Archive for the 'Candomblé' Category



TOQUE PRA OGUM BEIRA-MAR NO TERREIRO DO PAI JOEL

Clique nas fotos para ampliá-las!

E novamente o terreiro de Pai Joel estava arrumado para mais um toque pra senhor Ogum Beira-Mar, o guerreiro, o abridor de caminhos. Enquanto os rapazes esquentavam os tambores, Pai Joel e Pai Francisco nos falaram sobre várias questões envolvendo as religiões afro, que estão distribuídas adiante. Começando com Pai Joel, a respeito desse toque, ocorrido no sábado passado.

Hoje vai ser um toque em louvor a Ogum Beira-Mar, que é o meu orixá da frente dessa casa, que vem sempre me proporcionando muitas coisas boas nesse ano. E há de se louvar ele no dia dele. Foi arriada obrigação agora no dia 23, que é o dia dele, com a presença de Pai Francisco, que é o meu pai de santo, que eu passei pra linha dele agora. Eu vim do Candomblé, e agora estou passando, já estou no fundamento dele. Vamos fazer um toque simples, humildemente, como a Umbanda, a Umolocô é, para as pessoas daqui de casa e outras próximas daqui.

Pai Francisco, então, falou sobre algumas especificidades de Ogum e das relações das religiões afro-brasileiras.

Esse toque pra Ogum Beira-Mar, que reina nas águas, é também pra todos os oguns, Ogum de Ronda, Ogum Humaitá, Ogum Sete Ondas. O toque é pra Ogum Beira-Mar, mas ele não vai virar; quem vai virar é o escravo que responde a ele. Seu Ogum só vira quando se vai fazer um bori, a saída do filho de santo. A gente aqui vai louvar a ele, e quem vem é a entidade que presta serviço a ele. É diferente do Candomblé, mas é o mesmo Ogum, só o que muda pra Umbanda são as catulações. No Candomblé ele já vai virar diferente, porque é uma nação. Mas onde tem Umbanda tem Ogum, porque ele é caminho, é ele que abre os caminhos. Todas as entidades tratam as pessoas muito bem, elas são do além, elas vêm pra suprir as necessidades do ser humano aqui na terra tá com maldição, tá com problema. Elas vêm trazer um pouco de alegria, tirando o peso de cima das pessoas. E é como Joel disse, ele passou pra minha linha, onde é tudo bonito, tudo formoso. A gente tá lutando pra ver se endireita as linhas, porque as linhas estão muito cruzadas, pra ver se as pessoas acreditam mais na nossa Umbanda. A nossa Umbanda está muito desacreditada por causa das pessoas que passam trote, enganam. Eu não aceito essas coisas, porque o santo é verdadeiro.

O senhor Cardoso, com seu vozeirão, falou, então ao público presente, puxando um Pai Nosso, para começar o toque.

Muito boa noite a todos. Peço primeiramente que todos nós façamos uma reflexão sobre tudo aquilo que nós passamos no dia-a-dia, as nossas atitudes, certo ou errado, que possamos fazer um exame de consciência, procurando corrigir, agindo melhor em todas as circunstâncias, para que nós possamos evoluir, aperfeiçoando-se numa harmonia em qualquer lugar que nós formos.

Caboca Brava Caboca Ita

Dando continuidade à conversa com Pai Joel, ele falou também sobre os trabalhos realizados por senhor Ogum Beira-Mar.

Seu Beira-Mar, ele tem estrada, ele é caminho, abertura de caminho. As pessoas que têm os caminhos presos, que não prosperam, Ogum está aí pra responder, pra abrir os caminhos e não deixar nenhum filho desesperado, não. Ele veio aqui pra terra por tudo isso aí. Ele veio abrir os caminhos de todos os filhos dele, com muita fé, com carinho, com toda a força que a Umbanda tem, e todas as outras linhas também, acima de tudo Deus e a nossa fé em conseguir prosperar com a vida. Eu estou engatinhando ainda, e pretendo melhorar cada vez mais com a energia que a Umbanda tem.

Caboca Jacira

E olha quem é o escravo de Ogum que viraria, conforme Pai Francisco falou, nada menos do que o alegre e festeiro Zé Malandro, que este bloguinho já conhece da festa passada no terreiro de Pai Joel.

Dona Mariana

Depois, Pai Joel passou a analisar e sugerir propostas para organização para que as religiões afro venham, na prática, a participar como religiões autênticas, uma vez que existe a liberdade religiosa e a pluralidade cultural garantidas constitucionalmente.

Mas não só eu, mas todo o pessoal, organizar mais a federação, procurar visitar os barracões. Quanto mais a gente se unir, mais as coisas vão dar certo, o próprio governo vai ter de dar uma orientação boa no respeito à religião. Aqui em Manaus você é discriminado, muito discriminado. A gente respeita todos, católicos, os evangélicos, eles também têm de respeitar a gente. Nós somos seres humanos igual a eles, somos diferentes apenas pela opção da nossa religião. A federação tem de agir nisso: o que tá errado? O que a federação pode fazer pra melhorar? Tem outros estados onde tem curso de fundamentos, como no Maranhão, Piauí, tem escolas de Umbanda no Rio de Janeiro, escolas de Candomblé, cursos sobre a língua yorubá, sobre folhas, pra ti aprender as qualidades de folhas. É uma faculdade, para as pessoas terem uma melhor formação, está faltando em Manaus uma escola tanto para o Candomblé quanto para a Umbanda. Até mesmo para se defender. Vem os evangélicos e, para ofender, chamam a gente de “macumbeiro”. Você sabe o que é macumba. “Venha cá, você sabe o que é ‘macumba’?” Ele não conhece, parece que eles chegam na igreja, dão uma lavagem cerebral neles, aí saem querendo ofender as crenças dos outros. Como é tudo desorganizado, cada um por si, vem gente, como aquela mulher que deu um golpe de quase um milhão, que saiu na televisão, aí a religião fica desacreditada. A gente tem que se reunir, se organizar mais — federação, terreiro; terreiro, federação — pra poder evoluir numa corrente só.

UM XIRÊ NO ILÉ AŞÉ DO PAI FRANK DE OBALUAÊ

Clique nas fotos para ampliá-las!

No sábado passado, as folhas de acocô estavam no centro do barracão de Pai Frank de Obaluaê, situado à rua 26, n°66 II etapa do São José II, para a saída do yaô Adriano da Oxum e a obrigação do ogan Gladison de Obaluaê.

O convidado para puxar o xirê foi nada menos do que o renomado Pai Ribamar de Xangô, do centenário Seringal Mirim, o qual, com seus conhecimentos, é sempre impecável nas rezas e danças para louvação dos orixás.

Nos aproximamos de Pai Ribamar para perguntar sobre o Seringal Mirim, pois ouvimos falar que fora tombado como patrimônio histórico, o que já conversamos na entrevista que publicamos aqui no bloguinho, haja vista a importância histórica desse barracão. Infelizmente ele não confirmou, e ainda acrescentou o que todos os adeptos e simpatizantes das religiões afro-brasileiras sabem: que um preconceito muito grande para com estas religiões. Pai Ribamar nos falou que vai construindo como pode, praticamente sozinho, e que estaremos convidados para a reinauguração da casa, assim que estiver pronta. Com certeza estaremos lá!

E logo vieram as quatro saídas do Dofono de Oxum Adriano. A primeira, a saída de Oxalá:

A segunda, a saída de ocodidé:

A terceira, a saída do oruncó, o nome, o nascimento do orixá. Para padrinho de santo Pai Frank convidou seu sobrinho de santo, Fábio de Oxalufan:

E a quarta, a saída de luxo, quando o orixá sai para dançar no salão, com suas roupas e suas paramentas:

Juntamente com Oxum saiu Logun Edé. Pai Frank é quem explicou-nos que esta saída ocorre porque Logun é filho de Oxum. Quem saiu foi seu neto de santo, André de Logun Edé, que é filho do babalorixá Bosco.

Em seguida baixaram Obaluaê e Ogun respectivamente em Pai Frank e Pai Bosco. Pai Bosco veio trazer o ogan Gladison de Ogun, para pagar as obrigações dele de um ano.

Quando Obaluaê já chegava na Terra, segundo a explicação de Pai Frank, saiu Jonas de Oxumaré com o deliciosíssimo lelê, a comida sagrada dele; mas depois retornou ao quarto de santo pra poder Obaluaê sair com Ogan e Ogun.

Depois que Obaluaê já havia dançado e comido, ele trouxe Oxumaré novamente para o salão.

E Obaluaê ainda voltou no final para suspender a ekédi Wilmara de Iansã.

Para confirmar o preconceito e a perseguição que as religiões afro sofrem, talvez impressionado com o vigor da música dos atabaques, as rezas autênticas do Candomblé da casa de Pai Frank, ainda apareceu um rapaz de uma denominação cristã para distribuir um panfleto e tentar provocar os presentes, mas saiu mais que apressado frente aos argumentos de Pai Gilmar.

Mas a festa continuou bela e calorosa no culto aos orixás. E finalmente saiu Oxalufan, completando o magnífico xirê na casa de Pai Frank de Obaluaê.

Ao final Pai Frank conversou conosco, falou da festa e da forma como sente e vivencia o Candomblé e sobre o ocorrido com o rapaz pentecostal:

Sempre ocorre isso, até porque a minha casa está situada no meio deles, atrás, na frente, de um lado e do outro, todos são evangélicos. A casa já recebeu ataques, como pedradas, já foi denunciada na Sedema, já vieram até fiscais aqui querendo levar os atabaques, mas não pode levar. Nós somos respaldados pela Constituição. Nós somo livres, estamos num país livre. A maioria dos barracões sofre ataque dos evangélicos. Mas, independente disso, a gente vive em função do santo, a gente não pode deixar cair a bandeira dos orixás. Eles não entendem que os orixás são partículas de Deus. Eles querem monopolizar a palavra de Deus. Eu digo sempre pros meus filhos que o Candomblé e as outras religiões são os braços dos rios. Eu não acredito que Deus seja egoísta. Eu comparo Deus ao mar. Por que ao mar? Porque ele abrange todo o planeta, de lugar pra lugar ele muda de nome, mas é uma água só, e todos os rios correm para o mar. Eu comparo os rios às religiões e Deus, ao mar, todas as religiões que estão realmente vinculadas a um culto de amor porque o culto dos orixás é um culto de amor, principalmente a Natureza. Então, todos os rios correm para o mar. Só que os evangélicos não entendem isso, eles não entendem que Deus não seria egoísta de deixar um só caminho pra tanta gente no mundo todo. Ele deixou vários caminhos para chegar a Ele, porque Ele é um Deus de amor. E o Deus deles é o mesmo nosso Deus aqui, só que a gente muda de nome porque nós somos afro-descendentes. O nosso Olorun é o mesmo Deus dos católicos, o Jeová dos evangélicos. Tudo acaba sendo uma coisa só. Entenderam?

A FESTA DOS ORIXÁS NO ILÉ AŞÉ DO PAI GEOVAŅO DE AJAGÙNNỌN

Aconteceu no sábado passado, 05 de abril de 2008, no barracão de Pai Geovano, uma das mais belas festas públicas de Candomblé já realizadas em Manaus. É a “Festa dos Orixás”, na qual todos os orixás vestem suas roupas no salão, usam suas paramentas, dançam ao som dos atabaques, comem e compartilham com todos os presentes algumas de suas deliciosas comidas.

E Pai Geovano nos fala da importância para si, para seus filhos e para todos da comunidade do Candomblé desta festa dos orixás, uma festa que em Manaus só é realizada até então em sua casa, sendo já o quarto ano consecutivo que ela acontece.

Essa festa é uma confraternização, tanto dos terreiros que vem prestigiar a casa, como com os filhos de santo da casa, e com o próprio orixá. Uma confraternização que você faz com o seu orixá. Uma festa como essa todo mundo brinca, todo mundo louva, todo mundo veste seu orixá, todo mundo se satisfaz vendo beleza, vendo humildade, vendo prosperidade pra todo mundo. Não tem um número específico de rezas. Pra se rezar pra santo, eu tenho uma coisa comigo, conforme a empolgação, a gente canta mais. Tem santos que têm muitas rezas e tem santo que tem pouca reza, no caso de Nanã, Obá, Euá, porque o culto já está sendo esquecido no Brasil, e até mesmo na África. Então, conforme a vontade do santo e a sabedoria do Pai de Santo, toca-se até mais horas, enquanto o santo está dançando. Tem certos santos que o som é mais frenético, como Xangô, Iansã, que o povo ajuda mais a cantar, porque está acostumado a cantar, acostumado a ouvir. Canta-se mais também pra Oxalá, pra Oxum. Estes são santos que contagiam muito quando estão em terra, todo mundo quer cantar, todo mundo quer dançar. É um som muito empolgante. Logun também, apesar de ser um santo difícil, é um santo que empolga bastante pelo movimento da dança, a mesma coisa de Xangô, que é um santo muito envolvente, a gente se envolve com o ritmo, porque é um ritmo gostoso de ouvir, cantar, dançar e tudo o mais…

E vários babalorixás conhecidos e respeitados de Manaus, assim como yaôs e pessoas de outros cargos de várias casas foram convidadas e compareceram com seu axé para incorporar o orixá de suas cabeças. Aqui enumeramos com a ajuda de Pai Geovano os nomes destas pessoas, os orixás e algumas particularidades de suas comidas.

EXU

Pai Geovano explicou que a Exu dá-se de comer cedo. Na sua nação não se raspa Exu, quando aparece alguém de Exu, raspa-se pra Ogum Xoroquê, o Exu que come com Ogum, metametá, explicou.

PAI BOSCO DE OGUM

Comida votiva: pasta de feijão preto, com camarão, cebola, azeite de dendê e os temperos (limo da costa, pimenta da costa). Frutas votivas: variadas.

YAÔ JONAS DE OSSAIN

Comida votiva: pasta de amendoim com milho de galinha, fumo de rolo e batata-doce com mel. Frutas variadas.

PAI EMERSON DE OXÓSSI E YAÔ DAVID DE OXÓSSI

Comida votiva: pasta de milho vermelho (milho de galinha) com coco cortado em fatias, milho-verde cozido. Frutas variadas, menos tangerina.

YAÔ JOÃO DE OBALUAÊ

Comida votiva: pipoca estourada na areia com coco cortado em fatias ou pasta de feijão preto com camarão, cebola, azeite português.

YAÔ RAURY DE OXUMARÊ

Comida votiva: banana pacovã frita, cortada em fatias compridas ou lelê de Oxumarê (mingau de milharina ou milho com bastante coco, cravo da Índia e canela). Frutas variadas.

OSI BABÁ MORÔ AFONSO DE XANGÔ

Comida votiva: acarajé, amalá, aberém, vatapá, acassá branco. Frutas variadas.

PAI FRANK DE IANSÃ

Comida votiva: acarajé, abará, caruru, vatapá. Frutas votivas: manga-rosa e melancia.

OBÁ

Comida votiva: acarajé, abará, amalá. Frutas votivas: manga-rosa e melancia.

EUÁ

Comida votiva: banana comprida cortada em rodelas, fritas, milho de galinha cozido, batata-doce cozida, coco cozido e cortado em cubo. Depois que está tudo pronto, mistura todos esses ingredientes. Temperada com camarão, cebola e azeite português, semelhante ao pirarucu à casaca. Fruta votiva: uva verde.

YAÔ MAURÍCIO DE OXUM E YAÔ LENIRES DE OXUM

Comida votiva: molocum, ovos recheados com vatapá, ipeté, sopa de ovos com legumes, temperado com azeite português ou dendê, dependendo da qualidade da Oxum. Frutas votivas: melão amarelo, uva, maçã.

BABÁ EFUN JOSUÉ DE LOGUN E YAÔ ANDRÉ DE LOGUN

Comida votiva: mesmas comidas de Oxum. Mudam somente as frutas: melão, quiuí, uva preta e verde, maçã verde e vermelha.

PAI ALEXANDRE DE IEMANJÁ

Comida votiva: manjá com mamão papaya, acassá branco, ovos cozido. Frutas variadas, menos melão, melancia e abacaxi.

YAÔ PATRÍCIA DE NANÃ

Comida votiva: efó; pasta de feijão preto, cebola, limo da costa e camarão. Fruta: melão roxo.

PAI GEOVANO DE OXAGUIÃ

Comida votiva: pasta de inhame temperado com camarão e azeite português ou somente com mel de abelha; ovos branco cozido; acassá branco; melão com casca, com açúcar, inhame cozido inteiro. Frutas: maçã verde, quiuí, banana com a casca verde.

YAÔ EWERTON DE OXALUFAN

Comida votiva: canjica de milho branco, ovos cozido, manjá, pescada frita em azeite português, acompanhado com farofa de farinha branca com camarão e cebola.

Bebida de todos os santos: aluá, suco de milho torrado com gengibre e açúcar queimado, tudo em efusão de três a quatro dias. Pode se feito também de abacaxi, tanto os dois misturados quanto separados.

EKÉDIS SUSPENSAS

Houve ainda duas ekédis suspensas, Dayse de Iemanjá e Cris, que já participam do barracão de Pai Geovano e agora vão dando os passos necessários para adentrar na religião do Candomblé.

Perguntamos ainda a Pai Geovano sobre estas especialidades culinárias concernentes a um barracão, se há alguém que se especializa em preparar todas estas saborosíssimas comidas:

Tem sim. É um cargo que há dentro do barracão, mas todo mundo que faz parte da religião deveria saber, tem que saber, porque um dia ela vai precisar dessa sabedoria pra arrear comida pra santo, pra ajudar alguém. Então, todas as pessoas, do abiã ao Pai de Santo, dentro do axé tem de saber todas estas e mais ainda, porque estas são apenas o básico do básico. Metade dos ingredientes, dos temperos, como o limo da costa, a banha do ori, o efun, tudo tem que ser africano, porque não serve a pemba, que a gente usa pra riscar, mas não serve, porque já é um outro tipo, não é igual. Hoje vende nas lojas especializadas, nas cabanas, é um pouco caro, mas a gente encontra. Antigamente era pior, a gente não encontrava nada disto. A gente tinha que fazer muitas coisas sem os ingredientes necessários, porque a gente não encontrava. Hoje em dia, é um pouco caro, mas pelo menos a gente encontra. O importante é isso: encontrar.

CONVITE CADOMBLEZÍSTICO

.“Festa dos Orixás”.

.no Ilé Aşé do Pai Geovaņo de Ajagùnnọn.

Atenção comunidade do Candomblé, Umbanda, Umolocô, Mina Nagô, cultuadores e simpatizantes das religiões afro-brasileiras de Manaus, do Brasil e do Mundo, Pai Geovaņo de Ajagùnnọn e seu Ilé convidam todos para participar da Festa dos Orixás. Para quem já participou ou conhece aqui pelo bloguinho intempestivo a beleza das festas públicas das religiões afro, esta com certeza será uma festa de beleza indescritível, na qual serão tocadas as rezas de todos os orixás, que vestirão a sua roupa no salão e comerão sua comida. Com a presença de vários babalorixás conhecidos e respeitados em todo o país. Imperdível! Compareça com seu axé e receba as bênçãos de todos os orixás.

Local: Rua Belforroxo, s/n — Jorge Teixeira IV (Manaus-AM).

Data: Amanhã, sábado, 05 de abril de 2008.

Horário: a partir das 18h.

Contato: 3682-5727 //3638-7472 //8111-5335

SEU ZÉ MALANDRO NO TERREIRO DO PAI JOEL

Zé Malandro veio ao mundo

Veio cumprir sua missão

Ajudar a quem precisa

E tirar sua aflição”
Clique nas imagens para ampliá-las!

Atenção malandragem, mulherada, jogadores, trabalhadores, todos que sofrem com a miséria, o preconceito racista e sexual, que sofrem com a intolerância religiosa, todos os excluídos da história oficial brasileira, adeptos e simpatizantes das religiões afro-brasileiras, Pai Joel e família, Dona Joana, sua esposa, e todos os filhos receberam afetuosamente todos os convidados que foram à sua casa no último sábado, 29 de março, lá na rua São Marçal, n° 619 Cidade de Deus, zona Leste de Manaus. E a alegria tomou conta do terreiro, porque baixou Zé Malandro, que veio pra conversar, cantar, jogar, beber, fumar, dançar e abençoar todos que se comprazem na sua presença.

E é Pai Joel que nos fala de sua história nas religiões afro e de seu Zé Malandro, o mestre da casa:

Eu sou Pai Joel de Ogum. Eu sou do Rio de Janeiro, mas estou aqui trabalhando em Manaus desde 2002. Eu trabalho na Umolocô, na Umbanda e um pouco na Mina, e cultuo um pouco do Candomblé, porque fui feito no Candomblé. Todos somos irmãos, irmãos de axé, irmãos de cabeça. Hoje é a festa do mestre da casa, seu Zé Malandro. O nome dele é seu José dos Anjos, nascido em 1843, e ele tem trazido muitas coisas boas pra mim aqui em Manaus. Aqui em Manaus, que eu saiba, quem cultua Zé Malandro sou só eu. Confundem muito, achando que ele é Exu, mas ele não é. Ele é um mestre. Ele trabalha muito bem no catimbó, no feitiço. Ele vem nas quatro linhas: tanto na linha das Almas, na linha dos Pretos-Velhos, na linha de Caboco, na linha de Exu. Ele é o irmão mais velho de Zé Pilintra. Faz parte da falange dos malandros, assim como seu Sibamba, Zé do Coco, Zé Pretinho e muitos outros; mas assim nas quatro linhas só seu Zé Malandro, Zé Pilintra e seu Sibamba também podem vir. Seu Zé Malandro é um mestre de Aruanda. Ele era um trabalhador, só que ele foi um rei da boemia, da malandragem, muito mulherengo. Ele saiu de Pernambuco fugido, foi pro Rio de Janeiro, reinou no Rio, nos morros. A linha que eu trabalho é essa do Zé Malandro do Morro, porque existem outras duas linhas: o Zé Malandro da Maloca e o Zé Malandro da Lapa também. Praticamente seu Zé Malandro é o mesmo Zé Pilintra, são irmãos, só que enquanto seu Zé Pilintra era um boêmio da Lapa, seu Zé Malandro era mais do morro…

Mas o terreiro já estava repleto de convidados, e eis que Pai Francisco, pai de Pai Joel, já convidava a todos os pais e mães de santo presentes, os cultuadores da religião e os simpatizantes para participar da festa que se inicia.

Eu quero que todos vocês fiquem à vontade, com senhor Oxóssi, com senhor Ogum, todos os orixás, todas as entidades, vamos fazer uma coisa bonita, uma festa formosa. Quem quiser falar, quem quiser se manifestar, pode ficar à vontade, pode cantar. Eu agradeço de coração.

Dona Joana também falou da sua história ao lado de Pai Joel na construção e luta para realizar o trabalho que hoje se concretiza:

Boa noite a todos que estão aqui. A história que se realiza aqui hoje é uma história muito bonita, que começou há sete anos atrás, na primeira festa de seu Zé Malandro, quando era só nós dois, mas a oferenda que nós fizemos foi uma coisa tão bonita, e hoje eu fico feliz com o crescimento dessa festa, com todos vocês aqui. Muito obrigada!

Um dos mais velhos filhos de Pai Joel, fez as honras em respeito e amizade a todos que compareceram:

Quero agradecer a Deus neste exato momento, e agradecer também a presença de todos aqui, que o Senhor permitiu, queremos agradecer a tudo de bom que você nos deu, pela luz de nossos olhos, pela inteligência que temos, e te pedimos, humildemente, que nos conserve na paz, na tranqüilidade, na tolerância. Senhor, Deus Pai, muito obrigado!

Então soaram ininterruptos os atabaques e o xeco-xeco de Dona Josefa, que diz que não é da Umbanda, mas gosta de tocar, cantar e dançar, e segura o ritmo, agitando a festa desde a hora que se inicia até o dia clarear.

Seu Zé Malandro quando vem

Vem trazendo toda a magia

Para saldar todos os seus filhos

E retirar feitiçaria

Ô, pisa na Aruanda

Zé Malandro eu quero ver”


Seu Ubiratã                               João Légua de Mojubiá

E é nesse ritual de crença e amizade que a festa segue enquanto as entidades, seguindo seu Zé Malandro, vão uma a uma tomando conta do terreiro, com seus pontos e seus movimentos bonitos e desconcertantes, mandando para longe todos os males e trazendo a alegria da celebração comunitária. com toda a autenticidade das religiões afro-brasileiras.

Dona Mariana
Seu Mineiro                                         Zé Vaqueiro
Caboca Caetana

Outros babalorixás convidados, entraram na comunhão de partilhar seu canto no terreiro de Pai joel e preencheram-no com seu axé.

Pai Geovaņo de Ajagùnnọn

Para quem precisar dos serviços de Pai Joel, ele atende todos os dias, a partir das 17h, na sua casa, cujo endereço está no início deste post, o telefone é 9155-3632. Uma vez por mês há também uma sessão de descarrego como caridade da casa, com Preto-Velho. Ele explica:

Porque a gente não faz trabalho só para ganhar prosperidade, mas pra ajudar as pessoas principalmente. Ajudar as pessoas carentes, não deixar elas abandonadas.

    Marinheiro Daniel                                 Caboca Jacira

Com certeza seu Zé Malandro ficou contente e distribuiu suas bênçãos a todos. Porque o som dos atabaques, os pontos cantados, os movimentos dos pais, filhos, e convidados entraram na harmonia e vivacidade das religiões afro-brasileiras, das raízes nossa autêntica cultura. E assim continuou depois do dia raiar…

Tereza Légua                                                           

Tava sentado no muro

Fumando bagulho, a polícia chegou

Joguei o bagulho pro lado

Saí no Pinote, ninguém me pegou

Houve tiroteio, houve confusão

Bateu na porta, o camburão.”

O TESTAMENTO DE JUDAS

Para brotar uma afecção alegre, como pede a Páscoa verdadeiramente cristã, e o momento maravilhosos que vive agora o povo brasileiro, quero começar o testamento cantando uma homenagem feita a alguns anos para mim, na voz do criador do samba de breque, o Morengueira: Moreira da Silva, o bom malandro. Canto sem ressentimento, só para ligar seu texto com algumas atitudes de certos homens hoje em dia. Segura, meu povo!

Eu, imitando Morengueira:

A Judas eu estou me referindo.
O homem que a história condenou.
O qual depois de me abraçar sorrindo,
Muito sério para mim assim falou.”

Eu mesmo me imitando:

Eu traí a um só amigo e enforquei.
Mostrei ao mundo ser um homem de valor.
Errar é humano, e eu errei.
E só por isso me chamam de traidor.
Mas eu vejo a toda hora e a cada instante,
Os senhores que aí estão a me acusar,
Traindo e vendendo o semelhante
E a Dona História não vê isso pra contar.”

Valeu! Massa!

O TESTAMENTO

Ao meu amigo Lula
Presidente operário
Deixo como lembrança
Seu povo revolucionário.
Ao vaidoso Fernando Henrique
O “príncipe” do Farol da Alexandria
Deixo-lhe as lições de Lula
Como Produzir Democracia”.
Ao senador Arthur‘5,5%’Neto
Dublê de parlamentar
Deixo o Bolsa Família
Para poder se formar.
Ao sapeca senador
Dos Maia o Agripino
Deixo-lhe calças compridas
Para trocar com a de menino.
Para o lustroso ACMzinho
Do vovô o avoado
Deixo-lhe um atabaque
Para esquecer o deputado.
Para Ivete Sangalo
A rebelde musa do ‘Cansei’
Deixo-lhe os embalos dos ritos
Da ordem da Opus Dei.
Para o Arnaldo Jabor
O possesso da fala oca
Deixo-lhe a maracujina
A vela, a cama e a touca.
Ao encruado Jô Soares
Que não se acanha de fazer bico
Deixo como lembrança
Um babador, um maracá e um pipo.
Ao meu amigo Paulo Henrique
Cujo Henrique Fernando não lista
Deixo-lhe um novo Blog
Terror da imprensa golpista.
Ao amigo Mino Carta
Jornalista que a pena não nega
Deixo as obras de Mollière
E minha envelhecida adega.
À Agência Carta Maior
Cujos textos o jornalismo ergue
Deixo como lembrança
A Imprensa de Gutemberg.
À meiga Dilma Roussef
Ministra do olhar consciente
Deixo os eleitores de Lula
Para lhe fazer presidente.
À minha amiga Ana Carepa
Governadora da terra do açaí
Deixo minhas receitas de tacacá,
Maniçoba e pato no tucupi.
À suave Marina Silva
A Minerva do Meio-Ambiente
Deixo meu Tratado Ecológico
Que impede que a Terra esquente.
À dupla PSDB-PFL
Herdeira da UDN
Deixo o purgatório
Para que sua alma pene.
A tramadora Rede Globo
Que do golpe não arreda
Deixo o Prêmio Lesa-Pátria:
Conspirador Carlos Lacerda”.
Ao jornal Folha de São Paulo
Que quer Serra na presidência
Deixo o Manual de Redação:
Como Curar a Demência.”
Para a lastimável Veja
Que na falência solta seus ais
Deixo uma passagem
Ao Reino do Nunca Mais.
Ao jornal Estadão
Assumido reacionário
Deixo a chave do cofre
Da herança do otário.
À obnubilada Época
Siamesa da revista Caras
Deixo o Museu do Horror
Da Imprensa Pautada nas Taras.
Para a mídia seqüelada
Reduto de triste paixão
Deixo uma caixa de Prozac
Pra suportar a depressão.
Ao meu amigo Sivuca:
Sem Mídias” blogueiros
Deixo a Rede da Net
Para delatar trapaceiros.
Ao meu amigo Nassif
Por Mainardi invejado
Deixo meu bandolim
Para afogar a inveja num fado.
À Pasionaria Selênia
Blogueira dos alegros poéticos
Deixo minha coleção de Spinoza
Filósofo dos Afetos Éticos.
Ao bravo Carlinhos Medeiros
Como Lula um nordestino
Deixo além da cachaça
Meu gibão e o punhal de ouro fino.
Ao meu amigo Morcego Vermelho
Que é Morcego; mas não, chupão
Deixo meu Manto Escarlate
Tecido com o amor de um irmão.
Ao amigo Prática Radical
Vitrine das notas libertadoras
Deixo notícias inéditas
Colhidas das direitas opressoras.
Ao meu amigo Azenha
Jornalista que não escamoteia
Deixo o meu microscópio
Para ver onde a Globo faz teia.
Ao Tem (Quase) de Tudo
Blog de contos e poemas
Deixo a estátua de Apolo
Pois a vida exige destes temas.
Ao Portal do Envelhecimento
A vida presente e não futuro
Deixo a alegria e as delícias
Do Jardim de Epicuro.
Ao amigo Periferia do Império
Que vê o que o Império faz
Deixo o livro, além de Pilatos:
O Ideário de Barrabás”.
Para os manos do Hip-Hop
Que abalam o sistema
Com o som e com o corpo
Eu deixo este poema.
Aos demagogos de Manaus
Que ambicionam a prefeitura
Deixo o desprezo do povo
Para acabar com a loucura.
À classe artística de Manaus
Sabujo da classe governante
Deixo uma equipe de cirurgiões
Para realizar um transplante.
À esquerda eufemística de Manaus
Que chama de aliança submissão
Deixo todos os batons roxos
Para beijar o patrão.
Para o prefeito Serafim
Que a reeleição quer tentar
Deixo antecipadas condolências
Pela derrota que o povo vai lhe dar.
Para os eleitores manoniquins
Decepcionados com Serafim
Deixo santinhos de candidatos
Que tiveram o mesmo fim.
Para o governador Eduardo Braga
Que trata subordinado de joelho
Deixo uma foto do Amazonino
Pra não mais precisar de espelho.
Para o tostado Wilson Alecrim
Fritado na secretaria de saúde
Deixo uma lápide de madeira roída
Pra enfeitar seu ataúde.
Ao PTista “Oh, My Darling” Sinésio
Que se diz o maior dos campeões
Deixo meu título e meu voto
A presidente do Sindicato dos Bufões.
Para os amigos grevistas da saúde
Que pelejam por melhores dias
Deixo o humor brechtiano
Para que multipliquem as alegrias.
Para o sindicalista Alberto Jorge
Psicólogo, quase padre e falso truão
Deixo títulos e diplomas inúteis
Pois destes ele faz coleção.
A minha amiga Maria Padilha
Entidade do céu e profundeza
Deixo a força da luta
Que sempre vence a tristeza.
Aos meus amigos Pais de Santo
Respeitados na Umbanda e Candomblé
Deixo as minhas terras quitadas
Para as alegres festas no ilé.
Por fim, aos que não foram agraciados
Tanto o bom como o desafeto
Peço que não fiquem frustrados
Segue Sedex direto.

Ame com a comunhão Pascal

Vibre, festeje e goze

Aproveite que o Brasil é seu aval

Ano que vem Lula aumenta a dose.

Beijos de Judas!

Leia também:

O TESTAMENTO DE JUDAS 2009

SAÍDAS DE IANSÃ E OXUM NO ILÉ AXÉ ONAN DOIÁ

Ontem, no primeiro dia de março, lá na Rua 3, São José 3, quadra 50, casa 67, Zona Leste de Manaus, o babalorixá Alexandre de Iemanjá novamente abriu as portas de sua casa Onan Doiá para receber seu ilé e todos os convidados e interessados participar da religião do Candomblé ou simplesmente para apreciar à saída de mais dois filhos que chegam para engrandecer sua casa perante à comunidade afro-brasileira sob a proteção dos orixás.

Pai Alexandre, sempre com a mesma afetividade, agradeceu a presença e distribuiu suas bênçãos aos filhos, babalorixás, convidados, simpatizantes:

É uma alegria muito grande receber pessoas que eu jamais esperaria aparecer por aqui. Na força do orixá, o Candomblé passa uma visão de paz pras pessoas que acreditam em paz. E eu fico muito feliz mesmo de ter vocês aqui na minha casa, uma casa que está começando agora. E eu fico feliz de estar tirando mais um barco, uma saída de santo, uma saída de dois yaôs. Um deles é o Tiago Dofono da Iansã, e o André de Oxum. Iansã e Oxum estão aqui e provam que nada faltou a elas, e estão muito felizes por vocês estarem prestigiando. Essa festa A festa é uma homenagem a estes orixás, aproveitando estas duas saídas, o nascimento deles dentro da religião do Candomblé. Que Iansã e Oxum tragam axé pra vida de todos vocês.

E veio a primeira saída, que é a saída pra Oxalá, todos pintadinhos, com a cabeça pintada de branco, com a folha de peregun.

A segunda saída, a saída de ocodidé, todo yaô deve usar o ocodidé, porque senão aos olhos de Olorum ele não é visto como yaô, é como se não tivesse sido feito no santo, explicou o babalorixá.

E houve ainda três ogans que foram “suspensos”, que mostram como as pessoas admiram, se aproximam e como resolvem entrar efetivamente no Candomblé, uma das poucas religiões que não fazem pressão ou chantagens emocionais para conseguir adeptos:

São pessoas escolhidas e apontadas pelo orixá, foram suspensos três ogans hoje, dois do Pai Bosco e um daqui de casa. Futuramente eles podem ser iniciados, é o nosso orixá, o orixá do pai de santo que traz eles na sala. São pessoas que já estão se preparando na casa de santo. Estão andando a muito tempo, queriam participar, conhecer, aí gostaram da religião, querem se aprofundar, depois chegam com o pai de santo e dizem: “Pai, acho que eu estou preparado”. Então o orixá vem e aponta a pessoa, se ele quiser. O orixá é que manda na gente, mas são seres tão iluminados… A gente pode até dizer: “Eles mandam na gente”; mas pra gente é uma coisa boa, porque o orixá faz muita coisa boa na nossa vida. Ele muda muito as pessoas. As pessoas criam amor pelo seu santo.

E, então, na terceira saída são escolhidos os padrinhos de oruncó. É a saída que o orixá nasce, dá o nome, pra todo mundo conhecer o orixá, ver que ele é, tem a escolha dos padrinhos ou madrinhas de oroncó.

Primeiro foi o respeitado Pai Jean de Xangô, padrinho de Tiago Dofono de Iansã:

Bênção aos meus mais velhos, bênção aos meus mais novos. É uma honra muito grande está aqui na casa do Pai Alexandre, um menino que a gente viu nascer dentro do orixá, fazer suas obrigações, e hoje a gente ver ele começar uma casa de Candomblé, e hoje tirando um barco de Yaô. Todos nós sabemos, como ele mesmo falou, todo sacrifício pra que a gente possa colocar o yaô na sala, o orixá nascer e trazer o seu axé, a sua força, a sua proteção, mas essa é a prova viva de que o nosso Candomblé a cada dia que passa ele tá crescendo. Em todo lugar, em toda casa, o orixá mostra a força viva dele. E a gente só tem de procurar cumprir os desígnios que Deus e o Orixá mostram pra todos nós, pra mim é uma alegria muito grande poder tirar o oruncó de minha mãe Iansã. Que minha mãe Iansã possa dar muito amor a esse menino, a essa casa, que ela cresça dentro dessa casa com muito axé. Que Iansã traga prosperidade a todos nós. Vamos dar uma voltinha pra que toda praça de Manaus saiba que a senhora é um orixá de fé, um orixá de luxo e força, que a senhora é oyá, que a senhora é mãe dos nossos filhos. Eparrêio, Oyá! Em nome de Obá, em nome de Xogum, em nome de Iemanjá, que é dona da casa, em nome de Oxaguiã, que é meu pai…

Em seguida veio o conhecido Pai Disne de Ogum, rombono do histórico e atuante na beleza da religião do Candomblé, Pai Ribamar de Xangô:

Estou aqui pra agraciar e ajudar aqui na festa. Vamos lá, hoje é o seu dia, é o dia do seu nascimento, é o dia que a senhora vai revelar sua força, todo o seu poder, tudo o que aconteceu nestes dias que a senhora passou recolhida, demonstrar pro povo que a senhora tem força, que a senhora tem axé, pra que todo mundo veja que a senhora vai gritar o seu nome, que todo esse sacrifício foi feito pra trazer mais saúde e felicidade pra senhora, pra seu pai, pra seus irmãos, pra sua casa…

E finalmente veio a quarta saída, o ápice de uma saída de yaô, e Pai Alexandre nos falou sobre algumas pequenas particularidades dos orixás presentes nestas saídas:

A quarta saída é a saída de luxo, quando o orixá sai caracterizado como ele é mesmo, com suas paramentas, a dança do orixá. Iansã dança com os elementos, você vê que ela é agitada. Já Oxum é mais delicada, mais doce. Oxum sempre foi muito vaidosa, você vê que quando ela toma o seu banho, ela põe os brincos dela, as pulseiras dela, mas o orixá está ali. Enquanto ela saiu com a abebé e o espelho na mão, Iansã saiu com a espada e o eruexum, que é aquele instrumento que ela traz pra espantar os eguns.

Ao final, Pai Alexandre, enquanto a comitiva afinada degustava a saborosíssima comida do santo, ainda deu sua preciosa atenção, falando-nos de algumas dificuldades e intolerâncias que às vezes ocorre quando se quer praticar esta religião autêntica do povo brasileiro:

Eu tive um pouco de problema com vizinhos, por isso eu procuro tocar sempre não tão tarde. Eu costumo começar 6h da tarde, 9 e meia, 10h já acabou o Candomblé, hoje que gente terminou já mais de meia noite. Eu respeito o espaço deles, mas o primeiro Candomblé que eu fiz aqui, têm uns evangélicos que jogaram sal grosso, pedra aqui em cima do barracão. Eu acho que eles pensam que assim vai acabar. Eu tava dizendo pros meninos, jogaram sal grosso, fez foi descarregar, que sal grosso é pra descarrego, limpou foi a casa do santo. Candomblé às vezes é mal falado até pelos próprios adeptos, mas é uma minoria, mas eu estou aqui, eu digo pros meninos, é por uma função, e eu espero que a função maior seja por um Candomblé de Paz.




 

!!!!! O MUNDO É GAY !!!!!

Olha, maninha, quando a gente ouve por aí a frase “O Mundo é Gay!” dita por certas e certos carinhas e carinhas, dá vontade de rir. A maior parte dos pessoais, incluindo alguns militantes do Gay Power, confunde potência com poder. O poder é o vazio, não carrega nada, é como um buraco negro que absorve as energias e as linhas-potências criadoras. Pooobre da mona que não produz, que não cria. Tadinha, presa ao status, ao stablishment do poder falo-hominista. Não consegue liberar os afetos, que transformam o corpo e produz variações contínuas no existir, indispensáveis para um viver ético-estético para além do fútil inútil. Aí, não saem do papai-mamãe da ordem normatizada.

Quando a filosofia afirma vitalisticamente que o “O Mundo é Gay!”, parte de duas linhas intensivas: uma, a do filosofante alemão Nietzsche, o bigode sexy, que mostra a falsificação do mundo, não há certezas nem verdades imutáveis, é tudo uma produção humana. O problema é quando ela se torna demasiado Humana, pois o homem é apenas uma ponte estendida entre o animal e o super-homem, o filosofante, a potência criadora de fluxos. Então, o mundo é feito por homens, pelos seres humanos e não tem nada nele que não seja humano. Outra, a flecha disparada pelo outro filosofante, luso-holandês, Espinosa, quando diz que um afeto é uma variação intensiva que modifica a potência de um corpo, sua força de existir. Afetos tristes diminuem a potência, nos tornam mais suscetíveis à imobilidade, à passividade, ao ressentimento, à dor. Afetos alegre aumentam a potência de existir, transborda o corpo e contamina o mundo, nos faz mais leves, alegres, amorosas, solidárias, ternas, bem humoradas e criativas. Ambos atualizados pelas doidas filosofantes Deleuze e Guattari na Esquizoanálise:

“Não, nós nunca vimos homossexuais”.

O homossexual que a esquizoanálise nunca viu é a identidade constituída que se quer passar por verdade, pela força fálica-hominista que pretende laminar tudo, transformando em mercadoria o corpo, o prazer, os dizeres e as expressões. Homoeróticos, uma outra forma de expressão do corpo, da sexualidade. “Os genitais são apenas uma ferramenta do sexo”, afirma o fluxo-Foucault. Para além dos clichês, ta?

Daí o mundo ser gay, pois a vida corre fora da existência, e é preciso se abrir para novas conexões, experiências e conhecimentos, fazer passar para a existência o fluxo contínuo da Vida, o Élan Vital (Bergson), como o fizeram o cinegrafista italiano Pasolini, os escritores Oscar Wilde, Jean Genet, André Breton, os pintores Francis Bacon, Monet, Van Gogh. O mundo não se limita à sexualidade selecionada, classificada e ordenada pelo falo-hominismo. Então, aproveitando os fluxos-gay que passam aqui e acolá, este Bloguinho Intempestivo atualiza esta coluna, com notícias e compreensões dentro desta ética-estética gay(=alegria), enfraquecendo os blocos rígidos do Power para deixar correr os fluxos da potência. Independente da orientação hetero, homo, pluri. Ui! Vamos lá?

Então ta combinadíssimo, todo domingaço aqui neste Bloguinho! Aí vai um aperitivo…

Φ Dizem que a Revolução Cubana perseguiu os homoeróticos. Durante anos, a política de segregação importada made in U.R.S.S. vigorou na ilha de Fidel, o que causou arrepios nos defensores dos direitos de expressão livre dos corpos. No entanto, é mais fácil Cuba modificar seu entendimento sobre os homoeróticos do que os estadunidenses, pretensos defensores da liberdade. Enquanto os ianques continuam usando todo tipo de tortura contra presos, inclusive torturas sexuais – o que mostra a redução intelectiva e o bloqueio dos movimentos livres do corpo que eles carregam – o parlamento cubano estuda a aprovação rápida de uma lei que permite a operação de mudança de sexo e a união civil, vulgo casamento, entre homoeróticos. A iniciativa é de Mariela Castro, sobrinha de Fidel e filha do atual presidente da ilha, Raúl Castro. Mariela é psicóloga e diretora do Centro Nacional de Educação Sexual. Os cubanos perceberam que a revolução não passa apenas pelo social e político, mas passa através do corpo e da relação com o si. Viva La Revolución!

Φ Até a ciência anda desmontando os clichês entranhados na sociedade, que inscrevem nos corpos uma identidade que não lhes cabe. O geneticista iraniano Karim Nayernia produziu espermatozóides a partir de células-tronco de mulheres. Com a descoberta, abrem-se diversas possibilidades, dentre elas novas terapias de fertilidade, e a possibilidade de que casais de lésbicas tenham filhos geneticamente legítimos. E agora? Até a função biológica do macho a ciência pode estar tornando obsoleta. Se isto acontecer, como fica o enunciado dogmático da igreja, que diferencia homem e mulher, e submete o sexo à lei bíblica, e transforma o corpo em simulacro? Dançou, neném! Aí, dança também a lei contra o aborto de Marcelinho Sarafim, que não quer deixar passar os fluxos sociais, já que nele estão interditados. E a vida, o que é, diga lá, meu irmão?

Φ Que o partido Republicano dos EUA é cheio de homofóbicos, não é novidade para ninguém. Um dos pré-candidatos, Mike Huckabee, afirmou recentemente que o homoerotismo é uma bestialidade. Se dissesse com a lucidez e a suavidade filosofantes, tava valendo. Como foi pela superstição e pavor ao que representa perigo à sua limitação epistemológica, torna a “verdade” tão hiperbólica que se revela ilusão. Ano passado, um senador republicano, maior opositor dos direitos dos homoeróticos no país, foi preso, oferecendo sexo oral grátis para homens bem dotados no banheiro de um aeroporto. Semana passada, outro caso de enrustimento assolou o PR ianque: Robert Somma, juiz federal do Estado de Massachussetts, indicado por Bush jr para o cargo em 2004 foi preso. Detalhe fortíssimo: bêbado, de vestido, meia-arrastão, saltos altos e bolsa feminina. Ai, que chique! Preso, mas na moda! O caso é típico resultante do estranhamento ao próprio corpo e ao sexo, que desemboca na homofobia e no moralismo hominista. Mas eles não contam nunca com o velho provérbio grego: In vino, veritas!

Φ E como os afetos tristes, que diminuem a potência de agir dos corpos e afasta a democracia da vivência do ser humano independe de orientação erótica, vai aqui uma notinha da lezeira manoniquim: estava o deputado federal Praciano (PT/AM) num programa de entrevistas (cuja apresentadora não pode entre-ver nada), e bastou o itapipoquense radicado na Manô começar a falar de sua atuação parlamentar, fiscalizando obras fantasmas pelas cidades do interior do Amazonas, licitadas e pagas pelo Governo do Estado, mas jamais construídas, como em Maués e Lábrea, pra entrevista ser logo encerrada e tão brusca e toscamente cortada que até quem não viu a entrevista percebeu, maninha! Cruuuzes! Aí alguém comentou: pode ser que a entrevista não tenha sido ao vivo, mas pré-gravada. Não importa, baby. Não elimina a censura e a submissão dos meios televisivos, impressos, radiofônicos e alguns até internéticos aos governos. Melhor faz o telespectador que não aceita a censura à inteligência que são estes programas.

Φ Last, but not least, fica aqui nesta coluna o registro da festa lindíssima que ocorreu ontem no Ilé Axé do Pai Alexandre de Iemanjá, no São José III, em Manaus. Muita alegria na festa da potência naturante do Candomblé, com saída de dois Yaôs e muito mais, e você confere em breve aqui mesmo neste Bloguinho o texto e as fotos. IM-PER-DÍ-VEL!!!

Beijucas, até a próxima, e lembrem-se, meninas/os:

FAÇA O MUNDO GAY!

FESTA DE OXÓSSI COM SAÍDA DE YAÔS NO ILÉ AXÉ ONAN DOIÁ

Foi no sábado passado, lá na Rua 3, São José 3, quadra 50, casa 67, Zona Leste de Manaus, que o babalorixá Alexandre de Iemanjá abriu as portas de sua casa Onan Doiá filhos e simpatizantes da religião do Candomblé para a Festa de Oxóssi e, aproveitando a ocasião especialíssima, também para a saída de dois novos yaôs de sua casa. Na beleza do ritual e na autenticidade da crença, a comunhão e harmonia reinaram durante toda a noite e a louvação nos cantos e danças aos orixás tomaram conta da noite…


E este bloguinho entrevistou o afetuoso Pai Alexandre de Iemanjá, que nos falou da festa e de conhecimentos da religião do Candomblé…

Eu sou o Bablorixá Alexandre de Iemanjá. Essa festa é uma homenagem a Oxóssi, que é o meio terceiro orixá, o meu terceiro santo. Eu tenho três orixás. Tem pessoas que possuem mais. Eu sempre faço todos os anos as festas dos meus santos. Hoje foi feita a festa de Oxóssi e eu acabei recolhendo duas pessoas, e acabou tendo também a saída de dois yaôs. Eu tirei um yaô de Iemanjá e outro yaô de Oxalá, que foram as primeiras saídas que tiveram.

As primeiras saídas são homenagens a Oxalá, que é a primeira saída, que sai a reza alainin. A primeira saída sai pintado de branco em homenagem a Oxalá.

A segunda, novamente trazendo o ocodidé, que todo yaô deve carregar. O yaô que não carrega o ocodidé aos olhos de Olorum não é o yaô, não se tornou yaô, não é feito yaô.


E a terceira saída é a saída onde o Orixá nasce, ele dá o nome dele, o oruncó, pelo nosso dialeto. O nosso dialeto é o iorubá. Entao na terceira saída é a saída de oruncó, eles escolhem os padrinhos de oruncó. O padrinho de Iemanjá é o ogan Jackson de Logun e a madrinha do Oxalá é a ekede Gleiciane de Oxum Pará. Os padrinhos são ogan e ekede da minha casa de santo. O nome da minha casa é Ilê Axé Onan Doiá. E os yaôs que saíram são o Júnior de Iemanjá e o Giovane de Oxalufan.


Na quarta saída é quando o santo traz a sua roupa de luz, traz a sua roupa mostrando o orixá realmente, vindo caracterizado conforme quem é o orixá, como saiu Iemanjá de verde, usando roupa verde, mas um verde claro, porque o yaô está de quelê, uma das alianças mais sagradas que o yaô tem com o orixá e usando o abebé, o espelho e a adaga que ela traz nas mãos. E o Oxalufan, que saiu com a coroa de Oxalá e o paxorô, que é o instrumento maior de Oxalá, que o Oxalá é o maior de todos os pais.

E veio o momento esperado, Pai Geovano foi chamado para trazer Oxóssi no ori de Pai Alexandre para dançar, ser louvado e distribuir as bençãos através das flores que foi presenteado e com as quais agradeceu aos filhos da casa e aos convidaddos.

As flores de Oxóssi, foram um presente que ele recebeu do pai Emerson de Odé, que trouxe um presente pra festa de Oxóssi, um buquê de flores pra sair com ele. Então o orixá recebeu o presente satisfeito, saiu na sala com o presente que recebeu. Geralmente ele distribui, é o carinho do orixá, como uma forma de gratidão para com as pessoas que se fizeram presentes. É uma forma de gesto de carinho do orixá com as pessoas.


Quando tiver festa pode vir sempre porque o candomblé é assim, é como se fosse uma igreja, a gente não pode fechar as portas da nossa casa pra ninguém. A nossa religião quer pregar na verdade a irmandade, a união. As pessoas tem que esquecer essas coisas de desunião. O orixá prega isso. O orixá é união, é a união das pessoas. Então você não pode fechar as portas da sua casa ou proibir tal pessoa de entrar. A casa é do orixá, quem manda a gente tem o negócio de dizer quem manda na minha casa sou eu é o nosso orixá, quem manda mais que a gente é o nosso orixá, o nosso santo…

 

SAÍDA DE DOIS OGANS E UMA OBÁ DE PAI EDSON DE OXALÁ

Numa comunhão candomblecista, Pai Antônio de Omolu emprestou a Pai Edson seu barracão para este realizar os rituais de saída de três filhos seus. Começamos, então, com Pai Antônio, que falou ao bloguinho de seu barracão e de sua amizade com a obrigação de Pai Edson.

Sou o babalorixá Antônio de Omolu, que leva essa casa pra frente, uma casa de raiz. Minha mãe é Francisca de Ogum, ainda é viva. É difícil a luta porque tem muito preconceito, mas o orixá dá força, dá saúde, dá paz, dá prosperidade, e por isso nós estamos tendo mais espaço na sociedade e estamos indo em frente. Hoje eu emprestei a casa. A irmandade existe pra isto. Pai Edson é um pai de santo que não é de Manaus, está se instalando em Manaus e precisa da casa, e de filhos, porque uma casa sem filhos não é uma casa…

E no início da festa conversamos ainda com o Ogan Betinho, a quem agradecemos o convite de participar e noticiar essas saídas, o qual nos relatou sobre sua história na religião e sobre os avanços dos cultos afro-brasileiros, principalmente no que diz respeito à sua difusão e diminuição do preconceito.

Eu sou ogan. Betinho de Oxalá, axogun, filho de Edelmim com Lufá de Logun Edé, iniciado há 39 anos pelo finado Djalma de Oxóssi, do Axé de Efon do Loroqué, de Salvador. Hoje meu pai não faz mais parte de Fon, é do Axé Cantuá, filho de Ebon Micidália de Iroco, uma senhora que tem 70 anos iniciada dentro da vida do Orixá. Sou iniciado na religião do Candomblé há 4 anos, mas já faço parte da Umbanda, que é minha raiz, de minha avó que é desta casa. Minha avó era a mãe pequena desta casa. E eu na barriga de minha mãe que está aqui presente, ela já dançava comigo dentro. Então eu tenho 24 anos de idade e 24 anos de religião, mas 4 iniciado no culto do Orixá pelo babalorixá Jean de Xangô, que hoje não é mais o meu pai de santo. Hoje eu sou filho de quem era meu avô. Meu avô se tornou meu pai, que é o Edelmim com Lufá de Logun Edé do Axé Cantuá.

Na verdade meu pai não é daqui. Ele é de São Paulo e montou a roça dele novamente. A roça dele foi a primeira roça de Candomblé, terreiro, de Londrina, no Paraná. O primeiro da história. Hoje ele mora em Santos, porque ele faz um programa de televisão, ele é colunista social e mora em Santos, vem a Manaus para dar a obrigação dos filhos. O nome dele é Edmilson Monteiro de Araújo, faz o programa “Bon Voyage” e o “Ed Deon e Você”.

Nós estamos usando a casa do nosso irmão babalorixá Antônio de Omolu, que é o dono da casa, emprestada até terminar a construção do barracão que já começou as obras. Essa já é a segunda festa que a gente faz aqui na casa do nosso irmão. Talvez próximas virão se tiver necessidade e o Orixá quiser. Será aqui ainda até a construção do nosso Ilê, que é a nossa casa.

O meu pai atende, com jogo de búzios, com o caboco dele. O pai Antônio atende também aqui na casa dele, é nosso irmão, uma pessoa muito respeitada na religião. Ele atende. O meu pai pequeno também, Edson de Oxalá, que eu apresentei pra vocês, com jogo de búzios, com tudo, com entidades, com Exu, com pombagira, com caboco.

Hoje é mais um dia de iniciação em nossa religião, que diga-se de passagem é muito doloroso, muito cansativo, e é muito gasto financeiro porque pra fazer uma festa dessa é muito gasto. Aqui tem no míni 3.000 de gasto em orçamento. São 19 dias de luta acordando cedo e dormindo tarde. Estão saindo hoje três iniciados que é uma yaô, a pessoa que entra em transe, incorpora o Orixá, que é Ana de Obá. O orixá dela é o terceiro, é a terceira Obá dentro de Manaus que eu tenho conhecimento.

Hoje, dentro de Manaus, com relação há 10 anos atrás já melhorou bastante, inclusive abriram-se muitas casas de Candomblé aqui dentro de Manaus. Este ano está previsto de abrirem entre 10 a 20 novas casas. Melhorou bastante, mas o respeito pela nossa religião ainda é mínimo na frente do que nós merecemos, porque somos tão dignos quanto um pastor, um padre, como um sacerdote de qualquer outra religião. Somos filhos de orixás, e nosso orixá não tem nada a ver com demônio, são as forças da natureza criadas por Deus para nos amparar nas nossas dores morais e físicas. Essa é a verdadeira essência da natureza. Cada orixá representa um elemento da natureza, com os quatro elementos que mantém o universo em equilíbrio, que são a terra, a água, o fogo e o ar.

Finalmente, conversamos com Pai Edson de Oxalá, que nos deu sua atenção e compartilha conosco seus conhecimentos da religião do Candomblé.

No momento eu não tenho barracão. Eu não sou daqui, sou de Curitiba, tem 6 anos que eu tô aqui. Eu tenho meus filhos de santo que têm barracão, então eu toco mais na casa deles. Quando tem uma obrigação ou um ato eu faço na casa deles. Pretendo abrir agora até o final do ano. Só que não é fácil, é muita burocracia, muita dor de cabeça então é super difícil a gente manter uma casa de candomblé aqui em Manaus. Uma que as pessoas tem um conceito diferente. Tem um mundo lá fora. La fora as pessoas tem a mente mais aberta, os rituais são mais diferentes. Aqui não, aqui eles fazem do jeito deles, ekes querem que faça do jeito deles não do jeito que nós fazemos la fora. As pessoas daqui não saem lá pra fora pra se aprofundar nas coisas, o que elas sabem é só da região daqui mesmo.

Saiu o yaô de Obá, saíram dois ogans, o Axogun de Oxóssi e o Alabé de Oxalá-Oxalufã. O axogun, a função dele dentro do terreiro é quando tiver matança. Ele foi preparado pra isto. O alagbê é pra tocar os couros, tocar, cantar, o yaô é pra ajudar no barracão. Porque cada um tem sua função no barracão. Tem o alagbê, tem o axogun, tem o yaô, cada pessoa tem a sua função dentro do barracão. Só os yaôs entram em transe. Por isso que a gente fala que ogan, na verdade ogan não se raspa, ele se confirma porque, já é a pessoa que nasceu predestinado pra isso. Já nasceu com esse dom, é uma pessoa que não pega santo. Então a gente só confirma essas pessoas. Yaô a gente raspa, faz aquele procedimento todinho pra poder dar iniciação. Daqui a 7 anos eu vou dar liberdade pra eles pra poder abrir a casa deles pra eles poder terem os filhos deles. Ogan já não pode fazer isso. A Obá que saiu ontem, daqui um ano tem obrigação novamente, aí tem obrigação de três anos, aí vem a obrigação de sete anos.

Porque nós cultuamos um culto afro-brasileiro, nós não fazemos igual como se faz na África. Aqui no Brasil nós não temos nem como cultuar conforme devemos cultuar. Nós todos só fazemos assim o básico. A primeira saída, que o yaô saiu todo pintado, dá paó na porta, sai com Oxum na cabeça. Aí vem a segunda saída que é pra Oxalá e pra Iemanjá. A terceira saída, que é a saída do nome, quando o orixá vai gritar o nome inteiro, pra dizer pro mundo que ele está nascendo. É por isso que se coloca umbigueira feita de palha da costa, porque o orixá está nascendo. É a única vez que ele vai gritar o nome, só quem sabe o nome do orixá, o oruncó, é o pai de santo, quando o orixá vai dizer o nome ele faz um gesto pra ninguém entender. A quarta e última saída é a saída de Ogum, que é a festa do orixá, na qual o orixá vem paramentado, pois cada orixá tem uma paramenta diferente, cada orixá dança diferente, e ele sai pra dançar, para as pessoas verem a dança do orixá.

Obá é um orixá que não tem uma orelha, porque teve um atrito e Xangô cortou a orelha da Obá. A Obá vem com uma folha na orelha e a Obá dança com uma mão na orelha, pra tampar. Isso ocorreu porque na África, cada toque é feito somente a um orixá. Então se você é de um orixá, você não pode ir à festa de outro, outra tribo. Então Obá, que era apaixonada por Xangô, só que Xangô tinha outras mulheres, tinha Oxum, Iansã. Então cortaram a orelha de Obá pra Xangô não achar ela mais linda e serviram a orelha de Obá pra Xangô.

Nós raspamos a cabeça do yaô, por causa de Oxum. Oxum foi o primeiro orixá, que ela mesma se raspou, pra se passar por homem e entrar em outra tribo, porque na África é assim: tribo da Oxum só pode entrar quem é de Oxum; se é tribo de Oxalá, só as pessoas de Oxalá. Oxum, como queria saber outras coisas de outros lugares, então ela se raspou pra se passar por homem pra poder assistir a rituais de outra tribo.

As pessoas acham que a pessoa fica recolhida, não come, não bebe, e não é nada disso. Nós recolhemos por quê? Porque antes da iniciação do orixá são feitos vários ebós, uma limpeza de corpo da pessoa. Aí a pessoa entra para o quarto de santo e fica meditando pro orixá. E por que a pessoa não sai? Porque às vezes chegam pessoas da rua, carregada, com mau-olhado, então é pra não pegar a carga negativa naquela pessoa que já está com o corpo limpo, por isso que a pessoa fica por 21 dias, mas a pessoa come normalmente, bebe, vai ao banheiro, toma banho. As únicas coisas que a pessoa não participa é televisão, rádio, que pra não tirar a concentração da pessoa ali dentro, porque ali a pessoa vai receber os ensinamentos do orixá. Nós fazemos mais quando a pessoa está de férias, quando a pessoa não está trabalhando, que é pra não prejudicar a vida lá fora dessa pessoa.

Há um preconceito muito grande com o Candomblé. Acham que mata criança, acham que Candomblé é coisa de magia e não tem nada a ver. A gente sacrifica o animal por quê? Porque o sangue pra nós é vida. É mais ou menos a mesma coisa do vinho na igreja pro padre. A carne nós comemos nas comidas preparadas pra festa…

SAÍDA DE OGAN NO NO ILÉ AŞÉ DO PAI GEOVAŅO DE AJAGÙNNỌN

O milho branco estava no meio do barracão e os alagbês soaram alegres os atabaques para receber mais um que estará ao lado deles para compor as músicas para os orixás nos próximos xirês. E foi nesse sentido que prosseguiu o ritual no ilé axé de Pai Geovano.

E chegou a hora de Pai Gilmar, Fômu de Iemanjá, tomar o adjá para que Oxaguiã trouxesse ao salão seu filho, o Ogan-Alagbê Jonas de Oxaguiã, para apresentá-lo ao público e deixar suas bênçãos aos presentes.

E logo Jonas passou ao toque dos atabaques, lugar ao qual de hoje em diante ele será visto nas festas vindouras, tocando com alegria para louvar todos os orixás.

Finalmente Oxaguiã distribuiu sua comida aos presentes, deixando para Jonas e todos as suas bênçãos de enaltecimento a essa religião de música, de rezas e de crença autêntica que é o Candomblé, que se enaltece cada vez mais a cada saída. Axé!

PUXADA PRA PAI FUGÊNCIO NO TERREIRO DO PAI FRANCISCO

Numa noite linda que tinha luar

Preto-Velho orou a Zambi pra cativeiro acabar”

Fomos na noite de quinta-feira passada para uma “puxada” para o preto-velho Pai Fugêncio, no terreiro do Pai Francisco, lá no Morro da Catita, Zona Leste de Manaus. Antes de iniciar, Pai Francisco explicou-nos o que era uma “puxada”. Pai Fugêncio baixaria, pitaria o seu cigarro, faria algum trabalho que houvesse, mas não haveria os pontos todos e a roda como ocorre num ritual de “toque”. E quando o preto-velho baixou, conversador como é, pudemos falar com ele sobre diversos assuntos, que remetem não só à religião, mas também à forma de como os negros eram violentados no Brasil e na América e das resistências e as adaptações que precisaram fazer para preservar o seu ser. Assim, juntamente com as conhecidas formações quilombolas e sua luta contra as violentações coloniais, temos as tradições culturais dos negros que perduram, apesar de, como bem observa o sábio preto-velho, o preconceito também perdurar. Mas aí vão algumas fraternas palavras de Pai Fugêncio para amolecê-las e deixar passar a liberdade, a diferença e a pluralidade…

DAS VIVÊNCIAS DO PRETO-VELHO PAI FUGÊNCIO

Meu nome é Pai Fulgêncio, um dos preto velhos mais novo que tem na Aruanda. Sou mestre de casa, mestre de corrente. Trabalho muito com os meus irmãos que são outros pretos véio. E eu tô na cabeça desse moço já faz 12 anos agora em maio. Trabaiando muito na cabeça desse moço, dando resultado nos meu trabaio e sempre tratando as pessoas, os pecadores bem. Sou humilde, gosto de conversar, dar conselho, gosto de iluminar o caminho do pecador que vem inté na casa da gente pra procurar uma luz, um caminho, uma determinação. Porque as vezes o pecador tá tão aflito, meus filho, vai em muitas casas e não tem esse afeto, não tem esse amor, a entidade não conversa, a entidade não fala nada, e nóis somo mestre. Então a minha casa é uma casa boa, é uma casa de paz, viu meus filho. Eu sou um preto velho, eu sou o mais novo da tribo dos velho, da senzala, do cativeiro, aonde nóis trabaiemo, aonde nóis apanhemo porque naquele tempo era assim. Os reis tinha muito escravos, muitos anos mil anos atrás. Então nóis trabaiava pros branco. Então eles precisavam de escravo pra trabaiá, pra botar as terras deles em funcionamento, os gados deles, as coisas deles tudinho. Então, meus filhos, nóis apanhemos muito. Nóis trabaiemo muito, nóis tinha que tocar jumento, nóis tinha que tocar vaca, era cabra, era tudo, ovelha. Nóis se levantava cedo, muito cedo. Nóis carregava de milho, de mandioca naquele tempo. O capacho do dono tava ali olhando; se num trabaiasse, apanhava. Olha só o tamanho da chibata de couro de boi, que dói, meu filho, dói muito. Então nóis semos um preto véio que sofremos, todos os preto velhos sofreram. Uns batiam muito, ficavam aleijados, outros derramavam sangue, outros quebravam braço, cuma essa preta velha que é a senhora Anastácia, que morreu amordaçada, como vocês podem ver que a boca dela tá tampada em ferro. Por que? Porque ela era contra a escravidão, era contra o que os branco fazia, o que os rei fazia com nóis. Então uma palavra que nóis dissesse lá, era tudo contra, meu filho. Ninguém tinha direito de nada, o nosso direito só era trabaiá. Cumê, cumia muito pouco.

Nosso Pai Oxalá, Deus, ele é o maior, ele é o supremo maior. Então ele já vinha habitando, já estava pra habitar. Então ele deu, ele transmitiu essa moça formosa, que é a Princesa Isabel. Ele mandou uma filha de Deus dele pra aforriá, dar a carta de aforria para nóis. Tirar nóis da escravidão, que nóis vivia, mas nóis, eu não sinto nenhum rancor, nenhum de nossos irmãos porque já foi muitos mil anos, né? Hoje nóis somos curandeiro, trabalhador, nóis cura, nóis vem na cabeça do médio pra curar, pra dar uma luz amiga pro filho, fazer santo direitinho. Então, meu filho, eu não tenho mágoa, nenhum dos preto velhos tem mágoa. Nóis se lembra. Quando a gente vê aqui na terra, no plano terreno, o pessoal se matando, é um derrubando o outro, é o outro tendo inveja porque tudo Deus deixou isso que não tivesse, mas como a carne é fraca, como o ser humano tem inveja do outro, aconteceu isso. Num era isso que Deus queria, Oxalá nosso pai, mas tá acontecendo. É gente desempregado, é gente passando fome, quantas mil pessoa num têm numa hora dessa sem comer. É muita gente, meu filho. Quantos velhinho num tão no hospitá, quantas criança já num cumeram uma hora dessa. Então tudo isso é uma coisa feia, uma coisa que dói, porque nóis temos sentimento, nóis temo alma, nóis somo alma, somo espírito. Nóis temos sentimento pelos pecador de terra.

DAS VIOLENTAÇÕES QUE PERDURAM: O PRECONCEITO RACIAL

Tem muito, muito preconceito. Num era pra ter preconceito, porque Deus quando veio ao mundo, quando veio na Terra, ele não distinguiu ninguém. Ele deixou a palavra dele clara na pedra onde ele pisou, na pedra onde ele escreveu. Só que com o passar dos anos, os tempos, os pecador já começaram a colocar outras coisas no livro, outras coisas na Bíblia que num é. Porque Deus tem muita coisa formosa, tem muita coisa que tá encoberta, que nunca foi revelado. No plano espiritual tem muita coisa que os pecadores num sabe, por isso tem muita gente que num acredita. E outras pessoas vão pela cabeça dos outros também. É muito preconceito. Hoje em dia, se o pecador é preto, ah! É porque ele é preto. Mas todo pecador tem seu valor. Pode ser preto, pode ser branco, pode ser o azul, pode ser vermelho, pode ser qualquer cor. Todos eles, todas essas sementes tem o seu valor. Agora a humanidade, as pessoas que num vê o valor em cima das pessoas, mas a pessoa tem valor em alguma coisa, ela tem coração, tem carne batendo dentro dela, não é pedra. Burro, que é burro, que é brabo a gente adestra, meu filho, por que o ser humano não pode se educar ele? Trabaia muito, mas ele vai se tocando, ele vai se firmando. Então hoje é difícil, o preconceito é muito difícil. Ah!, o fulano é isso. Aquele preto, ele não pode entrar na empresa fulano de tal porque ele tem aquela cor. Mas por que que não pode? Ele também não corre sangue nas veias dele, só por causa da cor? A cor morena, meu filho, é a cor mais segura da humanidade. A cor morena é a cor que mais custa envelhecer, é uma cor segura. Assim como você ou você tem uma cor bonita, formosa, são gente boa, gente que presta solidariedade pros outros, pros seres humanos. Quando o pecador presta essa seriedade do outro ser humano, os senhores tão fazendo coisa formosa aos olhos de Deus e Deus fica feliz com vocês e os Orixás. As entidades de vocês que vocês carregam, porque na minha frente tem dois filhos de Oxalá, um Oxalufã e um guiã, um oxalá velho e um oxalá novo. O Oxalá velho é um Oxalá muito solidário. Se ele tira a camisa do corpo é pra dá pro irmão. É muito meigo, gosta de ajudar as pessoas, não gosta de luxo, porque todo mundo tem seus gostos. Mas o Oxalá assim que é mais pra frente é o Oxalá Guiã. Filho de Oxalá Guiã gosta de festa, gosta de brincar, gosta de tá na bandaiera, porque puxou um pouco pro santo também. O Oxalá, quando ele andava no mundo, ele num só pregava não, ele brincava também, ele conversava com os discípulos. Oxalá velho não. Ele tem a qualidade do Oxalá do meu filho, é mais calmo, ele tem pena. Pecador pode tá ali enfiando a faca nele, mas ele tá com pena, mas aí Deus tá vendo né, meu filho?

DO TRABALHO ESPIRITUAL NECESSÁRIO

O meu trabalho que eu faço, meu filho, eu trabalho em todo lugar. Em todo lugar eu trabalho, eu trabalho no cemitério, no templo, cachoeira, dentro da cabeça, dentro do barracão, do templo. O único trabalho que a gente não faz muito é o trabalho pra maldade. Só se alguém mandar uma demanda pro nosso filho e nóis tem que se defender, aí nóis tem que pegar a demanda e jogar pra cima de quem mandou, porque também eu não posso ficar assim. Num tá fazendo nada, então por que que tá demandando? Então o único trabalho que nóis num faz é maldade, porque nóis tem força, tem poder pra fazer maldade. Eu faço cura, eu tiro bicho de pé, eu tiro bicho de canela, eu tiro bicho de coxa, de garganta, eu tiro bicho de toda parte do ser humano, porque eles mandam fazer feitiço pra tudo quanto é lado. Eu trabalho nessa área de tirar feitiçaria, tiro ebó de ecu. Ebó de ecu é um tipo de ebó que é só coisa ruim, é só aqueles bichão de dentro do cemitério. Porque muito bicho, muita coisa feia que quer acabar com o ser humano, que eles mandam pra fechar, pra acabar o pecador. Isso é um trabalho muito perigoso. Tiro feitiçaria, tiro ebó pra iluminar o caminho do pecador. O pecador chega com a gente: “eu tô sem trabalho”, “minha vida tá assim”. É, meu filho, então vamo vê o que que tá acontecendo. Aí eu vou ver o santo do pecador, eu vou ver quais são os oduns que regem na vida do pecador, porque o santo tem o odum negativo e se num tirá o odum negativo aquela pessoa num vai pra frente, nunca sobe. Ela pode fazer estrutura, estrutura, mas num sobe. Por quê? Porque não tiraro o odum. Então tem que tirar o odum negativo e deixar o positivo. Então nóis rezamo em criança, nóis rezamo em velhinho, nóis fazemo santo. Quando o pai de santo num qué fazer, a gente fáiz, faço cura. Todos esses trabalhos eu faço, só num faço trabalho de amor. Esse negócio de amor num é comigo. Amor é com dona Mariana, é com essas cabocas. Então trabalho de amor eu não faço, eu só faço trabalho pra cura. Gosto muito de trabaiá na cura pra ver o pecador feliz, ver o pecador bom. Olha, aqui eu já cuidei de gente que num tinha pé. Pai Fulgêncio, eu vou ficar bom? Você tem fé em Deus, meu filho? Tenho. Mas parece que num tem. Porque eu digo na cara do pecador, espírito num mente. Se Deus colocou o espírito na terra é pra falar a verdade. Assim mesmo, o pecador sem fé, sem acreditar, eu tiro o feitiço pra mostrar que o espiritismo é o espiritismo.

Eu digo, meu filho, eu vou fazer a minha parte. Vosmicê não tem fé, eu tenho fé e creio que sou um espírito e eu vou tirar isso de você. Aí, com o passar do tempo, os dias que eu vou trabalhado, o pecador começa a ter fé . Ele começa a vê que aquele trabalho está dando certo. Eles estava doente e está começando a ficar bom. Se ele estava sentindo uma dor, essa dor tá começando a sumir. Então ele vai começando a acreditar. Quando ele fica bom, ele acredita, porque tem muitos que não acreditam no espiritismo. Acham o espiritismo moda. Acham que o espiritismo é brincadeirinha. O espiritismo é uma coisa muito séria. É uma coisa que o pecador tem que entrar e saber sair. Então a pessoa nunca deve brincar com forças ocultas. Nóis tamo vendo, nóis somo isso, nóis somo essa fumaça que sai do meu cachimbo. Então muitas pessoas num acreditam e elas acabam acreditando com o trabalho que nóis tamo fazendo em cima deles. Eu trabalho há muito tempo aqui na cabeça desse meu filho e dando resultado.

DA INTRANSIGÊNCIA RELIGIOSA SEGREGADORA

Meu filho, eu não sou contra. Nenhuma entidade, nenhum espírito é contra a religião de ninguém. Quem é pastor, quem é crente, quem é irmã, quem é pastora. Nóis só lamenta e fica muito triste com as coisas que acontece. Chega um pessoal da igreja, entra, aí eles querem ver o que tem dentro da casa dos outros, num tem educação, porque a educação começa de casa. E aí quando esse pessoal chega eles começam a xingar. Ah, mas aqui é a casa do demônio! Que demônio? O senhores já viram o demônio dar alguma coisa pra alguém? Então eles se acham os salvos. Ninguém está salvo, meu filho. Pecador nenhum está salvo. Todos vão esperar a volta do homem, no dia do juízo finár. Ele vai vim e ninguém vai saber. Ele vai bater de porta em porta e quem é que vai dar um copo de água pra ele. Ele vai vim simples. E você sabe, se chegar um mendigo na casa do pecador, eles mandam logo chutar. Se chegar um barbudo velho na sua casa, quer dinheiro, manda ele pastar. É assim que eles fazem. Eles num sabem o que aquela pessoa ta passando. Às vezes é um aviso pra própria pessoa. Então isso é muito feio, isso é muito ruim. Eles xingam, eles debocham. Se o pecador pega santo na rua, eles jogam pedra. Tá fazendo uma sessão, eles atiram pedra. Então isso, meu filho, é uma coisa muito feia. Isso a gente não aceita. A gente tá indo, tentando. Nóis sempre conversa com os Orixá maior e um dia vai mudá, tá mudando, tá começando a mudar. Vai chegar um dia que os pessoal que são crente de outra religião vai ver que não é nada disso. Todos os pecador é espiritual. Claro, tem a Igreja Universár, lá dentro tem muita ovelha boa e tem muita ovelha ruim. Em todo lugar de religião tem gente boa e tem gente ruim. Tem gente que entra na religião só pra enricar. Religião não enrica ninguém. Enrica esses pecador daqui da terra que aí eles vão pra igreja e, olha eu quero 200 patacos pela fé, eu quero mil patacos pela fé. Deus não vende fé pra ninguém. Deus quer a fé própria. Ninguém compra a fé, a gente conquista a fé. Como é que um pecador pode lhe comprar? Ele não vai lhe comprar. Se você é uma pessoa de Deus, é um ser um ser humano que acredita em Deus, ele pode lhe dar milhões e você vai dizer não, primeiro meu caráter, primeiro meu nome, eu não vou me vender. Mas o que pode fazer se tem hoje em dia isso. Se o pecador vem e pega uma cuia dessa, olha, eu quero saber se tem alguma coisa de bom ou se tem alguma coisa quer comprá. Vai levar essa cuia? Num vai levar. O corpo vai pra terra e o espírito vai prum lugar onde ele vai esperar o último dia. Todos vamos ser julgados. Aí o pecador chega e ai, eu tô na igreja eu tô salvo. Não tá não. Fáiz tudo o que num presta, fala mal da vida dos outros. Você vai passando e olha, aquele preto, olha a roupa que ele veste, não tem nem coragem de comprar roupa pra ele. Mas num olha pra trás. Num olha pra trás que o rabo de palha tá pegando fogo. Aí deus castiga. O Orixá maior castiga. Aí eles bota a mão na cabeça e diz ô, meu Deus, o que foi que eu fiz? O que foi que eu fiz, sabendo o que foi que fez e ainda pergunta pra Deus o que foi que fez. O que se faz aqui na terra se paga aqui mesmo e o resto se paga no juízo final. Quem ele vai escolher pra subir com ele, as almas. É uma coisa muito feia, mas aqueles evangélicos que vem eu atendo, meu filho atende.

Aqui já veio até evangélicos ser cuidado e eu tratei muito bem. Tratei de uma evangélica que tava com um bicho na barriga e agora a moça tá bonita, tá bela, tá gorda. Ela era da finura desse bastão aqui, magrinha, magrinha porque o bicho tava dentro dela. E ela foi pro casaca branca [médico] e num dava resultado de nada. Então a moça veio porque ela quis. Consultei ela, olhei ela tudinho, dei uma olhadinha na vidência, coloquei a mão na barriga, e o bicho se mexia assim, o bicho andava. “Minha filha isso daí é um feitiço que botaram pra você, um trabaio que fizeram pra acabar com você”. “Tem jeito?”. “Tem, só num tem jeito pra morte”. E eu trabalhei pra moça e hoje a moça tá boa. Pagou meu filho direitinho, não explorei. Porque todos trabalho, meu filho, a gente tem que cobrar porque cansa muito a matéria. Nóis em cima da matéria cansa muito. Nosso trabalho é com a mente do filho. Nóis num somo cobra-reza. Se chegar um pecador, eu não tenho nada, quantas veiz eu e meu filho tirou dinheiro do bolso dele, obrigação material do bolso dele pra fazer. Muitas veiz. Passei aqui mais de três anos trabaiando de graça, fazendo caridade pra Deus ver a minha sabedoria que ele me deu e a sabedoria do meu filho, que ele aprendeu, porque ninguém nasce sabendo.

DOS MISTÉRIOS E NATUREZA DOS ORIXÁS

Então, meu filho, é isso que eu faço aqui, é doutrinando os médiuns, é fazendo o santo direitinho, é ensinando a partilha da Umbanda, que é pra aquele filho num ficar batendo cabeça de porta em porta. Então eu falo a verdade. E muitos pecadores não querem ajudar. Os pecador só querem saber da mentira. Mentira não dá camisa a ninguém, mentira só dá sofrimento, mentira só dá problema, mentira não levanta ninguém. É melhor falar a verdade que não vai ser castigado. Então é isso que eu faço aqui na minha casa. Ajudar o próximo, levantar a bandeira de Oxalá pra que nóis possa caminhar, no santo maior e dá caminho pro pecador. Nóis levantando essa bandeira branca: se Deus é por nóis, quem será contra nóis. Ninguém, meu filho, eles podem inté tentá contra vocês, contra meu filho, mas eles num consegue. E quando tiver na reta final, Oxalá dá a rasteira, porque ele é pai. Ele zela por todos filhos, ele zela pelo aleijado, pelo cego, ele zela por todos. Tudo nessa terra, ele deixou uma terra linda, inté os pássaros, os bichos de dentro da mata eles trabalham, eles caçam a própria comida deles. Eles semeiam a mata pra nascer mais árvore, pra dar mais fruto pra eles comerem. Porque se eles comerem o fruto da mara e não semear como é que eles vão viver? Num vive, porque eles vão comendo, vai acabando, vai morrendo, e aí? Então eles têm que comer, semear a mata, das semente que eles comem, daquilo que eles comem. Então vai crescendo outra mata e nunca morre, nunca vai morrer, porque são trabaiadô. Então aqui na terra o pecador destrói muito, o pecador destrói muito a natureza. O mar é bonito de se ver. Você entra dentro do mar, você se encanta. É muito mistério. É mistério dentro da mata, é mistério dentro da água, é mistério nas encruzilhadas, é mistério no templo. Tem muito mistério. O negócio é que os pecador num quer procurar, eles num querem saber. Eles só procuram quando tão com demanda, com a vida ruim, ou tão com problema, aí eles procuram. Mas num devia ser assim, mas vai fazer o quê? Então a gente deixa na mão de Deus e dos Orixás.

SAÍDA DE YAÔ NO NO ILÉ AŞÉ DO PAI GEOVAŅO DE AJAGÙNNỌN

Clique nas fotos para ampliá-las

Como sempre, o barracão muito bem preparado, e quando soaram os atabaques começou a primeira festa do ano no barracão do Pai Jeovano. Uma festa de iniciação daqueles que querem comungar na religião que é uma das religiões pertencentes à formação cultural dos negros, e que faz parte de nossas origens africanas. Pai Jeovano foi quem nos falou dessa saída e sobre as quatro partes do ritual que se sucederam:

A festa de hoje é uma saída de yaô. A primeira Dofona de Oxum; a Dofonitinha de Oxum também; a Fômu de Iemanjá; e o Dofono de Logun Edé, que nós estamos cedendo a casa pro pai de santo tirar o yaô dele. Então são dois barcos que estão saindo hoje. Um barco meu e o outro do Pai Bosco de Oxum. A festa de hoje é a saída do santo, é o início da vida religiosa da pessoa que entra pro Candomblé, pra ser sacerdote um dia, ou mesmo somente dar obrigação.

A primeira saída deles foi a saída da alá enin, na qual o yaô sai com oxu na cabeça, que significa o crescimento, a elevação do yaô, todo pintado como se fosse um picote, o símbolo maior do Candomblé.

A segunda saída foi de ocodidé, mostrando que o yaô recebeu bicho de pena, que foi feito o que devia ser feito.

A terceira saída é a saída do nome. A gente pega um dos participantes, que seja da religião, pro yaô dar o oruncó, o nome do yaô.


A quarta saída é a saída de luxo, quando o santo vem evoluir, fazer sua evolução na sala, mostrar através de danças o que ele foi, o que ele é, o que ele gosta, o que ele come, a evolução do rum, como a gente chama, a dança de luxo com a roupa de luxo…

Depois disso, eles vão passar mais três meses de obrigação, que são os preceitos que o santo exige do quelé, vão voltar à vida cotidiana, vão poder sair, mas não podem ultrapassar certas horas, todo um conjunto de restrições como ao preceito convém.

Pai João Bosco de Oxum nos falou da importância dessa saída de um yaô seu no barracão do Pai Jeovano, devido ao seu próprio barracão está em reformas:

É um yaô que está em transe com um orixá chamado Logun, que é filho de Oxum e Oxóssi. Ele se esconde nas águas de Oxum e nas matas de Oxóssi, por isso que é metade azul, metade amarelo. É considerado o príncipe da família real, Oxum é a rainha, Oxóssi o rei, e ele é o príncipe, filho da junção dos dois. É um orixá da riqueza, e também da beleza, da fartura também, por ser filho do dono da caça, do amor, da beleza e da fertilidade.

E Pai Jeovano convidou todos que comungam ou simpatizam com a religião do Candomblé para a próxima festa de seu barracão:

Sábado que vem, dia 19, a partir das 19h, vai haver a saída de um ogã, que é o iniciado pra tocar o atabaque, ou cortar bicho, ou fazer sala para os visitantes. O ogã que vai sair é alagbê, o ogã que toca atabaque, vai sair com Oxalá, que é o dono da casa. Oxalá vai tirar ele na sala e dar o nome dele na sala. Desde já, todas as pessoas estão convidadas…

End.: Rua Belforroxo, s/n – Jorge Teixeira IV

CONVERSAS DO TERREIRO DO PAI FRANCISCO

Fomos até o terreiro do Pai Francisco e enquanto caía uma chuva, com sua costumeira candura, o respeitabilíssimo Pai de Santo falou sobre diversos assuntos da religião Umolocô. Assuntos que dizem respeito tanto aos que comungam dessa religião quanto aos que simpatizam e querem conhecer, e também para aqueles que vêem nas religiões afro-brasileiras não somente um culto, mas resistência de uma parte de nossa cultura que sobreviveu na vivência, na luta de pessoas que ao longo de toda a história brasileira foram estigmatizados, sofrendo violentações físicas e epistemológicas por cultuar sua autêntica religião.

AS PRÉ-VISÕES: OGUM, OXÓSSI E OXALÁ

Vai ser um ano de muita fartura, um ano de muita coisa boa. Vai ter guerra sim, porque senhor Oxóssi é um guerreiro, senhor Ogum é um guerreiro, Oxalá é o maior, é o supremo, que é o nosso pai e que rege todos nós e todos os orixás. Então, vai ter fome, vai. Vai ter desgraça, vai. Vai porque onde tem coisa boa também tem desgraça, mas vai ter prosperidade, trabalho, muito amor. Muita luta das pessoas que não conseguiram atingir seus objetivos no ano passado. Vai ser um ano maravilhoso pra quem gosta de correr atrás. E a gente tem que ir na busca da nossa sobrevivência, do nosso respeito, da nossa justiça da bonança, do amor, da fartura, de tudo. Então isso foi o que deu nos búzios e nas cartas também. Muita guerra, deu que políticos vão se dar mal, vai ter muitos políticos corruptos, gente que vai enganar o povo. Então tudo isso cai, tudo isso acontece. Mas vai ter muita coisa boa, de união com o próximo. Um ano maravilhoso pras pessoas que vão atrás, gostam de axé, que gostam da verdade, que gostam das coisas boas. Então Oxalá, Oxóssi e Ogum, eles vão mandar esse ano todinho. Quem é filho de Ogum, vai ganhar muita coisa; quem é filho de Oxalá, muito mais; quem é de Oxóssi, também vai ganhar. Todas as pessoas vão ganhar. Aqueles que não são do ramo também vão ganhar, porque não é porque não são filhos de santo que não vão, mas quem é da cabeça é só correr atrás que vai conseguir seu objetivo.

TERREIROS E FALSOS TERREIROS

A minha casa é assim, é uma casa simples, mas é uma casa que tem força, é uma casa que as pessoas vêm todo dia: pra fazer trabalho, pra consulta, pra resolver problema, e eu também, que tenho meus problemas, deixo um pouco os meus de lado e vou ajudar os outros. As nossas entidades, elas ajudam a gente. Então a gente ajuda, fazendo bondade, fazendo cura. Quando mandam maldade pra mim, eu me defendo. Quando mandam alguma coisa pra mim, querendo acabar com minha casa, fechar minha casa, já teve muita gente que fez muita coisa, não sei por que. Nós somos simples, nós somos de cor, se tivesse um canal que mostrasse assim a nossa cultura, mas uma cultura bonita, porque tem muita gente aí que finge que está com a entidade, pra extorquir, pra enganar as pessoas. Então, daqui pra 2009, quem sabe Deus Oxalá, nosso Pai, nosso Pai Oxóssi, nosso Pai Ogum, nosso Pai Xangô, todos os orixás, nossa Mãe Iansã, nossa Mãe Oxum, nosso Pai Obaluaê, tem muita gente boa, que trabalha. Mas tem muita gente que só sabe meter o pau na gente: pecador chega, “olha, por quanto é que tu faz?”, “me dá 4 mil reais”. Aí a pessoa vai dar o jeito dela, às vezes vende casa, tira o dinheirinho dela do banco, mas não tem êxito naquele trabalho. A gente pega a fama por causa dessas pessoas. Aí as pessoas já ficam desacreditadas, elas não querem mais procurar um terreiro pra se cuidar; às vezes a pessoa tá com um feitiço, mas a pessoa já andou tanto, que ela acaba procurando a igreja, ela prefere procurar a Deus. Deus tá vendo aquela situação, mas lá não é o lugar dela ser curada. É preciso procurar uma religião espiritual pra tirar aquilo. Já veio muita gente aqui, “olha, eu tô assim, me desenganaram”, “senta aí, minha filha, te acalma”, vou conversar tudinho, como já veio várias pessoas aqui com coisa feia, com bicho na barriga, bicho na garganta; agora tem uma moça que está com um ‘nozão’ deste tamanho na garganta; o bicho anda prum lado e pro outro; ela já foi na casa de uma mulher, a mulher faz dois meses que tá cuidando dela e nada. Ela disse que já gastou 2 mil com a mulher. Tudo isso vai nos arruinando. Por que não saiu? Porque ela não estudou. Ela não procurou uma mãe de santo ou um pai de santo, um zelador de santo, pra estudar, pra entidade ensinar, porque a entidade sabe. Quando a gente não sabe, ela pula em cima da gente e ela mesma faz, ela mesma cura. Às vezes eu não sei uma folha, mas minha entidade, que é da mata, da água ou da encruzilhada, ela sabe. Eu não sei, mas ela sabe. Ela incorpora e vai cuidar da pessoa. E deixa pro filho, “olha, eu cuidei dessa pessoa assim, o material foi esse e deixo pro meu filho, que pra ele aprender”. Tem muita gente, “ah!, eu abro uma casa”, eu digo, “gente, barracão é uma coisa divina, é uma coisa fina e muito perigosa”, pra você montar um barracão, você precisa passar por uma feitura, você primeiro tem de passar pelo mandamento, você tem de passar por um bori, por um obi, por um amanci de santo, um amanci de ervas daí que você vai se elevando espiritualmente, você fica deitado um mês com seu santo, aí sim, você vai estar aprendendo, porque ninguém nasce sabendo, você aprende comigo, eu aprendo com você, tem coisas que você sabe que eu não sei. O coração dos outros é terra que ninguém anda, e nem a mente; a mente das pessoas, o espírito, ele só consegue pegar as coisas quando você tá pensando naquela hora, aí ele capta rapidinho o seu pensamento, então se ele viu você em alguma ocasião, se alguma entidade reconheceu você, “olha, eu lhe conheço de algum lugar, já lhe vi aqui”. É uma coisa muito bonita, muito maravilhosa.

UMA NOVA ASSOCIAÇÃO

Na minha casa eu sempre tenho cliente, eu trabalho direto, eu corro pra ali, eu corro pra cá, aí eu vou construindo devagarzinho, porque a gente não tem apoio da federação, a gente não tem uma federação que dê apoio pra gente, a federação é só pra arrecadar a graninha e encher o bolso dos pais de santo, não é todos, mas têm muitos. Agora nós estamos entrando numa associação, com a Dona Helena, aqui da Cidade de Deus, o Gilmar, que é uma pessoa de luta, tá pegando o nome da gente, porque a federação é pra arrecadar dinheiro pros terreiros, algum filho de santo que chega carente, porque tem muita gente que não tem dinheiro pra comprar uma roupa, não tem dinheiro pra fazer uma obrigação, chega filho de santo aqui que não tem nem casa pra morar. E quando chega aqui tem emprego, tem amor, tem casa pra morar, porque ele vai cuidar do santo, a gente se rebola daqui, se rebola dali. Todos os médiuns que vêm pra casa da gente não vêm bem, eles sempre vêm com problemas, ou de santo, ou de família, ou de amor, ou de feitiço, ou de alguma mazela.

POLÍTICOS NO TERREIRO: SEMPRE OS MESMOS

Os políticos são os primeiros a procurar a gente, quando está perto das eleições eles procuram logo os terreiros, “olha, eu te dô tanto, eu quero ganhar”; se é vereador, “olha, eu vou te ajudar nisso”, mas só que muitos deles mentem, aí a gente se mata de trabalhar, coloca as entidades pra trabalhar, dá aquelas oferendas todas, e quando ganham esquecem, mas só que eles não esperam o que vai acontecer, porque assim como as entidades dão, elas recolhem rápido, num piscar de olhos, por isso que muitos políticos se dão mal, é por isso que se descobre muito podre dos políticos, porque eles fazem pacto, dão muita coisa pra entidade pra ganhar pra presidente, governador, vereador, depois eles se esquecem, mas se é ela que induz aquele povo todo, até os que são contra, a votarem nele. Tem gente que não acredita que existem forças ocultas, mas como não existe se Deus é uma força oculta? Deus é espírito, ele não é carne. Ele foi carne, sofreu, morreu, pra mostrar pra gente ter um pouco de piedade, mas assim como existiam discípulos dele que eram ruins, como conta nas histórias dele que nós conhecemos, porque a verdadeira história a gente não sabe. A verdeira história de Cristo é por aí, mas falta muita coisa, muitos papéis sumiram na época dos nossos antepassados, muitas pedras sumiram. Assim como existem pessoas boas, têm pessoas levianas, que está com você e tá lhe traindo, a gente tá vivendo isso todo dia, meu filho. Então a gente tem de pular prum lado, pular pro outro, ver o que está acontecendo.

NA INCOMPREENSÃO DAS DIFERENÇAS

O candomblé é uma coisa boa. O Candomblé existe. Uma vez veio um rapaz aqui do Candomblé que falou uma coisa que eu não gostei, querendo me rebaixar. Eu não sou Candomblé, eu sou Umolocô, mas ao mesmo tempo somos Candomblé, porque Umolocô é junto com o Candomblé. Eu estudo muito o Candomblé. A única coisa que não se faz aqui é catular. Aí ele chegou aqui querendo me rebaixar, dizendo que a minha religião não existia, que a gente não tinha nada, que só quem tinha era ele que era do Candomblé. Eu fiquei muito chateado. Ele quis dizer que a gente não era nada, só é quem tem santo. Mas é claro que aqui tem santo. Em todo lugar o santo tá. Se você é da Umbanda, na Umbanda se faz bori. Como é que o santo não tá lá? Agora na Umbanda antiga não se faz bori. A Umbanda antiga era só uma imagenzinha do caboco, faz o amanci de frutas, o amanci de ervas, o caboco vira, faz aquele trabalho, mas não fazia nem bori, nem obi. A pessoa só tinha amanci na cabeça, não recolhia pra santo. Agora não, na Umbanda que nós estamos agora já faz bori. Aí eu disse “olhe, eu tenho santo, você quer ver, eu tenho foto”, aí eu amostrei só uma coisinha que não ia dar importância, porque a gente não pode mostrar. Aí uma vez ele veio assistir, aí ele quebrou a cara, ele viu como era meu trabalho, que eu tinha espírito de verdade. Acho que ele tava pensando que eu não sabia, porque ele estudou muito. Mas você sabia que às vezes aquela pessoa mais humilde é que tem sabedoria? Às vezes aquela pessoa estudou muito, mas o estudo não glorifica ninguém. Às vezes aquela pedrinha mais miudinha que você vê lá no chão, “pra que que eu quero essa pedra, essa pedra não serventia de nada?”, mas é aquela pedrinha que faz brilhar, é isso que o pessoal não sabe. Então eu pego as pequenas pedrinhas do chão pra mim construir o meu castelo. Eu não vou pegando as pedras mais brilhosas que vêm não. Eu vou pegando aquela mais pequenininha, que é pra poder eu ir polindo ela, pra depois ter meu sucesso.

PRECONCEITOS E MARMOTAGENS

Ainda existe muito preconceito, mas nessa parte onde nós vivemos, no Amazonas não devia ser assim, é uma terra bonita, com muitas matas, muita água, terra de Pai Oxóssi, de Mãe Oxum. Agora é que está se esbangindo a cultura, a Umbanda, o Candomblé, Ketu, Umolocô, agora é que estão se expandindo, as pessoas estão aceitando mais, mas ainda tem gente que joga pedra, que xinga. Tem lugar que a gente vai que meu Deus do céu, é pombogira sentando na perna de homem, pombogira beijando, que é isso, não existe isso, isso é mentira, é a Dona Mariana comendo peixe na cabeça do seu menino. As pessoas que conhecem sabem que isso é mentira. Como é que a Dona Mariana vai poder se apaixonar por você na minha cabeça? Ela pode ter um amor, um carisma, ela gosta de você como pessoa. A entidade tem sentimento. Se você passar por ela, “oi, Dona Mariana!”, ela vai sentir, ela vai lhe ajudar, ela vai se doer por você, mas esse negócio de amor, beijar na boca, a pombogira sentada na perna do homem, na cabeça de uma bicha, não tenho nada contra, sou homossexual, mas me dou muito respeito, assumo o que eu sou. Uma vez eu fui numa festa, a pombogira com um salto desse tamanho, um batomzão no beiço. Aonde fica a moral do homossexual? Fica no chão, porque a pessoa que vai chegar e ver aquilo vai dizer “ah, isso aí não é a entidade, isso aí é a bicha que tá fingindo”. É o equé. Tem gente que tem raiva de mim porque eu falo isso, mas eu vou falar. Se a pessoa é homossexual, não tem problema, Deus também foi tentado na juventude dEle. Foi Deus que colocou no mundo, veio da genética, ninguém é culpado. Seja o que você é, se você gosta de uma pessoa, goste. Não fique mostrando pro mundo que você é aquilo assim, por causa que isso aumenta o preconceito também. Agora as pessoas têm que saber se defender, o homossexual ou a lésbica tem que saber se defender, o negro, o branco, porque pra todos nós pode existir preconceito. Se a pessoa tem o nariz torto, os outros falam; se a pessoa tem o olho assim, “olha o olho dela”. Isso acontece porque às vezes o homossexual não tem coragem de dar em cima do cara, “olha, eu gostei muito de você, eu quero conversar com você”. Eu quando quero uma coisa eu vou, eu não vou botar a entidade no meio. E o meu nome como é que vai ficar, “olha, o Pai Francisco”? Deus me livre!

A FAÍSCA SOLIDÁRIA DE PAI FRANCISCO

Uma casa de santo tem de ser respeitada, o pai de santo tem de se dar respeito, botar moral em cima dos médiuns. As únicas casas que eu vou, gosto de ir, é a da Dona Maria José do Japiim, que tem um barracão de zinco, e no Jeovano, porque ele me trata bem, uma vez ele também veio aqui, ele cantou. A nossa umbanda é tudo de bom, eu não sou de Manaus, eu sou piauiense, mas aqui eu não ando enganando ninguém, minhas entidades trabalham direito, graças a Deus, meu trabalho é certo. Nunca veio alguém bater na minha porta reclamando de um trabalho que eu fiz e não deu resultado. E tudo a gente pede a providência de Deus, porque Deus é que dá o caminho pra nós, mas têm as forças ocultas mais embaixo, aí Deus não mete mais a sua mão, quando têm um irmão que têm forças ocultas abaixo dele, aí esse é que tem mais poder aqui embaixo, aí Deus já não mete a mão dele. Na minha casa eu sou uma pessoa muito meiga, eu trato as pessoas bem, eu gosto muito de dar conselho, eu gosto muito de dar mão amiga. Às vezes vem gente de longe aqui, conversar comigo, pedir um conselho. Aí diz, mas o senhor me ajudou; eu digo, “não, meu filho, eu sou apenas uma faisquinha”. Mas se chega na minha casa, tem comida, vamos comer; se tem café, a gente toma; se tem janta, a gente janta. E eu vou assim, vou levando minha casa pra frente, tenho muitos filhos, e a gente vai seguindo o caminho da gente, a gente erra, mas o santo não, se a lei do santo é aquela, eu tenho que fazer aquilo. Meu Pai Oxalá, no dia que eu for errar, me dê uma luz, uma força, me ilumine…

AS PRÉ-VISÕES DE PAI GEOVANO DE OXAGUIÃ

DA REGÊNCIA DO ANO

O regente do ano é Ogum, com Oxalá e Nanã. Isto influi no comércio de Manaus, no comércio em si, em tudo, no Brasil todo. Vai ser um ano de muito progresso. Um pouco de agressividade também, pras finanças principalmente. Pras finanças vai ser um ano excelente, mas também com bastante alagações, com bastante doenças contagiosas, muito acirradas. Vai ser um ano de muita luta por perspectivas melhores e com vitórias alcançadas. Ogum é um regente que vai ser um ano bom pra agricultura, pra indústria metalúrgica, as pessoas que mexem com ferro, metalúrgica, com agricultura vai ser muito bom. Pessoas que estão há anos lutando com questões de justiça, de saúde. E também vai ter muita chuva, vai chover bastante. Ogum é o Orixá da agricultura, da guerra, das vitórias, das lutas vencidas. Vai ser uma época assim de muita separação, casais se separando, problemas amorosos, muito, muito, o ano vai ser repleto disso.

DOS POLÍTICOS APOCALÍPTICOS

O ano vai ser assim de grandes vitórias pra uns e perdas maiores pra outros. Muitas pessoas vão se reeleger. O ano é previsto pra vitórias de mulheres, vai ser um ano em que as mulheres vão estar em todas. O ano político vai ser muito bom pra elas. Se o caminho não mudar pro Serafim, e se ele melhorar a administração dele, ele se reelege. Mas se ele não melhorar, o sistema de governo dele tá meio defasado. Se continuar nesse caminho, ele não se reelege mesmo, provavelmente no meio do ano ele tem um desgaste muito grande. E todos os políticos, não só ele, devem cumprir um pouco do que eles falam, que o povo depende deles, que o povo pobre, a maioria, depende deles. Então, que eles se conscientizem em pelo menos fazer uma ou duas vezes o que eles prometem é até bom, é até melhor. Dá mais ênfase pra eles, faz com que as pessoas acreditem mais neles e venham a ganhar mais votos, ganhar mais confiança com os outros.

DA POLÍTICA PARA A COLETIVIDADE

Muitos candidatos que até então lutam pra se eleger. Este ano, com mais força e mais vontade, eles chegam a se eleger. Com grande luta, assim como o presidente, no caso, lutou bastante pra chegar onde ele está hoje e tem muita gente também, tem muitos candidatos fazendo a mesma coisa. Tem muitos aproveitadores, mas também tem pessoas sérias.

DA POTÊNCIA DEMOCRÁTICA LULA

Olha, [o governo Lula] vai ser tranqüilo. As pessoas vão se conscientizar que não é dessa maneira que podem derrubá-lo… porque ele é uma pessoa muito calma e é uma pessoa muito sensata nas coisas que faz. Ele espera o momento certo e a hora certa pra se defender e atacar. Então, se ele for nessa mesma pisada que ele tá indo, vai ser melhor pra ele, ele sabe que muitas pessoas dependem dele pra tudo, pra viver, pra crescer, pra subir na vida. O ano pra ele vai ser calmo, não vai ter muita atacação dos inimigos dele, vai ser um ano bom pra ele governar e descansar um pouco. Problemas sim, problemas com saúde, mas fora isso, bom.

DAS VISIBILIZAÇÕES GAYS

Hum! Muita vitória, muita vitória. Projetos antigos de pessoas de “cabeças grandes” que estão envolvidos nessa luta, nessa batalha árdua contra o preconceito, a discriminação do homossexual, bissexual, terão bastante vitórias. Nessa linha vai bem e permanecerá bem. É positivo, muita vitória, muitos ganhos bons neste sentido. Serão menos atacados e serão mais bem vistos.

SOBRE AS RELIGIÕES AFRO

Olha, a religião em si é polêmica, a nossa religião é polêmica, porque tem muitas pessoas, certas pessoas que mesmo compreendendo fazem loucuras, falam besteiras das quais poderiam pensar, meditar mais um pouco, porque só assim elas estariam ajudando a própria religião. A religião sim, vai passar por altos e baixos, mas sempre vai sair vitoriosa porque os Orixás, Ogum é o Deus da guerra, o Deus da vitória, e ele há de ajudar a nossa religião a passar mais uma vez por sobre as dificuldades.

DA IMPOTÊNCIA IMPERIALISTA

Olha, não é nem preciso jogar, porque Ogum, como Deus da guerra, com certeza, muita confusão virá. Muitas pessoas que agridem, que maltratam, que ofendem, com toda certeza esse ano serão ofendidas, serão massacradas e serão basicamente eliminadas, porque Ogum não admite injustiça. A cólera de Ogum é muito forte, é muito pesada. As pessoas que fazem guerra, que providenciam a guerra, com certeza serão humilhadas, serão derrotadas este ano. E o Brasil em si, o mundo em si se conscientize que com guerra a gente não constrói nada. Só destrói. Que o mundo não está virado hoje em dia pra paz, tá mais pra agressividade. Se vê hoje em dia a pessoa tirar a vida de outro por causa de um cigarro, por 10 centavos, e o mundo se conscientizando, com toda certeza, viveremos melhor.

DOS POSSÍVEIS REAIS NAS FUTURAÇÕES

Só um lembrete pros manauaras, pros amazonenses: que neste final de ano se conscientize da bebida, da camisinha, da não brutalidade, do respeito com o próximo, que só assim eles irão passar um reveillon maravilhoso como nunca eles passaram. E uma virada de ano, um ano todinho que virá será muito proveitoso a todos.

BARQUINHOS PRA IEMANJÁ DE DONA DORA E PAI GEOVANO…

Eu sou filho de Iabá

Iabá é minha mãe

Oh! Rainha do tesouro

Doce Iabá do fundo mar

Flores, jóias, perfumes, espelhos, bebidas, velas e pedidos para a Rainha do Mar em agradecimentos pelas conquistas deste ano e pelos desejos para que no próximo ano ela continue nos deitando as suas bênçãos. Foi assim que Dona Dora foi até a Ponta Negra arriar as barcas para Iemanjá…

Esse barquinho é pra ela, é pra Iemanjá, são as coisas, as jóias dela, as velas. Colocamos na correnteza e ela vai embora e aí vai sumindo, ela não alaga. Ela vai embora com tudo dentro, as jóias, vai os pedidos. A gente faz os pedidos e bota dentro da barca e esses pedidos que vai dentro da barca acontecem. Aconteceu comigo, aconteceu com meus clientes. Todo ano eu venho colocar, mas já estava com dois anos que eu não colocava. Todo pedido vai dentro daquela barca, os pedidos de todo o pessoal do terreiro, vai tudo ali dentro, e vai dos clientes. Esse ano vai ter coisas boas. Esse ano nós vamos ter êxito na vida porque eu botei a obrigação de Iemanjá. Todo ano quando eu botava a minha vida vivia bem. Esse ano teve muito problema e eu arriei esse ano, e no ano que vem a gente vai ter muito êxito na vida. Eu já tava com dois anos que eu não arriava a obrigação, porque o meu Pai de Santo disse que eu não podia arriar a obrigação pra Iemanjá porque lá onde eu tava eu arriava. E aqui em Manaus eu tinha um Pai de Santo, que era o Delmar, ele disse: “Aleijado não pode arriar obrigação pra Iemanjá”. Como que não pode, se eu arriava e dava certo? Aí esse ano eu arriei, o Pai mandou eu colocar e eu vim arriar a obrigação. Esse ano vai melhorar a vida de todo o mundo que vai os pedidos dentro da barca.

Pai Geovano, que acompanhou Dona Dora na preparação e realização do cumprimento dessa obrigação, também falou a este bloguinho sobre este ritual…

Isso é uma obrigação que a gente faz pra Iemanjá agradecendo o que nós adquirimos no ano que está se passando e pedindo pra que ela traga prosperidade, porque assim como ela vai seguindo, as nossas vidas sigam também, nossos caminhos sejam abertos, nossos amores que perdemos no passado e que queremos muito, que no futuro volte e tudo mais. Esse espelho, essas bijuterias que a gente oferece pra Iemanjá pra que ela se lembre da gente o ano todo. É esse o ritual da barquinha solta no mar, representando a nossa liberdade em adquirir coisas e um agradecimento que o mais profundo de todos.

DAS PROXIMIDADES ATIVAS DAS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS

O final de um ano é tido como um momento de avaliação e futurações para o ano vindouro. Pelo (des)entendimento capitalista, a essa questão passa sempre pelas cifras/lucro armazenado e como armazenar mais e mais. Para as pessoas que mantém uma relação de afetividade, de vivência autêntica com os outros, é um momento de entrar numa conversação para ver em coletividade o-que-valeu-a-pena e fazer projetos reais de futuras realizações comunitárias. Durante o ano de 2007, realizamos neste bloguinho intempestivo alguns trabalhos a respeito das religiões Candomblé e Umbanda. Como as religiões afro-brasileiras são muito procuradas nestas épocas para fazerem suas previsões, devido aos seus conhecimentos e sensibilidade em perceber acontecimentos que se darão ou que podem ocorrer, estamos trazendo aqui as previsões de alguns Pai de Santo que nos abriram as portas dos barracões neste ano. Então, aproveitamos também para agradecer ao Pai Gilmar, Pai Francisco, Pai Geovano, Pai João Bosco, Pai Ribamar e todos os outros da imensa comunidade de todas as religiões afro, que, além de uma crença bonita, pujante, praticam, lutam por enaltecer, diminuir preconceitos de manifestações que estão na própria indiscernível origem de nossa cultura, enquanto criações intempestivas que preservam nossa essência de agir, de viver.

AS PRE-VISÕES DE PAI GILMAR, FÔMU DE IEMANJÁ

SOB A REGÊNCIA DE OGUM

O ano de 2008 vai ter como patrono Ogum, junto com Oyá, Iansã. Será um ano de muita guerra, muita batalha, muito problema e principalmente muita confusão. As pessoas que gostam e que acreditam na força do mundo espiritual, seja ela os orixás e os cabocos, que se peguem muito com Ogum, o senhor da estrada, o senhor da guerra, o patrono da confusão, não de fazer confusão, mas sim de resolver. As pessoas que querem resolver problemas amorosos, financeiros, de doença, que se peguem com Ogum, São Jorge na Igreja Católica, peça a ele pra ajudar, porque vai ser um ano de muito fervor, um ano muito quente, mas vai ser um ano muito bom.

DAS CONFUSÕES NA POLÍTICA

Na política vai ser um ano de muita briga, até mais do que a gente tá acostumado a ver. Nessa política que vem aí no ano de 2008, vai ser um ano de muita confusão, muito disse me disse, muita coisa podre, muita coisa suja vai ser colocada tudo pra fora.

Pro Brasil, vai ser melhor de um modo geral. Se as pessoas prestarem mais atenção, além do que já prestam, vai ser um ano muito bom, muito positivo.

Um político muito influente vai falecer esse ano, eu não sei o nome dele, mas é um político muito influente. Porque tem muitos políticos influentes, o Arthur, o Jefferson Péres, o Amazonino, o Gilberto Mestrinho. Um deles, eu não sei qual é, mas nós vamos ter uma perda muito grande esse ano de 2008, provavelmente na metade do ano, do primeiro pro segundo semestre.

DA POLÍTICA COMO JOGO DE AZAR

Tem alguns políticos que já me ligaram, o Gilmar Nascimento, que é meu amigo pessoal. Mas eu não gosto, acho política igual jogo, jogo de azar. Acho uma coisa muito improvável, primeiro porque se eu jogar hoje, pra hoje é uma coisa, porque mesmo que eu vá prever o que vai acontecer daqui a dois dias, mas daqui a uma semana pode ter mudado porque o presságio, o tempo de hoje está abafado, com o sol quente, porque o sol tá lá em cima e ele não some, tá abafado por causa das nuvens e com pancadas de chuva, mas daqui a meia hora o sol pode tá abrindo. O próprio presságio do momento vai falar uma coisa, daqui a uma semana vai mudar completamente. Tem previsões certíssimas, mas eu, em particular, não faço. Eu gosto, eu gostei de você, me dei bem com você, aceitei suas propostas pra mim. Lógico que a proposta é feita pra coletividade, mas pra minha cabeça o que você está propondo a ser vereador e se eu acho que vai fazer, então eu vou e voto em você. Tem gente que vota até pela beleza. A mulherada votou no Collor porque achava ele bonito e olha a merda que fez.

DA INCONSTÂNCIA DOS POLÍTICOS

Na eleição passada, ele [Gilmar Nascimento] veio foi na frente da minha casa, gravei entrevista com ele e tudo. Ele disse que vinha e que ia ajeitar a nossa rua, porque realmente é uma coisa pequena. Aqui atrás não, aqui atrás é grande, que tem aquele mural de pedra que chamam de rip-rap. Mas aqui não, aqui é só canalizar. Lá na frente mais é canalizado, e porque aqui nada? A gente pediu dele. No outro dia ele estaria aqui, cadê? Vai fazer quatro anos e até hoje. E muito pelo contrário, foi um dos políticos que virou as costas pro projeto do Parque dos Orixás, e nem quiseram ler. E vamos começar a briga de novo, porque a ministra Marina Silva também já está a nosso favor porque nós falamos com ela quando esteve aqui em Manaus, falamos que o projeto não foi pra votação, não foi lido, e ela disse que é inconstitucional. Qualquer cidadão, isso ela falou, pode até pegar papel higiênico e escrever o projeto e eles têm que ler no papel higiênico. O que vai fazer quando o presidente se manifestar e colocar em votação aí cada um se coloca como sim ou como contra. Mas não se recusar a ler. Ela disse que tem um monte de coisas aí. Primeiro porque é inconstitucional, tem que ler, e segundo, que tem a discriminação e aí vem um monte de coisas, e ela disse que era pra reformular de novo o projeto e etc, que ela seria uma das militantes.

DAS VÃS CRENÇAS DOS POLÍTICOS

Não foi eu que falei com ele, eu não gosto de mentir, mas eu falei com uma das secretárias dele particular, a Mariene, da Semasc. Ela veio aqui em casa várias vezes em reunião, com os santinhos do Marcelo Serafim, disseram a mesma coisa, que iam ajeitar a rua toda, até hoje desde o ano passado. No começo deste ano, tinha um buraco imenso aí na frente, aí agente pediu, pediu, e vieram ajeitar. Aí nessa descida pra cá, colocaram uma placa na rua com quase 700.000 quera o custo da obra pra ajeitar as ruas. As ruas. Ajeitaram só a rua principal, nem a outra e nem a descida. 700 mil reais eles gastaram pra ajeitar duas ruas. Até hoje. Eu falei com ele lá na câmara, disse “e aí?”, ele disse que já tava tudo certo e até hoje. Nunca veio na minha casa, e nem ligar…

FESTA DE OXÓSSI NO ILÉ AŞÉ DO PAI-GEOVAŅO DE AJAGÙNNỌN

Esta festa pra Oxóssi foi realizada no dia 28 de julho deste ano e já foi postada no afinsophia.blog. Postamos agora aqui no afinsophia.wordpress para que se possa ver um pouco da beleza do terreiro de Pai Geovano e as bençãos dos orixás àqueles que participam ou simpatizam com a religião do Candomblé.

O chão estava salpicado de folhas perfumadas, nos cantos as palmas de coqueiro, os filhos com suas belas vestimentas, Pai Geovano com sua suavidade, o terreiro preparado para receber o ilê de outros terreiros e visitantes que chegavam. Soaram os atabaques e agogôs, começando o Xirê, a Festa dos Orixás…

Enquanto os cantos e rezas continuavam pela noite, mais pessoas chegavam, até o terreiro ficar lotado de cores e movimentos dos filhos e Babalorixás presentes. As danças em louvação para cada orixá sendo realizadas com bastante efervescência pela incorporação das entidades que “baixaram”. Até que baixou o homenageado da festa, com sua roupa de pele de animais, suas folhagens, seu arco e flecha: Oxóssi dançou por todo o terreiro, baixou ao chão, tudo com muita agilidade e beleza, depois “suspendeu” três novos adeptos do Candomblé e, por último, distribuiu suas frutas entre os participantes.

Então veio Oxalá e fechou o Xirê. Após, as comidas do santo foram saboreadas por todos e o delicioso aluá foi compartilhado à vontade. Com o copo na mão, aproveitamos a descontração e conversamos com alguns dos Babalorixás presentes: o jovem Pai-Marquinho nos contou sobre como se forma um Pai-de-Santo, falando que não tem a ver tanto com a idade, mas do percurso de preparação, que é de no mínimo sete anos. Pai-João Bosco de Oxum (ao centro, foto abaixo) explicou a origem e alguns fundamentos do Candomblé: “É uma religião sem preconceitos, que aqui no Brasil nasceu do sincretismo dos cultos trazidos pelos escravos africanos com a religião católica. Os escravos, para poder cultuar seus orixás, tinham que ocultar do senhor e por isso foi feita essa ligação”. Pai-Gilmar, conhecido como Fômu de Iemanjá (à esquerda, foto abaixo), falou-nos da proximidade que o Candomblé tem tido com a comunidade, pois o Candomblé vem sendo percebido como uma religião sem preconceitos: “O problema são os evangélicos, o que está errado, pois todos que lêem os evangelhos são evangélicos, o nome apropriado é protestantes. Eles esquecem que há anos atrás a Igreja Católica fazia o mesmo com eles, o mesmo preconceito que agora estão reproduzindo em relação ao Candomblé”.

Lá fora do terreiro, começou um toque dos instrumentos para animar a degustação. Foi então que Pai Geovano sentou conosco e falou sobre sua alegria com a festa de hoje:

A perspectiva de gente extrapolou a que eu pensava que viesse. Muita gente legal, muitos pais de santo considerados de respaldo dentro da religião. Não vieram todos porque talvez não quiseram, talvez não deu, mas a impressão que eu tive das pessoas que estavam aqui é porque gostavam, estavam me prestigiando, prestigiando Oxóssi principalmente. Pra mim, foi o máximo. Gostei muito, é bom saber que as pessoas estão acreditando mais no orixá, percebendo uma coisa que ela não vê só através de uma pessoa. Então ela só pode ver basicamente a áurea do orixá. É importante porque ele não está em carne e osso, ele está em espírito. Mas assim dá pra gente sentir, dá pra gente ver a evolução do santo, ver como é bonito.

Explicou-nos também sobre o “suspenso” das três novas pessoas de seu terreiro:

Isso se chama “suspenso”. Significa que a pessoa é levantada, que o santo escolhe pra servir a casa, servir a ele próprio. Essa pessoa, a partir desse instante é conhecido como Ogã Suspenso. Foram suspensos, ganharam uma autoridade a mais dentro da casa. Agora sim já podem participar de certos tipos de rituais.

CORTEJO NO ILÉ AŞÉ DO PAI-GEOVAŅO DE AJAGÙNNỌN

Atendendo a pedidos de leitores desse bloguinho, postamos aqui o primeiro trabalho que realizamos sobre o Candomblé, trata-se de um Cortejo, seguido de um toque no terreiro do Pai Geovano em 09 de junho deste ano de 2007.


Clique nas fotos para ampliá-las

Foi lá na IV Etapa do Jorge Teixeira, já na extremidade com o Valparaíso. Começou com um almoço servido aos convidados, seguido de rezas e cantos como preparativos/produções para o acontecimento singular: o cortejo para levar Oxaguiã (Ògiyán) e seu ibá para o novo terreiro. Oxaguiã é uma das qualidades de Oxalá, “é um santo jovem e guerreiro, que luta pelo aparecimento de coisas novas e boas”, explica-nos o jovem candomblecista Douglas de Souza.

Após o cortejo, a energia dos candomblecistas continuou em cima, o batuque dos atabaques e a batida dos agogôs soaram no terreiro e puxada pela potente voz de Pai Geovano (ao centro, na foto acima) formou-se a roda de Candomblé: cerca de três horas de cantos, rezas e danças para louvação de vários santos do terreiro, enquanto a bandeja de delicioso mingau circulava como comida do santo para os convidados.

Depois de tudo isso, Pai Geovano ainda nos atendeu com simpatia e conversou com lucidez sobre alguns assuntos que dizem respeito às vivências candomblecistas: como, por exemplo, a desinformação que leva à formação de preconceitos e deturpações com relação ao Candomblé; sobre o trabalho dele e dos filhos em estudos e pesquisas, principalmente sobre a língua Yorubá presente nos rituais, para que possíveis distorções não venham afastar os favores dos santos; finalmente, sobre o que ele denominou de “obras sociais no terreiro”, afirmou que pretende utilizar o espaço para rodas de capoeira, diversos cursos para a comunidade, aulas de Afoxé (músicas e danças do Candomblé) e teatro.

Afinadamente, aproveitamos a ocasião para firmar a realização em próxima edição do vetor literário da AFIN, o “Phylum”, de uma entrevista com Pai Geovano para desenvolvermos estas e outras questões e ele abriu também as portas de seu barracão para este Afinsophiacontinuar com esse trabalho que vimos realizando aqui a respeito da religião do Candomblé.

O SERINGAL MIRIM DE PAI RIBAMAR DE XANGÔ

No início de 2008, o terreiro Seringal Mirim completa 100 anos de existência. Estando hoje no Centro de Manaus, rua João Alfredo, nº 325 — São Geraldo, o terreiro, que atualmente passa por reformas, é a comprovação da presença das manifestações dos negros africanos no Amazonas, não sendo notada pela historiografia oficial, que sempre levou em conta apenas os monumentos turísticos de Manaus. Essa resistência continua com Pai Ribamar de Xangô, atual babalorixá do Seringal, que nos concedeu entrevista, na qual nos falou do centenário barracão, do seu trabalho à frente da Coordenação Amazonas da FENACABI (Federação Nacional dos Cultos Afro-Brasileiros) e muitas outras questões fundamentais e políticas do Candomblé. Para um estado onde reina a falta de percepção antropológica, histórica, inclusive dentro da totalidade das universidades amazonenses, esse pode ser um início de conversa…

O Seringal Mirim vai fazer 100 anos, certo?

O Seringal Mirim ano que vem, dia 09 de janeiro, completa 100 anos de existência.

Qual a origem do Seringal Mirim, como foi a origem do Candomblé em Manaus?

Quem trouxe pra Manaus o culto aos Voduns, aos gentis, aos encantados foi Mãe Joana Gama, que se instalou lá no lugar onde hoje é chamado de Morro da Liberdade, na rua São Benedito, e a última descendente morreu agora, a mãe Zulmira. Depois houve outras casas, finalmente foi fundado aqui o Seringal Mirim, o Terreiro de Santa Bárbara, conhecido por Seringal Mirim, por Maria Estrela, Antônia Lobão, Rosa Bahia, Otília Nonato (que era a minha avó), Quentina, Astrogilda, Leonésia, Ladislau. Foi esse grupo que fundou esta casa. Em 1960 morreu a dona Maria Estrela, assumiu dona Antônia Lobão; Antônia Lobão morreu em 1964, assumiu a dona Joana Campos, conhecida como Joana Papagaio, porque ela colocava no festival folclórico um pássaro papagaio; com a morte dela, assumiu a dona Margarida, que morreu em 1972 ou 73; assumiu Margarida Farias e ficou até 1985, quando eu assumi.

Pelas histórias que o senhor ouviu e pela parte que o senhor viveu ainda, como era antes aqui?

Quando iniciou isso aqui, era tudo de madeira, tudo mata. Era 1908. Manaus não era urbanizada. Tinha uma parte onde hoje é a D’Jlama Batista, por ali, se chamava Cláudio Mesquita. Era naquela época do bonde, o bonde passava ali. Lá pela Eduardo Ribeiro ainda tem os trilhos que estão debaixo do asfalto. Os monumentos que tinha aqui em manaus naquela época, a época da borracha, do governo de Eduardo Ribeiro, que era maranhense, construiu o Teatro Amazonas, o Palácio da Justiça, o Mercado Municipal, a Alfândega, tudo era nessa época. Nessa época o Seringal Mirim surgiu, porque aqui ainda não era cidade. Hoje em dia você está no centro da cidade, pra ver os anos que isso tem. Quando eu me entendi, eu sou de 1944, eu tinha lá pelos meus 5 ou 6 anos, eu vinha pra cá acompanhando a minha avó por uma veredinha. Ali em cima, onde é a Manaus Energia, era tudo seringueira, era muito pássaro de manhã e no fim do dia, era muito animado, era ben-te-vi, beija-flor, canário, tucano, curica, papagaio.

Como se deu a sua iniciação ao Candomblé?

Eu fui iniciado na nação Mina Jeji em 1956, eu tinha 12 anos de idade. Com a morte da mãe de santo, eu não quis mais saber. Depois apareceu cobrança do orixá, que aparece na vida da gente, a minha avó tinha uma casa de Ketu, e eu não sabia o que era, não sabia a diferença de uma coisa pra outra, pra mim tocou era macumba. E ela me levou lá no jogo de búzios e disse qual era o meu problema, eu tava com mão de defunto, porque a pessoa quando morre fica com a mão de mutuca na cabeça, e aí eu fiz as minha obrigações na casa dessa senhora, na Cachoeirinha. Quando eu dei conta por mim eu já tinha trocado de nação Aí eu fui iniciado Ribamar de Xangô. Aí eu já estava com vinte e poucos anos, isso foi aí pelo anos 60.

O senhor não poderia nos contar um itã, uma reza de Xangô?

As rezas de Xangô, como de todo santo, é estritamente restrita ao espaço do santo. A única coisa que é aberta ao público é o ritual do Candomblé, o xirê, as outras são do santo. Só as cantigas de meio de barracão, rezas dos quartos de santo não pode, tem uma proibição. A história de Xangô tem várias, são várias lendas, mas ninguém sabe qual é a verdadeira. Ninguém chegou a uma conclusão. Tudo mundo sabe que lenda é mito, e mito é uma coisa que não existe, cada qual faz da sua maneira. O que eu sei mais ou menos de Xangô é que ele foi rei de Oió, na África, teve seu reinado, teve 7 esposas como Iansã, Obá, Oxum foram esposas dele, e até hoje ainda existem descendentes de Xangô na África.

Quais são os poderes de Xangô?

Os poderes de Xangô estão no trovão, na rocha, então é aí que estão os poderes do Xangô. Ele é o deus do fogo. Ele ajuda as pessoas na forma do espírito, dos pedidos, das súplicas que são feitas a ele, que dizem respeito a ele, no que a pessoa quer. Ele é dono da justiça, que tá por dentro de todas as causas que existem, dentro dos tribunais, delegacias, causas impossíveis. Se você tá com problema, você vem na casa de santo, joga os búzios e vai determinar o que vai ser feito pra Xangô, pra que haja determinação naquela causa que tá acontecendo.

E como foi para o senhor assumir o Seringal Mirim?

Eu cheguei aqui no Seringal Mirim porque, mesmo em outra nação, eu nunca desprezei aqui, continuei ao lado das outras mães de santo, e minha avó foi uma das fundadoras, eu tinha raízes aqui dentro, eu era herdeiro pela parte da minha avó. Eu sou o quinto pai de santo, assumi depois que Margarida morreu. Pra assumir tem que ter um ritual, um convite do santo, a casa fica de luto durante um ano. Depois tem toda uma preparação pra abertura da casa de novo. E nós viemos professando os festejos da casa, dentro da nação Ketu. E o meu primeiro filho de santo que eu tirei foi de Ogum, e o nome dele é Disne, ele foi o meu primeiro filho de santo, o primeiro Barco. O segundo Barco foi Franco de Oxóssi, Irã do Obaluaê e Gilmar de Iemanjá. Depois tiramos o terceiro Barco, que foi Iansã e Oxum, Marcelo de Oxum e Paulinho de Iansã. Depois foi tirado o quarto barco, Ribamarzinho e Dinei e assim sucessivamente. Eu não sei mais nem quantos filhos de santo eu tenho hoje em dia. Eu sei que eu já tenho um bocado de filho de santo, tudo já com casa aberta, Gilmar, Jeferson, Geovano, Frank, Elomir, dona Vera da Oxum, Alexandre de Logun, todos já tem casa aberta.

E a FENACABI?

Pois é, em 2004 eu fui chamado pra ir à Bahia pra receber os procedimentos da federação, pra fazer a coordenação da Federação Nacional dos Cultos Afro-Brasileiros no Amazonas. (Eu sou presidente aqui em Manaus. A sede mesmo fica em Salvador, o presidente geral é o Pai Aristides de Oliveira Mascarenhas, todo mundo chama ele de Ari). Desde lá estamos trabalhando em prol da nossa organização, com reuniões, debates. O objetivo da FENACABI é congregar terreiros de candomblé, de umbanda e passar os ensinamentos dentro do culto pra todas as casas, a ordem religiosa, organização burocrática das casas e representar nos seminários, nos congressos. Recentemente eu estive lá em Belém, representando o Amazonas, junto com mais nove acompanhantes, uma delegação de 10 representando o Amazonas no Seminário de Matrizes Africanas.

Nós soubemos que o senhor tinha tido um desentendimento com uma pessoa de outra entidade e que por isso resolvera não ir mais a este seminário.

Houve uma perspectiva e um mal entendimento. Eu acho que roupa sua lava-se em casa. O convite veio pelo FOPAAM, um fórum que se intitula de afro-descente. Como dizem ser um fórum de afro-descendentes, ele abrange uma política diferente da nossa, eles têm uma outra visão, que é a da negritude, não abrange a parte da religião. Então outras federações de candomblé aqui de Manaus se meteram à revelia e acharam que eu estava com esse papel, e eu não tinha nada a ver, eu não sabia das coisas e por esse motivo eu disse que eu não ia mais, a FENACABI não ia fazer mais parte. Só que depois houve apelos por outros lados, pela própria comunidade, que eu deveria ir, que a delegação da FENACABI tinha que se fazer presente, porque era a nível nacional e eu findei concordando em prol da comunidade, porque o que se fizer de bom é para a comunidade, por isso findei concordando em ir.

Pelo visto nem todos pensam comunitariamente?

Sempre existe esse tipo de coisa, a gente aceita ser cobrado. Até aceita ser chamado atenção, mas depende de como a gente é cobrado. A gente tem responsabilidade, responde perguntas, dá as respostas. Mas esse camarada é muito cheio de polêmica, mas não quero levar adiante esse caso, são coisas de dentro da religião, tem muita coisa que tem de ser resolvido dentro, como no Vaticano tem muita coisa que o público não sabe.

Tem outro caso que também ouvimos, que houve ano passado um culto ecumênico, numa balsa no Encontro das Águas, e só o Candomblé, as religiões afro não tiveram representação, qual o motivo dessa exclusão?

Ano passado teve esse culto ecumênico na Ponta Negra e o pessoal do candomblé não participou porque este convite foi feito pro FOPAAM. O FOPAAM convidou uma pessoa que era de santo, mas que não estava mais aqui em Manaus, estava em Roraima, e esta pessoa calou, não passou para os outros, e como a FOPAAM não passou, por este motivo não teve a presença do Candomblé.

Voltando ao Seminário de Matrizes Africanas, qual seu objetivo?

Esse seminário de matrizes africanas era pra discutir a política dentro dos terreiros, o que é a política dentro dos terreiros? É a saúde dentro dos terreiros, é a carência de cestas básicas, é a organização burocrática dos terreiros, é a formação da sociedade para que dela nasça uma ONG pra angariar fundos perante o poder estadual, o poder municipal e até mesmo federal. Fazer um relatório de todas essas necessidades que estão acontecendo, porque nós temos muitas pessoas carentes dentro da nossa religião e que necessitam dessas providências. E o porque que foi feito este seminário, tudo patrocinado pelo Governo Federal, com direito a passagem, estada, transporte, café, almoço e janta.

Então o senhor tem muito trabalho para realizar aqui em Manaus?

Tem muitas coisas para serem resolvidas nos terreiros, sobre os banhos, as folhas, porque depois de 7 dias tem que trocar aquelas folhas porque elas já estão vencidas e vai dar coceira nas pessoas que tomarem aquele banho. O pombo, que é um animal que acarreta mais doenças, vírus, que até o cocô do pombo, se você não souber varrer, aquela poeira faz mal, dá um vírus que se aloja no cérebro. Primeiro você tem que lavar, molhar, ir lavando devagarzinho que é pra sair todo aquela coisa, tanto que tem aquela campanha nos colégios sobre os pombos. O pombo também tem o vírus da meningite. É um animal que não pode faltar nos rituais de candomblé, principalmente no ritual de iniciação. Antigamente, veja só a ignorância dos nossos antepassados. Tinha as matanças, os sacrifícios, os rituais de iniciação, eles ficavam 24h com aquele ejé no corpo, ejé significa sangue do animal, do cabrito, do galo ou das galinhas, pato, cobra e do pombo. Depois que a gente tinha aberto já aberto as curas, a gente todo cortado, recebia aquele sangue em cima da gente, de acordo com os animais que eu te falei, depois a gente deitava na esteira e passava 24h com aquele sangue pra depois tomar o banho. Quanto mal fez pra tantas pessoas e ninguém sabia. Hoje, o Ministério da Saúde, em contato com as federações, transmite todas essas coisas, um aviso preventivo, as federações passam para os terreiros: terminando o ritual, é aconselhável ir logo para o banho. Isso a gente passa, a gente sai explicando. A gente fala também a respeito da higiene nos quartos de santo, pelas baratas, que a barata é transmissora da hepatite. O rato transmite várias doenças, como a leptospirose, e a gente evita de deixar resto de comida pra ele não vir depois comer. Se tiver resto de comida, não coma, sabe lá se passou uma catita e mijou lá no quarto de santo, o roncó, é uma coisa que fica isolada, com folhas debaixo das esteiras, com comidas arreadas aos pés dos orixás e isso chama baratas, ratos, essas coisas assim. Não me digam que não, porque é verdade. “Não, porque meu roncó é limpo”. Não, seu roncó pode ser limpo como for, mas assim que você arria comida, está sujeito a chamar insetos. Tem que ver o cuidado que a pessoa tem com a sua saúde, mas é difícil as pessoas colocarem na cabeça, porque tem que fazer. Então é uma tarefa muito difícil da gente, muito árdua, mas o que a gente pode fazer, se a gente não tentar a gente não chega lá. A gente tem que tentar.

Para o senhor, que vive na religião do Candomblé e conhece a sua história, há uma abertura maior hoje para as religiões afro-brasileiras?

Hoje tá mais aberto devido às organizações, mas há grandes dificuldades dentro da religião Candomblé dentro do Brasil, e isso eu tenho a impressão que sempre vai ter. Porque, veja bem, a religião católica, que vem desde o início da colonização do Brasil, veio ordens de padres católicos pra trazer a religião para o Brasil, pra catequizar os silvícolas, dizer a missa para os senhores e pregar o evangelho, a evangelização. Como veio também o Islamismo, que era religião estrangeira, e que veio também fazer a evangelização. O Candomblé não veio de forma evangelizada, não veio nenhuma ordem de sacerdotes para fazer evangelização no Brasil. Eles foram pegos no peito e na marra, trazidos para o Brasil para trabalhar na mão-de-obra, na construção do que é hoje o Brasil, pra trabalhar nas fazendas de algodão, de café, nas lavouras, nas plantações de cana-de-açúcar, nos engenhos de açúcar, nas minas de ouro, de pedras preciosas. Eles eram vendidos como se fossem animais: tantas cabeças de gado, tantas cabeças de cavalo, tantas cabeças de negros, eram tratados como mercadoria. Então depois que houve a libertação, não tanto pela Lei Áurea, mas sim com os escravos que davam um jeito de comprar sua alforria e que se juntaram, formando ordens religiosas nas igrejas de Salvador, da Barroquinha, onde três princesas se juntaram, já forras Ianasô, Adetá e Acalá e fundaram a primeira casa de Candomblé. A chamada Casa Branca do Engenho Velho de Federação. Federação é o bairro; chamam Casa Branca não sei por qual motivo, mas o nome da casa é Ilê Axé Ianasô. Essa casa foi alvo de relevantes protestos por parte de outras religiões, que tinham aquilo como uma coisa subversiva, porque tinha muitos escravos ali de dentro da Bahia, achavam que teria um levante de escravos pra dominar o poder e dar liberdade aos negros. E dessa casa saiu o Cantuá e o Obô Afonjá, e dessas outras casas saíram os outros terreiros, que estão aí hoje. Você sabe perfeitamente que a África, como aqui no Brasil, os nativos falavam em dialeto, não tinham educação, não tinham cultura européia, andavam nus, como na África, era com se fossem índios, comiam com a mão e isto foi muito mal para os olhos dos europeus, que tinham eles como selvagens. E eis a grande dificuldade, eles não sabiam a cultura, não sabiam falar, não sabiam a língua. E isso foi dificultando tudo. Eles não tinham assim uma ordem religiosa, tinha iniciação, ordenação, mas aquele culto de ordem religiosa-educacional, como tem o catolicismo, como tem o protestantismo, não tinha. Era muito diferente, era muito selvagem, sentavam no chão, comiam com a mão, bebiam em cuia, dormiam na esteira, era uma coisa realmente selvagem e eis a grande dificuldade que ainda está aí nos dias de hoje.

O preconceito ainda é muito grande…

O preconceito é grande porque as pessoas não olham ainda o Candomblé como uma religião. Mas esse preconceito, os culpados são às vezes os próprios membros da religião, que não procuram seguir como religião e sim como uma diversão, querem beber à vontade, no final das contas querem ficar tudo bêbado na festa, aí querem falar da vida de fulano de tal. E isso dificulta muito os trabalhos da Federação. Porque se todos comungassem com um só pensamento, a Federação poderia orientar, porque essa orientação é muito difícil, a Federação não tem poder de entrar na casa dos outros, nem a polícia tem. A polícia não tem o poder de invadir a casa de ninguém. Tem o poder de intimar, mandar chamar, de fazer esclarecimento. O que não resolver na delegacia vai pro tribunal de pequenas causas. E a mesma coisa é a Federação, o que a Federação tem que fazer é entrar em acordo com o dono da casa, mas se ele quiser seguir, achar que aquilo é o correto, o certo mesmo, ele segue. Ah!, na minha casa quem manda sou eu. Aí a gente não pode fazer nada e fica difícil.

Quanto ao Seringal, há uma previsão para a reabertura dos trabalhos?

Aqui já era pra ter voltado, mas não voltou ainda por falta de verba, porque isso aí tem me acidentado, e nós gastamos muito, é ferro, é a mão de obra, nós não temos ainda essa disponibilidade pra fazer isso. Estamos esperando pra dar continuidade. Hoje nós estamos, como você vê, com o barracão em obras, fizemos essa parte lá atrás, você vê que tudo custa dinheiro e a gente não pode fazer tudo da noite para o dia, falta construir a lage, fazer a divisão dos quartos de santo, o roncó, quartos para as pessoas trocarem de roupa. Então nós vamos dar uma atenção efetivamente pra aquele calendário daqui da casa depois que tiver isso tudo aí pronto, fazemos as águas de Oxalá, fazemos a festa de Ogum, a festa do Oxóssi, o Olubajé, fazemos a festa de Xangô, a festa das iabás e assim por diante.

Pela importância histórica desse terreiro, não há como conseguir alguma ajuda por parte do Governo do Estado, a Prefeitura?

O governo, eles fazem restaurações, mas pra terreiro não. Eu sinto aqui em Manaus que o tanto o governo quanto o prefeito não tem interesse nessas coisas. Os interesses deles são outros, os interesses deles são mais pelo poder que submete a massa, o povo, negócio de religião, principalmente “afro”, não importa, eles não dão importância. Todo projeto que vai pra prefeitura tem que passar pela Câmara, e quando tu diz “terreiro”, eles emperram. Como eu tô te falando, eles não tem interesse porque se tivessem eles faziam.

Então, dessa forma, a luta dos negros para realizar seus cultos, perseguidos, com todas as dificuldades, continua hoje com os adeptos das religiões afro-brasileiras?

É a mesma luta.


USAR O CONTROLE REMOTO É UM ATO DEMOCRÁTICO!

EXPERIMENTE CONTRA A TV GLOBO! Você sabe que um canal de televisão não é uma empresa privada. É uma concessão pública concedida pelo governo federal com tempo determinado de uso. Como meio de comunicação, em uma democracia, tem como compromisso estimular a educação, as artes e o entretenimento como seu conteúdo. O que o torna socialmente um serviço público e eticamente uma disciplina cívica. Sendo assim, é um forte instrumento de realização continua da democracia. Mas nem todo canal de televisão tem esse sentido democrático da comunicação. A TV Globo (TVG), por exemplo. Ela, além de manter um monopólio midiático no Brasil, e abocanhar a maior fatia da publicidade oficial, conspira perigosamente contra a democracia, principalmente, tentando atingir maleficamente os governos populares. Notadamente em seu JN. Isso tudo, amparada por uma grade de programação que é um verdadeiro atentado as faculdades sensorial e cognitiva dos telespectadores. Para quem duvida, basta apenas observar a sua maldição dos três Fs dominical: Futebol, Faustão e Fantástico. Um escravagismo-televisivo- depressivo que só é tratado com o controle remoto transfigurador. Se você conhece essa proposição-comunicacional desdobre-a com outros. Porque mudanças só ocorrem como potência coletiva, como disse o filósofo Spinoza.

Quer linha de corte? Este é esquizo. Acesse:

CAMPANHA AFINADA CONTRA O

VIRTUALIZAÇÕES DESEJANTES DA AFIN

Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

_________________________________

BLOG PÚBLICO

Propaganda Gratuita

Você que quer comprar entre outros produtos terçado, prego, enxada, faca, sandália, correia, pé de cabra ou bola de caititu vá na CASA UYRAPURU, onde os preços são um chuchu. Rua Barão de São Domingos, nº30, Centro, Tel 3658-6169

Pão Quente e Outras Guloseimas no caminho do Tancredo.
PANIFICADORA SERPAN (Rua José Romão, 139 - Tancredo Neves - Fone: 92-8159-5830)

Fique Frio! Sabor e Refrescância!
DEGUST GULA (Avenida Bispo Pedro Massa, Cidade Nova, núcleo 5, na Rua ao lado do DB CIdade Nova.Todos os dias).

O Almoço em Família.
BAR DA NAZA OU CASA DA VAL (Comendador Clementino, próximo à Japurá, de Segunda a Sábado).

Num Passo de Mágica: transforme seu sapato velho em um lindo sapato novo!
SAPATEIRO CÂNDIDO (Calçada da Comendador Clementino, próximo ao Grupo Escolar Ribeiro da Cunha).

A Confluência das Torcidas!
CHURRASQUINHO DO LUÍS TUCUNARÉ (Japurá, entre a Silva Ramos e a Comendador Clementino).

Só o Peixe Sabe se é Novo e do Rio que Saiu. Confira esta voz na...
BARRACA DO LEGUELÉ (na Feira móvel da Prefeitura)

Preocupado com o desempenho, a memória e a inteligência? Tu és? Toma o guaraná que não é lenda. O natural de Maués!
LIGA PRA MADALENA!!! (0 XX 92 3542-1482)

Efeitos Justos para Suas Causas.
ADVOGADO ARNALDO TRIBUZY - RUA COMENDADOR CLEMENTINO, 379, SALA C (8114-5043 / 3234-6084).

Decepcionado com seus desenganos? Ponha fé nos seus planos! Fale com:
PAI GEOVANO DE OXAGUIÃ (Rua Belforroxo, S/N - Jorge Teixeira IV) (3682-5727 / 9154-5877).

Quem tem fé naõ é um qualquer! Consultas::
PAI JOEL DE OGUM (9155-3632 ou paijoeldeogum@yahoo.com.br).

Belém tá no teu plano? Então liga pro Germano!
GERMANO MAGHELA - TAXISTA - ÁGUIA RADIOTAXI - (91-8151-1464 ou 0800 280 1999).

E você que gostaria de divulgar aqui seu evento, comércio, terreiro, time de futebol, procurar namorado(a), receita de comida, telefone de contato, animal encontrado, convites diversos, marocagens, contacte: afinsophiaitin@yahoo.com.br

Frente Blogueira LGBT

Outras Comunalidades

   

Categorias

Blog Stats

  • 3,167,285 hits

Páginas

julho 2014
D S T Q Q S S
« jun    
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031  

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 181 outros seguidores