Arquivo para a categoria 'Antropologia'

DIA MUNDIAL DA ÁGUA

 Hoje, dia 22 de março, é comemorado o Dia Mundial da Água.  A comemoração não fica por conta de uma realidade biológica-cultural, ou seja, a importância da água na vida dos seres vivos – e não vivos – que compõem a caosmose Vida. A fundamentalidade da água como elemento correspondente ao viver Humano.

       Não. A comemoração/comprometida fica por conta das manifestações de grupos, entidades, movimentos sociais em defesa da água em função do perigo que corre. Não só pela ameaça dos poluentes, mas também pela ameaça de que seja transformada em uma mercadoria de exploração capitalista por empresas multinacionais representantes do capitalismo predador (todo capitalismo é predador, isso é tautologia).

      O que poderia ser um ritual de graça e sublimidade, em razão de sua transcendência ontológica, é uma manifestação de preocupação contra a irracionalidade da ambição do lucro que ameaça os menores e maiores mananciais hidrográficos do mundo. Principalmente os da América Latina, como os da Bacia Amazônica. O Rio Amazonas, como exemplo de ser a maior abundância aquática internacional capaz de suprir necessidades da maior parte do mundo. Daí o olhar e as maquinações do capital internacional contra ele.

       A água como elemento natural universal será lembrada neste dia de hoje, 22 de março, pelas pessoas que acreditam que viver é se comprometer eco-bio-culturalmente, visto que a água é elemento-mineral coletivo. Mesmo que o capital-voraz tente privatizá-la.

 

“O HUMANISMO ESTÁ NO FIM”, DIZ PASOLINI


A entrevista a seguir foi publicada na segunda-feira, dia 19/12/2011, enviada por Luis Nassif, às 10:27, extraída por Raquel do IHU Online. A entrevista é interessante porque Pier Paolo Pasolini fala de temas que tanto nos seus livros como no cinema ele sempre tratou:  burguês, política,  humanismo, economia, marxismo, comunismo, socialismo, revolução e nos trás um tema atualíssimo que é o consumismo, que ele chama da mais nova revolução. Por estarmos na quadra natalina e de festas consumistas reverberamos na rede essa magnífica contribuição do cineasta italiano.

”Eu sei que muitos pensam que sou louco, mas o humanismo está no fim”. Entrevista com Pier Paolo Pasolini

Uma entrevista inédita com o escritor italiano Pier Paolo Pasolini, gravada em Estocolmo, na Suécia, no dia 30 de outubro de 1975, pouco antes da sua morte. “Não há mais católicos e marxistas no meu país. Venceu a revolução consumista”. O texto completo está publicado no novo número da revista Espresso.

A reportagem é do jornal La Repubblica, 16-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O senhor foi escritor, ainda é. Como decidiu fazer cinema?

Isso tem raízes distantes. Quando eu era jovem, tinha 18-19 anos, por um momento pensei em ser diretor. Depois, veio a guerra, e isso cortou por longos anos toda possibilidade e toda esperança. E depois houve circunstâncias: depois que eu publiquei o meu primeiro romance, Ragazzi di vita, que teve sucesso na Itália, fui chamado para fazer roteiros. Quando gravei Accattone, era a primeira vez que eu encostava em uma câmera. Ele nunca tinha feito nem uma fotografia, e nem agora eu sei fazer uma fotografia.

O senhor prefere atores não profissionais. Como trabalha? Busca um ambiente e, quando o encontra, escolhe as pessoas depois?

Não é exatamente assim. Se eu faço um filme de ambiente popular, pego pessoas do povo, isto é, não profissionais, porque acredito que é impossível para um ator burguês fingir que é um operário ou um agricultor. Soaria falso de modo intolerável. Ao contrário, se eu faço um filme de ambiente burguês, já que não posso pedir que um engenheiro, um médico ou um advogado venha ser ator para mim, eu pego atores profissionais. Naturalmente, falo da Itália, e da Itália de dez anos atrás. Se eu estivesse na Suécia, provavelmente pegaria atores, porque não há mais diferença entre um burguês e um operário na Suécia. Falo de um fato físico. Na Itália, há uma diferença assim como entre um branco e um negro.

Nos seus últimos filmes, não há elementos religiosos, não é?

Não estou tão certo de que não haja elementos religiosos nos meus últimos filmes. Nas Mille e una notte, também havia uma espécie de inspiração religiosa em todo o filme. Não havia religiosidade confessional, temas religiosos diretos, mas uma situação de mistério e de irracionalidade havia. Todo o episódio deNinetto, que é a parte central das Mille e una notte

O senhor participou do diálogo entre católicos e marxistas na Itália?

Não há mais marxistas e católicos na Itália, não há mais católicos na Itália.

Explique, então, qual é a situação.

Na Itália, ocorreu uma revolução, e é a primeira da história italiana, porque os grandes países capitalistas tiveram pelo menos quatro ou cinco revoluções, que tiveram a função de unificar o país. Penso na unificação monárquica, na revolução luterana reformista, na revolução francesa burguesa e na primeira revolução industrial. Mas a Itália, ao contrário, teve pela primeira vez a revolução da segunda industrialização, isto é, do consumismo, e isso mudou radicalmente a cultura italiana em sentido antropológico. Antes, a diferença entre operário e burguês era como entre duas raças. Agora, essa diferença quase não existe mais. E a cultura que foi mais destruída foi a cultura camponesa, que era então católica. Assim, o Vaticano não tem mais sobre as costas essa enorme massa de agricultores católicos. As igrejas estão vazias, os seminários estão vazios. Se você vai a Roma, não vê mais filas de seminaristas que caminham pela cidade, e, nas duas últimas eleições, houve um triunfo do voto secular. E os marxistas também foram mudados antropologicamente pela revolução consumista, porque vivem de outro modo, em uma outra qualidade de vida, em outros modelos culturais e também foram mudados ideologicamente.

São marxistas e consumistas ao mesmo tempo?

Há essa contradição, todos aqueles que são declaradamente marxistas, mesmo que votem em marxistas, são ao mesmo tempo consumistas. Não só isso: o Partido Comunista Italiano aceitou esse desenvolvimento.

Mas quando o senhor fala de marxistas, fala do Partido Comunista ou de outras facções?

Sim, dos comunistas, socialistas, extremistas. Por exemplo, os extremistas italianos jogam bombas e depois, de noite, assistem à televisão, Canzonissima [programa de variedades da RAI], Mike Bongiorno [famoso apresentador de TV italiano].

Ainda existe a sociedade de classes?

As classes existem, mas – e este é o ponto original da Itália – a luta de classes é no plano econômico, não mais no plano cultural. Agora, a diferença é econômica entre um burguês e um operário, mas não há mais diferença cultural entre os dois.

E o novo movimento fascista?

O fascismo acabou, porque se apoiava em Deus, família, pátria, exército, todas as coisas que agora não têm mais sentido. Não há mais italianos que, diante da bandeira italiana, se comovam.

Há, portanto, uma dissolução da sociedade italiana de hoje, não é verdade?

Eu considero o consumismo um fascismo pior do que o clássico, porque o clérico-fascismo, na realidade, não transformou os italianos, não entrou dentro deles. Foi totalitário, mas não totalizante. Só um exemplo que posso dar: o fascismo tentou, durante todos os 20 anos em que esteve no poder, destruir os dialetos. Não conseguiu. Ao contrário, o poder consumista, que diz querer preservar os dialetos, os está destruindo.

Faça uma profecia, seja Tirésias. Há esperança no futuro?

Deveria ser mais Cassandra do que Tirésias. Perguntei hoje a dez jovens suecos com quem falei, fiz-lhes esta pergunta: vocês ainda se sentem mais próximos da civilização humanista ou já se sentem dentro da civilização tecnológica? E me parece que eles responderam, tristemente, contudo, que eles se sentem como a primeira geração de cerca de 30 gerações diferentes daquilo que tem havido até agora. E, para concluir, tudo o que eu disse, eu o disse a título pessoal. Se vocês conversarem com outros italianos, eles lhes dirão: “Aquele louco do Pasolini”…

Extraído do blog do Luis Nassif Online

CACIQUE RAONI FOI ATÉ PARIS TENTAR APOIO CONTRA A CONSTRUÇÃO DA USINA BELO MONTE

Trajando indumentária própria de sua etnia, o cacique Raoni chegou à França, propriamente em Paris, em busca de apoio para sua causa: protestar contra a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, no estado do Pará.

Chegando a Paris, Raoni recebeu o título de honra e uma relação de um abaixo-assinado com mais 100 mil assinaturas lançado há mais de um ano pelo site Raoni.com instalado na França.

Raoni, que deverá ficar na terra do filósofo Sartre até outubro vem recebendo apoio em sua luta contra a construção da Usina de Belo Monte dos atores Vincent Cassel e Marion Cotillard, e também do diretor de ficção de consumo da indústria filmográfica hollywoodiana James Cameron.

Raoni tem todo direito e dever de lutar contra a construção da Usina, agora que ao se juntar com Cameron sua causa perde o brilho natural, isso perde. Cameron não tem o espírito dos que compreendem a Natureza como Substância com atributos e modos fundantes do Existir que se movimentam naturalmente encadeada com o Homem-Natura. Natureza, para Cameron, é uma dissipação abrigada nos opressores fundamentos do capitalismo. A Natureza, para o ficcionista-fílmico, é o território da exploração e do lucro dissimulada em manto divinal. O que permite ao incauto a ilusão de que ele sente o Natural que é a Vida.

Para Cameron, a Natureza não é vida, mas uma abstração que ele toma como realidade.

FOSSO DE MAIS DE 50 ANOS ENCONTRADO NO CONGRESSO TEM FRASES POLÍTICAS DE TRABALHADORES QUE CONSTRUIRAM BRASÍLIA

Um fosso de mais de 50 anos desconhecido pelos que transitam pelo Congresso Nacional foi descoberto por funcionários terceirizados da Câmara Federal. Seria apenas uma descoberta, talvez, arquitetônica da história de Brasília se em sua parede não estivessem algumas frases escritas pelos trabalhadores que construíram Brasília, exatamente a mais de 50 anos.

Embora, em primeira leitura as frases levem para um entendimento simples, entretanto algumas delas, observando sua construção, enunciam uma premonição em relação à realidade brasileira partindo daquele tempo ao tempo atual.

“Duraleques CE de lequis”, diz uma frase. “Amor, palavra sublime que domina qualquer ser humano”, diz outra frase. “Si todos os brasileiros focem digninos de honra e honestidade, teríamos um Brazil bem melhor. Só temos uma esperança nos brasileiros de amanhã. Brazil de hoje, Brazil de amanhã”, diz mais outra. “Que os homens de amanhã que aqui vierem tenham a compaixão dos nossos filhos e que a lei se cumpra”, outra frase entre tantas.

A realidade política, social, econômica, trabalhista, familiar, e mesmo religiosa, que esses operários viviam no momento em que empregavam sua força de produção para construir a capital do Brasil – que ainda se escrevia com z – estão ligadas diretamente aos seus depoimentos fraseológicos. Todas as inscrições mostram situações particulares, mas com forte sentido coletivo. Expectativas, sonhos, incerteza, muitas afecções formavam seus estados de operários que se deslocaram de seus estados para participarem da grande ansiedade de JK.

Muitas promessas lhe foram feitas em troca de suas forças de produção, como terem direito a morar no plano piloto. Mas a lei que um deles evocara para que ela fosse cumprida, não se realizou. Todos que permaneceram em Brasília foram jogados para periferia da capital arquitetônica, condenados a existirem em condições subumanas. Até que suas sortes mudassem.

Essa a importância dessa descoberta para muitos que ainda encontram-se vivos, e para os que pretendem pensar o Brasil, hoje, já sem z. Um Brasil sem z “que os homens de amanhã (hoje) que aqui vierem (vieram) tenham compaixão dos nossos filhos”. Não tiveram, e não estão tendo, porque não sentem que o “Amor, (é) palavra sublime que domina qualquer ser humano”. O amor para os homens que não cumprem a lei é apenas um conceito que serve para ser usado nos seguimentos das buscas dos usufrutos pessoais.

Para os que vieram depois, os do “amanhã”, os não amantes, nada de, Dura Lex, Sed Lex. A lei é dura, mas é lei. “Se todos os brasileiros focem dignino de honra e honestidade, teríamos um Brazil bem melhor”. 

COM O ESTADO AUSENTE EM BELO MONTE, REPRESENTANTES DOS CONSÓRCIOS SE PASSAM POR AGENTES DO ESTADO

Estar ocorrendo uma situação de “ausência absoluta do Estado” na obra do Programa de Aceleração do crescimento (PAC), a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, afirmou o órgão consultivo do governo, Conselho Nacional Direitos da Pessoa Humana (CDDPH). A constatação foi feita na reunião do conselho, que contou com a presença da ministra Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

Segundo Percílio de Souza Neto, conselheiro, vice-presidente do CCDPH, que participou da uma visita ao local da obra, vários funcionários do consórcio estão usando o nome do Estado para intimidarem, coagirem famílias para abandonarem suas propriedades em benefício da obra.

Constatamos ausência absoluta do Estado. É uma terra de ninguém. Há problemas de todas as ordens. Há exploração sexual de crianças, ausência do Estado no atendimento aos seguimentos mais básicos. O que constatamos é um flagrante desequilíbrio entre o consórcio e as populações ribeirinhas, as etnias indígenas e outras comunidades tradicionais existentes naquelas regiões.

Esse conselho não pode ignorar esse tratamento chocante. Há pessoas indefesas pedindo a nossa ajuda, e esse é nosso papel.

Os representantes dos consórcios, totalmente despreparados, se arvoram de representantes do Estado brasileiro. O que nos constatamos é que as condicionantes não estão sendo cumpridas”, ajuizou o conselheiro.

De acordo com a avaliação de Percílio de Souza Neto, o poder político na região está sendo exercido pela responsável pela obra e pelo consórcio Norte Energia.

Por sua vez, Sadi Pansera, conselheiro, assessor da Ouvidoria Agrária Nacional, órgão do Ministério do Desenvolvimento agrário, narrou o ocorrido com um morador vítima da violência dos representantes do consórcio quando teve sua residência invadida e foi ameaçado covardemente para deixar sua propriedade.

Um trabalhador rural, pai de família, que vive na Terra do Meio, estava em sua hora do almoço. Ele relatou que chegaram na casa dele, não quiseram se sentar, e disseram: ‘Ou você assina aqui ou não vai receber nada e será expulso’. Ele me perguntou: ‘Que democracia é essa? Como pode, uma pessoa que eu nem conheço, chegar na minha casa, na hora do almoço, e diz o que quer? Quer tomar minha propriedade onde criei meus filhos com todo carinho”, narrou Sadi.

Já a procuradora Ivana Farina Navarrete Pena, representante do CDDPH do Conselho Nacional dos Procuradores dos estados e do Ministério Público Federal, disse que o governo não está realizando as checagens dos cumprimentos das condicionantes, porque os agentes do IBAMA, que atuam em Anapu, têm que se deslocar para Belém, quando antes se reportavam para a superintendência de Altamira.

Isso significa mais demora para uma resposta. O Estado brasileiro não está fazendo a checagem para o cumprimento das condicionantes porque não tem como fazer”, disse Ivana.

As denúncias feitas pelo CDDPH se assemelham com as denúncias feitas pela Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que forçou a medida cautelar expedida pela Organização dos Estados Americanos (OEA), que pede a imediata suspensão do processo de licenciamento da obra da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.

A ministra Maria do Rosário, depois de ouvir os relatos, manteve a posição do governo federal de repúdio ao pedido da OEA, e pediu que o CDDPH promova uma reunião extraordinária com a presença dos representantes do consórcio, mas a participação de membros das comunidades.

O governo tem uma posição crítica em relação à comissão (CIDH), mas isso não significa que não tenhamos consciência de que temos que agir. Há procedimentos internos no Brasil que não estão encerrados”, afirmou a ministra.

RELATÓRIO DE VIOLÊNCIA CONTRA OS POVOS INDÍGENAS: 60 ÍNDIOS ASSASSINADOS

Em 2009, 60 índios foram assassinados, 16 tentativas de homicídio e 19 suicídios, esta é a estatística da violência no campo contra os povos indígenas, que será divulgada pelo documento do Relatório de Violência Contra os Povos Indígenas do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

A causa principal pelas mortes dos índios é a disputa de terra que se encontra diretamente ligada à “omissão do Poder Público”, afirmou o vice-presidente do Cimi, Roberto Antônio Liebgott. Para ele, esses conflitos poderiam ser resolvidos se o estado realizasse as demarcações. De acordo com o Cimi, 24 terras indígenas já foram identificadas pelos grupos de trabalho, e 64 já com portarias declaratórias do Ministério da Justiça, em processo para homologação presidencial.

Ainda segundo o Cimi, a maioria das mortes ocorrem em aldeias que se encontram instaladas entre as fazendas e as beiras de estradas. Exemplo constatado pelo Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana quando da visita em março desse ano nas aldeias Guarani Kaiowa e Guarani Ñandeva, no município de Dourados no Mato Grasso do Sul.

E é exatamente no Mato Grosso do Sul que se concentra o maior número de assassinatos de índios com 53% dos casos correspondendo a 33 índios mortos. Além do Mato Grosso do Sul, o relatório do Cimi mostra conflitos entre fazendeiros e índios em Tupinambá, ao sul da Bahia. O relatório afirma também que em junho do ano passado a Polícia Federal, em uma operação de desinstrução nas dunas dos municípios de Ilhéus, Una e Buerarema, prendeu e torturou cinco indígenas.

Para a antropóloga que coordenou a pesquisa para a elaboração do relatório, Lúcia Helena, essas ocorrências demonstram que a sociedade brasileira e o Estado são “racistas”, cujo preconceito contra os índios é “uma situação histórica que não se alterou. A dificuldade de aceitarmos os direitos dos indígenas e de outros segmentos da população é da nossa formação social. O Cimi faz o relatório desde 1993, mas poderia fazer desde 1500 que encontraria esse quadro. A lei não faz a cabeça de ninguém. A sociedade brasileira produziu uma sociedade anti-indígena. Formamos uma sociedade que se constituiu sobre outra. Por isso consideramos as manifestações culturais dos índios como menores”, analisou Lúcia Helena.

3° ENCONTRO DE CINEMA NEGRO BRASIL, ÁFRICA E AMÉRICAS

zumbi

Zumbi

Com as presenças do ministro Edson Santos, da Igualdade Racial, e o presidente da Fundação Palmares, Zulu Araujo, foi aberto ontem, dia 9, no Centro Cultural da Justiça Federal, no Rio de Janeiro, o 3º Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Américas, que apresentará 48 obras distribuídas em várias salas do Rio, até o dia 18, e terá também atividades no cine Odeon-Petrobras, Centro Afro-Carioca de Cinema, em uma tenda armada na Lapa e no Espaço Tom Jobim.

O nosso quilombo cinematográfico, o nosso ponto de resistência”, afirmou o curador do Encontro, ator, roteirista e cinegrafista Zózimo Bubol, sobre o evento que exibirá longas de ficção, médias e curtas metragens. Sendo 29 brasileiras, 14 africanas, 5 caribenhas, 5 norte-americanas, 1 canadense e 1 colombiana.

Falando sobre o objetivo do Encontro junto à África, Zízimo Bulbol disse: “Nossa meta é promover o diálogo entre Brasil e África e mostrar que há muitas semelhanças entre as duas culturas, mesmo depois de tanto tempo de ruptura”. Ainda comentando sobre a produção cinematográfica da África, Bubol, observou: “A produção de filmes na África é enorme, só a Nigéria faz 300 filmes por ano. Nós estamos na faixa dos trinta e quando temos mais produções, como agora, é uma festa. O governo fez a lei para mais cinemas nas cidades brasileiras, mas quero ver as obras”.

O documentário Barracão – Um Olhar Carnavalesco, que levou um ano para sua produção, do diretor Walter Xavier, 41 anos, com formação profissional em edição de som e imagem na França, é a prova da relação estreita entre as culturas brasileiras e africanas. O documentário apresenta como personagem principal o carnavalesco Wagner Gonçalves e mostra o processo de construção do desfile de uma escola de samba, começando no barracão, chegando à avenida.

A escola é Acadêmicos de Cubango, de Niterói, que desfilou homenageando Mercedes Batista, a primeira bailarina negra do corpo de baile do Municipal, nos anos 40. É um documentário sobre uma escola de samba que vai fazer 50 anos mês que vem e que tem origem em uma comunidade negra de Niterói”, comentou Walter Xavier.

Lévi-Strauss, o totem da bricolage estruturalista

Claude Lévi-Strauss

Je hais les voyages et les explorateurs. Et voici que je m’apprête à raconter mes expéditions.

Assim o etnólogo belga Claude Lévi-Strauss inicia o livro Tristes Tropiques, onde conta sua viagem ao Brasil e sua missão importante: criar a Universidade de São Paulo, onde lecionou de 1934 a 1938, além de participar de várias expedições, dentre elas a principal organizada por Castro Faria. O fato de odiar as viagens e os exploradores fez dele um grande etnólogo enciclopedista. As grandes bibliotecas, onde ele passava a maior parte do tempo era muito mais que um território repleto de livros, conceitos e definições, mas o lugar onde o estruturalismo foi territorializado com força total. A amizade com Roman Jakobson foi fundamental para o desenvolvimento do daquilo que naquele momento histórico era uma revolução: o pensamento selvagem não é uma determinação utilitarista, quebrando com o utilitarismo até então levado a sério pelos que acreditavam em Malinowski. Os nativos tem suas teorias. Vemos aqui a gênese do badalado perspectivismo ameríndio, de Eduardo Viveiros de Castro.

Porém o projeto levi-straussiano é muito mais ambicioso. Ele segue a linha da escola Sociológica Francesa, com Durkheim, mas principalmente com Marcel Mauss, define o princípio fundamental da humanidade: a estrutura do pensamento, tentando criar uma teoria do conhecimento. “Os limites das estruturas elementares encontra-se nas possibilidades biológicas”, ele diz em seu livro As estruturas elementares do parentesco, trazendo ao primeiro plano as questões levantadas no século XVIII pelos cientistas, dentre eles o médico Gabriel Itard em seu livro Rapports et mémoires sur le sauvage de l’Aveyron, sobre o caso do garoto selvagem que desiludia os cidadãos parisienses ao colocar em risco a condição da civilização. E quem gosta de cinema pode aproveitar para assistir a performance de François Truffaut como Gabriel Itard no seu cinema L’enfant Sauvage, onde ele coloca essas questões a partir da leitura das memórias de Itard.

clstrauss

E falando nisso, o livro As estruturas elementares do parentesco foi dedicado a Lewis H. Morgan, considerado por Lévi-Strauss um importante executor do projeto do estudo do parentesco. O método estruturalista na antropologia feita por Lévi-Strauss é uma tentativa de entendimento da mente humana, cientificamente (porque na sua opinião somente a linguistica poderia servir a esse propósito científico) o levou a atualizar a definição de estrutura. Demarcando muito bem a diferença entre a estrutura da escola estrutural-funcionalismo. A estrutura de Lévi-Straus possui elementos universais – a priori – que compõem a mente humana, formados independentemente do tempo/história que estruturam o pensamento humano. Daí o grande combate entre Sartre e Lévi-Strauss sobre o abandono da História, pois durante parte de sua obra, Lévi-Strauss dedicou-se no embate à História como motor da sociedade. A ausência de documentos históricos e a arbitrariedade dos relatos antigos não eram considerados entraves para quem tinha como objetivo chegar às estruturas inconscientes e universais da mente humana. De certa forma, dando continuidade ao projeto kantiano, Lévi-Strauss propõe propõe uma empresa na qual não vê possibilidades de introduzir um trabalho de investigação histórica, além disso “o etnólogo respeita a história, mas não lhe dá um valor privilegiado”, pois de certa forma a estrutural mental da humanidade é a mesma não importando as diferenças entre os povos.

Um mundo dualista que funciona através da troca

O Ensaio Sobre o Dom, de Marcel Mauss é a grande inspiração para Lévi-Strauss produzir As estruturas elementares do parentesco. O princípio da reciprocidade é um dos componentes do conjunto da troca, na qual suas leis se estendem aos objetos, bens e mulheres. É ele que inaugura a civilização (também dando continuidade ao projeto evolucionista de Morgan, porém com um maior refinamento). A troca é comunicação. Lévi-Strauss quer mostrar que a troca não é apenas uma característica primordial de sociedades primitivas, mas evidente em diversas instancias das sociedades contemporâneas. O Dom se encontra nos convites, festas e presentes, nas trocas matrimoniais desde tempos remotos até os dias de hoje. Afinal, o casamento representa uma abertura ou desenvolvimento do ciclo de trocas.

A proibição do incesto inaugura a passagem da natureza para a cultura e a inclusão das mulheres nesse circuito de troca confirma o caráter de fato social total, pois inclui os aspectos sexual, econômico, jurídico, social do sistema que constitui o casamento. Princípio de reciprocidade, não de comércio.

No texto Introdução à obra de Marcel Mauss, que encontramos no livro Sociologia e Antropologia, Lévi-Strauss não cansa de tecer elogios ao que ele chama de a obra-prima de Marcel Mauss, quando demonstra o fato social total e o social como realidade. Mauss deixou o caminho aberto para futuras incrementações do trabalho, deixando um rastro do que Lévi-Strauss desenvolveu como Sistema Simbólico. É evidente que Mauss buscava ligações com outras ciências e Lévi-Strauss aproveitou o fato para trazer a lingüística e até mesmo a matemática, estruturalizando do Ensaio sobre o Dom. Ele tem razão em admitir o esforço de Mauss em transcender o empírico, transformando o Ensaio num estudo aprofundado e propondo uma teoria, porém há um exagero em forçar Mauss a chegar na estruturas do inconsciente. Assim como “Moisés” conduziu seu povo à terra prometida e não pôde desfrutar do paraíso, Mauss abriu as portas para o sistema simbólico. Assim Lévi-Strauss captura o Dom e o introduz no mundo do Sistema Simbólico estruturalista, e o hau perde sua importância dando lugar ao mana, que seria agora levado ao caráter relacional do pensamento simbólico. A estrutura Dar, Receber, Retribuir sai do plano empírico e se transforma num exercício do pensamento simbólico. O mana agora é um significante flutuante. Lévi-Strauss esvaziou o inconsciente e incorporou ao Ensaio àquilo que Deleuze e Guattari, no Anti-Édipo, chamam de imperialismo do significante, um despotismo que esvaziou a rede de complexidade do socius. Uma busca desenfreada de um cientificismo para justificar postulados de suas abstrações. O Ensaio foi tirado do plano da práxis e levado ao plano da abstração quando o Dom foi submetido à leis e forçado ao salto do estado de selvageria à civilização.

Lévi-Strauss viu que Polinésia, Melanésia, noroeste americano, as sociedade indo-européias tinham algo em comum: estruturas com uma teoria sobra a dádiva cercando-as, sustentando-as, assim como também são encontradas nas sociedades atuais. O potlatch é um contrato arraigado e profundo, constatou Mauss; o potlatch é uma estrutura que perpassa todas as sociedades, completa Lévi-Strauss. A obrigação da dívida se funda no caráter inconsciente e universal da troca, seja matrimonial ou qualquer outra instituição.

O espetáculo da cura

Outra questão que muitos levaram a sério foi a análise da crença, um sistema com três aspectos complementares: crença do feiticeiro em suas técnicas; a crença do doente no feiticeiro; a crença coletiva nesse sistema. A psicologia do feiticeiro é simples e depende da tripla experiência dos envolvidos: a experiência de estados específicos na psicossomática do xamã; a do doente que experimenta ou não a cura; e a experiência do público também faz parte da cura, comprovando a participação coletiva do grupo. A diferença da técnica ocidental é que aqui o papel do doente não ocupa destaque no sistema. A questão fundamental é a relação entre o indivíduo e o grupo. O rito de cura Lévi-Strauss chama de espetáculo do chamado da crise inicial que causou a doença. O xamã revive o acontecimento em toda sua vivacidade, originalidade e violência, para em seguida retornar ao normal. Empresta o termo psicanalítico da ab-reação, para afirmar que o xamã é um ab-reator profissional, com a diferença de papéis. Na sessão psicanalítica é o paciente que ab-reage, a cura consiste em tornar pensável uma situação do plano coletivo, um evento aceitável ao espírito, mas que o corpo não tolera. No caso do complexo xamanístico, a ab-reação se torna uma ad-reação, pois o psicanalista escuta enquanto o xamã fala. A eficácia simbólica torna possível a harmonia do sistema: o xamã fornece o mito e o doente executa as operações. É uma espécie de “propriedade indutora” que possui estruturas formalmente homólogas que se edificam nos processos orgânicos, psiquismo inconsciente e pensamento refletido.

Na associação entre xamanismo e psicanálise, Lévi-Strauss enfatiza a noção de mito e a noção de inconsciente, como a relação das duas fornece mecanismos para a cura neste complexo. As leis de estrutura são intemporais e formam o conjunto do inconsciente. O inconsciente lévi-straussiano foge à particularidade do tão negligenciado inconsciente freudiano: de refúgio ou depositário das questões individuais, de uma história única, pessoal e insubstituível. A função simbólica do inconsciente estruturalista se compõe dessas leis universais da estrutura. O mundo do simbolismo é diverso por seu conteúdo, mas limitado por suas leis, por isso Lévi-Strauss se empenha no estudo da forma e não do conteúdo.

Mito, linguagem, música

Partindo do pressuposto de que o mito é linguagem e é impossível de se compreendê-lo como uma sequência contínua, Lévi-Strauss estabelece duas características básicas dos mitos: a primeira é que o mito é formado por unidades constitutivas; a segunda, é que essas unidades implicam na presença das mesma unidades básicas da língua (fonemas, morfemas e semantemas).

Mas havia uma questão: como ele poderia reconhecer e isolar as unidades constitutivas dos mitos ou mitemas? A resposta leva a uma investigação no nível da oração, uma análise estrutural. “Todas as unidades constitutivas consistem em relações”. A partir daí, ele impôs que essas relações não estavam isoladas, mas constituíam um feixe de relações que combinados entre si adquiriam uma função significante. A análise estrutural consiste em ordenar todas as variantes do mito conhecidas numa série, formando um grupo de permutações, na qual as variantes extremas formam uma estrutura simétrica e inversa.

A música e o mito se originaram na linguagem e tomaram direções diferentes: na construção fonema-palavra-frase que existe na linguagem, em música não existe o equivalente à palavra, o que seria nota-frase musical; no mito o que prevalece é o sentido. Ao tentar entender a relação entre linguagem, mito e música é preciso utilizar a linguagem como ponto de partida.

A música se destaca pelo som e o mito pelo sentido, por isso, o mito deve ser estudado como se estuda uma sinfonia. Para uma análise do mito, a linguística e na música são complementares, pois a música possui um alto grau de organização tão profundo que cria uma espécie de parentesco com a linguagem. O mito e a música “são máquinas de suprimir o tempo”, por essa razão superam a oposição de um tempo histórico e findo entre uma estrutura permanente. Assim como uma obra musical, o mito possui um aspecto externo, constituído por um conjunto de acontecimentos históricos que cada sociedade utiliza para formar as várias versões dos mitos; e um aspecto interno, que envolve o caráter psicofisiológico, tais como as ondas cerebrais, ritmos orgânicos, memória, atenção. Eis que seu grande projeto ganha uma sofisticação maior: a imposição do modelo musical para refinar a análise do mito, iniciada com a linguística. Mito, música e linguagem são três elementos com origens comuns e possuem papéis complementares, a música pega “pelas entranhas”, o mito pelo grupo.

A tarefa estruturalista

Ainda hoje há pessoas que absorvem o código despótico do estruturalismo e se assumem como pesquisadores das estruturas elementares, seja de maneira refinada e pós-moderna, seja démodé (ainda procurando os mitemas em todos os lugares). “O estruturalista tem por tarefa identificar e isolar os níveis de realidade que têm um valor estratégico do ponto de vista em que ele se coloca, ou, em outras palavras, que podem ser representados sob forma de modelos, qualquer que sejam a natureza destes últimos”. Lévi-Strauss deixou esse mundo que acreditava dualista, binário no último sábado. Ele foi um grande bricoleur que inventou e sistematizou o mundo de tal maneira que seus modelos ainda fascinam os que optam pelas facilidades da estrutura e respondem às leis universais.

MANAUS, MANAUS, MANAUS… DESPERTA, MANAUS!

Fotos: AFIN

Fotos: AFIN

Hoje é dia 24 de outubro de 2009. Em 24 de outubro de 1848, a Lei Nº 145, promulgada pela Assembleia Provincial do Pará, instituiu Manaus como cidade com o nome Barra do Rio Negro. Entretanto, foi exatamente em 4 de setembro de 1856, que se instituiu como cidade de Manaus.

Em decorrência de posições antagônicas políticas e econômicas que pretendiam maior independência local para se livrar das decisões vindas do Pará, em 5 de setembro de 1850, o Imperador Dom Pedro II sancionou o projeto aprovado pela Câmara, criando a Província do Amazonas.

Na luta pela independência do Amazonas, destacou-se um personagem: João Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha. Visto pelo Império como um homem de confiança, foi nomeado pelos colonizadores em 7 de julho de 1851, tornando-se governador da Província do Amazonas. Hoje, nos livros didáticos, considerado o primeiro governador do Amazonas.

As lutas política, econômica, social e cultural para tornar o Brasil República alcançaram seus objetivos em 1889, quando o Brasil tornou-se uma República Federativa. Foi assim que, em meio a essa nova realidade política brasileira, o Amazonas livrou-se do julgo da condição de Província, passando a ser Estado.

MANAUS, QUE CIDADE!

A Terra, como planeta errante, está duplicada em Substância-Natureza-Naturante e Cultura. A Cultura é a produção humana emergida como produto criativo dos sentidos e da razão. Embora o homem seja natureza, seus atos estão mais relacionados aos seus objetos e ideias culturais. Cultuando os significados culturais, ele os toma como sua própria vida e reage de acordo com esses enunciados.

Esta semana, em Manaus, as escolas, órgãos do governo e entidades particulares se esmeraram em cultuar a data considera como de comemoração do aniversário da cidade. Os professores mandaram os alunos pesquisarem sobre a história de Manaus, os órgãos governamentais estimularam seus agentes com a névoa manauara, assim como as entidades particulares. Uma espécie de memória orgulhosa de seu passado. Mas há uma certa ironia neste passado orgulhoso. Foi exatamente a natureza quem proporcionou o elemento que iria dar à cidade a sua face cruel. Iria mostrar o quanto é fantasiosa essa cultura. O badalado ciclo do látex, também conhecido como ciclo da borracha. A borracha, que serviu muito para seus exploradores, mas não serviu para apagar a memória do sofrimento causado nesse período.

Triste tropicalidade. Um clima e uma vegetação mostram a tara das classes exaltadoras da cultura. A Manaus-Paris foi construída sobre os sofrimento dos índios, caboclos, mestiços e nordestinos para fazer valer as fantasias e os delírios capitalistas no fim do século XIX e começo do século XX.

E é exatamente esse fator passado cruel que mais domina a consciência social de grande parte dos manauaras, principalmente dos governantes. A Paris que nunca fomos. A não ser em nossa imaginação colonizada, que não nos permite sequer elevar-nos à condição de província. Manaus, triste trópico, que, não tendo a alegria para comemorar, comemora a dor.

Que memória a nossa! Um passado que alcançamos porque não somos felizes hoje. Em nós, o filósofo Nietzsche é confirmador: “Apenas o que não cessa de causar dor fica na memória”.

Então, passeemos com essa memória. Deleitemo-nos com essas fotos da arquitetura cidade-fantasma em nossa pós-modernidade urbana do “novo” fantasmal.

Fotos: AFIN

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AS 7 MARAVILHAS DA NATUREZA QUE ELA NÃO SABE

O homem é natureza. Naturado ele é racional. Racional ele cria um mundo artificioso. Cria valores ideais e materiais. Age e julga segundo estes valores. Assim, seleciona, classifica e hierarquiza seus objetos e idéias. É sua antropomorfização de seu mundo, e aí, também, da natureza. A natureza é significada por estes valores antropomorficantes.

Mas a natureza em si mesma não tem valores. Como Substância causa e efeito de si mesma, com seus atributos e modus de ser, ela se movimenta em devires múltiplos se engendrando como continuum infinito. Univocidade de sua própria manifestação. Intensidade que os signos mistificados e mitificados produzidos pelo homem não podem capturar. Por tal, na natureza nada é belo e nada feio, nada é bom e nada é mau, nada é perfeito e nada é imperfeito, nada expressa a máxima subjetiva humana. Antes do homem ser engendrado na terra, ela já insistia (movimentava-se) em sua Vontade de Potência inesgotável, sem precisar de nenhum predicado, ou pressuposto que a identificasse como sendo isto ou aquilo. Necessário ou supérfluo.

AS 7 MARAVILHAS PARA O HOMEM

Movido por sua própria produção moral, representada por uma estética judicativa, o homem, não satisfeito com seu narcisismo cultural, que atribui a si mesmo ser de ‘teológica’ genialidade capaz de criar obras arquitetônicas, e depois classificá-las como as “maiores maravilhas do mundo”, como se ele fosse um deus estranho a estas obras, resolveu classificar as composições naturais de maravilhas, segundo seus próprios reflexos narcísicos.

Desta forma, selecionou entre 77 modus de ser da Substância Natureza-Naturante, 28 considerados como maravilhas da natureza de onde escolherá 7 a serem anunciadas, em 2011, como representantes das maravilhas da natureza. Votação de escolha feita pela internet.

Embora a iniciativa seja do suíço Bernard Weber, entretanto tem a aprovação e o incentivo de vários seguimentos ligados à abstração classificadora do capital.

E para nossa preocupação, a natureza brasileira também se encontra arrolada nesta abstração classificatória. Entre o Grand Canyon (nos Estados Unidos), Grande Barreiras de Recifes (na Oceania); Mar Morto, Oriente Médio e Monte Kilimanjaro (na Tanzânia), encontram-se a Amazônia e as Cataratas do Iguaçu.

Um fato preocupante para a Amazônia, já que a maioria daqueles que falam de sua preservação, de sua biodiversidade, e de sua exploração sustentável são movidos por idéias místicas e míticas produzidas pelas ilusões e sonhos da razão. Abstrações que nada carregam de científico, filosófico, e muito menos ético. Para esta maioria, a natureza tem uma causa exterior a si, como afirma o filósofo, Clément Rosset. O que ofusca um entendimento racional da natureza. Pois quando não lhe atribuem uma causa teológica, atribuem-lhe causa naturalista, nunca uma concepção do acaso.

Classificada entre as 7 maravilhas, aí que vai exacerbar o entendimento abstrato da Amazônia que têm os ‘políticos’, principalmente do Amazonas, que vêem em qualquer enunciado favorável à Amazônia um julgamento de valor aos seus atos, sejam legislativos ou executivos. Dirão eles: “Agora, além da Copa, vamos atrair muitos turistas e investimentos com a Amazônia incluída nas 7 Maravilhas da Natureza”. Entendimento que coloca em maior perigo a própria Amazônia.


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VIRTUALIZAÇÕES DESEJANTES DA AFIN

Este é um espaço virtual (virtus=potência) criado pela Associação Filosofia Itinerante, que atua desde 2001 na cidade de Manaus-Am, e, a partir da Inteligência Coletiva das pessoas e dos dizeres de filósofos como Epicuro, Lucrécio, Spinoza, Marx, Nietzsche, Bergson, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Clément Rosset, Michael Hardt, Antônio Negri..., agencia trabalhos filosóficos-políticos- estéticos na tentativa de uma construção prática de cidadania e da realização da potência ativa dos corpos no mundo. Agora, com este blog, lança uma alternativa de encontro para discussões sociais, éticas, educacionais e outros temas que dizem respeito à comunidade de Manaus e outros espaços por onde passa em movimento intensivo o cometa errante da AFIN.

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes” (Friedrich Nietzsche).

Daí que um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Pode até ser. Mas um filósofo é alguém que em seus percursos carrega devires alegres que aumentam a potência democrática de agir.

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