Archive for the 'Carnaval' Category



SANDY REBOLA NO CARNE VAI E AINDA EMPURRA UMAS AMARGOSAS

Sandy, cantora estilo depressão Roberto Carlos, filha do cantor do sertão alienado pela urbe Xororó – pelas melodias tristonhas, mais para chororô –, depois de passar pelo tribunal da moral castradora de alguns internautas que a condenaram por fazer propaganda de uma marca de cerveja, quando afirmou que não bebe, desmontou o balcão inquisitorial.

Na segunda-feira, na Avenida Marques de Sapucaí, no camarote da cerveja da qual é a garota propaganda, a pedido do sambista Diogo Nogueira, filho do também sambista, falecido, João Nogueira, a jovem – envelhecida pela dor que canta em suas músicas – mostrou que os moralistas estavam era com despeito. Tudo porque ela foi marketingzada para lucrar com a música alienadora, como representante da garotinha pura, ingênua e, quiçá, uma santa na terra que desceu dos céus para abençoar a sociedade de consumo.

Mas Sandy, encarnavalizada, mais para carne presente do que carne que vai, rebolou um samba a la Gonzaguinha O Que É O que É?, e ainda empurrou uma amargosa. Logicamente a cerveja de R$ 1 milhão, preço de seu cachê, segundo comentários do jornalismo inútil.

Carnaval 2011

Dom Demétrio Valentini*

Por sua forte incidência cultural e social, o carnaval se tornou referência indispensável para situar o contexto de cada ano.

Desta vez, em termos de calendário, o carnaval chega só agora, em março. Esta demora parece ter vindo a propósito, para aguardar o embarque de outros acontecimentos retardatários, que o carnaval ou vai lembrar, ou vai esquecer de propósito, como é do feitio dos foliões que procuram sempre captar o lado pitoresco da realidade, tornando-a mote de suas acrobacias artísticas.

Pois na verdade, enquanto o país parecia esperar o carnaval, tivemos muitos acontecimentos que vão continuar fazendo parte da agenda deste ano, quer o carnaval os lembre ou os esqueça.

Começando pelo contexto mundial, desta vez o grande terremoto não foi tanto o acontecido na Nova Zelândia, que fez sentir também lá a violência dessas convulsões do planeta, que parecem estar aumentando. O grande terremoto foi o inesperado fenômeno das manifestações de massa nos países árabes, sobretudo os situados no norte da África, de fronte ao mar Mediterrâneo. Não sabemos ainda como ficará a situação nestes países depois de assimilados os acontecimentos destes dias. A história muitas vezes nos surpreende, e acelera o passo onde seu ritmo parecia mais lento, como parece estar acontecendo agora. Com certeza o carnaval vai ignorar esta realidade. Ela tem pouco de folclórico a oferecer. Mas muito de reflexão a deixar. Tanto mais precisaremos estar de olho na evolução dos acontecimentos na Líbia, Egito, Tunísia, Argélia, e nos outros países árabes, geralmente de forte predominância muçulmana.

Em termos nacionais, a tristeza dos fatos acontecidos na serra fluminense continua pesando nos sentimentos de solidariedade com as vítimas dos deslizamentos, e na dor de consciência ao perguntar-nos pelas causas desta catástrofe. Como o carnaval do Brasil tem como primeira referência o Rio de Janeiro, fica certamente o desafio de lembrar estes fatos, para refletir sobre eles.

Em cada ano, terminado o carnaval, se começa a quaresma, e com ela se inicia a Campanha da Fraternidade. Convidando a refletir sobre a vida no planeta, com certeza a campanha encontra na tragédia da serra fluminense motivos de reflexão e de questionamentos que nos preocupam a todos. Neste sentido, de novo a Campanha da Fraternidade vem ajudar a Igreja a sintonizar com os problemas reais que a sociedade vive, e isto acabada sendo boa oportunidade para a Igreja continuar marcando uma presença de serviço na sociedade.

Em termos da nova administração federal, a demora do carnaval foi uma mão na roda para o governo alinhar sua equipe de trabalho, e sinalizar por onde começará a dar seus primeiros passos na direção de suas metas. Já deu para perceber o estilo de articulação silenciosa que a Presidenta Dilma está imprimindo ao seu trabalho. A definição dos seus quatro eixos estratégicos, em torno da erradicação da pobreza, da cidadania, da infra estrutura e do desenvolvimento parece indicar onde o novo governo vai concentrar sua atuação.

Mas passado o carnaval, com certeza vai aumentar a temperatura política no país. Pois é inadiável que se abra o jogo sobre a reforma política, sobre mudanças na legislação tributária, e sobre a formulação do marco regulatório que deixe clara, e viável, a parceria entre o governo e a sociedade civil organizada, especialmente em torno das políticas públicas no âmbito da educação, da saúde e da assistência social.

Que passe logo o carnaval, e que saia da frente, pois está na hora de começar o jogo de verdade.

*Dom Demétrio Valentini é bispo de Jales (SP) e Presidente da Cáritas Brasileira.

ESQUENTANDO A BANDINHA DO OUTRO LADO 2011

Associação Filosofia Itinerante – AFIN

enuncia

Bandinha do Outro Lado

Carnaval-Criança-Dionisíaco

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A criança como produtora da alegria!!!

no domingo gordo de carnaval

06 de março
à rua
Rio Jaú, n° 43 – Novo Aleixo (Manaus-Am)
às
18h (ou 6 da tarde)

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Quando as crianças afinadas vão chegando com suas criatividades, com os movimentos livres no mundo, para compor encontros com cores, pessoas, tecidos, colas, tintas, contas e tantos outros materiais, percebe-se que maravilha é a Bandinha do Outro Lado, realizada no bairro Novo Aleixo, zona Leste de Manaus há quatro anos.
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Este é o quinto ano da bandinha que carrega o Sátiro da festa dionisíaca, e não importa se com dente ou dentadura, desde que não seja doada por político corrupto, todas as atividades são distributivas na feitura das máscaras e fantasias necessárias para dançar pelos ares na folia imprevisível.
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Como nos outros anos, as próprias crianças e outras pessoas da comunidade, a partir da alegria dos encontros alegres, participam da construção dos adereços corporais e se envolvem na preparação do ambiente de concentração e explosão intensiva da Bandinha do Outro Lado, a única bandinha em Manô que não carrega os códigos constituídos do falso carnaval capitalizado.

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E enquanto a bandinha da Bandinha do Outro Lado firma a batida, os sátiros vão compondo as composições dionisíacas na pluralização democrática dos sons e das cores fundamentais da alegria que tomará conta da periferia de Manô no próximo domingo, quando você poderá foliar ao som da novíssima marchinha da Bandinha do Outro Lado.
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INCÊNDIO NA CIDADE DO SAMBA NÃO FAZ O SAMBA PARAR

Para os dirigentes, carnavalescos e participantes das escolas que foram atingidas pelo incêndio na Cidade do Samba, que destruiu os ateliês de suas escolas União da Ilha, Portela e Grande Rio, todas do Grupo Especial, e a sede administrativa da Liga das Escolas de Samba, o desfile vai acontecer. O que significa que nem o incêndio pode parar o samba. Mesmo que os dias dos desfiles já estejam se avizinhando.

Construída que foi para abrigar os barracões das 12 escolas de samba do Grupo Especial, em 2005, nunca havia ocorrido um incêndio. As causas do sinistro ainda não foram detectadas. O que agora, em relação aos prejuízos, não tem qualquer importância. As causas que venham ser conhecidas não farão com que as fantasias e os carros alegóricos que foram destruídos pelas chamas, como a Fênix, ressurjam magicamente das cinzas.

Agora, como dizem em coro os sambistas, é hora de confirmar que o samba não morre. Mesmo que as milhares de fantasias, que vão fazer falta no momento do desfile, dado terem sido produzidas em cima dos enredos, tenham sido destruídas. O que comprova que fantasia é criação, os ateliês criam, mas samba é vocação, ninguém cria e nem mata.

Mas segundo divulgação da Liga Independente das Escolas de Samba as regras do desfile desse ano serão modificadas, por força do sinistro anticarnavalesco. Isso porque a destruição poderia ter ocorrido com outras escolas, posto que os barracões são sorteados. Daí a posição solidária das outras escolas com as que foram atingidas.

Por isso, as três escolas de samba que tiveram seus ornamentos e fantasias destruídos não concorrerão com perigo de serem rebaixadas à divisão de acesso, segundo decisão da Liga e determinação da prefeitura do Rio. Além disso, as três escolas desfilarão como hors-concours. Assim, nesse ano no carnaval carioca só concorrerão as nove escolas.

E a vontade de samba, como potência lúdica dançante dionisíaca pode ser bem conferida nas palavras de Helinho Oliveira, presidente da Grande Rio, de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, depois de constatar que o fogo havia destruído 98% do que a escola havia produzido para o desfile desse ano.

O samba não foi queimado. A vontade da Grande Rio de ser campeã também não foi. Você, de Caxias, segure as lágrimas ou chore para extravasar, mas vamos desfilar. Vamos desfilar com roupa ou sem roupa. Faremos alguma fantasia, nem que seja uma pluma, nem que seja um biquíni com paetês”, afirmou Helinho.

LULA SERÁ HOMENAGEADO NA ESCOLA DE SAMBA TOM MAIOR

A escola de samba de São Paulo Tom Maior convidou o ex-presidente Lula para sair como destaque. A escola faz homenagem no carnaval desse ano de 2011 ao presidente do Brasil. O convite foi feito, agora se ele vai aceitar e cair no samba, são outros confetes e serpentinas.

A escola Tom Maior fez por onde para exaltar o metalúrgico ex-presidente no desfile de sexta-feira de carnaval com um enredo sobre a cidade de São Bernardo, onde Lula mora. A letra do samba-enredo “Salve, salve São Bernardo, Pedaço do Meu Brasil, Terra Mãe dos Paulistas”, mostra a grande consideração da escola com o “cara” que elevou a auto-estima do povo brasileiro e colocou o Brasil no mundo entre as principais nações internacionais.

A força nordestina te conduz / do carro tu és a capital / berço moderno da luta social / brilha… lá no alto uma estrela / brilhou-lá iluminado nosso país / quem lutou por um ideal / sem medo de ser feliz.

A Ala Vip Amigos de Lula, com o destaque Lula Brilha Lá, contará com a presença dos amigos de Lula. Se eles sabem dizer no pé o samba o que sabem de política, aí são outras alegorias. E para Lula fica a interrogação carnavalesca de seus admiradores. “Será que ele sabe dizer o samba no pé como diz no pé o futebol?” A resposta só será conseguida se ele desfilar.

MÀSCARA DO ROSTO DE TIRIRICA GANHA DE DILMA, MAS PERDE FEIO PARA MÁSCARA DE LULA

A fábrica de máscaras para o carnaval Condal, que há 52 anos confecciona esses produtos para a festa de Momo, e que também produz máscaras de políticos que estão no gosto da opinião pública, divulgou que a máscara do rosto do deputado Francisco Everardo Oliveira Silva, codinome Tiririca, superou as máscaras de Dilma. Tiririca chegou a 10 mil, enquanto Dilma, que teve sua primeira versão em 2008, seguindo de outra versão em 2009, computou 6 mil unidades.

Mas, no balanço do carnaval, Tiririca não apresenta ginga mascarada como o Sapo Barbudo, Lula. O primeiro operário presidente do Brasil, que com sua administração revolucionou a política brasileira, e que conseguiu nada menos do que 15 mil réplicas de seu rosto carnavalesco.

Ele é a cara do Brasil no exterior. Exportamos para toda a Europa”, afirmou Olga Valles, diretora da empresa substituta do marido, o pintor espanhol Armando Valles, fundador da fábrica.

É, companheiro, até nas máscaras carnavalescas Lula tem avaliação recorde. Porque derrotar Tiririca não é para qualquer um. Um candidato ao posto de deputado federal que amealhou mais de um milhão e trezentos mil votos, só o Lula.

Como poderia vaticinar o profeta Zoroastro, vão passar tempos e mais tempos, mas Lula não passará. Amém, Aura-Mazda!

DESDE 1936, UNIDOS DA TIJUCA É NOVAMENTE CAMPEÃ

Sendo uma das mais antigas escolas de samba do Rio de Janeiro, fundada em 1931, o Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos da Tijuca havia sido campeão apenas uma vez, em 1936, ou seja, há 74 anos atrás.

A Unidos da Tijuca é uma escola surgida da fusão de vários blocos populares existentes na região da Tijuca, advindos de comunidades como a Casa Branca, Formiga e Ilha dos Velhacos, sendo o Morro do Borel seu maior reduto, onde sempre esteve sua sede oficial e também de onde saem a grande maioria de seus foliões.

Nas décadas de 60 e 70, época da ditadura militar, a Unidos da Tijuca, com seus enredos críticos, tendo a participação de vários artistas engajados, entre eles Taiguara, era censurada, não conseguindo subir para o grupo especial do carnaval carioca.

Nos últimos anos, a escola chegou a ser por duas vezes vice-campeã, tendo à frente o carnavalesco Paulo Barros, que acabou indo para a Viradouro em 2007.

A VITÓRIA EM 2010 NÃO ERA SEGREDO

Para o carnaval de 2010, o carnavalesco Paulo Barros retorna à escola, e recebe de um adolescente via orkut uma sugestão de enredo. O jovem Vinícius Conceição Ferraz, de 15 anos, contou a Paulo que depois de ler o livro Atlantis, de David Gibbins, tivera a ideia de um enredo contando a história dos segredos da humanidade. Vinícius, que acompanha atentamente o carnaval carioca desde 8 anos, apesar de ser salgueirense, viu que sua ideia batia mais com Paulo: “Não era um tema histórico e, ao mesmo tempo, era inédito, por isso combinava mais com o Paulo. Em maio do ano passado, encontrei ele no Orkut e enviei por depoimento o nome do enredo ‘É Segredo!’ e expliquei em poucas palavras que a ideia era contar a história dos grandes segredos da humanidade”.

O que se viu então foi a terceira escola a desfilar no primeiro dia de desfile das escolas do Grupo Especial empolgar a todos os espaços da Sapucaí e também aqueles que assistiam pela tv, como, inclusive, este bloguinho cantou a pedra na Segunda-Feira Dominical. Surpreendente! Surpreendente! Gritavam os foliões na Marquês de Sapucaí quando a escola de samba Unidos da Tijuca se mostrou no desfile da noite passada. Uma verdadeira apoteoso da força mágica da fantasia trasladada para a avenida. Performances nunca vistas em toda história do carnaval oficial do Rio de Janeiro. Também os jurados, dessa vez, se renderam à força da criatividade.

Desvendar esse mistério
É caso sério, quem se arrisca a procurar
O desconhecido, no tempo perdido
Aquele pergaminho milenar
São cinzas na poeira da memória
E brincam com a imaginação
Unidos da tijuca, não é segredo eu amar você
Decifrar, isso eu não sei dizer
São coisas do meu coração

VITÓRIA RÉGIA É CAMPEÃ DO CARNAVAL DE MANAUS

Desenrolando um samba-enredo sobre a Academia Amazonense de Letras, a Escola de Samba Vitória Régia, do bairro da Praça 14, foi classificada em primeiro lugar, sagrando-se Campeã do Carnaval de Manaus versão 2010. Seguida pela Escola de Samba Reino Unido da Liberdade, do bairro Morro da Liberdade, em segundo lugar, e a Escola de Samba Grande Família, do bairro de São José, em terceiro.

O carnaval ganho pela Vitória Régia sustentado pelo samba-enredo, não fugiu das tradicionais letras simplistas sem qualquer pretensão política social. Narrando a história da Academia Amazonense de Letras, a Escola só afirmou, através da fantasia carnavalesca, o que em realidade transporta essa Academia: abstrações onde o homem real, concebido por Carl Marx, inexiste. A letra da Escola diz exatamente das fantasias dos caboclos que tanto povoam os poemas, os contos e os romances amazonenses. Quanto ao homem econômico, político e social, total ausência.

Alguns dizem, principalmente os políticos demagogos, que se aproveitam dessas Escolas, que carnaval é assim mesmo: a força da alegoria (sem saberem que o alegórico é o que está oculto). Um espetáculo só para os sentidos e não para o intelecto. Um ponto de vista pragmático investido nessas agremiações para conseguir respaldo eleitoral, já que é notória a aproximação de gente do Legislativo e Executivo nesses territórios.

Muitos governadores, prefeitos, deputados, vereadores e senadores foram eleitos apoiados por essas Escola de Samba. Uma relação perversa, posto que no mesmo momento em que os demagogos afirmam que Escola de Samba é só espetáculo, as famílias que fazem o carnaval das Escolas como sujeitos econômico, político e social, durante todo o ano sofrem as dores das péssimas administrações públicas. Exemplo da ligação dos políticos com as Escolas de Samba são as homenagens que elas sempre prestam a um político. Ano passado uma Escola homenageou os irmãos Souza do extinto programa de TV miserabilizante, Canal Livre; hoje, o titular do programa encontra-se preso acusado de suspeita de comandar uma quadrilha de tráfico, assassinato, coação de testemunha, entre outros crimes. Seu irmão, vice-prefeito de Manaus, Carlos Souza, que já foi preso em uma penitenciária de Manaus, é também investigado, assim como o irmão mais velho, vereador Fausto Souza. Esse ano, a escola de samba Reino Unido da Liberdade homenageou, postumamente, o ex-governador Gilberto Mestrinho, que em algumas eleições se serviu dos votos transferidos pelos irmãos Souza.

Na história dessa ligação, existem dois quesitos que devem ser observados. Um, as Escolas de Samba de Manaus nasceram de uma clara tentativa de imitação das Escolas do Rio de Janeiro. O que já é tradição, em grande parte da população manauara, ter o Rio como seu modelo do que deve ser copiado. Dois, a ascensão dessas Escolas ocorreu juntamente com o crescimento da direita do Amazonas depois da ditadura, quando essa direita se apossou do poder e até hoje permanece.

Daí que o samba-enredo das Escolas de Samba de Manaus traduzem sempre uma alienação confundida com o folguedo essencial do carnaval dionisíaco. Uma desaparição do econômico, político e social de Manaus.

PEDOFILIA PARA CAETANO É PERDA DA MEMÓRIA E DO INTELECTO

Para a psicanálise, os contos de fada tem a função de liberar forças antagônicas no mundo afetivo (psicanalistas ortodoxos chamam de mundo psíquico) da criança que lhe causam angústias em razão dela não se encontrar em um estágio capaz de lhe permitir a verbalização das pulsões que lhe causam dor.

De acordo com o psicanalista da infância Bruno Bettleheim, ler contos de fada para uma criança permite que ela, ao escutar os contos, possa imaginar as tramas dos contos e se identificar com as personagens, e assim poder, pela imaginação, lidar com suas pulsões angustiantes. Então manter com seus pais e amigos uma relação saudável sem que se sinta culpada, acusada e perseguida.

Digamos que, nessa proposição discursiva, a psicanálise esteja errada, como está errada em muitas. Então, afastemo-la como método, e tomemos o adulto capturado na dogmática do capitalismo de consumo onde todos os objetos são muito bem fetichizados em um invólucro erótico para proporcionar lucro. Assim, nós teremos os contos de fada com seus personagens embrulhados com esse invólucro. Os personagens e as tramas reificadas com outros sentidos. O sentido ambíguo da sexualidade castrada ou o sentido direto da sexualidade pervertida, onde o desejo sexual amadurecido é desviado como alucinações genitais infantilizadas. A doença sexual do adulto infantilizado: Pedofilia.

ONDE O CARNAVAL SE CAETANIZA SANGALO

Até nos obtusos gracejos, um adulto, cuja sexualidade chegou até sua genitália, percebe e concebe enunciações de duplo sentido – comum nas chamadas canções populares – ou, enunciações diretas, que manifestam, mais claramente, essas patologias sexuais. Entretanto, sem qualquer laivo de moralismo burguês da parte de qualquer pessoa indignada com o fato, a reacionária cantora de uma nota só, produto de Antônio Carlos Magalhães, promoter do “Cansei”, e filiação do PSDB, Ivete Sangalo, mandou ver – com sua alegria capitalista – a caricata canção “Lobo Mau”, onde expressa claramente o uso do conto de fadas, singular à infância, traslado para a impotência sexual adulta pelo invólucro oral-capitalista dessa parte patológica do “carnaval” baiano que visa tão somente o sucesso (lucro). O “Chapeuzinho, diz aí menina onde você vai que eu vou atrás. Vou te comer, vou te comer” não tem duplo sentido. É patologia sexual mesmo. É pedofilia tentando se sublimar no irrisório intelecto dos foliões capturados pela dor. E como toda sublimação é uma tentativa de negar o real, Ivete Sangalo promoveu a pedofilia.

Nisso, alguns maldosos podem até exclamar: “Esperar o que da Ivete Sangalo? Uma coisa para quem povo é só o carnaval baiano burguês, nada de democracia. Uma coisa comparsa da direita no discurso do PSDB. Uma coisa amiga de Serra, como seus brothers Dodô e Osmar. Mas não é esse o senso. Ela poderia até ser todas essas coisas, entretanto, discernir o que é pedofilia. Mesmo sendo amiga de Hebe Camargo, Diogo Mainardi e Dória. Sim, porque em algumas coisas sempre escapa um buraquinho por onde escapa um fio de inteligência.

Quanto ao mano Caetano, o encruado adolescente narcísico. O que acha “feio o que não é espelho”, porque escolheu a imagem como seu duplo por não suportar existir. Sua frase, “nunca me lembrei de pedofilia quando escutei essa música”, indica duas direções. Uma, que quando ele escreve é por encomenda: ele sabe para onde enviar a sua “dura poesia concreta de suas esquinas” que lhe possibilitarão lucros. Duas, a revelação de que recorrer à falsificação do real, pelo esquecimento, é a melhor maneira de escapar do que se é, e ainda manter o status quo de imprescindível, mesmo quando esse esquecimento promove a pedofilia.

Todavia, o mais perigoso em Caetano, como um pop público, não é seu esquecimento, já que quase tudo que se esquece não tem importância para experiências outras. Para uma nova existência. O perigo é o seu comprometimento epistemológico em que ele não concebe mais encadeamentos cognitivos lógico e ético. O perigo é essa proposição. “Não entendo a ligação”. Quando alguém que sempre se auto-considerou um gênio não concebe ligação entre o óbvio-pervertido e sua ameaça ao outro é porque se caetanizou demais como perigo. E, ao invés de ser um lobo mau, é o próprio mau sem substantivo antropoformizado.

BANDINHA DO OUTRO LADO 2010

E como ocorre em todo domingo gordo de Carnaval, a criançada afinada foi chegando com seus sons e movimentos para compor o carnaval alegria da alma e da liberação dos gestos soltos no mundo, quando tudo é possível de acontecer na liberdade de cantar e dançar numa comunhão superior.

Bandinha 2010 04 por você.

Bandinha 2010 06 por você.

Bandinha 2010 07 por você.

Bandinha 2010 01 por você.

A Procissão Festiva de Dionísio

Então a menina Beatriz metamorfoseou-se em Sátiro, levando Tragos, o bode da tragédia grega, para a rua enlameada, arrastando em sua potência toda a criatividade do Carnaval-Criança-Dionisíaco. Tragos está na rua!

Bandinha 2010 08 por você.

Bandinha 2010 13 por você.

Bandinha 2010 11 por você.

Não há como escapar da singularidade de Tragos. Transportados para outros mundos, os moradores ficavam intrigados, interessados naquele estranho bode com aquele monte de crianças libertas das idades do homem, todas a brincar entusiasmadas com o desaparecimento de toda a dor, opressão, miséria e angústia provocada pelas instituições e desgovernos de uma cidade como Manaus, e também caíam na folia. É a Vida que passa na festa dionisíaca arrebatando a todos…

Bandinha 2010 09 por você.

Bandinha 2010 14 por você.

Daí, após Tragos percorrer algumas ruas do bairro, retornou-se para a sede da Afin, onde a bandinha mandou ver. E ninguém mais sabia andar ou falar, tudo que se fazia era dançar, pular, gritar, e o riso era ininterrupto num frêmito incontrolável como deve ser no bom carnaval para além do bem do mal.

Bandinha 2010 31 por você.

Bandinha 2010 15 por você.

Bandinha 2010 17 por você.

Envolvidas nesse tempo-desejante que se fez, as próprias crianças passaram a inventar os seus divertimentos. Enquanto umas tocavam os instrumentos e compartilhavam seus mais novíssimos sons, outras – e não só propriamente crianças, mas também os pueris-marmanjos – realizavam um engraçado desfile de dança.

Bandinha 2010 16 por você.

Bandinha 2010 18 por você.

Imagina então se na festa do deus grego da colheita, da fartura, vai faltar um mata-broca para que as energias físicas estejam em consonância com o vigor do espírito, principalmente quando os dois, como agora, funcionam inseparáveis. Então, olha só esse bolo de chocolate, esse pão fatiado com mortadela e o delicioso sorvelito do Nelson Rocha, o Papai Noelson.

Bandinha 2010 22 por você.

Bandinha 2010 26 por você.

E é assim que as crianças vão descobrindo e inventando uma realidade aquém e além da lógica do mundo constituído e em seus corpus vão inscrevendo, através da vivência do divino Sátiro, sublime Tragos, Bode fundamental, uma existência na qual seja possível vislumbrar o incomensurável, o demedido, o incapturável… Dionísio!

Bandinha 2010 21 por você.

Bandinha 2010 28 por você.

Bandinha 2010 29 por você.

todo domingo gordo de carnaval
à rua Rio Jaú, n° 43 – Novo Aleixo (Manaus-Am)

até a vontade de brincar nunca se acabe…

Bandinha 2010 30 por você.

DILMA FOLIA

E a futura presidente do Brasil, Dilma Roussef, caiu na folia no Galo da Madrugada, dia ontem, do Recife, o maior carnaval popular do mundo. Dilma caminhou a pé no meio do povo e foi ao camarote do governo de Pernambuco, onde encontrou com Ciro Gomes e com o governador Eduardo Campos, e caíram na folia ao som de “Madeira que cupim não rói”.

E depois Dilma foi ao Ilê Ayê, em Salvador, onde se fez acompanhar do governador da Bahia, Jacques Wagner, e vestindo as cores do bloco afro, visitou a Ladeira do Curuzu. Lá, Dilma foi à casa de Mãe Hilda do Curuzu, famosa mãe de santo falecida ano passado, e conversou com Gisele, eleita a “Deusa de Ébano” desse desfile. “Você está linda! A perda de Mãe Hilda deve ter sido uma tristeza muito grande. Pedi ao Jaques que me trouxesse aqui no Ilê, que é a verdadeira matriz da cultura negra. Estava curiosa para saber o significado do nome do Ilê, que quer dizer ‘casa grande’”, disse confirmando o aprendizado.

A DIREITA NÃO TEM GINGA

O tucano José Serra também foi ao carnaval. Primeiro timidamente, bem acompanhado de seus seguranças, ao carnaval de São Paulo. Depois foi ao Recife e acompanhou um pouco, pouquinho, no chão a multidão do Galo da Madrugada. Mas se arrependeu. Enquanto Serra passava, e por onde passava, os foliões faziam a festa gritando: “Dilma! Dilma! Dilma!” Serra se fez de surdo, mas o jornalista do Estadão, não, e perguntou-lhe se ele ficara incomodado com a atitude da galera. Serra apenas afirmou que não ouvira tais gritos. Adaptando uma frase de Saramago para o acontecimento: a única surdez é a do entendimento.

E Gilberto Kassab (DEM), prefeito de São Paulo, também foi assistir ao desfile da primeira noite das escolas do grupo especial de São Paulo. Quer dizer, assistir, não. Com medo de vaias, Kassab ficou trancado dentro do camarote e não viu nada nem foi visto, senão…

“Depois do cara a gente vota é na coroa
A gente quer
É gente boa
Deixa o Lulinha sair
Deixa a Dilminha entrar
Porque assim o Brasil não vai parar…”

PREPARAÇÃO DA “BANDINHA DO OUTRO LADO”

Associação Filosofia Itinerante – AFIN
enuncia

Bandinha do Outro Lado

Carnaval-Criança-Dionisíaco

Bandinha 2010 Preparação 07 por você.

Daqui há pouco, logo mais à boca da noite, com dente ou dentadura, ou sem nenhum dos dois, a “Bandinha do Outro Lado” vai fazer passar toda a folia das crianças do Novo Aleixo, zona Leste de Manaus.

Bandinha 2010 Preparação por você.

Bandinha 2010 Preparação 04 por você.

Este é o quarto ano da “Bandinha do Outro Lado”, movimentação canavalesca-dionisíaca no domingo gordo de carnaval realizada pelas crianças do bairro numa proximidade afetiva-afetante com a moçada da Afin.

Bandinha 2010 Preparação 02 por você.

Bandinha 2010 Preparação 05 por você.

As próprias crianças e outras pessoas da comunidade, a partir da alegria dos encontros alegres, participam da construção dos adereços corporais e se envolvem na preparação do ambiente de concentração e explosão intensiva da Bandinha.

Bandinha 2010 Preparação 03 por você.

Bandinha 2010 Preparação 09 por você.

Então, é isso aí, daqui a pouco, como queria o nitzscheano Dionísio, vamos desaprender a falar e a andar e vamos sair dançando e voando pelos ares…

Bandinha 2010 Preparação 06 por você.

Bandinha 2010 Preparação 08 por você.

A criança como produtora da alegria!!!

CONVITE CARNAVALIZANTE “Bandinha do Outro Lado”

Associação Filosofia Itinerante – AFIN
enuncia

Bandinha do Outro Lado

Carnaval-Criança-Dionisíaco

Il Carnevale d’Arlecchino, Joan Miró

A criança como produtora da alegria!!!

no domingo gordo de carnaval
14 de fevereiro
à rua
Rio Jaú, n° 43 – Novo Aleixo (Manaus-Am)
às
18h (ou 6 da tarde)

até a vontade de brincar nunca se acabe…

OPERAÇÃO CARNAVAL DA POLÍCIA RODOVIÁRIA FEDERAL

Nove mil agentes fiscalizarão 66 mil quilômetros de estradas do Brasil a partir da zero hora dessa sexta-feira, na ação de prevenção contra acidentes de trânsito na chamada Operação Carnaval 2010. Para o ministro da Justiça, Paulo Barreto, o objetivo é reduzir o número de mortos, já no ano passado atingiu 127, e 2.865 acidentes. A Operação Carnaval vaia até as 17h da quarta-feira de cinzas.

Na Operação Carnaval, serão usados 2.000 aparelhos de bafômetro contra os 700 do ano passado. Outra novidade é que dos 400 radares usados nos lugares mais tendentes a acidentes, 72 são de tecnologia à laser, à prova de detectores de radar.

Cuidado, mano! Não deixe que no Carne vale sua carne vá! Dionísio ama a Vida!

ESCOLA DE SAMBA “GRANDE FAMÍLIA” GANHA CARNAVAL DE MANAUS COM ENREDO “VENEZUELA”, ONDE O POVO E CHAVES INEXISTEM

Em tempo de carnaval quando as escolas de samba apresentam seus enredos, dois tipos de foliões mostram-se interessados. O folião que espera encontrar no enredo um ritmo de samba contagiante capaz de estimula seu corpo em suas linhas sensório-motriz, e aguçar suas fantasias em sua subjetividade ficcional. E o folião politizado que examina, além da força musical do samba, as enunciações políticas e sociais que possam saltar do enredo. A escola de samba como uma espécie de instrumento pedagógico dionisíaco-cognitivo. Assim, como fez a escola “Salgueiro”, campeã carioca.

A VENEZUELA APOLÍTICA DA “GRANDE FAMÍLIA”

Com a “vitória” da escola de samba do bairro de São José, “Grande Família”, apresentando o samba-enredo, “Venezuela”, predominou o gosto do primeiro folião apresentado acima: o folião apolítico. Para não dizer alienado.

A letra do enredo simplesmente se ateve a descrever ingenuamente características geográficas do país, citando o petróleo, e para não deixar o povo todo de fora, fez referência a mulher venezuelana. O povo, com sua atuação produtiva de uma nova realidade política e social, e  mais a direção autônoma de seu presidente Hugo Chaves, ficaram de fora. Desta forma, o que se viu e ouviu, no sambódromo, foi mais uma Venezuela para confirmar a alienação dos comentaristas, que não pouparam elogios amenos à escola, e a comprovação da indiferença social dos jurados no quesito “carnaval é alegoria: o que se encontra oculto”, já que não viram o óbvio de uma nova América do Sul que a alegoria da escola procurou ocultar.

De qualquer sorte, parabéns aos bons moradores do bairro de São José, que talvez nenhuma influência tenham nos endereçamentos da escola, e muito menos nas decisões de seus dirigentes, possivelmente, ligados à aproveitadores “politicofastros’.

KINEMASÓFICO CARNAVALIZANTE: SASSARICANDO

Ô Abre alas que eu quero passar…

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Aproveitamos o clima carnavalesco para mais uma apresentação do Kinemasófico, que aconteceu nesta segunda-feira, 23 de fevereiro, na sede da AFIN. Desta vez foi exibido o espetáculo Sassaricando – e o Rio inventou a marchinha.

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Um musical apresentado em 2007, com os cantores Alfredo Del-Penho, Pedro Paulo Malta, Eduardo Dussek, Juliana Diniz, Sabrina Korgut e Soraya Ravenle, e lançado pela gravadora Biscoito Fino, conta a uma certa história do Brasil por meio das marchinhas de carnaval, que animavam o carnaval, no tom galhofeiro e caricatural, até serem “substituídas” pelos sambas de enredo.

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Há controvérsias nessa história de origem da marchinha, representada pela rixa entre Rio e São Paulo, mas o que fica é a importância de algumas dessas composições para a animação do carnaval, sem esquecer a crítica política.

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Desta vez foi diferente! Apresentamos o kinemasófico na calçada da sede da AFIN, sediada à Rua Rio Jaú, bairro Novo Aleixo, para que as pessoas que passavam pudessem chegar e participar da festa.

Daqui não saio…

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A partir de agora, o Kinemasófico, que era apresentado esporadicamente, vai a público todos os domingos, às 19h, na sede da AFIN. Além disso, não ficará restrito apenas à projeção de filmes, mas será acompanhado de uma oficina prática sobre os processos de técnicos e subjetivos do cinema. Portanto, no próximo domingo (01/03), aguardamos a sua presença.

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A CÂMARA DA GLOBO QUE CAUSA DOR

Na sociedade do sensorial imóvel, a violência que mais atrai reação dos indivíduos é a somática. Uma queda, um hematoma, um tiro, uma facada, um murro, um tapa, um câmara aérea da Globo que cai em cima do público que assiste na Marques de Sapucaí, no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro, a performance carnavalesca da escola da insigne sambista Beth Carvalho, a grandiosa mangueira.

O cabo quebra, ou eufemisticamente, solta, e a câmara hipnótica em movimento aéreo cai sobre o público quebrando a ilusão televisiva que a existência “é uma janela aberta para o mundo”. Pavores, escoriações, dores, afirmam que a dor é mais real que o psicodélico que a Globo empurra como mercadoria “de primeira necessidade” para o telespectador.

Mas uma câmara caída sobre um público anestesiado, para não dizer alienado, dado a coisificação do termo, não causa tanta dor como causa a violência da programação da Globo. Jornal Nacional, Telenovelas, Faustão, Big Brother, Jô, Fantástico, etc, são mais traumáticos do que uma câmara que cai sobre alguém em função de suas avarias afetivas e cognitivas serem mais indeléveis.

A programação da Globo é mais perigosa que um cabo que se solta e causa a queda de uma câmara sobre o público. Com todo respeito, é claro, a dor física sentida pelos vitimados. Como não morreram, logo, logo, tudo estará cicatrizado. O impossível é cicatrizar os traumatismos causados pela limitação de inteligência da Globo e sua indiferença ética quanto tudo que oferece como mau aos telespectadores que segue a “saúde” do entretenimento de mercado.

As câmaras caem, mas a estupidez continua ilesa.

A POTÊNCIA ATIVA DE MESTRE RAY, DE BELÉM: DO CARNAVAL À CAPOEIRA, NA COMUNALIDADE-MUNDO

Durante as itinerâncias pela cidade de Belém, na cobertura do Fórum Social Mundial, a equipe afinada aproveitou também para dar uma volta pela cidade. No roteiro do acaso, vários encontros, outros tantos ficaram para outros acasos em outras itinerâncias. Em um desses encontros, através do companheiro Germano, taxista da praça belenense e grande conhecedor da cultura paraense, conhecemos o Mestre Ray, ou Mestre Mundico.

Sorridente, faceiro, contador de histórias, sempre com uma brincadeira, Mestre Ray, aglutina duas das potências culturais do povo paraense: o carnaval e a capoeira.

Como brincante do carnaval, ele carrega os elementos lúdicos da música, do molejo, do gingado, do saber comunitário. Conhecido e querido por toda a cidade de Belém, é requisitado nos blocos da cidade tanto como mestre de bateria, quanto como maestro, instrumentista, carnavalesco, animador, agenciador ativo de perceptos e afectos carnavalizantes, dionisíacos.

Na capoeira, ele é corpo-afecção da Capoeira Regional, modalidade desenvolvida a partir da mescla da capoeira de Angola com outras artes, incluindo a misteriosa luta de cabeçadas da ilha de Marajó, onde Mestre Ray aprendeu. Mas não pergunte a ele do que se trata: aula de luta de cabeçada, só na prática. “Querem aprender?”, brinca. Embora venha depois de mestres essenciais à capoeira paraense, como o Mestre Bimba, Mundico, como é conhecido entre os capoeiras, é considerado um dos fundadores da capoeira em Belém.

No dia em que a equipe conheceu Mestre Ray, ele nos levou até um bairro da alcunhada periferia de Belém, onde ia entregar peças de embarcação que ele, como metalúrgico, fabrica. É seu ganha-pão. Curioso ofício para quem, além de ter a mesma profissão que o presidente Lula, é ainda carnavalesco, capoeirista, maestro, artesão, músico, teatrólogo, ativista social. Mas não para Mestre Ray, que sabe que o saber e a disposição para estar no mundo como protagonista do existir não estão sob o julgo do capital. Reconhecimento, apenas o dos amigos, que não são poucos, e uma medalha, conferida pela câmara municipal de Belém.

Depois de acompanhar este bloguinho em um fim de tarde no Ver-o-Peso, Mestre Ray nos convidou para estar com ele na manhã do domingo que se aproximava, quando contaria um pouco da sua história, de seus caminhos, da sua capoeira, do seu carnaval. Enredada na história de um homem, ao puxar o fio do novelo, desvela-se a história de uma cidade que não se apequena diante das dificuldades, e de um povo que não aceita abrir mão de construir o seu próprio modo de ser.

Deixaremos que o próprio Mestre Ray nos leve na sua conversa. Com voz macia, fala mansa, mas determinada, um tom constante de humor, no gingado, ele vai nos levando, como numa dança, em plena roda de capoeira, às vezes brincando, às vezes dando um golpe, sem machucar, lá onde a linguagem deixa de ser palavra de ordem para se transformar em con-versão, palavra em ato, na coletividade. É com ele.

Os afinados vão entrando na casa de Mestre Ray. O espaço abrange a casa dele e mais duas, dos filhos. Cachorros, gatos, galinhas, tartagura, beija-flor, tudo solto, sem gaiolas, sem poleiro, sem grades. Árvores, uma oficina ao fundo. Mestre Ray está ouvindo um CD de carimbó, e consertando um bumbo. Chapéu de palha e um sorriso no rosto (que não podem faltar), ele não espera pelas tradicionais perguntas, vai logo emendando o papo, enquanto os afinados, atordoados, correm pra ligar o gravador. Enquanto fala, o CD ao fundo compondo a festa paraense do carimbó de raiz.

Domingo passado, que veio um historiador da universidade aqui procurando fotos, mas a maioria das fotos que estão ali estão deterioradas, e ele levou algumas. E esse negócio das fotos, o pessoal me pede, aí eu dou, tá aqui a foto. Levam, mas não trazem. Uma vez veio um rapaz que estava fazendo um livro, mas é discípulo nosso de capoeira, aí não trouxe. Disse que ia escanear, melhorar as fotos, mas acabou não me entregando. Mas eu tenho algumas fotos aqui, tem umas grudadas ali no papelão, fizemos uma festa aqui em casa, a festa de aniversário da Senzala. Mas eu não ligo muito para as fotos, vem o pessoal aí e pede, deixa eu levar as fotos, e levaram um monte de fotos do papelão, e é história, fotos históricas, umas da década de 70, outras da década de 80, e ainda ficou umas ali que são muito velhinhas. Daqui a pouco eu mostro para vocês, lá”.

Geralmente aos domingos, tem gente aqui. Quase todo domingo tem gente aqui, quando não vem para aprender capoeira, vem pessoal para pesquisar, outros vêm, por me me acham assim, como seu eu fosse um pai deles, um psicólogo, vêm pedir conselhos. A gente se dispõe, e o pessoal já sabe até o horário, que é das 09:30 às 10:30, é o horário que eu abro espaço para ensinar capoeira, dar um conselho, alguma coisa. Aí a partir de dez e meia em diante eu já me dedico à família. E ultimamente, esta época agora, eu estou mais dedicado ao carnaval. Os rapazes pediram para eu dar um jeito nestes instrumentos que estavam furados, e além de eu trocar as peles deles eu já vou enfeitar eles de várias cores. Eu tenho um grande amor por instrumentos. Não posso ver um instrumento velho, quebrado, por aí, que eu compro e trago pra cá. Tanto é que ainda tem um monte deles aí para ajeitar, porque esta agremiação, este bloco carnavalesco, não tem instrumento”.

Afinpress – É aqui então que nasceu a capoeira de Belém…

Aqui é que é a área dos capoeiristas. De vez em quando vem um, vem muita gente de fora, de outras cidades. No ano passado veio um rapaz lá de Cametá. Veio ele, um grupinho dele, que ele montou para lá. Chama-se Paulinho Cametá. E trouxe os meninos para me conhecer. Eles chegaram aqui, bateram fotos, pediram para eu falar alguma coisa sobre capoeira para eles, eu dei uma minipalestra, e foram embora daqui muito contentes”.

Geralmente quando vem crianças aqui, eu tenho uma mania de, além de cumprimentar, pegar na cabeça deles para benzer. Então eu acho que isso já passou para os outros grupos, descendentes da Senzala, que quando vem algum aqui falar comigo, ele já baixa a cabeça que é para eu abençoar ele. Não que a gente seja algum ser supremo para abençoar, mas a gente diz “Deus te abençoe”, “Deus ilumine teus caminhos”, e quem sabe Ele não esteja lá em cima escutando e abençoando as crianças. Tem um rapaz aqui em Belém que andava à pé por aí, não tem pai, e mora lá para o bairro da Cremação, do outro lado da cidade. Mas toda vez que ele estava aqui pela área da Sacramenta, ele vinha aqui. Ele é alto, e sempre que vinha aqui já chegava pedindo, “Mestre, seu cumprimento e sua bênção”. Quando foi um dia, fazia um tempo que ele não aparecia, para você ver como são as coisas, ele apareceu com uma moto aí. “Ei, Mestre, vim pedir a sua bênção”, e eu “Deus te abençoe”. Da outra vez que ele apareceu, já foi com um carro. Aí eu disse: “rapaz, eu vou parar de te abençoar, porque daqui a pouco tu estás um cara milionário, cheio de seguranças, já vão querer te sequestrar”, e ele disse “Não, Mestre, quanto mais eu peço a sua bênção, mais a gente cresce na vida”. Aí então ele sempre me convida para ir nas rodas de capoeira na casa dele que são no segundo domingo de cada mês, mas meu tempo é muito curto. Se eu tivesse que visitar todo mundo, um domingo não ia dar. E aqui, de manhã, tem sempre alguém do meio da capoeira, do samba, do futebol, e de tarde eu procuro descansar um pouquinho”.

Pequeno altar, na entrada da casa de Mestre Ray

Pequeno altar, na entrada da casa de Mestre Ray

Aqui, no final do ano, as pessoas têm a mania de fazer uma confraternização jogando solteiros contra casados. Hoje em dia, as pessoas fazem mais Remo e Paisandu, camisa do Remo contra camisa do Paisandu. E eu fui convidado só aqui nessa área para jogar solteiros e casados, da [rua] Pedro Álvares Cabral para lá, na área aqui, nestre trecho em que eu resido, e na outra área, passando a [rua] Senador Lemos pra lá. E mais no outro, que eu nem faço parte da rua, lá da [travessa] Alferes Costa, que é uma outra rua ali, e eu nem moro pra lá, eu moro aqui. Pra vocês verem como é esse negócio das pessoas me quererem dentro dos seus eventos. Talvez porque a gente faça uma grande amizade com gregos e troianos. Se eu sair daqui, ali para a feira, que é pertinho, eu vou demorar uma hora pra voltar. Porque a gente vai passando e ouve “Ei, Mestre, venha cá”, aí a gente vai conversando, e cumprimentando, às vezes eu saio com o chapéu assim e cumprimentando “bom dia, bom dia, bom dia”. É porque a gente tem um carinho muito grande das pessoas”.

Nessa casa bem aqui defronte estão morando 27 baianos que vieram trabalhar numa demolição de um shopping center aqui em Belém. O shopping é lá da Bahia, e contratou eles. Então eu conheço alguns deles, e eles queriam até vir treinar capoeira aqui, e eu disse: “Rapaz, a Bahia não é a terra da capoeira? Então eu que tenho que aprender com vocês, e não vocês comigo”. Mas é que um tá meio ‘durinho’, e o resto não sabe nada. Eu disse que para aprender comigo, eu vou cobrar 50 reais a hora/aula, disseram que está muito caro, mas é o valor de um mestre. E eu não estou tendo tempo. Se eu fosse abrir a mão e cobrar 5 reais por cabeça, estavam tudo aí, querendo aprender capoeira. Mas é que eu não tenho tempo pra dar aula. Aí então me levaram lá em cima, pra conhecer o alojamento, eles mesmo cuidando de carne, de tudo. Domingo passado eu fui atravessar ali para comprar um churrasco, aí um deles me chamou e me pediu 4 reais emprestados para pagar quando receber. Tudo bem. Quer dizer, se eu tiver, a pessoa tem. Nem conheço direito o camarada, mas se pedir e eu tiver, eu dou. Eu acredito na pessoa. Só quando eu sei que a pessoa é de má índole, um pilantra, aí eu não dou. Mas se for um trabalhador que precisa, e eu tenho, eu dou. Eu sou deste tipo. Tento ajudar a gregos e troianos, ajudar sem olhar a quem”.

O som do CD vai rolando ao fundo, emoldurando a fala de Mestre Ray. A esta altura, ele dá um suspiro, e deixa rolar o som, para em seguida completar.

Este é Mestre Lucindo, de Marapanim. É um carimbó mais compassado. Se você observar, o carimbó não é uma coisa só, ele tem uma diferença um mestre para outro”.

Clique aqui para baixar e ouvir.

SOBRE A CAPOEIRA

Então aqui em Belém, a capoeira propriamente dita, que eu digo que tenha começado ela, foi em 1971. Comecei antes, mas eu registro como 1971. Porque na época, no governo militar, os jovens iam de uma ponta a outra do Brasil com o lema “sem lenço e sem documento”, e eu praticava capoeira, mas praticava a esmo, não tinha muitos fundamentos. Até porque na época não existia televisão, pelo menos aqui no bairro não existia televisão. Então o que ocorreu? Hoje em dia se chamam hippies, mas naquela época eram dois jovens que vieram da Bahia, e ficaram um mês radicados ali na Presidente Vargas, na Praça da República. E eles praticavam capoeira no calçadão em troca de um trocado, alguma coisa para a sobrevivência deles. Então, no horário de meio-dia, uma hora, eles queriam que eu arrumasse alguma bóia, alguma comida pra eles. E em troca eu iria aprender um pouco mais com eles. Então eu ia jogar um pouco de capoeira com eles lá, aprendendo a técnica deles. Eu tinha a minha técnica, mas era muito arcaica. Até porque eu sou um autodidata, e não tinha muito conhecimento sobre a ginga, sabia dar umas pernadas, mas não tinha aquela técnica. Então eu suguei um pouco desses camaradas, durante um mês eu levava a minha bóia lá pra eles, colocava a minha própria bóia dentro de uma latinha e levava, e em troca, sugava um pouco da técnica deles. Na época não existia capoeirista aqui em Belém. Depois de um mês, eles subiram no rumo de Macapá. Pegaram carona num navio e partiram. Aí eu adquiri mais desenvoltura na capoeira, e com isso fui tendo seguidores. Eu não me julgava mestre de capoeira”.

Para vocês verem como é a coisa. Eu não tinha nem conhecimento de como se fazia um berimbau. A primeira criação minha de berimbau foi assim, de goiabeira. Eu vi que a verga era flexível e dura, só que depois que eu colocava o arame ela ficava. Se tirava, ficava do mesmo jeito. Eu tive a ideia de começar a torrar no fogo, pra ela vergar, e quando soltar, voltar de novo. Eu não tinha noção mesmo de como era feito um berimbau antes de conhecer esses dosi rapazes. E eu botei ouriço de castanha como caixa de ressonância, e aquilo é pesado pra dedéu, saía som mas ficou pesado. Até que eu fui pesquisando, e cheguei na Cuia-Pitinga, de onde deu um som melhor, e aí eu comecei a construir berimbau com galho de goiabeira torrado no fogo com cuia-pitinga”.

Os troféus de Mestre Ray

Os troféus de Mestre Ray

E eu levava meus seguidores para a Praça da República. E numa dessas vezes, e aqui em Belém era uma inovação na época, por que existiam mestres da década de 60 pra lá mas foi coisa muito rara, Mestre Pé-de-Bola, Mestre Castanha do Pará, apareceram e sumiram. E eu estava começando um novo ciclo da capoeira ali na Praça da República. E quando a gente estava fazendo a roda de capoeira lá, era época militar, e existiam os guardas que eram chamados cosme e damião, que andavam em dupla. E aconteceu um fato, eu digo até histórico, porque passaram umas mocinhas lá, e os guardas mexeram com as mocinhas, e elas não ligaram pra eles. Então o que aconteceu? As mocinhas não deram atenção aos policiais e vieram assistir a roda de capoeira, e eles se sentiram humilhados, ou alguma coisa assim, e vieram direto em mim. Quer dizer, na roda. E chegaram lá, isso entrou na história, perguntando, quem é o mestre aí. Os meninos com medo apontaram: “é ele!”. E ó, me deixaram no fogo lá com os policiais. E eles já vieram com algemas e tudo, que aquilo era proibido, que a gente estava pisando na grama, inventando uma série de artifícios para tentar me prender. Trouxeram até a pulseira do Roberto Carlos, e eu disse “aqui ninguém vai botar pulseira do Roberto Carlos não!”, e vai pra lá, e vai pra ali, e tinha um senhor de paletó e gravata e com uma pasta presidente, e eu agradeço muito ele. Não sei quem é, não procurei conhecer. E começou a discutir com os guardas em meu favor: “Não, isso aí eu conheço. Isso é cultura!”. Falou na Bahia, tudo mais, e começou a discutir com os caras lá. E eu fiz a mesma coisa que os meus discípulos, atravessei a rua e fui embora, e ficou lá no meio da praça o berimbau, o pandeiro… Então foi o primeiro passo para ser reconhecido como mestre. Até então eu simplesmente organizava a roda, tinha eles, eles me seguiam para onde eu ia, às vezes até à pé, porque a gente não tinha verba. E um dos meus talentos era fazer camisa, calça. Eu fazia a calça o abadá, que não é esse que o pessoal chama hoje de abadá, é o abadá da capoeira mesmo”.

Então eu quis homenagear o bairro, e aqui as cores do bairro são verde e branco. E eu querendo homenagear o bairro e Deus, essa era a minha idelogia. E eu coloquei as cores do abadá de verde, do bairro, com uma listra azul, que é o céu. A camiseta branca, dois berimbaus encaixados e o nome do grupo, Filhos da Bahia. Uma homenagem aos dois rapazes que me deram uma dica sobre a capoeira. E andando pela Presidente Vargas eu vi numa lojinha lá em exposição um livrozinho, ‘Capoeira Sem Mestre’. Na hora eu não tinha dinheiro, mas dei um jeito no outro dia de arrumar dinheiro e fui comprar esse livro lá, para ter mais conhecimentos sobre a capoeira, sobre os fundamentos de modo geral, a técnica, porque até então eu jogava da seguinte forma, a capoeira tem duas vertentes, a Angola, e a capoeira regional”.

CAPOEIRA DE ANGOLA E REGIONAL

A capoeira de Angola a gente chama ela de mãe capoeira, foi a primeira capoeira que surgiu, e depois o mestre Bimba, na década de 40, transformou, aliás, ele não transformou, ele mesclou golpes de outras lutas na capoeira, que hoje em dia se chama Capoeira Regional. A capoeira de Angola eu digo até que ela é jogada mais no chão, mais lenta, devido a ela ter sido criada pelos escravos em senzalas. O camarada fala em senzala hoje em dia, o camarada pensa em um lugar alto, que colocavam os negros lá. Mas a senzala na realidade, era um buraquinho baixo onde se jogavam os camaradas lá como se fossem animais, entende? Então o camarada não poderia ficar de pé. Então eu creio que daí que tenha surgido a capoeira de Angola, porque não dá para jogar pelo alto, eles jogavam aqui mais embaixo. Esse é o meu pensar sobre de onde veio a capoeira de Angola”.

A Regional não, a gente joga mais em cima, ela aqui de pé, golpes semelhantes de outras lutas, como karatê, jiu-jitsu, que só se transforma no nome, por exemplo o Martelo, que dão outro nome lá no karatê, a Chapa, que no jiu-jitsu é outro golpe lá, Meia-Lua, Armada, que é um golpe dado no ar, o pessoal do kung-fu usa muito esse golpe, até aquele Jean-Claude Van Damme, na maioria dos filmes dele, tem esse golpe. Então a capoeira regional tem essa mesclada de golpes que nós damos outros nomes. E a capoeira de Angola, sempre que se vai fazer uma abertura de roda, tem que se começar com a capoeira mãe, que é a de Angola. Um jogo lento, compassado, e tipo uma brincadeira de troca de golpes, a pessoa tem que soltar o golpe e puxar, não deixar bater no adversário, só pra mostrar que poderia bater, mas não bate. Então assim que é feita a capoeira de Angola. Um dá o golpe e depois puxa, o outro tem que se esquivar rápido. O que deu o golpe, sabe que poderia ter acertado, e o que vai receber o golpe, se ele conseguir se esquivar a tempo, ele sabe que não acertou. Então é sempre começada uma roda de capoeira com a capoeira de Angola, e depois para-se ou então sobe-se o ritmo pra Regional. Depois que está numa capoeira de Angola, os componentes que estão ficam sentados no chão enquanto os dois jogam aqui, saem, terminou, eles vêm no pé do berimbau, pedem a bênçao em pensamento e deixam a energia aqui no berimbau que é para quando os outros dois que vierem jogar, pegarem a energia e jogar, e não acontecer nada de ruim com ninguém. Depois que para a roda de Angola que vai se passar para a capoeira Regional, os componentes que ficam ao redor da roda se levantam. Aí é jogo rápido, golpes contundentes, e jogando mesmo para bater o adversário, ele tem que ter conhecimento para se esquivar. Se ele achar que não tem condição, ele pede para sair, dá a vaga pra outro. Basicamente, é isso que ocorre dentro de uma roda de capoeira. Começa com a Angola e depois passa para a Regional. Quando é uma apresentação mais ampla, o mestre que estiver ministrando a aula, se tiver conhecimentos de Maculelê, ele encerra com Maculelê. Maculelê é uma dança que se usa bastão ou até facão, para finalizar a roda. Mas tem que ter competência, porque fazer dança com facão, tem gente que já torou o dedo”.

OS FRUTOS DO ‘FILHOS DA BAHIA’

Aqui em Belém eu sou o fundador do grupo Filhos da Bahia, que mais tarde se tornou, se tornou, não, os discípulos foram se preparando, e fundaram o grupo Senzala, em 1978. Era o ano em que eu estava parando um pouco na capoeira porque estava formando família e até me mudei aqui do bairro, fui morar no Jurunas, depois que voltamos pra cá. E eles deram prosseguimento com o grupo Senzala. Era uma série de rapazinhos, era o Mestre Pula-Pula, Mestre Naldo, e que deram sequência ao trabalho que eu vinha fazendo. Só que eles eram jovens, o mais velho era o Mestre João, que tinha 18. O resto tinha 14, 15 anos. E eles deram prosseguimento e de quando em quando eu vinha dar uma olhada neles, ficar como guardião desses meninos, porque o grupo estava se difundindo, e como tinham poucos grupos em Belém na época, os que tinham não queriam que nascessem novos. Então o que acontecia? Os camaradas que montavam outros grupos vinham para abafar, para acabar mesmo com o grupo Senzala. Então eu ficava atrás de uma touceira de pupunheira, com um banquinho, sentado lá, só observando, quando eles estavam jogando errado, só entre eles mesmos, eu ia lá e dizia “olha, é assim”, e voltava pra lá. Até porque o dono do terreiro, o ‘seu’ Nilson, cedeu o espaço, porque ele gostou de ver os meninos jogarem, levou pra dentro, comprou camisa, abadá pra eles, e quando aparecia uns camaradas formados, feitos, com 20, 25 anos, pra ir quebrar o grupo, ele dizia: “olha, mestre, fique de olho!”. Uma vez ele disse que apareceram dois camaradas e meteram o pé nos meninos, e eu falei, deixe comigo. E este ‘seu’ Nilton gostava muito de tomar um conhaque, vestia paletó e gravata para ir tomar conhaque num comércio que ficava a 15 metros do terreiro. E ele me chamava pra ficar lá, para reparar o terreiro. Aí quando terminava, botava a garrafa debaixo do braço e quando ia passando na roda, dizia: “ei, a de vocês é capoeira, mas a minha é essa daqui”.

Eu ia para a touceira de pupunheira e lá ficava, mas não dava tempo, todo dia aparecia alguém para querer dar porrada nos meninos. E nesta época eu gostava de usar roupa preta. Quando aparecia alguém e começava a meter o pé nos meninos, e nem pediam permissão, já iam entrando e metendo o pé, eu esperava só ele ficar de costas, quando ele virava eu dava uma rasteira que ele nem sabia de onde tinha surgido, daí era peia, peia, até que o camarada cansava e eu dizia “olha, joga com mais calma aí com os meninos”. Aí pronto, chega ficava mansinho, mansinho. E na época eu era muito bom em capoeira, não temia ninguém, nem altura nem largura. Eu era destemido. Então sempre foi assim, o pessoal tentando acabar com o grupinho Senzala, não conseguiram, e ano passado o grupo fez 30 anos. Foi fundado em 29 de novembro de 1978. E anda com as suas próprias pernas. E eu fiquei assim só como um guardião. Só de uns anos pra cá que eu recebi um convite para compor a diretoria e até hoje sou um dos diretores de lá”.

Durante todo este tempo aí foram feitas centenas, milhares de apresentações, SESC, SESI, Praça da República, em Belém, e também na Ilha de Marajó, tanto é que já tem descendentes do grupo em Cametá, em Marajó, por aí”.

DE UMA CAPOEIRA QUE NÃO SABE DE SUAS RAÍZES

E falando nos meninos me lembrou até uma estória de uma vez, que tem gente que não conhece a gente. Um fato inusitado que aconteceu comigo no bairro da Cremação. Eu trabalho como metalúrgico e fabrico peças para embarcação, hélices… E eu fui levar lá para um cara que mora na Cremação, e ele disse “mestre, espere aí um instantinho no bar que eu vou pegar o dinheiro e volto para lhe pagar”. Aí ele foi pra lá e demorou, e eu comprei uma cervejinha para matar o tempo. De repente se formou uma roda assim do nada, os meninos jogando, e eu achando que estavam fazendo uma homenagem pra mim. Eu pensei, né. E tinha um rapaz assim fortezinho, o líder deles, jogando lá e tudo mais, um jogo pesado, e de repente o berimbau afrouxou a corda que segura o arame, e não deu mais som, e o menino só jogou o berimbau que caiu lá para trás. O berimbau não quebrou, só afrouxou a corda. Aí eu peguei, ajeitei o berimbau, ajeitei a cabaça e comecei a tocar. Tinha dois berimbaus, contando com aquele. E eu comecei a tocar, acompanhando eles. E o rapaz fortezinho chegou pra mim e disse “ei barrigudo, sabe tocar, sabe jogar”, e saiu pro pau. Eu fui no pé do berimbau, fiz o sinal da cruz e saí pra jogar com o pequeno, e quando eu estava jogando ele vem de lá e me joga uma bufa. Eu continuei a jogar, lento, eu tenho um jeito diferente de jogar, um jeito maroto, o pessoal sempre diz que o meu jeito de jogar é diferente de qualquer outro, e quando eu vejo lá vem ele de novo com o mesmo passo, e dei [faz o gesto do golpe 'telefone']. Quando a gente acerta às vezes a pessoa perde a vista por uns momentos. Aí ele sentou lá no chão, eu peguei na mão dele, coloquei ele de lado, e comecei a chamar os meninos pra jogar. Aí os meninos vieram jogar lento, já todo mundo meio com medo, eu sabia que podia derrubar mas não derrubava, metia o pé na cara deles, mas puxava, mostrava que eu podia bater, mas não batia neles. Depois, a visão volta, eu já fiz isso com várias pessoas atrevidas. E voltou a visão dele, e eu chamei ele para jogar de novo, e ele já jogou macio que foi uma beleza. Quer dizer, são coisas que acontecem. Joguei mais um pouquinho com ele e depois voltei pro bar onde eu estava. Quando eu vejo, a roda toda parou para olhar, porque eles não sabiam, o menino veio com atrevimento e eu mostrei para ele que eu tenho conhecimento. E eu disse “podem continuar, eu vou só apreciar vocês daqui”. Eles continuaram jogando, e de vez em quando eles olhavam pra lá. Aí o meu cliente veio, me pagou, e eu fui embora. E ouço aquela voz: “ei, o senhor é baiano, é?”. Não, sou aqui mesmo, papa-chibé, aqui do Pará. Quer dizer, é um grupo mal formado. O mestre deles só ensinou a dar porrada, nem montar um berimbau sabiam, não sabiam nada de fundamento”.

HISTÓRIAS DA CAPOEIRA PARAENSE

Geralmente eu sou convidado, todos os anos, por exemplo, um grupo aqui, todo fim do ano, fazem um batizado. É tipo como uma prova final para ver o que o menino aprendeu durante o ano. Então o primeiro cordel que ele pega é o cordel verde, o segundo é verde-amarelo, e assim por diante. E eu sou convidado geralmente para esses batizados. Inclusive agora eu vou mais assim, quando o mestre do grupo tem consideração por mim, e assim vai. Outros mestres, que passam 5, 10 anos para vir aqui em casa…”

Porque uma vez eu fui num grupo de um rapaz que chamam Mestre Bimba para ele, o nome dele é Valdir, mas é que quando ele era pequeno, que vinha entrando aqui pelo saguão, a fisionomia era igual à do Mestre Bimba, já falecido. Aí eu disse que ele era parecido com o Bimba, e de lá pra cá pegou. Então eu fui num batizado deles, e tinha menino lá que nunca tinha me visto. Daí quando eu fui batizar lá um menino, um rapaz, assim de 18, 20 anos, e quando a gente vai batizar um aluno, não é questão de dar pancada, a gente dá uma rasteirinha, uma cabeçadazinha, e quando estes meninos vão pra festa do batizado eles levam pai, mãe, parente e tudo mais. E o menino jogando comigo lá me enchendo de ‘martelo’. E a gente como mestre, se bater no pequeno lá, a mãe, o pai, o parente lá não vai gostar, né. Mas quando eles batem na gente, o pessoal do grupo mesmo, da redondeza, batem palmas, gritam, olha, tá batendo no mestre… A gente fica numa encruzilhada, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Conclusão: este menino estava meio atrevido, e eu fiz a mesma coisa que eu fiz com esse que contei ainda agora. Soquei um ‘telefone’ nele. O menino caiu no chão e ficou, eu peguei ele, coloquei do lado, aí o mestre Bimba até parou a roda, e eu disse “não te preocupa que daqui a pouco o farol dele volta ao normal”. Foi, até que voltou. E ele botou outro pra jogar lá…”

Entra outra música, Mestre Ray pára de falar, e com reverência, pronuncia: “Verequete. É, é Verequete”.

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E quando a vista do menino lá voltou, o mestre Bimba parou a roda e disse: “olha, vocês quando estiverem jogando, não é para bater em mestre, porque o mestre tem mais conhecimento que vocês. Ele pode bater em vocês mas ele não usa dos artifícios que é para não machucar ninguém. Aí pronto. Depois, quando me chamaram de novo para batizar outro menino, a coisa já correu mais naturalmente. Esse ano que passou, lá no grupo Zambo Capoeira, do bairro Jurunas, aconteceu um fato praticamente idêntico a esse. Eu jogando com um rapaz do cordel mais alto que esse, já graduado, a mesma coisa, e eu me esquivando, e ele querendo me pegar, e o velhinho aqui ainda dá pro gasto. Quando ele vacilou, não teve jeito, uma cabeçada, ele caiu com as nádegas no chão, deu até um trabalho pro pessoal depois, tiveram que fazer massagem lá… Quando a gente derruba alguém, eu geralmente gosto de dar uma rasteirinha, pro menino cair, uma cabeçadinha sem muita maldade, só pra deslocar ele, mas esse estava jogando muito rápido, e eu me esquivando, quando ele vacilou eu só dei. Na velocidade que estava, ele se bateu. Aí depois, na entrega de cordel, eu fui lá, peguei na mão dele, tinha aquele gel de massagem, eu fiz massagem, tava lá a mãe dele, o pai dele, eu fui lá pedir desculpas, primeiro pra ele, depois pro pai e pra mãe, expliquei que era sequência do jogo, eu não tinha a intenção de machucar, e ele mesmo reconheceu que estava muito agressivo, querendo me bater, pra mostrar que estava bom”.

Geralmente quando o jovem está aprendendo, que pega um cordel mais graduado, ele quer mostrar a técnica dele, quer superar o próprio mestre, mas às vezes ele perde a noção de que não deveria estar machucando os mestres. Eu prego sempre a seguinte coisa: treinar capoeira e preservar a integridade física do adversário. Só num caso de situação extrema que deve ser usada a capoeira para se defender, não para atacar”.

UM CAPOEIRA ATREVIDO NO CAMINHO DO MESTRE

Inclusive uma vez lá no Guamá, eu e um amigo, nós tínhamos ido de um outro bairro lá pro Guamá. Só que de ônibus ia dar uma volta assim, aí o que fizemos? Fomos cortando, que ele conhecia lá as ruelazinhas e fomos cortando. Quando chegou no meio do caminho, ele convidou para tomar uma cerveja antes de seguir caminho. Chegamos lá e estávamos tomando uma cervejinha quando chegou um rapaz. Aliás ele já estava lá, num cantinho, tomando uma garrafa de pinga, sem camisa, cordão de caroço de tucumã… Aí quando o meu amigo viu, disse “ah, tu não é nada, esse aqui é que é, o meu amigo”. Eu disse “não faça isso, não faça isso que não dá certo”. Aí o cara tomava a pinga dele e jogava a capoeira dele lá no chão do bar e perguntava “o senhor é mestre mesmo?”, e eu dizia “não, rapaz, não tá vendo aí a barriga”. Mas quanto mais ele tomava a pinga, mais ele vinha, “tu é mestre mesmo? Eu tou desconfiado que tu é mestre”. “Não, eu não sou mestre, é brincadeira do meu amigo aqui”.

Aí eu tomando uma cerveja e falando sobre o serviço, resolvi pedir uma dose de conhaque, e ele viu de lá, aí disse “o senhor é mestre, gosta de tomar uma bebida forte”. E realmente, todo mestre gosta de uma bebida forte. E eu “não, é brincadeira dele”. A gente usa da psicologia. A gente faz a pessoa crer que a gente não é nada, para depois demonstrar que nós somos alguma coisa. Até que ele acreditou que eu não era mestre. Ele já estava embriagado, e eu estava com uma camisa branca, rapaz. E meio bêbado ele chegou e colocou as patas sujas dele na minha camisa. “O senhor não é mestre coisa nenhuma!”, chega ficou a marca da mão dele na camisa. Aí eu mostrei que era mestre. Meti a mão no peito dele, abri a guarda dele, segurei ele por baixo, levantei ele no segundo andar e joguei em cima de uma grade de cerveja. Foi coisa rápida. Peguei uma garrafa e fiz menção de bater na cara dele, quando ele gritou: “Ai, Mestre!”. “Ah, tu já sabe que eu sou mestre, né”. Aí eu botei a garrafa no lugar, dei a mão pra ele e puxei. Ele não sabia nem como ele tinha caído na caixa, ficou todo marcado. “Mas o senhor é mestre mesmo, estava me enganando”.

Conclusão: o camarada largou da cachaça dele e passou até a pagar cerveja pra mim. Aí ele dizia “mas o meu mestre não me ensinou isso aí que o senhor fez”, e sempre aquela questão, “o senhor é da Bahia?”. “Não, sou papa-chibé”. Ele perguntou se eu conhecia o mestre dele, o Mestre Marrom, e este Mestre Marrom um dia estava usufruindo do meu nome por aí. E ele não aprendeu comigo. Já já eu conto a história dele. Só que ele não é meu discípulo, ele é neto meu, é discípulo do finado Mestre Elias, aprendeu lá no Guamá, e não tem uma boa conduta como mestre de capoeira”.

SOBRE MESTRES E (NÃO-) MESTRES

A história desse Marrom é o seguinte: aqui na Pedreira, um discípulo dele tinha um grupo de capoeira, e na época ele nem era mestre, era contramestre, mas pra mim ele nem é considerado como mestre. Então ele veio avaliar, num sábado, os pequenos para no domingo ser o batizado. E ele nem era mestre do grupo, o mestre do grupo era um outro rapaz. E quando eu fui lá, fiquei de fora, assim, dando uma olhada, dentro do colégio mas fora da roda, e eles avaliando lá. O que ele fez com o pequeno, ele deu uma Meia-Lua de chapa no peito do rapaz, que o rapaz caiu desmaiado no chão. Ele acertou na boca do estômago que eu até pensei que tinha matado o pequeno. E ele só jogou o menino pro lado e falou: “outro”. Aí eu entrei e falei “tu tá ficando maluco? Vê se ele tá ao menos vivo!”. Aí eu fui lá, tirei a minha camisa, enrolei, coloquei no pescoço dele pra deixar a traquéia livre, fiz uma fricção devagar no estômago dele, levantei a perna até o estômago dele, até o menino voltar. Quer dizer, se eu não estou ali, aquele pequeno era até capaz morrer e o cara só colocou de lado e chamou o outro. Como se fosse um saco velho, jogou pra lá. Aí eu dei uma esculhambada nele, e até resolvi sair pra não ver mais outra coisa desse tipo”.

Quando foi no domingo, veio o batizado propriamente dito, o rapaz responsável pelo grupo, o Edinaldo, não estava, e era ele que estava avaliando. Aí eu perguntei se o Marrom ia ser batizado de mestre, e disseram que ia. E o batizado acontecendo, eu fui lá, batizei um, saí para dar um tempo, e quando terminou tudo, e ele viu que eu tinha saído, começou a falar umas coisas lá, que praticava capoeira a mais de vinte anos, que o mestre dele era o Mestre Ray, quer dizer, Mestre Mundico – é que eu tenho dois apelidos, meu nome é Raimundo, e Mundico e Ray vem de Raimundo. No carnaval eu sou conhecido como Mestre Ray, e na capoeira sou conhecido como Mestre Mundico – enfim, ele dizia que era meu discípulo, que praticava capoeira há vinte anos, e tinha lá uns cinco ou seis mestres, e ele queria que eles batizassem ele como mestre. E eu ia entrando, e quando vi ele falando que eu tinha ensinado ele, fui falando “ei, pode parar. Esse camarada aí não é meu discípulo, não. Quem for meu amigo não batize ele”. Só fui lá, disse isso e voltei lá pra frente”.

Conclusão, na hora de fazerem a roda pra batizarem ele, ninguém foi. Aí ele pegou o cordel, amarrou na cintura e se botou como mestre. Eu vou batizar um cara desses que só falta matar os discípulos? É por isso que eu discordo de certas coisas, de certos mestres de capoeira, que não têm capacidade para estar no patamar de mestre”.

Outra música, outra referência: “Essa aí é a Nazaré Pereira, é outro tipo de carimbó”.

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DA SABEDORIA POPULAR

Outra história foi a de um rapaz que chegou aqui chorando copiosamente, que tinha jogado a televisão, que ia chegar na casa dele, ia matar a família, ia tocar fogo na casa, eu levei ele lá pro cantinho ali, conversei, conversei, conversei, mais de uma hora com ele, e disse que se ele tivesse errado, que tivesse humildade para pedir perdão, e se ela tivesse errado, que ele tivesse a nobreza de perdoá-la. E hoje em dia ele tem até neto. Eu penso assim, claro que se a pessoa estudar mais, ela fica com a mente mais aberta, mas a pessoa aprende mais com a vivência, com a vida. A vida é um livro aberto e todo dia a gente está aprendendo alguma coisa. A pessoa nasce aprendendo e morre aprendendo. Eu digo até assim, que nada mais me surpreende nesse mundo. A gente aprende dia a dia, e tem mais: aprende tanto com os mais velhos quanto com os mais novos. Eu fui dar uma palestra num colégio ano passado, e no final da palestra eu disse que a pessoa tem que tirar de cada dia pelo menos uma boa ação, sem olha a quem. Então geralmente eu procuro fazer uma boa ação por dia. Eu sei que não faço uma, faço muitas todos os dias. A pessoa tem que ter paciência para escutar os mais velhos, e se agachar para escutar as crianças”.

Uma vez chegou um cara aqui em casa querendo comprar um chapéu de palha meu por cem reais. Eu podia muito bem pegar e estava até precisando, mas eu achei aquilo um insulto. Porque quando eu tenho consideração pela pessoa, eu dou gratuitamente, quer o meu chapéu, toma, mas o cara querer comprar o meu chapéu, eu achei aquilo um insulto, um desacato à autoridade! As melhores coisas que eu tenho aqui, quando eu vejo que o rapaz, mestre, contramestre, está fazendo um bom trabalho, eu dou pra ele. Por exemplo, eram duas pessoas que tinham o livro “A Saga de Mestre Bimba”. Era eu e o Mestre Romão. Aí um rapaz aqui, e eu não tinha nem lido todo o livro, eu tenho pouco tempo pra ler, leio um pedacinho, aí o rapaz chegou, “esse livro não tem aqui em Belém, me empresta ele?”. Eu nem li o livro, mas dei e disse “vai, leva o livro e lê que tem muita coisa de capoeira para aprender aqui”. Eu sou desse tipo. Se eu gostar da pessoa e ver que a pessoa está fazendo uma coisa boa, eu dou o meu melhor para a pessoa, porque a gente nunca deve dar aquilo que a gente não quer mais, aquilo que não presta mais, tem que dar aquilo que a gente tem de melhor. O meu pensar é esse”.

Mestre Ray e sua primeira-dama, Dona Nazaré

Mestre Ray e sua primeira-dama, Dona Nazaré

Uma vez veio um rapaz aqui e disse que queria uma camisa da Senzala que fosse bem antiga, aí eu fui lá em cima olhar, ver se achava, e achei uma da década de oitenta. E era histórica a camisa que eu dei pra ele, eu contei pra ele. Os primeiros discos de vinil que existiram aqui em Belém, era uma coletânea, Eu Bahia, que eram quatro, e eu tinha dois de cada um, só porque eu vi em um comércio lá e arrematei. Tudo o que eu via de capoeira eu ia lá e arrematava. Os pequenos iam crescendo dentro da capoeira, “mestre, me dê um LP de som”. Conclusão, não fiquei com nenhum aí em casa. Esses que eu tenho, que já são CD, eu tinha uma grande quantidade deles, de mestres de fora, do Rio de Janeiro, Bahia, aí o pessoal chegava aqui em casa e era “mestre, me empreste um CD”, eu fazia melhor, “toma, leva pra ti”. Hoje em dia eu só tenho esses dois aí, e esses aí eu só tenho porque eu só tenho ele, só fizeram uma reserva dele, a não ser que o cara tire uma cópia, é esse aí e um outro que eu emprestei pra um menino, até hoje ele não devolveu mais, gostou tanto que não devolveu. Berimbau eu tinha uma infinidade aí, aí chegavam e diziam “mestre, eu não tenho berimbau”, eu dizia, “toma, leva esse”.

Eu tenho uma ideia que vocês podem até aproveitar. Seria de fazer uma matéria para todas as escolas do mundo, chamada de Natureza ou Meio Ambiente. Ela seria como é a Geografia, História, só que essa matéria seria de pesquisa sobre o local onde a pessoa vive. Por exemplo, ele mora na seca, iria pesquisar o porquê da seca, se mora onde tem enchente, o porquê da enchente. A matéria seria sobre as peculiaridades do local”.

A HISTÓRIA DO BERIMBAU

Veio aqui em Belém uma moça da universidade do Maranhão, daí eu passei um domingo conversando com ela, e enquanto isso eu fazendo umas três vergas dessas, e conversando, e uma amiga dela tirando fotos, e eu ensinando como fazer um berimbau. Peguei o galho, cortei a cuia-pitinga, porque a cabaça é aquela que dá no chão, no alto assim é a cuia-pitinga. E cortei, fui tirando a massa de dentro, fazendo o buraquinho, peguei a verga, lixei bem, cortei aqui em baixo, para encaixar o arame… Isso aqui tudo é história! Dentro daquelas quatro horas que ela ficou conversando comigo aqui, montei dois berimbaus, ela fez uma longa gravação comigo e ainda levou dois berimbaus para São Luís do Maranhão”.

A história do berimbau é bonita e meio triste também. Porque quando o Marechal Deodoro da Fonseca passou a ser presidente do Brasil, ele começou a perseguir os negros. Porque os escravos foram libertados, entre aspas, pela Princesa Isabel. Eu não ponho como libertação, e tenho letras de música sobre isso aí também. Então os escravos ficaram livres, mas como eles viviam na fazenda, tinham como comer e beber. E quando eles passaram a ser livres, não tinham o seu autossustento. O que aconteceu, eles passaram a roubar, a assaltar, usando o conhecimento que eles tinham, que era a capoeira. E o Marechal Deodoro da Fonseca decretou que todo negro que estivesse praticando capoeira iria para o pelourinho, quando não, seria enforcado e o membro dele seria cortado e colocado na boca para reprimir os outros. O que os negros faziam então? Faziam então os berimbaus, e existe na capoeira um toque de cavalaria que se dá e parece um trupé de cavalo. Então se fazia uma roda de capoeira, e quando o marechal mandava prender eles davam esse toque para quem estava na roda, que vinha chegando a cavalaria, que era a polícia da época, e todo mundo debandava, ou ficava disfarçando por ali, escondiam o berimbau. E quando a cavalaria já estava muito em cima, que não dava para eles correrem, o que acontecia? Esta parte aqui do berimbau onde encaixa o arame, eles botavam uma foice para degladiar com a cavalaria, que tinha vantagem de estar com a espada e em cima de um cavalo, e o negro assim podia degladiar com eles. Então essa parte aqui do berimbau é uma parte histórica. Muitos mestres de capoeira não tem conhecimento disso. Então sempre que eu vou dar palestra sobre capoeira, eu procuro explicar sobre isso pra professores e mestres de capoeira, para eles terem mais conhecimento, e não fazerem berimbau aleatoriamente”.

FLUXOS MUSICAIS

Deixa eu botar aqui um CD de capoeira… Esse aqui não está só eu não, está eu e outros mestres. Isso foi um festival de música que nós fizemos na Escola Salesiana do Trabalho, onde foram escolhidos vários mestres para gravar um CD. Esse primeiro aí é o Mestre Valci, é neto meu de capoeira. Eu sou mestre do Mestre João, ele ensinou para o Mestre Naldo, e o Naldo ensinou pro Mestre Valci. É meu tataraneto. Ele estava até ano passado como presidente da Associação Senzala. Quando foi agora no mês de agosto, estava acabando o mandato dele, e nós indicamos outro rapaz, um que estava acompanhando de perto o trabalho da associação, o Márcio, que é contramestre, e todas as pessoas que estavam ali na assembléia levantaram o braço indicando que aceitavam a indicação dele. Outras pessoas foram escolhidas, até me indicaram também para ser presidente, mas abdiquei porque não tenho tempo”.

Esse aí sou eu. Eu não tive nem tempo de gravar, passei correndo pelo estúdio. Cheguei lá e disse assim assim assim, porque eu tmabém tenho conhecimento de estúdio, eu disse para colocar só o toque do berimbau, depois só os instrumentos, aí repete de novo, e eu cantei em cima da gravação. Eu sou um pouco bairrista, eu gosto de colocar nas músicas coisas sobre Belém, sobre o Pará, ou então falando sobre mulher. Dificilmente tem uma letra minha que não tenha um nome de mulher no meio”.

(Associação de Capoeira Senzala, uma das mais tradicionais capoeiras de Belém).

Eu agora peço licença

Pois cheguei nesse momento

Hoje a Associação Senzala

Faz um grande movimento

O jogo de capoeira

É na ginga e no pé

Mas o jogo é mais bonito

Quando é jogo de mulher

E você que chegou de fora

À cidade de Belém

Vá ao Forte do Castelo

E à Catedral da Sé

Dê um pulo ao Ver-o-Peso

E ao Palácio Lauro Sodré

Não esqueça de visitar a Virgem

Nossa Senhora de Nazaré

E pra conhecer melhor

A cidade das mangueiras

Venha à Associação Senzala

Conhecer a capoeira

.

Ê, viva Belém!

A Cidade das Mangueiras

.

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E o pessoal gravava duas, três, quatro vezes e não conseguia, não ficava bom, e eu em menos de cinco minutos gravei a música e fui embora. Só deu tempo de gravar essa aqui. E ficou uma das melhores músicas. A questão é que o pessoal não tem o conhecimento de como fazer a gravação. Eu tenho centenas de letras de música de capoeira escritas. Todas elas têm um significado, foi um acontecimento. Uma vez eu gravei numa fita umas doze a quinze letras de música minha. Eu não tirei cópia, aí chegou um discípulo e pediu a fita, eu emprestei, e ele não devolveu”.

Eu tenho tantas letras de música que às vezes o camarada chega aqui e diz, “Mestre, cante aquela música”, e eu digo, “qual?”. Se não me disser o título da letra da música eu não lembro assim de uma hora para a outra, eu tenho que pegar o caderno, pra ler. Eu tenho uma veia artística que eu faço letras de música do nada. Faço aleatoriamente. Esse grupo, lá no Jurunas, quando tem um batizado e eles me convidam, eu levo de presente uma letra de música. Eu fiz uma vez uma para as mulheres de lá que é mais ou menos assim:

Quem nunca viu, vem ver

Se você não acredita que no samba ou capoeira

A mulherada aqui agita

Elas tocam berimbau, atabaque e agogô

Elas tocam pandeiro, reco-reco e catixi

Fazem jogo bonito, se você não acredita

Você tem que vir aqui”.

.

As minhas letras são com rimas e versos, que eu faço questão de colocar. Eu fiz uma aqui para a primeira-dama, porque ela tem uma criação de beija-flor bem ali, criação que eu digo porque ela coloca uma água com açúcar e assim quando é duas horas dá um monte de beija-flor. Então eu criei uma assim:

Beija-Flor!

Por que parou no ar?

Vem que eu quero te contar (Beija-Flor!)

Leva no bico essa rosa

Pra aquela loirinha prosa que está a me esperar

Beija-Flor!

Diga pra ela não chorar (Beija-Flor!)

É que eu não vou me demorar

Beija-Flor!

Tem duas coisas que eu gosto

Uma é a minha capoeira, e ela, que está no meu pensar”.

.

Eu crio letras assim, e todas elas têm um endereço. Uma vez… É crime ofender as pessoas, chamá-las de negras e tudo mais, e eu estava na Praça da República, e eu acho que o cara lá queria o espaço do anfiteatro. Eu estava ajeitando lá pra fazer uma roda de capoeira e o cara queria botar outra coisa, estava até com uma caixa de som, só que eu tinha chegado primeiro, e o espaço é público, quem chega primeiro toma conta do espaço. E ele disse assim: “Esse negro tá aí tomando conta…”. E eu peguei e disse “olha, eu posso ser negro, mas sou ser humano, tenho arte e cultura, e vou demonstrar aqui”. Então eu criei uma letra de música sobre isso, que é”:

Sou negro, seu moço, pois um negro eu sou

Você me chamou de negro, mas sou negro sim, senhor

Eu sou da raça negra, que construiu esta nação

No plantio dos canaviais, sob o chicote do patrão

Me orgulho de ser negro, de uma cultura sem igual

Da capoeira de Angola, e também da regional

Do Makulelê e do Candomblé, do Samba e muito mais

Pois eu sou negro, eu sou Arte

Sou Capoeira, sou Estandarte da cultura nacional”.

.

Então geralmente tem uma direção as letras de minha música. Uma vez, há uns dois anos atrás, um grupo de capoeira mulher, era só mulheres, se reuniram neste mesmo lugar, na Praça da República para fazer uma roda de capoeira, e fizeram um convite a mim, para que eu estivesse lá presente. Depois que terminou tudo, todo mundo foi embora, tinham três caras que estavam tomando pinga lá atrás de umas árvores, e eu ia passando, e ouvi um dizer “Ah, essas mulheres aí pensam que são não-sei-o-quê, porque praticam capoeira, a gente pega uma mulher dessas e senta a mão”. E eu falei que eles não podiam fazer assim. O cara falou “O que tu vai querer?”, e eu respondi, jogando o chapéu pro lado, “Eu é que pergunto o que tu vai querer”, e comecei a gingar na frente dele. Aí ele veio aleatoriamente, dando soco. Deu soco, tá perdido. Mas eu não bati com muita força, só um martelozinho. Eu só empurrei, não bati com força, e ele caiu lá no meio das árvores. “Vocês querem alguma coisa?”, e eles, “Não, ele que quer aí, a gente não quer nada não”. E eu criei outra música em cima disso”:

Não fale mal de mulher perto de mim

Não fale mal de mulher perto de mim

Cala a boca, meu amigo, que não quero ver teu fim

Cala a boca, meu amigo, que não quero ver teu fim

Não fale mal de mulher no berimbau

Não fale mal de mulher no berimbau

Cuidado, camarada, você pode se dar mal

Toma cuidado, camarada, você pode se dar mal

Não diga que a mulher não vale nada

Não diga que a mulher não vale nada

Você vai tomar rasteira, e quem sabe uma armada

Você vai tomar rasteira, ou quem sabe uma armada

Eu nasci de mulher eu tenho mulher minha filha é mulher minha neta é mulher e você o que é? É mulher”.

.

Aí elas cantavam tudo em côro, “E você o que é? Sou mulher”. Eu gravei só um CD, que esse menino levou, e até agora não trouxe. Outra eu fiz pra minha filha, a Raylena, da capoeira também:

Essa mulher é uma cobra

É venenosa, sorrateira

Na capoeira regional

Ela te pega na rasteira

É é é, é perigosa essa mulher

É é é, tem malícia no corpo e veneno no pé

É é é, é perigosa essa mulher

É é é, é filha de Ray e de Nazaré”.

.

Eu tenho umas duas ou três peças teatrais que eu perdi, pegou água e perdeu tudinho. Mas elas estão gravadas aqui na mente. Fizemos a apresentação de uma delas no SESC da Doca de Souza Franco, apresentei lá e ficamos em primeiro lugar. A história é a história de um capoeira que atravessou para uma dessas ilhas que ficam aqui de canto com Belém. E chegando lá, como tem sempre festa noturna, ele se dirigiu pra beira da maré com a namorada dele. Nisso apareceu três elementos querendo tomar a namorada dele e assaltar. O primeiro puxou um pedaço de pau, isso tudo é a peça teatral, foi ensaiada até aqui neste quintal, e rapidamente o capoeira tomou o pedaço de pau e já acertou esse. O outro puxou um facão, ele deu uma tesoura, derrubou o cara e com a perna tirou e jogou pra longe o terçado. Quando o terceiro tentou puxar uma arma de fogo, ele desarmou, e o cara saía gritando assim meio que como uma palhaçada “Ele é doido!”, e aí sai todo mundo correndo do palco”.

Livros, tenho dois pra escrever, duas estórias para escrever. Ainda não tive tempo, mas tá tudo aqui, encaixado. No dia que eu tivesse verba, não precisasse trabalhar o dia-a-dia, eu iria ficar só escrevendo. Um deles é até sobre um fato acontecido comigo. Era um tempo difícil, as coisas estavam meio difíceis aqui pra mim, e só tinha acho que água aí no fogo. Aí um rapaz ligou e disse pra eu ir lá buscar um dinheiro, e eu parti pra lá. Às nove da manhã, tomei um golinho de café, e parti. Eu só tinha uma passagem de ida. E quando chegou lá, o camarada tinha saído. Eu fiquei esperando, de nove horas até meio-dia. Meio-dia ele liga, dizendo que achava que eu não iria, e aproveitou pra viajar. Eu ainda perguntei do rapaz lá se tinha um dinheiro pra minha passagem de volta, mas ele não tinha. Aí eu me vi em palpos de aranha. Do outro lado da cidade, eu tomei um copo d`água e vim embora. Como eu tenho muitos conhecidos, eu vim cortando por dentro. Vim cortando, e resolvi ir na casa de um camarada que me devia 19 reais. Cheguei lá, ele disse que não tinha. Eu sabia que ele tinha, porque ele acabava de vender um aparenho de som grande. Mas nesse momento o cara tem que ter muita fé no Grande Mestre. Quando eu me dei conta que eu tenho muitoso motoristas conhecidos, e resolvi seguir a pé o trajeto do ônibus, mas não passou nenhum motorista conhecido”.

Andando a pé desde meio-dia, eu cheguei na Praça da República aos pedaços. Tu sabes aquele dia em que o sol dá e não deixa nenhuma sombra, aquele sol causticante. Eu fui pra debaixo de uma mangueira, pra ver se caía uma manga, pra matar a minha sede e a minha fome. Não caiu. Eu fui no chafariz ao menos lavar a cara, chegando lá não tinha água. E eu pensando o que foi que eu fiz pra estar sendo castigado dessa forma. Mas vim embora. Cheguei na Praça Brasil, e quando cheguei lá tinha um discípulo nosso que estava vendendo água de coco. Eu pedi um coco, que o negócio tava pegando, e ele disse que não podia dar, porque o patrão estava só de olho. “Nem uma pedra de gelo?”. Ele disse “Eu posso perder o emprego”. Eu já estava com a boca pregando, de tanta sede, mas disse que se já tinha atravessado metade da cidade, iria atravessar a outra metade. Andei uma linha, até que não dei mais conta de andar. Sentei na calçada, olhei pra trás e tinha uma janela aberta. Fui colocar a cara na janela pra pedir um copo de água, a mulher fechou a janela na minha cara. Aí eu não aguentei: as lágrimas desceram. Eu parei de novo, sentei, descansei um pouco, levantei e fui. Andei, andei, até que cheguei perto de casa. Quando avistei a frente aqui, estava já vendo estrelinhas. Isso já era umas quatro horas da tarde. Pensei: “não consegui nada, mas quando chegar em casa vou ter ao menos o calor da família”.

Quando eu chego em casa, meu filho mais velho diz que tem um cara me esperando num carro. Eu já penso que é bronca. Eu dei uma parada, suspirei duas vezes pra vista voltar ao normal. Quando cheguei lá o cara disse: “O senhor é que é o Mestre Ray?”. “Sou eu mesmo”, respondi. “O senhor é que fabrica hélices?”. “Sim, sou eu mesmo”. “Então tá aqui uma relação, aqui o meu nome, telefone, e 500 reais de adiantamento pro senhor”. Eu precisava de um real para a passagem de ônibus, e depois de passar por essa saga, esse sofrimento imenso, tinha 500 reais me esperando aqui há mais de duas horas. Pra ver como são as provações divinas”.

Esse é um dos fatos que aconteceu comigo que eu pretendo transformar num livro. Eu tenho muitas histórias pra contar… Mas o que era mesmo que vocês queriam saber?”

Os risos tomam conta. A esta altura, o pessoal do carnaval já está por lá, tocando um samba, esquentando para a festa que iria acontecer à tarde. Chega a dona Nazaré, a ‘Primeira-Dama’, com um delicioso refresco de manga, colhida minutos antes, e um tira-gosto. A barriga agradece, os afinados refestelam-se nas delícias da culinária paraense, ao som da turma do Bloco Chupicopico (Meninos Travessos), e assim a manhã vai cedendo espaço para a tarde, e a alegria toma conta do ambiente. Todo domingo é assim, na casa do Mestre Ray, mestre do carnaval, da capoeira, da vida ativa, que cria fluxos e engendra comunidades mais vastas.

Banda Chupicopico, (reprod. arquivo do Mestre Ray)

Banda Chupicopico, (reprod. arquivo do Mestre Ray)

BANDINHA DO OUTRO LADO 2009

Bandinha 2009 01 por você.

Clique nas fotos para ampliá-las.

A criançada foi chegando de todas as partes de Manaus, principalmente das adjacências da sede da Associação Filosofia Itinerante, situada no bairro do Novo Aleixo, zona Leste, na periferia de Manaus, do Brasil, do Mundo; não a periferia no sentido sociológico tradicional, mas no sentido daquilo que está na borda e salta e transborda, como deve ser o desmedido carnaval dionisíaco.

Bandinha 2009 02 por você.


Bandinha 2009 10 por você.

E a moçada da AFIN, formada por filósofos, semiólogos, estudantes de ensino médio e fundamental, geógrafos, psicólogos, economistas, todos que se fazem educadores na construção coletiva na Bandinha do Outro Lado, como alternativa à comercialização des-carnavalesca que vem da Marquês da Sapucaí, passando pelos sambódromos de todos os estados. Por isso a Bandinha do Outro Lado constrói-se coletivamente a partir da criatividade na preparação instantânea das fantasias e adereços de acordo com o gosto e ludicidade de cada uma das crianças presentes.

Bandinha 2009 06 por você.

Bandinha 2009 07 por você.

Bandinha 2009 11 por você.

Pra esquentar a batida da bandinha da Bandinha do Outro Lado, o companheiro Mário Paracanã, morador da Rio Jaú e que sempre participa da bandinha, trouxe para compartilhar uma marchinha que compôs quando criança e junto a outras crianças lá pelas festejantes terras do Pará.

PASSA O PÃO

Passa o pão! Passa o pão! Passa o pão!

Foi Tabajara

Foi Tabajara na terra de Tupã.

Tem goiabada, marmelada e requeijão…

De que vale tudo isso se você não passa o pão?

Passa o pão! Passa o pão! Passa o pão!

Bandinha 2009 12 por você.

Passou-se, então, um passeio das crianças foliãs com suas máscaras, seus risos soltos, seus desfiles, trazendo toda sua alegria contagiante, todo o contentamento do existir comunitário.

Bandinha 2009 13 por você.


Bandinha 2009 15 por você.

Bandinha 2009 16 por você.

Em seguida, todos se tornaram passistas nos passos compassados e também nos descompassados no concurso de dança, onde não faltou samba no pé.

Bandinha 2009 19 por você.


Bandinha 2009 21 por você.

E aí todas as cores já haviam sido misturadas, a bandinha da Bandinha do Outro Lado segurou na batida e no gogó e os movimentos desconcertantes e imprevisíveis tomaram conta do espaço na alegria de pular o carnaval-criança que não tem início nem fim e nunca se acaba.

Bandinha 2009 22 por você.

Bandinha 2009 26 por você.


Bandinha 2009 23 por você.

E a bandinha levou várias marchinhas conhecidas e outras nem tanto e aproveitou para agitar com uma constante da peça À Procura de um Candidato, que deixamos aqui junto a outras imagens dessa festança.

Os valores necessários

Para um bom prefeito

São o trabalho, o amor e a honestidade

(Tudo o que eu tenho)

Por isso eu peço a vocês, justos eleitores

Que me elejam o prefeito da cidade

(Vibra, meu povo!

Manaus, Manaus, Manaus)

Bandinha 2009 24 por você.

Bandinha 2009 27 por você.

Bandinha 2009 29 por você.

Para acabar de vez com o caos

Da falta d’água, dos buracos,

Do transporte coletivo

E assim nascer a Princesinha Tropical

(Manaus, Manaus, Manaus

Vibra, meu povo!)

Bandinha 2009 31 por você.

Bandinha 2009 28 por você.

Bandinha 2009 30 por você.

Só para liberar toda a potência da garganta da meninada e reposição de energias corporais, porque ninguém é de ferro, houve a distribuição de uma rodada de guaraná com pão e preciosa mortadela.

Bandinha 2009 32 por você.

Bandinha 2009 42 por você.

Mas o mata-broca foi rápido, porque a garotada e também os marmanjos queriam mesmo era brincar o carnaval até não mais parar.

Bandinha 2009 34 por você.


Bandinha 2009 35 por você.

Finalmente teve, na segunda rodada, uma farta distribuição de sorvete, cortesia da fábrica de sorvetes Sempre Frio, do companheiro Nelson Rocha (Papai Noelson nas quadras natalinas).

Bandinha 2009 43 por você.

Bandinha 2009 44 por você.

Bandinha 2009 46 por você.

Bandinha 2009 45 por você.

E aí, como a carne não vai, o carnaval invenção de si não acaba nem fica pouco, como diz o povo, a garotada continuou pulando, dançando, cantando cosmicamente contagiadas pela vitalidade do carnaval.

Bandinha 2009 47 por você.

Bandinha 2009 33 por você.



TRÊS MARCHINHAS E TRÊS NOTINHAS

.“Sempre é Carnaval! Sempre é Carnaval! Vamos embora pessoal!”

Em tempo de carnaval no Brasil saltam borbulhanças mil quanto ao que é ou não é carnaval original. A força mais próxima a Dionísio e seu Sátiro com suas vibrações plásticas/motoras/sonoras.

Uns dizem que carnaval mesmo é samba. Outros que é frevo. Outros que é axé. Outros que são Marchinhas. Outros, maracatu. Opiniões sempre com lastros ditas de bom gosto e inteligência, ou não. No caso das marchinhas, seus defensores se consideram mais inteligentes que outras opiniões, algumas até consideradas, por estes, de baixo valor, coisa da ralé. Entretanto, estes ‘marcheiros’, quando opinam opiniaticamente, não percebem e nem entendem que, embora as marchinhas tenham se mantido como signo de um tipo de carnaval, elas são de proveniência unilateral. São produtos exclusivos das enunciações da classe média urbana. A classe detentora da informação definidora de comportamento burguês, um ponto que coloca em suspeição a inteligência e bom gosto destes ‘marcheiros” classistas.

Mas as marchinhas mesmo, com seus pruridos burgueses, nos permitem alguns balançados graciosos que provavelmente seus ‘marcheiros’ não “bodejariam’ tal suas notinhas quase sempre, sutilmente, preconceituosas e discriminadoras dissimuladas como humor da época. Para outros opinantes, pseudo humor, e com patético intelectualismo. Tomemos três marchinhas, e vejamos se estes têm razão, ou não com suas notinhas.

NOTINHAS

Primeira Marchinha e a Notinha Cabeleira do Zezé, de Roberto Faissal e João Roberto Kelly.

Olha a cabeleira do Zezé

Será que ele é? Será que ele é?”

Para seus examinadores, um claro preconceito homofóbico de João Roberto Kelly que, segundo conta a lenda urbana carnavalesca, escreveu para se vingar de um garçom que tirara uma graça com sua mulher. Uma espécie de tentativa de sublimação da insegurança sexual de Kelly.

Segunda Marchinha e a Notinha O Teu Cabelo Não Nega, de João Valença, Lamartine Babo e Raul Valença.

O teu cabelo não nega mulata

Porque és mulata na cor

Mas como a cor não pega mulata

Mulata eu quero o teu amor”

O adversários examinando, pela ótica da discriminação racial, perguntam: “E se a cor pegasse? Os tais ainda queriam seu amor?”

Terceira Marchinha e a Notinha Maria Candelária, de Klécius Caldas e Armando Cavalcante.

Maria Candelária

É alta funcionária

Desceu de para-queda

Caiu na letra O,O,O,O,O”

Aqui os adversários aplaudem os compositores. Examinam os privilégios concedidos pelos governantes aos seus apaniguados que os faziam funcionários públicos, verdadeiros barnabés da inutilidade pública, caindo de para-queda em seus cargos sem qualquer concurso. Hoje, privilégio conhecido por “entrar pela janela”. Funcionários cabos-eleitorais, que garantem as eleições de seus indicadores. Apesar de saltar um preconceito com cheiro de “mulher burra”, a tal da Candelária, que não queria nada com o trabalho, só com a futilidade. Finalizam os compositores: “Que grande vigarista que ela é”.


USAR O CONTROLE REMOTO É UM ATO DEMOCRÁTICO!

EXPERIMENTE CONTRA A TV GLOBO! Você sabe que um canal de televisão não é uma empresa privada. É uma concessão pública concedida pelo governo federal com tempo determinado de uso. Como meio de comunicação, em uma democracia, tem como compromisso estimular a educação, as artes e o entretenimento como seu conteúdo. O que o torna socialmente um serviço público e eticamente uma disciplina cívica. Sendo assim, é um forte instrumento de realização continua da democracia. Mas nem todo canal de televisão tem esse sentido democrático da comunicação. A TV Globo (TVG), por exemplo. Ela, além de manter um monopólio midiático no Brasil, e abocanhar a maior fatia da publicidade oficial, conspira perigosamente contra a democracia, principalmente, tentando atingir maleficamente os governos populares. Notadamente em seu JN. Isso tudo, amparada por uma grade de programação que é um verdadeiro atentado as faculdades sensorial e cognitiva dos telespectadores. Para quem duvida, basta apenas observar a sua maldição dos três Fs dominical: Futebol, Faustão e Fantástico. Um escravagismo-televisivo- depressivo que só é tratado com o controle remoto transfigurador. Se você conhece essa proposição-comunicacional desdobre-a com outros. Porque mudanças só ocorrem como potência coletiva, como disse o filósofo Spinoza.

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VIRTUALIZAÇÕES DESEJANTES DA AFIN

Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

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