
Depois da estupidez racista-homofóbica do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), nos estados apareceram diversas manifestações do mesmo preconceito baseado no medo, na hipocrisia e brutalidade advindos do mais baixo grau de inteligência. O Amazonas, como não poderia faltar, está representado, tendo como líder dessa representação o deputado estadual, pastor da Assembleia de Deus, amicíssimo do clã Câmara, Wanderley Dallas (PMDB).
Na semana passada, em discurso na Assembleia Legislativa do Amazonas (Ale-AM), Dallas disse a respeito da PLC 122, lei que pune a homofobia que está tramitando no Congresso, que “essa é uma lei vergonhosa, que finge proteger a prática homossexual, porém, sua intenção real é colocar uma mordaça na sociedade e criminalizar os que são contra o comportamento homossexual”.
As balas de Dallas são de um franco atirador tentando inverter a situação real em suas fantasias individuais, muito diferente do que diz – ou deveria dizer – respeito a um parlamentar. A lei que pune a homofobia é justamente para proteger a sociedade de um crime hediondo praticado constantemente. O crime que não só tenta colocar uma mordaça nos homoeróticos, mas que também exclui, tortura e mata. Dallas, sem ter um buraquinho por onde passar a inteligência, como diria Deleuze, não percebe que ir contra o comportamento homossexual é um crime; pior, é uma aberração, pois se o mundo é gay não há razão para lutarmos contra o que não somos.
Em sua total redução intelectiva, Dallas manda mais balas. “Criticar é um direito garantido na Constituição e, isto, é uma mordaça à livre manifestação do pensamento.” Mas ninguém tema, já que a arma de balas bateu o catolé. Criticar é analisar uma matéria em seus pormenores a partir da razão, como diria Spinoza-Marx e não a partir do ter ouvido as tradições da moral judaico-cristã.
Dallas também demonstra não conhecer a Constituição. Sua referência ao artigo 5º é mais uma frustrada tentativa de inversão. “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: (…) IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato.” Como dissemos, pensar é da ordem da razão. Dallas não pensa, já que utilizar a razão e pensar é coisa outra do que apenas exteriorizar um discurso batido de suas mistificações individuais dogmáticas.
Batendo o catolé, Dallas tenta esconder a arma do crime, dizendo que não tem preconceito a homossexuais, que tem amigos homossexuais, que os respeita como cidadãos. Para ele, o problema é que a PLC 122 é um perigo para a formação do cidadão. Que amigos? Que amigo? Além de Dallas confundir suas “amizades” particulares com a res-publica, ele está dizendo diretamente a seus “amigos” homossexuais que eles são meros protótipos de cidadãos, uma vez que, estando à mercê das piadinhas, do preconceito na escola, no trabalho, da perseguição de algum psicopata, eles não estão amparados pelo estatuto da cidadania, o que a PLC tentará restabelecer.
Descoberto em sua camuflagem, Dallas manda balas para todos os lados. “Eu combato as drogas e luto contra a pedofilia. É meu dever de homem público legislar para todos, sem favorecimento para qualquer setor.” Falando em isonomia, Dallas diz que as leis brasileiras são as mesmas para homossexuais, heterossexuais, preto ou branco, bêbado ou prostituta. “Não pode haver uma lei que beneficie apenas um grupo. O Brasil é conhecido por ter liberdade religiosa e respeito a todos”, fecha o cerco. Além de fazer uma confusão de ideias confusas, igual a Bolsonaro, Dallas resvala para o racismo: “preto ou branco”. Dallas não usa a palavra “negro” (raça negra), mas “preto” (cor), o que em si constitui racismo contra os negros. Pelo jeito, Dallas é a favor do mesmo tipo de liberdade religiosa que fez um cristão no século XVI assinar o estatuto da escravidão.
Desesperado, vendo fantasmas por todos os lados, Dallas atira suas balas no próprios fantasmas de sua imaginação, confundindo Estado laico com Estado teocrático, confundindo a Constituição com a Bíblia, e ainda discrimina idosos e deficientes. “O certo”, diz ele, “é que não podemos deixar nenhum setor da sociedade alterar texto da Bíblia por conveniência. Além disso, o projeto traz no seu bojo privilégios que nem idosos e deficientes têm no Brasil.” Quer corrupção maior do que a de um parlamentar que desconhece que o Brasil é um país laico, que aqui se é livre para crer até em fantasmas, como Dallas. Por acaso ter a segurança civil de sua integridade física e mental é algum privilégio? Ou Dallas está querendo dizer que também existe preconceitos a velhos e deficientes nas igrejas?
Finalmente, acreditando que não acertou ninguém, pois apenas atirava em seus próprios fantasmas, Dallas descarrega suas últimas balas no próprio pé, ao dizer que o artigo 16º da PLC 122, em sendo aprovado, faz da própria Bíblia um livro homofóbico, fazendo com que um homossexual que se sinta constrangido, humilhado, intimidado pelos textos sagrados que condenam o “homossexualismo”, podendo até a Bíblia ir presa, quanto mais os padres e pastores, que poderão ir algemados, “presos por policiais como criminosos por não cumprirem a lei”. Dallas não sabe que num Estado verdadeiramente democrático, nenhuma religião pode ferir criminosamente quem quer que seja, seja de forma física, seja emocionalmente, que a religião é uma questão de foro íntimo, e que seus livros não são válidos como universais e jamais poderão se superpor à Constituição. A não ser que o Estado seja apenas um arremedo de democracia: uma fajuta democracia representativa. Uma democracia que permite com que pessoas medrosas como o pastor Dallas sejam alçadas ao direito de legislar em causa própria, de acordo com seus preconceitos fundados no medo e na estupidez.
Para quem acreditar que este intempestivo bloguinho está dando muito cartaz para o filme do truculento Dallas, sabemos que suas balas são de festim hollywoodiano. O que nos importa é analisar o discurso de Dallas, que o mesmo de Bolsonaro, que é o mesmo de tantos outros parlamentares homofóbicos em outros estados. A aprovação da PLC 122, assim como o afastamento de personagens como Dallas da política, em sua acepção grega, podem aproximar cada vez mais o Brasil de um processual realmente democrático. Então, vamos lá, Brasil, rumo ao Mundo Gay!
Leitores Intempestivos