Lévi-Strauss, o totem da bricolage estruturalista

Claude Lévi-Strauss

Je hais les voyages et les explorateurs. Et voici que je m’apprête à raconter mes expéditions.

Assim o etnólogo belga Claude Lévi-Strauss inicia o livro Tristes Tropiques, onde conta sua viagem ao Brasil e sua missão importante: criar a Universidade de São Paulo, onde lecionou de 1934 a 1938, além de participar de várias expedições, dentre elas a principal organizada por Castro Faria. O fato de odiar as viagens e os exploradores fez dele um grande etnólogo enciclopedista. As grandes bibliotecas, onde ele passava a maior parte do tempo era muito mais que um território repleto de livros, conceitos e definições, mas o lugar onde o estruturalismo foi territorializado com força total. A amizade com Roman Jakobson foi fundamental para o desenvolvimento do daquilo que naquele momento histórico era uma revolução: o pensamento selvagem não é uma determinação utilitarista, quebrando com o utilitarismo até então levado a sério pelos que acreditavam em Malinowski. Os nativos tem suas teorias. Vemos aqui a gênese do badalado perspectivismo ameríndio, de Eduardo Viveiros de Castro.

Porém o projeto levi-straussiano é muito mais ambicioso. Ele segue a linha da escola Sociológica Francesa, com Durkheim, mas principalmente com Marcel Mauss, define o princípio fundamental da humanidade: a estrutura do pensamento, tentando criar uma teoria do conhecimento. “Os limites das estruturas elementares encontra-se nas possibilidades biológicas”, ele diz em seu livro As estruturas elementares do parentesco, trazendo ao primeiro plano as questões levantadas no século XVIII pelos cientistas, dentre eles o médico Gabriel Itard em seu livro Rapports et mémoires sur le sauvage de l’Aveyron, sobre o caso do garoto selvagem que desiludia os cidadãos parisienses ao colocar em risco a condição da civilização. E quem gosta de cinema pode aproveitar para assistir a performance de François Truffaut como Gabriel Itard no seu cinema L’enfant Sauvage, onde ele coloca essas questões a partir da leitura das memórias de Itard.

clstrauss

E falando nisso, o livro As estruturas elementares do parentesco foi dedicado a Lewis H. Morgan, considerado por Lévi-Strauss um importante executor do projeto do estudo do parentesco. O método estruturalista na antropologia feita por Lévi-Strauss é uma tentativa de entendimento da mente humana, cientificamente (porque na sua opinião somente a linguistica poderia servir a esse propósito científico) o levou a atualizar a definição de estrutura. Demarcando muito bem a diferença entre a estrutura da escola estrutural-funcionalismo. A estrutura de Lévi-Straus possui elementos universais – a priori – que compõem a mente humana, formados independentemente do tempo/história que estruturam o pensamento humano. Daí o grande combate entre Sartre e Lévi-Strauss sobre o abandono da História, pois durante parte de sua obra, Lévi-Strauss dedicou-se no embate à História como motor da sociedade. A ausência de documentos históricos e a arbitrariedade dos relatos antigos não eram considerados entraves para quem tinha como objetivo chegar às estruturas inconscientes e universais da mente humana. De certa forma, dando continuidade ao projeto kantiano, Lévi-Strauss propõe propõe uma empresa na qual não vê possibilidades de introduzir um trabalho de investigação histórica, além disso “o etnólogo respeita a história, mas não lhe dá um valor privilegiado”, pois de certa forma a estrutural mental da humanidade é a mesma não importando as diferenças entre os povos.

Um mundo dualista que funciona através da troca

O Ensaio Sobre o Dom, de Marcel Mauss é a grande inspiração para Lévi-Strauss produzir As estruturas elementares do parentesco. O princípio da reciprocidade é um dos componentes do conjunto da troca, na qual suas leis se estendem aos objetos, bens e mulheres. É ele que inaugura a civilização (também dando continuidade ao projeto evolucionista de Morgan, porém com um maior refinamento). A troca é comunicação. Lévi-Strauss quer mostrar que a troca não é apenas uma característica primordial de sociedades primitivas, mas evidente em diversas instancias das sociedades contemporâneas. O Dom se encontra nos convites, festas e presentes, nas trocas matrimoniais desde tempos remotos até os dias de hoje. Afinal, o casamento representa uma abertura ou desenvolvimento do ciclo de trocas.

A proibição do incesto inaugura a passagem da natureza para a cultura e a inclusão das mulheres nesse circuito de troca confirma o caráter de fato social total, pois inclui os aspectos sexual, econômico, jurídico, social do sistema que constitui o casamento. Princípio de reciprocidade, não de comércio.

No texto Introdução à obra de Marcel Mauss, que encontramos no livro Sociologia e Antropologia, Lévi-Strauss não cansa de tecer elogios ao que ele chama de a obra-prima de Marcel Mauss, quando demonstra o fato social total e o social como realidade. Mauss deixou o caminho aberto para futuras incrementações do trabalho, deixando um rastro do que Lévi-Strauss desenvolveu como Sistema Simbólico. É evidente que Mauss buscava ligações com outras ciências e Lévi-Strauss aproveitou o fato para trazer a lingüística e até mesmo a matemática, estruturalizando do Ensaio sobre o Dom. Ele tem razão em admitir o esforço de Mauss em transcender o empírico, transformando o Ensaio num estudo aprofundado e propondo uma teoria, porém há um exagero em forçar Mauss a chegar na estruturas do inconsciente. Assim como “Moisés” conduziu seu povo à terra prometida e não pôde desfrutar do paraíso, Mauss abriu as portas para o sistema simbólico. Assim Lévi-Strauss captura o Dom e o introduz no mundo do Sistema Simbólico estruturalista, e o hau perde sua importância dando lugar ao mana, que seria agora levado ao caráter relacional do pensamento simbólico. A estrutura Dar, Receber, Retribuir sai do plano empírico e se transforma num exercício do pensamento simbólico. O mana agora é um significante flutuante. Lévi-Strauss esvaziou o inconsciente e incorporou ao Ensaio àquilo que Deleuze e Guattari, no Anti-Édipo, chamam de imperialismo do significante, um despotismo que esvaziou a rede de complexidade do socius. Uma busca desenfreada de um cientificismo para justificar postulados de suas abstrações. O Ensaio foi tirado do plano da práxis e levado ao plano da abstração quando o Dom foi submetido à leis e forçado ao salto do estado de selvageria à civilização.

Lévi-Strauss viu que Polinésia, Melanésia, noroeste americano, as sociedade indo-européias tinham algo em comum: estruturas com uma teoria sobra a dádiva cercando-as, sustentando-as, assim como também são encontradas nas sociedades atuais. O potlatch é um contrato arraigado e profundo, constatou Mauss; o potlatch é uma estrutura que perpassa todas as sociedades, completa Lévi-Strauss. A obrigação da dívida se funda no caráter inconsciente e universal da troca, seja matrimonial ou qualquer outra instituição.

O espetáculo da cura

Outra questão que muitos levaram a sério foi a análise da crença, um sistema com três aspectos complementares: crença do feiticeiro em suas técnicas; a crença do doente no feiticeiro; a crença coletiva nesse sistema. A psicologia do feiticeiro é simples e depende da tripla experiência dos envolvidos: a experiência de estados específicos na psicossomática do xamã; a do doente que experimenta ou não a cura; e a experiência do público também faz parte da cura, comprovando a participação coletiva do grupo. A diferença da técnica ocidental é que aqui o papel do doente não ocupa destaque no sistema. A questão fundamental é a relação entre o indivíduo e o grupo. O rito de cura Lévi-Strauss chama de espetáculo do chamado da crise inicial que causou a doença. O xamã revive o acontecimento em toda sua vivacidade, originalidade e violência, para em seguida retornar ao normal. Empresta o termo psicanalítico da ab-reação, para afirmar que o xamã é um ab-reator profissional, com a diferença de papéis. Na sessão psicanalítica é o paciente que ab-reage, a cura consiste em tornar pensável uma situação do plano coletivo, um evento aceitável ao espírito, mas que o corpo não tolera. No caso do complexo xamanístico, a ab-reação se torna uma ad-reação, pois o psicanalista escuta enquanto o xamã fala. A eficácia simbólica torna possível a harmonia do sistema: o xamã fornece o mito e o doente executa as operações. É uma espécie de “propriedade indutora” que possui estruturas formalmente homólogas que se edificam nos processos orgânicos, psiquismo inconsciente e pensamento refletido.

Na associação entre xamanismo e psicanálise, Lévi-Strauss enfatiza a noção de mito e a noção de inconsciente, como a relação das duas fornece mecanismos para a cura neste complexo. As leis de estrutura são intemporais e formam o conjunto do inconsciente. O inconsciente lévi-straussiano foge à particularidade do tão negligenciado inconsciente freudiano: de refúgio ou depositário das questões individuais, de uma história única, pessoal e insubstituível. A função simbólica do inconsciente estruturalista se compõe dessas leis universais da estrutura. O mundo do simbolismo é diverso por seu conteúdo, mas limitado por suas leis, por isso Lévi-Strauss se empenha no estudo da forma e não do conteúdo.

Mito, linguagem, música

Partindo do pressuposto de que o mito é linguagem e é impossível de se compreendê-lo como uma sequência contínua, Lévi-Strauss estabelece duas características básicas dos mitos: a primeira é que o mito é formado por unidades constitutivas; a segunda, é que essas unidades implicam na presença das mesma unidades básicas da língua (fonemas, morfemas e semantemas).

Mas havia uma questão: como ele poderia reconhecer e isolar as unidades constitutivas dos mitos ou mitemas? A resposta leva a uma investigação no nível da oração, uma análise estrutural. “Todas as unidades constitutivas consistem em relações”. A partir daí, ele impôs que essas relações não estavam isoladas, mas constituíam um feixe de relações que combinados entre si adquiriam uma função significante. A análise estrutural consiste em ordenar todas as variantes do mito conhecidas numa série, formando um grupo de permutações, na qual as variantes extremas formam uma estrutura simétrica e inversa.

A música e o mito se originaram na linguagem e tomaram direções diferentes: na construção fonema-palavra-frase que existe na linguagem, em música não existe o equivalente à palavra, o que seria nota-frase musical; no mito o que prevalece é o sentido. Ao tentar entender a relação entre linguagem, mito e música é preciso utilizar a linguagem como ponto de partida.

A música se destaca pelo som e o mito pelo sentido, por isso, o mito deve ser estudado como se estuda uma sinfonia. Para uma análise do mito, a linguística e na música são complementares, pois a música possui um alto grau de organização tão profundo que cria uma espécie de parentesco com a linguagem. O mito e a música “são máquinas de suprimir o tempo”, por essa razão superam a oposição de um tempo histórico e findo entre uma estrutura permanente. Assim como uma obra musical, o mito possui um aspecto externo, constituído por um conjunto de acontecimentos históricos que cada sociedade utiliza para formar as várias versões dos mitos; e um aspecto interno, que envolve o caráter psicofisiológico, tais como as ondas cerebrais, ritmos orgânicos, memória, atenção. Eis que seu grande projeto ganha uma sofisticação maior: a imposição do modelo musical para refinar a análise do mito, iniciada com a linguística. Mito, música e linguagem são três elementos com origens comuns e possuem papéis complementares, a música pega “pelas entranhas”, o mito pelo grupo.

A tarefa estruturalista

Ainda hoje há pessoas que absorvem o código despótico do estruturalismo e se assumem como pesquisadores das estruturas elementares, seja de maneira refinada e pós-moderna, seja démodé (ainda procurando os mitemas em todos os lugares). “O estruturalista tem por tarefa identificar e isolar os níveis de realidade que têm um valor estratégico do ponto de vista em que ele se coloca, ou, em outras palavras, que podem ser representados sob forma de modelos, qualquer que sejam a natureza destes últimos”. Lévi-Strauss deixou esse mundo que acreditava dualista, binário no último sábado. Ele foi um grande bricoleur que inventou e sistematizou o mundo de tal maneira que seus modelos ainda fascinam os que optam pelas facilidades da estrutura e respondem às leis universais.

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