Reverberou em todo o Brasil a covardia de um grupo de policiais da Força Tática da Polícia Militar de Manaus, que torturaram e dispararam três vezes à queima roupa contra um adolescente de 14 anos inofensivo e desarmado no bairro Amazonino Mendes, zona Norte da cidade, na madrugada de 17 de agosto de 2010.
As imagens foram capturadas por uma câmera de segurança de uma residência próxima ao local. É de causar nojo a patologia dos policiais envolvida na tortura e na tentativa de assassinato. O adolescente conta que os policiais, após os três tiros, ainda discutiram na viatura, pois um deles queria que ele fosse levado para o Pronto Socorro 28 de agosto, que fica muito distante do local, “para ele morresse no caminho”, mas prevaleceu a ordem de outro de encaminharem-no ao Pronto Socorro Platão Araújo, situado no mesmo bairro.
O garoto que, milagrosamente, não teve nenhuma área fatal atingida, sobreviveu e 10 dias depois teve alta. Devido ao ocorrido, por medo de represália, a família mudou de bairro, e hoje, com a repercussão do caso, foi enviada a outro estado sob a tutela do Serviço Proteção à Testemunha.
Ontem (23) se reuniram por duas horas o governador do Amazonas, Omar Aziz, o secretário de Segurança Pública do Estado, Zulmar Pimentel, o comandante geral da Polícia Militar (PM), Dan Câmara, e a corregedora geral da Secretaria, Aparecida Gualberto.
O secretário Zulmar anunciou o afastamento dos envolvidos e também o pedido de prisão preventiva dos mesmos.
Segundo a corregedora Aparecida, 13 dias após a ocorrência, o ocorrido foi denunciado ao Ministério Público, que pediu “apuração dos fatos e investigação do caso”, mas que nenhuma resposta recebeu.
A normalidade do fascismo
Não houvessem vindo à tona as imagens, provavelmente nada teria sido feito. É preciso ver que a zona Norte, juntamente com a zona Leste, são os duas maiores zonas da cidade de Manaus, sendo as que têm os maiores bolsões de miséria, e sendo utilizadas como imensos currais eleitorais por políticos corruptos e demagogos há décadas. Ambas as zonas são tidas vulgarmente como “áreas vermelhas”, onde há alta ocorrência de criminalidade.
Uma questão que chamou a atenção deste bloguinho é a naturalidade com a qual pessoas discutem o ocorrido como um tipo de ação corriqueira nessas zonas.
Isso ocorre porque não é uma ocorrência isolada, os policiais não são vistos aqui como funcionários públicos. Tal qual ocorre em todo o Brasil, acabam por ser tidos como indivíduos acima das leis, podendo atuar como “justiceiros”. Para dar um exemplo dessa subjetividade perversa, um professor relatou a este bloguinho que somente no início dessa semana teve de intervir em duas contendas de dois adolescentes que, para se fazerem temer de alguma forma, diziam que seus pais eram policiais.
Mais do que isso, não se compreende como que pessoas como a família Souza acabaram, de dentro do poder Legislativo, comandar o crime organizado em Manaus, e fazendo uso da Inteligência da Polícia Militar para isso.
Dessa forma, a questão da covardia desse grupo de policiais não deve ser vista como um caso isolado, mas deve ser debatido profundamente pela sociedade e não se pode acreditar que a questão possa ser resolvida no âmbito estadual, mas deve envolver a presença substantiva da Secretaria de Direitos Humanos, que tem hoje por presidenta a íntegra e eficiente ministra Maria do Rosário.
Aquela generalização da criminalidade é muitas vezes consubstanciada pela própria mídia. Nunca nos esquecemos da manchete em que um jornal de grande circulação – se é que isso existe em Manaus – onde aparecia um rapaz na primeira página com uma camisa amarrada em forma de máscara e em cima a uma manchete indicando a expansão da violência na cidade: “Violência deixa a zona Leste.” Que violentação!
Para modificar essa subjetividade, todos devem se envolver em um debate amplo nas escolas, nos terreiros, nas igrejas, associações, movimentos sociais, etc. Para começar, até para que não se generalize também a violência policial, não se pode tomar o fascismo, a covardia, a perversidade, a patologia como naturais. Como disse Brecht: “Numa sociedade que se desumaniza, nunca diga: Isso é natural.”
Leitores Intempestivos