a gente determina que 30% da alimentação escolar tem de ser comprada no local, o que acontece naquele município? Uma revolução!”

Você veja uma coisa… ô gente, quando nós chegamos nesse País, em 2003, o crédito total disponibilizado para 8,5 milhões de quilômetros quadrados e 190 milhões de habitantes era de R$ 380 bilhões. Hoje, só o Banco do Brasil tem isso. O nosso crédito hoje é R$ 1,6 trilhão. A Caixa Econômica financiava R$ 5 milhões e esse ano vai financiar R$ 70 bilhões ou mais. O Banco do Nordeste emprestou, em 2002, R$ 262 milhões e esse ano vai emprestar quase R$ 30 bilhões. Esse é o País que mudou e que as pessoas precisam compreender e ao invés de ficar triste, ficarem alegres. Quando eu deixar a presidência não ficará um bando de miseráveis como eles largaram para mim, mas ficarão milhões de brasileiros que estão ascendendo na sua vida social, na possibilidade de emprego.”

O Evo Morales… você quer bem maior para a Bolívia do que um índio ser presidente da República? Antes era eleita gente que nem sequer falava a língua deles! Eram loiros de olhos azuis. De repente, você elege um companheiro como o Evo Morales, que crescem as reservas, cresce o PIB, cresce a distribuição de renda… Por quê? Porque ele tem vínculo com aquele povo e sabe que tem que cuidar da parte mais pobre. Então, eu acho que houve um avanço excepcional na América Latina.”

O maior parceiro comercial do Brasil hoje não é a Europa, não é os Estados Unidos, é a América Latina como um todo. Então o que acontece, nós fizemos um trabalho de diversificar as relações e a América do Sul está se fortalecendo. Quanto tempo você acha que a França conseguiu chegar ao que é, que a Alemanha chegou ao que é? Nós demos passos importantes. A economia chilena cresce, a Argentina cresce, o Uruguai cresce, o Paraguai cresce… Todo mundo está crescendo.”

Para ler a segunda parte completa da entrevista clique aqui.

3ª PARTE

Lula diz que tiveram “medo” de tentar derrubá-lo em 2005

Eu acho que nós tivemos muita, mas muita, muita dificuldade em 2005. Foi um momento em que os setores conservadores deste País tentaram repetir Getúlio Vargas, tentaram repetir João Goulart, tentaram repetir Juscelino (Kubitschek). Porque mostra-se a parte boa de Juscelino, mas não mostra que diziam: “Juscelino não pode ser presidente”, “se for, não pode ganhar, não pode tomar posse” e “se tomar posse, a gente derruba”. Era assim que eles falavam!”

Eles não sabiam da força que eu tinha na rua. Eu reuni o governo aqui e eu disse: “olhe, vocês fiquem aqui porque essa gente vai me enfrentar é na rua (bate na mesa)”. Eu não sei se a intenção era essa… não quero tratar isso de forma, eu diria, pequena. Eu acho que eles não foram mais adiante de medo de não saber o que iria acontecer. E acho que não foram mais adiante porque já tinham me desgastado demais.”

As pessoas não conhecem o Brasil. Não é possível dirigir o Brasil de Brasília. Você tem de entrar nas entranhas deste País, é quase fazer um check up todo santo dia. Porque a gente vai fazer um check up e coloca a gente numa máquina e tira fotos das tuas tripas, de tudo que você tem por dentro? É para ver se você tem alguma coisa! Então você tem de fazer check up deste País todo santo dia. Às vezes é difícil descobrir as coisas. Mas o Brasil começou a andar… o que é importante é que mudamos um paradigma. Quem vier depois, sabe que tem um patamar.”

Para ler a terceira parte completa da entrevista clique aqui.

AÉCIO NEVES VAI SAIR DO PSDB, MOSTRA REPORTAGEM DA CARTA CAPITAL

A única revista semanal íntegra e inteligente do jornalismo brasileiro comprometido com a ética democrática, dirigida pelo ínclito jornalista/filósofo Mino Carta, traz em sua edição de nº 614, dessa semana, matéria escrita pelo ilustre jornalista Maurício Dias, cujo título tem uma força política inquestionável. “Aécio Deixará o PSDB.”

Na matéria, o ex-governador de Minas Gerais, Aécio Neves, candidato a uma vaga no Senado, afirma que deixará o PSDB para fundar um partido que faça oposição ao governo de Dilma de forma moderada.

Na verdade, a saída de Aécio do partido da ultra direita reacionária pode ser entendida por duas perspectivas. Uma, a que mostra que o PSDB, partido eminentemente de interesse paulista e paulistano, durante os últimos anos, por inércia política, não conseguiu acompanhar as mudanças que ocorreram nas enunciações políticas do mundo atual. O PSDB ficou com a mesma enunciação retrógrada que substituiu a consciência política de um de seus mentores, Mário Covas, um democrata ilustre que com o decorrer dos anos o partido esqueceu para fazer prevalecer as figuras ressentidas e amarguradas de Fernando Henrique e José Serra. Em suma, o PSDB não se vitalizou. Não acompanhou o processual da nova democracia, que se encontra em atualização no mundo. Principalmente nos chamados países do mundo emergente. Duas, as centralizações das decisões do partido, onde predominam sempre as posições de Serra que culminaram na negação da candidatura de Aécio Neves à Presidência da República, confirmando a ditadura serrista que vem contribuindo para implosão do partido. Uma manipulação partidária que não reflete o que se sabe de uma social democracia. Na verdade, um personalismo, próprio dos ditadores, demonstrando o perigo que representaria Serra se ele fosse eleito. Mas, graças ao povo brasileiro, não será. No mais, o PSDB atual é um corpo em que predomina uma rede de intrigas, onde seu presidente está mais para colunista social do que para presidente de um partido político que se diz social democrata.

O certo é que, se a revista Carta Capital é uma leitura obrigatória, visto que contém enunciações intelectivas para serem lidas como examinadoras, ao contrário das revistas vazias, ilustradas e próprias para os apedeutas que só pretendem signos da confirmação do óbvio de suas existências fugazes, como a Veja, Época, IstoÉ, essa edição deve ser lida com gosto, pois a saída de Aécio Neves surge como a queda do último esteio que segura ainda o já combalido PSDB.

DILMA DIZ QUE “É PRECISO TER CUIDADO COM LEVIANDADES E CALÚNIAS”

A candidata (Candidata? Como, se as eleições já acabaram para o Serra?) do presidente Lula, do Partido do Trabalhadores, dos partidos aliados e da maioria do povo brasileiro, a inteligente, terna e insigne Dilma Rousseff, em entrevista ao Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), respondendo a vários temas, entre eles economia, saúde, educação, falou sobre as sórdidas acusações do candidato – que é capaz de passar com um trator por cima da cabeça da própria mãe para alcançar seu objetivo, como disse o deputado Ciro Gomes -, José Serra, sobre mais um dossiê de sua lavra psicótica. Desta vez, a já notificada, em setembro de 2009, violação do sigilo da Receita Federal de sua filha Verônica, que ele, desesperado com a derrota, pretende transformar em arma para atingir o governo federal e a candidata Dilma, crente que o eleitor vai acreditar em uma de suas tramas retiradas de seu acervo de maldade indiscriminada.

Vamos aos fatos. Um procurador vai à Receita Federal com o reconhecimento de firma de um documento que a Receita não tem como saber se é falso ou não, pede as declarações e elas foram entregues. A partir daí é que a Receita Federal e a Polícia Federal tem que investigar profundamente e tomar as providências devidas, fazendo apuração rigorosa e punindo se for o caso.

Não entendo as razões que levam o candidato da oposição a levar contra minha campanha uma acusação tão leviana. Uma acusação que não tem provas nem fundamentos. Temos de ter certeza. Isso foi feito em setembro de 2009. Minha campanha nem existia porque nem pré-candidata eu era. É preciso ter cuidado com leviandades e calúnias. Não é possível uma ilação dessa esfera.

No partido do adversário são vazadores contumazes ou que não tem ética suficiente para lidar com a coisa pública”, considerou a candidata Dilma Rousseff.

Sobre os vazamentos, Dilma lembrou que a história do PSDB é cheia desses episódios contrários à democracia. Citou a votação no Congresso da emenda que autorizou a reeleição no país com o objetivo de beneficiar Fernando Henrique, onde há notícia de compra de voto – fato que nós do Amazonas demos nossa contribuição, segundo acusação envolvendo o ex-governador do Amazonas, hoje prefeito cassado, Amazonino Mendes, que, segundo as acusações, comprou votos de deputados, de acordo com reportagem do jornalista da Folha, Fernando Rodrigues. Além do vazamento de dados sigilosos da Petrobras para forçar a instalação da CPI da Petrobras por um senador do PSDB. O senador é o folclórico Álvaro Dias, joguete de Serra, que lhe humilhou diante de todo o Brasil, depois de escolhe-lo como seu vice, para depois despachá-lo e anunciar o “de costa para democracia”, do DEM, para seu vice.

Se Serra já destrambelhou de vez, como ele ficará quando o livro de Amaury Ribeiro, que já se encontra pronto, for publicado? Um livro que mostra as tramas econômicas de Serra, e conta com a presença, também, de sua adorada filha, Verônica.

FIDEL, EM ENTREVISTA COLETIVA, FALA DE SUAS PERSPECTIVAS ATUAIS

Eu não quero estar ausente nestes dias. O mundo está em sua fase mais interessante e perigosa de sua existência e estou muito comprometido com o que vai acontecer. Tenho coisas para fazer ainda”, afirmou o comandante Fidel Castro, do alto do seu 1.90 metro de altura, e no auge de seus 84 anos, em entrevista coletiva, em Havana. A primeira, depois que se recuperou de uma diverticulite que quase lhe fez entrar em óbito, depois de perder mais de 50 quilos.

Eu cheguei a estar morto. Eu já não aspirava viver. Perguntei várias vezes se as pessoas iam me deixar viver naquelas condições ou me deixar morrer. Então, eu sobrevivi.

Era um entrar e sair frenético da sala de operação. Entubado, recebia alimentos nas veias por meio de cateteres, tinha perda frequente de consciência.”

Fidel, que depois de sua recuperação já tem demonstrado preocupação com os rumos das sociedades nesse momento, tem participado de reuniões com a cúpula do governo cubano. Mas hoje seu grande interesse é a internet. Como Cuba tem grande dificuldade em conexão, reclama do fato, e acusa os Estados Unidos de serem os responsáveis por causa do embargo econômico. É a demonstração que se encontra recuperado.

SERRA COLOCA A ÚLTIMA PÁ DE CAL NO CASAL-JN. AFIMAÇÃO DO BOM AMIGO ROBERTO JEFFERSON

É tolice ficar comentando a TV Globo, uma das grandes empresas antidemocráticas que amaldiçoam o Brasil com sua fúria predadora nos meios de comunicação. Por isso, comentar a alucinada entrevista com o candidato da direita obscurecida, a lupem-burguesia, José Serra, quando se sabe que a Rede Globo é a casa mor dos retrógrados, é só gastar as pontas dos dedos-virtuais. Mesmo quando o Ibope diz que Dilma teve mais audiência quando ali esteve diante do mórbido casal. Ficou com 33%, Serra com 32% e Marina com 29%. O que era para acontecer, aconteceu. Como dizem os árabes: Maktub! Tinha que acontecer. Pronto! Até o mundo mineral sabia, como diz o jornalista/filósofo Mino Carta.

Mas não é tolice ter a convicção de que nada vai tirar de Dilma a vitória do povo brasileiro no primeiro turno. Quem se encontra encadeado com o aumento de sua renda econômica, sua passagem de pobre para a classe média, atuando como um dos 103 milhões de habitantes em ascensão social vertical, tem o Bolsa Família, Luz Para Todos, ProUni, Minha Casa, Minha Vida, e mais outras políticas sociais, não sabe nem quem é Globo, Folha de São Paulo, Estadão, Veja, IstoÉ, Época, Piauí, e muito menos o Serra.

Daí que quem tem que comentar o amparo de Serra na TV Globo é seu amigo do peito, Roberto Jefferson, que foi lógico e convincente: “William Bonner e Fátima Bernardes facilitaram para o meu candidato. Foram mais amenos com ele.”

Como diriam nossos patrícios, depois dessa afirmação, não há o que comentar, ora pois!

PLÍNIO ARRUDA SAMPAIO É SABATINADO E DEITA E ROLA SOBRE OS ENTREVISTADORES

Até que a TV Record tem uma boa jornalista política, Christina Lemos, com grandes intuições e conhecimentos, principalmente quanto ao que corre em Brasília, mas só isso não bastou para sabatinar um dos candidatos da esquerda, o bom e velho Plínio de Arruda Sampaio, do P-SOL, à Presidência da República. Uma verdadeira enciclopédia da política brasileira, aguerrido socialista.

Plínio de Arruda Sampaio– que ao contrário do cassado José Arruda, oferece à arruda sua verdadeira essência -, no auge dos seus bem comprometidos 80 anos em prol da liberdade, brincou com os entrevistadores que, por falta de conhecimento da matéria, e uma arrazoada consciência direitista, serviram de humor para quem assistiu o show do ‘oitentão’.

Os incautos entrevistadores tiveram suas limitações políticas expostas em todos os momentos. Perguntaram, se eleito, Plínio teria uma relação estreita com Chávez. Plínio deitou e rolou. Disse que sim, elogiou Chávez, e ainda afirmou que tomaria uma posição drástica contra a ditadura colombiana comandada por Uribe e militares da extrema direita. Tentaram encurralar Plínio, falando que as Farc eram terroristas. Plínio, como um bom chá de arruda, baixou a febre deles. Disse que as Farc eram um movimento revolucionário.

Mas o pior para os entrevistadores estava por vir. Plínio deitou e rolou no próprio quesito dos jornalistas. Mídia e censura. Perguntaram se ele compactuava com a posição de Chávez quando ele fecha algumas emissoras da Venezuela. Plínio disse que era contra a censura e que era preciso examinar o que era censura, o que não acontecia na Venezuela. O que ocorre é que emissoras reacionárias tentam demonizar Chávez, e ele tem que usar a lei que tem em mão. A mídia faz na Venezuela com Chávez o que faz aqui a mídia brasileira com ele, demonizando-o. O mesmo que fazem com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que são apresentados como um grupo de bandidos. Sofrimento total dos entrevistadores.

Sobre a estatização, perguntaram se Plínio – o velho entrelaçado com o moço – iria re-estatizar todas as empresas que foram privatizadas. Não deu outra: Plínio afirmou que sim. Sobre os planos de saúde. Plínio, afirmou que iria socializar a medicina para que as doenças não continuassem sendo mercadorias de lucros para empresas que exploram o campo da saúde, pois não é aceitável um empresário usar uma doença como o câncer para lucrar. Para ele, os planos de saúde aos pouco iriam perdendo suas razões de existir, visto que toda população teria atendimento público. De Ermírio de Morais a Eick, sem distinção de posição social ou econômica.

Por fim, perguntado se alguma vez votara em Serra, dada sua amizade com ele, Plínio respondeu que durante sua vida cometera muitas loucuras, mas essa jamais.

DILMA VAI AO PROGRAMA “RODA VIVA” E EXIBE SUA FORÇA POLÍTICA

foto: Dilma na web

Em tempo de eleição há uma prática comum dos candidatos a serem convidados para entrevistas em programas, sejam de TV, rádio, jornal e revista. Na maioria, são entrevistas apenas para conformar os responsáveis pelos órgãos de comunicação, visto que nada acrescentam ou influenciam eleitores. Algumas vezes porque são veículos de comunicação de pouca audiência, e outras vezes porque são veículos sem credibilidade junto aos espectadores, leitores e ouvintes.

No caso específico da disputa presidencial, veículos de comunicação como a Folha de São Paulo nada acrescentam tanto para o candidato José Serra, pelo fato dele ser eterno habitue do jornal, que representa a expressão reacionária da elite ignara de São Paulo. No caso da candidata da candidata do presidente Lula, do Partido dos Trabalhadores, dos partidos aliados, e da maior parte da população brasileira, o fato torna-se mais claro. Os seus eleitores, que também são de Lula, não leem o jornal, e a maioria nem sequer sabe de sua existência. Daí que conceder entrevista para Folha de São Paulo não torna nenhum candidato mais ou menos enaltecido.

Já revistas como a Veja, Época, IstoÉ, por suas próprias configurações visuais e suas linhas editorias, são para os eleitores revistas de consultório médico e salão de beleza. Servem apenas para espera do atendimento. Quanto aos jornais Globo e Estadão, históricos defensores e propagadores dos credos do obscurantismo, nada podem oferecer de honesto ao eleitor democrata.

Como um caso à parte, a Rede Globo, com seu carnaval de inutilidade imagética que oferece aos telespectadores, é vista no mesmo plano que se mostra: uma dissipação fantasiosa do real. Aí sua anemia em não poder atingir os eleitores de Lula, e, no caso, Dilma. A Rede Globo é vista apenas como uma televisão que produz novela. Nada que expresse a realidade. Assim, o telespectador assiste a novela, em um universo distante do que tem em seu cotidiano: via existência social. Onde se alocam os pronunciamentos de Lula e suas políticas sociais, que, aí sim, lhe atingem.

ONDE A RODA É IMÓVEL

Ainda no tempo da ditadura, e alguns ano após, havia o programa Roda Viva, com um elevado grau de inteligência, honestidade e engajamento político. São inúmeras entrevistas impactantes com personagens carregadores de variadas formas enunciações que comentaram e analisaram o mundo atual. Passaram pelo programa filósofos, políticos de esquerda, cientistas progressistas, religiosos, educadores, cinegrafistas, teatrólogos, músicos, cantores, pintores, tantos outros, mas todos comprometidos com a produção de um mundo em que o homem possa ser mais racional para poder ser feliz.

Com o tempo, a TV Cultura, ao deixar de ser uma TV Pública para ser porta-voz dos governos do PSDB, o programa Roda Viva degenerou, passando a carregar uma linha editorial francamente reacionária. Local, nos último sete anos e meio, de conspiração banal contra o governo Lula. E o jornalista Markum teve uma atuação esplêndida na condução desse veículo de comunicação manipulado pela direita. Markum seguiu com acerto essa linha reacionária. Um jornalista que um dia brincou de ser de esquerda só podia ser um operário do PSDB.

Agora, sem Markum no comando do programa – por futricas no meio do partido da elite ignara -, Dilma, depois da apresentação do candidato da emissora, Serra, e da candidata do PV, Marina Silva, teve sua vez de ser entrevistada. Com uma postura livre e segura, impressionou logo no início do programa os entrevistadores. Até o representante da Folha de São Paulo, seu diretor-executivo, Sérgio Dávila, teve que se recolher a sua posição de funcionário a serviço da direita quando tentou confundir Dilma com o fantasioso dossiê de Eduardo Jorge, braço direito do governo Fernando Henrique. Ao ser inquirida sobre a quebra do sigilo dos documentos de Eduardo Jorge pelo funcionário da Folha, Dilma respondeu: “Enquanto vocês não demonstrarem as provas, é uma acusação infundada”. Uma grande parte da população brasileira sabe que as notícias sobre os documentos que a Receita Federal possui na investigação sobre o secretário de Fernando Henrique já foi publicada dede o fim da década de 90. Inclusive pela própria Folha. Antes Dilma havia afirmado que só não processou a Folha sobre o fantasioso dossiê que a Folha publicou com afirmação de Serra de que era da responsabilidade de Dilma o tal dossiê porque “respeita a liberdade da imprensa”.

Provocada por um dos entrevistadores se o fato de poder ser eleita com ajuda da popularidade do presidente Lula, ela poderia ser considerada “um poste”, Dilma sorriu segura e respondeu: “Compreendo que alguns queiram dizer que eu sou um poste. Agora, acho que isto não me transforma num poste”. Para atiçar a pergunta, Dilma disse que possui uma relação muito forte com Lula, e o quer como conselheiro e lhe “ajude a aprovar reformas importantes”. Dilma ainda se posicionou favorável ao casamento homossexual e comentou sobre o aborto. “Temos uma legislação no Brasil sobre essa questão e sou a favor de mantê-la. O que acho é que mulheres enquadradas naquela situação têm direito de fazer na rede pública, e se tem de tornar isso acessível. Senão fica a seguinte situação: mulheres ricas têm acesso a clínica, mulheres pobres usam agulha de tricô”.

A entrevista com Dilma feita pelo Roda Viva teve dois efeitos positivos. Um, que com a presença da candidata na TV Cultura e no programa, apesar de viver um malogro jornalístico, houve um impulso capaz de melhorar a programação da emissora. Já sendo vista como preocupada com sua qualidade. Outro, é que mostrou uma candidata muito bem segura no que pretende como presidenta do país. Suas respostas foram racionais, realistas e pedagogicamente explícitas.

Mas apesar dos efeitos positivos ocorreu um feito negativo. A frustração dos entrevistadores que pretenderam colocar Dilma em posição vexatória e não conseguiram. Na linguagem popular: levaram um banho de inteligência, engajamento e independência.

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VIRTUALIZAÇÕES DESEJANTES DA AFIN

Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

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