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Bruxas e padres: uma história infantil
Publicado domingo, 10 julho, 2011 r Conto , Literatura 1 Comentário*Welton Yudi Oda
Há muitos e muitos anos atrás, viviam mulheres muito bondosas e bonitas, conhecidas por todos como bruxas. Elas tinham uma bela pele escura, cabelos compridos, lisos e negros e viviam em lugares belíssimos no meio da floresta, em casas simples e aconchegantes.
As bruxas eram muito solicitadas pelas pessoas para que dessem conselhos ou indicassem receitas de medicamentos naturais para suas doenças e sempre estavam dispostas a contribuir. Suas ervas e poções foram herdadas das antigas tradições de seus povos e tinham grande eficácia.
Apesar de tão bondosas, sua atuação era vista com desconfiança pelos terríveis padres. Os padres eram homens muito maus, de pele branca ou rosada, com narizes enormes, verrugas e que podiam voar montados em vassouras. Em seus castelos mal-assombrados, estas terríveis criaturas possuíam enormes caldeirões, que utilizavam para cozinhar criancinhas, temperadas com asas de morcego, caudas de lagartixa e veneno de cobra.
Eram seres muito poderosos e temidos. Cultivavam uma relação de senhorio com seus seguidores e adoravam ser considerados os salvadores. Por isso, a atuação das bruxas era tão indesejada. Para os padres, só o seu deus deveria interferir na saúde e bem estar da população e não um bando de mulheres hereges.
Adoravam imagens de figuras tristes e, por vezes, agonísticas, esculpidas em barro ou madeira. Seus templos tinham um aspecto triste e fantasmagórico. Suas maiores inimigas não eram exatamente as bruxas, mas todos que se opusessem à sua doutrina. Perseguiam, executavam e matavam mulheres libertárias, pessoas com outras crenças e com comportamentos sexuais diferentes daqueles que seus livros sagrados prescreviam. Costumavam queimar na fogueira seus adversários, em rituais macabros.
Os padres perseguiram por longos séculos estas bondosas mulheres, que passaram a praticar seus ritos de maneira clandestina, já que a população amedrontada passou a evitá-las e, inclusive alguns seguidores dos terríveis padres passaram a denunciá-las em troca de ascensão social. Os rituais de cura das bondosas bruxas tornaram-se proibidos e considerados malditos.
Nos dias de hoje, as bruxas não são mais queimadas na fogueira, mas suas tradições continuam a ser desvalorizadas e outros terríveis vilões associaram-se aos famigerados padres nesta empreitada: pastores e cientistas. Os primeiros passaram a difamar, sistematicamente, as bruxas, atribuindo os poderes curativos delas ao demônio. Os cientistas, por sua vez, apoderaram-se de muitos de seus conhecimentos tradicionais e passaram a sintetizar medicamentos em macabras construções, conhecidos em seu conjunto como Indústria Farmacêutica.
E, pra piorar, as belas florestas onde antigamente viviam as bruxas, foram quase dizimadas e as ervas que usavam para produzir seus remédios já não podem ser conseguidas com tanta facilidade. Deste modo, as bruxas foram submetidas ao pior de todos os castigos: além de ter seu poder bastante reduzido, sua própria saúde hoje depende destes terríveis charlatães.
Hoje existem tão poucas bruxas que muitos acreditam que esta história é ficcional. Além disso, sua beleza e jovialidade já não são mais como dantes. Então, se bater à sua porta, uma mulher perguntando se você possui um galho de arruda, hortelã, mastruz ou guaco em seu quintal… Meus parabéns!
Você acaba de encontrar uma bruxa! Sua vida nunca mais será a mesma!
*Welton Yudi Oda é doutorando em Biologia e contista aprendiz.
Welton Yudi Oda*
Nilte Buzzati, 68 anos, dona de casa. Acorda cedo para fazer o café da família. Feira? Só mais tarde, na hora da xepa. Pechincha tudo e consegue ótimos preços. Depois, dia sim, dia não, vai à casa da filha. No dia-não arruma a casa.
Só sai de dia. De noite é muito perigoso (abre exceção para ir ao culto semanal, com a graça de deus). Não tem boas relações com os vizinhos. Considera-os uns pretinhos grosseiros, mal-educados e malandros. Eles, por sua vez, a consideram uma velha caduca.
Adelson Maia, químico, aluno de mestrado. Gosta de trabalhar em casa. Mora num edifício em área nobre. Gasta dois terços de seus proventos (às vezes mais) com aluguel, condomínio, água, luz e telefone, muito telefone.
Às vezes vai à faculdade, lugar perigosíssimo, localizado entre dois morros, onde atuam duas facções rivais. Tiroteios são frequentes. As paredes são cravejadas de balas.
Não anda de noite pelas ruas. Não anda pela cidade. Não anda com os vidros dos carros abertos e procura não ficar parado nos cruzamentos.
Sua namorada já foi sequestrada.
Para Adelson, o mundo é muito perigoso.
Tito e Sanny são geólogos. Adoram conversar com os amigos, degustando um bom vinho e pratos refinados com música ao fundo.
E não vacilam. A cidade onde vivem é muito perigosa. Seu condomínio fechado é um paraíso, mas do portão pra fora começa o inferno. “Andar pelas ruas da cidade é pra quem quer ser assaltado”, diz Tito. “Não se pode confiar em ninguém”, diz Sanny.
Lima, 70 anos, adora futebol, palavras cruzadas, o programa do Antena e também o jornalismo da TV Rocó. Passa tanto tempo em frente à TV que mal consegue esticar completamente as pernas. Aliado a isso, sua barriga enorme torna sua postura bastante arqueada.
Para Lima o mundo está cada vez pior. Decadência total. Nas raras vezes em que sai de casa, manda chamar, pelo telefone, o taxista de confiança. Tem tanto pavor de sair de casa que chega a suar frio e empalidecer. Para criar coragem, toma uns goles de cana.
Seu esporte predileto é infernizar a esposa, mulher muito boa, paciente e de pavio enorme, mas que certo dia, milhares de sapos engolidos depois, perdeu a paciência com sua grosseria e arremessou uma faca em sua direção. Feliz ou infelizmente errou, mas desde então Lima é um pouco menos grosseiro.
Odeia partidos de esquerda, greves, sindicatos. “Tempo bom mesmo foi o da ditadura militar”, diz convicto.
*O autor é doutorando em Biologia e constista aprendiz.
Welton Yudi Oda*
Acabaram as últimas moedas. Não tinha mais nem um puto. Aos poucos vira a si próprio alçado à condição de quase indigência, vira lentamente despontar, por sob a pele, as raquíticas costelinhas de seus dois filhos. Temente a deus, jamais deixara de acreditar que um dia veria, pessoalmente, as mãos do divino agindo em seu favor.
Martelavam em sua cabeça as duas últimas frases proferidas pelo pastor no último culto, quando, ao final, pedira a ele um aconselhamento particular. “Os desígnios de deus são insondáveis”. “Deus escreve certo por linhas tortas”.
Estava convicto, precisava agir, digamos, de modo não ortodoxo. Era esse o recado do pastor. Emprestou o revólver de seu irmão e, resoluto, foi até a padaria de um ganancioso freqüentador de uma destas seitas da prosperidade. “É este canalha que vai me ajudar neste corajoso ato de justiça social. É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico adentrar ao reino dos céus”.
Ladrão inexperiente, não usou capuz, não checou câmeras de segurança e tampouco deu alguma voz de comando para o assaltado. O padeiro, por sua vez, lembrando dos testemunhos de bênçãos que ouvira dos irmãos de sua igreja que conseguiram se livrar de assaltos invocando o nome do altíssimo, não teve dúvidas, bradou energicamente:
― ABANDONE ESTE COMÉRCIO, EM NOME DO SENHOR!!
E, em nome do senhor, levou um balaço no peito. Assustado com o grito, o meliante amador acabou puxando o gatilho. Logo ele, que jamais pensara em atirar, sabia que, sem uma ajuda superior, não teria coragem de efetuar o disparo. Correu então para o bolso do padeiro e encontrou justos R$ 223, 00, exatamente o valor devido na taberna, motivo pelo qual perdera o direito ao abençoado fiado.
Emocionado, ajoelhou e orou, agradecendo o milagre.
*O autor é doutorando em Biologia e constista aprendiz.
A MEMÓRIA DE UM TEMPO ESTRANHO
Publicado segunda-feira, 11 janeiro, 2010 r Brasil , Conto , Democracia , Governo Federal , Historia Deixar um Comentário“Eu quero uma casa no campo. Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapê.” Era o que eu escutava quando eu tinha os meus vinte e poucos anos, na década de 70. Eu gostava de Zé Rodrix. Não gostava de Guarabira e nem de Sá. Eram pernósticos. Queriam ser tomados por revolucionários, ‘posudos’ intelectuais. Comigo não. Eu era romântico, do tipo “Olha aqui, presta atenção, essa é a nossa canção. Vou cantá-la seja onde for, para nunca esquecer o nosso amor”. Eu era a própria paixão.
Como estudante universitário, só queria terminar meu curso e ser um profissional capaz de construir uma família feliz. Um pai de família indicando o caminho para meus filhos, do jeito que meu pai me ensinou, na graça de Deus, família e pátria. A trilogia de minha realidade. “Quem se opor a qualquer um dos três é uma anomalia, uma aberração, um comunista”, dizia meu pai. Eu acreditava. Jamais vi alguém duvidar dessa trindade.
Hoje, nesse domingo, aos 59 anos, aposentado, mais ainda trabalhando particularmente, visto que minha profissão permite, do alto da proteção desse prédio, nessa avenida ilustre, eu escuto a namorada de meu filho dedilhar o violão, cantando uma música de Belchior: “Se você vier me perguntar por onde andei, no tempo em que você sonhava. De olhos abertos lhe direi: ‘Amigo, eu me desesperava’.”
Há pouco, ouvi uma de minhas filhas, a que estuda advocacia, falar entusiasmada com a mãe, dizendo que o governo Lula está propondo um projeto para ser analisado no Congresso sobre os crimes hediondos no tempo da ditadura. O Plano Nacional de Diretos Humanos. Segundo minha filha, está havendo uma grande contestação pelos representantes das classes dominantes.
Estou com medo. Não deveria ter medo. Mas estou com medo. Eu queria que meu filho fosse um homem justo, mas nunca cantei uma música para ele como sua namorada está cantando. E ele a ama. Eu nunca falei para minha filha sobre ditadura no Brasil. Como jovem que fui, não podia. Eu queria uma “casa no campo”. Mas ela agora está envolvida com o Plano de Lula. E pelo muito que sei dela, não é uma simples fase de estudante. Vai passar. Não vai. Ela sempre foi honesta. Além de quê, ela é finalista.
Mas o meu medo não é um medo qualquer. O meu medo é a certeza que tenho que nenhum deles vai vir até aqui comigo, nessa varanda, no alto desse andar classe média, tomando “o meu uísque”, falar sobre os temas que os afetam. Esse, o meu medo. Saber que todo o meu futuro-presente não existe, porque foi assassinado no meu presente passado, quando eu só queria “uma casa no campo”, no tempo em que o Brasil se “desesperava”.
Esse, meu medo. Se agora não tenho importância para eles, é porque não tive um passado histórico que hoje pudesse servir de referência para me colocar junto com eles. Esse, meu medo. Não passar de um estranho nesse apartamento.















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